29/03/12


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                  " A  CONFIRMAÇÃO "

  Ao ver-lhe a aliança, pela primeira vez, Teresa sentiu um misto de estupefacção e asco. Aquele pedaço de prata reluzente, assim exibido no anelar esquerdo, trouxe-lhe à memória as reuniões columbófilas da sua infância: as aves fechadas em minúsculas gaiolas, o arrulhar monotonamente idêntico, a domesticação a desenhar-se numa liberdade para divertimento alheio. Como poderia, pois, alguém alegrar-se com uma entrega cheirando à oca rotina das aparências?, pensou Teresa, à entrada do café, enquanto se amparava à arca dos gelados. O que a chocava não era - como é óbvio - o símbolo do pacto, mas o ar de conquista, de alvo conseguido com que Diogo exibia o troféu.
  ( Sabes?, diria ela, nessa tarde, a Gonçalo, seu amigo de infância que sempre a entendia ou a isso se esforçava: era como se se estivesse frente à vida como uma corrida de obstáculos e aquele idiota andasse a apregoar que tinha superado mais um... )
  Cumprimentaram-se. Sorriram. Tomaram o pequeno-almoço ao balcão como era hábito: ele sempre de sorriso estudadamente inocente em riste, de olhar perverso que prometia o que de antemão sabia que jamais iria dar e com as mesmas palavras de uma venenosa fragilidade a armadilharem-lhe os instantes. Teresa não podia deixar de fixar a aliança, e ele, provocatoriamente, fingiu sacudir com essa mesma mão umas migalhas que nem sequer tinham caído no casaco. Despediram-se como de costume. Nessa tarde, a pretexto de uma questão qualquer, Diogo arranjara um modo de lhe ligar para o telemóvel. Enviara-lhe igualmente dois incipientes emails com notícias sobre uma cantora de que ambos gostavam.
  No dia seguinte não se encontraram, de manhã, no café. Estudadamente, ou não, ele não aparecera à hora do costume para o pequeno-almoço. Mas, em contrapartida, Diogo sentar-se-ia à sua mesa, na esplanada, naquele mesmo dia, ao fim da tarde. Sorridente. Acabado de sair da capa de uma revista de moda masculina. O anelar esquerdo a tamborilar, a despropósito, no tampo da mesa. Ela não conseguia disfarçar o seu nervosismo e - porque não confessá-lo? - o seu desejo, mas ele, com ar de quem acena mas não dá, convidou-a para nessa noite irem ao cinema, para, minutos depois, exibir a pose de quem se recordava de algo e logo dizer que não, afinal não podiam ir, ele tinha-se esquecido de uma coisa: tinha um encontro com uma amiga e já se estava a esquecer. Teresa não perguntou nada, apenas se ia acusando de não conseguir sair daquele redil a que se prendia cada vez mais.
  ( Não é possível que tudo aquilo seja representação!, confidenciou ela a Gonçalo, por telefone nessa mesma noite. Olha lá, perguntou-lhe este, por sua vez: tu não estarás a ficar um pouco paranóica? Se calhar até estou, pois não pode haver ninguém assim tão perverso, tão monstruoso... )
  O resto dessa semana passou-se exactamente da mesma maneira: os encontros da manhã, os fins de tarde na esplanada, os melífluos telefonemas, os emails ambíguos. Dir-se-ia que aquele fim de Julho iria trazer a Teresa uma qualquer oferta promissora, uma qualquer regeneração que lhe adensasse a vida e a dotasse de sentido e alegria. E, com este estado de espírito, entrou ela na primeira semana de Agosto. Nos primeiros dias do mês estranhou que Diogo não aparecesse mais, nem para os pequenos-almoços nem ao fim do dia na esplanada. Estranhou de tal modo que não se conteve e, ao fim de uns tempos, perguntou a um dos empregados. Mas então a menina não sabe?! Fitou-a atónito o empregado. Não sei o quê? O Diogo casou-se no domingo passado e deixou de morar aqui na rua. Teresa não soube que cor adquiriu, porque ouviu a voz do empregado como vinda de muito longe: está a sentir-se bem? Estou, estou sim, obrigado! Mas o Diogo não lhe disse, vocês eram tão amigos, estavam sempre aqui?, perguntou o empregado, de olhos esbugalhados. Ah, vai ver que ele me disse - recuperou Teresa -, mas eu sou tão distraída que devo ter feito qualquer confusão. Pois!, tartamudeou o empregado, já que era suposto ter de dizer alguma coisa.
  ( Não é possível, sussurrou ela a Gonçalo, que, enroscado num sofá não sabia o que responder. Ao fim de uns minutos ele ousou dizer: talvez se tenha esquecido de se despedir ou pensasse que o assunto não te interessava. Ela fulminou-o com o olhar: por favor, Gonçalo, agora não, solidariedade masculina a estas horas não, e muito menos vinda de ti.)
  Teresa nunca mais falou em tal coisa. Se nela pensava, ou não, nunca o viremos a saber, pois não deixou nada escrito acerca de tal assunto. Nos primeiros dias de Setembro, meteu-se no carro e rumou à casa de Tavira, onde iria passar o resto das férias.

  Dois meses depois, por um puro acaso, Gonçalo encontraria Diogo numa das discotecas mais in de Lisboa. Cumprimentaram-se. Sabes quem morreu?, perguntou-lhe Gonçalo. O outro olhou-o como se a pergunta não fizesse sentido naquele momento. Mas Gonçalo insistiu: a Teresa! A Teresa, qual Teresa?, sorriu o outro com o ar falsamente ingénuo do costume. Eh, pá, a Teresa, aquela que morava no prédio em frente ao teu... vocês davam-se... teve um desastre de automóvel lá em baixo, no Algarve... teve morte imediata. Mas eu não sei de quem estás a falar!, exclamou Diogo, através da música, postando um ar doce, quase angelical. Eh, pá, não me digas que não te lembras da Teresa, vocês deram-se durante anos?! Não, não estou a ver quem é... enfim, é a vida! Olha a ti é que gostei de te voltar a ver, estás com bom aspecto. Ciao, a gente vai-se encontrando por aí! E regressou para junto de um grupo esfuziante, deixando em Gonçalo a confirmação de uma suspeita que nem sequer fora sua.

  Mateus, Victor Oliveira. Suplemento h do Macau Hoje. Macau, 4 de Maio de 2012.
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28/03/12

" No existe más que una danza que nuestras figuras simulan... "

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" Poema 7 do Ciclo Los Gilles de Binche "

Decir que avanzamos que no avanzamos no es verdad
Lo que llamamos realidad es la locura del regresar de las cosas
Porque las cosas vuelven sobre sí mismas regresamos con ellas
Somos los aparecidos de nosotros mismos como fantasma del día
Como la noche es fantasmal copia fantasmagórica de la noche que la precedió
Y puesto que somos los mismos que los que nos precedieron
Fallezcámonos de una vez de veras o cesemos simplemente de preceder
De preceder el cortejo de aquellos que nos precedieron de aquellos a los que seguíamos
No fallecemos cedemos la precedencia cedemos el paso
No fallecemos giramos en la invisibilidad de la danza
Pasamos el relevo de la locura la enfermedad la contaminación del ritmo
Falleciendo precedemos de otra manera otramente otra danza más grande
Precediendo a aquellos que ahora preceden la danza que precedimos
Ninguno precederá ninguno fallecerá al final puesto que el círculo nos abraza
Y que girando sobre nosotros mismos simplemente hacemos girar la danza
Sabemos que danzamos nos disfrazamos de danzarines lentos
Nos autoenmascaramos con la lentitud la realidad de nuestra danza
Nos ocultamos la locura que consiste en recuperar en reproducir las figuras
Porque la infancia de la danza es siempre la que corre ante nosotros
Con nosotros a la zaga corriendo tras la figura infantil de la danza
Cuántos amaneceres desde el primer día de la Creación Recreación.
Cuántos millones de miles de millones de amaneceres lo mismo multiplicado por sí mismo
Cuántas repeticiones cuántas máscaras de nosotros mismos de una vez
No fallecemos no dejamos de preceder nuestra precedencia
Todo fue nosotros ancestralmente será nosotros anteriormente a la anterioridad
Existen dos sentidos en nuestra vida tal como dos maneras de girar en la danza
No existe más que una danza que nuestras figuras simulan bailarla nos liberará
La danza nos liberará del retraso la lentitud que padecemos al sucedernos
La danza nos hará regresar a la precedencia de precedencia
Nunca se da una inmovilidad contra la danza
Nunca se da una inmovilización del movimiento con la muerte de la danza
Se da la liberación de aquello que continúa
Se da la liberación de la repetición
Se da el regreso mismo en sí mismo sobre sí mismo

