.
O espaço, lâmpada acinzentada e chuvosa, neste final
de estação. Ou talvez um enigma, aquém das sereias
a vicejar no rio, que logo se mistura com a sonolência
dos táxis, com o correr apavorado e sem destino
de quantos ainda o teimam - ameaçado e sem remédio.
A estação, por seu lado, é mero ponto no final
do espaço. Um mapa em tons de azul conspurcado
com seus bancos de jardim ( a despropósito),
seus jogos de partidas e chegadas, seu ronronar
de carruagens, de altifalantes, da máquina vermelha
dos refrigerantes a reflectir-se na vacilante
imobilidade dos placares. E é por aqui que (sempre)
nos cruzamos - alegoria de cruz e ramos;
de turbilhão e medo nas mais ácidas vésperas
em que cedo - meu silêncio... e espanto, neste poema
( nem estação nem canto ), tão-só lembrança,
tão-só imagem de um aprendiz secreto a vislumbrar
o longe, o verde, a intacta ferida, que atentamente
vai decifrando nesse aberto terraço onde se recusa
o banal e onde o sol é todo o espaço.
Victor Oliveira Mateus in Revista Letras Com Vida, Nº 4. Lisboa: CLEPUL da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2º semestre 2011, p 211.
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07/09/11
.
Do sítio onde estava não te podia ver. Isto é:
não eras mais do que pedaços de formas
que depois eu completava com a janela do fundo
e o teu cabelo a encenar desordem. Vinha depois
um murmúrio cavo bater-me no sofá, algo a fingir
jogo ou vontade, ou as duas coisas à mistura -
que da alma em desalinho pouco consegue
saber, quem, como eu, tem por hábito sentar-se
à contraluz. Do sítio onde estava não te podia
ouvir. Isto é: não eras mais do que passos
lá dentro, a porta que não voltou a fechar-se,
o decidido puxar da cama. Enfim, no sítio
onde eu estava coseu-me o desejo um cós
de imagens ( arrojadas e novas ) e a tua luz
costurou-me uma bainha no coração.
Mateus, Victor Oliveira in A Tua Luz Costurou-me uma Bainha no Coração de daniel gonçalves. Fafe:
Editora Labirinto, 2012, p 54.
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Do sítio onde estava não te podia ver. Isto é:
não eras mais do que pedaços de formas
que depois eu completava com a janela do fundo
e o teu cabelo a encenar desordem. Vinha depois
um murmúrio cavo bater-me no sofá, algo a fingir
jogo ou vontade, ou as duas coisas à mistura -
que da alma em desalinho pouco consegue
saber, quem, como eu, tem por hábito sentar-se
à contraluz. Do sítio onde estava não te podia
ouvir. Isto é: não eras mais do que passos
lá dentro, a porta que não voltou a fechar-se,
o decidido puxar da cama. Enfim, no sítio
onde eu estava coseu-me o desejo um cós
de imagens ( arrojadas e novas ) e a tua luz
costurou-me uma bainha no coração.
Mateus, Victor Oliveira in A Tua Luz Costurou-me uma Bainha no Coração de daniel gonçalves. Fafe:
Editora Labirinto, 2012, p 54.
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08/05/11
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"L' ultimo scena "
A modo mio tutto ho fatto per non tornare
qui. Per non espormi all'inutile corrosione
della memoria, all'ingannevole magna delle
parole. A modo mio ho evitato sempre queste
grate, questi alberi simmetricamente
allineati che mi accennano in fondo
ao Palazzo Reale. Percorso tante volte
ripetuto e oggi rifiutato, fra sorrisi
contraffatti e sguardi presi
in prestito. A modo mio
tutto ho fatto per non tornare a incontrare
questa piazza, queste fonti geometricamente
incrostate al suolo, le statue (Castori,
con braccia sollevate, che tengono qualcosa
che io so essere ciò che non dicono), gli odori,
la musica, le passioni girate verso l'interno...
Tutto ho fatto ma senza successo, per questo ora
resto: multiplo, aereo, ricordi
sparpagliati (gli uni sugli altri,
spiegazzati). Resto - senza codici
né certezze, malgrado tutto ciò
saldo - imperturbabilmente saldo.
Victor Oliveira Mateus.Traduzione dal portoghese di Vera Lúcia de Oliveira in "FILI D'AQUILONE,
rivista d'immagini, idee e Poesia, Numero 22, aprile/ giugno 2011.
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"L' ultimo scena "
A modo mio tutto ho fatto per non tornare
qui. Per non espormi all'inutile corrosione
della memoria, all'ingannevole magna delle
parole. A modo mio ho evitato sempre queste
grate, questi alberi simmetricamente
allineati che mi accennano in fondo
ao Palazzo Reale. Percorso tante volte
ripetuto e oggi rifiutato, fra sorrisi
contraffatti e sguardi presi
in prestito. A modo mio
tutto ho fatto per non tornare a incontrare
questa piazza, queste fonti geometricamente
incrostate al suolo, le statue (Castori,
con braccia sollevate, che tengono qualcosa
che io so essere ciò che non dicono), gli odori,
la musica, le passioni girate verso l'interno...
Tutto ho fatto ma senza successo, per questo ora
resto: multiplo, aereo, ricordi
sparpagliati (gli uni sugli altri,
spiegazzati). Resto - senza codici
né certezze, malgrado tutto ciò
saldo - imperturbabilmente saldo.
Victor Oliveira Mateus.Traduzione dal portoghese di Vera Lúcia de Oliveira in "FILI D'AQUILONE,
rivista d'immagini, idee e Poesia, Numero 22, aprile/ giugno 2011.
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"Partenza"
Quando parti non venne nessuno ai bordi della pista.
Quando parti i viaggi erano cosa semplice e banale,
e non questo desiderio di cercare un senso per
il dolore, una radura per l'assenza, una fonte
- per quanto minuscola - per saziare quello che
si mantiene un'inesauribile sete. Quanto partii erano
tutti indaffarati a viaggiare, ma in un altro modo -
voracità di faccendieri, spalancati occhi
dove il tempo si mercanteggia tanto quanto un futuro
ipotecato o una semplice ruota arrugginita. Quando
parti ebbero subito la premura di avvertirmi che la poesia
non ha mai salvato nessuno, che la ricerca delle radici
(cosi come la comprensione di un passato non
avvenuto) era cosa tanto ridicola quanto obsoleta
per il riso sciocco di molti. Quando partii la buganvillea
dell'abitazione di fronte era slendente e c'era
un gatto che bucava la rete. Quando partii una donna
nel palazzo accanto sbatteva un piccolo tappeto.
