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Talha-se o firmamento, insectos que dormem - na incandescente
melancoloia do sonho. Rudes substâncias derramadas de púrpura pesadelo -
decrépito crepitar: ira.
sou o mundo inteiro: todo o mundo: no colo do teu fundo
Amo a pedra, queimo a terra - insalubre razão, distante pulsão.
Resisto ao ébrio, luz agreste da membrana de precisar, do tumulto de te (em ti:
a mim) abraçar: ira.
sou o fundo inteiro
: todo o fundo :
no colo do teu mundo
Irrompe-se a estátua, gela-se a tensão - solta-se a carne, mão, tesão.
Transpirações suadas - floras, línguas, frutos: ira.
sou a eternidade inteira
: toda a eternidade: na boca da nossa verdade
Empolgar o instante, brisa a jusante, montante - de rompante. Ser o silêncio
acordado, o linho rasgado. Morrer no mosto, acordar a matriz, de raiz:
beber o sumo vermelho sem a manga do sangue: ira.
sou a verdade inteira
: toda a verdade:
na boca da nossa eternidade
Sou sou sou, o mundo inteiro, o fundo inteiro - no colo da tua verdade,
na boca da eternidade. Sou a mudança, destemperança, metamorfose - vaso
poemas, virgens exaltadas: ira. sou a morte inteira: toda a morte:
na vida da nossa sorte
Entrego a palavra, cinjo o poder, podre entrança - tocar na
última instância, corpo acordado na corda do veneno: abraços cegos, beijos talhados.
Na exaltação do sentido, húmidos sentidos, punhais, bárbaros adeus afogados -
insuportados: ira.
sou a sorte inteira
: toda a sorte:
na vida da nossa morte.


Pedro Chagas Freitas In "Revista Inútil n 1, Out, 09", pg 47.
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... interpretam Andrew Lloyd Webber.

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"Pie Jesu "
(boy, soprano, chorus)

Pie Jesu, qui tollis peccata mundi
dona eis requiem.

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi
dona eis requiem sempiternam.


In "Requiem" de Andrew Lloyd Weber (parte 7)
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O silêncio da Voz não é total:
um sussurro se esgueira
até ao meu ouvido.
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El silencio de la Voz no es total:
un susurro se desvia
hasta mi oído.
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(Segue-se a versão japonesa)
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António Salvado e Kousei Takenaka In "Otoño/ Outono/ ???" ( Edição trilingue, Traducción de A.P. Alencart y An Oshiro), Editorial Verbum/ Madrid e Trilce Ediciones/ Salamanca, 2009, p 69.
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São corpos desgastados
que não deixam fugir
bem para longe as almas
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Son cuerpos consumidos
que a las almas
no dejan huir bien lejos.
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(segue-se a versão japonesa)
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António Salvado - Kousei Takenaka In "Otoño/Outono/ ?? " (obra trilingue, Traducción de A.P. Alencart y An Oshiro ), Editorial Verbum/ Madrid e Trilce Ediciones/Salamanca, 2009, p 45.
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Entrei em barcos que eram fotografias.
Corrigi palavras que eram bocas na
sua latitude de espera e fome. Intrujei
a morte com o meu sorriso de animal
assustado. E de propósito, sim, as em-
balagens rasgadas de onde saíram os
gritos fundamentais - arredar cadei-
ras para ver entrar os próprios olhos
- de propósito, tão de propósito que
poucos entenderam que é essa a natu-
reza final dos poemas,

proclamar-se pobre,

escorrer apenas lava da boca sensível,
ligeiramente desmaiado pelo balanço
da noite, existir na rebentação como
estrela de cinco pontas, como a cidade
inadiável, como o verde de uma mão.

Vasco Gato In " Omertà", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, p 61.
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"Uma qualquer pessoa"

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.

Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,
e sem sorrir, sorrisse,
e sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Na minha mão estendida dar-lhe-ia
o gesto de a estender,
e uma qualquer pessoa entenderia
sem precisar de entender.

Se eu fosse o cego
que acena com a mão à beira do passeio,
esperaria em sossego,
sem receio.
Se eu fosse a pobre criatura
que estende a mão na rua à caridade,
aguardaria, sem amargura,
que por ali passasse a bondade.
Se eu fosse o operário
que não ganha o bastante para viver,
lutava pelo aumento do salário
e havia de vencer.
Mas eu não sou o cego,
nem o pobre,
nem o operário a quem não chega a féria.
Eu sou doutra miséria.
A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede.
A minha mão estendida e tímida, não pede.
Dá.
Esta é a maior miséria que em todo o mundo há.
E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa!

E se ela agora viesse?
Se ela aparecesse aqui, agora, de repente,
se brotasse do chão, do tecto, das paredes,
se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de frente,
toda lantejoulada de esperanças
como fazem as fadas nos contos das crianças?

Ai, se ela agora viesse!
Se ela agora viesse, bebê-la-ia de um trago,
sorvê-la-ia num hausto,
sequiosamente,
tumultuosamente,
numa secura aflita,
numa avidez sedenta,
sofregamente,
como o ar se precipita
quando um espaço vazio se lhe apresenta.

António Gedeão In "Poesias Completas (1956-1967), Portugália Editora,
Lisboa, 1972, 4ª Edição, pp 189 - 191 (Prefácio de Jorge de Sena).
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Em 2005, após um telefonema de não sei já quem, vejo-me na Universidade Nova assistindo a uma "master-class" dada pela Profª Cleonice Berardinelli, que, ao lado da Profª Fernanda Abreu, falava de João Cabral de Melo Neto e de Fernando Pessoa. Senti-me ínfimo! Aquela senhora discorreu, com uma lucidez extrema e com um enorme poder de comunicação, sobre o tema proposto. No final alguém nos apresentou, mas, claro, nem todas as coisas têm o mesmo tamanho
e eu retirei-me com delicadeza e meio atordoado. Alguns meses depois ela deslocou-se de novo a Portugal para um ciclo de conferências, então amigos comuns prometeram-me: "desta vez vamos apresentar-ta como deve ser". Ainda hoje não sei o que é o "como deve ser", mas sei que tive oportunidade de assistir a algo que nunca mais esqueci: eu e a I.B. dirigimo-nos a uma aula, onde Cleonice Berardinelli falou, durante duas horas, sobre UMA canção de Camões. A princípio, com as fotocópias à frente, eu e a I.B. ainda tentámos tirar algumas notas, depois limitámo-nos a olhar para elas e a ver tudo o que lá estava e nós não teríamos visto se não fosse a Profª Cleo. Alguém me sussurrou a idade da Professora... eu não podia acreditar! À noite um pequeno grupo acompanhou-a a um concerto no S. Luiz. Nunca mais esquecerei esse ano de 2005!
Hoje, no café, dou de caras com um jornal de há dois/três dias. Leio: "o Presidente da República (...), considera a eleição de Cleonice Berardinelli para a Academia Brasileira de Letras "uma decisão justíssima". Berardinelli é especialista em Camões e Fernando Pessoa".... Sete minúsculas linhas numa ponta interior de um Diário - nada mais! Mas há uma ironia nestas coisas: daqui a vinte anos Cleonice Berardinelli continuará nos índices, nas bibliografias, nos documentários e... quem, nessa altura, falará das primeiras páginas de muitas das revistas que hoje inundam supermercados, consultórios, lojas de conveniência? Como diria a Yourcenar: o tempo é um grande escultor!
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Rudolf Rosen e Nathalie Gaudefroy

Tenho vindo a acompanhar, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian , o ciclo de Cantatas
de Johann Sebastian Bach (e, para quem não gosta de "cordel", devo esclarecer que o ambiente ultra-requintado voltou em força!), bem como algumas das críticas que os "especialistas" têm feito a estes concertos. Para mim, que não sou especialista em nada nem costumo postar "coisas" deste tipo, tornou-se necessário fazer um humilde desagravo: parece-me algo falaciosa a argumentação de que estas interpretações de Michel Corboz se encontram datadas pelo facto de ele ter optado por grandes massas corais. Hoje estive particularmente atento e não me pareceu (nem a nenhum dos que me acompanhavam) que o coro abafasse a orquestra ou a jovem soprano Nathalie Gaudefroy. Quanto à crítica de que a meio-soprano Annette Market - veterana nestas coisas e com uma vasta discografia: na Erato, Harmonia Mundi, Decca, etc. - tem uma "voz cansada", aconselho, por exemplo, a audição dos últimos recitais da grande Victoria de los Angeles... claro que Market não é uma Cossotto nem uma Violeta Urmana, mas tem ainda uma boa projecção de voz (e isso notou-se quando colocada ao fundo, perto do coro) e os graves não são tão medonhos quanto alguns criticos insinuaram. É evidente que a vedeta do naipe foi, para mim - e só aqui concordo com alguns críticos -, o barítono Rudolf Rosen... Como conclusão: não aceito que Michel Corboz,por uma leitura desactualizada das obras em causa, não tenha conseguido articular (ou dosear?) as múltiplas variáveis em cena, aliás, não nos esqueçamos que estas peças não foram concebidas para serem ouvidas neste tipo de espaço.
Que me seja desculpado este "meter a foice em seara alheia", mas urgia um singelo louvor a um excelente maestro, assim como dizer que... ainda não foi desta "que encontrei o cordel":
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... to m.a.!