   Darras, Jacques. Arqueología del agua, Antologia 1988 - 2001. Madrid: Libros del Aire, Madrid,
2011, pp 123 - 127 (Edição bilingue; notas e tradução de Miguel Veyrat).
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" Pero qué es una poesía que ya no quiere dejarse llevar por el canto? "

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" Poema 2 do ciclo Nombrar Namur "

En el hombre, la voz que canta se escucha bajo la voz que habla.
La voz del canto está al fondo de la garganta más cerca de los pulmones que la palabra.
Que asimismo está más hacia adelante, hacia afuera, cerca de los dientes,
Más cerca del afuera.
La voz del canto está atrás, más atrás, en el desfile que enfila la respiración a la salida de los pulmones.
La voz del canto es alimentada directamente por la respiración de los pulmones.
Que asimismo son alimentados por el corazón y el pulso de la sangre.
La voz del canto es como un clima interior.
Un cielo interior.
Respiración y sangre forman um especie de microclima que se parece un poco al de las playas litorales.
El mar, la sangre.
El viento, el respirar.
Las olas, la onda del canto.
El cielo, qué pintaria al cielo en todo esto?
El cielo sería la oreja que escucha.
La voz del canto se calienta directamente con la sangre de las arterias pulmonares.
Es lo que hace que los hombres tengan la voz más o menos cálida,
Eso se debe al corazón, eso se debe a la sangre.
Ved qué bien nos informan los aparatos de teléfono o micrófono que son como los intrumentos médicos para auscultar la voz.
Son lupias, son filtros para detectar, concentrar lo que en las voces llega de verdad desde la pequeña caja pulmonar de resonancias vocales.
Excluyendo todos los parásitos.
Al abrigo de toda interferencia externa como el coeficiente de enfriamiento de la palabra al contacto del aire.
Como el coeficiente del ángulo de incidencia de la penetratión de la palabra en el aire.
Así pues, poniéndome como mi proprio ejemplo, observo que en la conversación corriente mi voz es sorda.
Oigo que no la oyen.
Oigo también que no tengo especial empeño en que la oigan.
Esto explica aquello.
Conservo dentro lo más cálido de mi cálida voz bien calentita.
En su cielo, en mi clima interno.
Existe una intimidad de la voz.
Una intimidad escondida, un pudor de la voz.
Un pudor casi sexual o amoroso de la voz.
No siempre empleo mi voz con todo el mundo.
Ni mi playa con ondas vocales.
Ni mi sangre.
No soy un donante de sangre vocal universal.
No soy un tenor ligero en continuo arrullo.
Soy un barítono claro.
Barus, en griego, quiere decir grave.
Grave pero claro.
Soy muy sensible al barómetro.
Pongo más o menos tensión, calor en mi voz según las circunstancias.
Fuerzo más o menos la caldera.
La voz es un órgano de seducción.
La voz es un órgano sexual.
Del que tiene, por cierto, casi la forma y los atributos.
Órgano sexual de lo alto.
En los pájaros el canto sirve para aparearse.
Mas, para qué sirve la voz cuando se es poeta?
Para qué clase de apareamiento puede servir la poesía?
Sobre todo cuando ya no canta.
Cuando ya no quiere saber si confunde la voz de canción con la voz de palabra.
Cuando quiere ser poema no cantante.
Cuando confundiría casi con un parásito su ritmo interno prosódico irreprimible.
Un parásito de la sangre antigua residual.
Pero qué es una poesía que ya no quiere dejarse llevar por el canto?
Es decir, por el corazón, la sangre, el clima pulmonar?
Se puede no querer seducir, en poesía?
Sin duda, si se quiere permanecer soltero.
En el celibato del poema.
Sin duda.
En tales condiciones el pudor climático ya no basta.
Hay que bajar el barómetro.
Regular de otro modo la caldera pulmonar.
Del pudor pasar a la frialdad.
Gregoriana?
Aún no es bastante rigurosa!
Oyes, Reverdy?
Ajusta un poco tu sayal en Solesnes, cariño!
Veo que aún desvelas demasiado tu intimidad.
Tus pulmones yacen por tierra, sucio pequeño surrealista.

     Darras, Jacques. Arqueología del agua, Antología 1988 - 2001. Madrid: Libros del Aire, 2011,
pp 91 - 97 (Edição bilingue com notas e tradução do francês por Miguel Veyrat).
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25/03/12

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        " A Derrota "

 
Então a derrota é este sofá com todas
estas almofadas acompanhando a curva
do meu corpo prostrado? Comprei o pacote
mais caro de canais não tenho calor nem
frio e brevemente ela não virá tocar-me
à campainha ( o deserto é desimpedido
vê-se desde a varanda até longa distância).

Não dói assim tanto afinal e se excluir
a infelicidade que deveras sinto
ser feliz será qualquer coisa semelhante.

  Gregório, António. American Scientist. Vila Nova de Famalicão: Quase Edições, 2007, p 51.
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      " A Compaixão "


Algum tempo depois alguns amigos
abeiraram-se de mim abeirado
do poço de onde só o eco vinha
aos meus apelos: disseram-me é em
vão pousando ternamente as mãos nos
meus ombros nos meus braços ternamente
as mãos nas minhas mãos que era melhor
desistir: rareavam os retornos
das quedas àquela profundidade.

Já em casa tive ao telefone outros
amigos amigos que vivem no
outro lado do mundo perguntando
como te sentes? dizendo que a viram
quase hesitante - alguns juraram mesmo
que ela hesitou - abeirada do poço
mas o poço varava o mundo e não
havia perto possuidor de
corda bastante para o meu resgate.

Afectei acreditar e também
que sabendo de todas estas coisas
era deveras menos infeliz.

    Gregório, António. American Scientist. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p 35.
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23/03/12

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 " As Raízes Persistentes "

         para Albano Martins
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Traça a nítida verticalidade do gesto.
O atento sentido da página, aquele
que, paralelo ao vento, se lança
sobre os eucaliptos, sobre as janelas
entreabertas ou na colina que aos lábios
se oferece. Desenha o voo das gaivotas

através de um oceânico azul, ali,
onde os hipocampos se perfilam e o desejo,
nos andaimes da espuma, é um murmúrio
de praias ensolaradas. Arranca da porta
as ervas daninhas, essa baba de palavras
mecânicas eivadas de vazio com rastos

de inércia à mistura. Observa, por fim,
o movimento das algas firmando-se
nas crateras das rochas, na inteireza
dos poros intraduzíveis, pois, como o poeta,
é assim o dizer que não vacila, as raízes
persistentes e são assim as algas.

   Mateus, Victor Oliveira in 100 Poemas para Albano Martins. Fafe: Editora Labirinto, 2012, p 119 ( org. Maria do Sameiro Barroso, prefº Eduardo Lourenço).
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22/03/12

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  " Búscate en mí "

Alma, buscarte has en Mí,
Y a Mí buscarme has en ti.
  De tal suerte pudo amor,
Alma, en Mí te retratar,
Que ningún sabio pintor
Supiera con tal primor
Tal imagen estampar.
  Fuiste por amor criada
Hermosa, bella, y ansí
En mis entrañas pintada,
Si te pierdes, mi amada,
Alma, buscarte has en Mí.
  Que Yo sé que te hallarás
En mi pecho retratada
Y tan al vivo sacada,
Que si te ves te holgarás
Viéndote tan bien pintada.
  Y si acaso no supieres
Dónde me hallarás a Mí,
No andes de aqui para allí,
Sino, si hallarme quisieres
A Mí, buscarme has en ti.
  Porque tú eres mi aposento,
Eres mi casa y morada,
Y ansí llamo en cualquier tiempo,
Si hallo en tu pensamiento
Estar la puerta cerrada.
  Fuera de ti no hay buscarme,
Porque para hallarme a Mí,
Bastará sólo llamarme,
Que a ti iré sin tardarme
Y a Mí buscarme has en ti.

  Jesús, Santa Teresa de. Obras Completas. Madrid: La Editorial Catolica, S.A., 1986, p 655.

21/03/12

" e cá comigo nam vou. "

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Coitado, quem me dará
novas de mim onde estou?,
pois dizeis que nam som lá,
e cá comigo nam vou.

