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05/11/11

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Vem ver-me numa noite onde não haja luar, escura, escura,
como breu.
Não quero olhar para ti.
Apenas sentir a tua entrada.
Sentir-te sair para saber que te foste.
E tudo ficar tão escuro que não saiba que a noite jamais se apaga.
Com medo que apareças.

Depois, quero que fales nesse escuro das coisas impensáveis
O que guardaste de mim que me faz falta.
E num instante volver a um tempo outro
Que nunca encontro.
E que não chega para anunciar a tua entrada.

Vem ver-me na curva dos sonhos transfigurados
E verás como sou nada.
E de tudo ser capaz para te pedir
Não faltes!
As ledas pálpebras têm estranhos caminhos.
E eu ceguei ao olhar o dentro.
É tudo tão o mesmo breu...!
Que não me vês
Tal qual um deus.
Morto, na espera das viagens.

  Amélia Vieira in " Gabriel ", Cavalo de Ferro Editores, s/c., 2011, p 95.
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04/11/11

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Vamos por vezes andando e descobrindo nos rostos pedaços de
Homo sapiens.
Os troncos são partes frouxas trazendo agarrados as cavernas
ledas e os olhos mochos.

Se olharmos bem, bem, vemos o tio paleolítico, agarrando
mamute à mão, e as asas de um silfo que segreda; venham da
caverna, irmãos!

Está lá dentro a deusa-mãe, gorda, enrolada, ri da noite ter
chegado, para que o troglodítico esposo lhe dê  a carne e o osso
agarrado ao seu pescoço, e malhe na noite, eles, que são antes
do pecado.

São caras, são pescoços, são os dentes poliformes, as narinas
gordas dos olhos, a bruta matéria informe. Que aquela massa
esboça quase um sorriso, parecendo contorcionismo, será que
pensam, tem siso, nascem-lhes apêndices maiores?

Vou para Oeste, para as Beiras, e não vejo "bolhas"
verdadeiras de pré-histórica gente? Não andam, arranham
chãos, zurzem, são informes, microcósmicos, como se caíssem
de um céu, cujo refinamento ainda não se deu.

Peludos, abatanados, maçudos, muito parados, presuntados,
cheiram às caças das carnes, fedem como as feras, mas de tão
feios espantam, não gostam da civilização, pontas limadas com
laser e tudo o que se lhes afigure ser brilhante e nunca ter
conclusão.

Os "regimes" portugueses são organizações pré-históricas, por
mais que se faça, por mais que se ande, a caverna é grande
e farta, a serra, uiva atávica à sua espécie que não pode, não
consegue, dela se dissociar.

Dispa-se; vê, lá está... pêlo, tudo disforme.
Ria; olhe esses dentes são de rasgar carnes...
Respire; tanta cartilagem...
Ande; vê, tem os dois pés no chão na mesma posição!

Mas o que é a Civilização?
É sentir isto tudo e ficar mudo.

É estar eu para aqui, limada, enxuta, a falar destes labregos
Muito pífios, muito ledos, engodam como os godos,

Dão ordens como na caça, matam um veado,
Ficam heróis, matam-nos a todos e foi tudo de graça.

Este o encanto da Pré-História, o homem defende-se, come
quando tem fome, fode quando tem tesão, nascem pré-históricos
aos magotes sem precisar de regras de salão.

Ah! Desculpem, preferia morrer de fome, desmonhecar,
a ter de levar com um osso, ou não me fazerem vibrar com a
vénia dada aos naturais. Uma boa genuflexão levou milhares
de anos a ser executada... E eu sei que herdei esse joelho, e
no meio, fui ficando, depois... veio a dança, o traje, a graça...
Quanto trabalho para meter de pé as estátuas!

Os labirintos são coisas pré-históricas, a gente anda e fica tonta,
por vezes no mesmo sítio, mas como de lá sair? Olhem, eu passei
por cima do Touro, ele correu atrás de mim, partiu um pé e
foi-se logo sentar outra vez no trono... Quero lá saber daquela
porcaria!

Encaracolam-se-lhes as formas e ficam paleoprotásicos...
Depois, os sons são de avatares antes do verbo...

Muita vogal, a u ooooo, é tudo informe, eu sinto-me mal.

Não goste da Ode. E também desta espécie demasiado natural.

  Amélia Vieira in " Gabriel ", Cavalo de Ferro Editores, s/c., 2011, pp 27 - 29.
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03/11/11

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No seu posto, um Poeta é ainda aquele que vela, que está atento, que ausculta o coração das coisas em redor e se disponibiliza para interpretá-las, daí, por vezes, o seu não encontro no tempo marcado com muitos dos seus contemporâneos. Para que servem poetas em tempo de indigência? Uma pergunta de Holderlin tão válida hoje como o foi há duzentos anos, como o será porventura no futuro, enquanto o Homem for esta Humanidade. Talvez evitem o despenhar nas costas, os naufrágios abruptos, talvez desviem as rotas das tormentas - Faroleiros Vigilantes - e, se evitarem um que seja, a sua participação já é válida.
(...) Na medida em que a religião existe na ordem etimológica do religar, é necessário saber fazer estas pontes comunicantes que serão bem-vindas para que todos se sentem à mesa da concórdia e do debate fraterno.
(...) O século que aí está pede-nos que o Poeta se ocupe desta memória sob pena de ver destituída a sua função em prol de um divertimento linguístico, que, pese embora a utilíssima maneira de trabalhar a palavra, jamais pode, sob risco de aniquilamento, desligar-se. Metamos mãos nem que seja aos antigos mantras, esconjuremos as chacinas, a indiferença e o desastre. Façamos outras cabanas, convoquemos outros pastores (...).
E, com tudo isto, talvez não tivesse sabido explicar o mais simples: ser original equivale a voltar secretamente à origem. Daí emana o futuro e, o futuro, a sê-lo - porque haverá sempre futuro -, só pode ser, terá de ser, Absolutamente Redentor.

  Amélia Vieira in " Gabriel ", Cavalo de Ferro Editores, s/c., 2011, pp 8 - 9.
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