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13/10/13

 
Rui Almeida, Manuel A. Domingos e Victor Oliveira Mateus, Sociedade Guilherme Cossoul (Campolide) em Lisboa, 12 de Outubro de 2013.
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                               Apresentação do livro Leis da Separação de Rui Almeida

 

     Têm os títulos dos livros, bem como as suas epígrafes, a função de nos introduzir no horizonte ou intriga que virão a ser desenvolvidos. Assim, no mais recente poemário de Rui Almeida, a expressão Leis da Separação aponta-nos para algo de fixo e invariável, que, uma vez colocadas e respeitadas condições igualmente estáveis, produzirão necessariamente os mesmos resultados. Podemos aqui, por conseguinte, partir de um eu-poético que se assume a si próprio como distinto da multidão, incapaz – por recusa ou por aspectos de personalidade – de participar nos rituais do turbilhão que o cerca: “Pode a memória de um cheiro gerar/ O pequeno lucro do afecto/ Ou queimar o erro da norma?” (p. 8); “Pela manhã são vistos, apressados,/ A caminho do dia, da sequência monótona/ Para onde se esvai toda a grandeza/ De cada olhar. Nem se notam” (p. 16); “De onde vem tanto barulho?/ Que espécie de riso se expande/ Por corredores estreitos, entre paredes,/ Para chegar ao vácuo da rua?” (p. 24). O apreender-se a si próprio como destoante e separado do vulgo incute no eu-poético indeléveis marcas de: uma radical solidão interior – “Próximo e para lá/ Do que cabe numa linha/ De texto formatado,/ A possibilidade de tocar/ Uma outra existência/ Alheia à distância e ao peso/ Da matéria” (p. 9), “Será possível tocar/ Na pele do rosto de um semelhante/ Sem deixar de sentir/ A sua temperatura?” (p. 24); intensos reflexos de angústia e dor – “E quando te cansas/ Dessa alma de borracha,/ Tão maleável…// Aceleras o coração,/ Acordas surpreendido// E reparas/ Que te faltam/ Mãos e braços” (p. 30), “(…) A noite tem textura/ De caminho difícil até/ Ao limite do mais belo.//(…) Devagar é noite e dói/ Subir à montanha com os olhos.” (p. 34); um vincado desalento tangenciando mesmo, por vezes, um certo pessimismo – “A isto se chama devastação,/ Cinza erguida, totens/ De negro carvão. Nada.” (p. 35). Estes estados, que esboçam o perfil de um sujeito que enceta uma plurifacetada busca na compreensão de si, do Outro, daquilo que o cerca e também daquilo que ele intui que o transcende, estes estados – dizia – são as já referidas condições de partida desse tal olhar perscrutador.

      Mas o caminho apresenta-se, neste cismar poético, eivado de escolhos, já que o poeta jamais designa através de um conceito unívoco esse território que lhe surge como fundante, não só da sua busca, mas igualmente do seu estar-aqui, e isso ocorre não por qualquer vacilação do olhar, mas porque ante o inominável serão sempre poucas e redutoras as palavras, mas, apesar de tudo, ele insiste: “Ao que pode e não pode rouba sempre/ A morte, assombra a quantia/ Lenta do alto. “ (p.8), esta ideia do Alto surge-nos ainda no poema da página 14; o eterno - “Longe, a ideia de continuar/ Sempre a sentir/ O movimento,/ Distinto da realidade/ Sustida pelo tempo,” (p.9); “A paz, podem dizê-lo,/ Tem curvas breves:// É frágil em seus limites/ Irracionais.// O lugar das coisas invisíveis/ É a flor dos silêncios.” (p. 11); o centro - “Queres e não vês/ E tomas o acesso/ Mais directo ao centro/ E há nevoeiro e não chegas/ A tempo, mas onde?,//(…) e não sabes/ Onde chega a tua força/ E não tens lugar/ E não ouves e não cantas/ A breve melodia.// E ainda assim.” (p. 40). Esta consciência de uma incapacidade estrutural que é intrínseca ao acto de nomear o que está para além de um aqui imediatista, já o poeta a tinha sentido em livros anteriores: “Ascende ao presente a vaga/ Firmeza aplicada ao que sucede,/ Distracção do tempo/ Assumida em palavras sobrepostas/ Para construir um nome. ( in “Caderno de Milfontes”, p. 12). Este pudor, ou este recato, do nomear jamais é incompatível com a necessidade de busca, e isso surge-nos logo a partir do primeiro livro de Rui Almeida: “É por não buscarmos o que nos salva ou/ Por não sabermos beber da secura dos lábios/ Que nos transportamos para fora dos campos/ Sujeitos à pequenez e à aparência de abundância/ Como seres que perderam a consciência do riso. “ ( in “ Lábio Cortado”, p 7). A inquirição poética contida em Leis da separação surge-nos marcada por quatro aspectos fundamentais: a Dúvida – o poeta, nunca chama a si posições de carácter dogmático ou onde uma certa assertividade se apodere da sua escrita, isto é, os momentos de angústia e de desalento acima referidos aparecem, algumas vezes, geminados com momentos de: dúvida - “Cada passo é próximo/ Demais para chegar// A um fim. Incerto/ Limite/ Do fluxo da vida.” (p.31), “Mais acima e mais para dentro,/ Sustentado por ideias,/ Possibilidades de sonho// A concretizar/ Em caminhos de areia/ Solta por entre/ Abundante vegetação.” (p.32); ironia, muitas vezes magoada – “Iremos aparecer,/ O nosso rosto será/ Visível em fotografias,/ Muitos anos depois,// E sairemos bem/ na contramoda que construirmos.” (p. 12), “ Todos felizes da vida/ por serem humanos;/ Até o maneta,// Que atrapalha o trânsito/ Com obscenidades/ Por não ter nada a perder.// (e esse mais do que os outros)” (p. 17); de utilização, aqui e ali, de um argumentário poético alicerçado em Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino, nomeadamente as Teorias da” Matéria e Forma” e a da” Potência e Acto” - “Age no poder da forma o cheiro/ Da memória, assinala/ O fim da leitura… “ (p. 8), “ Distinto da realidade/ Sustida pelo tempo,// Concretizado no acto/ de ir ao encontro.” (p. 9), “Até às formas completas/ Que revestem o essencial.” (p. 26); a ideia de ciclo - o itinerário do eu-lírico (como o da criação poética expresso, subliminarmente, no poema da página 22), nesta sua errância por um aqui que lhe surge assumidamente imperfeito e lacunar, não aparece como um processo linear onde as etapas se somem umas às outras, na poesia de Rui Almeida são recorrentes as hesitações, as dúvidas, a consciência da sua própria fragilidade, onde o eu vacila para logo se reerguer e retomar o seu caminho, aliás, não é por acaso que as referências à noite, à nevoa, à sombra, etc., como instâncias impeditivas ou bloqueadores da acção, são abundantes nesta obra: “ A paz, podem dizê-lo,/ Tem curvas breves:” (p. 11), “Encerram as fontes/ Fragmentos/ Ciclos de esperança,/ Respostas incertas.” (p. 26).

