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23/03/13
" o poeta "
tinha um poema em vez de coração.
diziam que lhe chilreavam pássaros na garganta
e que das mãos se abriam quintilhas com que
transformava todas as coisas em ouro
o mundo pingava-lhe da boca em sopros de grafema
mas apenas alguns olhos escutavam
o coração que trazia em vez do poema
Vaz, Carlos. Cintilações da Sombra, Antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 24 (Coordenação de Victor Oliveira Mateus).
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13/11/09
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XXXV
dois homens brincavam como se fossem crianças . O primeiro
fazia castelos na areia, o segundo fazia castelos no ar. O primeiro
dizia: a areia é o material do meu jogo , e sujava-se plantando
os dedos como retroescavadoras, enquanto fazia "vruum-vrrum".
O segundo olhava o ar e dizia: o silêncio é o material do meu
jogo, enquanto inspirava carregando-se da mesma brisa com
que enchia as altas torres.
Cada um era uma criança à sua maneira. Ambos foram constru-
indo incríveis castelos com princesas e dragões lá dentro.
O primeiro homem quis entrar no castelo de areia, mas não podia,
por ser muito grande e pesado, e se o fizesse, ao primeiro passo
que desse, acabaria por o esmagar, já que era , na verdade , um
enorme gigante . O segundo homem queria entrar no castelo
imaginado suspenso no ar, bem por cima das nuvens , mas como
era muito pequenino - como o polegarzinho - não conseguia chegar
sequer à fechadura do portão de entrada.
Os dois adultos decidiram, então, brincar ainda mais , e , por isso,
resolveram construir juntos um castelo , só que agora feito com
uma metade de ar e outra de areia . No fim , o castelo era do
tamanho preciso e correcto e , desta forma , puderam realmente
brincar, ao entrarem para salvar a princesa , com espadas de
fogo e unicórnios voadores, mas isso já é outra história.
Carlos Vaz In "o estrangulador de bonecos de neve", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, pp 49-50.
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XXXV
dois homens brincavam como se fossem crianças . O primeiro
fazia castelos na areia, o segundo fazia castelos no ar. O primeiro
dizia: a areia é o material do meu jogo , e sujava-se plantando
os dedos como retroescavadoras, enquanto fazia "vruum-vrrum".
O segundo olhava o ar e dizia: o silêncio é o material do meu
jogo, enquanto inspirava carregando-se da mesma brisa com
que enchia as altas torres.
Cada um era uma criança à sua maneira. Ambos foram constru-
indo incríveis castelos com princesas e dragões lá dentro.
O primeiro homem quis entrar no castelo de areia, mas não podia,
por ser muito grande e pesado, e se o fizesse, ao primeiro passo
que desse, acabaria por o esmagar, já que era , na verdade , um
enorme gigante . O segundo homem queria entrar no castelo
imaginado suspenso no ar, bem por cima das nuvens , mas como
era muito pequenino - como o polegarzinho - não conseguia chegar
sequer à fechadura do portão de entrada.
Os dois adultos decidiram, então, brincar ainda mais , e , por isso,
resolveram construir juntos um castelo , só que agora feito com
uma metade de ar e outra de areia . No fim , o castelo era do
tamanho preciso e correcto e , desta forma , puderam realmente
brincar, ao entrarem para salvar a princesa , com espadas de
fogo e unicórnios voadores, mas isso já é outra história.
Carlos Vaz In "o estrangulador de bonecos de neve", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, pp 49-50.
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11/11/09
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XXII
um dia todas as nuvens caíram como rochas no chão . Em
vez de voar leves e silenciosas, faziam agora um ruído atroz
ao arrastarem-se pelos caminhos e roçarem nas casas,
parecendo enormes caracóis por largarem, atrás de si, uma
longa baba líquida.
Desde que as nuvens caíram no chão, as pessoas deixaram
de lhes procurar os rostos e as formas, afastando-se delas
por parecerem repugnantes, envoltas na agonia por terem
perdido a licença de voar. Assim passaram de coisas belas
e límpidas, a coisas atrozes, sujas pelo lixo do chão , envoltas
numa papa corporal, fazendo lembrar, em vez de castelos
translúcidos a pairar no ar, enormes aglomerados de lama e
rochas cinzentas.
Com o tempo , entre os humanos inventaram-se novas
profissões como, por exemplo, os pedreiros de nuvens, que
retiravam os minérios líquidos do seu interior; os limpadores
de nuvens, etc. Graças a estas e muitas outras profissões
inventadas, as nuvens foram instantaneamente consumidas,
até que desapareceram para sempre. Depois, foi a vez dos
pássaros caírem como rochas no chão.
Carlos Vaz In "o estrangulador de bonecos de neve", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 35.
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XXII
um dia todas as nuvens caíram como rochas no chão . Em
vez de voar leves e silenciosas, faziam agora um ruído atroz
ao arrastarem-se pelos caminhos e roçarem nas casas,
parecendo enormes caracóis por largarem, atrás de si, uma
longa baba líquida.
Desde que as nuvens caíram no chão, as pessoas deixaram
de lhes procurar os rostos e as formas, afastando-se delas
por parecerem repugnantes, envoltas na agonia por terem
perdido a licença de voar. Assim passaram de coisas belas
e límpidas, a coisas atrozes, sujas pelo lixo do chão , envoltas
numa papa corporal, fazendo lembrar, em vez de castelos
translúcidos a pairar no ar, enormes aglomerados de lama e
rochas cinzentas.
Com o tempo , entre os humanos inventaram-se novas
profissões como, por exemplo, os pedreiros de nuvens, que
retiravam os minérios líquidos do seu interior; os limpadores
de nuvens, etc. Graças a estas e muitas outras profissões
inventadas, as nuvens foram instantaneamente consumidas,
até que desapareceram para sempre. Depois, foi a vez dos
pássaros caírem como rochas no chão.
Carlos Vaz In "o estrangulador de bonecos de neve", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 35.
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02/06/08
"ilusão"
a flor desata o nó em direcção a uma lâmpada
é livre na sua luz e na sua escolha
enquanto procura o conforto no espaço
entra pela janela uma leve claridade (do sol)
tocando o corpo vegetal que indiferente
procura um lugar na terra herdada
no fim, grita com todas as cores
pela luz falsa que a entretém
numa espécie de ilusão enigmática de liberdade
Carlos Vaz, In "Liberdade - col. afectos Nº 3"
Ed. Labirinto, 2007.
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