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19/09/09


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                   "Anto"


Bem que o cego avisara:
"César, tem cuidado com os idos de Março".
Mas isso fora há mil e muitos anos
e na história, mais que a realidade,
sempre procuraste o mito e a ficção.
Não é verdade que para ti
Hamlet era mais real que Shakespeare?
Quando chegaste ao Seixo, santo Deus, como vinhas!
Eram bem maiores as moléstias da alma
do que aquelas que carregavas no corpo
e te minavam os pulmões.
Tudo te causava horror.
Tinhas nojo dos homens e das coisas
mas a bondade renascia em teu coração
quando olhavas os carreirinhos de formigas.
No Seixo sonhaste reencontrar
o aconchego do ventre de tua mãe.
Mas os ares eram fortes de mais,
não fugias aos orvalhos da noite
e a ciência há muito te abandonara.
De nada valiam as rezas de Carlota
nem as perdizes do Senhor Abade.
Por isso tiveste de deixar
o lar da tua infância, a tua taça de leite.
Querias apenas dormir, dormir, dormir...
Enquanto olhavas do teu quarto
as ondas brancas do teu mar da Foz,
adormeceste para sempre, docemente,
nos braços maternais de teu irmão.
Era Março e tinhas a idade de Cristo.

António José Queirós In "Os Meninos e Outros Poemas", 2ª edição,
Editora Labirinto, Fafe, 2008, p 17.
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    "Soneto da Inquietação"


Olho a ponte, olho o rio, mas não vejo
quem meus olhos procuram cegamente:
corre o tempo, fica a dor e o desejo
que o mundo se acabe de repente!

Passa um dia, outro dia, já não sei
por onde se perdeu meu pensamento;
caem sombras nos sonhos que sonhei
debruadas de mágoa e esquecimento.

Com a vida, por vezes, não me entendo,
nem com seus alados véus de ilusão.
E enquanto o meu mundo vai morrendo,

em saudosas vigílias de paixão
recordando o passado vou vivendo
numa louca e amarga inquietação.

António José Queirós In "Os Meninos e Outros Poemas", 2ª edição,
Editora Labirinto, Fafe, 2008, p 57.
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