      A separação que o poeta, como vimos já, sente relativamente à conformidade, ao turbilhão, à essencialidade do Outro e ao que intui subsistir para além do Aqui, e que ele assume com uma lucidez angustiante e com o desalento próprio de quem teme que esse qualquer encontro redentor não venha, alguma vez, a ser possível, afasta a poesia de Rui Almeida, pelo menos no que diz respeito a este livro, dos intentos poéticos de outros autores: Vergílio Alberto Vieira, nas suas últimas obras, é claro quanto à identificação da transcendência (que ele significa sempre com maiúscula!) e a sua espera jamais aparece como dolorosa ou atormentada: “ Nada vêem os olhos, que tudo vêem,/ com a primeira luz do dia;/ a treva que, a pouco e pouco, das minhas mãos/ se afasta é, agora, que nada me pertence,/ pertença minha; um ramo de sombra apressa então/ a inquieta brancura do caminho.” ( in “Amante de um só dia”, p 13); em José Tolentino Mendonça são também bastante atenuados os momentos de desconforto e insegurança na espera: “ Os naufrágios são belos/ sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?” (in A que distância deixaste o coração”, p 28), “Nenhuma sombra ameaça tua porção de luz/ ainda que solte o vento/ medos antigos pelos atalhos// Uma só palavra restitui/ a imensidão “ ( Idem, p. 41), “ Nós não os ouvimos/ mas os desertos, os oceanos, os cimos remotos/ ensinam-te finalmente o que não entendes// Descobres uma casa/ noutras direcções/ a igual distância/da vida que deixamos para trás” ( in “ O viajante sem sono” pp. 35 – 36),aliás, esta ideia de manter a sombra à distância era já visível  num livro anterior de Tolentino Mendonça: “Se fechar meus braços outro os abrirá/ no escuro da roda as orações são perpétuas” ( in “longe não sabia”, p. 13). Uma outra plêiade de autores encontra-se ainda  mais distanciada da poesia de Leis da Separação, grupo esse que pode ser exemplificado aqui através da escrita laudatória de José Augusto Mourão: “ tu semeaste no nossa vida/ a semente do infinito e da beleza/ para que em cada tempo brotem formas novas/ de convivialidade e graça entre aqueles/ que a dor performa e acinzenta “ ( in “ O nome e a forma”, p. 121). O modo como Rui Almeida estabelece, e vivencia, AS LEIS DA SEPARAÇÃO aproximam-no antes de poetas como: Maria Carpi, Daniel Faria e até mesmo de Paul Celan. Veja-se, por exemplo, a última estrofe do poema da página 33: “Só com a grande coragem/ Da desilusão/ Se chega ao riso mais branco/ Por dentro.”, compare-se agora esta estância com um terceto de Maria Carpi: “não tenho mãos/ O meu ofício/ não é cinzelar; tão só pedra bruta/ ser, dentro das entranhas do ver.” ( in “A força de não ter força”, p 88). A desilusão (ou o não ter mãos) não serão, então, condição necessária ao aplanar de todo um território a partir do qual agora, e de modo estruturalmente diferente, se possam edificar pontes? Dito de outro modo: colocadas que foram as variáveis necessárias da vivência poética (inconformidade, angústia, solidão interior…), respeitadas depois as condições da errância e da inquirição ( dúvida, ironia, busca cíclica…), não se chegará, necessariamente na óptica do poeta, a um resultado insofismável que fixará a lei, e que será, neste cismar poético, a visão de que o todo é fragmentário e onde tudo é separado de tudo? Sendo assim, o poema da página 39 – já prenunciado pelo da página 36 – surgir-nos-á como corolário da magnífica e bem desenhada aventura poética traçada por Rui Almeida em Leis da Separação , e que é essa certeza do coração (cf. poemas das páginas 21 e 26, bem como a pouca fiabilidade concedida aos sentidos e à razão esparsa pelos vários poemas) de que só apreendendo a separação, poderemos (ainda) aceder a essa “Coisa mais simples e mais/ Larga, anterior à necessidade/ De justiça.” (p.39) e nela, finalmente, encontrarmos acolhimento e aconchego.

