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22/09/13



          " Entre ave e réptil "


interessa-me
entre ave e réptil
a condição
ambígua

confesso meu
fascínio por
essa corda estendida
entre uma e outra
palavra
e sua falsa noção
de equilíbrio

trago na raiz
do gesto o alvoroço
do circo

nervo reteso
lanço-me no ar
risco a
superfície do inútil - e vôo!

por vezes
uma palavra mais ágil
me subtrai
do precipício

mas quase sempre
me esborracho
no chão
em meu vôo solo
sem tambor nem
auxílio

reconfirmado
sísifo
- amador de seu ofício -
alço-me outra vez
ao risco dos trapézios


  Machado. Carlos. Pássaro de vidro. São Paulo: editora hedra, 2006, pp 95 - 96.
.

20/09/13



  " Pássaro de vidro (4) "


os matemáticos
- bruxos -
costumam brincar
com geometrias
esdrúxulas

e criam objetos
fantásticos
n-dimensionais
nos quais
não se sabe

o que é o fora
o que é o dentro
onde a periferia
onde o centro

*

assim esse pássaro
de vidro
menos inventado
que um (de)lírio
matemático

não é uma
fita de Mobius
nem uma
garrafa de Klein

é uma ave
estranha
em estado
grave de segredo

um pássaro
que resguarda tudo
que revela

embora exponha
sua entranha
sem temor
sem tumulto

enigma com asas
ele pousa
transparente
sem fora sem dentro

pousa como coisa
sem segredos


  Machado, Carlos. Pássaro de vidro. São Paulo: editora hedra, 2006, pp 50 - 51.
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