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Azul que em azul te desdobras.
Cerco de baías. Moldura de espuma.
De penhascos afagados pelo vento.
É na linha do fogo que te desenho,
ó insubmissa de vagas e fulgores!
É em ti que me renovo, Cítera,
a dos amores. E por ti diariamente
renasço, ilha que em ilhas
te desdobras, onde me apoio
e urdo a teia que sempre refaço,
com o Cabo de Maleia ao fundo;
lâmina apontada ao meu peito
lasso. Aqui me fico, envolto em
algas e sargaço. Azul que em azul
te desdobras das chaminés das casas
ao dúctil reflexo do horizonte;
percurso onde sempre me busco
e busco do ser sua nítida fonte.
Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
2009, p 11 (Posfácio de Cláudio Neves e texto da contracapa de Olga Savary).
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18/08/09
05/07/09
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Quem me teria enviado esta foto? Quem me inundou
assim o P.C., que pretendia branco e limpo de qualquer
mágoa? De quem este retumbante e perverso intento
a revolver-me o pântano da memória? Porquê um anexo
a inundar-me o ecrã e a desafiar o esquecimento, que era
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já coisa certa e bem minha? Porquê a tua figura de novo,
aqui, bem na minha frente, com o nome do aeroporto
por detrás, as malas, a mochila a escorregar, os cabelos
- que naquela altura tinhas deixado crescer - quase
a tocarem o azul da camisola e o teu sorriso infantil,
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que ambos sabemos a quem se destinava? Terrível esta
alegoria da vida: as chegadas com o iníquo sabor da partida,
a bagagem aparentemente cheia no periclitante embarque
de nada, os sorrisos frágeis e efémeros, a quotidiana fuga
a cercear o que para ti tão raro quisera. Mas... quem me
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teria enviado esta foto? Esta virtual lembrança,
que nenhum antivírus impedirá agora de se tornear real,
obsessiva até? Através da janela nem uma resposta sequer.
Apenas o ecrã do céu - igualmente belo, igualmente azul.
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Victor Oliveira Mateus In "Revista de Poesia Saudade" Nº 11,
Junho, 2009, p 59.
25/06/09
Nota -(...) Séculos mais tarde( a Eurípides, Séneca e Ovídio) Corneille (1606-1684) retomou o tema na sua peça "Medeia". Para ele, Jasão é um homem ambicioso, não heróico, que faz do relacionamento amoroso apenas um instrumento para alcançar os seus objectivos (...) O poeta austríaco Franz Grillparzer (1791-1872) dedica uma trilogia à lenda do "Tosão de Ouro".(...) Jean Anouih (1910-1987 ) também aborda o tema, embora utilizando uma linguagem moderna: Medeia é uma cigana e a sua humilhação não está no abandono, mas na piedade do homem que a deixou. Seu orgulho fere-se porque ela deseja amor e não um tratamento compassivo. Para Pier Paolo Pasolini ( 1922 -1975 ), Medeia aparece como vinda de um país bárbaro onde se sacrificam vidas humanas. Ela tudo abandona por amor de Jasão, inclusive a sua magia, mas quando se vê traída, utiliza os seus dons para se vingar. Entretanto, na Medeia de Pasolini entrelaçam-se presente e passado, e ela parece muito mais próxima da mulher moderna que comete um crime passional do que de uma feiticeira da Antiguidade. De todos estes autores, para o meu modestíssimo poema, apenas me interessaram Corneille e Pasolini..
