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" Compromisso "
Pertence-te
ser homem, afirmar
todos os dias que tens
um compromisso: ser claro
e brando como a luz
e, como ela,
necessário. E não deixar
crescer à tua porta
ervas daninhas.
Albano Martins in " Assim são as algas, Poesia 1950 - 2000 ", Campo das Letras, Porto, 2000, p 411.
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25/10/11
24/10/11
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" Canários "
Eles são verdes, amarelos, castanhos,
vermelhos: de todas as cores do arco-íris.
Eles são um arco-íris com asas. E eu, que amo
a liberdade a qualquer preço, apaixonei-me
por um, certa vez, e meti-o numa gaiola.
Desse acto perverso me havia de arrepender
depois. Tratei-o com desvelo, dei-lhe um
lugar arejado e luminoso (conspícuo, como
diria Garrett) e assim me fez companhia por
algum tempo. Morreu semanas depois, de
saudades ou de solidão, ninguém sabe, ou
foi guilhotinado pelo descuido da empregada
doméstica, durante a minha ausência no
Brasil. Tinha morrido, ou fora morto, ou
suicidara-se. Quando voltei, encontrei a
gaiola vazia, sem o mínimo sinal ou aviso -
um bilhete sequer, de despedida.
E nunca mais houve pássaros engaiolados
cá em casa. Minto. Que os houve, sim,
mas em trânsito para o Brasil, onde tenho
um amigo que a essa profissão - não única
ou exclusiva, todavia - se dedica. Tenho-me
esforçado por convencê-lo de que também
os pássaros têm direito à liberdade. Responde-me
que os canários são aves de cativeiro, como se
alguém (e alguém são, naturalmente, as aves)
já nascesse prisioneiro. (Reconsidero: todos
nascemos prisioneiros, sim, mas de outras
prisões, de outras gaiolas mais sofisticadas,
de grades metafísicas, embora dessas e de
outras filosofias não cuide aqui.) E com ele
insisto, sem sofismas (...): mas quem nasceu
com as asas recebeu-as para voar, e não
como adorno ou instrumento de eventual
serventia (...).
Não. Se os canários são aves de cativeiro
e objecto de duvidosas experiências de
laboratório e ourivesarias ornitológicas,
para gáudio de coleccionadores e ladrões
da liberdade alheia, foram os homens que
as tornaram cativas. A eles compete, pois,
devolver-lhes a liberdade roubada. Porque
de multiplos cativeiros está cheia a história
dos homens. Todos injustos. Todos afectando
inocentes. O homem é assim: usa a fragilida-
de alheia para afirmar a sua força e impor
o seu poder. Mas todas as masmoras um dia
se abrem e nelas encontram guarida os seus
construtores. O despotismo, a que alguns
chamaram iluminado, é próprio do reino das
sombras, não da luz. E a luz não pode ser encar-
cerada. Melhor: a luz não se deixa encarcerar.
Por mais submissa que se mostre ou ordeira
que se apresente.
Albano Martins in "Assim são as algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto, 2000, pp 319 - 321.
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" Canários "
Eles são verdes, amarelos, castanhos,
vermelhos: de todas as cores do arco-íris.
Eles são um arco-íris com asas. E eu, que amo
a liberdade a qualquer preço, apaixonei-me
por um, certa vez, e meti-o numa gaiola.
Desse acto perverso me havia de arrepender
depois. Tratei-o com desvelo, dei-lhe um
lugar arejado e luminoso (conspícuo, como
diria Garrett) e assim me fez companhia por
algum tempo. Morreu semanas depois, de
saudades ou de solidão, ninguém sabe, ou
foi guilhotinado pelo descuido da empregada
doméstica, durante a minha ausência no
Brasil. Tinha morrido, ou fora morto, ou
suicidara-se. Quando voltei, encontrei a
gaiola vazia, sem o mínimo sinal ou aviso -
um bilhete sequer, de despedida.