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" A Estrela "


Há no céu uma estrela
De estranho clarão:
A gente só pode vê-la
Usando o coração.

Tem uma luz tranquila
Inundando a noite fria;
Para segui-la
Não é preciso bússola nem guia;

Nenhum saber obscuro
Ou lente de longo alcance, nada.

Um coração puro
Consegue vê-la à vista desarmada...

Cláudio Lima (Natal/2009), poema inédito.
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"Soneto LXXXI "

Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,

enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

Pablo Neruda (traduzido por Carlos Nejar)
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" 3 AM "

Mãe
Não consigo adormecer
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos
Não consigo adormecer
Nem chorar
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do que a de já não ser capaz de chorar?)

Mãe
Sabias que o cordão umbilical pode funcionar como uma corda num enforcamento?
- Tenho aprendido coisas bem singulares neste convívio com os deuses -
Um dia destes regressarei a Tebas para ser coroado
Reservei hoje mesmo um lugar num avião das Linhas Aéreas Gregas
Gostaria de brindar contigo com uma taça de orvalho
antes de partir

Mãe
Detesto coberturas de açúcar mesmo que levem limão
Isto é tão certo como o é tu não me compreenderes
Estava a sonhar que estava a sonhar e assim por aí adiante até ao infinito. Depois acordei. E fui descendo vertiginosamente de sonho para sonho
Ainda não parei de acordar. E de sonhar

Mãe
Tenho uma surpresa para ti
um caramanchão para que te possas sentar todas as tardes a catar estrelas
na minha cabeça

Mãe
Abriu um concurso para preencher uma vaga de ascensorista no Paraíso e eu concorri
Achas que tenho alguma hipótese de ser admitido?
- tenho a boca cheia de formigas -

Mãe
um dia hei-de subir contigo
degrau
a degrau
o arco-íris

Jorge Sousa Braga In "O Poeta Nu - poesia reunida ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2007, pp - 57 - 58.
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"Disposições ( em sílaba qualquer)"

Faço rimar o sol quando quiser,
e desenho bigodes nesta fotografia de jornal,
decoro-a de cabelo
e um ar adolescente

Quando eu quiser,
o ar encher-se-á de gente imaginada
dançando para mim,
e a fotografia há-de saltar
a meio de um arabesco
ou de uma rima

Assim: gesto de Salomé,
os véus tombados,
a cabela inclinada em direcção ao rei,
que rimará com lei (a que desobedeço),
ou com as regras todas
que eu quiser

Sem lei os criarei,
motores obedientes do meu espaço

E a fotografia há-de sorrir,
o rei dirá "eu faço, porque faço",
e Salomé há-de dizer
"eu danço, em troca de"

Gostava, já agora, de te
fazer rimar aqui, quando quisesse,
agora, por exemplo,
ou numa hora. Ou já

Como não posso, rimo o sol
com tudo - a ti, sei lá
com quê -

Ana Luísa Amaral In "Se fosse um intervalo", Publicações D. Quixote, Lisboa,
2009, pp 69 - 70.
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... diz o "Poema 8" de "A Irresistível Voz de Ionatos" (2009).

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APRESENTAÇÃO DO LIVRO "VERSOS PARA DERRIBAR MUROS. ANTOLOGIA POÉTICA
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POR PALESTINA" NO DIA 13 DE DEZEMBRO, PELAS 11HOO, EM SEVILHA, NA II FEIRA
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DO LIVRO DE ALJARAFE.
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NESTA ANTOLOGIA PARTICIPAM OS POETAS PORTUGUESES (POR ORDEM ALFABÉTI-
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CA): CASIMIRO DE BRITO, MARIA DO SAMEIRO BARROSO, RUI COSTA e
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VICTOR OLIVEIRA MATEUS e O POETA BRASILEIRO FLORIANO MARTINS.
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...o poema "Por todo o lado me cercas" de Victor Oliveira Mateus (incluído na Antologia "Cerejas - poemas de amor de autores portugueses contemporâneos", Editorial Tágide, Dafundo, 2004, p 64 ).
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Por todas partes me rodeas
Con tus ramas de límpida filigrana inundas el dia, los bosques, las colinas persistentes
donde el destino es una luz difusa, como árbol roto en colores, en el rumor
inconsolable de le tierra

Por todas partes te anuncias
con tus oblícuos designios verdes con precisión desvelas la vaga nitidez del horizonte,
donde los símbolos se mezclan, en la vastedad impenetrable del silencio:
la mesa de la ofrendas para el Alto inclinada
la copa repleta de cerezas
una mano inerte en el umbral
Por todas partes me rodeas, oh fabulosa imagen
y en tu fervor de naturaleza muerta
a mi cuerpo muerto la vida prometes.

Marta Lópes Vilar
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"As raízes do voo"

São as cores?
Ou declarar-me assim a esta árvore?
Num sobressalto, desassossego
lento - as colmeias de ramos e de folhas,
o corpo em curvas densas,
as raízes,
e, delicadamente, o coração

Apaixonar-me e outra vez,
agora por um tempo de nervura
acesa, o fogo - e sem palavra que chegasse
para habitar o mundo:
são as cores, dir-lhe-ia,
ou os meus olhos?

E se faltar olhar, ouvido, cheiro, mãos,
ver-te sem ver, sentir-te sem sentir:
neste musgo e por dentro
poder perder-me, fingir-me distraída
pelo puro prazer de me fingir,
sem sossego nenhum
- aprender a voar -
pelo desassossego de um dedo
preso à terra

Mas se as asas faltarem,
serão sempre as cores,
uma leve impressão de nervos, digital,
de qualquer coisa

Há-de ser isto assim:
luz para além de azul,
paz muito além do verde a respirar
- ou eu, igual ao sol,
comovendo-me em ar e
por raízes -

Ana Luísa Amaral In "Se fosse um intervalo", Publicações D. Quixote,
Lisboa, 2009, 41 - 42.
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Na senda dos grandes exploradores do Universo, para divulgação da língua e da cultura lusas,
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mais um nome feminino acabou por se inscrever nessa árdua e generosa conquista (Uff, ficou
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um bocado panfletário, não ficou?)...
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Transfiguração e morte de Isolda após a morte de Tristan. Por Waltraud Meier no Scalla
(Milão) em 2007.
(Não existem em português - variante de Portugal -, neste momento, e em edição recente, os escritos filosóficos nem os longos poemas de R. Wagner...)

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Mild und leise
wie er lachelt,
wie das Auge
hold er offnet, -
seht ihr's, Freunde?
Saht ihr's nicht?
Immer lichter
wie er leuchtet,
Stern-umstrahlet
hoch sich hebt?
Seht ihr's nicht?
Wie das Herz ihm
mutig schwillt,
voll und hehr
im Busen ihm quillt?
Wie den Lippen,
wonnig mild,
susser Atem
sanft entweht: -
Freunde! Seht!
Fuhlt und seht ihr's nicht?
hore ich nur
diese Weise,
die so wunder -
voll und leise,
Wonne klagend,
alles sagend,
mild versohnend
aus ihm tonend,
in mich dringet,
auf sich schwinget,
hold erhallend
um mich klinget?
Heller schallend,
mich umwallend,
sind es Wellen
sanfter Lufte?
Sind es Wogen
wonniger Dufte?
Wie sie schwellen,
mich umrauschen,
soll ich atmen,
soll ich lauschen?
Soll ich schlurfen,
untertauchen?
Suss in Duften
mich verhauchen?
In dem wogenden Schwall,
in dem tonenden Schall,
in des Welt-Atems
wehendem All -
ertrinken,
versinken -
unbewusst -
hochste Lust!

