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Talha-se o firmamento, insectos que dormem - na incandescente
melancoloia do sonho. Rudes substâncias derramadas de púrpura pesadelo -
decrépito crepitar: ira.
sou o mundo inteiro: todo o mundo: no colo do teu fundo
Amo a pedra, queimo a terra - insalubre razão, distante pulsão.
Resisto ao ébrio, luz agreste da membrana de precisar, do tumulto de te (em ti:
a mim) abraçar: ira.
sou o fundo inteiro
: todo o fundo :
no colo do teu mundo
Irrompe-se a estátua, gela-se a tensão - solta-se a carne, mão, tesão.
Transpirações suadas - floras, línguas, frutos: ira.
sou a eternidade inteira
: toda a eternidade: na boca da nossa verdade
Empolgar o instante, brisa a jusante, montante - de rompante. Ser o silêncio
acordado, o linho rasgado. Morrer no mosto, acordar a matriz, de raiz:
beber o sumo vermelho sem a manga do sangue: ira.
sou a verdade inteira
: toda a verdade:
na boca da nossa eternidade
Sou sou sou, o mundo inteiro, o fundo inteiro - no colo da tua verdade,
na boca da eternidade. Sou a mudança, destemperança, metamorfose - vaso
poemas, virgens exaltadas: ira. sou a morte inteira: toda a morte:
na vida da nossa sorte
Entrego a palavra, cinjo o poder, podre entrança - tocar na
última instância, corpo acordado na corda do veneno: abraços cegos, beijos talhados.
Na exaltação do sentido, húmidos sentidos, punhais, bárbaros adeus afogados -
insuportados: ira.
sou a sorte inteira
: toda a sorte:
na vida da nossa morte.
Pedro Chagas Freitas In "Revista Inútil n 1, Out, 09", pg 47.
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"Pie Jesu "
(boy, soprano, chorus)
Pie Jesu, qui tollis peccata mundi
dona eis requiem.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi
dona eis requiem sempiternam.
In "Requiem" de Andrew Lloyd Weber (parte 7)
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O silêncio da Voz não é total:
um sussurro se esgueira
até ao meu ouvido.
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El silencio de la Voz no es total:
un susurro se desvia
hasta mi oído.
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(Segue-se a versão japonesa)
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António Salvado e Kousei Takenaka In "Otoño/ Outono/ ???" ( Edição trilingue, Traducción de A.P. Alencart y An Oshiro), Editorial Verbum/ Madrid e Trilce Ediciones/ Salamanca, 2009, p 69.
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São corpos desgastados
que não deixam fugir
bem para longe as almas
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Son cuerpos consumidos
que a las almas
no dejan huir bien lejos.
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(segue-se a versão japonesa)
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António Salvado - Kousei Takenaka In "Otoño/Outono/ ?? " (obra trilingue, Traducción de A.P. Alencart y An Oshiro ), Editorial Verbum/ Madrid e Trilce Ediciones/Salamanca, 2009, p 45.
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Entrei em barcos que eram fotografias.
Corrigi palavras que eram bocas na
sua latitude de espera e fome. Intrujei
a morte com o meu sorriso de animal
assustado. E de propósito, sim, as em-
balagens rasgadas de onde saíram os
gritos fundamentais - arredar cadei-
ras para ver entrar os próprios olhos
- de propósito, tão de propósito que
poucos entenderam que é essa a natu-
reza final dos poemas,
proclamar-se pobre,
escorrer apenas lava da boca sensível,
ligeiramente desmaiado pelo balanço
da noite, existir na rebentação como
estrela de cinco pontas, como a cidade
inadiável, como o verde de uma mão.
Vasco Gato In " Omertà", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, p 61.
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"Uma qualquer pessoa"
Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,
e sem sorrir, sorrisse,
e sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Na minha mão estendida dar-lhe-ia
o gesto de a estender,
e uma qualquer pessoa entenderia
sem precisar de entender.