 

 
                                                                                       VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS
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03/10/13

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             Ana Maria Puga: a delicada irreverência da escrita
 
 
    O novo livro de Ana Maria Puga, Área de Serviço, apresenta-nos uma escrita de cunho vincadamente urbano e realista, onde uma função irónica e deliberadamente ambígua da linguagem, assim como o engajamento social, surgem como principais linhas de força. Por entre os vários aspectos que aparecem subjacentes a esta escrita podemos encontrar, embora de forma ténue, as marcas de autores como Fernando Assis Pacheco (cf. “Elegia por Manuel Bogalho” in A Musa Irregular pág. 149; “A Bela do Bairro”, idem pp. 151-152) e Jorge Fazenda Lourenço (cf. “Cutucando a Musa”); também a veemência do sentido, bem como alguns procedimentos rimáticos, nos fazem lembrar a assertividade de poéticas como as de Miguel Torga e de José Gomes Ferreira (é difícil lermos o verso “Feitos de lágrimas enxutas”, p. 48, sem nos recordarmos de José Gomes Ferreira!); no entanto, quer ao nível da organicidade do poema quer da estruturação do poemário parecem surgir de modo mais acentuado as influências de poetas como Alexandre O’Neill (cf. “O poema pouco original do medo” in Poesias Completas 1951/1986, pp. 143-144; “Saber viver é vender a alma ao diabo”,  idem pp. 177-179) e Mário Cesariny (cf. “poema podendo servir de posfácio” in Manual de Prestidigitação, pp. 100-102; “autografia” e “ortofrenia” in pena capital, pp. 37-39 e p. 152 respectivamente), no entanto – diga-se - a poesia de Adília Lopes não nos surge ( também) como algo de alheio a esta escrita (cf. Dobra, Poesia Reunida pp. 330-348), nem tão-pouco a mordacidade e o desvelamento cáustico bem ao gosto dos textos de Mário-Henrique Leiria.
      Área de Serviço, remete-nos, logo no início, para a ambiguidade da linguagem acima referida, já que nos chama a atenção para uma duplicidade do que se entende por esse servir tantas vezes enunciado, assim, numa primeira leitura servir será “(…) colorir/ Cada fresta/ No tabuleiro das pontes”( p. 7) ou “A estrada (…) /O azul/ Na pintura de horizontes” ( p. 8), dito de outro modo: servir será aqui colocarmo-nos ao serviço do outro e desse contexto que é o nosso, mas servir poderá também ser entendido como servilismo: “(…) as galeras/ na mordaça da corrente/ e só quer um beija-pés/ dos que partilham o remo/ na sua madeira urgente/ por negrume das marés” p. 10.
      Nesta obra de Ana Maria Puga é notória a força incutida ao sentido enquanto fonte de inquirição, contestação e recusa de um social que se apresenta à poeta de modo injusto, castrador e claustrofóbico. Assim, esse mesmo contexto e/ou quotidiano é olhado nas suas múltiplas vertentes: a histórica (“No poleiro ocidental/ Do comércio/ Das viagens/ Jaz tão velha a catedral/ De um tempo de oiro/ E voragens/ Na senda de acontecer”, in poema Porto-Galo, p. 28); ao nível dos costumes e hábitos (“Ai matriz!/ Canta-se o fado/ E o xaile entorpece mais/ Os braços/ De um povo a lavar sem rio/(…)/ Trinando/ Nas artes do cativeiro”, in poema Portugal de Xaile, p. 31; “O tempo que nós perdemos/ Na oferta de um sofá/ Mesmo esventrado e sem molas/ (Por vício de civilização/ Que nos impede de parar)/ Castiga toda a memória” in poema Pluralidade, p. 59); no campo ético-moral (“Os índios/ Os aborígenes/ Selvajaria sem alma/ Vergonhas a descoberto/ (…)/ E nós outros/ De cabeça sem recheio/ Desavergonhadamente/ Tapámos as partes/ Nesses brocados de anseio” in poema Casinô, p. 55); no terreno do económico-político, onde se visa, por exemplo, o consumismo e os off-shores: ( “As grandes superfícies brilham/ Na quantidade/ Em estoques de perfumar/ Os olhos que tudo procuram/ Na compra de abraçar a solidão “ p. 36; “ O Produto Interno Bruto – rosmaninho e cheiro/ Desaparecendo pela mão de um autoclismo/ Boiando nas águas turvas do seu catecismo/ De alargar as ilhas onde se fala estrangeiro “, p. 47). Neste olhar simultaneamente atento e acutilante de Ana Maria Puga, assoma, por vezes – poucas! – um certo desalento, uma certa mágoa: (“Quando me deito e de olhar me vou cansando/ Guardo na noite as lentes de ver ao pé/ E as ideias por casar no pensamento/ Aceitam no desconforto/ Convívios de rodapé “ in poema Insónia, p. 57; “Lamento/ Esta falta de vontade/ Esta inércia/ De ordenar significâncias/ Sobre a dor/ Que habita a alma” in poema Pluralidade, p 58), no entanto, os laivos de fuga, ou de desalentada entrega a quaisquer derrotismos que eventualmente possam surgir nesta poesia, são puramente acidentais ante um intento mais forte e