Mi fece un segno. Sorrise. Quando pertii immaginai
il loro scherno, le telefonate di uni agli altri,
le chiacchiere. Quando partii nessuno venne
per salutarmi, c'ero solo: io, un obbiettivo
incerto, il tuo volto riflettuto in lontananza
e il sole che batteva in pieno sulle vetrate.
Victor Oliveira Mateus. Traduzione dal portoghese di Vera Lúcia de Oliveira in "FILI D'AQUILONE,
rivista d'immagini, idee e Poesia, Numero 22, aprile/ giugno 2011.
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"Partenza"
Quando parti non venne nessuno ai bordi della pista.
Quando parti i viaggi erano cosa semplice e banale,
e non questo desiderio di cercare un senso per
il dolore, una radura per l'assenza, una fonte
- per quanto minuscola - per saziare quello che
si mantiene un'inesauribile sete. Quanto partii erano
tutti indaffarati a viaggiare, ma in un altro modo -
voracità di faccendieri, spalancati occhi
dove il tempo si mercanteggia tanto quanto un futuro
ipotecato o una semplice ruota arrugginita. Quando
parti ebbero subito la premura di avvertirmi che la poesia
non ha mai salvato nessuno, che la ricerca delle radici
(cosi come la comprensione di un passato non
avvenuto) era cosa tanto ridicola quanto obsoleta
per il riso sciocco di molti. Quando partii la buganvillea
dell'abitazione di fronte era slendente e c'era
un gatto che bucava la rete. Quando partii una donna
nel palazzo accanto sbatteva un piccolo tappeto.
Mi fece un segno. Sorrise. Quando pertii immaginai
il loro scherno, le telefonate di uni agli altri,
le chiacchiere. Quando partii nessuno venne
per salutarmi, c'ero solo: io, un obbiettivo
incerto, il tuo volto riflettuto in lontananza
e il sole che batteva in pieno sulle vetrate.
Victor Oliveira Mateus. Traduzione dal portoghese di Vera Lúcia de Oliveira in "FILI D'AQUILONE,
rivista d'immagini, idee e Poesia, Numero 22, aprile/ giugno 2011.
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26/01/11
.
"Memória"
.
(Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser
atingidos
os pássaros
.
Daniel Faria, Explicação das árvores e de outros animais)
.
.
.
E, no entanto, havia dias em que o artifício era
coisa longínqua e a insídia um linguajar de imagens
a cabriolar ao longe, tão ao longe que nem imaginar
podia. Era um tempo de desejo e súplicas, de imposições
traçadas como desnorte de mendigos. Pedidos
.
de socorro também, mas muito a medo ( o quê,
vais deixar-me assim?) entre vozes que ignorávamos
porque inúteis e sem interesse. Então caminhávamos
como se tudo nos fosse permitido, e, por direito
e merecimento, elevávamo-nos do chão nesse ponto
.
- nesse minúsculo ponto - onde o corpo era uma forma
de sermos deuses, irupção contínua de mistérios,
dia após dia, ano após ano, sem que lhes soubéssemos
futuro nem consistência. Toda a virtude é um excesso,
disse-te um dia, enquanto alisava a mortalha e o carro
.
parava súbito nos olhos esbugalhados do indiano,
que, de um jacto e sem esforço, vendia sua imundície
a fingir rosas. A rotunda, perplexa, buzinava enraivecida.
E as folhas do tabaco a resvalarem-me pelas calças
(a mortalha? Onde está a minha mortalha?!), enquanto
o negro do pára-brisas todo rosas podres e risos (são rosas,
.
meu senhor, são rosas!). Risos de quem já nada sabe.
Nem a rotunda tão pouco: com a cesta do indiano às voltas,
lá no alto. No alto também nós, mas de outro modo,
que o ar sempre fora nosso elemento: na felicidade
dos instantes e na forte evanescência que, mais dia menos
dia, acabaria por vir. Como veio. Como veio e me atingiu.
.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, pp 30 - 31.
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"Memória"
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(Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser
atingidos
os pássaros
.
Daniel Faria, Explicação das árvores e de outros animais)
.
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E, no entanto, havia dias em que o artifício era
coisa longínqua e a insídia um linguajar de imagens
a cabriolar ao longe, tão ao longe que nem imaginar
podia. Era um tempo de desejo e súplicas, de imposições
traçadas como desnorte de mendigos. Pedidos
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de socorro também, mas muito a medo ( o quê,
vais deixar-me assim?) entre vozes que ignorávamos
porque inúteis e sem interesse. Então caminhávamos
como se tudo nos fosse permitido, e, por direito
e merecimento, elevávamo-nos do chão nesse ponto
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- nesse minúsculo ponto - onde o corpo era uma forma
de sermos deuses, irupção contínua de mistérios,
dia após dia, ano após ano, sem que lhes soubéssemos
futuro nem consistência. Toda a virtude é um excesso,
disse-te um dia, enquanto alisava a mortalha e o carro
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parava súbito nos olhos esbugalhados do indiano,
que, de um jacto e sem esforço, vendia sua imundície
a fingir rosas. A rotunda, perplexa, buzinava enraivecida.
E as folhas do tabaco a resvalarem-me pelas calças
(a mortalha? Onde está a minha mortalha?!), enquanto
o negro do pára-brisas todo rosas podres e risos (são rosas,
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meu senhor, são rosas!). Risos de quem já nada sabe.
Nem a rotunda tão pouco: com a cesta do indiano às voltas,
lá no alto. No alto também nós, mas de outro modo,
que o ar sempre fora nosso elemento: na felicidade
dos instantes e na forte evanescência que, mais dia menos
dia, acabaria por vir. Como veio. Como veio e me atingiu.
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Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, pp 30 - 31.
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25/01/11
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"Vésperas, sem oração"
.
(Tu
que pronunciaste o ámen do mundo
Nelly Sachs, Caim!)
.
.
Pelos que perderam o sentido dos inocentes
caminhos. Pelos que preenchem suas viagens
com os mais vis embustes. Pelos que conseguem
demarcar, a régua e esquadro, qualquer tipo
de fronteira, inclusive a da materialidade.
.
Por todos os que não reconhecem a divindade
estampada na face do outro. Pelos grandes
mestres do aniquilamento. Pelos que esqueceram
já a possibilidade de se reencontrar... de se
reconhecerem: livres, impolutos, disponíveis.