Se eu fosse o cego
que acena com a mão à beira do passeio,
esperaria em sossego,
sem receio.
Se eu fosse a pobre criatura
que estende a mão na rua à caridade,
aguardaria, sem amargura,
que por ali passasse a bondade.
Se eu fosse o operário
que não ganha o bastante para viver,
lutava pelo aumento do salário
e havia de vencer.
Mas eu não sou o cego,
nem o pobre,
nem o operário a quem não chega a féria.
Eu sou doutra miséria.
A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede.
A minha mão estendida e tímida, não pede.
Dá.
Esta é a maior miséria que em todo o mundo há.
E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa!
E se ela agora viesse?
Se ela aparecesse aqui, agora, de repente,
se brotasse do chão, do tecto, das paredes,
se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de frente,
toda lantejoulada de esperanças
como fazem as fadas nos contos das crianças?
Ai, se ela agora viesse!
Se ela agora viesse, bebê-la-ia de um trago,
sorvê-la-ia num hausto,
sequiosamente,
tumultuosamente,
numa secura aflita,
numa avidez sedenta,
sofregamente,
como o ar se precipita
quando um espaço vazio se lhe apresenta.
António Gedeão In "Poesias Completas (1956-1967), Portugália Editora,
Lisboa, 1972, 4ª Edição, pp 189 - 191 (Prefácio de Jorge de Sena).
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e eu retirei-me com delicadeza e meio atordoado. Alguns meses depois ela deslocou-se de novo a Portugal para um ciclo de conferências, então amigos comuns prometeram-me: "desta vez vamos apresentar-ta como deve ser". Ainda hoje não sei o que é o "como deve ser", mas sei que tive oportunidade de assistir a algo que nunca mais esqueci: eu e a I.B. dirigimo-nos a uma aula, onde Cleonice Berardinelli falou, durante duas horas, sobre UMA canção de Camões. A princípio, com as fotocópias à frente, eu e a I.B. ainda tentámos tirar algumas notas, depois limitámo-nos a olhar para elas e a ver tudo o que lá estava e nós não teríamos visto se não fosse a Profª Cleo. Alguém me sussurrou a idade da Professora... eu não podia acreditar! À noite um pequeno grupo acompanhou-a a um concerto no S. Luiz. Nunca mais esquecerei esse ano de 2005!
Rudolf Rosen e Nathalie Gaudefroy
de Johann Sebastian Bach (e, para quem não gosta de "cordel", devo esclarecer que o ambiente ultra-requintado voltou em força!), bem como algumas das críticas que os "especialistas" têm feito a estes concertos. Para mim, que não sou especialista em nada nem costumo postar "coisas" deste tipo, tornou-se necessário fazer um humilde desagravo: parece-me algo falaciosa a argumentação de que estas interpretações de Michel Corboz se encontram datadas pelo facto de ele ter optado por grandes massas corais. Hoje estive particularmente atento e não me pareceu (nem a nenhum dos que me acompanhavam) que o coro abafasse a orquestra ou a jovem soprano Nathalie Gaudefroy. Quanto à crítica de que a meio-soprano Annette Market - veterana nestas coisas e com uma vasta discografia: na Erato, Harmonia Mundi, Decca, etc. - tem uma "voz cansada", aconselho, por exemplo, a audição dos últimos recitais da grande Victoria de los Angeles... claro que Market não é uma Cossotto nem uma Violeta Urmana, mas tem ainda uma boa projecção de voz (e isso notou-se quando colocada ao fundo, perto do coro) e os graves não são tão medonhos quanto alguns criticos insinuaram. É evidente que a vedeta do naipe foi, para mim - e só aqui concordo com alguns críticos -, o barítono Rudolf Rosen... Como conclusão: não aceito que Michel Corboz,por uma leitura desactualizada das obras em causa, não tenha conseguido articular (ou dosear?) as múltiplas variáveis em cena, aliás, não nos esqueçamos que estas peças não foram concebidas para serem ouvidas neste tipo de espaço.