Richard Wagner In "Tristan und Isolde" (en bilingue), Aubier Flammarion,
Paris, 1974, pp 238 - 240.
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Coordenador d'O Livro Negro da Feira do Livro de Lisboa (Jornal, 1985), sobre a abstrusa proibição de venda de revistas no recinto da Feira do Livro, dos álbuns (Re)Descobrir Stuart e A Vida das Imagens (Diário de Notícias, 1989 e 1994) e Grandes Repórteres Portugueses da I República, Pedro Foyos, polivalente no campo do jornalismo, tem-se dedicado muito intensamente à fotografia, dirigindo diversas revistas da especialidade.
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1. Contextualização
No romance, publicou um muito bem fundamentado romance histórico, de qualidade superior, O Criador de Letras (Hespéria, 2009), sobre a vida quotidiana no Próximo Oriente e a invenção do alfabeto, e, na rentrée escolar deste ano, um romance marcante na literatura juvenil portuguesa, Botânica das Lágrimas, livro de leitura aconselhada a professores e, sobretudo, alunos do ensino básico (3º ciclo) e secundário.
Integrado na corrente literária designada internacionalmente por young adult fiction, o romance de Pedro Foyos prossegue a linha pioneiramente desbravada, após o 25 de Abril de 1974, por Alice Vieira, Ilse Losa, Luísa Dacosta, Maria Alberta Menéres, António Torrado, Luísa Ducla Soares, José Jorge Letria, João Aguiar, António Mota, Ana Saldanha, Álvaro Magalhães, Maria do Rosário Pedreira e Maria Teresa Maya Gonzalez, Conceição Coelho, Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães (e muitos, muitos outros) de actualização do romance juvenil em Portugal, que, indubitavelmente, pelo serviço público de leitura e pelo número de vendas, tem atravessado uma autêntica fase de ouro.
Face à literatura juvenil clássica (Swift, H.C. Anderson, Stevenson, Júlio Verne, E. Salgari, M. Twain, Enid Blyron, Ana de Castro Osório, Ricardo Alberty, Simões Mueller...), o conteúdo das histórias pertinentes à nova literatura juvenil portuguesa tem operado três substituições:
a) abandonou a componente moralista e/ou religiosa enformadora de muitos textos clássicos, não raro expressão de preconceitos sociais coevos, fortemente aculturadores da mente das crianças, substituindo-a por uma visão ecolágica, socialmente relativista e etnicamente multicultural das relações sociais, deixando entrar nos textos o novo Portugal democrático e europeu, tolerante e lusófono;
b) abandonou o tema da evidenciação ostensiva dos aleijões sociais ( o órfão, a criança enjeitada, analfabeta e miserável; os bairros de barracas...), substituindo-o pela vida diária de uma criança pequeno-burguesa dos subúrbios ou de classe média urbana (o público leitor privilegiado), tecnologicamente activa, cientificamente informada e individualmente carregada de iniciativa;
c) substitui as antigas histórias mitológicas célticas e greco-romanas, dotadas de um estendal de seres mágicos (sereias, silvos, nereidas, grifos, unicórnios, fadas, gigantes denignos, anões malignos, bruxas velhas de narigueta e verruga...), por um universo fantástico novo fundado na ciência e na tecnologia, unindo estas aos antigos processos mentais míticos e mágicos, como a saga de Harry Potter o prova abundantemente. Uma característica, no entanto, permanece idêntica entre a literatura juvenil clássica e a actual - no fim da aventura, o herói e o leitor são invariavelmente recompensados pelo regresso (mais ou menos triunfante) à ordem benigna interrompida pela irrupção do mal.
Em síntese, a literatura juvenil, clássica ou actual, alimenta-se de duas categorias - o realismo e o fantástico -, de cuja combinação nascem tanto a sua atractiva beleza quanto os seus limites. Neste sentido, literariamente falando, o século XX pode ser considerado o tempo de irrupção e independência da literatura juvenil portuguesa, para o qual muito contribuiu, sem dúvida, num outro registo, O Romance da Raposa (1929), de Aquilino Ribeiro, e as As Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo (1963), de José Gomes Ferreira, livros absolutamente admiráveis..
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2.Botânica das Lágrimas
Botânica das Lágrimas não só obedece às quatro características acima indicadas, como, de certo modo, as resume, evidenciando-se, assim, como um belíssimo romance juvenil de aventura, fundado em dois pólos, o realismo e o fantástico, de obrigatória leitura, repetimos, pelos professores de ensino básico e secundário. Debruçado sobre um tema de grande actualidade nas escolas - o bullying ("tirania juvenil de forma continuada em ambientes escolar", p.374), Botânica das Lágrimas captou em perfeição o ambiente escolar próprio da prática do bullying (a extorsão de dinheoro aos mais novos, a destruição de bens pessoais, o "corredor da morte"...), a personalidade frágil mas ostensiva da prática de Rufino Cromado, de cérebro sobredotado, mas psicologicamente abjecto, de Simão-mão-de-betão, de Jeco Marado, a personalidade igualmente frágil mas corajosa dos "capitães" dos "Guerreiros Valentes", alunos mais novos que se sentem violentados e humilhados por esta prática, revoltando-se contra ela, nomeadamente Leopoldo, o "General Leo", e o seu ajudante "Bravo Toninho".
Do mesmo modo, o autor opera uma harmoniosa ligação ao exterior da escola, seja através da evidenciação de um leque de sentimentos próprio da puberdade (orgulho, revolta, vaidade, companheirismo, amor próprio, atracção sexual...), seja através da relação terna e angustiada entre Leopoldo e a sua mãe, hospitalizada (vergonha de chorar, necessidade forçada de se tornar adulto). Porém, a chave de ouro de Botânica das Lágrimas reside, indibitavlemente, por um lado, na opção pelo Jardim Botânico, em Lisboa, como cenário maior do romance (a visita de estudo "Passeio Plantástico"), e na utilização majestosa da figura do professor Brotero como guia (homenagem ao botânico Félix Avelar Brotero, mas também ao professor Fernando Catarino, aliás, citado no romance, como Rómulo de Carvalho/ António Gedeão e Viiriato Soromenho Marques), e, por outro, pela introdução do fantástico através do encontro de Leopoldo com Camões e do diálogo daquele com as árvores, diálogo diversificado consoante a natureza (isto é, a personalidade) de cada árvore. Esta é, de facto, a ideia chave do livro, que terá forçado o autor a uma demorada investigação científica, ilustrada pelos úteis anexos do romance. O mais forte momento dramático do romance reside, assim, na ajuda que o reino vegetal do Jardim Botânico presta aos "Guerreiros Valentes# no combate contra o bando do Ruffino Cromado e a prática do bullying, repetindo, em 2009, o episódio republicano da "Grande Coça de 1914".
Uma forte chamada de atenção para a atractiva combinação de aparatos estéticos: (1) a mancha gráfica do romance, dotada de um apurado jogo de letras e de separadores, (2) a divisão dos capítulos por minutos (entre as 9h,15 e o meio-dia), (3) o entreacto "trágico" ligado á história da implantação da República e (4) a intercalação no texto de quadros que se, por um lado, vão sintetizando a história das peripécias do General Leo, anunciam, por outro, "nós" bloqueadores da intriga, que o sesenrolar da história posteriormente desbloqueará.
Belíssimo romance para ser incluído no "contrato de leitura" do programa da disciplia de Português e partilhado em sala de aula entre professores e alunos.
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"Miguel Real In "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", Ano XXIX/Nº 1022, de 2 a 15 de Dezembro de 2009, pp 22 - 23 .
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Inventaram armas de sílex, pontiagudas,
para as desguarnecidas têmporas. Inventaram
os inquisitoriais fogos, as rodas supliciantes,
a guilhotina. Inventaram igualmente métodos
higienizados: injecções letais, assépticas
e completamente indolores. Desenharam,
com o mais nítido rigor, fronteiras indeléveis,

para que o bárbaro seja sempre o outro
e nunca uma qualquer, e inapreensível, parte
de si. Levaram a cabo Auschwitz, Hiroshima,
Srebrenica. Perseguiram em função do sexo,
da cor, da etnia, da orientação sexual, das crenças
religiosas e políticas. Legislaram em torno
da desregulamentação económica, enquanto olhavam

de soslaio a fome, as doenças incuráveis,
a putrefacção do ar. Construíram paradigmas
valorativos para enaltecimento dos hospícios,
dos melancólicos, dos suicidários, enquanto
se reproduziam e ritualizavam os seus quotidianos,
porque nestas coisas - e pelo sim pelo não -
quanto mais tarde melhor. Paradigmas esses
com Verdi a bater à porta, e Fellini, e Updike,

e centenas de outros, cuja genialidade,
não necessariamente mecanicista, provinha
de outras variáveis. Viveram até a amizade,
o amor e a cumplicidade a par da denegação
do outro. E, no final, apenas uma dúvida
me resta, minúscula, quase insignificante:
como conseguiram eles meter tanta e tanta
evolução num planeta tão pequeno?

Victor Oliveira Mateus
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Aqui me costumava eu sentar num tempo
de sereno abandono. Tempo em que as palavras
(quais insectos fulgurantes) germinavam sentidos
que eu nem adivinhava. Vinham e eram toda
uma paisagem com a brisa a envolver-me a tarde,
a humidade da grama, o ocre das paredes sempre

à luta com as trepadeiras. A dilatação do tempo
trazia-me, nessa altura, as roucas sirenes dos barcos,
o contraste pitoresco dos canteiros e até ( num
estranho perder de vista) os desenvoltos sorrisos
da infância. Aqui me viria eu sentar depois,
no tempo das grosseiras rotinas, dos rodopiantes

embustes com que agilmente te enfeitavas;
máscara a tingir de sombra as vidraças do jardim,
moldando de peçonha os rostos na aceleração
ininterrupta dos relógios e no frenético rodar
dos carros no asfalto. Acinzentado tempo esse
no vazio turbilhão de ti! Agora... agora regresso

ao tempo do assumido abandono. Do circular vivido
que um atento não descura nunca. Tempo ainda
com veleiros lá dentro, de novo a serpentearem o rio.
Veleiros que, sem remorso nem culpa, te lançam hoje
à praia como restos de um naufrágio; como coisa sem
préstimo, que desinteressadamente terei de arrumar
um dia no mais sombrio recanto da memória.

