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05/11/13



A poeta e jornalista Maria Augusta Silva e o romancista Pedro Foyos acabam de publicar um inédito meu no seu prestigiado site Casal das Letras . Bem-Hajam!
 
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04/11/13

 
 
 
  " Secção 2 da Parte I do Poema Gente Dois Reinos "
 
 
 
Depois foi o dia do jardim. Do templo
aberto por certeiro acaso, como dizem
todos os peritos do não destino: sábios
magnificentes do que não se sabe, nem
sequer uma única vez. Foi o dia em que
te abri o passado, para que alguém
- finalmente - o destruisse na imperiosa
urgência que um outro de mim pudesse ousar
e, destecendo finíssimo casulo, um caminho
- impoluto - me pusesse à frente sem álibis
nem veredas. Sim, era mais um dia entre o éter
e o fogo, esses dois reinos que sempre somos,
mesmo se por momentos não os vemos
ou tendenciosamente os iludimos.
 
 
Mas talvez tu não existas. Talvez tu não
sejas mais do que a projecção de mim
criança, neste mesmo templo, pela mão
de uma qualquer criada velha, assistindo,
cheio de tédio, a um rito que não entendia.
Talvez tu não estejas ali à minha frente,
a observar cuidadosamente a talha dourada,
as imagens, os retábulos. Ah, os retábulos!
Quem sabe se não és apenas uma das suas figuras
que da fixidez cromática decidiu sair para questionar
meu ser e ausência? Talvez tu não sejas tu,
e eu, de máquina em punho, e a fazer zoom
para melhor te captar, não seja mais
do que um esgar aberto sobre a vastidão do vazio.
 
 
Talvez nada de ti exista, nem tão-pouco
a tua voz agora a meio metro de mim: " sabes
que no altar-mor está o túmulo de uma filha
de D. Manuel? " Mas que poderia eu saber
quando, naquela altura, tão ao invés do corpo,
do fogo e dos sentidos? E tu a perscrutares
o templo, esse templo de que fomos
chamados a cuidar e que, em medalhados
corredores de fundo, ao fundo atiramos
sem remorso nem culpa. Tu num dos cantos
mais sombrios, entre o roxo e os espinhos,
com um Cristo a lembrar-me um poema
de Antonio Machado. E eu a fixar esse ígneo
instante, esse efémero que transbordava.
 
 
Eu a querer, mas a máquina a não obedecer:
nem filtros, nem zoons, nem luz... nada!
Apenas o negro no pequeno rectângulo
que te desolava: " Vês, perdi a aura,
não consegues a foto porque perdi a aura
e nem sequer ao pé do Cristo ela aparece "
Quis dizer-te que não, que tudo era eu:
esta inaptidão para com uma mera lente
te roubar a alma; sim, esta minha incapacidade
danificara a máquina, baralhara as perspectivas,
curtocircuitara direções... Tudo isso quis eu
dizer, mas desculpei-me com esse acaso
em que não creio. E, por fim, vi de novo
a minha infância no resplendor do templo.
 
 
Vi a pequena imagem bordada a azul
e ouro. Vi a simetria das naves, o púlpito,
os adamascados, o enorme retábulo central
para onde, aos poucos, ias recuando:
essa terrífica pintura barroca onde o excesso
de dor sempre me repugnara
no que transmitia de domesticação
e de recusa da alegria que todo o sagrado é.
Tu agora disperso na estridência das cores,
numa percepção impura, como todas;
numa relação fantasiada, como todas também.
E tudo isso para que eu atravessasse
a porta, tal como entrara: circunspecto,
perdido, só - ah, tão entranhadamente só!
 
 
   Mateus, Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 19 - 21.
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19/10/13


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Ícaro, de Victor Oliveira Mateus, esta vez, traducido al italiano por Marcela Filippi Plaza. Un mismo poema recorriendo tantos rincones del silencio, tantos Ícaros diferentes sobrevolando un mismo laberinto...