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" A Estrela "
Há no céu uma estrela
De estranho clarão:
A gente só pode vê-la
Usando o coração.
Tem uma luz tranquila
Inundando a noite fria;
Para segui-la
Não é preciso bússola nem guia;
Nenhum saber obscuro
Ou lente de longo alcance, nada.
Um coração puro
Consegue vê-la à vista desarmada...
Cláudio Lima (Natal/2009), poema inédito.
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"Soneto LXXXI "
Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
Pablo Neruda (traduzido por Carlos Nejar)
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" 3 AM "
Mãe
Não consigo adormecer
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos
Não consigo adormecer
Nem chorar
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do que a de já não ser capaz de chorar?)
Mãe
Sabias que o cordão umbilical pode funcionar como uma corda num enforcamento?
- Tenho aprendido coisas bem singulares neste convívio com os deuses -
Um dia destes regressarei a Tebas para ser coroado
Reservei hoje mesmo um lugar num avião das Linhas Aéreas Gregas
Gostaria de brindar contigo com uma taça de orvalho
antes de partir
Mãe
Detesto coberturas de açúcar mesmo que levem limão
Isto é tão certo como o é tu não me compreenderes
Estava a sonhar que estava a sonhar e assim por aí adiante até ao infinito. Depois acordei. E fui descendo vertiginosamente de sonho para sonho
Ainda não parei de acordar. E de sonhar
Mãe
Tenho uma surpresa para ti
um caramanchão para que te possas sentar todas as tardes a catar estrelas
na minha cabeça
Mãe
Abriu um concurso para preencher uma vaga de ascensorista no Paraíso e eu concorri
Achas que tenho alguma hipótese de ser admitido?
- tenho a boca cheia de formigas -
Mãe
um dia hei-de subir contigo
degrau
a degrau
o arco-íris
Jorge Sousa Braga In "O Poeta Nu - poesia reunida ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2007, pp - 57 - 58.
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"Disposições ( em sílaba qualquer)"
Faço rimar o sol quando quiser,
e desenho bigodes nesta fotografia de jornal,
decoro-a de cabelo
e um ar adolescente
Quando eu quiser,
o ar encher-se-á de gente imaginada
dançando para mim,
e a fotografia há-de saltar
a meio de um arabesco
ou de uma rima
Assim: gesto de Salomé,
os véus tombados,
a cabela inclinada em direcção ao rei,
que rimará com lei (a que desobedeço),
ou com as regras todas
que eu quiser
Sem lei os criarei,
motores obedientes do meu espaço
E a fotografia há-de sorrir,
o rei dirá "eu faço, porque faço",
e Salomé há-de dizer
"eu danço, em troca de"
Gostava, já agora, de te
fazer rimar aqui, quando quisesse,
agora, por exemplo,
ou numa hora. Ou já
Como não posso, rimo o sol
com tudo - a ti, sei lá
com quê -
Ana Luísa Amaral In "Se fosse um intervalo", Publicações D. Quixote, Lisboa,
2009, pp 69 - 70.
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APRESENTAÇÃO DO LIVRO "VERSOS PARA DERRIBAR MUROS. ANTOLOGIA POÉTICA
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POR PALESTINA" NO DIA 13 DE DEZEMBRO, PELAS 11HOO, EM SEVILHA, NA II FEIRA
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DO LIVRO DE ALJARAFE.
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NESTA ANTOLOGIA PARTICIPAM OS POETAS PORTUGUESES (POR ORDEM ALFABÉTI-
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CA): CASIMIRO DE BRITO, MARIA DO SAMEIRO BARROSO, RUI COSTA e
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VICTOR OLIVEIRA MATEUS e O POETA BRASILEIRO FLORIANO MARTINS.