Victor Oliveira Mateus
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In "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", Ano XXIX, nº 1022, de 2 a 15 de 2009.
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Dia 15 de Dezembro, pelas 18h,30, no Auditório da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, será entregue a Miguel Real o Prémio Jacinto Prado Coelho, atribuído pela Associação Portuguesa de Críticos Literários (APCL), ao seu livro "Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (editado pela Quidnovi).
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Está já on-line a nova leva da Revista Cultural Electrónica "Diversos Afins":
Esta revista tem como seus directores Fabrício Brandão e Leila Andrade e o presente número inclui um poema (édito) do autor deste blogue.
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A apresentação do novo livro de Celina Veiga de Oliveira e de António Aresta encontra-se publicitada no lado direito deste blogue.
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Apresentação da obra "As mulheres e a República - Agenda Feminista 2010", integrada no Prémio Municipal Madalena Barbosa, será no dia 9 de Dezº, pelas 17h, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa (Paços do Concelho).
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" O ORIENTE NAS LITERATURAS DE LÍNGUA PORTUGUESA" (Jornada Internacional): dia 4 de Dezº na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa (Sala 5.2.):
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- 9.30 SESSÃO DE ABERTURA
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-9.45 PAULO FRANCHETTI (Univ. de Campinas): "Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes: imagens da China e do Japão
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- 10.30 Coffee break
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- 11.00/13.00 COMUNICAÇÕES/ DEBATE
Moderadora - TERESA MARTINS MARQUES
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- ALBERTO CARVALHO (Univ. de Lisboa): "De Lisboa a Macau num barco a vapor: Crónicas de viagem de Carlos José Caldeira
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- INOCÊNCIA MATA (Univ. de Lisboa): "Um estranho em Goa: Viagem transitiva a um Oriente em refluxo
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- MARIA DE LOURDES CÂNCIO MARTINS (Univ. de Lisboa): "Do Brasil ao Oriente via Mongólia"
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- VÂNIA CHAVES (Univ. de Lisboa): "Introdução à leitura de Rakushisha"
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- RITA RAY (Jadvpur University - Calcutá): "Travelling and meditating- Uma recepção indiana de Poemas Escritos na Índia"
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DEBATE
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-14.30/ 16.30 COMUNICAÇÕES/ DEBATE
Moderadora - MARGARIDA BRAGA NEVES
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- BEATRIZ WEIGERT (Univ. de Évora): "Nélida Piñon conta Sherazade"
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- CATARINA NUNES DE ALMEIDA (Univ. Nova de Lisboa): "Em vez de uma gota de água: Jorge Sousa Braga e a reelaboração do cânone do haiku"
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-DUARTE DRUMOND BRAGA (FLUL- Centro de Estudos Comparatistas): "Os orientes de Álvaro de Campos"
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- LAURA AREIAS (CLEPUL - Área 2): "Humor em tempo de guerra - sobreviver em Timor"
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- CLAUDIANY DA COSTA PEREIRA (ICS - Investigadora visitante): "Hospedeiro por imposição histórica - nota sobre a literatura em Timor Leste"
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- SERAFINA MARTINS (Univ. de Lisboa): "O oriente próximo de Aquilino Ribeiro"
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DEBATE
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MUSEU DO ORIENTE, SALA BEIJING
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- 18.30 O oriente e os escritores de língua portuguesa: Mesa-redonda
Moderador - ERNESTO RODRIGUES
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Com os escritores ALEXANDRA LUCAS COELHO, ANA MAFALDA LEITE, FERNANDA DIAS, LUÍS CARLOS PATRAQUIM, RUI ZINK e TATIANA SALEM LEVY.
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Sou crente do Sol, como qualquer,
Mas quando é noite
Dou maior atenção
Ao calor que me dispensa:
Aprecio este ir-se sem ausência.

E quando volta, e volta sempre,
Poderosamente vem na sua luz,
... fácil, uma pouco espessa pálpebra
Devolve-me a noite.

Sem glória, por capricho,
A minha,
A noite sofismada...

Maria Valupi In "Do Disperso Dia", ed. autor, s/c, 1967, p 61.
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Nota - Exceptuando os casos de poemas recebidos por mail ou por mim pedidos directamente aos autores - o que, talvez, não exceda as duas dezenas de poemas -, todos os textos postados neste blogue vêm de livros lidos por mim na íntegra e não de páginas encontradas ao acaso. A presente obra foi uma das primeiras de poesia que comprei. Depois Maria Valupi caiu no esquecimento, como tantos outros... Felizmente a "Quasi", em 2007, publicou uma Antologia desta autora, organizada e prefaciada por Ana Marques Gastão, com introdução da Carlos Nejar e posfácio de António Osório, por conseguinte fica-nos esta última, já que o livro referido acima deve ser uma raridade.
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"Piano solo"

Há seres assim que se encerram
nos mais rasos e
desabridos campos onde
placas negras de xisto e rosa
ou grandes massas de pedra por vezes
entreabrindo laminadas estrias ocres
sem brandura
esse é o teu hirto gesto
o corpo reduzido a que
suporte apenas o rictus de um olhar
sonâmbulo e fixo e seu
trabalho dobrado sobre
as mãos escusas
já não carne: apenas
o espírito desse vento descampado
em tão cerrada e rente
soletração do tempo
tudo o mais é acre e breve riso
palavras ociosas e agitadas

(como se por elas
de tão brancas terras
te afastasses)


Maria Andresen de Sousa In "Lugares", Relógio D'Água Editores,
Lisboa, 2001, p 32.
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Busto de Antínoo de Villa Adriana. Hoje no Museu do Louvre.
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"Adriano habla al cuerpo muerto de Antínoo"
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Ya nada persigo, nada se presenta ante mi puerta.
Ninguna juventud sentí sino la tuya,
ninguna ciudad, ningún otoño desbordó
por mis manos el cabello de la luz,
los misterios del aire.
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Duermen contigo aquella sangre derramada
en sueños, la noche sin refugio
con redes de oro, el perfume
cuajado de amapolas en tus labios
mientras yo contemplo la patria destruida de tu cuerpo,
recién abandonado.
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Contemplo al dios que me arrojó a la vida
yaciendo en la sombra inmensa
de lo que ya no tendré...
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La muerte ha llegado al mundo, mi dios,
y nada ya podrá espantar mi frío.
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Marta Lópes Vilar In "La palabra esperada", Ediciones Hiperión,
Madrid, 2007, p 25.
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Certo dia, andava eu às compras no Super, senti um certo estardalhaço à minha volta. Frases como: "é ela, é!", "vai lá tu pedir um autógrafo", etc., circulavam por todo o lado. Foi então que vi, levantando dinheiro na caixa do multibanco, uma vulgar mulher de tal modo inchada que me fez lembrar a rã do La Fontaine. Apurando o ouvido, apercebi-me que era uma vedeta de uma telenovela qualquer. Continuei observando a cena, de soslaio, e, não tendo levado o divã, psicanalisei a situação mesmo a trouxe-mouxe. Lembrei-me também das aulas de Psicologia Clínica, quando costuma dizer aos alunos: no comportamento humano tudo fala, desde a forma de vestir ao modo de andar. E lá estava a mulher: hierática, cabeça firme como de cariátide, seguríssima na celebridade que encarnava. Lembrei-me igualmente de um romance do Fernando Vallejo, quando ele diz que quem não aparece na televisão não existe. Tudo isto para referir que tem sido uma característica deste blogue o desvelamento da obra, e do rosto, daqueles que vão escrevendo livros neste país, e não só, aliás, tudo isso acaba depois aparecendo nas badanas dos livros, nos lançamentos, na net, nos jornais... Claro que os escritores não fazem lipoaspirações pagas em suaves prestações mensais, mas fazem outras coisas bem mais interessantes. No meu caso - mero pigmeu destas coisas! - não perco demasiado tempo a pensar nestes assuntos (lembro-me sempre do A. constantemente pronto para me tirar fotos quando eu estou a bocejar, a comer, enfim... o que ele não se divertirá depois?!), e com a mesma facilidade com que entro com a Maria Lucília Meleiro numa recepção na Embaixada do Canadá, assim estou num íntimo almoço, num simples restaurante... Sinto-me bem em qualquer meio, o que me importa é o clima gerado em torno do acontecimento, a empatia entre as pessoas. E eis-me chegado aonde queria: tinha uma foto de autor da poeta Marta López Vilar, para ilustrar a sua poesia, mas optei por um almoço informal de escritores e amigos: José do Carmo Francisco, Rui Almeida, Graça Pires... Marta Vilar é a terceira a contar da esquerda. Ela que me desculpe, mas à foto posta a circular pela Editora prefiro esta, caseira, informal, sem pose... Um daqueles momentos que fica!
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"Reconstrucción después del miedo"

I. LA VOZ

Dame tu voz, que este miedo
renunciará a su nombre
y borrará sus huellas y sus sombras.
Tu voz... la palabra que nos hace,
el mundo, la sílaba, tu cuerpo...

II. LAS MANOS

Estas manos, bosque de luz que te construye
a cada instante, silencio derramado sobre el miedo...
estas manos, tus manos... lenguaje de los días.

