Jeanne Moureau (escolhida pela própria escritora) dá vida a
Marguerite Duras em "Cet Amour-Lá" de Josée Dayan (2001).
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Sei o som dos passos
com que regressas a casa.
No quarto virado a norte,
a prevenir-nos de todos os invernos,
aguardo que prolongues em mim
a tua sombra intacta.
De frutos doces me enfeito.
Uma luz quase clandestina
inunda minhas margens
e deixa-me um rio no vinco da cintura.
O teu desejo terrivelmente puro!
Graça Pires in " O silêncio: lugar habitado", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 28.
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deixarei as luzes acesas
para que saibas o caminho
de regresso ao meu corpo,
não, não tragas a alma,
animal sempre volátil,
perfume fútil.
sacrifica antes uma onda
antes da noite,
um milagre para migrar
com outras aves daninhas,
vem, dá-me o fruto e a semente,
aquele lugar no corpo
onde a fonte cresce ao ar
e a nudez se faz mais pura.
João de Mancelos in "Línguas de Fogo", MinervaCoimbra,
Coimbra, 2001, p 50.
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O meu compromisso não é com a memória
com os pedaços de pele
que deixei na boca dos cães
com a inquietação das ondas
que me temperaram de sal e tempestade
O meu compromisso não é com o riso
nem com os gritos nem com as lágrimas
O meu compromisso não é com os olhares
com os murmúrios com o vento
O meu compromisso não é contigo
por mais que eu te ame
e sejas o voo da minha liberdade
O meu compromisso místico e solene
é com o corpo exacto fugidio sedutor
equívoco imperativo do não dito
O meu compromisso
é com as palavras.
Rosa Lobato de Faria In "Poemas Escolhidos e Dispersos", Roma Editora,
Lisboa, 1997, p 78.
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"prece do mareante à estrela aldebaran"
aldebaran, ilha de luz,
peixe voador à entrada da noite,
bendita sejas entre as aves incendiadas
e abençoado o naufrágio do teu lume.
como o sal foi feito para os lábios,
como o oceano teme a terra,
como um rio regressa à estrela,
é dentro de ti, aldebaran,
que eu atravesso o fim da noite.
e cego, cego de tanto mar,
eu, ulisses, adormeço,
uma gaivota morta em pleno voo,
o teu nome entrelaçado
nos meus dedos, aldebaran,
sonhando ilhas por dizer.
João de Mancelos in "Línguas de Fogo", MinervaCoimbra, Coimbra, 2001, p 28.
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Aqui, olhando as pessoas ao acaso,
vêm-me à lembrança aqueles dias
em que os nossos olhos se ajustavam
e tu lias, em voz alta, os autores
da nossa preferência.
Recordo isto, como um tempo
em que os pássaros vinham,
em grandes círculos, sobrevoar
a imprevisível alegria,
tecida por nossas mãos,
para iluminar, sobre a mesa,
as flores tardias de maio.
Graça Pires In "O silêncio: lugar habitado", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 11.
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Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Bocage In "Poesias", Círculo dos Leitores, s/c, s/d, p 98.
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Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!
Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera da maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
Clamam todos à uma: "Agôra! agôra! agôra!"
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:
Senhora Nagonia!
Olha, acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!
Senhora Daguarda!
(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!
Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Calluda!
Sêmos probes!
Senhor dos ramos!
Istrella do mar!
Cá bamos.
Parecem Nossa Senhora, a andar.
Senhora da Luz!
Parece o Farol...
Maim de Jesus!
É tal-qual ela, se lhe dá o Sol!
Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!
Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...
Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matuzinhos!
Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vascos da Gama, que andam a ensaiar...
Senhora dos aflitos!
Martyr São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Bamos em paz!
Ó lanchas, Deus nos leve pela mão!
Ide em paz!
Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes
"As armas e os varões assinalados..."
Lá vai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira...
Como ela corre! com que força o Vento a impele:
Bamos com Deus!
Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...
Adeus! adeus! adeus!
António Nobre In "Só", Publicações D. Quixote, 2009, pp 35 - 37.
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Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a noite é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.
Rosa Lobato de Faria In " Poemas Escolhidos e Dispersos",
Roma Editora, Lisboa, 1997, p 27.
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ATÉ BREVE !!!
(Durante dois anos habitámos o mesmo prédio. Aquele no topo da rua. Agora com a fachada já esfacelada. Eu e a Ana alugaramos o quarto andar, ela vivia num outro, mais abaixo. Depois os anos passaram... Reencontrei-a através de uma amiga comum, já ela era enorme, apesar da muita inveja que a cercava. Houve episódios originais, como aquele em que eu troquei um livro e, passados dias, o telefone tocou:
- Ó Victor Mateus...