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" Medeia e os Outros Tempos"
Vista daqui a terra não tem a importância que julga
ter. Vista daqui até a cidade, teia de empestada glória
e ridículas imagens, a ostentação recusa. Vista daqui,
ó odiosa Corinto, não passas de uma puta velha
a cirandar pela praia, no alcance de afectos jamais
refeitos ou de memórias à deriva, por entre marinheros,
sidra, bárbaros dizeres, que nunca entendeste nem a isso
chamada foste. Vista daqui apenas eu coincido comigo:
princesa cólquida, dona de insondáveis talentos e artes,
arrebatada, crédula nas palavras dos homens, implacável
se com essas mesmas palavras eles atraiçoam os pactos,
a solidariedade generosa, a mais resplandecente entrega
quando enorme e até mesmo sagrada. Por tudo isto te vi
eu cair, ó verme! Ao ver-me de tal modo afastada
da tua cama, do teu corpo que tão bem montava como a potro
selvagem nas planícies da Tessália, da tua boca quase sempre
em lume, gume em mim esventrada do já ciúme, nesse cume
de coisa pouca, que em nada transformei com minha fúria
e vingação de fêmea atraiçoada, quase louca. Acaso pensaste
que, impune, te deixaria partir, para lá do tudo que havíamos
partilhado? Acaso supunhas que te daria um aberto caminho
para de novo assaltares tronos e troféus? Eu, que traí uma linhagem,
um povo; eu que dispersei os pedaços de Apsirto (o miserável!),
que me vinha dar caça, como o costume prediz a guerreiro macho
e irmão. Ai, pobre Jasão, que das mulheres nada sabias!
Sobretudo daquelas para quem a honra não é negociável,
nem a dignidade se troca na ágora, por entre potes
de azeitonas, galinhas poedeiras ou as mais raras especiarias
vindas do oriente. Vê (desgraçado) ao que te levou a cupidez
sem freio, a vida onde o ter e o parecer apenas bastavam,
espezinhando tudo o que os outros são, esperam, sonham.
Restam-te hoje os unguentos que não cheguei a usar,
os estiletes envenenados, as funestas sementes que a pressa
nem me deixou triturar. Restam-te as convulsões de Glauce,
tão culpada quanto os outros, o cadáver já frio de Creonte
com seus lábios de Cera, seus olhos baços, como costumavam
ficar quando de ambição cheios, tal como os teus, seus gémeos
e herdeiros. Restam-te os corpos inocentes de teus filhos,
lapidados pelos coríntios em fúria, que, ao quererem atingir a mãe.
o pai castigaram com raiva nunca antes vista por estas paragens.
O que de ti ficou ( infeliz), por tal ganância e soberba desenfreada,
é nada - absolutamente nada! Mas não te iludas Medeia, os homens
deste tipo raramente mudam: levantam-se após a dor encenada e,
estropiados, retomam sua antiga crueldade, bem mais crueldade
porque primeira e não resposta; levantam-se e, quais loureiros
persistentes, sugam as húmidas vertentes, os frondosos bosques.
Sossega Medeia! Acalma essa cabeça de teus crimes talvez inúteis.
Aguarda. Quem poderá saber o desenlace de tão horrenda história?
Victor Oliveira Mateus In "Revista Inútil" Nº 1 Out. 09, p 98.
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07/02/09

Que sei eu do vento que, impetuoso e assertivo, nas suas franjas leva
os frutos apodrecidos, os galhos dos arbustos, os nodosos ramos há muito
espalhados pelo chão? Que sei eu desse furor com que adverte os barcos
e confunde os portos; com que dispersa as nuvens e a tempestade agiganta
no justo sítio onde o lodo se concentra e as algas se entrecruzam, para
a sôfrega destruição das ondas? Que sei eu do vento tão falho que sou
de alento, tão inseguro... privado de instrumentos que das coisas me
limpem seu traiçoeiro parecer? Que sei eu dele, quando à noite, cansado
de ser vento, completamente esgotado pelos trabalhos a que a distracção
dos deuses o votou, se recolhe às furnas desta margem, com seu corpo
de vento, suas mãos de argila, seu olhar a pedir fim? Dantes, quando eu era
menino, escondido na gabardina de meu pai, julguei-o pela frieza que me
deixava no rosto, pelos meus pés enregelados se acaso atravessava as quintas,
o regueirão, o lamaçal que a inépcia da vizinhança insistia em não remover.