.
Pelos que alienaram de si a própria
humanidade e artificiosamente explicam
a sua violência escolhida. Por todos. Todos!
Até por ti que me cercaste quando eu
menos o esperava. Concedei-lhes,
.
ó deuses, aquilo por que lutaram - mas
do outro lado. Dai-lhes o resplandecente
paraíso que tanto desejaram - mas
ao contrário. Não vos esqueceis,
ó benevolentes, ó misericordiosos,
.
da vida eterna, onde eles possam fruir
para sempre e sem perdão aquilo
que fabricaram. Sede justos, ó deuses!
Justos, mas surdos, nesse último momento.
Assim na terra como no céu (e nem sequer
me importo de um enorme Ámen).
.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, pp 40 - 41.
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"Vésperas, sem oração"
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(Tu
que pronunciaste o ámen do mundo
Nelly Sachs, Caim!)
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Pelos que perderam o sentido dos inocentes
caminhos. Pelos que preenchem suas viagens
com os mais vis embustes. Pelos que conseguem
demarcar, a régua e esquadro, qualquer tipo
de fronteira, inclusive a da materialidade.
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Por todos os que não reconhecem a divindade
estampada na face do outro. Pelos grandes
mestres do aniquilamento. Pelos que esqueceram
já a possibilidade de se reencontrar... de se
reconhecerem: livres, impolutos, disponíveis.
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Pelos que alienaram de si a própria
humanidade e artificiosamente explicam
a sua violência escolhida. Por todos. Todos!
Até por ti que me cercaste quando eu
menos o esperava. Concedei-lhes,
.
ó deuses, aquilo por que lutaram - mas
do outro lado. Dai-lhes o resplandecente
paraíso que tanto desejaram - mas
ao contrário. Não vos esqueceis,
ó benevolentes, ó misericordiosos,
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da vida eterna, onde eles possam fruir
para sempre e sem perdão aquilo
que fabricaram. Sede justos, ó deuses!
Justos, mas surdos, nesse último momento.
Assim na terra como no céu (e nem sequer
me importo de um enorme Ámen).
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Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, pp 40 - 41.
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24/01/11
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" Num café da Via Monginevro "
O rapaz do café olha-me com alguma desconfiança,
mas mesmo assim fala-me, é afável. Talvez seja
do país esta necessidade de estar próximo, de irradiar
um sólido encurtar distâncias neste tempo de implosões
organizadas. O rapaz do café traz os pedidos como
equilibrista de lugarejo: a bandeja, de uma bacidez
acinzentada, bascoleja copos, latas... e a mim também,
que de equilíbrio me sofro tão incapaz de um eu a recusar-me
unidade e acerto. Certo dia alargou-se mais: que era
lá de baixo, da Ligúria. Nascera em Sestri Levanti. Se eu conhecia,
e olhou-me a ameaçar escárnio: que sim, que sim (acalmei-o),
mas só de passagem, aliás, é de passagem que tudo conheço.
Conclusão que ele entendeu, pois logo me olhou livros e papéis.
O rapaz do café tem algo de metafísico (acabei por decidir),
pois quando fala depressa não o entendo, e quando se explica
pausadamente não o entendo também. Certo dia apanhou-me
alguns versos que me haviam caído da mesa e então perguntou-me
se eu fazia poesia. Que não!, respondi-lhe peremptório,
é ela que me faz a mim; é ela que me não larga, sempre
a recusar-me razão, conformidade. O rapaz do café deixou,
por fim, seu antigo olhar. Agora tem um outro, bem mais
enigmático - coisa de fascínio com hostilidade à mistura.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 22.
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" Num café da Via Monginevro "
O rapaz do café olha-me com alguma desconfiança,
mas mesmo assim fala-me, é afável. Talvez seja
do país esta necessidade de estar próximo, de irradiar
um sólido encurtar distâncias neste tempo de implosões
organizadas. O rapaz do café traz os pedidos como
equilibrista de lugarejo: a bandeja, de uma bacidez
acinzentada, bascoleja copos, latas... e a mim também,
que de equilíbrio me sofro tão incapaz de um eu a recusar-me
unidade e acerto. Certo dia alargou-se mais: que era
lá de baixo, da Ligúria. Nascera em Sestri Levanti. Se eu conhecia,
e olhou-me a ameaçar escárnio: que sim, que sim (acalmei-o),
mas só de passagem, aliás, é de passagem que tudo conheço.
Conclusão que ele entendeu, pois logo me olhou livros e papéis.
O rapaz do café tem algo de metafísico (acabei por decidir),
pois quando fala depressa não o entendo, e quando se explica
pausadamente não o entendo também. Certo dia apanhou-me
alguns versos que me haviam caído da mesa e então perguntou-me
se eu fazia poesia. Que não!, respondi-lhe peremptório,
é ela que me faz a mim; é ela que me não larga, sempre
a recusar-me razão, conformidade. O rapaz do café deixou,
por fim, seu antigo olhar. Agora tem um outro, bem mais
enigmático - coisa de fascínio com hostilidade à mistura.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 22.
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24/11/10
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"A vida é um milagre"
( após rever Kusturica)
Todas as viagens são permutáveis. Assim as falsas
alegrias, as clausuras, a ternura até - tudo matéria
de troca, de empréstimo, de aluguer a módico preço
desde que nos faça esquecer a solidão, praticar a fuga
para a frente, justificar a verborreia em que se não crê
mas exercita: estridente ruído que se propaga, embala
e atordoa. Enfim, tudo tão igual entre si e eu tão igual
aos outros. Tudo tão monotonamente igual! Basta
o mesmo solo, os dissolutos meios, a firme fragilidade
que toda a segurança traz - o mesmo para a noite!
Todas as noites são igualmente permutáveis. E cada um
perdido a seu modo, apesar do ódio que despertamos
a quem não vê - nocturnas malhas com que sempre teço
as minhas madrugadas, as mesmas com que insisto,
com que aceno e depois comigo adormecem como luz
que não perdoa. Tudo isto penso agora (ou sinto?)
a léguas de casa. Mas... gosto da minha noite, confesso.
Lá fora uma chuva miudinha bate-me à janela. Chuva
fora de tempo - tal qual eu, felizmente! Minha irmã chuva,
diria o de Assis, que sempre espreita através dos meus versos.