- Como está R.?
- É só para lhe dizer que não me chamo Júlio Cunha!
- Ah, troquei os livros! - Ria eu - R., faça-me um favor: leve o livro para o seu lançamento e trocamos lá... - Creio que o meu ar desajeitado e perdido a desarmava. Gostava dela... sem precisar de lhe falar de uma antiga vizinhança.)
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O cinema de Christian Faure. Tendo no currículo mais de duas
dezenas de películas, Faure resolveu abordar em "Juste une question
d'amour" (2000) a forma diferenciada como duas famílias distintas
encaram uma mesma situação: de um lado Emma e Cédric vivem
saudavelmente, do outro, em Valincourt, outra família divide-se
entre a culpa e os antidepressivos.
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"Made in China: um instântaneo de Macau"
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Escarnho: a inabalável harmonia do diverso
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Quanta incerta esperança, quanto engano!
Quanto viver de falsos pensamentos,
pois todos vão fazer seus fundamentos
só no mesmo em que está seu próprio dano!
Na incerta vida estribam de um humano;
dão crédito a palavras que são ventos;
choram depois as horas e os momentos
que riram com mais gosto em todo o ano.
Não haja em aparências confianças;
entende que o viver é de emprestado;
que o de que vive o mundo são mudanças.
Mudai, pois, o sentido e o cuidado,
somente amando aquelas esperanças
que duram pera sempre com o amado.
Luís de Camões in "Lírica Completa - Vol. II",
Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 1980, p 275.
Notas de Maria de Lurdes Saraiva:
"v.5 - Os falsos fundamentos e pensamentos alicerçam-se todos no precário valor que é a vida humana.
v.1o- Segundo a concepção cristã, a vida terrena é um momento transitório, emprestado por Deus.
v.11- que aquilo de que o mundo vive são apenas mudanças, isto é: no mundo não há nada de permanente.
v.14 - amado - o esperado. Na Lírica de Camões, as esperanças ligam-se sempre a um objecto de amor, e são cortadas quando o amor cessa. Isso explica a síntese dos dois últimos versos."
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"Vestígios"
Foram-te os anos consumindo aquela
Beleza outrora viva e hoje perdida...
Porém teu rosto da passada vida
Inda uns vestígios trémulos revela.
Assim, dos rudes furacões batida,
Velha, exposta aos furores da procela,
Uma árvore de pé, serena e bela,
Inda se ostenta, na floresta erguida.
Raivoso o raio a lasca, e a estala, e a fende...
Racha-lhe o tronco anoso... Mas, em cima,
Verde folhagem triunfal se estende.
Mal segura no chão, vacila... Embora!
Inda os ninhos conserva, e se reanima
Ao chilrear dos pássaros de outrora...
Olavo Bilac In "Poesias", Editora Martin Claret,
São Paulo, 2002, p 71.
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A beleza em cada ser é uma alegria eterna"
A beleza em cada ser é uma alegria eterna:
o seu encanto não se extingue, nunca se há-de perder
no nada; reservar-nos-á um refúgio
de paz, onde adormeceremos, habitados por sonhos
suaves, uma íntima plenitude, uma respiração branda.
Comecemos, assim, a tecer em cada manhã
uma grinalda de flores para nos unirmos à terra,
apesar do desalento, da ausência daqueles
cuja nobreza amávamos, dos dias cheios de escuridão,
dos caminhos insalubres e misteriosos,
abertos para os nossos anseios; sim, apesar de tudo,
uma forma de beleza afasta o sudário
das nossas almas sombrias. Assim é o sol, a lua,
as antigas ou recentes árvores que fazem germinar
a sombra sobre os humildes rebanhos; os narcisos
e o mundo verdejante que os cerca; e os límpidos rios
que criam para si mesmos um docel de frescura
durante as estações ardentes; os silvados do bosque
enriquecidos pelo belo, nascente esplendor das rosas;
e, também, a magnificência do destino
que imaginamos para os mortos poderosos;
e as histórias encantadoras que lemos ou escutamos:
fonte inesgotável duma imortal bebida,
que vem do céu e para nós se derrama.
E não é apenas durante algumas horas breves
que ficamos presos a estas essências; assim as árvores
murmurando à volta dum templo logo se tornam
tão amadas como o próprio templo; assim a lua
e a paixão da poesia, glórias infinitas, tantas vezes
nos assombram, até serem uma luz vivificadora
para a alma, e tão estreitamente nos cingem
que, fique a brilhar o sol ou se apaguem os céus,
para sempre hão-de existir em nós, ou morreremos.
John Keats In "Poesia Romântica Inglesa (Byron, Shelley, Keats)",
Editorial Inova, Porto, 1977, pp 79-80 (Tradução de Fernando Guimarães).