claramente assumido: o de cismar (poeticamente) sobre esse acontecer, algo circense ( cf. pp. 48 – 50), que à poeta coube em sorte. Assim, e nesta linha de leitura, é impossível afastar a poesia de Ana Maria Puga de toda uma plêiade de poetas que o cânone tem tido o cuidado de manter sob vigilância, veja-se- por exemplo – o “Canto e Lamentação na Cidade Ocupada” de Daniel Filipe, sobretudo o poema 2.: “ Canto porque estou vivo e amarrado/ à condição de ser fiel e agreste./ Porque em vão nos destroem a memória/ com máquinas, rodísios, honorários “ (in A invenção do amor e outros poemas, pp. 52 – 53); o poema” Canção combatente” de Armindo Rodrigues: “ Por prémio chega-nos/ nunca termos prémio,/ senão na nossa própria consciência, em nós moldada/ por activa opção “( in O horizonte e a ave- Canto Fausto – Dialéctica do vento, p. 78) ou o poema “Esta é a cidade” de António Gedeão: “Esta é a Cidade, e é bela./ Pela ocular da janela/ foco o sémen da rua./ Um formigueiro se agita,/ se esgueira, freme, crepita, ziguezagueia e flutua.” ( in Poesia Completas, 1956 – 1967, p. 86), refiro aqui apenas poetas já desaparecidos, no entanto, este lúcido e crítico olhar para a cidade, ou melhor: este olhar pela cidade, tem-se mantido actual porejando em poéticas quer de autores já consagrados quer de outros que vêm pertencendo às gerações mais recentes. Assim, se ao nível formal o Área de Serviço se mantém enraizado nas escritas referidas no primeiro parágrafo, já no que diz respeito à inquietação fundamental, e fundante, de toda a criação que lhe subjaz, este livro acaba por se integrar num continuum onde poéticas de indefectível qualidade se inscrevem.
     Finalmente, convém enfatizar que Ana Maria Puga, apesar de privilegiar o território do sentido, consegue escapar, contudo, a um prosaísmo estritamente linear e denotativo – e isto apesar de um momento (sete estrofes, pp 11 -13) assumidamente de carácter dialógico – e fá-lo através de três procedimentos estilísticos: jamais se afasta do verso curto; recorre com frequência à rima: (“ Menos uma folha de plátano/ De boca calada no chão/ No alargamento da avenida/ Que apressa o concurso da vida/ Emoldurando a distracção”, poema Desobrigada, p. 26) e dota a palavra de um tom lúdico e assumidamente ambíguo de modo a interpelar o leitor, a provocá-lo e a integrá-lo como momento último da obra. Esta última vertente aparece-nos como o carácter mais representativo da poesia de Ana Maria Puga: o lúdico pode, neste livro, irromper através de momentos de intertextualidade (cf. o título “ Os touros sempre se debatem “, p. 32, que nos remete para a película “ Os cavalos também se abatem”; o verso “De um povo a lavar sem rio “, p. 31, a enviar-nos não só para um fado, mas também para um poema de Pedro Homem de Melo; o verso “Nos doze magníficos” que acena ao filme “Os sete magníficos” e ainda o verso “Haja desconcertos sem Imperador”, p. 48, numa aproximação clara à “Valsa do Imperador” de Johann Strauss...), irrompe igualmente através de jogos de palavras que muitas vezes rondam a paronímia (canteiros/carteiros, p. 30; inferno/inverno, p 59…), procedimentos de aglutinação de vocábulos ou de desmembramento dos mesmos com irónicas modulações  (Vejam-se os títulos “A cara à vela das descobertas”, p. 46 - desmembramento de caravela - e “ Porto-Galo “, p. 28, que encima um texto sobre a realidade lusa  ) ou de uma ironia irreverente e, por vezes, denunciatória ( “ Todos os passos roxos/ Que murcham de aperto/ Em cada pescoço a soldo/ Numa vontade sem braços”  in poema Portugal, p. 44).
       Convém ainda assinalar a inflexão que ocorre nesta obra entre as páginas 68 e 69: na primeira estamos ainda num território Sem partilha entre sensações inúteis, enquanto que na segunda se inicia um clima esperançoso, se edifica o “Albergue da recriação” (p. 82), até porque “Mesmo tarde é sempre cedo” ( in poema Eros p. 88) desde que ”Haja som no poder de regular a vaga” (in  poema Eros p. 88). A poesia de Ana Maria Puga, por conseguinte, jamais entronca nas posições de cariz essencialista do Discurso Poético, onde – regra geral – o em-si e o para quê do dito discurso coincidem, nem sequer aqui importam os dizeres de cariz visionário… à poeta apenas interessa o real concreto onde os homens se pensam e se constroem, isto é, apenas lhe interessa esse cismar “Nesta teia enferrujada a que chamamos cidade “ (p. 82) “Regando cada canteiro da vida” (p. 84) – Nada mais! O último poema de Área de Serviço é, aliás, emblemático deste posicionamento: “ E o homem que ama – bebe a brisa/ Vai e afunda os pés no sol da terra/(…)/ De mão entranhada na vida das cores/ Avança nas suas pinturas de guerra/ Contra as portas fechadas sem concílio/ E nunca desiste…  “ ( p. 90).
 
