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25/08/09




"Eu Me Deleto"
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1
Eu me dilato:
rejeito a vida prêt-à-porter de massa e consumismo
fujo da matriz, evito o invólucro que me oferece como outro:
umbigo-conexão em fôrma e forma de fora para dentro
formulo e me reformulo
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mas estou infectado pelo vírus
electrônico, invadido por hackers de plantão
eliminando minha individualidade
- inteligência destrutiva
viral, virtual, visceral, vital.
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Me estendo, me simulo e dissimulo:
continuo sendo dionisíaco, lúdico
com o complexo de Narciso:
e me excomungo, me abduzo, me exorcizo.
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Como tudo é instantâneo
nem reflito
- espelho a derrocar a própria imagem.
Sou um rito de passagem.
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2
Eu me delato:
tudo pela onipresença
pela ubiquidade absoluta
- eu-prótese, eu-extensão
do modo de acomodar e conjugar
os mitos e as alegorias.
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3
E me deleto:
atrelado à rede total que me esgarça, me dispersa.
Me desloco, descolo, me desintegro, me desconecto.
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Estou cada vez mais fuso, parafuso, confuso
num esquema difuso
pelas regras da nanotecnologia
- daí a minha tecnofobia, minha agonia.
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É mesmo o fim da ideologia?
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Na missa virtual
em vez da pomba da paz
aparece uma vagina cósmica
denunciando minha origem.
Onde o antivírus? Cadê a vacina?
Vertigem do ser.
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Antonio Miranda In "Despertar das Águas", Thesaurus Editora,
Brasília, 2006, pp 74 - 76.
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24/08/09




"Rio de Janeiro Madrugada 1957"

que importa já passou nada restou
daquelas noites mornas e sem normas
pelas ruelas sujas paredes descascadas
da Lapa detrás dos Arcos prostitutas

mendigos tabuleiros angu com torresmo
travestis drogados acuados grasnando
de saltos altos seios postiços línguas
masturbando clientes colados aos postes

garotos de programa na Galeria Alasca
mostrando pénis rijos como mercadorias
vendedores de amendoim torradinho
lá vem o camburão arrasando quarteirão

sexo ali na praia ali mesmo luzes
refletidas corpos nus fricção orgasmo
curra sofreguidão susto prostração
que a noite é longa e os sonhos aguçados

um intelectual na porta do boteco cisma
um resto de samba-canção desnaturado
o bonde trepida os marinheiros urinam
e as igrejas dormem e os ratos assustados

os jornais da madrugada pesam nas calçadas
os bêbedos os malandros os vendedores de rua
os casais que saem dos cabarés suados
e o velho que dorme no banco de praça

e as luzes da avenida reverberando
e as colunas mortas e as portas fechadas
os anúncios luminosos as hospedarias
e os sobrados envergonhados sonolentos

não há lua sob um céu de chumbo
o bolso vazio o coração esfacelado
um desempregado com fome na parada
esperando o ônibus para o subúrbio

fantasias notívagas os preconceitos suspensos
desejos absconsos e sua cumplicidade
classes sociais aproximando-se promíscuas
antes que o dia enquadre as criaturas

Antonio Miranda In "Despertar das Águas", Thesaurus Editora,
Brasília, 2006, pp 47-48.
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