III. LOS OJOS

Soy lo que tú estés mirando:
el rompeolas azul donde empezaron los mares
a borrar la muerte,
ese cuerpo dormido a la luz abierta de tus ojos
que no teme lo que es
si eres tú quien lo construye cada día.

IV. EL CUERPO

Que mi cuerpo teja su sombra para hacerla
a la medida de tu cuerpo
y no escape jamás de esa oscuridad
que no es el miedo porque es tuya,
sino vestigio de luz, desnudo triste de la aurora
cuando no estás conmigo.

Marta López Vilar In "La palabra esperada", Ediciones Hiperión,
Madrid, 2007, 15 - 16.
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"méduses"

elles étaient toujours là. pourtant
ce matin-là l'eau sembla se durcir
autour du bateau. la rame était plantée dans la mer
comme dans une soupe trop épaisse, et nous les hommes
avons pris peur: le soir la plage,
la promenade étaient pleines d'inconnus.

comme de petites cloches, sauf qu'on ne les entendait
pas tinter; le matin suivant l'homme cria,
qui sur la plage avait dressé une estrade de bois
à son usage. dans un demi-sommeil encore, nous l'entendions
dans le vent de la côte faire celui qui
implore la manne. la mer visqueuse, blafarde.

trois jours, et il en vint plus toujours.
comme s'il n'y avait eu jusqu'aux aléoutiennes
que notre village, rien d'autre: hercules
et prime donne, boutiques, "magic morgan
et ses figures de cire". et des troupeaux entiers
de pochards qui d'est en ouest se répandaient

le long de la baie. ils ne partirent que la plage
couverte de gélatine, la marée
montée, et les autorités
clôturèrent le terrain. de ces gens
personne plus ne parla d'augure, du matin
du jugement dernier, de goguelins.

quand l'exception deviendra-t-elle la règle? hommes
brandissant un drapeau, servants pas rasés,
des trous dans leurs vêtements. que ce fût le matin,
que ce fût le soir - tout le monde s'en fichait.
treize coups à midi sonnés.
et des enfants qui n'étaient à personne.

d'abord on n'écouta pas le jeune homme, son histoire
semplait à peine croyable. jusqu'à ce que deux hommes
nous le confirment. bientôt tout le monde avaita entendu
quelquer chose, avait afflué: près de la plage,
comme si rien ne s'était passé, il y avait la mer,
la course des vagues. - demain, après-demain

les femmes à leur fourneaux qui, dès le matin,
font tinter leur marmites, et nous, sur la plage,
les hommes, mutiques, qui regardions la mer.

Jan Wagner In "Archives nomades" (Édition bilingue), Cheyene Editeur,
Le Chambon-sur-Lignon, 2009, pp 37 - 39 (Traduit de l'allemand par François Mathieu).
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"Poema II de Três Epifanias Triviais"

As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa -
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)

Paulo Henriques Britto In "Macau", Editora Schwarcz,
São Paulo, 2006, pp 70 - 71.
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"Bagatela para a mão esquerda"

Escrever com a mão esquerda
é tarefa bem ingrata.
Não seria empreendida
se não fosse estritamente
necessária.

A mão esquerda é mais dura,
mais austera, e desconfia
desses gestos estouvados
que a mão direita, impensada,
esbornia.

À mão esquerda é vedado
o recurso falso e fácil
de dispensar partitura,
a fraqueza (dita força)
do hábito.

Daí o jeito contido
das coisas que ela produz,
o ar desesperançado
de quem até nem precisa
vir à luz.

(No entanto, ela escreve coisas
da mais esconsa eloquência:
atropelar o sentido
ao contrapelo da pauta
é sua ciência.)

Paulo Henriques Britto In "Macau", Editora Schwarcz,
São Paulo, 2006, p 19.
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Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?