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John Keats (31/10/1795 - 23/2/ 1821)
"Bright Star"
Bright star, would I were stedfast as thou art -
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors -
No - yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever - or else swoon to death.
John Keats
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"Noite de chuva e alguma tristeza"
Não quero ouvir mais vozes
E são tantas as que me falam
Onde está o silêncio?
Esse túnel de ar fresco
Em queda livre
Que ele caia sobre mim
Que me cubra
Num manto espesso de solidão
Que organize a fuga de mim mesmo
Para que não volte mais
Aprisiono a quietude
No meu corpo de mármore branco
Talhado a golpes de picareta
Vem, tu não sabes
Mas eu já calei
Todas as vozes
Maico In "As Primeiras Horas", Chiado Editora, s/c, 2009, p 13.
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"Neste escuro país"
Neste país da noite,
Meu tormento
Como um cavalo em chamas,
Como um potro
Lacerado de espinhos.
Neste país do escuro,
Nesta pátria
De fúrias rodilhadas,
Meu silêncio
Como o beijo dos mortos,
Como o frio
Roçar do lábio ausente.
Neste incerto pedaço,
Onde tudo
Se faz possível,
O sortilégio
Tece sombras no escuro.
Morcegos degolados
Contra um muro
De frio e vento e medo
E danação.
Myriam Fraga In "Poesia Reunida", Academia de Letras da Bahia,
Salvador, 2008, p 290.
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Iris Murdoch (Dublin, 15/7/1919 - Oxford, 8/2/1999). Casada, em 1956, com o Professor e crítico John Bayley, a filósofa e romancista irlandesa, ao longo da sua obra literária desenvolve sempre uma noção de família que não passa necessariamente pela consanguinidade... embora, como é evidente, a inclua, mas não se restringindo a ela. Essa posição é muito clara em "O cavaleiro verde", onde o termo é atribuído a um grupo cujos membros se ligam entre si... pelos afectos.
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Vita Sackville-West (9/3/1892 - 2/6/1962), filha do 3º Barão de Sackville, casou
com Harold Nicolson. O filho de ambos, Nigel Nicolson, viria a escrever o célebre
"Portrait of a marriage" do qual se adaptou uma série, e que retrata a vida afectiva
do casal, assim como a relação de Vita com a romancista Violet Trefusis (filha de
Alice Keppel, "amiga" de Eduardo VII). Virginia Woolf viria a imortalizar Violet
na personagem de Sasha do seu "Orlando". Sem pretender entrar em polémicas,
e sabendo da importância que Virgínia Woolf teve para o desenvolvimento da
narrativa contemporânea, talvez não fosse desinteressante ver o modo como Vita
lê por dentro as suas personagens... Uma mera sugestão!
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"Miragem"
para Olga Savary
Chegou, impressentida e silenciosa,
com uma saudade eslava nos cabelos
e um ritmo de crepúsculo ou de rosa.
Os olhos eram suaves, e eis que ao vê-los,
outra paisagem, fluida, na distância,
sugeria doçuras e desvelos.
No coração, agora já sem ânsia,
paira a serenidade comovida
que lembra os puros cânticos da infância.
Logo depois se foi, mas refletida
nesse espelho interior, onde as imagens
se libertam do tempo, além da vida,
Olenka permanece, entre miragens.
(Rio de Janeiro, 1955)
Carlos Drummond de Andrade (Inédito)
Nota - em quatro linhas de rodapé, escritas pelo próprio punho,
Olga Savary esclarece-me alguns aspectos deste texto, dos quais
apenas um interessa agora: Olenka é um diminutivo eslavo; alusão
ao facto dos avós da poeta serem de origem russa.
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"Canastrinha de Odeleite"
O cesteiro de Odeleite estava a acabar
uma cestinha de cana:
fiquei à espera
que a rematasse
a contemplar seus gestos precisos
firmes e eficazes
Quem me dera fazer assim
os meus versos!
Decidi: "É para a fruta
respirar bem". E comprei.
A cana ainda está meia
verde
quase ressuma seiva
e eu
trago para casa não só a vasilha para
os pêssegos que vou apanhar na minha
horta
mas também a tépida frescura da ribeira de Odeleite
suas densas águas mansas
leite de rãs e aloendros
e também o ramalhar
do canavial ainda verde
a dar de vaia
a algumas cobrinhas de água que por ali estejam
na conversa.
Cacela, 7/9/2000.
Teresa Rita Lopes (Inédito)
Nota - não consegui, informaticamente, manter o espacejamento
tal como a Professora Teresa Rita Lopes tem no seu manuscrito,
mesmo assim resolvi correr o risco... Há escritas às quais não resisto!