ÍCARO
A Miguel Veyrat

Liscia le piume nell'angolo del davanzale
dove il petto -oramai senza canto- gli ravviva
pene di un altro tempo, quando l'attesa
per qualcosa di nuovo era un' asta in mezzo alla furia dei venti.

Allineale per colore, grandezza,
dolcezza, e con esse sfida il sole, i tiranni,
tutto ciò che senza desiderio puro rifiuta ali
per ricevere il danno, il fango o la tortura.

Liscia le pene nell'angolo del davanzale,
al contrario delle minacce di Minosse, i labirinti
di Cnosso e il suo risentimento, il ruggire delle macchine
giù per la strada: mistione di felicità e disfacimento.

Accarezza le ali ormai esaurite e appoggiato sul cristallo
scuro del balcone, rattrista la futura caduta, cera
e audacia, fuse per far nascere così le isole,
terre verdeggianti e tutte le cose promesse.

Victor Oliveira Mateus, (traducción de Marcela Filippi Plaza).
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18/10/13


.ÍCARO
a Miguel Veyrat

Alisa las plumas en el rincón del alféizar...
donde el pecho –ya sin canto- le aviva
penas de otro tiempo, cuando la espera
de algo nuevo era mástil en la furia de los vientos.

Alinealas por color, tamaño,
la dulzura, y con ellas desafía al sol, los tiranos,
todo lo que sin deseo puro rechaza alas
para aceptar el daño, el fango o la tortura.

Alisa las penas en el rincón del alféizar,
al revés de las amenazas de Minos, los laberintos
de Cnossos y su despecho, del rugir de los coches
calle abajo: mezcla de felicidad y destrozos.

Acaricia las alas ya acabadas y, apoyado en el cristal
oscuro del balcón, entristece la futura caída, cera
y osadía derretidas, para que así nazcan las islas,
tierras verdeantes y todas las cosas prometidas.

Victor Oliveira Mateus. (traducción, Marta López Vilar) in Cintilações da Sombra. Fafe: Editora Labirinto, 2013.

Sonando: Βγάλε φτερά και πέτα ("Ponte unas alas y vuela"), de Costas Pavlidis...

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11/10/13

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“ Helena em Tróia, os últimos momentos “

 

 Lembro as noites de sufoco com os pássaros
encalhados no topo das torres, com a luz
a torcer-se nos meus olhos e o calor,
já prenúncio de desastre, descendo em ameaça
a rigidez do Parnón para ali se misturar
com a passividade das ovelhas, com o desalinho
ofensivo das cabras, com o relincho selvagem
dos cavalos a saciarem-se, alheios a tudo,
nas águas frescas do Eurotas. Lembro
a minha perda ainda mal desenhada na erva
tenra das margens, enquanto os deuses,
em conluios de quem tudo pode, me preparavam
armadilhas fortes e sem possível escapatória.

 
 
 Lembro as lautas refeições noite adentro
onde o riso dos homens se enredava na vileza
partilhada e a gordura lhes escorria pelas barbas,
enquanto  o cheiro da urina se misturava
com o do porco bravo a voltear sobre um fogo
intermitente. Lembro os movimentos
voluptuosos das dançarinas, mulheres encenando
o que não sentiam, para o simultaneamente
boçal e frouxo apetite dos homens. Lembro
as guturais entoações dos poetas, espécie
sempre indecisa entre a inveja e a concupiscência
da alma, arvorando entoações de ouro
nos míseros recipientes onde recebiam as esmolas.
 
 
 
Lembro também os músicos, tão desacompanhados
de tudo, os guerreiros – impotentes como todos
os guerreiros -, os estrategas, os generais, os nobres…
E lembro sobretudo a presença de Hermíone,
com os seus nove verões recém concluídos,
a acenar-me por entre a rudeza dos convivas
e do abandono a que, em breve, a votaria –
eu, qual funesta mãe a quem o ventre deveria
ter sido mirrado à nascença, para jamais trocar
filha por salvação própria em braços de homem
raro, homem que me perdoaria um passado
só de corpo, de fealdade da mente, de prazeres
grosseiros, como grosseiro fora tudo antes dele.