Tod' este tempo, senhora,
sempre por vós preguntei,
mas que farei, que já agora
de vós nem de mim nam sei?
Olhe Vossa Mercê lá
se me tem, se me matou,
porqu' eu vos juro que cá
morto nem vivo nam vou.

   Miranda, Sá de ( Canc.de Res., III, 154-5). Florilégio do Cancioneiro de Resende. Lisboa: Seara Nova, 1973, p 26 ( Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa ).
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" eu não me soube guardar: "

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Cerra a serpente os ouvidos
à voz do encantador;
eu nam, e agora, com dor,
quero perder meus sentidos.
Os que mais sabem do mar
fogem d' ouvir as Sereas;
eu não me soube guardar:
fui-vos ouvir nomear,
fiz minha' alma e vida alheas.

   Miranda, Sá de (Canc. de Res., III, 155-6). Florilégio do Cancioneiro de Resende. Lisboa: Seara Nova, 1973, p 25 (Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa).
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20/03/12

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Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
e, se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
porque estes tão ligeiros que passais,
nem todos para um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
que quase é outra cousa; porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.

  Camões, Luís de. Lírica Completa, Vol. II. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1980, p 194.

Notas de Maria de Lurdes Saraiva:
Saudades antigas, eternas, luzem sob a cinza do tempo inexorável e acenam com ilusórias esperanças. Mas o passado passou. E, ainda que o tempo pudesse tornar atrás, os anos vividos não se podem esquecer. Aquilo que o Poeta amou mudou tanto que é agora outra coisa. O tempo amargurou o gosto da juventude. A Fortuna hostil, o Tempo errado não permitem já esperanças de novas alegrias.
Publicado pela 1ª vez em 1598.
V. 3-4 - Cf. redondilhas "Sobre os rios que vão", 86-95: "Acha a tenra mocidade/ prazeres acomodados,/ e logo a maior idade/ já sente por pouquidade/ aqueles gostos passados./ Um gosto que hoje se alcança/ amanhã já o não vejo./ Assi nos traz a mudança/ de esperança em esperança,/ e de desejo em desejo".
V. 5 - anos, - no sentido de passado.
V. 6 - ligeiros - rápidos.
V. 7 - O sentido é talvez: os anos que entretanto passaram foram diferentes ( para cada um dos amantes).
V. 10 - dias - tempo.
V. 11 - primeiro gosto - primeiro amor.
V. 14 - espias - amarras, seguranças, apoios.
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18/03/12

" Que vês em mim, Senhor? que vês em quem/ Em tuas mãos se mete tão segura? "

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 ( Cena que antecede a execução de Inês de Castro, acusada de conspirar contra a segurança do reino.)

CASTRO

Meu senhor,
Esta é a mãe de teus netos. Estes são
Filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Para eu segura, e livre t' esperar,
Em ti, e em minh' inocência confiada.
Escusaras, Senhor, todo este estrondo
D' armas, e Cavaleiros; que não foge,
Nem se teme a inocência da justiça.
E quando meus pecados me acusaram,
A ti fora buscar: a ti tomara
Por vida em minha morte: agora vejo
Que tu me vens buscar. Beijo estas mãos
Reais tão piedosas: pois quiseste
Por ti vir-te informar de minhas culpas.
Conhece-mas, Senhor, como bom rei,
Como clemente, e justo, e como pai
De teus vassalos todos, a quem nunca
Negaste piedade com justiça.
Que vês em mim, Senhor? que vês em quem
Em tuas mãos se mete tão segura?
Que fúria, que ira esta é, com que me buscas?
Mais contra imigos vens, que cruelmente
T' andassem tuas terras destruindo
A ferro, e fogo. Eu tremo, Senhor, tremo
De me ver ante ti, como me vejo.
Mulher, moça, inocente, serva tua,
Tão só, sem por mim ter quem me defenda.
Que a língua não s' atreve, o esprito treme
Ante tua presença, porém possam
Estes moços, teus netos, defender-me.
Eles falem por mim, eles sós ouve:
Mas não te falarão, Senhor, com língua,
Que inda não podem: falam-te co as almas,
Com suas idades tenras, com seu sangue,
Que é teu, te falarão: seu desamparo
T' está pedindo vida; não lha negues.
Teus netos são, que nunca téqui viste:
E vê-los em tal tempo, que lhes tolhes
A glória, e o prazer, qu' em seus espritos
Lhe está deus revelando de te verem.

REI

Tristes foram teus fados, Dona Inês,
Triste ventura a tua.

CASTRO

Antes ditosa,
Senhor, pois que me vejo ante teus olhos
Em tempo tão estreito: põe-nos ora,
Como nos outros sóis, nesta coitada.
Enche-os de piedade com justiça.
Vens-me, Senhor, matar? porque me matas?

REI

Teus pecados te matam: cuida deles.

CASTRO

Pecados meus! ao menos contra ti
Nenhum, meu Rei, me acusa. Contra Deus
Me podem acusar muitos: mas ele ouve
As vozes d' alma triste, em que lhe pede
Piedade. O Deus justo, Deus benigno,
Que não mata, podendo com justiça,
Mas dá tempo de vida, e  espera tempo
Só para perdoar: assi o fazes,
Assi o fizeste sempre: pois não mudes
Agora contra mim teu bom costume.

     Ferreira, António. Castro e Poemas Lusitanos. Lisboa: Verbo Clássicos, 2006, pp 298 - 301.
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16/03/12

" Não lhe apagou o amor a nova esposa; "

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 " Excerto de um diálogo entre Inês de Castro e sua ama "

CASTRO

(...)
Não lhe apagou o amor a nova esposa;
Não o tão festejado nascimento
Do desejado parto: antes mais vivo
Co tempo, e co desejo ardia o fogo.
Que fará? se o encobre, então mais queima.
Descobri-lo não quer, nem lhe é honesto.
Mas quem o fogo guardará no seio?
Quem esconderá amor, que em seus sinais
A pesar da vontade se descobre?
Nos olhos, e no rosto chamejava.
Nos meus olhos os seus o descobriam.
Suspira, e geme, e chora, a alma cativa
Forçada da brandura, e doce força,
Sujeita ao cruel jugo, que pesado
A seu desejo sacudir deseja.
Não pode, não convém: a fúria cresce.
Lavra a doce peçonha nas entranhas.
Os homens foge, foge a luz, e o dia.
Só passeia, só fala, triste cuida.
Castro na boca, Castro n' alma, Castro
Em toda parte tem ante si presente.
Ele à mulher cuidado, eu ódio, e ira.
Arde o peito a Costança em furor novo.
Nem me ousam descobrir, nem vedar nada.
D' antiga Casa Castro em toda Espanha,
Já dantes do Real ceptro deste Reino
Por grande conhecida, inda meu sangue
Do real sangue seu tinha grã parte.
Mas inda à natureza dobram força,
Arte ajuntando, e manha: el-Rei ao neto
Por madrinha me dá, comadre ao filho.

AMA

Cegos, que quanto mais vedam, mais chamam.
Cresce co a força Amor: e o que à vontade
Se faz mais impossível, mais deseja.

CASTRO

Em fim, fortuna, que me já chamava
Esta glória tão grande, quebra o nó
Daquele jugo a meu amor contrário.
Leva ante tempo a morte a Infanta triste.
Herdo eu mais livremente o amor constante,
Que a mim se entregou todo, e todo vive
Na minh' alma, onde está seguro, e firme,
Já com doces penhores confirmado.
(...)