Depois, nos meses do sufoco, o vento chegava em vergastas de fogo
aos meus pulmões ameaçando já ruína; era uma fogueira a estampar o medo
na face de minha mãe, com a estridência da sirene a devorar as ruas;
as mulheres de branco a correr e um fino tubo a raspar-me o nariz.
O vento era então o que mais tarde li em Thomas Mann: uma dor
na clavícula, outra mais abaixo, a saliva pegajosa na garganta, o sangue.
E vinha então outro vento, mas em altas e esguias garrafas, trazidas por
homens com máscaras esverdeadas, que de mim logo fugiam como de gafo
a quem sobravam dias. Que sei eu do vento se nunca nos encontrámos
verdadeiramente, mas tudo foram acidentes, resquícios de julgar ver,
refracções, imagens distorcidas, intuições à deriva, como à deriva eu
já refeito, pelas veredas abaixo? Mas agora, agora vejo-o de novo
do outro lado da vidraça, a zurzir a falésia, a beijar a praia em frente,
a vir ao varandim para me espreitar, como se nunca me tivesse
visto, porque - e pensando bem - que sabe de mim o vento?
Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 37 (Posfácio de Cláudio Neves e texto de contracapa de Olga Savary).
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25/12/08
Sebastião da Gama, José Régio e Cristovam Pavia.a Cristovam Pavia
Pela janela do meu quarto ouço um ruído que se mantém:
longínquo, indistinto na sua sua distância, nessa permanência
de rumor que me sufoca. Que me sufoca e atordoa os pássaros
na ramaria em frente. Pela janela as vozes de um lugar!
Vozes que curiosamente vejo e que magoam este desacerto
que sempre volta entre o diferente que vislumbro e esta cidade
empedernida: fanqueiros com os seus manequins de papelão
carcomidos pelo tempo e pelo desuso; miúdos com os seus carros
de esferas a ziguezaguearem na humidade do asfalto; um cão
vadio (ou de liberdade cioso?) vasculhando os restos com que
os imprestáveis excessos mascaram sua vaidade. Pela janela
do meu quarto bebo a luz que a cidade não tem, mas que para ela
sonho em momentos de insurrecto furor ou de esparsa melancolia;
momentos onde ainda teço os poucos poemas que de mim - talvez -
se firmem, para júbilo dos que suportam, mas não desistem.
Victor Oliveira Mateus In Blogue "Estrada do Alicerce", 2/12/08.
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21/11/08
Sulcas-me o corpo
com relevos mil. Cercas-me
o olhar de alarmes
e brandura. Lavras-me
a alma com brilhos
e resplendor. De ti
nada sei, ó infrene duração
das coisas! Nada sei,
a não ser a clara razão
com que talhas o mínimo
acidente. Sulcas-me.
Sorves o que a teus pés insisto
e ponho. E se tudo
tudo me levares, deixa-me
ao menos a ousadia do sonho.
Victor Oliveira Mateus, In "Revista de Poesia Saudade", Nº 10,
Junho, 2008, p 58.
(Nota - esta revista tinha por tema " O tempo")
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06/11/08
Em Lefteris é que eu me quero. No colorido vário
da sua pequena praia. No seu ar selvagem a concordar
contigo, quando esfarelas as folhas do tabaco
e, alheadamente, as misturas com o que sempre
compras no agitado mercado de Potamos.
Ágios Lefteris, escreves tu, com uma navalha,
numa das tábuas do chão, debaixo do alpendre.
A mesma com que em mim, náufrago a intuir caminhos
jamais representáveis, também escreves sentires
de que não falamos. Ou então é de nós que traças
breve e rigoroso esboço. Desta nossa vocação translúcida
para apascentar palavras, que, devendo ser sagradas,
tantas vezes atraiçoamos na espinhosa gramática
dos afectos. Com um graveto remexes os seixos
junto à linha d'água e o silêncio é uma planície
súbita e felinamente apanhada pelo desejo. O desejo.
Não o cego impulso sem fonte nem direcção, mas
essa infinda avidez de ser o outro, como coisa nossa
que nos prolonga e individua, bem longe do ser
gratuito, que, divisa deste tempo, a tantos mata
de vida sem contornos nem alimento. O desejo.
