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01/08/11


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Enquanto trabalhava, os seus olhos exibiam um ar curiosamente penetrante. Estava a pensar na carta para o seu amigo Antonapoulos. Já passava da meia-noite quando terminou finalmente o trabalho. Pousou a salva e a sua testa estava transpirada de tanta concentração. Limpou a bancada e começou a escrever. Adorava formar as palavras no papel e fazia-o com tanto cuidado como se a folha fosse uma salva de prata.

"Meu único Amigo:
Li na nossa revista que a Associação se vai reunir este ano, numa convenção a realizar em Macon. Haverá oradores e um banquete composto por quatro pratos. Já o estou a imaginar. Lembraste de que sempre quisemos ir a uma dessas convenções, mas nunca o fizemos? Quem me dera que o tivéssemos feito. Quem me dera que fossemos à convenção deste ano, acredita que até já o imaginei na minha cabeça. Mas é claro que nunca poderia ir sem ti (...) Escrevo que imagino todas essas coisas. Escrevo e não escrevo. As minhas mãos estão paradas há tanto tempo que tenho alguma dificuldade em me lembrar como é que se faz. E, quando penso na convenção, imagino todos os convidados parecidos contigo, meu Amigo.
No outro dia, estive em frente à nossa casa. Agora moram lá outras pessoas, Lembras-te do carvalho enorme que havia mesmo em frente? Cortaram-lhe os ramos mais altos, para não se emaranharem nos fios dos telefones, e a árvore acabou por morrer. O resto dos ramos apodreceu e o tronco está todo oco. E o gato aqui da loja (aquele que tu costumavas pegar ao colo) comeu qualquer coisa venenosa e morreu. Foi muito triste."

A caneta parou no ar, por cima da folha de papel. Singer deixou-se ficar quieto durante algum tempo, muito tenso, sem escrever uma única palavra. Depois, pôs-se de pé e acendeu um cigarro. A loja estava fria e havia um odor desagradável no ar, uma mistura de petróleo, de líquido para polir pratas e de tabaco. Singer vestiu o sobretudo, enrolou o cachecol à volta do pescoço e recomeçou a escrever com uma determinação vagarosa.

"Lembras-te das quatro pessoas de que te falei quando estive aí? Fiz um desenho para ti: o negro, a miúda, o homem do bigode e o dono do New York Café. Gostava de te contar umas coisas sobre eles, mas ainda não sei como as pôr sob a forma de palavras.
Estão todos muito absorvidos. Aliás, estão tão absorvidos que é difícil conseguires visualizá-los. Quando digo "absorvidos", quero dizer que a mente deles não lhes dá descanso. Aparecem no meu quarto e falam tanto, mas tanto, que não percebo como é que uma pessoa consegue abrir e fechar tantas vezes a boca, sem ficar completamente esgotada.
(...) É assim que eles falam quando vêm ao meu quarto. As palavras que têm no coração não lhes dão descanso, por isso estão sempre tão absorvidos (...) Inclusivamente, chegaram a ser mal-educados uns com os outros. Sabes bem que eu sempre disse que é uma grande falta de educação ignorar os sentimentos dos outros. Mas foi mesmo isso que aconteceu. Não compreendo, por isso te escrevo, porque sinto que tu vais compreender. Estou com uma sensação estranha. Mas já escrevi imenso sobre esse assunto e calculo que já estejas saturado. Eu também estou.
Já se passaram cinco meses e vinte e um dias. Estou sozinho, sem ti, há todo esse tempo. Só penso no dia em que estaremos novamente juntos. Não sei o que será de mim se não te puder ver em breve."

Singer pousou a cabeça na bancada e descansou um bocado. O cheiro e o toque da madeira lisa no seu rosto recordou-o dos tempos de escola. Fechou os olhos e sentiu-se agoniado. Só via o rosto da Antonapoulos e as saudades que sentia do amigo eram tão fortes que lhe cortavam a respiração. Pouco depois, Singer endireitou-se e pegou na caneta.

"O presente que encomendei para ti não chegou a tempo de ir na caixa que te enviei no Natal. (...) Tenho saudades dos teus cozinhados. No New York Café, as coisas estão muito mal. Aqui há uns tempos, encontrei uma mosca cozida dentro da sopa. Estava misturada com os vegetais. Mas isso não é importante. Sinto tanto a tua falta, estou tão sozinho... Em breve irei visitar-te. Só tenho férias daqui  a seis meses, mas acho que consigo tirar uns dias até lá. Tem mesmo de ser. Não consigo estar sem ti, entendes?

Do teu,
John Singer"

Eram duas da manhã quando Singer regressou a casa. O edifício enorme e cheio de gente estava mergulhado na escuridão, mas ele subiu cuidadosamente os três lanços de escadas, sem nunca tropeçar. Retirou dos bolsos os cartões que costumava guardar, o relógio e a caneta de tinta permanente. Em seguida, pendurou a roupa nas costas da cadeira, com cuidado. O pijama de flanela cinzento era quente e macio. Puxou o cobertor até ao pescoço e adormeceu de imediato.