   Ferreira, António. Castro e Poemas Lusitanos. Lisboa: Verbo Clássicos, 2006, pp 231 - 233.
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15/03/12

Acerca de...(XI)

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O que mais me impressionou nessa poesia é a tensão constante entre o discurso e a forma do verso. Se é que de verso se trata. Temos de fazer algum esforço, colocar a linha entre parêntesis, para ouvir mais próxima a cadência dos outros versos, que se escondem dentro e ao redor dos definidos pela tipografia. Ao mesmo tempo, os cortes trazem um princípio de medida. Muito além, entretanto, do limite das doze sílabas: bárbaros, como se dizia. Em alguns poemas, a persistência do número de sílabas (em extensões médias de catorze, por exemplo) cria como um discurso duplo. Há uma frase que se ergue pela força do sopro lírico - a direção entusiasta da frase, para aproveitar remotamente uma formulação de Mallarmé - e que se vaza num molde abstrato, que a rompe, sem a impedir de se afirmar no seu ritmo próprio. Lembrando versículos entranhados num corpo estranho, o fraseado impõe aos poucos os princípios da sua regularidade, de que resultam interessantes harmónicos de sentidos. Por qualquer ângulo que se olhe, o que este livro faz é expor uma percepção aguda de cambiantes e contrastes. Uma desproporção anima o embate dos opostos: interior e exterior, carência e posse, olhar para o outro e olhar do outro, sensação de partida e anseio pelo regresso. O discurso constitui os temas. A forma do verso os cristaliza, por meio do corte violento e aparentemente arbitrário, dos blocos regulares de linhas que se sucedem além dos requisitos ou emblemas da sintaxe, nos quais de repente brilha uma frase repetida, modulada agora pela nova posição em que se encontra. O motivo do retorno dá o título e tom dos poemas. O poeta retorna pela memória, pela celebração do momento efémero. Retorna a si mesmo, à história de si que repete à beira do momento do abismo. Mas as suas palavras recusam o retorno fundamental. Apenas como desenho abstrato e como injunção de leitura se define esse verso. A voz coletiva do pulsar antigo aparece como escolho, ponto de referência, tentação. Por isso talvez não sinta que há de fato um tu nesses versos. Ainda quando surja, é uma duplicação da voz, um espelho, um caminho ou uma fuga de si mesmo. Uma busca, afinal. Mas essa, apesar da intenção, nunca redunda em retorno, nem se resolve em reencontro, mas apenas em viagem cujo fim só poderá ser também o fim do viajante. O que senti quando li este livro é que, para um desígnio tal e uma tal concepção do tempo e dos limites da própria percepção, a vida é mesmo um milagre, o verso também e, maior que todos, seria o regresso, se pudesse acontecer.

    Paulo Franchetti in Mateus, Victor Oliveira. Regresso. Fafe: Editora Labirinto, 2010, pp 43 - 44.
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Acerca de...(X)

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Difícil a tarefa de apresentar Regresso, de Victor Oliveira Mateus, que o leitor tem ora em mãos. E difícil por dois motivos, em especial: primeiro, porque o seu autor, poeta que é, é sempre e em tudo avesso a definições; depois, porque, levando ao paroxismo certa tendência da poesia portuguesa, o livro é todo ele uma aposta, incondicional e sem reservas, na atualidade dessa tendência, a qual, esta sim, pode definir-se como "um não sei quê, que nasce não sei onde,/ vem não sei como, e dói não sei por quê", segundo o insuperável dístico de Camões.
Trata-se, pois, aqui, de amor e memória: e entre eles a poesia, a fazer de ponte, a mediar entre o que foi e o que está sendo. É um dos "grandes temas" de sempre, caro leitor, a que assim chamamos, de resto, não por outro motivo, senão apenas porque não passam. Como Ulisses, Ítaca e o tema do regresso.
O regresso de Victor, porém, tem mais de Santo Agostinho que de Homero: é antes um retorno a si mesmo, in te ipsum redi. E a poesia, para ele, é exatamente esse caminho de volta, de um presente precário a um passado diáfano, cujo resultado, ou efeito, no fim de contas, não é nem remissão, nem negação de si: mas a algo mais modesta, e sempre mais difícil, aceitação da precariedade de vida, e, nela, da diafaneidade do sujeito: "átomo de mim na mais aérea vastidão", diz o poema-título.
"E quem pode, com um dedo, apontar um aroma?", pergunta Rainer Maria Rilke, um dos poetas-filósofos por excelência, num dos mais belos versos dos Sonetos a Orfeu. É precisamente esse, não outro, o impasse que nutre, ou mais do que isso, que organiza, de um ponto de vista formal, Regresso, do poeta-filósofo Victor Oliveira Mateus. E já então o leitor informado poderá seguir a sutileza desse aroma, ora pelas ruas, ora no parque, ora num café de Turim. Não daquela, porém, senão de outra: uma cidade aérea e musical, onde as nossas certezas se desmancham, e onde as paixões, quando pulsam, estão "viradas para dentro".

   Érico Nogueira in Mateus, Victor Oliveira. Regresso. Fafe: Editora Labirinto, 2010, pp 9 - 10.
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14/03/12

Acerca de...(IX)

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A forte aptidão metafórica da poesia de Victor Oliveira Mateus, pelo inesperado de certas associações lexicais e pelo fulgor de imagens extremamente certeiras e originais, consubstancia-se numa fala subtil que se move em torno do movimento em direcção ao Outro e da noção de Ausência; nela joga-se a inquietação do sujeito num mundo polarizado entre o Absurdo e a Graça, o Efémero e a Luz.
Esta voz feita de palavras ancoradas num ritmo discursivo não nomeia, antes, faz escutar o rumor quase inaudível das pequenas coisas (muitas vezes até no Silêncio e pelo Silêncio no interior dos versos); sobretudo nos primeiros poemas da sequência de "A Noite e a Voz", o "tu" surge frequentemente como contraponto ao real, por vezes como uma espécie de oásis no Absurdo, representado por uma imagética sensorial de cores, luz, sons e odores - em que são recorrentes o "brilho", a "luz", a "estrela", a "cintilação", o "cristal", o ´"murmúrio", a "música", a "voz", o "cheiro". Presença evocada, por vezes partilhada (1.,2), presença metonímica e constante - o "olhar", os "olhos", a "boca" (4.,6.,11.) - associada ao "rigor dos afectos", ao "cataclismo dos desejos" (12.), mas inevitavelmente sob o signo da ausência, quer pelo movimento de chegada/ partida ou desencontro - sinal do efémero e paradoxal dos sentimentos (1.,2.,5.,7., 18.,20.,27.), de "assalto" (3.,4.) quer pela antecipação da mesma, pelo saber que "nada fica para sempre" (4., 11.). Mesmo quando há comunhão, partilha, esta é sempre marcada pela antecipação da disforia pelo "eu", suspenso "entre o eterno e o sabor inadiável da morte" (7.,8.,11.,21).
Ausência é ainda morte e Absurdo: morre-se "de ausência" (19.) e ausência dos "amigos mortos", o luto da perda primordial, arrasta consigo o Absurdo e o despojamento (24.,26).
Este movimento em direcção ao outro, embora simultâneo do sofrer do Absurdo e do Efémero, é também muitas vezes, uma busca do Sentido, de "outra coisa" (2.,6.) e a evocação dele, uma "subtil fresta/ aberta numa montanha de alcatrão e corvos secos" (3) ou um lampejo da Graça (6.). Assim, afectos/ fantasia/ interioridade opõem-se à "vastidão fria do labirinto" (10.) e à "voraz negritude da cidade" (5.), à exterioridade, sempre sinalizada negativamente: "efémero/ gotejando filamentos de absurdo" (2), "céu de bruma e desespero" (6.).
Mas as formas de aceder ao Outro são também solidárias, há no poema a integração da consciência crítica, a combinação de uma dimensão ética e poética na abordagem do quotidiano (15.,23.,24.,28.).
Consiste muitas vezes no silêncio o mais perfeito abrigo para a alma, sobretudo quando o Absurdo atinge com a força de uma realidade opaca e cega, mas a poesia pode não limitar-se ao dizer - e por isso, cenários como a guerra, o "bombardeamento sobre a Sérvia/ que deixou todos aqueles mortos na estrada" e a doença, o insidioso cancro mudo do "adolescente do gorro de lã" e dos "três velhos da sueca" sublinham, expõem cruamente esse binómio ausência/ absurdo, chaves para a leitura da rede de sinais do horizonte poético de Victor Oliveira Mateus, igualmente presentes nestes textos em que o Outro assume tais contornos colectivos e sociais: o absurdo na ausência de sentido da guerra (15) e da doença (16.,17.).
Não obstante, Absurdo e Graça coexistem na deslumbrante leveza dos sinais que a beleza do mundo nos oferece e que esta poesia assinala, como se aquilo que verdadeiramente é nunca possa ficar preso nas teias do primeiro: a inocência da joaninha (25.) e do esquilo, "pequena roda de maravilha na maquinaria desdentada do mundo" (28.), a ilha onde "apesar de tudo" há "uma lucerna/ pequenina, um pássaro nunca visto no halo fresco da madrugada" (23.), "a alegria das coisas simples" (29). Aliás, abandonada a incessante busca do Outro, superados a Ausência e o Absurdo, chega-se ao despojamento, à iluminção do Grande Despertar, já entrevisto nos poemas sobre a morte.
Perpassa por toda esta escrita uma espécie de sabedoria que integra ainda na sua voz os elementos da natureza: "água", "fogo", "sol", "lua", "rio", "planta", "ave", e sabe transmitir a vibração de cada um dos seus mais ínfimos átomos às palavras dos versos: passado o caminho dos "longos ribeiros quase secos", das "velhas estradas de pedra", no final de um percurso no qual o Outro, as paixões, o Absurdo e o Efémero marcaram as vivências do sujeito, faz-se a superação - "Passado está, enfim, todo o caminho: ponte, provação necessária" (31.) e opera-se a passagem para a Iluminação, para o Grande Despertar - a sós e ao som da música.
E assim, na "continuação da Noite,/ interminável " (30.) se chega à síntese, pela superação dialéctica - a Poesia é a Voz e a Voz a Poesia, lugar da serenidade, da aceitação e do apaziguamento possíveis no mundo da ausência.