 
                                                                                       VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS
 
                                                           (Livraria " Pó dos Livros " em Lisboa, 3 de Outubro de 2013. )
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23/08/13

 
 
Vladimir Queiroz, Maria João Coutinho e Victor Oliveira Mateus no "Café Saudade", em Sintra, no dia 22 de Agosto de 2013,
 



Texto de apresentação do livro " Nuances" de Vladimir Queiroz:
 

    O novo livro de Vladimir Queiroz, Nuances, numa primeira abordagem pode ser entendido como uma incursão nos territórios da afectividade humana, mais especificamente do amor. Logo no soneto preambular, cujo título dá nome ao livro, o autor não só esboça uma caracterização aproximativa do sentimento referido (é vasto, tem íngremes vertentes, está submetido a um fluxo contínuo e é fonte desejante do olhar), como também estabelece  a relação existente entre o amor e o desejo (que ele não seja hostil à moral nem cúmplice de uma culpa ignorante), na sequência disto o homem passará a ser entendido como vivenciando um manancial de experiências e de pensamentos diversos, e por vezes antagónicos, portanto, deduz-se já que do amor não é possível alcançar-se uma definição rigorosa e de carácter fixista, nem tão-pouco vivenciá-lo através de uma experiência unívoca – do amor só se tem, e só se vive, não uma qualquer essencialidade estabelecida para todo o sempre, mas as nuances que dele conseguimos atingir.
    No soneto Burburinho, p 15, o poeta enfatiza duas das principais linhas de força desta obra: primeiro, o amor está submetido a uma dialéctica de ocultação/desocultação (O amor, a que persegues tanto,/esconde-se a te negar carinho;/mas, um dia, em meio ao burburinho/de vozes e sorrisos, ei-lo por encanto.); segundo, o amor está também submetido a uma outra dualidade antinómica: permanência/evanescência (O amor é como a água do mar:/chega junto à praia, penetra profundo/molhando a areia, que se deixa envolver.//Enigmático, brincalhão, vagabundo,/serena as águas como quem vai permanecer,/mas, de súbito, foge, para de novo voltar.). Depreende-se, por conseguinte, que deverá ser atribuição do poeta procurar entender, e viver, este mesmo amor em si lábil e multifacetado. Perante um cenário deste tipo percebe-se o quão difícil é para o ser humano movimentar-se, e construir-se, neste território, já que nele ora se perde, ora se encontra, ora ainda se voltará a perder. Uma vez chegados aqui dois outros aspectos fundamentais da poesia de Vladimir Queiroz se nos deparam: a figuração do feminino, estruturalmente dual, apresenta-se-nos não só como um polo de desejo (“estava ávido para conduzir/o desejo por entre as frestas/inexploradas em segredo.”, poema Ávido p 39 ; “Oh! Sorriso de neve/provocas em mim enxurrada/de prazer/no degelo da tua boca.” poema By Night, p 49), mas também esse feminino pode igualmente associar-se a toda uma imagética relacionada com o acolhimento e/ou com um regaço de acalmação (“O sereno que me acompanha/rodeia a face;/amado: adormeço, e sonho à toa.” poema Garoa, p 47; “Chego bem perto/entreabro os lábios/e recebo o fluxo de amor/que inunda a tua boca./(…) nos arrepia, nos aproxima,/uma quentura nos invade.” poema Regaço, p 37); o outro aspecto remete-nos para o facto de toda a movimentação afectivo-amorosa estar subsumida a um ininterrupto ciclo espiralado, onde a dimensão espiritual e a do corpo se vão procurando, afastando e reencontrando (Cf. poemas Íris, Espúria, Calmaria e o primeiro verso da segunda estrofe de Vere –Dictum, p 57).

   Uma outra vertente desta obra, que convém evidenciar, prende-se com a quantidade e os aspectos formais dos sonetos inseridos na primeira parte deste livro: a predominância de referentes que nos remetem para a antiguidade greco-latina, bem como, a formulação estilística, poderiam levar-nos a pensar estarmos perante um livro de estilo clássico com sonetos vincadamente parnasianos, no entanto, uma leitura mais atenta demonstra que, sobretudo nos sonetos, o poeta jamais sacrifica o sentido a quaisquer espartilhos de tipo formalista, assim, sobretudo nas quadras desses mesmos sonetos, opta por rimas interpoladas mas vezes há em que as combina com o verso livre (vejam-se os sonetos: Drink, Espúria), também a métrica não se apresenta regular, sendo o verso decassilábico muitas vezes sacrificado caso as exigências do sentido a isso o forcem. Um pormenor que nos afasta também de um classicismo insólito e serôdio deve-se ao facto de o autor recorrer, por vezes, ao linguajar rústico e à gíria, que acabam irrompendo no seio das formulações eruditas (“ seja sina, um sinal/ e coisa e tal; não faz mal.” poema Pétala, p 43; “Sem cor, passo… e se passo sem cor/ tenho a cor do burro quando foge.” poema Cores , p 53; “Comeu o pão que o diabo amassou,/ a carne, as vísceras, o fígado todos os dias…”, poema Canibal,  p 71). A inserção deste novo livro de Vladimir Queiroz dentro dos diversos Romantismos do século XXI, e não no seio de uma poesia estritamente clássica, é passível de ser apreendida também através de certas subtilezas temáticas e estilísticas, veja-se, por exemplo, o que diz respeito à representação da Amada: se no soneto Íris (p 21) a mulher amada nos surge com a sua tez branca  e os lábios róseos, o que nos remete imediatamente para a lírica do século XVI, o que é um facto é que não muito distante deste soneto aparecem-nos poemas de outro tipo, alguns de cunho vincadamente experimental, onde a Amada tem olhar crioulo (poema Nagô, p 27), pés pequenos (poema Calmaria, p 29), avalanche de melenas (poema By Night, p 49) e, perto do final do livro, nalguns poemas onde o cunho sócio-cultural se faz mais sentir, surge-nos mesmo a “joana pluma blonde/ explode em sangue, verve/dos sentidos.// A alma louca/ rouca na cruz santa/ luz no firmamento/ um juramento/ um lamento aos homens.” (poema Joana, p 79), ou seja, esta Joana é a célebre mulher de vida dita fácil, ícone de tanto poetas, românticos e não só. Perguntamos: se do Amor o poeta apenas obtém nuances, que dizer agora da figura feminina também ela tão diversa e plural? Não estará este livro demonstrando isso que é simultaneamente um elo e um hiato entre a Mulher (arquetípica e idealizada) e a mulher concreta, que no sensível dialoga com o poeta e com ele vai tecendo todos os caminhos do aqui? Aliás, as distinções lógicas e existenciais: universal/ particular, arquétipo/ sensível, etc. são-nos logo anunciadas no soneto introdutório do livro, pois não é por acaso que no primeiro verso da primeira quadra o Homem (ser humano) aparece significado com maiúscula e à medida que o poema se vai desenrolando o homem já nos surge referido com minúscula, como no caso do primeiro verso do primeiro terceto. E são estes aspectos que nos conduzem à confirmação de estarmos ante uma poesia assumidamente romântica, mas de um tipo de romantismo actual onde o corpo, a sexualidade e a sensualidade são salutarmente integradas sem os pruridos de qualquer juízo moral desajustado deste tempo que é o nosso (“ Rondas a minha carne…” poema Deusa, p 19; “possam arder minhas entranhas/ no calor que da tua pele emana” poema Íris, p 21; “E o frio desnuda o teu ser e enrijece os teus seios: / somos dois, somos unos,/ únicos num amor pleno e eterno.” poema Calmaria, p 29). A relação com a Amada aparece nesta obra de Vladimir Queiroz alicerçada num procedimento, não linear, mas baseado nesse movimento cíclico já anteriormente referido onde alma e corpo, espírito e matéria, entre si dialogam e se complementam: só purificando a alma, nem que seja banhando-se no Ganges (poema Avesso, p 33) aquele que ama pode entregar,  como oferenda, o corpo, e só vivenciando em pureza e eternidade o que é corpóreo no amor se pode engrandecer a alma – eis, enfim, o ciclo em forma de espiral que tinha já avançado neste texto, e é este também o objectivo último do amor e do amar (Cf. último verso de By night, p 49) nesta obra de Vladimir Queiroz, no entanto, porque ingente e complexo tal objectivo, e porque demasiado imperfeito o humano, de todo este vivenciar apenas conseguimos ir adquirindo Nuances.