Aconselho também o delicioso conto de Teresa Rita Lopes na Antologia
"um rio de contos"... soberbo!
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"Branco"
Não queiras saber o que é o branco para
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
levou, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que cresce no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.
(Porto, 20/10/2004)
Nuno Júdice (Inédito)
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Cidade de Port-au-Prince.
"Poema sobre o desastre de Lisboa" (excerto)
Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
Exercício eterno que inúteis dores mantém!
Filósofos iludidos que bradais: "Tudo está bem",
Acorrei, contemplai estas ruínas malfadadas,
Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas,
estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados,
estes membros dispersos sob estes mármores quebrados .
Cem mil desafortunados que a terra devora,
Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora
Enterrados com seus tectos, terminam sem assistência
No horror dos tormentos sua lamentosa existência,
Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes.
Ao espectáculo medonho de suas cinzas fumegantes,
Direis vós: "Eis das eternas leis o cumprimento,
Que de um Deus livre e bom requer o discernimento?"
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
"Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes?"
Que crime, que falta cometeram estes infantes
Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?
Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios
Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?
Lisboa está arruinada, e dança-se em Paris.
Voltaire In "Poème sur le désastre de Lisbonne"
(Nota - Neste enorme poema sobre o terramoto de Lisboa de 1755,
assim como em outras obras suas, o alvo preferencial de Voltaire
era, não a fé em Deus, mas a crença num Deus tal como vinha sendo
propagada por Leibniz e seus epígonos. A questão do Mal esteve sempre
muito clara na cabeça de Voltaire, que, ao contrário de outros filósofos
do século XVIII francês, nunca foi ateu, nem sequer agnóstico.)
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"Intermezzo"
Do cais, partiram os navios
onde eu quis ir sempre,
e nunca fui...
No jardim, morreram as flores
que o meu olhar só beijou
através das grades brancas...
E pelos caminhos,
passaram por mim,
sem olharem para trás uma só vez,
todos os que tinham pressa de chegar...
Só eu fui devagar...
cada vez mais devagar
quanto mais perto estava.
A desejar, as flores que morriam
por detrás das grades brancas...
os navios que partiam
envolvidos na bruma,
e os caminhos, nunca percorridos...
Só eu fui devagar...
(Lisboa, 1948)
Alda Lara In "Poemas", Vertente, Porto, s/d, p 69.
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"Mors"-Amor
Esse negro corcel, cujas passadas,
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
De noite nas fantásticas estradas.
Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?
Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a Morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"
Antero de Quental In "Sonetos Completos", Publicações
Europa-América, Mem Martins, s/d., 108.
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"O Palácio da Ventura"
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos portas d'ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
Antero de Quental In "Sonetos Completos", Publicações
Europa-América, Mem Martins, s/d., p 70.
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"Taciturno"
Há oiro marchetado em mim, a pedras raras,
Oiro sinistro em sons de bronzes medievais -
Jóia profunda a minha alma a luzes caras,
Cibório triangular de ritos infernais.
No meu mundo interior cerraram-se armaduras,
Capacetes de ferro esmagaram Princesas.
Toda uma estirpe real de heróis d'Outras bravuras
Em Mim se despojou dos seus brasões e presas.
Heráldicas-luar sobre ímpetos de rubro,
Humilhações a lis, desforços de brocado;
Basílicas de tédio, arneses de crispado,
Insígnias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro...
A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido
Enferrujou - embalde a tentarão descer...
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer -
Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido...
Percorro-me em salões sem janelas nem portas,
Longas salas de trono a espessas densidades,
Onde os panos de Arrás são esgarçadas saudades,
E os divans, em redor, ânsias lassas, absortas...
Há roxos fins d'Império em meu renunciar -
Caprichos de cetim do meu desdém Astral...
Há exéquias de heróis na minha dor feudal -
E os meus remorsos são terraços sobre o Mar ...
Mário de Sá-Carneiro In "Poemas Completos", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2005, pp 80 - 81.
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O romance "Maurice" de Forster foi escrito entre 1913 e 1914. Revisto, pela última vez, em 1960, só foi publicado em 1971 - cerca de ano e meio a seguir à morte do escritor. Após a sua publicação o livro foi imediatamente atacado pela crítica, sobretudo por causa do seu final feliz. O que a crítica não sabia é que Forster se tinha baseado num caso verídico: o do académico Edward Carpenter que havia abandonado a alta-sociedade e a sua Cambridge para viver com...
Esta obra foi adaptada ao cinema em 1987, por James Ivory, com um elenco de primeira: James Wilby (Maurice), Hugh Grant (Clive), Rupert Graves (Alec Scudder) e Ben Kingsley (Larker-Jones).