E nunca mais houve pássaros engaiolados
cá em casa. Minto. Que os houve, sim,
mas em trânsito para o Brasil, onde tenho
um amigo que a essa profissão - não única
ou exclusiva, todavia - se dedica. Tenho-me
esforçado por convencê-lo de que também
os pássaros têm direito à liberdade. Responde-me
que os canários são aves de cativeiro, como se
alguém (e alguém são, naturalmente, as aves)
já nascesse prisioneiro. (Reconsidero: todos
nascemos prisioneiros, sim, mas de outras
prisões, de outras gaiolas mais sofisticadas,
de grades metafísicas, embora dessas e de
outras filosofias não cuide aqui.) E com ele
insisto, sem sofismas (...): mas quem nasceu
com as asas recebeu-as para voar, e não
como adorno ou instrumento de eventual
serventia (...).
Não. Se os canários são aves de cativeiro
e objecto de duvidosas experiências de
laboratório e ourivesarias ornitológicas,
para gáudio de coleccionadores e ladrões
da liberdade alheia, foram os homens que
as tornaram cativas. A eles compete, pois,
devolver-lhes a liberdade roubada. Porque
de multiplos cativeiros está cheia a história
dos homens. Todos injustos. Todos afectando
inocentes. O homem é assim: usa a fragilida-
de alheia para afirmar a sua força e impor
o seu poder. Mas todas as masmoras um dia
se abrem e nelas encontram guarida os seus
construtores. O despotismo, a que alguns
chamaram iluminado, é próprio do reino das
sombras, não da luz. E a luz não pode ser encar-
cerada. Melhor: a luz não se deixa encarcerar.
Por mais submissa que se mostre ou ordeira
que se apresente.
Albano Martins in "Assim são as algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto, 2000, pp 319 - 321.
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23/10/11
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Vamos na órbita dos ciclos que geram
a inocência. Ciclopes amarrados à visão
desprendida, nítida, das origens. Como
quando, outra vez descalços, colhíamos as
amoras e os morangos silvestres nas
tapadas onde o vento era azul, azul o
sangue. Quando eram verdes os lençóis e a
noite crescia dentro da manhã. Como cres-
cem as crianças.
E olhas em redor. Este é o círculo
perfeito onde o olhar dorido se demora e
descansa. A planície contornada por uma
vegetação rasteira e incólume. Distante
mora o fósforo dos incêndios. Em sua
cabeça exangue ardem ameaças e terrores
que adivinhas somente. Sê vigilante e subtil.
Não durmas. Ou dorme sobre o lado direito,
sem pisar o coração, que vela de olhos
fechados, mas acesos. Como um clarão, uma
medalha de ouro iluminada, um punho
inflamado erguido sem revolta. Ou dorme,
sim, como dormem os aloendros, vertical e
secreto, em teus rizomas de aço e de ternura.
E desciam então dos eucaliptos as
rolas atreladas ao carro do canto. E suplan-
tavas em agilidade, na corrida desordenada,
os galgos e as lebres. E bebias a água do
açude com teu bico de cegonha, o coração
de azevinho. Pastor de ovelhas tresma-
lhadas, dum rebanho de cabras silvestres.
Essa a tua escola verdadeira. Na cartilha
maternal das borboletas aprendeste a voar,
e ali escreveste, nas ardósia do vento, os
primeiros poemas.
Albano Martins in "Assim são algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto,
2000, pp 199 - 201.
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Vamos na órbita dos ciclos que geram
a inocência. Ciclopes amarrados à visão
desprendida, nítida, das origens. Como
quando, outra vez descalços, colhíamos as
amoras e os morangos silvestres nas
tapadas onde o vento era azul, azul o
sangue. Quando eram verdes os lençóis e a
noite crescia dentro da manhã. Como cres-
cem as crianças.
E olhas em redor. Este é o círculo
perfeito onde o olhar dorido se demora e
descansa. A planície contornada por uma
vegetação rasteira e incólume. Distante
mora o fósforo dos incêndios. Em sua
cabeça exangue ardem ameaças e terrores
que adivinhas somente. Sê vigilante e subtil.
Não durmas. Ou dorme sobre o lado direito,
sem pisar o coração, que vela de olhos
fechados, mas acesos. Como um clarão, uma
medalha de ouro iluminada, um punho
inflamado erguido sem revolta. Ou dorme,
sim, como dormem os aloendros, vertical e
secreto, em teus rizomas de aço e de ternura.