O pulsar-me das veias ao despique com o comedido
desgoverno da alma. O agradável tormento de nós
ante a imensidão do mar e o esmorecer do sol
(só em Lefteris há um pôr-do-sol assim!),
enquanto o teu galgo corpo galga galhardamente a casa
e, ridente e rígido, ressurge com a luminosa voz
de Angélica Ionatos por detrás: Lygmos Aggelon.
Uma canção que fala do transido soluçar dos anjos.
Uma canção que fala desses soluços, desse pretexto
para que soltemos nossos pássaros e com eles cantemos
debaixo das janelas que insistem em fechar-se-nos.
É em Lefteris que eu me quero, decididamente!
Lugar do mais admirável deslumbramento, dos mais
inexprimíveis sinais em mim atento e despojado.
Mas, entretanto, enquanto o tempo ainda é e não resiste,
tu, que estás e me seduzes, põe de novo a canção
que fala dos soluços dos anjos, a irressitível voz
de Ionatos, e, com teus decididos gestos, abre-me
com doçura a janela, o corpo, a morte pressentida.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, pp 15 - 16.
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26/09/08
Nunca soube lançar o pião
como os rapazes no terreiro,
entre os contentores; aprendizes
de ladrões, de proxenetas,
arrumadores. Nunca soube
lançar o pião. Nem puxar-lhe
o cordel entre os dedos
ou içá-lo, rodopiante, na palma
da mão, acima do solo
conspurcado e mudo. Lancei
a minha vida, os meus
anseios. E foi tudo.
Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 20 (Posfácio de Cláudio Neves e texto da contracapa de Olga Savary).
Quando foi o tempo certo que o não vi?
E se o não vi, como poderia ter sido certo;
concordância de sinais nos ondulantes
trilhos que somos? Ou até mesmo tempo?
Como poderia ter sido tempo, essa Duração
do Todo nos fugazes acenos com que nos
vestimos e nas noites de mar revolto -
julgando ser o que não somos - dançamos,
esquecemos, rimos? Quando foi o tempo
certo? Esse inapagável tempo que, apenas
imaginado, te sai da boca em gritos,
em arrastar de cadeiras, em violência
de porta cerrada ante mim aturdido,
sem gota de pensamento nem palavra
que me console? Mas quando foi?
Quando foi esse desacerto certo no
cerco que disseste ter havido? Essa
funesta e fulminante funda sobre mim
atirando, pedra atrás de pedra, palavra
atrás de palavra, em sórdida acusação.
Mas através da janela nem uma aragem
vejo. Apenas o sufoco. Uma asfixia
rude e fera. Pego numa taça de fresco
branco e deixo-a no degrau à tua espera.
Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 29 (Posfácio de Cláudio Neves e texto da contracapa de Olga Savary).
Nunca te pedi que ficasses. Nem que uma qualquer
dádiva fingisses na irremediável mobilidade dos afectos.
Nunca te pedi um qualquer excesso. Não daqueles
que na sua vagueação assumida se tornaram essência
do que essência já não tem, mas dos outros, dos que
me enchem por dentro, quando te encostas à janela
para fumar o último cigarro, quando sorrindo me apontas
o cabriolar dos gatos nos telhados em frente, quando
me olhas sem me conseguir ver: ávido que sou de
permanência no descuidado tumulto com que te fartas.
De mim a mim há um abismo onde nem sempre cabes.
Talvez em certas noites, naquelas em que a solidão aperta
e a dúvida me corrói, até te consiga sentir perto, mas sentir
perto não é ficar. Ficar é coisa que nem à palavra vem de
forma clara e nítida. É onda a trespassar-nos o corpo. Brilho
persistente na lenta preparação do último encontro. Nunca
te pedi que ficasses. Mas ainda acalentei a esperança
que por ti o decidisses. E assim, chegado o instante que
derradeiro sabemos ser, e sem que alguém o visse, e sem
que alguém sequer o suspeitasse, a alma me arrancarias
para que eu forçosamente voltasse em novo re-canto de nós.
Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 32 (Posfácio de Cláudio Neves e texto da contracapa de Olga Savary).
08/07/08
Queria para mim
a vastidão inconfundível
do sonho, o inexorável excesso
do horizonte. Queria
para mim um oceano
rumoroso de andorinhas
nos luminosos beirais
das colinas. Queria
a impertinência de um desejo
sempre retomado
e incompleto. Mas nunca
a voracidade deste lodo
nos alicerces da cidade;
monstro irrefreável
que amordaça a liberdade.
Victor Oliveira Mateus, In "Liberdade", col. afectos nº3,
Ed. Labirinto, 2008.
01/07/08

Quantas vezes me deixei ficar,
como hoje, de caneta em riste,
sentado a esta mesma mesa
esperando que tu ou o texto viessem...
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Quantas vezes, em vão, lançava
o olhar sobre o porto, tentando
adivinhar-te no bojo
de um qualquer barco que divisava
.
ao longe, como quem investiga
de falhas a mais nítida presença.
E quantas, no meio do tilintar
das chávenas e do bulício do balcão,
.
as tuas palavras acabavam sempre
por me aquietar. No entanto, sei-me
de sina igual a hoje: o constante medo
de que um dia possas não vir
.
e que o futuro mais não seja
do que a inquirição dos dias,
onde os versos se firmam
como escolhos à deriva
em simples guardanapos de papel.
.
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Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p
14/06/08
" IN MEMORIAM"
Cheguei a pensar que, com o tempo, vos haveria de esquecer;
que uma qualquer nuvem sulfurosa, aos poucos, acabaria por
corroer todas as vossas imagens, como se corroem hoje os
sentimentos mais belos: agora descartáveis, biodegradáveis,
pronto-a-usar do sentir no turbilhão de tudo
Cheguei a pensar que vos haveria de esquecer. Mas não!
Não, porque lembrar é o preço que pagam os que ficam.
Lembrar... Lembrar os vossos corpos cada vez mais mirrados,
os vossos corpos frágeis de frágeis bonecos de porcelana,
os vossos rostos apenas malares e olhos - olhos terminais de
despedida. Lembrar a minha revolta: "quantos mortos destes
são precisos, para fazer um rico dos outros?" Lembrar um
sonho antigo com a figura imponente de minha avó: sentada
na soleira da porta, rosto carregado, olhar de sibila sobre o
Infinito, calada, sempre calada, tão calada que nesse dia
resolveu gritar: "há demasiado sofrimento na Terra!
Digam-me, a quem aproveita ele?"
Cheguei a pensar que, com o tempo, vos haveria de esquecer,
mas isso foi antes: antes da saudade, antes desta terrível
sensação de perda, desta amputação perversamente
deliberada. Antes do grito lúcido de minha avó.
Victor Oliveira Mateus, In "Mealibra, Revista de Cultura"
Nº9, Série 3, Dezembro 2001.
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11/06/08
" Texto 17 "
A vida. A vida é muito útil: serve para fingir que sabemos
muita coisa, para fingir que gostamos dos outros, para fingir
que somos alguém não o sendo e para querer ter muito
poder. Eu, umas vezes, ponho a vida a tiracolo, para que as
suas franjas arrojem o chão; outras, coloco-a à cabeça, e logo
ela parece querer voar alçando-se ao céu. Certo dia pus a
vida numa capoeira que tenho lá no quintal, mas ela, assim
que se viu presa, começou a uivar no seu poleiro pedindo-me
para que a libertasse, e eu libertei-a mesmo... só que ela,
desorientada, ao atravessar uma rua, foi logo atropelada.
Ainda pensei arranjar outra vida, mas depois vi que não
valia a pena...
Mateus, Victor Oliveira. Movimento de Ninguém. Lisboa: Minerva, 1999, p 29.