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"A room with a view": romance de Forster datado de 1905 e adaptado ao cinema por James Ivory em 1985, tendo como intérpretes: Helena Bonham Carter (Lucy), Julian Sands (George) e Maggie Smith (Charlotte Barlett)
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Nota - A Profª Teresa Bracinha Vieira assina a sua obra literária como: Teresa Vieira, daí a minha opção no final deste texto.
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"Cintilações"
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Um dia espreitei Alexandre o Grande. Ele sabia do seu posto de vigia
que mundos eu espreitava e que ele unira como uma tribo que em
comum afinal possuía a religiosidade.
Um dia espreitei Alexandre o Grande e senti o quanto ele se separou
dos seres intermédios na busca do significado armilar dos mundos
com vocação de abraço.
Um dia espreitei Alexandre o Grande e entendi um especial
significado sagrado e simbólico de matar para entreabrir portas
como quem oferece o beijo quente do êxtase inaugural de um conhecer.
Um dia espreitei Alexandre o Grande e toquei o início dos caminhos
dos grandes sistemas que explicam o que se prescreve e se permite e o
quanto a história nos fala também num tom piedoso e repreensivo
como quem nos diz que afinal, um dia, não se pode evitar fazer de
outra maneira e só na caça cumprimos os vestígiosdo nascimento do
homem, sempre que o homem não mate apenas para obter a presa.
Um dia espreitei Alexandre o Grande e ciumei o seu perceptor
Aristóteles e a sua Macedónia e o seu ímpeto de unir impérios e
fundar Alexandria onde hoje procuro uma vez mais o Livro.
Um dia espreitei Alexandre o Grande aquele que expandiu o
helenismo também rumo ao Oriente, aquele que erigiu Bucéfala no
actual Paquistão, em memória do seu fidelíssimo cavalo que se
assustava com a própria sombra e se deixou domar contra o Sol:
cintilações.
Um dia espreitei e escutei Alexandre o Grande através do Somewhere
in Time, disco da banda inglesa Iron Maiden e creio ter intuído o
Helesponto, a actual Dardanelos, estreito na vida de cada um com o
grande passo por dar.
Um dia, eu quero espreitar cada um a desembainhar a espada com a
qual cortará o nó górdio que impede a revelação das múltiplas
verdades, esse que impede a alma do ofício do entendimento, e sem
nunca revelar o mistério completo, eu quero espreitar a grande
nobreza a prometer-se de novo no Ano que chega, a despedir-se do
ano que finda e a cumprir-se na notícia do tempo que todos os seres
vivos têm a mudança.
Um dia espreitei Alexandre o Grande e soube disso na caça de uma
palavra explicativa do... Que sabias realmente?
Teresa Vieira (Inédito, 27/12/2009)
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Siempre que a mí regressas indefenso te recibo y, sin temor
ni artíficio, indefenso me disipo en la tentación por nosotros
construida. Pero hay tentaciones así... Que nos devoran.
Que nos devoran y purifican de la ferocidad diaria,
de los mitos que nos anuncian y no compramos,
porque tentación más vil que la nuestra. Siempre que a mí
regresas - como rosa o zanga o herida abierta - una marea
de alegría me retoma, me sumerge y vuelve más pequeño sin saber
cómo ni por qué. Grandes son los alrededores entre los instantes
de tus llegadas y la eternidad que en ellas inscribimos.
Grande la felicidad si tardas y yo más allá
de las trampas de la noche, más allá del estruendo de las olas
contra las rocas, de los estallidos del suelo bajo nuestros
pies desnudos, del jadear de nuestros cuerpos ya saciados, olvido
mi boca pegada a tu piel, como joya deslumbrante recogiendo
el manto de la más bella reina del Mediterráneo.
Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 17. Tradução da Professora e Poeta espanhola Marta López Vilar.
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Aqui: www.laberintodepapel.blogspot.com
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"Retrato Final"
a inconstância do mundo apavora
o corpo que se move lento
respira sem profundidade
numa desordem possível
: os cálculos imperfeitos
retalhos de uma vida deserta
espalhados na colcha da cama fria
combinação exata com a falta de leveza
das cores prediletas
vermelhas, amarelas, culpadas
Leila Andrade (Inédito)
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"De Deserto e Sombras"
Uma pedra íntima desvia
o meu grito de desgosto
interpretado sob medida
em um coração deveras
largo
e não se ajusta
à calma:
meus cantos todos calados
uma homenagem ao silêncio
senhor de todo caminho
deserto.
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Leila Andrade (Inédito)
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Nota - Leila Andrade é graduada em Letras Vernáculas (UFBA)
e em Comunicação Social (Faculdade Hélio Rocha - Salvadador, BA).
