Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Drummond de Andrade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Drummond de Andrade. Mostrar todas as mensagens

13/01/12

.
     " Mãos Dadas "

 
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

  Carlos Drummond de Andrade in " Sentimento do Mundo ", Editora Record,
Rio de Janeiro, 2005, p 59.
.
.
  " Brinde no Juízo Final "


Poetas de camiseiro, chegou vossa hora,
poetas de elixir de inhame e de tonofosfã,
chegou vossa hora, poetas do bonde e do rádio,
poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil.

Em vão assassinaram a poesia nos livros,
em vão houve putschs, tropas de assalto, depurações.
Os sobreviventes aqui estão, poetas honrados,
poetas diretos de Rua Larga.
(As outras ruas são muito estreitas,
só nesta cabem a poeira,
o amor
e a Light.)

  Carlos Drummond de Andrade in " Sentimento do Mundo ", Editora Record,
Rio de Janeiro, 2005, p 39.
.
.
 " Congresso Internacional do Medo "


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

 Carlos Drummond de Andrade in " Sentimento do Mundo ", Editora Record,
Rio de Janeiro, 2005, p 35.
.

16/01/10

Inéditos - VIII

.

.

"Miragem"



para Olga Savary



Chegou, impressentida e silenciosa,
com uma saudade eslava nos cabelos
e um ritmo de crepúsculo ou de rosa.


Os olhos eram suaves, e eis que ao vê-los,
outra paisagem, fluida, na distância,
sugeria doçuras e desvelos.


No coração, agora já sem ânsia,
paira a serenidade comovida
que lembra os puros cânticos da infância.


Logo depois se foi, mas refletida
nesse espelho interior, onde as imagens
se libertam do tempo, além da vida,


Olenka permanece, entre miragens.


(Rio de Janeiro, 1955)



Carlos Drummond de Andrade (Inédito)


Nota - em quatro linhas de rodapé, escritas pelo próprio punho,
Olga Savary esclarece-me alguns aspectos deste texto, dos quais
apenas um interessa agora: Olenka é um diminutivo eslavo; alusão
ao facto dos avós da poeta serem de origem russa.
.
.