Lá fora, o latir de um cão ao longe. O roçagar dos pneus
no pavimento molhado. O barulho de uma persiana que se
soltou. O ramalhar dos jacarandás que, em sintonia, acompanham
as gotas a baterem-me nos vidros, nos pensamentos - os meus,
estes que se emaranham corpo adentro com um não sei quê
de erótico, de inexplicavelmente torturante e apaziguador
ao mesmo tempo. E há também o teu rosto, quase sem contornos:
sombra a dissolver-se na sombra. Há os passos arrastados
de vizinha de cima. Os acordes de Fantástica de Berlioz
que acendi na penumbra. Na realidade todas as noites
são permutáveis, mas eu... só a custo deixaria a minha.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, pp 38 - 39.
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"A vida é um milagre"
( após rever Kusturica)
Todas as viagens são permutáveis. Assim as falsas
alegrias, as clausuras, a ternura até - tudo matéria
de troca, de empréstimo, de aluguer a módico preço
desde que nos faça esquecer a solidão, praticar a fuga
para a frente, justificar a verborreia em que se não crê
mas exercita: estridente ruído que se propaga, embala
e atordoa. Enfim, tudo tão igual entre si e eu tão igual
aos outros. Tudo tão monotonamente igual! Basta
o mesmo solo, os dissolutos meios, a firme fragilidade
que toda a segurança traz - o mesmo para a noite!
Todas as noites são igualmente permutáveis. E cada um
perdido a seu modo, apesar do ódio que despertamos
a quem não vê - nocturnas malhas com que sempre teço
as minhas madrugadas, as mesmas com que insisto,
com que aceno e depois comigo adormecem como luz
que não perdoa. Tudo isto penso agora (ou sinto?)
a léguas de casa. Mas... gosto da minha noite, confesso.
Lá fora uma chuva miudinha bate-me à janela. Chuva
fora de tempo - tal qual eu, felizmente! Minha irmã chuva,
diria o de Assis, que sempre espreita através dos meus versos.
Lá fora, o latir de um cão ao longe. O roçagar dos pneus
no pavimento molhado. O barulho de uma persiana que se
soltou. O ramalhar dos jacarandás que, em sintonia, acompanham
as gotas a baterem-me nos vidros, nos pensamentos - os meus,
estes que se emaranham corpo adentro com um não sei quê
de erótico, de inexplicavelmente torturante e apaziguador
ao mesmo tempo. E há também o teu rosto, quase sem contornos:
sombra a dissolver-se na sombra. Há os passos arrastados
de vizinha de cima. Os acordes de Fantástica de Berlioz
que acendi na penumbra. Na realidade todas as noites
são permutáveis, mas eu... só a custo deixaria a minha.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, pp 38 - 39.
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11/09/10
Sinto-a presa a mim.
Que posso fazer?
Afasto-a rudemente,
mas ela volta.
Toca-me o braço,
mas eu insulto-a.
Roça-me devagarinho o cabelo
- qual mestra de todas as seduções -
e eu praguejo.
Canta, zumbe, volteia...
Feiticeira extenuada
olha-me languidamente
através do espelho.
Sim, não me restam quaisquer dúvidas:
está presa a mim!
- Ó pobre mosca sofredora
a janela é do outro lado!
Victor Oliveira Mateus
10/08/10
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" Litania para um dia depois "
Ninguém sabe como foi. Como (súbito) desabaram
imensidões que por desígnio tanto quis. Jamais
me explicarão o derruir de tão altos cumes,
depois apenas pó - vazio, vazio tão vazio que para
o dizer nenhuma palavra serve. Contudo, tentá-lo-ei
agora: ia eu pela rua fora quando me apercebi - já
lá não estavas. Um aluimento inesperado, gume
que deveria doer, mas nem sequer. Como foi?
Com que meios? E quando, sim, quando, pois se
ainda há dias eras coisa tão presente?! Viajei eu tanto
(dentro e fora de mim) para agora uma rajada de ar
me aparecer com ar de libertadora; para uma inesperada
(e desinteressante) morte me encher assim a vida -
inútil viuvez de mim, lembranças já ossificadas
que deveriam doer, mas não. E, no quebranto
da memória, a falha é hoje uma evidência que liberta;
água, que, de tão límpida, corre em gorgolões
pelo verdete da cidade. Diz-me, que vieste tu aqui
buscar? Que vieste liquidar tantos anos depois?
Angústia para alimentar escritos? Pois bem, eis-me
finalmente livre! Gume de falha que deveria doer,
mas não. Como foi? E quando? Ninguém me saberá
explicar. Contudo, tentá-lo-ei eu agora: ia pela rua
fora, despreocupadamente, quando me lembrei
de olhar para dentro de mim - já lá não estavas.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 42.
.
05/07/10
.
" Partida "
.
Quando parti ninguém apareceu à beira da pista.
Quando parti as viagens eram coisa simples e banal,
e não este desejo de procurar um sentido para
a mágoa, uma clareira para a ausência, uma fonte
- minúscula que fosse - para saciar aquilo que
se mantém ininterrupta sede. Quando parti estavam
todos atarefados a viajar, mas de outro modo -
voracidade de prestamistas, esbugalhados olhos
onde o tempo é tão transaccionável quanto um futuro
hipotecado ou uma mera jante enferrujada. Quando
parti tiveram logo o cuidado de me avisar que a poesia
nunca salvara ninguém, que a procura das raízes
(bem como o entendimento de um passado não
acontecido) era coisa tão ridícula quanto obsoleta,
para o sorriso alvar de muitos. Quando parti
a buganvília da moradia em frente estava esplendorosa
e havia um gato a furar a rede. Quando parti
uma mulher no prédio ao lado sacudia um minúsculo
tapete. Acenou-me. Sorriu. Quando parti imaginei
o escárnio deles, os telefonemas de uns para
os outros, as conversas. Quando parti ninguém
apareceu para se despedir. Havia apenas: eu,
um obectivo incerto, o teu rosto a reflectir-se
ao longe e o sol a dar de chapa nas vidraças.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 12.
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" Partida "
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Quando parti ninguém apareceu à beira da pista.