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...o poema "Por todo o lado me cercas" de Victor Oliveira Mateus (incluído na Antologia "Cerejas - poemas de amor de autores portugueses contemporâneos", Editorial Tágide, Dafundo, 2004, p 64 ).
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Por todas partes me rodeas
Con tus ramas de límpida filigrana inundas el dia, los bosques, las colinas persistentes
donde el destino es una luz difusa, como árbol roto en colores, en el rumor
inconsolable de le tierra
Por todas partes te anuncias
con tus oblícuos designios verdes con precisión desvelas la vaga nitidez del horizonte,
donde los símbolos se mezclan, en la vastedad impenetrable del silencio:
la mesa de la ofrendas para el Alto inclinada
la copa repleta de cerezas
una mano inerte en el umbral
Por todas partes me rodeas, oh fabulosa imagen
y en tu fervor de naturaleza muerta
a mi cuerpo muerto la vida prometes.
Marta Lópes Vilar
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"As raízes do voo"
São as cores?
Ou declarar-me assim a esta árvore?
Num sobressalto, desassossego
lento - as colmeias de ramos e de folhas,
o corpo em curvas densas,
as raízes,
e, delicadamente, o coração
Apaixonar-me e outra vez,
agora por um tempo de nervura
acesa, o fogo - e sem palavra que chegasse
para habitar o mundo:
são as cores, dir-lhe-ia,
ou os meus olhos?
E se faltar olhar, ouvido, cheiro, mãos,
ver-te sem ver, sentir-te sem sentir:
neste musgo e por dentro
poder perder-me, fingir-me distraída
pelo puro prazer de me fingir,
sem sossego nenhum
- aprender a voar -
pelo desassossego de um dedo
preso à terra
Mas se as asas faltarem,
serão sempre as cores,
uma leve impressão de nervos, digital,
de qualquer coisa
Há-de ser isto assim:
luz para além de azul,
paz muito além do verde a respirar
- ou eu, igual ao sol,
comovendo-me em ar e
por raízes -
Ana Luísa Amaral In "Se fosse um intervalo", Publicações D. Quixote,
Lisboa, 2009, 41 - 42.
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Transfiguração e morte de Isolda após a morte de Tristan. Por Waltraud Meier no Scalla
(Milão) em 2007.
(Não existem em português - variante de Portugal -, neste momento, e em edição recente, os escritos filosóficos nem os longos poemas de R. Wagner...)
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Mild und leise
wie er lachelt,
wie das Auge
hold er offnet, -
seht ihr's, Freunde?
Saht ihr's nicht?
Immer lichter
wie er leuchtet,
Stern-umstrahlet
hoch sich hebt?
Seht ihr's nicht?
Wie das Herz ihm
mutig schwillt,
voll und hehr
im Busen ihm quillt?
Wie den Lippen,
wonnig mild,
susser Atem
sanft entweht: -
Freunde! Seht!
Fuhlt und seht ihr's nicht?
hore ich nur
diese Weise,
die so wunder -
voll und leise,
Wonne klagend,
alles sagend,
mild versohnend
aus ihm tonend,
in mich dringet,
auf sich schwinget,
hold erhallend
um mich klinget?
Heller schallend,
mich umwallend,
sind es Wellen
sanfter Lufte?
Sind es Wogen
wonniger Dufte?
Wie sie schwellen,
mich umrauschen,
soll ich atmen,
soll ich lauschen?
Soll ich schlurfen,
untertauchen?
Suss in Duften
mich verhauchen?
In dem wogenden Schwall,
in dem tonenden Schall,
in des Welt-Atems
wehendem All -
ertrinken,
versinken -
unbewusst -
hochste Lust!
Richard Wagner In "Tristan und Isolde" (en bilingue), Aubier Flammarion,
Paris, 1974, pp 238 - 240.