 
 
Lembro esse mesmo homem a atravessar
a cidadela, a entrar no pavilhão entre a falsa
ousadia varonil e o engaste de um desnorte
verdadeiro a esconder-se por detrás de tudo
o que em Heitor era missão e primazia. Vi-o
e soube de imediato a que perda estava destinada,
a que fim me conduziriam todos os caminhos
que se emaranhavam agora do meu promíscuo
passado a esse barco que no porto me sabia esperar.
E, quando ele finalmente reparou em mim,
percebemos ambos que nenhuma saída era já possível;
que Apolo, senhor do sol e de todas as luzes,
de nós se apropriara como exemplar fulgor do eterno.

 
 
Páris Alexandre, sussurravam as criadas o seu nome,
gritavam-no os homens entre si, ressoavam-no
os antigos oráculos, que de mim tanto escondera
por temor e cobardia. Nove dias após o primeiro
olhar! Nove dias onde as noites floresciam
com tanta coisa sufocada e aguardando a mão
certeira. Noites a medirem-se por um fascínio
em desalinho:  faixas decoradas, colares de contas
de âmbar, braceletes de folha de ouro, tecidos rasgados,
suor, saliva, pingos de sémen e a nossa perda
também, mas essa não nos interessava,
porque cheirava a ganho e a instantes eternizados,
coisa que só a poucos é concedida.

 
 
Não, não me julguem pelos relatos futuros, por essas
inverosímeis epopeias ou pelos preconceitos dos que não ousam!
Tróia teria sido igualmente destruída: as terras de Dardano
eram apetecíveis, mas pela geografia e pelos celeiros de trigo.
Eu fui apenas o pretexto! Os políticos, casta de facínoras
com máscara de sorrisos, há muito tinham decidido
a nossa perda; na sua ganância não cabe a honra
nem estórias como a minha e nos seus melífluos argumentos
apenas a abastança se descobre pelo fedor insuportável
dos seus ventres sórdidos. Fugi, pois, dos poetas, dos políticos
e das estelas à beira dos caminhos! Só a justeza da paixão,
a sua lealdade, é verdadeira, só ela poderá um dia
dar sentido à pequena e miserável  História dos homens.

 

                              VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS (Inédito)



Nota - Os meus textos inéditos ( e apenas esses!) estão protegidos por legislação específica.
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15/06/13




Hay un rumor en esta distancia,
un ardid con el que tiño las palabras
con trampas que vibran
y no protegen. Hay un puerto,
húmedo y desierto, como todos los puertos
cuando no estás, y hay también un mapa,
un antiquísimo mapa sin costas
ni orillas, donde rehago
esta insoportable sed de ti
conmigo dibujando islas al otro lado
del tiempo. Hay aún -o parece
haber- un puente...un paso
amenazado: y todo esto, todo, porque
hay un rumor en esta distancia.

Victor Oliveira Mateus, Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013 (trad. Marta López Vilar).


Lo que duele no son las rupturas, el alejamiento,
la incapacidad minando como un cáncer
oculto y certero. Lo que duele no es
la poca solidez con que se dijo
esta o aquella palabra, esta o aquella frase;
con que se insistió, a pesar de recelos varios,
en la grotesca escenificación de lo que se preveía
muy próximo a cualquier futuro. Lo que duele
no es la viscosidad de las emociones inscribiéndose
en algún mapa anticipadamente condenado,
ni tampoco la insistencia de un indisoluble
recuerdo escapando. Lo que duele verdaderamente
es despertar un día y descubrir
que nada de eso tuvo importancia alguna.



Victor Oliveira Mateus. Gente dois reinos. Fafe: Ed. Labirinto. 2013 (Trad. José Ángel García
Caballero)
 

30/05/13

 
 
 
     ( Poema 6 do Ciclo Elementos )
 
 
 
 
O que dói não são as roturas, o afastamento,
a incapacidade a minar como um cancro
oculto e certeiro. O que dói não é
a pouca solidez com que se disse
esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase;
com que se insistiu, apesar de receios vários,
na grotesca encenação do que se previa
muito aquém de qualquer futuro. O que dói
não é a viscosidade das emoções a grafar-se
em algum mapa antecipadamente condenado,
nem tão-pouco a insistência de uma insolúvel
lembrança a fugir. O que dói verdadeiramente
é acordarmos um dia e descobrirmos
que nada disso teve importância alguma.
 