   Ana Paula Dias in Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, pp 5 - 7.
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13/03/12

(Um) Prefácio.

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 " Tempo e Transcendência na poesia de Tiago Nené "

O novo livro de Tiago Nené, logo no primeiro poema, e em jeito de nos transmitir o verdadeiro método de interpretar, firma o que irá ser o princípio estruturante de toda a obra: por um lado, os obstáculos do real na sua dualidade de acidentes na superfície da terra e de coisa a realçar: o relevo ( a vontade do editor ) - mas atente-se, contudo, que este relevo, apesar de algumas vezes aparecer como estático e imutável, é ele que desempenha sempre a função de móbil da acção -; por outro lado, o modo de apreensão desse mesmo real, que não é a razão nem nenhum dos sentidos exteriores, mas sim o coração (... foram os únicos/ que leram o poema que escrevi;) e, finalmente, o tempo, que nos surgirá numa multiplicidade de formas. Esta a tríade que atravessará todo o texto. Aliás, neste primeiro poema constata-se que o plano da coincidência com o real, da apreensão do em-si da coisa, não se faz pela eliminação do sujeito, mas tão-só que este feche os olhos e, suspendendo o tempo, conceba um azul ( o do céu ) emanação de um outro primordial ( a folha azul ), que o criador não pode dar a ver.
Esta errância do eu-poético no tempo, muitas vezes geradora de nostalgia e angústia, conduz-nos à necessidade de entender os vários territórios da temporalidade em que ocorre o périplo poético, e Tiago Nené é minucioso e exaustivo quanto a esse aspecto: o tempo cronológico ( in Jardins Hamarikyu ), o tempo pensado ( in Mulher inexorável ), o tempo meteorológico ( in Azul, segunda estrofe ), o tempo vivenciado ( in De certo Modo ), o tempo actualidade sociocultural ( in Europa ) etc. Mas o poeta não se fica por uma mera enumeração, toda a obra é trespassada pelo digladiar das três determinações essenciais da temporalidade: o passado - " ficamos a respirar o ar um do outro, o ar de um passado/ que nos construiu..." ( in Mapa-Múndi ); o presente - " é que para essas pessoas, estas que agora sobem semi-ausentes/ de si mesmas para um eléctrico " ( in Estação de Outono ); o futuro - " e quando regressares do presente interrompido/ não saberás se és magnólia ou violeta;" ( in Evaporação ). Mas Tiago Nené não se limita ao manipular dos fios de uma já tão conseguida urdidura, vai mais longe: concomitante com este ser no tempo é todo um conjunto de memórias, de observações e de inquietações que vão sendo desfiadas e que desembocam no desencanto do eu-poético, numa sensação de falha impreenchível com constantes alusões à perda e à morte. Se não se vislumbram quaisquer influências de autores como Antero, Florbela ou Nobre, o que é um facto é que se percebe estarmos aqui frente a uma escrita de uma extrema melancolia.

nunca quis ser só distância
sempre houve cavalos
seguindo a minha inutilidade prosperante,
palavras comprometidas com toda a imitação
de sentimento e bicho.
sempre me esvaziei da responsabilidade
de semear o meu tempo,
cresci ajoelhado, em constante
importância assintomática.
depois soube que o tempo castiga
um silêncio em silêncio
e então comecei a guardar as palavras.

   ( in O Guardador de Palavras )

o tempo é o eco da primeira palavra
esquiando sobre o gelo fino;
eternamente repito a ignorância
permanecente nos seus cabelos longos
e eléctricos;
estou de novo no começo da falha
apesar de o tempo ter os pés em chamas
e correr como sangue não reconhecido
...

   ( in Subgluttiare )

Este último excerto traz para a boca de cena aquilo que é o nó górdio que continuará marcando indelevelmente o coração de tempo ( o eco da primeira fala; ), pois a eternidade é a única intemporalidade possível ( in Carta a um jovem poeta ). Como entender um coração de tempo agindo, e sentindo, nesse mesmo tempo, já que sempre acicatado por todo um relevo móbil, que constantemente se afirma num modo peremptório e de relevo? Esta é a pergunta a que o poeta tenta responder; esta é também uma das questões fundamentais que tem marcado a cultura ocidental. Stephen Hawking, contestando a teoria aristotélica do lugar natural, bem como a concepção de tempo absoluto que vigorou até Newton, é bastante claro quando se refere ao Bing Bang: " Se houve acontecimentos antes desse tempo, não podem afectar o que acontece no tempo presente. A sua existência pode ser ignorada, por não ter consequências observáveis." (1) Numa outra passagem desta obra Hawking cita, com pouco rigor, o gracejo referido por Santo Agostinho de que Deus preparava o inferno para quem perguntasse o que fazia ele antes da criação; é evidente que essa alusão pretende afirmar que, numa perspectiva religiosa, só faz sentido falar de tempo após o Big Bang, mas Santo Agostinho, numa invocação a Deus, - e para o que aqui nos interessa - reitera, na sua abordagem, a existência de um plano imutável e eterno: "(...) e o vosso dia não é um mero acontecimento quotidiano, é um perpétuo hoje, já que esse vosso hoje não cede lugar a um amanhã e o amanhã não sucede a um ontem. O vosso hoje é a Eternidade..." (2). Esta dicotomia entre um tempo onde somos chamados a ser, e a agir, de acordo com todos os relevos móbiles, e uma eternidade com a qual o nosso coração de tempo se mede e se confronta, não é exclusiva dos autores cristãos: século e meio antes de Agostinho de Hipona, Plotino tinha discorrido já sobre o mesmo tema, numa perspectiva radicalmente distinta. Plotino, no seu quadragésimo quinto tratado, Da Eternidade e do Tempo, estabelece, logo no início, que este só pode ser medido a partir da eternidade, depois, ao longo de toda a obra, vai inventariando o que essa eternidade não é, por fim - e recusando a ideia de Criação!- , este neoplatónico é peremptório ao defender que a temporalidade não depende já da vontade de um qualquer deus, mas da natureza curiosa da acção, isto é, da alma que, recusando a sua permanência no suprasensível, se encaminha depois para o sensível, inaugurando assim o tempo: "(...) a alma recusa que todo o ser inteligível lhe seja presente de imediato. Ela actua como a razão espermática que sai de um germe imóvel, desenvolvendo-se evoluindo a pouco e pouco, parece, na direcção da pluralidade, e manifesta essa mesma pluralidade cindindo-se (...) ela perde a força que lhe é própria durante este caminhar." (3) Depois deste perambular por temas fundamentais da cultura do ocidente, poder-se-á estabelecer a ponte com a poesia de Tiago Nené, através de alguns dos sesu versos, para assim dar a ver o quanto esta mesma poesia se encontra enraizada no que de mais arguto e inquietador uma dada cultura tem pensado: " lêem-nos nos olhos um intemporal esquisito e uma/ omnipresença pecadora, um dia à luz da vela" ( in  Jardins Hamarikyu ), "corrompidas até ao osso efémero;/ e é tudo um material de luxúria(...)/ o emprenhar do infinito nas cores da boca;" ( in O Fim Vai Dentro do Corpo do Começo ). Convém acrescentar, no entanto, que este almejado "para lá" de um sensível turbilhonar é alcançado, não por uma evasão desse mesmo sensível, mas por um acto transmutativo operado por um coração de tempo após a evidência de todos os relevos móbiles; Tiago Nené, como Plotino e Agostinho de Hipona, aceita a existência dos já referidos dois planos, mas, ao contrário deles, escreve que o seu "além" só pode abrir-se no "aqui", e através de uma nova tríade: o Amor, a Poesia e a Autenticidade:

é possível que viver signifique contrafazer-me,
sim, é possível, desmontar o inato toda a vida,
as crenças, as igualdades e impossibilidades inatas,
os sorrisos que parecem astros de culto;
tudo é possível, mas requer um convencimento,

