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18/03/12

" Que vês em mim, Senhor? que vês em quem/ Em tuas mãos se mete tão segura? "

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 ( Cena que antecede a execução de Inês de Castro, acusada de conspirar contra a segurança do reino.)

CASTRO

Meu senhor,
Esta é a mãe de teus netos. Estes são
Filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Para eu segura, e livre t' esperar,
Em ti, e em minh' inocência confiada.
Escusaras, Senhor, todo este estrondo
D' armas, e Cavaleiros; que não foge,
Nem se teme a inocência da justiça.
E quando meus pecados me acusaram,
A ti fora buscar: a ti tomara
Por vida em minha morte: agora vejo
Que tu me vens buscar. Beijo estas mãos
Reais tão piedosas: pois quiseste
Por ti vir-te informar de minhas culpas.
Conhece-mas, Senhor, como bom rei,
Como clemente, e justo, e como pai
De teus vassalos todos, a quem nunca
Negaste piedade com justiça.
Que vês em mim, Senhor? que vês em quem
Em tuas mãos se mete tão segura?
Que fúria, que ira esta é, com que me buscas?
Mais contra imigos vens, que cruelmente
T' andassem tuas terras destruindo
A ferro, e fogo. Eu tremo, Senhor, tremo
De me ver ante ti, como me vejo.
Mulher, moça, inocente, serva tua,
Tão só, sem por mim ter quem me defenda.
Que a língua não s' atreve, o esprito treme
Ante tua presença, porém possam
Estes moços, teus netos, defender-me.
Eles falem por mim, eles sós ouve:
Mas não te falarão, Senhor, com língua,
Que inda não podem: falam-te co as almas,
Com suas idades tenras, com seu sangue,
Que é teu, te falarão: seu desamparo
T' está pedindo vida; não lha negues.
Teus netos são, que nunca téqui viste:
E vê-los em tal tempo, que lhes tolhes
A glória, e o prazer, qu' em seus espritos
Lhe está deus revelando de te verem.

REI

Tristes foram teus fados, Dona Inês,
Triste ventura a tua.

CASTRO

Antes ditosa,
Senhor, pois que me vejo ante teus olhos
Em tempo tão estreito: põe-nos ora,
Como nos outros sóis, nesta coitada.
Enche-os de piedade com justiça.
Vens-me, Senhor, matar? porque me matas?

REI

Teus pecados te matam: cuida deles.

CASTRO

Pecados meus! ao menos contra ti
Nenhum, meu Rei, me acusa. Contra Deus
Me podem acusar muitos: mas ele ouve
As vozes d' alma triste, em que lhe pede
Piedade. O Deus justo, Deus benigno,
Que não mata, podendo com justiça,
Mas dá tempo de vida, e  espera tempo
Só para perdoar: assi o fazes,
Assi o fizeste sempre: pois não mudes
Agora contra mim teu bom costume.

     Ferreira, António. Castro e Poemas Lusitanos. Lisboa: Verbo Clássicos, 2006, pp 298 - 301.
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16/03/12

" Não lhe apagou o amor a nova esposa; "

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 " Excerto de um diálogo entre Inês de Castro e sua ama "

CASTRO

(...)
Não lhe apagou o amor a nova esposa;
Não o tão festejado nascimento
Do desejado parto: antes mais vivo
Co tempo, e co desejo ardia o fogo.
Que fará? se o encobre, então mais queima.
Descobri-lo não quer, nem lhe é honesto.
Mas quem o fogo guardará no seio?
Quem esconderá amor, que em seus sinais
A pesar da vontade se descobre?
Nos olhos, e no rosto chamejava.
Nos meus olhos os seus o descobriam.
Suspira, e geme, e chora, a alma cativa
Forçada da brandura, e doce força,
Sujeita ao cruel jugo, que pesado
A seu desejo sacudir deseja.
Não pode, não convém: a fúria cresce.
Lavra a doce peçonha nas entranhas.
Os homens foge, foge a luz, e o dia.
Só passeia, só fala, triste cuida.
Castro na boca, Castro n' alma, Castro
Em toda parte tem ante si presente.
Ele à mulher cuidado, eu ódio, e ira.
Arde o peito a Costança em furor novo.
Nem me ousam descobrir, nem vedar nada.
D' antiga Casa Castro em toda Espanha,
Já dantes do Real ceptro deste Reino
Por grande conhecida, inda meu sangue
Do real sangue seu tinha grã parte.
Mas inda à natureza dobram força,
Arte ajuntando, e manha: el-Rei ao neto
Por madrinha me dá, comadre ao filho.

AMA

Cegos, que quanto mais vedam, mais chamam.
Cresce co a força Amor: e o que à vontade
Se faz mais impossível, mais deseja.

CASTRO

Em fim, fortuna, que me já chamava
Esta glória tão grande, quebra o nó
Daquele jugo a meu amor contrário.
Leva ante tempo a morte a Infanta triste.
Herdo eu mais livremente o amor constante,
Que a mim se entregou todo, e todo vive
Na minh' alma, onde está seguro, e firme,
Já com doces penhores confirmado.
(...)

   Ferreira, António. Castro e Poemas Lusitanos. Lisboa: Verbo Clássicos, 2006, pp 231 - 233.
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