 
 
   Mateus. Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 27 ( Prefácio de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel García Caballero).
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15/05/13

          ( "Dédalo e Ícaro" quadro de Frederick Leighton, cerca de 1869 )


                                            " Ícaro "



Alisa as penas no canto do parapeito,
onde o peito - já sem canto - lhe atiça
penas de outros tempos, quando a espera
de coisa nova era haste na fúria dos ventos.

Alinha-as segundo a cor, o tamanho,
a doçura, e com elas desafia o sol, os tiranos,
tudo o que sem vontade pura recusa asas
em aceitação de danos, vasas ou tortura.

Alisa as penas no canto do parapeito,
avesso às ameaças de Minos, aos labirintos
de Cnossos e seu despeito, ao roncar dos carros
rua abaixo: misto de falsidade e destroços.

Afaga as asas já concluídas e, encostado ao vidro
fosco da varanda, entristece a futura queda, cera
e ousadia derretidas, para que assim surjam ilhas,
terras verdejantes e todas as coisas prometidas.

  Mateus, Victor Oliveira. Doce Inimiga ( antologia). Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 40 ( Coordenação de Maria do Sameiro Barroso).

 
Nota - a presente obra, que integra textos de vários autores, acompanhou uma leitura poética organizada pelo World Poetry Movement e visa promover o diálogo, a libertação, a solidariedade e o empenho contra a opressão, a apatia e o isolamento; visa também chamar a atenção sobre os mais frágeis e combater o poder insensato dos predadores que controlam o mundo e impõem sobre todos a garra pesada do seu domínio cego. (Esta nota é quase uma transcrição literal da Abertura redigida pela coordenadora da Antologia).
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05/05/13

 

                                                                        Sou no que pode o eco, não o lamento.
                                                                        escrita, a ti me entrego, e me possuis
                                                                        no vão das horas, nas máscaras do tempo.

                                                                                  Antonio Carlos Secchin, in Terra


    " Poema 10" do Ciclo Elementos


Nenhuma viagem é mais terrível
do que aquela que é feita ao mais fundo de nós,
a esse impalpável reino onde se acumulam,
e ardem, pedaços do que nunca seremos.
Nenhuma viagem é mais tormentosa,
mais negra, mais cheia de enganos e monstros
do que aquela com que enfeitamos a ruína
do último dia. Perante o irremediável -
as mãos abertas, uma canção estilhaçada
numa boca anónima, o desespero
a refulgir no terraço onde eu há muito
deixei de procurar. É assim toda a viagem:
nem errada nem certa; paisagem a insistir,
fixa, iluminada, de onde minha imagem deserta.


 Mateus, Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 32 (Prefº de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel García Caballero).
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Gisela Ramos Rosa, Ana Cristina Silva, Maria João Cantinho, Victor Oliveira Mateus
   


     " Poema 3" do Ciclo Elementos


Ao terceiro dia ninguém separou a luz
das trevas. Nenhuma deusa, nenhum demiurgo,
nenhum deus, maior ou menor, decidiu
perfilhar-nos; decidiu recriar as águas,
as aves, as plantas (agora transgénicas),
as cidades (cada vez mais cóio de corruptos),
o sexo (apressada ejaculação por hábito,
por aprendizagem ou no minúsculo extra
que se cria em qualquer intervalo conjugal,
quando o trabalho se distrai ou finge,
mas a engrenagem insiste, por agora
e sempre). Ao terceiro dia nenhum de nós
esboçou o mais pequeno traço
entre um intento etéreo e o fogo do lugar.