 
            Victor Oliveira Mateus  ( Café Saudade, em Sintra, no dia 22 de Agosto de 2013).

                        
 

 

 


09/08/13

 
 
                                         " O expresso das dez e trinta e dois "
 
 
  O homem tinha adormecido. O despertador do telemóvel não tocara, ou tinha tocado e fora ele que não ouvira. Andava cansado, sim, talvez fosse isso! E já não ia ter tempo para tomar um duche... puxou apenas uns calções que andavam por ali, uma t-shirt, escovou os dentes à pressa e lá saiu ele de roldão. Desceu as escadas a dois e dois com os braços ajoujados de livros, jornais, revistas... Estava atrasado! Mal pôs os pés na rua foi logo de encontro a um jovem, que, com ar nervoso, se amparava à frontaria do prédio. Era um rapaz de pouco mais de vinte anos, t-shirt branca em V e calças verdes acastanhasdas, enfim, um não sei quê de negligência trabalhada. Procura alguma coisa?, perguntou-lhe o homem. Vinha tirar fotografias, estou à procura de um Estúdio, de um Laboratório de Imagem, respondeu o rapaz. Ah, meu caro, a única coisa com boa imagem aqui no prédio sou eu!, respondeu o homem, agressivo. O rapaz olhou-o: barba de três dias, pele gordurosa, ténis desapertados, calções a berrarem à t-shirt, papelada a espreitar por tudo quanto era lado... E lá ficou o rapaz ainda mais confuso: talvez o homem fosse um louco em fase de reabilitação?, deve ter pensado.  Olhe, tenho de tomar já já uma bica, disse o homem enquanto entrava no café. O rapaz segui-o: é que o meu GPS diz que o Estúdio é aqui. A mulher do café apanhou ainda a parte final da conversa e decidiu avançar: ah, ainda bem que encontrou o sotôr, ele ajuda-o já! O rapaz estava cada vez mais baralhado, começou a ver as lombadas dos livros, mexeu nas revistas e decidiu ser preciso: deu o nome da rua, o número... Ah, meu caro - disse o homem - deite o GPS fora, isso é quase no outro extremo da cidade, por acaso até vou para lá. Olhe, está a ver - disse a mulher - o sotôr até lhe pode dar uma boleia! O rapaz ficou nervoso, assustado mesmo. O homem, indiferente, começou a tomar o seu cafézito expresso das dez e pouco. O dono do café, não satisfeito com a confusão, atirou outra acha para a fogueira: aceite a boleia do sotôr, aceite, olhe o último que aceitou uma boleia dele nunca mais apareceu! O homem, que estava a beber o café, não se conteve: deu uma gargalhada de tal modo que o café até lhe saiu pelo nariz. E foi mais ou menos aqui que o rapaz percebeu que tudo era um jogo, que estava em pleno centro de uma peça de teatro. Ó senhor Pedro, disse o homem, não diga isso... aqui o jovem já me deve ter por antipático e arrogante e depois do que está a dizer... O rapaz interrompeu abruptamente o homem: por acaso até aceito a boleia, eu até estou atrasado! Olhe, depois não diga que não o avisei, insistiu o dono do café a rir. Rimo-nos todos. Não repare no carro, disse eu enquanto caminhavamos, não é lavado há três milénios. Quando atirei a livralhada e os papéis para o banco de trás, o rapaz atirou-me ele também mas com a pergunta sacramental: o que é que faz? Eis-me apanhado!: escrevo umas coisitas... aí para uns jornais. É jornalista? Insistiu ele. Sim, menti. O telemóvel dele tocou e eu ouço-o: sim, já sei onde é, um senhor ensinou-me, dentro de vinte minutos estou aí... O rapaz entrou no carro. Quando me chamam senhor sinto sempre que tenho trezentos anos, esclareço-o. Era a minha mãe, que queria você que eu lhe dissesse? Ok, ok, tudo bem!, rematei. A propósito: qual é o seu nome? Insistiu ele. Estou feito!, pensei. Dei-lhe o meu primeiro nome, mas ele não se deu por vencido! Olhe eu vou tirar fotos, chamo-me X. e estou na Companhia de Dança Y, vá, agora é a sua vez. Tentei ainda iludir a resposta: falei-lhe do tempo em que tinha pachorra para assisitir a tudo o que era estreia: Teatro Camões, Teatro Nacional, S. Carlos, etc. O Victor foi amigo da A.? Perguntou-me ele com os olhos esbugalhados. Fui não, sou!, mas ela aposentou-se... aquilo era uma miséria, nem dinheiro havia para as sapatilhas. E calei-me. Hum, você está a mentir-me!, rosnou ele, qual é o resto do seu nome... vá, diga! E sabe porque é que eu sei que está a mentir, é que eu já li coisas suas...Você mentiu-me e eu não menti! Pronto, fui apanhado - encenei um sorriso - qual é a pena? A pena é... é... - e fingiu indecisão - já sei, a pena é ir assistir à minha estreia. Se tiver tempo, tento fugir eu. Se não tiver, vai ter de arranjar, não se esqueça que eu agora sou amigo dos donos do café. Mas... temos pressão? Sim, temos... ah, e não me deixe à porta do Estúdio, não quero que me vejam! Adoro histórias de espiões! remato, cínico. Estaciono ao fundo da rua. Um silêncio enorme. Já não me está a apetecer ir para a sessão de fotografias... e se eu não fosse? Vá, vá-se lá embora, vá-se embora que eu também estou atrasado. Já cá fora, e pela janela do carro, o rapaz estendeu qualquer coisa ao homem... eu não consegui ver bem o que era, mas ainda o ouvi dizer: a propósito, quando estava a arrumar os livros no banco lá atrás deixou cair isto. E o rapaz estendeu qualquer coisa ao homem. Empertiguei-me para ver o que seria, mas, confesso, não percebi bem, suspeito que era um papel com um número de  telemóvel. Suspeito não, tenho a certeza! Essas coisas percebem-se pela forma como os carros recomeçam a andar.
 