     ( in Um Círculo Hermético )

um tempo nunca se explica a si mesmo,
um tempo é explicado por outro tempo,

o meu problema é amar-te sem saber
qual o tempo que o explica

     ( in (...) )

poesia é a arte metafísica de escavar as palavras
e encontrar outras palavras;
e escavar estas palavras e encontrar outras
palavras;
foi assim que escrevi o teu corpo
e, escavando as suas palavras; encontrei
outras palavras
que diziam ser a outra metade da solidão a esperança
e os nossos corpos
o princípio da distância;

      ( in O Princípio da Distância )

Esta poesia vinca a ideia de que a transcendência se afirma como um trancender no "aqui", lugar onde Poesia, Amor e Autenticidade se deverão interligar para imprimir num coração de tempo  não só momentos de plenitude, mas sobretudo a mais lúcida angústia (4) motivada por tão ingente projecto poético-existencial.
Convém acrecentar que esse Outro passível de uma vivência amorosa, de uma partilha autêntica e de poetificação não se restringe à figura de um ente específico (humano ou não), ele possui, em vez disso, um carácter universal e abrangente, isto é, o que o eu-poético persegue acima de tudo - embora nunca o diga de forma directa!- é essa comunhão amorosa, autêntica e poética com tudo aquilo que é: "(...) mas aqui estás tu, dormindo/ na minha revista científica, sobre a qual os/ pulmões dos meus dedos te escutam" (in A Criança de Neandertal ), "(...) e só quando/ a sua bondade se exercitou na sede de outrem,/ na lama, e depois no mais inalcançável," ( in Instinto ), " dos que sofrem impossivelmente/ sobre os detritos das palavras, sobre/ o humor aleatório do tempo;" ( in Europa ).
A um intento complexo do sentido, correspondem, nesta poesia, preocupações estilístico-formais igualmente abrangentes: não se demarcam fronteiras nítidas entre o metafórico, mesmo que as metáforas tenham o sabor do mercúrio ( in Criaturário, sobretudo os dois primeiros versos deste poema), as comparações de grande riqueza imagética e um quotidiano de referencial imediatista; utilizam-se aspectos de todo um aparelho pertencente às ciências exactas, quer através de títulos ( O Princípio da Distância, Definição por Comparação ), quer na estrutura do próprio texto, como é o caso do irrepreensível poema "Um excerto de experiência", que me fez lembrar a Teoria da Relatividade; já na linha do seu livro anterior, o poeta dialoga com outros autores quer através de epígrafes quer de poemas ( in O Bom Poeta, Carta a um Jovem Poeta - a fazer lembrar Rilke -, Canção Para Matsuo Bashô) e neste livro o diálogo alarga-se à música ( in Subluttiare ) e ao cinema ( in A Idade da Inocência ), finalmente urge também não esquecer um discorrer de cariz metapoético que poreja em muitos dos poemas.
Por tudo o que já referi, penso estarmos ante um livro de poesia que alia, de forma admirável, um excelente domínio da escrita e de estruturação das diversas unidades poemáticas na sua conjugação com a obra enquanto todo, com preocupações de grande riqueza de sentido; talvez porque - quem sabe?- para Tiago Nené aquilo que existe e/ou é não se resuma à mera possibilidade de se autofrequentar ( in A Dimensão do Ser, 11º - 13º versos).

(1) Stephen W. Hawking, Breve História do Tempo, Gradiva, Lisboa, 1988, p 27 ( Relativamente a este tópico ver igualmente: Les lois du chaos de Prigogine, Flammarion, e O Nascimento do Tempo de Ilya Prigogine, Edições 70; Lisboa, 1988, pp 51 - 60).
(2) Saint Augustin, Les Confessions (Livre onzième, chapitre XIII ), Garnier-Flammarion, Paris, 1964, p 263 (tradução de minha autoria).
(3) Plotin, Troisième Ennéade (III, De L'Éternité et du Temps), Les Belle Lettres, 2002, p 241 (tradução de minha autoria)
(4) Cf. paragº 15 ( El ser de los entes que hacen frente en el mundo circundante) e paragº 40 ( El fundamental encontrar-se de la angustia, señalando "estado de abierto" del "ser ahí) in El Ser u el Tiempo, Martin Heidegger, Ediciones F.C.E., Madrid, 1980 ( Traductión de José Gaos.)

  Victor Oliveira Mateus in Nené, Tiago. Relevo Móbil Num Coração de Tempo. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2011, pp 7 - 14.
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11/03/12

" No trates de hacer tu cama sobre el frío."

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  " Poema 1. do Ciclo La Morada "

No trates de hacer tu cama sobre el frío, que los gorriones dolerán:
yo tengo en mi casa unas jaulas con gorriones y se morirán todos
si es que tienes frío: y las jaulas torcerán sus barrotes sobre mi cara
si es que no te prevengo, si es que yo no te tapo con un trozo de pan.
Sobre un gorrión dormido en la estrella polar, yo no haré mi cama,
y no me haces caso. Tú no me sigues y caes sobre el viento,
y le mendigo a la noche un pedazo de cobija. Y te vuelves morado.
Le mendigo a los perros untrozo de piel para no ver tus dientes.
No trates de hacer tu cama sobre el frío. No estaré para lavarte!
No estaré para darte el vapor en la frente, leyéndote las aguas.
No estaré para contarte la saga de mis padres que un día partieron
a la aurora boreal - más allá de estos pastos - con zapatos de hielo.
Yo tiengo en mi casa unas jaulas con gorriones y se morirán todos
si es que yo me olvido y no fundo los zapatos que tú te pusiste.

    Montealegre, Pedro. La palabra rabia. Valencia: Editorial Denes
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"(...) yo quería también que tocaras la medusa/ que me late acá dentro... "

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 " Poema 2 do Ciclo La Morada "

Yo tengo en mi casa una estrella de mar. Yo mismo la busqué:
puse aire en la alforja y fui a lo abisal a encontrar esa estrella,
porque la quería en tu barba, para que me vieras la albura
por debajo de la ola: yo quería también que tocaras la medusa
que me late acá adentro. Y si era dado de que a ti te gustara,
si es que te araba esa estrella y te la guardabas al fondo,
no tendríamos frío y cantaríamos la espuma igual que delfines.
Me dirías lo mucho que sabe una sal en los ojos: el mar,
ese ojo que espera tragarnos como yo. Tan igual. Otro ojo:
y espero tragarte. Y espero que sientas la estrella marina,
porque mi casa es la estrella, porque mi casa es el mar.
Y espero que haya un mar que te extienda hacia adentro.

     Montealegre, Pedro. La palabra rabia. Valencia: Editorial Denes

NOTA: As referências bibliográficas referentes ao poeta chileno Pedro Montealegre estão incompletas por não ter tido ainda aceso aos seus livros, facto que em breve solucionarei, contudo, através da correspondência que trocámos, tenho a sua autorização para estas postagens.
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10/03/12

"(...) e o/ resultado/ de tudo isto, se assim tiver de ser, é a palavra/ mais vulgar do mundo;"

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  " Mapa-Múndi "
( os dois hemisférios)

ficamos a respirar o ar um do outro, o ar de um passado
que nos construiu, que mais
do que nos fazer sobreviver, sobreviveu ele mesmo em
nós:

é um ar que continuamos a respirar, que mal se distingue
do ar comum, e eu sinto o teu, sabe
a laranja sepultada em chocolate negro,
como um pequeno abraço
no busto de um lagarto feliz:

respiro-o como se o sugasse, com uma palhinha
de sombra esquiva
que se ajusta aos contornos das imagens
que me arrombam os olhos:

e fazemo-lo mutuamente, e algum desse ar choca
no ar comum; outro
muda de cor ou de fruto ou cega um feitiço ou colhe
uma dália numa memória futura; quando
terminarmos por hoje, passaremos às lágrimas, e o
resultado
de tudo isto, se assim tiver de ser, é a palavra
mais vulgar do mundo;

  Nené, Tiago. Relevo Móbil Num Coração de Tempo. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora,
2011, p 51.
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" depois soube que o tempo castiga/ um silêncio em silêncio, "

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  " O Guardador de Palavras "

nunca fui só distância e entretanto
transmiti todos os meus lugares,
desde que o mundo é só água e palavras
e morro na iluminura dos olhos.
sempre cresci com pretensões
avulsas, vícios,
e as qualidades das metáforas.
um dia disseram-me que a morte
era um ciclo prévio, que os dons cristalizam
perfeitamente na memória
com auréola e senhora e a dor da confirmação.
nunca quis ser só distância,
sempre houve cavalos
seguindo em minha inutilidade prosperante,
palavras comprometidas com toda a imitação
de sentimento e bicho.
sempre me esvaziei da responsabilidade
de semear o meu tempo,
cresci ajoelhado, em constante
transmissão efémera, em constante
importância assintomática.
depois soube que o tempo castiga
um silêncio em silêncio,
e então comecei a guardar as palavras.

