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"Poema 10 do ciclo Café de Subúrbio"
Usa um brinco na orelha,
Pulseiras e colares de cor,
Cabeleira em cocar de pele-vermelha
E o uniforme punk de rigor.
Transpira droga, violação, violência,
As sangrentas sevícias contra quem o provoque,
Uma moto feroz numa veloz demência,
Roubo, assalto, assassínio... e o ritmo rock.
Tem aos pés uma caixa negra, inquietante.
(Instrumento musical? Arma de fogo?)
Fixa-me num olhar vago, distante...
Em que pensa (se pensa)? Anda-lhe um golpe em jogo?
Para mais, o café está quase vazio.
Quando o empregado se aproxima dele,
Sinto o temor de um arrepio
Na pele.
Numa voz de contralto (que surpresa!)
Pede um "caracol" e um leite quente.
Depois, começa a ler, cotovelos na mesa,
Uns comics do Disney. E ri perdidamente!
António Manuel Couto Viana in "60 Anos de Poesia" - Vol. II, Imprensa Nacional -
Casa da Moeda, Lisboa, 2004, p 119.
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09/06/10
23/03/10
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"Visitador secreto"
Chegaste de Atenas,
Viril dos ginásios.
Celebram avenas
Os teus olhos gázeos.
E que novas há
Do sábio Platão?
No Banquete, já
Lhe estendeste a mão?
Já despiste a túnica
Diante de Zeus?
És a b'leza única
Que merece um deus?
Serviste-lhe a copa?
Vergaste o joelho?
Preferiu-te a boca
Ao vinho vermelho?
Narciso e jacinto
Exalam, liberto,
O aroma que sinto
Ao chegares mais perto.
O mar do Estio
Vai vestir de azul
E espuma do cio
O teu corpo nu.
No Outono, as chuvas
Alagam-te o rosto
Com sangue das uvas
E álcool do mosto.
Ignorando o amor,
O teu sexo espera
Desfolhar-se em flor
Pela Primavera.
António Manuel Couto Viana in "Ainda Não", Averno, Lisboa,
2010, pp 37 - 38.
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"Visitador secreto"
Chegaste de Atenas,
Viril dos ginásios.
Celebram avenas
Os teus olhos gázeos.
E que novas há
Do sábio Platão?
No Banquete, já
Lhe estendeste a mão?
Já despiste a túnica
Diante de Zeus?
És a b'leza única
Que merece um deus?
Serviste-lhe a copa?
Vergaste o joelho?
Preferiu-te a boca
Ao vinho vermelho?
Narciso e jacinto
Exalam, liberto,
O aroma que sinto
Ao chegares mais perto.
O mar do Estio
Vai vestir de azul
E espuma do cio
O teu corpo nu.
No Outono, as chuvas
Alagam-te o rosto
Com sangue das uvas
E álcool do mosto.
Ignorando o amor,
O teu sexo espera
Desfolhar-se em flor
Pela Primavera.
António Manuel Couto Viana in "Ainda Não", Averno, Lisboa,
2010, pp 37 - 38.
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17/03/10
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"Esperança, Adeus!"
Descobri, numa esquina, o Encoberto.
Disse-me: "Sou Sebastião I,
Real e verdadeiro.
Mas com destino incerto.
Não venho de nenhum sepulcro aberto:
Venho do nevoeiro.
Perdi-me, derradeiro cavaleiro,
Nu, nas areias do deserto.
Estendo a mão à esmola do meu povo:
Que me dê coração, activo e novo.
Venho das trevas para ser amado."
Mostrei-lhe almas vazias:
- É o que resta de nós, na agonia dos dias,
Ó meu rei concebido sem pecado!
António Manuel Couto Viana in "Ainda Não", Averno, Lisboa, 2010, p 43.
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"Esperança, Adeus!"
Descobri, numa esquina, o Encoberto.
Disse-me: "Sou Sebastião I,
Real e verdadeiro.
Mas com destino incerto.
Não venho de nenhum sepulcro aberto:
Venho do nevoeiro.
Perdi-me, derradeiro cavaleiro,
Nu, nas areias do deserto.
Estendo a mão à esmola do meu povo:
Que me dê coração, activo e novo.
Venho das trevas para ser amado."
Mostrei-lhe almas vazias:
- É o que resta de nós, na agonia dos dias,
Ó meu rei concebido sem pecado!
António Manuel Couto Viana in "Ainda Não", Averno, Lisboa, 2010, p 43.
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