E desciam então dos eucaliptos as
rolas atreladas ao carro do canto. E suplan-
tavas em agilidade, na corrida desordenada,
os galgos e as lebres. E bebias a água do
açude com teu bico de cegonha, o coração
de azevinho. Pastor de ovelhas tresma-
lhadas, dum rebanho de cabras silvestres.
Essa a tua escola verdadeira. Na cartilha
maternal das borboletas aprendeste a voar,
e ali escreveste, nas ardósia do vento, os
primeiros poemas.
Albano Martins in "Assim são algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto,
2000, pp 199 - 201.
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21/10/11
.
*
De meu e teu que resta
entre os ramos e o voo
das andorinhas?
Podes
convocar as palavras, adicionar
à voz o espanto, a ira, esgrimir
com as mais ásperas
vogais. Da morte
e seus juízos imutáveis
não há reccurso.
*
Pondero a têmpera, a feição
dos novos, ingénuos
utensílios, avalio
a transparência mineral dos gestos
mais antigos e das lágrimas
defuntas, agora calcinadas.
Cedo
ao mármore a insalubre vocação do silêncio.
*
Outros
foram os dados, outra
a mesa. O jogo,
não. A mesma
lâmina esgrime
entre a sutura
e o álcool.
*
Dêem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as águas.
Dêem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
*
Levo comigo as árvores,
os lagos,
o vento - as suas cestas
de merenda e volúpia.
À beira
dos relâmpagos planto
uma araucária, uma raiz
de espadas flutuantes ou adagas
floridas - o crepúsculo,
talvez, cinzenta
espuma volátil
de beijos e de lágrimas.
(...)
*
De novo disporás
a lenha
sobre a pedra. Seco
e rente, nela
repousarás.
Ou no discurso
irredutível ao
som das moles
águas crepusculares.
*
Devolvo
à nascente o fluxo, ao mar a indomável
surpresa da corrente.
Posso
agora olhar
ileso os poros, repousar
a cabeça entre os líquenes - substância
minha austera, meu
chão de larvas e fadiga.
*
Chegam no dorso do verão, como asas
mortas de estorninhos lentamente desfolhadas.
Um marco geodésico de sombras e desen-
contros.
A maresia da noite.
Albano Martins in "Assim são as algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto,
2000, pp 165 - 169.
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*
De meu e teu que resta
entre os ramos e o voo
das andorinhas?
Podes
convocar as palavras, adicionar
à voz o espanto, a ira, esgrimir
com as mais ásperas
vogais. Da morte
e seus juízos imutáveis
não há reccurso.
*
Pondero a têmpera, a feição
dos novos, ingénuos
utensílios, avalio
a transparência mineral dos gestos
mais antigos e das lágrimas
defuntas, agora calcinadas.
Cedo
ao mármore a insalubre vocação do silêncio.
*
Outros
foram os dados, outra
a mesa. O jogo,
não. A mesma
lâmina esgrime
entre a sutura
e o álcool.
*
Dêem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as águas.
Dêem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
*
Levo comigo as árvores,
os lagos,
o vento - as suas cestas
de merenda e volúpia.
À beira
dos relâmpagos planto
uma araucária, uma raiz
de espadas flutuantes ou adagas
floridas - o crepúsculo,
talvez, cinzenta
espuma volátil
de beijos e de lágrimas.
(...)
*
De novo disporás
a lenha
sobre a pedra. Seco
e rente, nela
repousarás.
Ou no discurso
irredutível ao
som das moles
águas crepusculares.
*
Devolvo
à nascente o fluxo, ao mar a indomável
surpresa da corrente.
Posso
agora olhar
ileso os poros, repousar
a cabeça entre os líquenes - substância
minha austera, meu
chão de larvas e fadiga.
*
Chegam no dorso do verão, como asas
mortas de estorninhos lentamente desfolhadas.
Um marco geodésico de sombras e desen-
contros.
A maresia da noite.
Albano Martins in "Assim são as algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto,
2000, pp 165 - 169.
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07/04/08
"Natureza Viva", Fotografia de Nuno FernandesE te pressinto
o bafo. Vens
com teus pólipos de águia
submarina, teu
cinto de agudos
sobressaltos. Alga
de sangue e magma, tu
cresces redonda, coroada
de arquipélagos de escamas
e de espuma,
Albano Martins, In "Três poemas de amor seguidos de Livro Quarto"
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