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01/06/08
Em tua forma mais pura
pelo silêncio me acenas; espraias-te na sombria distracção
da terra. Como corola fendida te abres em lampejos de tantas
cores. Imagem da primeira fala. Espelho nimbado de ouro
que, em jogos de fingimento, o essencial revelas
Nunca te procurei. Não te procuro, tão indolente que sou.
E, no entanto, acabas sempre por vir: de mansinho,
insidiosa... Ó terrível desventura que salva! Em mim te
aconchegas com teu tropel de vozes: lúcida desrazão que
acalma, êxtase do que pressinto. E vens, misto de assombro
e agonia, estranho dizer, talvez poesia
Victor Oliveira Mateus, Poema 27 In "Pelo Deserto
as minhas mãos"
31/05/08
Não temas
deixa meus gestos
descerem-te trago a trago
Deixa minha boca
à deriva
para a macieza transparente
do que julgas não querer
Não digas nada
Confia
A precisão te levará
às paragens longínquas
onde o cheiro do feno
e a saliva insubmissa
se misturam
Nada te fará perigar
nem a frieza do ocaso
nem as farpas aceredas
no vórtice da traição
Não mudes estes caminhos
espécie de jóias
ou lâmpadas salpicando
meu feroz desejo de ti
Não temas
Fecha os olhos
Concede a fúria louca
das nascentes
que num sussurro
atiro com ternura
à tua mudez assustada
Victor Oliveira Mateus, Poema 3
In "Movimento de Ninguém", Lisboa, 1999.
30/05/08
no olhar dos peixes as águas
são tranquilas, réstias de fogo
invadem a certeza do meu partir
no reflexo dos arrozais,
onde o chapinhar das abelhas vai prateando
de alfazema a folhagem inquieta.
no olhar dos peixes um barulho
de asas assustadas, um zumbido
triste por eu não poder voltar
aí, onde a noite, revestida
de conchas opalinas, não atiça já
a vastidão da memória resistente
no subtil olhar dos peixes...
Victor Oliveira Mateus, poema 2 In "Movimento
de Ninguém", Lisboa, 1999.
( Nota - este poema foi gentilmente
gravado em C.D. pela actriz Hermínia Tojal.)
29/05/08

Por todo o lado me cercas
Com teus ramos de límpida filigrana o dia inundas,
os bosques, as colinas persistentes onde o destino
é uma luz difusa, como árvore dilacerada de cores,
no rumor inconsolado da terra
Por todo o lado te anuncias
Com teus oblíquos desígnios verdes em precisão
desvelas a nitidez vaga do horizonte, onde os
símbolos se misturam, na vastidão impenetrável
do silêncio:
a mesa das oferendas para o Alto inclinada
a taça repleta de cerejas
uma mão inerte junto ao umbral
Por todo o lado me cercas, ó fabulosa imagem
e em teu fervor de natureza morta
ao meu corpo prometes vida
Victor Oliveira Mateus, In " Cerejas - poemas
de amor de autores portugueses contemporâneos",
Editorial Tágide, 2004, pág. 64
Áspera e vulgar era a manhã
quando de novo à minha mesa te sentaste:
falaste-me do mar, do teu equilíbrio na crista
das ondas e de um país ao sul, onde em júbilo
incontrolado, novas praias te esperavam
E nessa manhã tão simples, não te falei eu
do que sempre te vou roubando: a brancura
da pele, o ruivo do cabelo, o impetuoso fulgor
de um admirável corpo solar
- vertente do meu fascínio, com inúmeras
flores de cerejeira soberbamente enriquecida;
minha aprazível e quase obscena fonte, onde
sempre me procuro e sempre me acabo por
perder
Afinal foi numa vulgar manhã, que uma vez
mais, com astúcia, te armadilhei: escondidos
foram, num dos teus bolsos, pedaços do meu
destino; réstia de um pretexto que a tua vinda
me desenha
Victor Oliveira Mateus, In "Cerejas - poemas de
amor de autores portugueses contemporâneos",
Editorial Tágide, 2004, pg 65.
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