Quando parti as viagens eram coisa simples e banal,
e não este desejo de procurar um sentido para
a mágoa, uma clareira para a ausência, uma fonte
- minúscula que fosse - para saciar aquilo que
se mantém ininterrupta sede. Quando parti estavam
todos atarefados a viajar, mas de outro modo -
voracidade de prestamistas, esbugalhados olhos
onde o tempo é tão transaccionável quanto um futuro
hipotecado ou uma mera jante enferrujada. Quando
parti tiveram logo o cuidado de me avisar que a poesia
nunca salvara ninguém, que a procura das raízes
(bem como o entendimento de um passado não
acontecido) era coisa tão ridícula quanto obsoleta,
para o sorriso alvar de muitos. Quando parti
a buganvília da moradia em frente estava esplendorosa
e havia um gato a furar a rede. Quando parti
uma mulher no prédio ao lado sacudia um minúsculo
tapete. Acenou-me. Sorriu. Quando parti imaginei
o escárnio deles, os telefonemas de uns para
os outros, as conversas. Quando parti ninguém
apareceu para se despedir. Havia apenas: eu,
um obectivo incerto, o teu rosto a reflectir-se
ao longe e o sol a dar de chapa nas vidraças.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 12.
.
26/04/10
.
" Desabitada presença "
.
Na foto ela está sorridente. Ar inocente,
conseguido. Ele também, triunfante e
pose a condizer, embora presa de presa,
mas sem o saber. Outros iguais nas mesas
vizinhas - esperam a hora para descer
aos bares. Pelo tamanho e pela feiura
reconheço o local - a Piazza Vittorio. Sempre
a detestei! Reconheço até a esplanada,
que constantemente evitava quando ia para aqueles
lados. Na foto lá estão os toldos branco-
-sujo a cobrir as mesas, as cervejas, os sorrisos.
A um traseunte foi-lhe roubado o espanto,
fixado naquele pedaço de papel sem brilho.
Debruço-me para dentro da foto, mas não
me vejo. Contudo, tenho a certeza que estou
ali - certeza inquestionável, sem dissimulação
nem álibi. Talvez esteja no interior de um carro,
à porta do café, na inquietação de um qualquer
pensamento. Mas não, não me vejo! No entanto
- e repito - tenho a certeza que estou naquela
foto, que reproduz um encontro a que não fui.
.
Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 15.
" Desabitada presença "
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Na foto ela está sorridente. Ar inocente,
conseguido. Ele também, triunfante e
pose a condizer, embora presa de presa,
mas sem o saber. Outros iguais nas mesas
vizinhas - esperam a hora para descer
aos bares. Pelo tamanho e pela feiura
reconheço o local - a Piazza Vittorio. Sempre
a detestei! Reconheço até a esplanada,
que constantemente evitava quando ia para aqueles
lados. Na foto lá estão os toldos branco-
-sujo a cobrir as mesas, as cervejas, os sorrisos.
A um traseunte foi-lhe roubado o espanto,
fixado naquele pedaço de papel sem brilho.
Debruço-me para dentro da foto, mas não
me vejo. Contudo, tenho a certeza que estou
ali - certeza inquestionável, sem dissimulação
nem álibi. Talvez esteja no interior de um carro,
à porta do café, na inquietação de um qualquer
pensamento. Mas não, não me vejo! No entanto
- e repito - tenho a certeza que estou naquela
foto, que reproduz um encontro a que não fui.
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Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 15.
01/04/10
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" Deambulação e fuga "
.
Agora não. Agora esta impávida frieza a descer
as ruas. Este esmorecer da tarde nas aprazíveis
fachadas barrocas. O alinhamento das mesas,
sob as arcadas, ostensivamente esperando o nocturno
tumulto de nada. Agora as lojas, as rasgadas
montras, o néon. Agora o meu intento difuso -
tantos anos depois - a enviesar a rota para um encontro
de mim. Inevitável encontro (sem modas nem
circunstâncias) à revelia de tanta e tanta coisa,
sobretudo da memória; pegajosa fuligem a enegrecer
um desejo já morto, fantasias que também tive,
tão ridículas quanto inúteis. Agora eu - apenas;
esta alegria recuperada sem abastardamento
ou traiçoeira amarra sibilinamente a infiltrar-se,
como outrora. Eu a prosseguir, a saborear a Via
Roma no escondimento de passagens outras,
longínquas... Na Piazza San Carlo, Emanuel Filiberto,
de cima do pedestal, parece reconhecer-me. Ou talvez
enfadar-se. Nem eu sei bem! Santa Cristina, desta vez
sem as coisas dos restauros, oferece-me as portas
abertas com parcimónia. Mas eu fico - cruzamento
de cultos e sentires ao arremedo de mim. Fico
e a cidade acolhe-me como um imenso regaço,
um aconchego de vozes a incitar voos. Agora não.
Agora é tarde. Demasiado tarde. É tempo de te arrancar
à volátil orgânica da fala. De te excluir. De te
dissolver no ar como barca de vento à deriva.
E depois, após tão justo feito, regressar a casa
como se nunca nada tivesse acontecido.
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Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 16.
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" Deambulação e fuga "
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Agora não. Agora esta impávida frieza a descer
as ruas. Este esmorecer da tarde nas aprazíveis
fachadas barrocas. O alinhamento das mesas,
sob as arcadas, ostensivamente esperando o nocturno
tumulto de nada. Agora as lojas, as rasgadas
montras, o néon. Agora o meu intento difuso -
tantos anos depois - a enviesar a rota para um encontro
de mim. Inevitável encontro (sem modas nem
circunstâncias) à revelia de tanta e tanta coisa,
sobretudo da memória; pegajosa fuligem a enegrecer
um desejo já morto, fantasias que também tive,
tão ridículas quanto inúteis. Agora eu - apenas;
esta alegria recuperada sem abastardamento
ou traiçoeira amarra sibilinamente a infiltrar-se,
como outrora. Eu a prosseguir, a saborear a Via
Roma no escondimento de passagens outras,
longínquas... Na Piazza San Carlo, Emanuel Filiberto,
de cima do pedestal, parece reconhecer-me. Ou talvez
enfadar-se. Nem eu sei bem! Santa Cristina, desta vez
sem as coisas dos restauros, oferece-me as portas
abertas com parcimónia. Mas eu fico - cruzamento
de cultos e sentires ao arremedo de mim. Fico
e a cidade acolhe-me como um imenso regaço,
um aconchego de vozes a incitar voos. Agora não.
Agora é tarde. Demasiado tarde. É tempo de te arrancar
à volátil orgânica da fala. De te excluir. De te
dissolver no ar como barca de vento à deriva.
E depois, após tão justo feito, regressar a casa
como se nunca nada tivesse acontecido.