É fotógrafa, poetisa e, juntamente com Fabrício Brandão, vem dirigindo
a Revista Cultural Electrónica "Diversos Afins".
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Tomasi di Lampedusa "lido" por Luchino Visconti. Intérpretes: Burt Lencaster,
Cláudia Cardinale e Alain Delon.
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Giuseppe Tomasi Di Lampedusa, Duque de Palma e Príncipe de Lampedusa, (Palermo, 1896 - Roma, 1957). A sua obra-prima, "O Leopardo", publicada um ano e meio depois da sua morte, permaneceu inédita durante muito tempo, recusada por muitos editores, mas quando por fim foi publicada, foi imediatamente reconhecida como uma das grandes obras literárias do século XX.
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"Depois, pelo contrário, teremos a liberdade, a segurança, impostos mais leves, a facilidade, o comércio. Todos estaremos melhor: só os padres perderão alguma coisa. O Senhor protege os pobres como eu, não a eles." Dom Fabriizio sorria (...)"Vai haver dias de tiroteio e de confusão, mas a Villa Salina será segura como uma fortaleza; Vossa Excelência é o nossos pai, e eu tenho aqui muitos amigos. Os piemonteses só entrarão de chapéu na mão para cumprimentar Vossas Excelências. E ainda por cima o tio e tutor de Dom Tancredi!" O príncipe sentiu-se humilhado: agora via-se degradado à categoria de protegido dos amigos de Russo; o seu único mérito, ao que parecia, era ser tio daquele ranhoso do Tancredi.(...) "Tudo será melhor, acredite, Excelência. Que se apresentem os homens hábeis e honestos. O resto será como antes." Esta gente, estes liberalzecos de aldeia só queriam arranjar maneira de se aproveitarem. Ponto final.(...)"Talvez sejas tu quem tem razão. Quem sabe?" Agora é que penetrara em todos os sentidos secretos: as palavras enigmáticas de Tancredi(...).Iriam acontecer muitas coisas, mas seria tudo uma comédia, uma ruidosa e romântica comédia com uma ou outra mancha de sangue no traje do bobo. Esta era a terra dos acomodamentos, não tinha a fúria francesa(...) Apeteceu-lhe dizê-lo a Russo, mas reteve-o a sua inata cortesia: "Entendi muito bem: vós não quereis destruiri-nos a nós, os vossos "pais"; só quereis ocupar o nosso lugar. Com doçura, com boas maneiras, se calhar metendo ao bolso uns milhares de ducados? Não é? O teu neto, caro Russo, acreditará sinceramente que é barão, e tu transformar-te-ás, sei lá, no descendente de um boiardo de Moscóvia.."(...) Quando voltou lá para cima, Dom Fabrizio encontrou Paolo, o primogénito, Duque de Querceta, que o esperava no gabinete em cujo divã vermelho ele costumava fazer a sesta. O jovem reunira toda a sua coragem e desejava falar-lhe. Baixo, franzino, cor de azeitona, parecia mais velho que ele. "Paizinho, queria perguntar-te como devemos comportar-nos com o Tancredi quando o virmos." O pai percebeu logo e começou a irritar-se." O que pretendes dizer? O que foi que mudou?" "Ora, paizinho, decerto não podes aprovar: foi juntar-se àqueles bandidos que puseram em tumulto a Sicília; isto é coisa que não se faz."(...) Fabrizio indignou-se tanto, que nem deixou sentar o filho: "Mais vale fazer disparates do que passar o dia inteiro a olhar para a caca dos cavalos! O Tancredi é-me mais querido que antes. E depois não são disparates."(...) Abriu o jornal. "Consumou-se um acto de pirataria flagrante a 11 de Maio com o desembarque de gente armada na doca de Marsala. Posteriores relatos esclareceram que o bando desembarcado contava cerca de oitocentos homens, e era comandado por Garibaldi(...) Meteu o jornal numa gaveta. Eram quase horas do rosário, mas o salão ainda estava vazio. Sentou-se num divã e enquanto esperava reparou que o Vulcano do tecto se parecia um pouco com as litografias de Garibaldi que vira em Turim. Sorriu. "Um cornudo." A família ia-se reunindo. A seda das saias não parava de roçagar.(...) Ajoelhou-se: "Salve, Regina, Mater misericordiae..."
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" Extensão de mim"
Lembrei-me de ti, logo de manhã, frente aos semáforos.