   Nené, Tiago. Relevo Móbil Num Coração de Tempo. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora,
 2011, p 19.
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09/03/12

"(...) reflexos/ Do sol de agora/ A criar memória. "

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  " Poema  23. "

As variantes de um riso descontraído
À mesa do café. A chávena
Segura pelos dedos
Acompanha a distracção.

E tudo o resto
É movimento
De lentas pausas com brilho.

Nada se aproxima ou afasta
Sem que a dança
De braços firmes, delicados,
Sustenha o olhar.

Sobre as mesas reflexos
Do sol de agora
A criar memória.

  Almeida, Rui. Caderno de Milfontes. S/c.: volta d' mar, 2011, p 32.
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" Que habita sem transformar "

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 " Poema 11. "


A paciência conhece o tempo da espera,
Arruma-o
Junto aos destroços de velhas torres de vigia
Que habita sem transformar.

  Almeida, Rui. Caderno de Milfontes. S/c.: volta d' mar, 2011, p 19.
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08/03/12

" Pudéssemos nós compreender,/ assim como se faz um filho,/ tão ao gosto popular. "

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  " Tão ao gosto popular "

Pudéssemos nós compreender
porque é que o outro raramente
é uma preocupação sincera
em nossas vidas

mas que são raras as vezes
em que não o queremos foder,
então alcançaríamos o significado
da existência que levamos,

seríamos o próprio deus
que nos fez à sua imagem.
Passado e futuro seriam o mesmo
e o presente ninguém.

E o vinho que um homem bebe
( enquanto observa o seu filho
a brincar às existências,
como uma garrafa que nunca vaza)

haveria de ser tão vão
quanto uma oportunidade
perdida em que a memória não sabe onde.
O filho seria o seu

próprio cadáver rejuvenescido.
Pudéssemos nós compreender,
assim como se faz um filho,
tão ao gosto popular.

  Miranda, Paulo José. O Tabaco de Deus. Lisboa: Edições Cotovia, 2002, p 23.
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" Sentados no sofá/ já só pensam em amanhã. "

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  " Os casais amigos "

Quinzenalmente os amigos
entravam-nos pela janela e pousavam
junto aos pratos e às canções.
Uma faca abre a carne,
um copo abre a palavra.

Distraidamente os amigos
roçam as asas pela solidão,
uma ou outra fêmea alimentava as crias.
Durante catorze dias prospera-se
e neste dia seguinte olha-se o passado.

Pobremente os amigos
bêbados fumam charutos,
não sabem usar as palavras
senão para rirem.
Ainda assim é preferível
à solidão de uma esposa.

Agitadamente os amigos
esvoaçam de regresso às suas árvores,
o filho atravessa a sala
tem sono, agarra-se à mãe.
Sentados no sofá
já só pensam em amanhã.

Distantemente os amigos
adormecem na incómoda almofada
desse dia seguinte,
de costas virados uns para os outros.

  Miranda, Paulo José. O Tabaco de Deus. Lisboa: Edições Cotovia, 2002, pp 14 - 15.
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07/03/12

" Y volverán de nuevo/ los nombres que no olvidan, "

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 " Agua "

Porque el agua carece de memoria
reparte sus sentidos,
busca tras los espejos
discretos minerales
como la plata antigua de los peces.

Y todo para qué
si el iris,
presencia última,
ya descubre en el ámbar de las gotas
el aliento sin fondo de la lluvia.

Los ojos tan abiertos en este jardín líquido
son labios sin pasado.

Y volverán de nuevo
los nombres que no olvidan,
porque en el agua
desconocen lo frágil,
sólo cubren las cosas, erosionan
con la transparencia nueva
lo inútilmente frío.

   Correcher, Rafael. El Azul de los Lápices. Valencia: Editorial Denes, 2009, p 21.
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" Seguramente pensaron lo mismo. "

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 " Coincidencia "

Seguramente pensaron lo mismo.

Juntos
desnudaron
los relojes
de su voz
metálica
y todo
se volvió
rumor de abejas.

 Correcher, Rafael. El Azul de los Lápices. Valencia: Editorial Denes, 2009, p 46.
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06/03/12

Lançamento...

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 DIA  10  DE  MARÇO, PELAS 16H30, NA LIVRARIA "PÓ DOS LIVROS" EM LISBOA

DECORRERÁ O LANÇAMENTO DO LIVRO: " RELEVO MÓBIL NUM CORAÇÃO DE TEMPO ".

AUTOR DA OBRA:  TIAGO NENÉ

PREFACIADOR:  Victor Oliveira Mateus

APRESENTAÇÃO A CARGO DE:  ANTÓNIO CARLOS CORTEZ

OS POEMAS SERÃO DITOS POR:  GISELA RAMOS ROSA
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  " Vírus "

 
Há uma tristeza inerme nos feriados,
uma entrega do pulso das cidades
a um vírus insidioso
habitante das janelas onde
nada está para chegar
ou para partir. Lá dentro cumpre-se o decálogo
dos cansaços. Cá fora perdemo-nos
no planetário do asfalto, na vã arritmia
dos semáforos acesos. As fachadas
transbordam de umbrais vazios
e as frontarias bancárias da Baixa
semelham basílicas fechadas ao culto. À beira-mar
grupos de catalépticos auditores da Bola
oriundos de algum centro comercial
passeiam filhos, esposas e animais de companhia
até às esplanadas da outra margem,
para regressos na fila de escapes do crepúsculo.

  Lourenço, Inês. Câmara Escura, Uma Antologia. S/c.: Língua Morta, 2012, p 16.
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 " Arte Poética III "


O poeta disse: a inspiração
não existe. De há muito, as musas
ficaram desempregadas. E desvendou
algum método de trabalho
à parca assistência, altivo e contemporâneo,
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras
resistindo ao tráfego do fim de tarde,
pouco se interessavam
pela carpintaria dos versos.

  Lourenço, Inês. Câmara Escura, Uma Antologia. s/c.: Língua Morta, 2012, p 21.
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05/03/12

A problemática da avaliação da personalidade: os diferentes métodos.

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Um dos maiores problemas da avaliação da personalidade reside, sem sombra de dúvida, no facto de, mesmo na actualidade, não existir um método único adoptado por todos os psicólogos. Por outras palavras, quando o psicólogo tem de avaliar a personalidade, pode basear-se em diferentes instrumentos, sendo que as suas escolhas orientarão as conclusões de modo significativo. Este ponto semeia de forma preponderante a confusão, não se prestando à harmonização. Convém dizer, como veremos mais tarde, que o erro radica no facto de não existir um modelo da personalidade unânime entre os psicólogos da personalidade, para além de cada modelo preconizar a utilização de determinado teste, em detrimento de outro: cada teoria recorre a um teste específico.
Apesar da diversidade dos instrumentos escolhidos, pode dizer-se que a avaliação da personalidade se faz, principalmente, segundo dois modelos. O primeiro baseia-se na observação, podendo assumir diferentes formas. Por vezes, um observador pode emitir um juízo sobre alguém, mesmo sem se ter cruzado com a pessoa. Efectivamente, acontece-nos a todos emitirmos uma opinião sobre alguém, apenas com base em informações recolhidas através de outrem. Em determinadas situações, os juízos baseiam-se em rigorosas observações do comportamento, como, por exemplo, no número de vezes que o indivíduo tamborila com os dedos numa mesa, ou ainda no seu batimento cardíaco, para se inferir sobre o respectivo estado de nervosismo. Nestes casos a observação é real e baseada em parâmetros previamente definidos. Noutras situações, o observador deduz, por intermédio de uma série de sinais subjectivos, se o sujeito observado se encontra relaxado ou, pelo contrário, nervoso. Os observadores podem ainda avaliar a personalidade de um indivíduo que conheçam bem, preenchendo diferentes itens de uma escala de avaliação, como se verifica no caso de crianças ou de doentes psiquiátricos graves. Com frequência, pede-se aos pais para preencherem questionários destinados a avaliar a personalidade ou o temperamento dos seus filhos, em virtude de estes serem ainda demasiado jovens para se avaliarem a si próprios. Graças a estas observações pudemos afirmar que os temperamentos observados em crianças de tenra idade estavam correlacionados com a sua personalidade, na idade adulta. Por fim, existem instrumentos designados por entrevistas semiestruturadas, nas quais o observador coloca questões padronizadas aos indivíduos; a forma como estes lhes respondem determina o modo como a entrevista se desenrolará, bem como a informação que daí se retira.
A segunda forma de avaliar a personalidade, e de longe a mais corrente, consiste nos testes de personalidade. Existem duas categorias diferentes: os testes projectivos e os testes objectivos. Os primeiros consistem na apresentação aos sujeitos de um material ambíguo e pouco estruturado, que dá livre curso à imaginação e que, consequentemente, origina inúmeras respostas. O princípio geral é o seguinte: como o material é ambíguo, o indivíduo projecta-se nele, abandonando uma parte do seu inconsciente.
O teste mais célebre desta categoria é(...): o teste de Rorschach.
(...) Os segundos testes utilizados para avaliar a personalidade - os testes objectivos - consistem em pedir aos sujeitos que preencham eles próprios questionários de personalidade. Nestes questionários, os sujeitos devem indicar de que modo pensam, como se comportam em determinadas situações, de que forma julgam certas acções e de que modo reagem habitualmente a diferentes coisas.