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Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 16.
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05/01/10
Lembrei-me de ti, logo de manhã, frente aos semáforos.
Via-te na contenção das palavras; vestígios da culpa
que te ofertavas, enquanto outros eram - desacatos,
folguedo... Via-te a crescer pra dentro como a mais
desamparada corola abrindo-se ao contrário ou o fulgor
de um astro, que, desgarrado, ansiava uma qualquer
órbita a dar-lhe sentido. Desenhei-te na montra do cubículo
onde tomei o café. Desenhei-te e eras angústia ao crepúsculo:
incapaz de decisão num país onde o rei preferia assaltos,
rixas, as pegas para esconder suas ejaculações precoces
e a quem António Cicati montava como a potro manco
e desvairado. Lembrei-me de ti assustado, com a cabeça
a prémio, os esbirros metidos na própria casa - infante
atravessado no caminho daqueles pra quem o poder não é
mais do que pesca de arrasto e a paz não passa de noção
vaga a enfeitar a terra, os corações, os livros pretensamente
morais e edificantes. Lembrei-me de ti, logo de manhã,
quando as rotinas se agigantaram e o meu regresso ao cismar
das palavras era coisa distinta dos golpes (extemporâneos)
com que outros tantas vezes as vestem. Adivinhei-te como
reforço de mim: aprendizagem em que me lanço, me perco
e recupero - seta a visar um fim que creio início, pois gémeos
nem sempre são de tempo ou de parto, mas de elos
que aproximam as mais inférteis distâncias; refinadas tramas
que unem, sem sabermos como nem porquê. Frente ao rio,
nesta manhã que é já outono, observando os cacilheiros
no seu vaivém afadigado, imaginei-te naquele momento
em que ela, vinda de França com instruções, pretendia
estancar o festim e suas mazelas. Fizeste-lhe uma vénia,
cujo acentuar ela impediu. A sua mão no teu braço. E o olhar.
Vocês não falavam a língua um do outro. Falavam com o olhar,
e era tudo... com ele se escapavam, às vezes, para Salvaterra,
onde se encontravam, onde se entregavam. Dizem os historiadores
que não há provas, mas eu, que tudo sei do amor que confunde
e não deixa rasto, tenho a certeza que vocês se beijavam,
se possuíam, se amavam num qualquer casebre no meio
da charneca, tal como eu, hoje aqui à espera, ou melhor,
como todos: particulares estórias a expressar coisa que sempre
foi - esperas, ambições, amores, traições... Tu, Pedro, o segundo
que serias de teu nome; ela, a de Sabóia, lúcido peão de si própria;
e eu, inseguro, olhando ansiosamente o relógio. Não resta qualquer
dúvida: aqui todas as faces são o mesmo prisma! E todos os homens
são igualmente o mesmo, sem refúgio nem diferença. Assim
o rio em mansa correnteza - por mais que nas suas águas
me banhasse pra sempre ficaria seu ser de rio. Do que Estrabão
escreveu acerca dele ao paredão onde espero, uns breves séculos.
Pois nada é o tempo e seus rodeios - nada, ante a imensidão
que nos circunda!... As gaivotas, tresloucadas, encenam
a sua habitual coreografia, esgravatam o jardim, o molhe -
procuram (elas também) mas de outro modo. Um cargueiro,
no centro da paisagem, ignora ostensivamente as outras
embarcações, que, ufanas, cumprem a sua glória de unir margens.
Frente ao quiosque há quem leia títulos, compre jornais,
ou simplesmente pare por parar, mas logo retomam todos
o seu rumo, porque nisto de esperas - e ao contrário
do muito dito - também se atende caminhando. Só o conhecido
é já esperado - acaso estaria eu, aqui, num embarcadouro
fluvial, se não soubesse já essa presença que a todos acena,
que ressuma das pedras, das árvores, dos pássaros e de tudo
quanto à vida vem em sua misteriosa transparência? O cais
é também este enormíssimo hall onde se cruzam cafés,
balcões de circunstância, entradas de metro e uma manga
asmática a lançar gente, por sacões, como resíduos pestilentos
e inúteis. Ah, o cais é sobretudo os meus olhos virados para
a foz!, fantasiando a poderosa armada francesa a entrar a barra,
empurrando-te para o golpe de estado, estado de golpe em
que te encontravas - metade desejo, metade medo. Golpe
igual ao meu, esperando o que do sul há muito tarda... comigo
a imaginá-los: Pedro com os cabelos revoltos, a mochila
a descair, as palavras umas atrás das outras; Francisca atenta
na sua dúplice paixão, as sílabas mitigadas, um agradecido
gesto ante a lealdade que continuamente vou tecendo, para lá
de tanta intermitência. Sonho a prontidão de um sonho imenso,
um território onde o verde irrompa e se dissolva numa qualquer
extensão de mim, indissolúvel luz a fincar presença na pavorosa
dissolução dos mapas. E reconstruo - mescla de acenos
e lembranças - a ousadia de que não desisto; coisa vislumbrada
(nem arma nem rasgo de vulcão) que um sopro ainda traz
e a mim acolhe em noites de vendaval e atormentada solidão.
Há uma hera, no lado de fora, a abraçar a estátua, coisa
de ninguém ver na azoada azáfama que têm como vida;
vida a zarpar morte em sua felicidade imitada tão a custo
obtida. O bêbedo da padiola quer também entrar no átrio
do cais. Um segurança não deixa, que segurança não é
pedaços de cartão, vómitos letais... Mas o pregão
da florista já entra sem pedir licença, e, licenciosamente,
mistura-se comigo, com a minha espera, com o bêbedo;
mistura-se com Pedro II a enviar o irmão para Angra,
com a sirene do barco recém-chegado, com ela a acenar-me,
feliz e ele também feliz, mas mudo - grande é o abraço,
forte o reencontro daquilo que permanece - em tudo.
Mateus, Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 35 - 38.