O lume, voraz, ecoava nas grelhas, no estralejar
do carvão, e, alheio, emoldurava igualmente o vozear
ácido dos bêbedos, o entrechocar dos copos
à mistura com os meus pensamentos.
Na gordura do balcão os cotovelos do rapaz
do retábulo desenhavam circunferências
concêntricas, assim como tu ali bem perto
e o meu duplo a distanciar-se cada vez mais
através da noite, enfim, tanta gente (ou ninguém)
para me descentrar da porta, de mim próprio,
de uma lealdade indefinível, uma estranha
lealdade que sempre me acrescenta
no vasto rol das cedências feitas e onde eu sabia
(por antecipação) que tu jamais poderias caber.

Ao terceiro dia levei-te ao lugar da minha infância
Uma mulher, reconhecendo-me,
abriu-nos a sua porta, mostrou-se-nos por dentro
com bens e infortúnios. Era uma mulher simples,
como simples eram os dedos que te percorriam
o antebraço, como simples ( e derrotados)
eram os meus olhos: cúmplices de um tempo
que eu ia escondendo na voragem cega
que haveria de chegar... Depois vieram os painéis
de azulejos, também eles sobreviventes
de terramotos; o esboroado chafariz
onde os muares se dessedentaram
e os carroceiros mataram suas frustrações
de uma república que não tinha valido a pena;

a mina, de água salobra, já seca e sem qualquer
uso; as hortas - ainda resistentes -
que nos pusemos a inventariar neste tempo
de aparências e artifício. Ao terceiro dia
misturei memória e imaginação,
percepçãp presente e antiga, concreto
e expectativa e como o meu duplo
relativamente a escritas antigas,
assim forjei palavras e versos
onde se escondessem todos os abismos
que eu não pedira. Mais tarde, muito
mais tarde, acusar-me-ias de inaptidão,
de incapacidades várias e envenenamentos
de uma narrativa há muito condenada;

mais tarde, tu, meu outro no desdobramento
de mim, quando te pedi a não dureza das palavras,
só então percebeste do silêncio a sua fala
mais estreita, essa uterina busca de águas
e grutas inexpugnáveis, essa clareira
onde um colo de raízes se desenha, e, ao cair
da noite, de novo volta para me cobrir
com seu manto de angústia e perdas várias.
- Tu não és daqui!, dizia-me o rapaz
do retábulo, enquanto Erato ajeitava a saia
e olhava de soslaio a porta, dividida agora
entre o crepitar do fogo e um ecrã cego
a derramar sons no olhar vítreo dos bêbedos
que, ausentes, me reconheciam igual e sem futuro.


   Mateus, Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 22 - 24 ( Prefº de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel Garcia Caballero).
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06/04/13

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       "  Poema  18.  "


Atirei-te com um poema
não pela porta, nem pelo tubo de escape: deixei-to preso
no limpa-vidros               Atirei-te com um poema, mas tu
não estavas       durante mais de três dias não vieste
a casa         e o meu pobre poema ali ficou: perdido
imerso no ruído dos outros carros, no passar fétido
de todas as errâncias, que não a minha
sempre a ler sonhos na frieza das ruas


Atirei-te com um poema
escrito por outro que não eu: deixei-to preso
no limpa-vidros, para que te limpasse o dia
                           para que te abrisse o horizonte
nas riscas brancas de um qualquer navio
ou nas malhas acesas da madrugada
quando me perco na sedução vaga do teu olhar


Sei que irás suspeitar de mim
pensarás que ando agora pelas ruas
                                                 atirando poemas
como pássaros       a todo o rosto entrevisto
no clamor sórdido dos dias
Irás supeitar deste mistério que é o meu para ti
enquanto eu, artilhando a minha-espingarda-dos poemas,
te preparo este, para ser mais certeiro, mais eficaz
Este poema que te desperte,
que te traga de volta, que


   Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, p 47 (Prefácio de Ana Paula Dias).
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24/03/13

Um quasipoema...