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Inventaram armas de sílex, pontiagudas,
para as desguarnecidas têmporas. Inventaram
os inquisitoriais fogos, as rodas supliciantes,
a guilhotina. Inventaram igualmente métodos
higienizados: injecções letais, assépticas
e completamente indolores. Desenharam,
com o mais nítido rigor, fronteiras indeléveis,
para que o bárbaro seja sempre o outro
e nunca uma qualquer, e inapreensível, parte
de si. Levaram a cabo Auschwitz, Hiroshima,
Srebrenica. Perseguiram em função do sexo,
da cor, da etnia, da orientação sexual, das crenças
religiosas e políticas. Legislaram em torno
da desregulamentação económica, enquanto olhavam
de soslaio a fome, as doenças incuráveis,
a putrefacção do ar. Construíram paradigmas
valorativos para enaltecimento dos hospícios,
dos melancólicos, dos suicidários, enquanto
se reproduziam e ritualizavam os seus quotidianos,
porque nestas coisas - e pelo sim pelo não -
quanto mais tarde melhor. Paradigmas esses
com Verdi a bater à porta, e Fellini, e Updike,
e centenas de outros, cuja genialidade,
não necessariamente mecanicista, provinha
de outras variáveis. Viveram até a amizade,
o amor e a cumplicidade a par da denegação
do outro. E, no final, apenas uma dúvida
me resta, minúscula, quase insignificante:
como conseguiram eles meter tanta e tanta
evolução num planeta tão pequeno?
Victor Oliveira Mateus
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Aqui me costumava eu sentar num tempo
de sereno abandono. Tempo em que as palavras
(quais insectos fulgurantes) germinavam sentidos
que eu nem adivinhava. Vinham e eram toda
uma paisagem com a brisa a envolver-me a tarde,
a humidade da grama, o ocre das paredes sempre
à luta com as trepadeiras. A dilatação do tempo
trazia-me, nessa altura, as roucas sirenes dos barcos,
o contraste pitoresco dos canteiros e até ( num
estranho perder de vista) os desenvoltos sorrisos
da infância. Aqui me viria eu sentar depois,
no tempo das grosseiras rotinas, dos rodopiantes
embustes com que agilmente te enfeitavas;
máscara a tingir de sombra as vidraças do jardim,
moldando de peçonha os rostos na aceleração
ininterrupta dos relógios e no frenético rodar
dos carros no asfalto. Acinzentado tempo esse
no vazio turbilhão de ti! Agora... agora regresso
ao tempo do assumido abandono. Do circular vivido
que um atento não descura nunca. Tempo ainda
com veleiros lá dentro, de novo a serpentearem o rio.
Veleiros que, sem remorso nem culpa, te lançam hoje
à praia como restos de um naufrágio; como coisa sem
préstimo, que desinteressadamente terei de arrumar
um dia no mais sombrio recanto da memória.
Victor Oliveira Mateus
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In "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", Ano XXIX, nº 1022, de 2 a 15 de 2009.
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Sou crente do Sol, como qualquer,
Mas quando é noite
Dou maior atenção
Ao calor que me dispensa:
Aprecio este ir-se sem ausência.
E quando volta, e volta sempre,
Poderosamente vem na sua luz,
... fácil, uma pouco espessa pálpebra
Devolve-me a noite.
Sem glória, por capricho,
A minha,
A noite sofismada...
Maria Valupi In "Do Disperso Dia", ed. autor, s/c, 1967, p 61.
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Nota - Exceptuando os casos de poemas recebidos por mail ou por mim pedidos directamente aos autores - o que, talvez, não exceda as duas dezenas de poemas -, todos os textos postados neste blogue vêm de livros lidos por mim na íntegra e não de páginas encontradas ao acaso. A presente obra foi uma das primeiras de poesia que comprei. Depois Maria Valupi caiu no esquecimento, como tantos outros... Felizmente a "Quasi", em 2007, publicou uma Antologia desta autora, organizada e prefaciada por Ana Marques Gastão, com introdução da Carlos Nejar e posfácio de António Osório, por conseguinte fica-nos esta última, já que o livro referido acima deve ser uma raridade.