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05/12/09
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Inventaram armas de sílex, pontiagudas,
para as desguarnecidas têmporas. Inventaram
os inquisitoriais fogos, as rodas supliciantes,
a guilhotina. Inventaram igualmente métodos
higienizados: injecções letais, assépticas
e completamente indolores. Desenharam,
com o mais nítido rigor, fronteiras indeléveis,
para que o bárbaro seja sempre o outro
e nunca uma qualquer, e inapreensível, parte
de si. Levaram a cabo Auschwitz, Hiroshima,
Srebrenica. Perseguiram em função do sexo,
da cor, da etnia, da orientação sexual, das crenças
religiosas e políticas. Legislaram em torno
da desregulamentação económica, enquanto olhavam
de soslaio a fome, as doenças incuráveis,
a putrefacção do ar. Construíram paradigmas
valorativos para enaltecimento dos hospícios,
dos melancólicos, dos suicidários, enquanto
se reproduziam e ritualizavam os seus quotidianos,
porque nestas coisas - e pelo sim pelo não -
quanto mais tarde melhor. Paradigmas esses
com Verdi a bater à porta, e Fellini, e Updike,
e centenas de outros, cuja genialidade,
não necessariamente mecanicista, provinha
de outras variáveis. Viveram até a amizade,
o amor e a cumplicidade a par da denegação
do outro. E, no final, apenas uma dúvida
me resta, minúscula, quase insignificante:
como conseguiram eles meter tanta e tanta
evolução num planeta tão pequeno?
Victor Oliveira Mateus in "Revista de Poesia Saudade" Nº 12, Junho, 2010, p 61.
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Inventaram armas de sílex, pontiagudas,
para as desguarnecidas têmporas. Inventaram
os inquisitoriais fogos, as rodas supliciantes,
a guilhotina. Inventaram igualmente métodos
higienizados: injecções letais, assépticas
e completamente indolores. Desenharam,
com o mais nítido rigor, fronteiras indeléveis,
para que o bárbaro seja sempre o outro
e nunca uma qualquer, e inapreensível, parte
de si. Levaram a cabo Auschwitz, Hiroshima,
Srebrenica. Perseguiram em função do sexo,
da cor, da etnia, da orientação sexual, das crenças
religiosas e políticas. Legislaram em torno
da desregulamentação económica, enquanto olhavam
de soslaio a fome, as doenças incuráveis,
a putrefacção do ar. Construíram paradigmas
valorativos para enaltecimento dos hospícios,
dos melancólicos, dos suicidários, enquanto
se reproduziam e ritualizavam os seus quotidianos,
porque nestas coisas - e pelo sim pelo não -
quanto mais tarde melhor. Paradigmas esses
com Verdi a bater à porta, e Fellini, e Updike,
e centenas de outros, cuja genialidade,
não necessariamente mecanicista, provinha
de outras variáveis. Viveram até a amizade,
o amor e a cumplicidade a par da denegação
do outro. E, no final, apenas uma dúvida
me resta, minúscula, quase insignificante:
como conseguiram eles meter tanta e tanta
evolução num planeta tão pequeno?
Victor Oliveira Mateus in "Revista de Poesia Saudade" Nº 12, Junho, 2010, p 61.
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04/12/09
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Aqui me costumava eu sentar num tempo
de sereno abandono. Tempo em que as palavras
(quais insectos fulgurantes) germinavam sentidos
que eu nem adivinhava. Vinham e eram toda
uma paisagem com a brisa a envolver-me a tarde,
a humidade da grama, o ocre das paredes sempre
à luta com as trepadeiras. A dilatação do tempo
trazia-me, nessa altura, as roucas sirenes dos barcos,
o contraste pitoresco dos canteiros e até ( num
estranho perder de vista) os desenvoltos sorrisos
da infância. Aqui me viria eu sentar depois,
no tempo das grosseiras rotinas, dos rodopiantes
embustes com que agilmente te enfeitavas;
máscara a tingir de sombra as vidraças do jardim,
moldando de peçonha os rostos na aceleração
ininterrupta dos relógios e no frenético rodar
dos carros no asfalto. Acinzentado tempo esse
no vazio turbilhão de ti! Agora... agora regresso
ao tempo do assumido abandono. Do circular vivido
que um atento não descura nunca. Tempo ainda
com veleiros lá dentro, de novo a serpentearem o rio.
Veleiros que, sem remorso nem culpa, te lançam hoje
à praia como restos de um naufrágio; como coisa sem
préstimo, que desinteressadamente terei de arrumar
um dia no mais sombrio recanto da memória.
Victor Oliveira Mateus in "Revista Inútil" Nº2 Abril 2010, p 62.
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Aqui me costumava eu sentar num tempo
de sereno abandono. Tempo em que as palavras
(quais insectos fulgurantes) germinavam sentidos
que eu nem adivinhava. Vinham e eram toda
uma paisagem com a brisa a envolver-me a tarde,
a humidade da grama, o ocre das paredes sempre
à luta com as trepadeiras. A dilatação do tempo
trazia-me, nessa altura, as roucas sirenes dos barcos,
o contraste pitoresco dos canteiros e até ( num
estranho perder de vista) os desenvoltos sorrisos
da infância. Aqui me viria eu sentar depois,
no tempo das grosseiras rotinas, dos rodopiantes
embustes com que agilmente te enfeitavas;
máscara a tingir de sombra as vidraças do jardim,
moldando de peçonha os rostos na aceleração
ininterrupta dos relógios e no frenético rodar
dos carros no asfalto. Acinzentado tempo esse
no vazio turbilhão de ti! Agora... agora regresso
ao tempo do assumido abandono. Do circular vivido
que um atento não descura nunca. Tempo ainda
com veleiros lá dentro, de novo a serpentearem o rio.
Veleiros que, sem remorso nem culpa, te lançam hoje
à praia como restos de um naufrágio; como coisa sem
préstimo, que desinteressadamente terei de arrumar
um dia no mais sombrio recanto da memória.
Victor Oliveira Mateus in "Revista Inútil" Nº2 Abril 2010, p 62.
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09/11/09

"Una casa pintada de blanco con el horizonte al fondo"
La casa abierta a la amplitud del blanco. La casa
donde cada noche se descierran las ventanas
con sus huellas de amargura, sus umbrales
divididos entre el resplandor del desierto y la brisa
siempre dócil del Mediterraneo. La casa
rodada de calles estrechas. De callejones. Pero también
de puertas abiertas a las retorcidas formas
de los olivos, a las flores de los almendros
en pleno estio y hasta a las manos límpidas
de los vecinos, si a ellas vienen inundados de pájaros
o de madrugadas - por fin tan posibles. Una casa
indivisa, una, con sus patios de vides,
sus tejados repletos de cielo en la circular migración
de las garzas. En fin, una casa toda de blanco pintada
mas allá de los precipícios y la tierra calcinada. Espacio
oliendo a vida, donde un nuevo lenguaje se inscriba
con caracteres de luz en el pacificado corazon de los hombres.