Fernando Pessoa In "Odes de Ricardo Reis", Edições Ática,
Lisboa, 1981, p 128.
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E eu? Aonde chegarei nesta via que sempre retomo? Assissada via. Persistência triste nesta execrável época, neste venal lugarejo, onde o sorriso alvar das marionetas me sufoca, me enche de repulsa, de terror... Nem eu sei! Até os reflexos das palavras, provavelmente minhas, mais não são do que frágeis canoas onde me salvo, ou pelo menos tento. Eu e estes que ainda restam, e me rodeiam: esta família, tão avessa aos ditames da biologia, mais não é do que o espaço onde a alma se me regenera de toda esta violência que a diabólica dona do mundo sobre mim insiste. Por ela me fica no peito uma dinâmina solidariedade; o veemente mistério da persistência; por ela sei nunca estar sozinha, até quando tal parece. Não... a minha árvore genealógica não tem a cor do sangue. É verde! Um verde vegetal, um verde como o dos plátanos da minha praceta neste mês de Março. E neste largo também estão os pardais, sempre sedentários, sobre os telhados - desenham-me o caminho no pedaço de tempo a que pertenço, eu e todos os que a meu lado teimam. Os que a meu lado teimam a vida como sagrada coisa que o respeito clama, apesar de tudo.
Deitado de barriga para cima, Tiago não via a amplidão das perguntas que o seu desesperado gesto novamente me trazia. No balão do soro as gotas escoavam-se cadenciadamente. Como um clepsidra, pensei. Por detrás dele, qual fundo imprevisível, um conjunto de mostradores, agulhas, baços ruídos. Olhei o monitor que ia assinalando a sua frequência cardíaca. Sinusal, confirmei. A minha ansiedade. A minha ansiedade, sofreguidão com que iludia tanta impotência. E ele continuava, ali, deitado, sem conseguir ver a sua quase morte a fazer ricochete na minha angústia: tubos e mais tubos, o peito para cima e para baixo, por vezes um estremeção respiratório súbito. Não podes continuar aqui indefinidamente, não aguentas! Disse o Francisco com a boca encostada ao meu ouvido. Não lhe respondi. Aliás já falei com a Isabel, prosseguiu, decidimos que iríamos fazer turnos. Continuo sem conseguir entender, articulei, titubeante. Nada há para entender, há apenas muito para culpar - vive-se um tempo de culpa! Respondeu o Francisco estranhamente sem nenhum dos seus habituais ataques de fúria. Calámo-nos. Percebíamos que só nesse silêncio o nosso périplo de mágoa poderia ser cumprido.
Mas não regressei a casa. Vagueei na noite como quem se divide: tendo por um lado o amor que teme, por outro a efemeridade de que desconfia. Mendiga de quê? De quem? Ia-me eu perguntando à medida que me aproximava do Centro Comercial. Nas traseiras, colada às enormes vidraças, a profusão das formas era uma coisa situada algures entre a fadiga e o vício: o bambolear dos corpos que se não sabiam mortos, o resfolegar da esperança em seu tão cansado insistir. Acabará ela, um dia, por ressuscitar definitivamente neste desapiedado calcinar da rua? De todas as ruas? Perguntava eu, silenciosamente, ao montão de figuras, que já nem sabia se via, ou se imaginava. Torcionários! Gritaria o Francisco num dos seus acessos, caso os seus olhos pudessem, naquela altura, ser os meus. Mas eu não! Limitei-me a ver o colorido laranja e rosa dos letreiros, enquanto aparcava junto ao prédio de - Sérgio, estou aqui em baixo! Desço já, respondeu. Do outro lado uma música entre dentes. Quando entrou no carro era uma brisa a varrer-me o negro, um frescor súbito a apaziguar-me... Sim, conhecia-lhe os sons, o cheiro, a estranha aura a abater-se em toda a tristeza que tinha. Nada dissemos. Nada dissemos e, no entanto, um interrompido diálogo restabelecia-se: a subterrânea conversação que, pelo simples facto de ali estarmos (um ao lado do outro) se reiniciava como se não tivesse parado um segundo sequer: configuração de evidências onde qualquer palavra seria sempre a marca de um ruído. Não, não dizíamos nada, contudo continuávamos falando: a conversa da véspera, a conversa do primeiro dia, aquela de quando ainda nem sequer o tempo era tempo. Olhei-o pelo canto do olho: a ponta do nariz, o lábio superior ligeiramente levantado, os olhos fixos no vazio. Não sei ao certo quanto tempo ficámos naquele desajeitamento, naquela busca de uma explicação, de uma palavra. Não sei. Era todo um estar completamente cheio de nós, das nossas perplexidades... Não, não sei quanto tempo permanecemos naquela incapacidade. E mesmo que o soubesse acaso poderia eu escrevê-lo? O que dessa noite me lembra é tão só uma esplêndida presença repleta de - uma presença onde os meus olhos eram uma bátega de luz escorrendo pelo pára-brisas abaixo. E eu a não querer, a não querer essa fuga que de mim o pudesse levar. Por isso recomecei o diálogo do outro dia, o do miradouro. A chuva também voltara, miudinha. O raspar dos pneus, no viaduto, compassava a dádiva de nós, que assumidamente íamos fazendo; faixas de branco, ondulando, na decrépita negritude do mundo: erraste quando disseste que não conseguiria apreender um dado corpo, o teu. Não é verdade! Conheço-lhe a textura, todas as energias que dele emanam quando se aproxima e que nenhuma física das paixões conseguirá alguma vez explicar. Sinto-o, plenamente! Tão pouco me importaria o labéu acintosamente lançado pelos que andam à babujem dos afectos alheios, essa excrescência moral a que chamaste preconceito, ou a vaidade de todos os mestres de opereta, cujas regras mais não fazem do que cimentar privilégios. Se alguma coisa me assuta é esta época. Se algum corpo deixo às vezes de sentir é o meu - porque me repugna esta dança do negro. Há uma dança do negro, não reparas? Uma dança onde a nossa teimosia se vive, mas com intermitências. E na torpeza desta terra tenho-me vindo a matar por dentro... se algum corpo já quase não resta, esse corpo é o meu, por isso me chamam forte, ou seca, ou lá o que é. Tenho pouco respeito pela maioria que me cerca, creio que, com alguns anos mais, me tornarei azeda, mas isso não me inquieta. Só esta família me prende, e é por isso que hoje me sinto devastada... pelo incompreensível gesto do Tiago. Era isto que te queria dizer, concluí. Calei-me. O silvar dos pneus, para lá do viaduto, não apagava as marcas da tensão. Sérgio continuava: os olhos pousados no tablier como se nada tivesse ouvido. Esfíngico. Há certas verdades, disse finalmente, que, por não o serem completamente, correm o risco de se tranformarem numa forma de mentira. E olhou-me, vorazmente. Inclinei o banco para trás. E ele a debruçar-se sobre o meu corpo.
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Victor Oliveira Mateus
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Um aguilhão de brandura a embargar-me o pensamento, mas que, ao mesmo tempo, da fuga me libertava: podes lançar a mão sobre a pele, deixá-la ali, indefesa, numa qualquer vacilante espera. Poderás até sentir um corpo, um indemne corpo virado para ti, como um planeta novo se acabará virando, mais dia menos dia, para a abertura de uma luz estelar em torno da qual a sua órbita incessantemente se irá refazendo. Poderás sentir um corpo! No entanto, conseguirás saber se esse dito corpo é o meu corpo? Era isto que eu, anteontem, queria dizer-te quando falei de inaptidão: a necessidade de se sair de uma sensualidade indiferenciada para a captação de um ser único e singular. É evidente que há em ti uma linguagem esquecida e, contudo, é a única que se deveria ter mantido porque essencial, porque só ela nos pode acenar um recomeço... poderás tu ainda recuperá-la?
E aquela noite passou-a ele no quarto azul. Digo passou, porque não sei até que ponto a novidade do espaço não lhe teria bloqueado a apaziguadora entrega a uma serena visão, como a modorra em que fiquei, hora após hora, noite adentro, olhando o tecto. Quanto ao dito quarto azul... fora em tempos mais uma das invenções do Francisco. Certo dia, antes da maioridade, cirandava eu pela cozinha tentando preparar algo para comermos, atacou ele de um jacto: queria a carta de alforria, disse. O Francisco teve sempre, e tem-na ainda hoje, uma voraz mordacidade do discurso, que o coloca numa espécie de exterioridade a toda e qualquer situação; inveterada capacidade crítica que acabou por lhe dar uma integridade acima da mediocridade de que ele ri, sempre. Eu, nos meus acessos de mãe babada, costumo chamá-lo de terrorista bom, para iludir assim todo o sofrimento que ambos sabemos existir debaixo do seu ar de bufão desajustado. De alforria?! Perguntei-lhe, surpreendida. Sim, ouviste bem, é que eu não quero mexer nestas coisas incestuosas que por aqui andam, ora para não as resolver tenho de me afastar de ti - percebes? E fez um gesto na direcção da adega, completamente abandonada, no outro lado do quintal. Que eu só teria de pagar os materiais. Que ele e alguns amigos se encarregariam do trabalho. Eu não sabia o que dizer. Aceitas? Teimou. Vá, não sejas forreta, livras-te de um mamarracho e ganhas um estúdio topo de gama! Eu sabia que por detrás do seu ar jocoso, estava a possibilidade de prematuramente o perder, em absoluto. Assenti. Então o Francisco abriu os braços: fizeste um bom negócio, e fica descansada que não vais explorar mão-de-obra infantil. Abraçou-me ruidosamente e começou a falar de outra coisa. Alguns meses depois, com as obras já concluídas, e apesar de lhe ter dito para pintarem o estúdio de branco, o Francisco ordenou que o pintassem de azul. É uma cor masculina, argumentou. E não me falou mais no assunto.
(Como ligar todos os momentos? Como encadear acontecimentos e rostos num contínuo que jamais possa soçobrar? Como, neste quezilento mundo, encontrar a palavra, ou o gesto, que o justifique, que o salve - e a mim com ele? Tempo de alarmes, este! Há um esbirro em todas as esquinas, todas as fronteiras, e o mal sob essa forma se mostra: boca hiante à espera, à espera, sempre à espera. Temos de nos acautelar porque as fronteiras interiores são as mais vigiadas, dentro delas se busca a uniformização de todos: no valor da posse, na competição como liberdade, no prazer que a si se basta... na alma, mas raramente, coisa esvaziada de si e no fundo da qual apenas se vai encontrando: pústulas e cotão - nada mais. E foi neste contexto que ele me surgiu.) E é neste contexto que ele se mantém. Surgiu-me como um apelo. Surgiu-me... e era um magnífico espigão de ouro a querer escorar todo o desencanto que em mim havia. Surgiu-me... abandonava eu já o tempo da soberba, da idiotice, pois afinal muito pouco fora o que conseguira conhecer. Aliás, nem de mim sei muito, eu, que estou aqui tão à minha beira. Nem sequer virei a saber qual a essência de uma mosca, que é uma coisa tão pequena. Frente à imensidão do mundo, nunca virei a saber nada de fundamental. Mas, paradoxo extremo, à medida que me vou fazendo mais ignorante, vai também surgindo em mim uma acalmia desusada. E foi nessa acalmia que, um dia, ele...
... encostou-se à mesa da cozinha. Dormiste bem? Perguntou-me. Olhei-o. Olhei-o e vi toda a fragilidade que dentro daquela força havia. Debaixo daquela pujante maturidade, uma insegurança mostrava as suas réstias - intranquilidade a sua, com que me acalmava eu. Talvez seja um lugar comum dizer-se que esse era o motivo que me sossegava, sobretudo por se colocar também uma diferença de idades tão nítida como a nossa. Olhei-o de novo. Via-o na absoluta limpidez da manhã e havia no meu peito como que uma toada de verde e luz. Não respondes? Estou a perguntar-te se dormiste bem, instou. Creio que sim, respondi. Sorriu. Sorriu com aquela expressão triste que eu acabara de identificar, expressão a espreitar debaixo da sua lucidez, debaixo de uma madureza que ele também tinha, para esconder esse desenraizamento que em si havia. Sorriu e devolveu-me o olhar. Um olhar que me trespassou o corpo, os poros - ah, nunca antes alguém me penetrara assim tão profundamente! Quanto a mim, vagueou-me a atenção entre a almoçadeira roxa que ele empunhava e a jarra das gerberas que, na ponta do mármore, ameaçava despenhar-se. No abismo também eu, mas a subir já! Subia... e havia o som da morrinha no lado de fora, no quintal; uma desbotada cantilena a desfibrar toda a vacilação que ainda restava. No algeroz roto o som cavo da chuva era a hipnose de mim no acinzentado da manhã, enquanto as largas folhas da figueira, em compassos de vento, atiravam para a persiana uma branda música de água, cujo sentido se acabava por perder; estranheza de um efeito que de nós igualmente se afastava.
Estava eu assim sentindo quando o Francisco irrompeu casa adentro: o quê, estás aí impávida e serena? Admoestou-me ele. Mas o que é que aconteceu? Arriei eu meu voo, que tão alto iria não fosse o seu passo estugado pela casa, a sua voz matizada de raiva, os seus olhos como setas sobre o Sérgio, que, confundido, procurava uma impossível invisibilidade. Não me digas que a Isabel ainda não te ligou? Voltou o Francisco. A meio do salão, encostada à vidraça que dava para o quintal, uma jovem apardalada. A minha nova nora, pensei. Pensei e olhei-a com hostilidade. O Francisco sentou-se à mesa, no outro lado, no outro lado onde o Sérgio se dividia entre o equilibrar de uma torrada e o desejo de se evaporar. O Tiago acabou de entrar nas Urgências, ia muito mal, disse o Francisco. E pormenorizou: fora a empregada a encontrá-lo de manhã, quando entrou ao serviço. Havia também várias embalagens de comprimidos. Um raio. Eu fulminada a apoiar-me, no frigorífico, na ponta do balcão. Romantismo de pacotilha! Agredi eu a esperança que, apesar de manca, talvez nos pudesse auxiliar. Então a marafona da minha falsa nora avançou - misto de desumana eficácia e de suavidade hipócrita. Ela a esclarecer-me, a mim, que não precisava de ser esclarecida: o Tiago e o companheiro andavam com muitos problemas. Olhei a boneca de trapos de tal forma que ela engoliu o resto da justificação. Em quem mais poderia descarregar? Sérgio olhava-me, suplicante, condoído e suplicante. O Francisco a despejar a raiva: se apanho o outro cabrão parto-lhe o céu-da-boca! Eu estava... Não, não sei como estava. Por fim a Isabel lá ligou, sempre conseguira encontrar o marido, que era Director de Serviços lá no Hospital. Nós que nos acalmássemos. Eles já tinham chegado, estavam só a arrumar o carro.
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Victor Oliveira Mateus (???)
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Lancei a mão sobre a pele. Ali a deixei na vacilante espera de uma trajectória que não sabia - timidez indistinta. Por ela sentia o pulsar das suas veias, as têmporas; um desânimo arroxeando o corpo. A sala também. Do outro lado traziam-me os meus dedos uma fragância líquida com que me procurava - na margem de tudo. A razão da minha recusa não a encontrava eu, ou encontrava muitas, que o mesmo é. As suas mãos, igualmente presas: nas minhas pernas, nos tornozelos. Perguntou-me da minha fuga a sua causa, mas dizê-la... dizê-la seria o tédio das estórias infelizes; os espasmos circulares daquelas narrativas fastidiosas, onde as heroínas, esquecidas de si, se acabam perdendo nalgum desígnio perverso ou tão simplesmente porque assim o decidiram. Insistiu. Voltou a perguntar. Mas eu não encontrava o pensamento, o dizer, no entanto continuava a sentir sob a polpa dos meus dedos a inquieta ressonância que me desarmava: o fluir azul das suas veias ou das minhas - nem eu sabia. Sentia-me exausta. A sua cabeça sobre o meu colo, ainda; a injunção do seu rosto em mim, como uma farpa ou uma límpida gota pelos esteiros de toda uma melancolia que me devorava. Havia um dernorteamento em tudo aquilo que era, com ele a querer saber. Talvez a razão seja o medo, disse. O medo não é razão alguma, respondeu, o medo é a impossibilidade de todas as razões. E olhou-me, peremptório. Frente à evidente irrefutabilidade da sua resposta, eu, desarmada, busquei. Não é o medo, teimou, é o olhar dos outros, o preconceito. No ar pairou a confissão de uma derrota, enquanto as suas mãos me pressionavam ainda mais. E o estranho é que tu dizes não ligar ao olhar dos outros... é como se tudo isso viesse, não de um medo, mas de uma inaptidão. Talvez, respondi. E um gesto compassivo a infiltrar-se de novo: no meu vestido, nas minhas pernas, em toda a vastidão do tempo que nos separava.
Mas a justificação do que disséramos, do que sempre me dizia, tive-a eu na manhã seguinte antes de seguir para a Faculdade: no café do bairro, baiuca na outra ponta da praceta, misto de insalubridade e cóio de maledicências. Bom dia, senhora doutora! E o velho Clemente, todo salamaleques e derriço, interrompendo o lustrar dos copos canelados dos galões... É a biquinha da manhãzinha, não é verdade? Se faz favor, senhor Clemente. Eu a sorver o ódio àqueles diminutivos, sempre excessivos, sempre aduladores; baforada de traição nas costas. Ontem esteve cá outra vez aquele amigo do seu filho, esteve ali a ler... um granda-bocado. Filho da puta, pensei eu, enquanto acompanhava o voo de uma mosca à volta do naco dos torresmos. Não dei seguimento ao assunto. Então o senhora doutora já vai, não é verdade? É verdade, senhor Clemente, hoje vive-se a correr, não há tempo para nada, e o pouco que ainda vai havendo gastam-no alguns com o que não devem. E sorri, quase ingénua. Toma! Disse-me. Contudo percebera o aviso: ressaibo de um dado modo a não ceder; o aguçar da conformidade a não permitir. Talvez o raio do tendeiro não tenha agido por mal... o mal impõe uma escolha, uma deliberação, e ali fora antes a dissimulação do sineiro na busca de material para a conversa do dia; forma de fuga ao tédio que sufoca; espécie de palavras-cruzadas, mas sem o jornal à frente. Há pessoas assim: malabaristas de informação para que o dia-a-dia não custe. O mal não, esse é outra coisa: caminho pensado para um contundente propósito. A reverberação do mal deixa nos olhos do seu agente uma luminosidade baça e indisfarçável - jubilação de monstro na alegre decapitação de tudo. De qualquer modo vinha a propósito, vinha a propósito e cabia-me estar atenta.
Vi-o saltar o murete: arqueamento de um corpo na busca de mim tão triste. Vi-o saltar, porque os meus olhos o esperavam já. Esperavam-no como se espera um barco, ou as andorinhas nas Primaveras da minha infância, ou até um farol, que ainda me pudesse iluminar toda, sobretudo por dentro. Os meus olhos esperavam-no, e ele um finíssimo sulco branco na amálgama que me cercava. Os meus olhos esperavam-no e ele finalmente a ver-me: sentada no extremo da esplanada, com a cidade velha a meus pés... em cascata, descendo até ao rio. Apoiei o cotovelo no varandim para o ver melhor. Atravessou a rua. O miradouro. Vinha ofegante. Sabia que virias esconder-te aqui! Exclamou. Toda a exposição acaba sempre por proteger, repliquei. E foi então que ele começou: o fiasco que fora a aula, que se notara em mim um inabitual nervosismo, que eu nunca o tinha olhado durante aquelas duas horas, e que ele, no final, ainda pensara deter-me, mas depois apercebera-se da imprudência do gesto, tal a quantidade de colegas seus no corredor. Havia qualquer coisa de fuga na forma como desapareceste, na forma como arrancaste com o carro, e eu cada vez mais enervado sem conseguir arranjar um táxi. Escuta, não sei se sou capaz! Interrompi-o. Calou-se. Calou-se e foi nesse silêncio que lhe contei o episódio da manhã... Depois o silêncio continuou: um contristado vazio a interpor-se; a lanceada distância daquilo que era ao que nos impunham. Preferia que ele berrasse, que desse um soco na mesa, pensei. Mas não. Nem sequer um arfar descompassado, nem sequer um ínfimo tremor. Apenas o silêncio a invectivar a minha luta comigo. Olhei o rio, o seu serpentear tranquilo, os minúsculos pátios murados logo abaixo dos meus pés; olhei igualmente esta indigência de mim a não lhe poder fugir já - evidência agora tão certa e inabalável que eu nada conseguia dizer. Mas a sua voz veio, lá do fundo...
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Victor Oliveira Mateus ( para continuar, espero...)
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"Antínoo"

Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua diurna do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida

Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei

Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra

Sophia de Mello Breyner Andresen In "Obra Poética - Vol III",
Editorial Caminho, s/c, 1999, 4ª edição, p 67.
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" O Anjo"

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que, feroz comigo luta,
Ele que me entrega à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética Vol. I, Editorial Caminho,
s/c, 6ª edição, 2001, p 103.
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" O canibal"

Tenho, defronte, uma vizinha loura,
Cuja carne alva, fina, e cetinosa,
Faz lembrar, quando à tarde o sol descora,
A cor humana pálida da rosa.

Não é frágil, nem débil, vaporosa,
Como as virgens mortais que a luz não doura...
Antes é forte, esbelta, a voz sonora,
- Tranquila e altivamente majestosa.

Nasceu formada assim para os amores:
E o modo com que rega as suas flores,
Na varanda, a sorrir, não tem rival...

Ao vê-la, os D. Juans baixam a fala.
- Mas quanto a mim... quisera "devorá-la"
Com a fome imbecil dum canibal.

Gomes Leal In "Claridades do Sul, Assírio & Alvim,
Lisboa, 1998, p 282.
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"Sobre o Andrógino"

Aquele a quem confio o coração e o trafica
Aparece com o rosto maquilhado
Da cor que não se distingue dos ossos
Com que me castiga o dorso.
E como um sopro que toca a luz
Deita-se de joelhos na nuca,
Serve a carne num banquete.
(Tem tanto de si em mim perdido - velha crença -
Que esqueço o que sou.)

José Emílio-Nelson In "Bibliotheca Scatologica", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, p 49.
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"Projecto de prefácio"

Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes dos caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe.
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!

Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, p 128.
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NO ANFITEATRO DA FUNDAÇÃO DA FCUL, EDIFÍCIO C1 PISO 3, DA FACULDADE DE
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CIÊNCIAS, CAMPO GRANDE, LISBOA.
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DIA 20 DE NOVEMBRO DE 2009 // 14h,30 - 18h,00.
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PROGRAMA:
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14h,30 "GOETHE, 1810. DIBUJOS DE UN CIENTISTA" por JAVIER ARNALDO.
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15h,30 " VER COM OS OLHOS O QUE DIANTE DOS OLHOS ESTÁ. VARIAÇÕES SOBRE UM MOTIVO GOETHIANO por MARIA FILOMENA MOLDER.
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"Musas ( De Boecklin)"

I

Desce, crispa-se, rasga e conspurca, escorraça, perscruta,
Enraíza o pensar
(Encapelada, balbuciante, eclesiástica),
O sussurrar, o sossego da Musa aos pés do auctor, em fria laje, a arquejar,
Deixa-o à solidão, ao Beato.
(A proclamação ao Bem
É a cura do desatino.) Expira
A suprimir o aniquilamento do que o inspira.
Em tudo o que se escreve falta "o mais além".
A Musa com fuligem, o rosto de abcessos, obsessões,
No véu que não sendo de tule é de frieza.
Musa, as Musas,
Em cada injúria acena com a morte no
Mundo, o modelo eterno da atracção que acolhe as sete lágrimas
Na piedade ou na comiseração para vaguear
Entre os arbustos empoerados do
Jardim fechado em nuvens aparadas.
A Musa Conventual devassa o Pavilhão de Caça, seria melhor dizer,
Sodomita, deslumbrada pela "impunidade de outros".
Chagas emplumadas no nicho em que o penduraram escanzelado,
Não escapa à cobiça,
Não lhe convém, o Beato evoca a Moral ritmada.

II

Nas grinaldas versificadas
Busque-se mais enfeites de gesso, florzita.

A Musa atormenta-se no impasse, instiga, deixa-o ao acaso da indolência para que desvairado, a
ciciar, se mantenha sob influência. Noutra escala, gesto inofensivo, haverá elos de Consolação (de
Boécio) e de outras afinidades morais do
Problema. As variantes desregradas do praguejador de chifres atordoado pela irresolução.
A Musa melancólica persuade. Persuade? (A Crítica reluz a submeter o poeta que não persuade.)
A Musa no crepúsculo, empunha um ceptro empenado.
(As alusões a este assunto devem explicar o nome inspirador.)
E a Crítica ofensora ( a Musa, as Musas a farejar o gomil de belos ditos).
E o auctor desagradado, cuspinhando, tossindo,
"Tão vãmente", exausto, em certo sentido envolve-se
Na folia para fabular.

José Emílio-Nelson In "Bibliotheca Scatologica", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, pp 14 - 15.
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"Conversa fiada"

Eu gosto de fazer poemas de um único verso.
Até mesmo de uma única palavra
Como quando escrevo o teu nome no meio da página
E fico pensando mais ou menos em ti
Porque penso, também, em tantas coisas... em ninhos
Não sei por que vazios em meio de uma estrada
Deserta...
Penso em súbitos cometas anunciadores de um Mundo Novo
E - imagina! -
Penso em meus primeiros exercícios de álgebra,
Eu que tanto, tanto os odiava...
Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores, flores, amores,
Nos olhos-flores das menininhas - isso mesmo! O mundo
Era um livro de figuras
Oh! os meus paladinos, as minhas princesas prisioneiras em suas altas torres,
Os meus dragões
Horrendos
Mas tão coloridos...
E - já então - o trovoar dos versos de Camões:
"Que o menor mal de todos seja a morte!"
Ah, prometo àqueles meus professoreas desiludidos que na próxima vida eu vou ser um grande matemático
Porque a matemática é o único pensamento sem dor...
Prometo, prometo, sim... Estou mentindo? Estou!
Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo...

Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, pp 62 - 63.
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Voltámos para a barca. Soprava um vento singularmente frio. Sentado junto a mim, Lúcio puxava com os dedos delgados as mantas de algodão bordado; por delicadeza, continuávamos, animadamente, a trocar impressões acerca dos negócios e escândalos de Roma. Antínoo, deitado no fundo da barca, encostara a cabeça aos meus joelhos; fingia dormir para se isolar daquela conversação que lhe não dizia respeito. A minha mão deslizou na sua nuca, sob os cabelos. Nos momentos mais vãos ou mais ternos, eu tinha assim o sentimento de ficar em contacto com os grandes objectos naturais, a densidade das florestas, o dorso musculado das panteras, a pulsação regular das fontes. Mas nenhuma carícia chega à alma. O sol brilhava quando chegámos a Serapeu; os mercadores de melancias apregoavam a sua mercadoria pelas ruas. Dormi até a hora da sessão do conselho local, a que assisti. Soube mais tarde que Antínoo aproveitara aquela ausência para persuadir Chábrias a acompanhá-lo a Canopo. E voltou a casa da feiticeita.
No primeiro dia do mês de Athyr, no segundo ano da Olimpíada duzentos e vinte e seis... É o aniversário da morte de Osiris, deus das agonias: em todas as aldeias ao longo do rio ressoavam desde há três dias agudas lamentações. Os meus hóspedes romanos, menos acostumados que eu aos mistérios do Oriente, mostravam uma certa curiosidade por aquelas cerimónias de uma raça diferente. A mim, pelo contrário, irritavam-me. Tinha mandado amarrar a minha barca a alguma distância das outras, longe de qualquer lugar habitado: todavia, nas proximidades da margem erguia-se um templo faraónico meio abandonado; tinha ainda o seu colégio de padres; não escapei inteiramente ao ruído das lamentações.
Na noite precedente Lúcio convidou-me para cear na sua barca. Dirigi-me para lá ao Sol-pôr. Antínoo recusou-se a acompanhar-me. Deixei-o sozinho na minha cabina de popa, estendido sobre a sua pele de leão, entretido a jogar aos ossinhos com Chábrias. Meia hora mais tarde, já noite fechada, ele reconsiderou e mandou buscar uma canoa. Ajudado por um só barqueiro, percorreeu, em contracorrente, a distância bastante longa que nos seprava das outras barcas. A sua entrada na tenda onde se realizava a ceia interrompeu os aplausos provocados pelas contorsões de uma dançarina. Tinha vestido um longo trajo sírio, fino como a pele de um fruto, todo semeado de flores e de Quimeras. Para remar mais à vontade despira a manga direita: o suor tremia sobre o seu peito liso. Lúcio atirou-lhe uma grinalda, que ele apanhou no ar; a sua alegria quase estridente não se desmentiu um só instante, mantida apenas por uma taça de vinho grego. Regressámos juntos na minha canoa de seis remadores, acompanhados por um alto "Boa noite!" mordaz de Lúcio. A alegria selvagem persistiu. Mas de manhã aconteceu-me tocar, por acaso, num rosto coberto de lágrimas. Perguntei-lhe com impaciência a razão daquele choro; respondeu-me humildemente desculpando-se com a fadiga. Aceitei a mentira; tornei a adormecer. A sua verdadeira agonia passou-se naquele leito, a meu lado.
O correio de Roma acabava de chegar; o dia passou-se a ler e a responder ao que lia. Como de costume, Antínoo ia e vinha, silenciosamente, na sala: não sei em que momento aquele belo lebréu saiu da minha vida. Pela décima segunda hora, Chábrias entrou, agitado. Contrariamente a todas as regras, o jovem havia saído da barca sem explicar o fim e a duração da sua ausência: tinham passado pelo menos duas horas depois da sua partida. Chábrias lembrava-se de estranhas frases pronunciadas na véspera, de uma recomendação feita naquela mesma manhã e que me dizia respeito. Comunicou-me os seus receios. Descemos apressadamente para a margem. Instintivamente, o velho pedagogo dirigiu-se para uma capela situada à beira rio, pequeno edifício isolado que fazia parte das dependências do templo e que Antínoo e ele tinham visitado juntos. Sobre uma mesa de oferendas estavam as cinzas de um sacrifício ainda mornas. Chábrias meteu os dedos e retirou, quase intacto, um anel de cabelos cortados.
Não havia nada mais a fazer senão explorar a margem. Uma série de reservatórios que deviam ter servido outrora para cerimónias sagradas comunicava com uma enseada do rio: à claridade do crepúsculo, que descia rapidamente, Chábrias avistou na borda do último tanque uma veste dobrada e sandálias. Desci os degraus escorregadios: Antínoo estava deitado no fundo, já mergulhado no lodo do rio. Com a ajuda de Chábrias, consegui levantar o corpo, que pesava, subitamente, como pedra. Chábrias chamou os barqueiros, que improvisaram uma maca de pano. Hermógenes, chamado à pressa, só pôde verificar a morte. Aquele corpo tão dócil recusava deixar-se reaquecer, reviver. Transportámo-lo para bordo. Tudo se desmoronava; tudo pareceu extinguir-se. O Zeus Olímpico, o Senhor de tudo, o Salvador do Mundo aluíram e ficou só um homem de cabelos grisalhos soluçando na ponte de uma barca.
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Marguerite Yourcenar In "Memórias de Adriano", Editora Ulisseia, Lisboa,
2000, pp 164 - 166 (Tradução de Maria Lamas).
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" O pobre poema"

Eu escrevi um poema horrível!
É claro que ele queria dizer alguma coisa...
Mas o quê?
Estaria engasgado?
Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura
mansa como a que se vê nos olhos de uma criança
doente, uma precoce, incompreensível gravidade
de quem, sem ler os jornais,
soubesse dos sequestros
dos que morrem sem culpa
dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados...
Poema, menininho condenado,
bem se via que ele não era deste mundo
nem para este mundo...
Tomado, então, de um ódio insensato,
esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável
verdade, dilacerei-o em mil pedaços.
E respirei...
Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, p 37.
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