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"Piano solo"
Há seres assim que se encerram
nos mais rasos e
desabridos campos onde
placas negras de xisto e rosa
ou grandes massas de pedra por vezes
entreabrindo laminadas estrias ocres
sem brandura
esse é o teu hirto gesto
o corpo reduzido a que
suporte apenas o rictus de um olhar
sonâmbulo e fixo e seu
trabalho dobrado sobre
as mãos escusas
já não carne: apenas
o espírito desse vento descampado
em tão cerrada e rente
soletração do tempo
tudo o mais é acre e breve riso
palavras ociosas e agitadas
(como se por elas
de tão brancas terras
te afastasses)
Maria Andresen de Sousa In "Lugares", Relógio D'Água Editores,
Lisboa, 2001, p 32.
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"Reconstrucción después del miedo"
I. LA VOZ
Dame tu voz, que este miedo
renunciará a su nombre
y borrará sus huellas y sus sombras.
Tu voz... la palabra que nos hace,
el mundo, la sílaba, tu cuerpo...
II. LAS MANOS
Estas manos, bosque de luz que te construye
a cada instante, silencio derramado sobre el miedo...
estas manos, tus manos... lenguaje de los días.
III. LOS OJOS
Soy lo que tú estés mirando:
el rompeolas azul donde empezaron los mares
a borrar la muerte,
ese cuerpo dormido a la luz abierta de tus ojos
que no teme lo que es
si eres tú quien lo construye cada día.
IV. EL CUERPO
Que mi cuerpo teja su sombra para hacerla
a la medida de tu cuerpo
y no escape jamás de esa oscuridad
que no es el miedo porque es tuya,
sino vestigio de luz, desnudo triste de la aurora
cuando no estás conmigo.
Marta López Vilar In "La palabra esperada", Ediciones Hiperión,
Madrid, 2007, 15 - 16.
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"méduses"
elles étaient toujours là. pourtant
ce matin-là l'eau sembla se durcir
autour du bateau. la rame était plantée dans la mer
comme dans une soupe trop épaisse, et nous les hommes
avons pris peur: le soir la plage,
la promenade étaient pleines d'inconnus.
comme de petites cloches, sauf qu'on ne les entendait
pas tinter; le matin suivant l'homme cria,
qui sur la plage avait dressé une estrade de bois
à son usage. dans un demi-sommeil encore, nous l'entendions
dans le vent de la côte faire celui qui
implore la manne. la mer visqueuse, blafarde.
trois jours, et il en vint plus toujours.
comme s'il n'y avait eu jusqu'aux aléoutiennes
que notre village, rien d'autre: hercules
et prime donne, boutiques, "magic morgan
et ses figures de cire". et des troupeaux entiers
de pochards qui d'est en ouest se répandaient
le long de la baie. ils ne partirent que la plage
couverte de gélatine, la marée
montée, et les autorités
clôturèrent le terrain. de ces gens
personne plus ne parla d'augure, du matin
du jugement dernier, de goguelins.
quand l'exception deviendra-t-elle la règle? hommes
brandissant un drapeau, servants pas rasés,
des trous dans leurs vêtements. que ce fût le matin,
que ce fût le soir - tout le monde s'en fichait.
treize coups à midi sonnés.
et des enfants qui n'étaient à personne.
d'abord on n'écouta pas le jeune homme, son histoire
semplait à peine croyable. jusqu'à ce que deux hommes
nous le confirment. bientôt tout le monde avaita entendu
quelquer chose, avait afflué: près de la plage,
comme si rien ne s'était passé, il y avait la mer,
la course des vagues. - demain, après-demain
les femmes à leur fourneaux qui, dès le matin,
font tinter leur marmites, et nous, sur la plage,
les hommes, mutiques, qui regardions la mer.
