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30/06/10

" Ó fulgida visão, linda mentira! "

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Singra o navio. Sob a agua clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
Impeccavel figura peregrina,
A distancia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente côr de rosa,
Na fria transparencia luminosa
Repousam, fundos, sob a agua plana.

E a vista sonda, reconstrue, compara.
Tantos naufragios, perdições, destroços!
Ó fulgida visão, linda mentira!

Roseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivem desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

Camilo Pessanha in "Clepsydra", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
1995, p 111 ( Estabelecimento de texto, introdução crítica, notas e
comentários por Paulo Franchetti).
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29/06/10

" Como a onda na crista d'um rochedo. "

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"Estatua"

Cancei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem côr, - frio escalpello, -
O meu olhar quebrei, a debatel-o,
Como a onda na crista d'um rochedo.

Segredo d'essa alma, e meu degredo
E minha obcessão! Para bebel-o,
Fui teu labio oscular, n'um pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu osculo ardente, hallucinado,
Esfriou sobre o marmore correcto
D'esse entreaberto labio gelado...

D'esse labio de marmore, discreto,
Severo como um tumulo fechado,
Sereno como um pelago quieto.

Camilo Pessanha in "Clepsydra", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
1995, p 85 ( Estabelecimento de texto, introdução crítica, notas e
comentários por Paulo Franchetti).
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