Não sei se vem a propósito: quando iniciei o Ciclo Preparatório, a professora de Canto Coral ouviu os meninos um a um e depois sentou-os em lugares bem definidos: 1ª voz, 2ª voz, etc. Quando chegou a minha vez, teve de me ouvir três vezes e depois, peremptória, disse: o menino senta-se na fila da esquerda, junto aos desafinados... A partir desse dia descobri que a vida iria valer a pena!
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(Nota - não é meu hábito trazer os meus comentários do Face para o Blogue, mas desta vez creio que faz algum sentido...)
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22/03/13



   UMA JOVEM SENTADA NO MEU DEGRAU

                                                 para Marta López Vilar


De negro como outrora as atenienses
junto às muralhas do Pireu. De negro
os escombros de Palmira, os sagrados
cadáveres de Tebas, os tiranos assumidos
tão iguais a estes com seus velhos desdentados,
suas imolações pelo fogo, suas mulheres
atirando-se pelas janelas, quais Medeias
já sem filhos nem vontade de vingança.


De negro a magia persistente de Ritsos,
de Kavafys, de Seferis, tão avessos
ao quotidiano esquartejado que propagais.
E de negro tu também: sentada
no meu degrau, com o vestido
a barrar-me a entrada ( coisa de presságios
tão confusos para mim àquela hora!),
com o teu sorriso luminoso; um olhar


a adensar-me a culpa. Um sorriso
sereno e eu a não te poder mudar
a vida. De negro o ficarmos ali _
um frente ao outro... Era um negro
tão negro, que nele se ouvia já o estrépito
do branco a despontar: nos gritos,
nas palavras recuperadas que um dia
- inevitavelmente -  hão-de voltar.

  Mateus, Victor Oliveira. Cintilações da Sombra, Antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 69 ( Coordenação de Victor Oliveira Mateus).
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23/02/13

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ANTÍGONA

Tal vez prefirieses gritos, súplicas
o -¿quién sabe?- que rasgase
las vestiduras y me deshiciese. Aunque, temible
Creonte, yo poseo la experiencia
de quien no cede, de quien recorre
las sendas de los márgenes y apenas oye
el antiguo saber de la tierra, el único al que vivos
y muertos pertenecen
y nos hierve en las venas sin que sepamos
cómo ni por qué. Puedes, ¡oh, hábil!,
combinar las palabras, confundir
las frases en discursos y experimentos
de gloria... Pero tu gloria no pasará
de un mero nombre, e incluso ese con tantas dudas
debatiéndose;
tu gloria –esa pequeña barca
de pergamino pudriéndose en las playas
jónicas. No eres nada, ¡oh ridículo mensajero
de lo nuevo!, y ninguna máscara aumentará
esa inmensidad de nada, que jamás
conseguirás disimular. Podrás perseguir,
difamar, convencer a otros de que también
lo hagan, pero nunca eludirás el imperturbable
movimiento del gran ciclo, ese
donde los dioses cobran todos los gestos
según el orden del tiempo; lugar
en donde nos movemos: breves,
banales… y tal vez, dispensables.

Victor Oliveira Mateus (Em "Meditações sobre o fim"; Ed. Hariemuj 2012) (Trad. José A. García Caballero)
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19/08/12



                       " 9h15 "

El hombre se sienta en una de las mesas de la terraza
Terraza fría en esta mañana igualmente fría
El hombre se acomoda su gorra sebosa,
la chaqueta desgarbada, sus pantalones desteñidos
en esta mañana igualmente desteñida

El hombre saca de su bolso un pequeño transístor
lo limpia delicadamente con su manga grasienta,
lo acaricia, escucha encantado aquellas voces roncas,
las intraducibles resonancias

El hombre habla con su transístor
Gesticula
Repite con insistencia algunas expresiones
Al principio nos mira con una cierta altivez
pero luego se desinteresa para poder olvidarnos
El hombre de la gorra sebosa y enamorado
de su transístor
ha sido mi primera enseñanza del dia.

    Mateus, Victor Oliveira. Revista Bora Nº 2, Agosto, 2012 ( traducción de José Ángel Garcia Caballero )
.