Via-te na contenção das palavras; vestígios da culpa
que te ofertavas, enquanto outros eram - desacatos,
folguedo... Via-te a crescer pra dentro como a mais
desamparada corola abrindo-se ao contrário ou o fulgor
de um astro, que, desgarrado, ansiava uma qualquer
órbita a dar-lhe sentido. Desenhei-te na montra do cubículo
onde tomei o café. Desenhei-te e eras angústia ao crepúsculo:
incapaz de decisão num país onde o rei preferia assaltos,
rixas, as pegas para esconder suas ejaculações precoces
e a quem António Cicati montava como a potro manco
e desvairado. Lembrei-me de ti assustado, com a cabeça
a prémio, os esbirros metidos na própria casa - infante
atravessado no caminho daqueles pra quem o poder não é
mais do que pesca de arrasto e a paz não passa de noção
vaga a enfeitar a terra, os corações, os livros pretensamente
morais e edificantes. Lembrei-me de ti, logo de manhã,
quando as rotinas se agigantaram e o meu regresso ao cismar
das palavras era coisa distinta dos golpes (extemporâneos)
com que outros tantas vezes as vestem. Adivinhei-te como
reforço de mim: aprendizagem em que me lanço, me perco
e recupero - seta a visar um fim que creio início, pois gémeos
nem sempre são de tempo ou de parto, mas de elos
que aproximam as mais inférteis distâncias; refinadas tramas
que unem, sem sabermos como nem porquê. Frente ao rio,
nesta manhã que é já outono, observando os cacilheiros
no seu vaivém afadigado, imaginei-te naquele momento
em que ela, vinda de França com instruções, pretendia
estancar o festim e suas mazelas. Fizeste-lhe uma vénia,
cujo acentuar ela impediu. A sua mão no teu braço. E o olhar.
Vocês não falavam a língua um do outro. Falavam com o olhar,
e era tudo... com ele se escapavam, às vezes, para Salvaterra,
onde se encontravam, onde se entregavam. Dizem os historiadores
que não há provas, mas eu, que tudo sei do amor que confunde
e não deixa rasto, tenho a certeza que vocês se beijavam,
se possuíam, se amavam num qualquer casebre no meio
da charneca, tal como eu, hoje aqui à espera, ou melhor,
como todos: particulares estórias a expressar coisa que sempre
foi - esperas, ambições, amores, traições... Tu, Pedro, o segundo
que serias de teu nome; ela, a de Sabóia, lúcido peão de si própria;
e eu, inseguro, olhando ansiosamente o relógio. Não resta qualquer
dúvida: aqui todas as faces são o mesmo prisma! E todos os homens
são igualmente o mesmo, sem refúgio nem diferença. Assim
o rio em mansa correnteza - por mais que nas suas águas
me banhasse pra sempre ficaria seu ser de rio. Do que Estrabão
escreveu acerca dele ao paredão onde espero, uns breves séculos.
Pois nada é o tempo e seus rodeios - nada, ante a imensidão
que nos circunda!... As gaivotas, tresloucadas, encenam
a sua habitual coreografia, esgravatam o jardim, o molhe -
procuram (elas também) mas de outro modo. Um cargueiro,
no centro da paisagem, ignora ostensivamente as outras
embarcações, que, ufanas, cumprem a sua glória de unir margens.
Frente ao quiosque há quem leia títulos, compre jornais,
ou simplesmente pare por parar, mas logo retomam todos
o seu rumo, porque nisto de esperas - e ao contrário
do muito dito - também se atende caminhando. Só o conhecido
é já esperado - acaso estaria eu, aqui, num embarcadouro
fluvial, se não soubesse já essa presença que a todos acena,
que ressuma das pedras, das árvores, dos pássaros e de tudo
quanto à vida vem em sua misteriosa transparência? O cais
é também este enormíssimo hall onde se cruzam cafés,
balcões de circunstância, entradas de metro e uma manga
asmática a lançar gente, por sacões, como resíduos pestilentos
e inúteis. Ah, o cais é sobretudo os meus olhos virados para
a foz!, fantasiando a poderosa armada francesa a entrar a barra,
empurrando-te para o golpe de estado, estado de golpe em
que te encontravas - metade desejo, metade medo. Golpe
igual ao meu, esperando o que do sul há muito tarda... comigo
a imaginá-los: Pedro com os cabelos revoltos, a mochila
a descair, as palavras umas atrás das outras; Francisca atenta
na sua dúplice paixão, as sílabas mitigadas, um agradecido
gesto ante a lealdade que continuamente vou tecendo, para lá
de tanta intermitência. Sonho a prontidão de um sonho imenso,
um território onde o verde irrompa e se dissolva numa qualquer
extensão de mim, indissolúvel luz a fincar presença na pavorosa
dissolução dos mapas. E reconstruo - mescla de acenos
e lembranças - a ousadia de que não desisto; coisa vislumbrada
(nem arma nem rasgo de vulcão) que um sopro ainda traz
e a mim acolhe em noites de vendaval e atormentada solidão.