  Carson McCullers in " O coração é um caçador solitário ", Editorial Presença,
Lisboa, 2010, pp 213 - 216.
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31/07/11

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Tudo estava tranquilo. Enquanto Bifff secava o rosto e as mãos, uma brisa fez tilintar os pendentes de vidro do pagode japonês em miniatura, que estava em cima da mesa. Acordara da sua sesta e fumara o seu charuto da noite. Pensou em Blount e interrogou-se se ele já estaria muito longe. Havia um frasco de Agua Florida na prateleira da casa de banho e ele levou a tampa às têmporas. Estava a assobiar uma canção antiga e, ao descer as escadas estreitas, a melodia ia deixando um eco atrás de si. (...) O relógio da parede marcava 12h17. O rádio estava ligado e ouvia-se um debate sobre a situação que Hitler havia criado por causa de Danzing (...).
Biff atravessou a cozinha em bicos dos pés e foi à prateleira onde havia um cesto com jasmineiros-do-imperador e duas jarras cheias de zínias. (...) Começou a decorar a montra com imenso zelo. No meio do ramo encontrou uma flor esquisita: uma zínia com seis pétalas cor de bronze e duas pétalas vermelhas. A montra ficou pronta e ele saiu para o passeio, para contemplar o resultado final (...).
O céu, negro e repleto de estrelas, parecia bastante próximo do chão. Biff caminhou ao longo do passeio, parando uma vez para empurrar uma casca de laranja para a sarjeta, com o pé. No fundo da rua, dois homens estavam de braço dado. Não se via mais ninguém. O seu restaurante era a única loja aberta.
Para quê? Por que motivo tinha o restaurante aberto durante a noite, se todos os outros cafés da cidade estavam fechados? Faziam-lhe essa pergunta imensas vezes, mas nunca soubera responder. Não era por causa do dinheiro (...).
Mas ele jamais fecharia a porta à noite enquanto estivesse naquele negócio. A noite era maravilhosa. Havia pessoas que, de outro modo, ele jamais reconheceria (...).
Examinou a zínia que tinha posto de lado. Ao segurá-la na palma da mão, na claridade da luz, apercebeu-se de que a flor não era tão rara como ele supusera. Não valia a pena guardá-la. Arrancou as pétalas macias e brilhantes e, quando chegou à última, calhou-lhe "bem-me-quer". Mas quem? Quem é que ele iria amar agora? Ninguém em especial. A primeira pessoa decente que entrasse no restaurante e se sentasse durante uma hora, a tomar um copo. Mas não havia ninguém. Todos os seus amores havia desaparecido. Alice. Madeline e Gyp. Findos. Deixando-o numa situação melhor ou pior. Qual seria? Dependia da forma como se olhasse para a situação.
E Mick. Aquela que, nos últimos meses, vivera estranhamente no seu coração. Teria este amor chegado ao fim também? Sim. Findara. Agora, Mick aparecia no princípio da noite, para tomar uma bebida fria ou para comer um sundae. Tinha crescido. Perdera por completo o jeito infantil. Agora, tinha um porte elegante e delicado. (...) Ele olhava-a e já só sentia ternura. O sentimento antigo desaparecera. Durante um ano, esse amor florescera invulgarmente. Ele questionara-o inúmeras vezes, sem nunca obter esposta. E agora, como uma flor de Verão que murcha em Setembro, esse amor desaparecera. De vez.
(...) Biff estava absolutamente imóvel, absorto nos seus pensamentos. Depois, subitamente, sentiu qualquer coisa despertar dentro de si. O seu coração deu um salto e ele encostou-se ao balcão, para evitar cair. Viu a interminável passagem da humanidade através dos tempos. E viu os que trabalhavam e os que, numa só palavra, amavam. Depois, sentiu uma espécie de advertência, um poço de horror. Encontrava-se suspenso entre os dois mundos. Contemplou o seu próprio rosto reflectido no vidro do balcão à sua frente. A transpiração cintilava-lhe na testa e Biff tinha o rosto contorcido (...) fitava, incrédulo, um futuro de escuridão, de erros e ruína. Encontrava-se suspenso entre a Luz e a Escuridão. Entre a ironia e a fé. Desviou o olhar.
(...) Mas, santo Deus, ele era um homem inteligente ou não? Como é que o terror o conseguia esmagar daquela forma, quando ele nem sequer sabia o que o provocava? Iria deixar-se ficar ali parado, como um palerma completamente apavorado, ou encher-se de coragem e de juízo? Biff molhou o lenço na torneira e levou-o ao rosto tenso e cansado. Lembrou-se de que ainda não tinha recolhido o toldo. Encaminhou-se para a porta, com um passo firme. Quando voltou para dentro, já se encontrava suficientemente recobrado para esperar o romper do sol.

  Carson McCullers in " O coração é um caçador solitário". Editorial Presença,
Lisboa, 2010, pp 351 - 355.
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