    Hansenne, Michel. Psicologia da Personalidade. Lisboa: CLIMEPSI Editores, 2004, pp 61 - 64.
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04/03/12

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O psicopata (...) O que o caracteriza é a passagem ao acto impulsiva, que não seguida de sentimento de falta, frequentemente como resposta a uma insatisfação mal tolerada. O seu domínio preferido é a acção em detrimento do afecto e do pensamento, que estão empobrecidos. De cada vez, o acto reproduz as mesmas características: é súbito, brutal, acompanhado de gritos e de outras violências. É pouca a distância entre a pulsão e a sua expressão comportamental, na ausência de verbalização e simbolização suficientes para permitir a sua elaboração. Com efeito, o psicopata procura livrar-se de uma tensão interna que o persegue desde a infância, e encontra na motricidade uma descarga imediata possível(...) Se se sente rejeitado, pode encontrar aí o meio de suscitar uma reacção social e fazer com que se ocupem dele (...)
Não é raro a infância precoce dos psicopatas ter sido marcada por abandonos e carências graves. A criança foi levada a exprimir-se com violência para se fazer ouvir por aqueles que cuidaram dela.
(...) Todavia, a avidez afectiva do psicopata só se traduz em pedido de amor de forma inadequada. Ele não procura aproximar-se dos outros para tirar prazer de um contacto caloroso. As suas relações sociais permanecem superficiais, e ele pouco se implica. Tem o hábito de abandonar facilmente as suas relações sem pena aparente.
(...) No psicopata, a sociabilidade sincrética e a sociabilidade por interacção são muito limitadas. A adesão às relações íntimas é por isso difícil (...) O seu espírito é animado por sentimentos de inveja e um forte rancor. Tem com frequência a impressão de que o privaram de qualquer coisa, o que coincide com a realidade. Esta reivindicação é tanto mais profunda quanto ela é não consolável. Nenhuma "reparação" surgida depois poderá compensar os estragos sofridos durante a primeira infância. É a privação de base, sublinhada por Winnicott.
Se o psicopata não consegue sentir-se culpado das suas exacções, é porque nunca se sentiu implicado numa ligação "responsável" face a um outro ou a si mesmo. A ausência de uma ligação materna fiável e durável acabou por fazer diluir nele, e depois desaparecer, a "pulsão primária de amor", observa Winnicott. "Para ser alguém é preciso ser amado", acrescenta ele.
(...) Estas observações aplicam-se igualmente aos psicopatas que vivem e agem como comandados por um relógio. Estes delinquentes organizam o seu delito de forma muito precisa e com sangue-frio como se estivessem debaixo de intensa coacção interna. A sua moral é formal e não é marcada pela reflexão, mas apenas por imperativos de obediência e de tranquilização destinados à sua salvaguarda (...) teme o aborrecimento, a monotonia, que o confrontam talvez com uma angústia insustentável. Por outro lado, o tédio abre o acesso patológico e fecha-o ao mesmo tempo. Porquê? A frustração e a impossibilidade de experimentar tristeza, sentidas como um verdadeiro estrago, conduzem o sujeito à busca de aventuras, para se sacudir...
O tratamento recebeu um novo alento a partir da altura em que a Justiça começou a colaborar com os psicólogos e os psiquiatras (...) Foram levadas a cabo terapias individuais e familiares destinadas a adolescentes com dificuldades, a delinquentes potenciais ou condenados (...) o paciente aceita o tratamento unicamente porque este foi prescrito por um juiz e ele espera assim obter uma comutação da pena. Mas mesmo assim é possível encarar um verdadeiro trabalho dirigido ao inconsciente, e vir a instalar-se uma confiança autêntica entre psicopata e terapeuta (...) Um longo período de provas precede o verdadeiro trabalho. Estes pacientes são sensíveis às ambiguidades, ao excesso de sedução, às aitudes esperadas. É pois necessário evitar entrar em considerações pedagógicas, já que o paciente se considera vítima duma injustiça que espera uma "reparação".
Daí que tenhamos de nos prevenir, na terapia, contra atitudes demasiado reparadoras, que não fariam mais do que ferir o paciente(...) É muito mais importante escutar o paciente, aprender a sua angústia, do que "pretender corrigir" um passado de carâncias. O que, de resto, é válido em relação a qualquer paciente.

 Eiguer, Alberto. Pequeno Tratados das Perversões Morais. Lisboa: CLIMEPSI Editores, 1999, PP 79-95.
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02/03/12

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Durante muito tempo, opus-me à eutanásia, por imaginar que existia a possibilidade de os filhos matarem os pais, não só por deles esperarem uma herança, mas por considerarem que o seu tratamento lhes exigia um trabalho demasiado pesado. Mas quando comecei a pensar na minha morte, a atitude mudou. Se alguma tragédia me acontecer - se ficar paralisada ou demente -, suponho que existem pessoas que me amam o suficiente para fazerem o que sabem constituir o meu desejo. Mas quem me garante que isto será verdade ad seculum saeculorum? E por que motivo terão de ser consideradas criminosas? E quem me garante que haverá um médico que ajude a concretizar o meu desejo? Comecei a vacilar nas minhas certezas.
Embora consciente de que o documento não tinha base legal, a 23 de Março de 2005, redigi um "testamento vital". Eis, ipsis verbis, o que escrevi: "Se ficar paralisada totalmente, se ocorrer uma situação em que os médicos só me possam manter viva através de alimentação por via gastro-nasal ou do estômago, se sofrer de uma doença incurável e estiver em sofrimento, se a minha vida se tornar vegetativa, isto é, sem possibilidade de voltar a recuperar o meu estatuto de ser humano, racional e detentor de memória, não quero que a prolonguem." Algumas decisões que se tinham revelado necessárias aquando da doença da minha mãe, e o caso, muito notificado na época, de Terri Schiavo, uma americana cujo marido, embora ela nada tivesse deixado escrito, optara por a deixar morrer, levaram-me a não adiar o projecto.
(...) Mais cedo ou mais tarde, o Estado vai ter de tomar uma posição, esperando que não seja assaltado de pânico diante do erroneamente designado lobby "pró-vida". Em Espanha, que tem uma História não muito diferente da nossa, o testamento vital, a sedação terminal e a recusa de tratamento são legais. A Lei da Autonomia do Paciente, de 2002, que, note-se, recebeu a aprovação da direita, permite a qualquer doente tomar decisões que, até então, eram deixadas nas mãos dos médicos(...)
 A eutanásia ficou desacreditada, na década de 1930, pelo uso que do termo fizeram os darwinistas sociais e pelo que, depois, se passou sob o nazismo. Convencidos de que as sociedades avançadas e os indivíduos com mais êxito tinham aptidões genéticas superiores, enquanto os improdutivos haviam herdado traços de carácter que os conduziriam à degenerescência, alguns intelectuais do período mutilaram o pensamento de Darwin, defendendo a esterilização ou a morte dos "desviantes". Pior havia de chegar, com a liquidação, pelos nazis, não só de milhões de judeus, mas de idosos e de  deficientes (calcula-se que assim morreram cerca de 200 mil).

  Mónica, Maria Filomena. A Morte. Lisboa: Fundação Francisco Manuel do Santos. 2011, pp 44 - 46.
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