Há uma hera, no lado de fora, a abraçar a estátua, coisa
de ninguém ver na azoada azáfama que têm como vida;
vida a zarpar morte em sua felicidade imitada tão a custo
obtida. O bêbedo da padiola quer também entrar no átrio
do cais. Um segurança não deixa, que segurança não é
pedaços de cartão, vómitos letais... Mas o pregão
da florista já entra sem pedir licença, e, licenciosamente,
mistura-se comigo, com a minha espera, com o bêbedo;
mistura-se com Pedro II a enviar o irmão para Angra,
com a sirene do barco recém-chegado, com ela a acenar-me,
feliz e ele também feliz, mas mudo - grande é o abraço,
forte o reencontro daquilo que permanece - em tudo.
Victor Oliveira Mateus
O filme é, para mim, um forte e continuado duelo entre Platão e Aristóteles. Pode a Beleza ser alcançada apenas através da arquitectónica da Razão? O fracasso da última sinfonia de Gustav Aschenbach e o discurso do seu amigo - já no camarim - apontam para o facto do Belo ser indissociável dos sentidos, dos desejos, das paixões. Parecia a última estocada na visão platónica
da relação do artista com a obra de arte. A caminho de Veneza,e a após a morte da filha, continuam as mesmas inquietações para o maestro/compositor: o Belo irrompe subitamente ante nós ou deriva de um qualquer tipo de trabalho? Poder-se-á chamar Belo àquilo que, de modo gratuito, não possui "um dentro", mas se reduz apenas ao domínio das aparências? A visão de Tadzio conduz inevitavelmente Aschenbach à angústia: como conciliar a tríade platónica (Beleza/Amor/Bem) com toda uma sensorialidade (ou sensualidade?)que o quotidiano diariamente lhe ia ofertando?O desfecho era inevitável: a superação de uma situação dilemática através da morte. A morte corpórea do mais velho (e doente), a morte simbólica do mais novo, entrando mar adentro (urge não descurar a interpretação psicanalítica de toda a imagética!) e, com grande serenidade, apontando o Infinito. Tudo "aquilo" não cabia no campo do Sensível
dizia Platão através do indicador de Tadzio.
Mais tarde - muito mais tarde - Michelangelo Antonioni, no seu "Para além das nuvens", na primeira cena- com Kim Rossi Stuart - chegaria à mesma conclusão, embora por outro caminho.
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" Humanisme et hermétisme chez Thomas Mann"
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DIA 7 de Janeiro
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- 9h Abertura
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MODERADOR: Leonel Ribeiro dos Santos
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METAFÍSICA
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- 9h15, Joana Luís, A filosofia russa como precursora do vitalismo: reflexão em torno do conceito de integralidade
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- 10h, Lavínia Pereira, A duração bergsoniana: experiência e significação
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ÉTICA/ BIOÉTICA
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- 11h, Manuel João Pires, Se pudéssemos, viveríamos a nossa vida outra vez? Princípios de uma
Ética Trágica
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- 11h45, Margarida Abenta Roque, O Testamento Vital
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MODERADOR: Carlos João Correia
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POLÍTICA
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-14h30, Francisco Felizol, A Liberdade na Filosofia do Dinheiro de Georg Simmel
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-15h15, Gonçalo Zagalo, As noções de Justiça em Derrida e Deleuze
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-16h, Nuno Castanheira, Hannah Arendt: liberdade e política
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-16h45, José Luis Pérez, Albert Camus ou o retrato do artista enquanto homem
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- 17h30, Bruno Peixe Dias, Situação e Acontecimento: pode a revolução ser pensada?
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DIA 8 de Janeiro
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MODERADORA: Maria Luísa Ribeiro Ferreira
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FILOSOFIA DA ARTE
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- 9h30, Catarina Coelho, O Denkraum em Aby Warburg: o Intermedio warburguiano
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-10h15, Ana Mantero, Paul Klee, a linha que desenha a Natureza
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-11h, Teresa Quirino, Catástrofe e Viagem em Vieira da Silva
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-11h45, Ana Cravo, Da beleza do drama
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MODERADOR: José Quaresma
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ESTÉTICA
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- 14h30, Dirk Henrich, Elementos para uma Paisagem Europeia
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- 15h15, Ana Rita Ferreira, O carácter dual da experiência estética
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- 16h, Ana Nolasco, O conceito de kinismo de Peter Sloterdijk e a subversão do ideal clássico do Belo.
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ORGANIZAÇÃO: Profª Dra. Adriana Veríssimo Serrão (Seminário de Investigação dos cursos de pós-graduação do Departamento de Filosofia da FLUL).
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