V.O.M.
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28/04/13

Da vida, da poesia e de todas as coisas...


                                   Uma alegoria ao correr da pena…

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    Quando eu era menino, acedíamos à quinta de duas formas: por uma porta que um tio-avô mandara fazer nas traseiras de sua casa ou por um portão que a caseira, morando no outro extremo das habitações, tinha no seu quintal. Geralmente, eu e os meus primos escolhíamos a primeira alternativa. Certo dia, contudo, a minha avó, por uma questão de colheitas e de dinheiros, incompatibilizou-se com o irmão: mandou fechar o extenso corredor que ligava as duas casas, deitou abaixo uma das paredes traseiras e, uma vez com acesso directo à quinta, ordenou que se fechasse o poço a cadeado. Os meus pais ainda a tentaram persuadir com o célebre argumento de que água não se nega a ninguém, ao que ela respondia, célere e inflexível: Nem a honra, nem a dignidade! Minha avó nunca mais falou ao irmão, considerando sempre que aquilo que os distinguia jamais poderia ser colmatado por quaisquer tipos de elos ou afinidades. Eu e os meus primos passámos a ter dificuldades acrescidas nos nossos jogos e brincadeiras, já que o meu tio-avó, por vezes, vingava-se em mim e nos netos: Eles hoje não saem; Eles hoje têm de estudar, etc. No entanto, quando nos encontrávamos todos era uma festa: os mais velhos subiam às árvores à cata de ninhos, as raparigas preferiam as cavalariças e o picadeiro, um ou outro corria atrás dos gansos (imagem que mais tarde me daria um certo jeito para um poema da Antologia da Hariemuj!) de vergasta em punho, quanto a mim – e excluindo o descarregar dos porcos, com os seus guinchos aflitivos, de que nunca gostei – ia para um lado qualquer dos que eles escolhessem. Mas – e para confessar – aquilo que mais me seduzia era ficar a observar o enorme galinheiro: era um enorme edifico que os meus bisavós tinham mandado fazer entre três pilares que haviam pertencido a um moinho de vento… eu ficava fascinado a observar a ordem que naquilo tudo havia: as diversas capoeiras estavam unidas entre si por estreitas passagens, todavia, as galinhas jamais trocavam de divisória e quando Adelaide (a única mulher que até hoje vi de pera e bigode e a única empregada de que eu fugia sempre sete a pés!) vinha com as sêmeas, o milho ou as hortaliças, a aproximação ao comedouro era uma autêntica cerimónia de poder e de submissão: elos de vassalagem, medos, rituais de sedução levados a cabo por alguma ave infortunada visando conseguir algo -- Deuses, como a minha observação infantil do galinheiro me viria a ser útil vida afora, quantas e quantas vezes a reencontrei sob disfarces múltiplos e camuflagens torpes! Mas – e deixem-me confessar – daquilo que eu gostava mesmo, nessa altura e durante essas observações, era das minúsculas galinhas da India: indiferentes às regras das grandes, saltavam de divisória em divisória, comiam e dormiam onde lhes apetecia e ao pé de quem lhes apetecia, era como se fossem aves de outro mundo, de um mundo paralelo que escapava à normalização vigente do galinheiro uniformizado em função de regras e submissões… As galinhas da India, naquela sociedade perfeitamente hierarquizada, poedeiras de ovos desprezíveis, com a sua figura e cantar frágeis, não serviam naquela quinta para absolutamente nada… para nada é como quem diz: a mim serviram-me para apurar o ver, para me ensinar a afastar de aparências e fraudes, para evitar os caminhos demasiado tortuosos e investir, apenas, naquilo que a mim se possa dar -- em autenticidade e com rasgos de absoluto. V.O.M. (Lx, 24/4/2013, 22h09)
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10/02/13

Relato...