Jan Wagner In "Archives nomades" (Édition bilingue), Cheyene Editeur,
Le Chambon-sur-Lignon, 2009, pp 37 - 39 (Traduit de l'allemand par François Mathieu).
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"Poema II de Três Epifanias Triviais"
As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem
nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa -
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.
O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.
As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)
Paulo Henriques Britto In "Macau", Editora Schwarcz,
São Paulo, 2006, pp 70 - 71.
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"Bagatela para a mão esquerda"
Escrever com a mão esquerda
é tarefa bem ingrata.
Não seria empreendida
se não fosse estritamente
necessária.
A mão esquerda é mais dura,
mais austera, e desconfia
desses gestos estouvados
que a mão direita, impensada,
esbornia.
À mão esquerda é vedado
o recurso falso e fácil
de dispensar partitura,
a fraqueza (dita força)
do hábito.
Daí o jeito contido
das coisas que ela produz,
o ar desesperançado
de quem até nem precisa
vir à luz.
(No entanto, ela escreve coisas
da mais esconsa eloquência:
atropelar o sentido
ao contrapelo da pauta
é sua ciência.)
Paulo Henriques Britto In "Macau", Editora Schwarcz,
São Paulo, 2006, p 19.
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Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?
Fernando Pessoa In "Odes de Ricardo Reis", Edições Ática,
Lisboa, 1981, p 128.
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"Antínoo"
Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua diurna do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida
Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei
Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra
Sophia de Mello Breyner Andresen In "Obra Poética - Vol III",
Editorial Caminho, s/c, 1999, 4ª edição, p 67.
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" O Anjo"
O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.
Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que, feroz comigo luta,
Ele que me entrega à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.
E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética Vol. I, Editorial Caminho,
s/c, 6ª edição, 2001, p 103.
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" O canibal"
Tenho, defronte, uma vizinha loura,
Cuja carne alva, fina, e cetinosa,
Faz lembrar, quando à tarde o sol descora,
A cor humana pálida da rosa.
Não é frágil, nem débil, vaporosa,
Como as virgens mortais que a luz não doura...
Antes é forte, esbelta, a voz sonora,
- Tranquila e altivamente majestosa.
Nasceu formada assim para os amores:
E o modo com que rega as suas flores,
Na varanda, a sorrir, não tem rival...
Ao vê-la, os D. Juans baixam a fala.
- Mas quanto a mim... quisera "devorá-la"
Com a fome imbecil dum canibal.
Gomes Leal In "Claridades do Sul, Assírio & Alvim,
Lisboa, 1998, p 282.
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"Sobre o Andrógino"
Aquele a quem confio o coração e o trafica
Aparece com o rosto maquilhado
Da cor que não se distingue dos ossos
Com que me castiga o dorso.
E como um sopro que toca a luz
Deita-se de joelhos na nuca,
Serve a carne num banquete.
(Tem tanto de si em mim perdido - velha crença -
Que esqueço o que sou.)
José Emílio-Nelson In "Bibliotheca Scatologica", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, p 49.
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"Projecto de prefácio"
Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes dos caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe.
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!
Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, p 128.
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NO ANFITEATRO DA FUNDAÇÃO DA FCUL, EDIFÍCIO C1 PISO 3, DA FACULDADE DE
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CIÊNCIAS, CAMPO GRANDE, LISBOA.
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DIA 20 DE NOVEMBRO DE 2009 // 14h,30 - 18h,00.
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PROGRAMA:
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14h,30 "GOETHE, 1810. DIBUJOS DE UN CIENTISTA" por JAVIER ARNALDO.
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15h,30 " VER COM OS OLHOS O QUE DIANTE DOS OLHOS ESTÁ. VARIAÇÕES SOBRE UM MOTIVO GOETHIANO por MARIA FILOMENA MOLDER.