Victor Oliveira Mateus In "Versos para derribar muros - Antologia poética por Palestina"
(Edición y prólogo: Ana Patricia Santaella e Inmaculada Calderón), Los Libros de Umsaloua,
Sevilla, 2009, p 222 (Tradução para o castelhano de Sónia Serrano).
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Versão Portuguesa:
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"Uma casa pintada de branco com o horizonte ao fundo"
A casa aberta à vastidão do branco. A casa
onde à noite as janelas se descobrem
com suas pegadas de mágoa, suas soleiras
divididas entre o clarão do deserto e a brisa
sempre mansa do Mediterrâneo. A casa
cercada de ruas estreitas. De becos. Mas também
de portas escancaradas para as formas retorcidas
das oliveiras, para as flores das amendoeiras
em pleno estio e até para as mãos límpidas
dos vizinhos, se a elas vierem inundados de pássaros
ou de madrugadas - afinal tão possíveis. Uma casa
indivisa, una, com seus quintais de videiras,
seus telhados cheios de céu na circular migração
das garças. Enfim, uma casa toda de branco pintada
para além dos precipícios e da terra calcinada. Espaço
cheirando a vida, onde uma nova linguagem se inscreva
com caracteres de luz no pacificado coração dos homens.
Victor Oliveira Mateus (obra citada acima, pp 148 - 149)
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07/10/09
" Poema 18 "
Neste voo de escrever-te um poema
um poema que falasse
dos rios ocultos
com cestas de astros e corais
que falasse das flautas de sol
polindo a tarde
e de picaretas de luz
que do peito à boca me ressoam
Um poema com peixes verde-prata
vindo à tona entre os juncos e as palavras
e onde os sapos surpreendidos em seus saltos
deixassem os gritos suspensos
nos cabelos das algas
com regatos de permeio
Um poema que tivesse também
um longuíssimo solo de violino
com todos os mundos que para ti inventei...
- Neste voo de escrever-te um poema
que não sei...
Mateus, Victor Oliveira. Movimento de Ninguém. Lisboa: 1999, p 30.
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23/09/09
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Sempre que a mim regressas indefeso te recebo e, sem temor
ou artifício, indefeso me dissipo na tentação por nós
arquitectada. Mas há tentações assim... Que nos devoram.
Que nos devoram e limpam da ferocidade diária,
dos mitos que nos apregoam mas não compramos,
porque tentação mais vil do que a nossa. Sempre que a mim
regressas - qual rosa ou vala ou ferida aberta - uma maré
de alegria me retoma, me submerge e apequena sem eu saber
como nem porquê. Grande é a vizinhança entre os instantes
das tuas vindas e a eternidade que nelas inscrevemos.
Grande a felicidade se acaso te demoras e eu, para além
das armadilhas da noite, para além do estampido das ondas
contra as rochas, dos estalidos do soalho sob os nossos
pés nus, do arquejar dos nossos corpos já saciados, esqueço
a minha boca colada à tua pele, como jóia cintilante a prender
o manto da mais bela rainha do Mediterrâneo.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 17.
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Sempre que a mim regressas indefeso te recebo e, sem temor
ou artifício, indefeso me dissipo na tentação por nós
arquitectada. Mas há tentações assim... Que nos devoram.
Que nos devoram e limpam da ferocidade diária,
dos mitos que nos apregoam mas não compramos,
porque tentação mais vil do que a nossa. Sempre que a mim
regressas - qual rosa ou vala ou ferida aberta - uma maré
de alegria me retoma, me submerge e apequena sem eu saber
como nem porquê. Grande é a vizinhança entre os instantes
das tuas vindas e a eternidade que nelas inscrevemos.
Grande a felicidade se acaso te demoras e eu, para além
das armadilhas da noite, para além do estampido das ondas
contra as rochas, dos estalidos do soalho sob os nossos
pés nus, do arquejar dos nossos corpos já saciados, esqueço
a minha boca colada à tua pele, como jóia cintilante a prender
o manto da mais bela rainha do Mediterrâneo.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 17.
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Aportados em tão extrema manhã ao que vínhamos
bem nós sabíamos. Mas ao que estávamos, só quem via
aquele azul como nós, que religiosamente o calávamos
como coisa rara, coisa de impossível dizer, só quem via
nossa busca em seu intrépido fulgor, poderia perceber
tanto e tanto ardor. Aportados naquela manhã, na ponta
norte, de onde as costas da Lacónia nos apareciam
como um leve traço antes do céu, logo ali desocultámos
desse admirável princípio seu estranho véu. E com o teu
braço sobre os meus ombros, por entre sumagres, faias
e avelaneiras, adentrei-me naquela ilha, que por nossa
se desenhava. Ilha para lá do vazio, da felicidade imitada,
dos escombros: terra finalmente alcançada com o teu
braço sobre os meus ombros. Nenhum mal a poderia
já extinguir como marco nunca havido, nem a persistente
fragrância a si própria acrescentada de sémen e saliva
- de nós húmidos rastros - no abandono dos cômoros, nem
tão-pouco as terríveis perdas, que nas cidades fervilham
em correria inóspita e vã, parecer por nós recusado
quando à ilha havíamos chegado naquela extrema manhã.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 10.
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Aportados em tão extrema manhã ao que vínhamos
bem nós sabíamos. Mas ao que estávamos, só quem via
aquele azul como nós, que religiosamente o calávamos
como coisa rara, coisa de impossível dizer, só quem via
nossa busca em seu intrépido fulgor, poderia perceber
tanto e tanto ardor. Aportados naquela manhã, na ponta
norte, de onde as costas da Lacónia nos apareciam
como um leve traço antes do céu, logo ali desocultámos
desse admirável princípio seu estranho véu. E com o teu
braço sobre os meus ombros, por entre sumagres, faias
e avelaneiras, adentrei-me naquela ilha, que por nossa
se desenhava. Ilha para lá do vazio, da felicidade imitada,
dos escombros: terra finalmente alcançada com o teu
braço sobre os meus ombros. Nenhum mal a poderia
já extinguir como marco nunca havido, nem a persistente
fragrância a si própria acrescentada de sémen e saliva
- de nós húmidos rastros - no abandono dos cômoros, nem
tão-pouco as terríveis perdas, que nas cidades fervilham
em correria inóspita e vã, parecer por nós recusado
quando à ilha havíamos chegado naquela extrema manhã.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 10.
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