23/06/12

( Nota - alétheia : verdade in "Termos Filosóficos Gregos" de F. E. Peters, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 29.)


 " Aleteia " ( Poema III de Tríptico )


Dizia coisas que poucos entendiam.
Dormitava em tugúrios temidos
por muitos. Sentava-se na ponta
do beco a cortar as cabeças aos santos.
Trocava-as: santa Rita cravada de setas,
são Expedito de olhar lúbrico
e laços de organdi. Mas Aleteia rezava
sim: olival adentro, pelo meio das


searas, enquanto via o descarregar
dos porcos ou dava migalhas
aos pássaros. Eu também fugia
dela, mas sem medo ou motivo.
Certa vez encontrou-me, sozinho,
de vergasta em punho a afugentar
os gansos. Chega aqui!, e eu,
de cima dos meus calções cada


vez mais curtos, empinei-me
para que me visse melhor.
Se eu andava perdido, perguntou-me.
Que não, não senhora! Aleteia
sorriu e beijou-me a face.
Continuou o seu caminho. Desde
esse dia nunca mais a encontrei.

  Mateus, Victor Oliveira. Meditações Sobre o Fim, os últimos poemas (Organização: Maria Quintans). Lisboa: Hariemuj Editora, 2012, p 212.
.

22/06/12


 " Antígona " ( Poema II de Tríptico )


Talvez preferisses gritos, súplicas
ou - quem sabe? - que rasgasse
as vestes e me desfizesse. Mas, temível
Creonte, eu tenho a experiência
de quem não cede, de quem percorre
os trilhos das margens e apenas ouve
o antigo saber da terra, o único a quem
vivos e mortos pertencem
e nos fervilha nas veias sem sabermos
como nem porquê. Podes, ó hábil,
misturar as palavras, confundir
as frases em discursos e experimentos
de glória... Mas a tua glória não passará
de um mero nome, e mesmo esse
com tantas dúvidas à mistura;
a tua glória - pequena barca
de pergaminho a apodrecer nas praias
jónicas. És nada, ó ridículo mensageiro
do novo!, e máscara alguma acrescentará
essa imensidão de nada, que jamais
conseguirás dissimular. Poderás perseguir,
infamar, convencer até outros
a que o façam também, mas
nunca iludirás o imperturbável
movimento do grande ciclo, esse
onde os deuses cobram todos os gestos
segundo a ordem do tempo; local
onde nos movemos: breves,
banais... e talvez dispensáveis.

     Mateus, Victor Oliveira. Meditações Sobre o Fim - os últimos poemas ( Organização: Maria Quintans). Lisboa: Hariemuj Editora, 2012, p 211.
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23/03/12

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 " As Raízes Persistentes "

         para Albano Martins
.
.
Traça a nítida verticalidade do gesto.
O atento sentido da página, aquele
que, paralelo ao vento, se lança
sobre os eucaliptos, sobre as janelas
entreabertas ou na colina que aos lábios
se oferece. Desenha o voo das gaivotas

através de um oceânico azul, ali,
onde os hipocampos se perfilam e o desejo,
nos andaimes da espuma, é um murmúrio
de praias ensolaradas. Arranca da porta
as ervas daninhas, essa baba de palavras
mecânicas eivadas de vazio com rastos

de inércia à mistura. Observa, por fim,
o movimento das algas firmando-se
nas crateras das rochas, na inteireza
dos poros intraduzíveis, pois, como o poeta,
é assim o dizer que não vacila, as raízes
persistentes e são assim as algas.

   Mateus, Victor Oliveira in 100 Poemas para Albano Martins. Fafe: Editora Labirinto, 2012, p 119 ( org. Maria do Sameiro Barroso, prefº Eduardo Lourenço).
.

02/11/11

Agradável surpresa!

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Alguns dos meus poemas, traduzidos para espanhol por Marta López Vilar, passaram a integrar a seguinte Antologia do século XXI:
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www.poetassigloveintiuno.blogspot.com/2011/09/4791-victor-oliveira-mateus.html
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