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"Musas ( De Boecklin)"
I
Desce, crispa-se, rasga e conspurca, escorraça, perscruta,
Enraíza o pensar
(Encapelada, balbuciante, eclesiástica),
O sussurrar, o sossego da Musa aos pés do auctor, em fria laje, a arquejar,
Deixa-o à solidão, ao Beato.
(A proclamação ao Bem
É a cura do desatino.) Expira
A suprimir o aniquilamento do que o inspira.
Em tudo o que se escreve falta "o mais além".
A Musa com fuligem, o rosto de abcessos, obsessões,
No véu que não sendo de tule é de frieza.
Musa, as Musas,
Em cada injúria acena com a morte no
Mundo, o modelo eterno da atracção que acolhe as sete lágrimas
Na piedade ou na comiseração para vaguear
Entre os arbustos empoerados do
Jardim fechado em nuvens aparadas.
A Musa Conventual devassa o Pavilhão de Caça, seria melhor dizer,
Sodomita, deslumbrada pela "impunidade de outros".
Chagas emplumadas no nicho em que o penduraram escanzelado,
Não escapa à cobiça,
Não lhe convém, o Beato evoca a Moral ritmada.
II
Nas grinaldas versificadas
Busque-se mais enfeites de gesso, florzita.
A Musa atormenta-se no impasse, instiga, deixa-o ao acaso da indolência para que desvairado, a
ciciar, se mantenha sob influência. Noutra escala, gesto inofensivo, haverá elos de Consolação (de
Boécio) e de outras afinidades morais do
Problema. As variantes desregradas do praguejador de chifres atordoado pela irresolução.
A Musa melancólica persuade. Persuade? (A Crítica reluz a submeter o poeta que não persuade.)
A Musa no crepúsculo, empunha um ceptro empenado.
(As alusões a este assunto devem explicar o nome inspirador.)
E a Crítica ofensora ( a Musa, as Musas a farejar o gomil de belos ditos).
E o auctor desagradado, cuspinhando, tossindo,
"Tão vãmente", exausto, em certo sentido envolve-se
Na folia para fabular.
José Emílio-Nelson In "Bibliotheca Scatologica", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, pp 14 - 15.
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"Conversa fiada"
Eu gosto de fazer poemas de um único verso.
Até mesmo de uma única palavra
Como quando escrevo o teu nome no meio da página
E fico pensando mais ou menos em ti
Porque penso, também, em tantas coisas... em ninhos
Não sei por que vazios em meio de uma estrada
Deserta...
Penso em súbitos cometas anunciadores de um Mundo Novo
E - imagina! -
Penso em meus primeiros exercícios de álgebra,
Eu que tanto, tanto os odiava...
Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores, flores, amores,
Nos olhos-flores das menininhas - isso mesmo! O mundo
Era um livro de figuras
Oh! os meus paladinos, as minhas princesas prisioneiras em suas altas torres,
Os meus dragões
Horrendos
Mas tão coloridos...
E - já então - o trovoar dos versos de Camões:
"Que o menor mal de todos seja a morte!"
Ah, prometo àqueles meus professoreas desiludidos que na próxima vida eu vou ser um grande matemático
Porque a matemática é o único pensamento sem dor...
Prometo, prometo, sim... Estou mentindo? Estou!
Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo...
Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, pp 62 - 63.
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" O pobre poema"
Eu escrevi um poema horrível!
É claro que ele queria dizer alguma coisa...
Mas o quê?
Estaria engasgado?
Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura
mansa como a que se vê nos olhos de uma criança
doente, uma precoce, incompreensível gravidade
de quem, sem ler os jornais,
soubesse dos sequestros
dos que morrem sem culpa
dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados...
Poema, menininho condenado,
bem se via que ele não era deste mundo
nem para este mundo...
Tomado, então, de um ódio insensato,
esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável
verdade, dilacerei-o em mil pedaços.
E respirei...
Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?
Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, p 37.
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