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                                           “ Eneias e o Anjinho”

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Monsieur entrou ofegante: mochila logo à porta da sala, o blusão atirado para cima dum  sofá.
Vai sair os verbos e as funções sintácticas!, disse. O.K!, puxa então a tua mesa para ao pé da minha! Veio a mesa, veio a mochila vomitando compêndios, folhas A4, um estojo… Dá cá o livro para eu escolher um texto. Ele deu. Eu escolhi. Começámos ambos à cata de verbos que ele ia cantando nos mais diversos tempos, modos e pessoas. Quando dei por encerrada aquela parte da aula, eis que ouço: não me perguntaste o mais que perfeito do conjuntivo! E zás, varreu-se-me tudo: nem perfeito, nem conjuntivo, nem nada… E quanto eu mais procurava, mais se adensava a branca. Eh, não sabes o mais que perfeito do conjuntivo!, exclama o anjinho. Tá calado, rapaz, não vez que estou cansado! Não sabes, não sabes: é aquele que tem o “tivesse”, que vimos no outro dia. Há um a zero, pensei eu! Acabou!, pus eu aquela cara agressiva que, às vezes, lá consegue ir convencendo. Agora vamos às orações!, decreta Monsieur. Eu arrumo as gramáticas, as notas, as brancas… Ai queres orações?, então começa já a dizer o Pai-Nosso!, finjo-me eu zangado. Eh, é orações, mas não é dessas… E lá fomos em busca das orações perdidas. Era um texto que falava de pescadores, de tubarões e de todo o tipo de actividades marítimas. De repente surge-me algo do estilo: “(…) e tinham-nos trazido estendidos sobre tábuas estreias”. Sujeito?, pergunto. Não tem! Não tem?! Espera, espera… Torce-se na cadeira, sua, debruça-se sobre a página: tem, tem… Tem?! Sim, está subentendido! Em que é que ficamos é inexistente ou está subentendido? Eh, pá, já te disse: tá subentendido! Depois, nova luta por causa do “nos”… Enorme discussão para o convencer que o “nos” não se referia a “nós” mas aos tubarões, logo não podia ser complemento directo… Finalmente acabou o primeiro round com um a zero.
No dia seguinte Monsieur delimita logo as tarefas: temos de ver Os Lusíadas, porque também vai sair. Lusíadas às 17h depois de um dia inteiro de volta do Realismo francês era tarefa de leão, mesmo assim aceitei. Sabias, pergunta-me ele com ar erudito, que o Camões não começa a contar logo do princípio, ele começa a meio, na ilha de Moçambique, sabias? Respondo: não, não sabia, por isso é que tu estás aqui pra me explicar! Não o deixo ir para a ilha de Moçambique sem primeiro atacarmos a Proposição, a Invocação e a Dedicatória. Ele começa a ler… Pára aí! Olha-me: que foi? É que eu quero saber se estás a ler Os Lusíadas ou a fazer um relato de futebol. Ri. Retoma a leitura. Pára aí! Olha-me de novo: que foi agora?Agora?!, agora não estás a fazer um relato de futebol, mas deves estar a ler um mail… isso não tem ritmo, entoação, pontuação? Eh, pá, és um chato! E lá atacamos as estrofes que eu pretendia. O anjinho sabia tudo: o Trajano, as Tágides, o engenho, as rimas, todos os tipos de estrofes dos dísticos às oitavas, mas… eis que cavei a minha perda: “cessem do sábio Grego e do Troiano”, falei-lhe de Homero, fui à estante buscar a Ilíada e a Odisseia e fiz-lhe – passe a redundância!- duas breve sínteses, mas quando cheguei ao Troiano veio de novo a branca… Branca-branca que só me conseguia lembrar do Príamo, do Paris, do Heitor, mas não era nenhum desses. Então oiço: eh, não sabes quem é o Troiano! Eu penso: “prontus”, dois a zero! O anjinho ergue a cabeça para me explicar: o Camões está a falar de Eneias, é que ele foi influenciado por Virgílio, pela Eneida… Eh, não sabias! De um jacto levanto-me, vou à estante e tiro o “Obras de Virgílio”, na tradução do Agostinho da Silva, e mostro-lhe a Eneida toda sublinhada. Não me interessa, insiste o anjinho, não foste tu que sublinhaste… não sabias quem era Eneias. E ria, ria… Eu também ria, mas para dentro, a fingir-me zangado…
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25/01/13

Apresentação de livro...

 
 
(Apresentação do romance "Ficar" de Pompeu Miguel Martins na "Livª Pó dos Livros" no dia 25/1 )
 
 
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            Classicismo e Modernidade na Obra de Pompeu Miguel Martins

      O novo livro de Pompeu Miguel Martins, Ficar, apresenta-se-nos sob a forma de uma narrativa que se vai desenvolvendo ao longo de 36 capítulos, contudo, estes capítulos não se nos dão através de uma qualquer linearidade narrativa, mas antes por um encadeamento tecido de acordo com a idade do narrador, este – autodiegético e omnisciente -, vai, assim, expondo os vários episódios da intriga de acordo com três categorias cronológicas distintas: a infância, a juventude e o fim da idade adulta início da velhice. A esta cisão da voz do narrador acrescentar-se-ão outras características ao nível das categorias da narrativa, que afastarão definitivamente o romance da Pompeu Miguel Martins das concepções romanescas que permaneceram sobretudo até à década de 50, isto é, da clássica concepção de romance que vigorou de Eça e Camilo até Carlos de Oliveira (os primeiros romances) e Ferreira de Castro: uma concepção linear da narrativa onde o tempo cronológico correspondia ao tempo do discurso, ao tempo por que se apresentavam os vários acontecimentos. Será, por conseguinte, a partir dos anos 50 que, sobretudo Agustina Bessa-Luís (Sibila, 1954) e Vergílio Ferreira (Aparição, 1959) - mas também Fernanda Botelho e Augusto Abelaira com os seus primeiros romances -, “incendeiam o romance português de perspectivismos narrativos, espaciais e temporais.” ( In Miguel Real, “O Romance Português Contemporâneo: 1950 – 2010”, p 84). Vemos, pois, que esta obra de Pompeu Miguel Martins, e neste aspecto, se integra antes nesta segunda opção estilística e não na primeira mais própria dos romances ligados ao neo-realismo e ao presencismo. Outros elementos de Ficar podem ainda ser acrescentados: um, se o narratário da estória é predominantemente extradiegético, não deixa de ser interessante, que, por vezes, o narrador mude o rumo do seu dizer e se vire para um destinatário que faz parte integrante da narrativa:

“ Como é belo, Magda, um coração que palpita na ignorância do tempo. Quanto tempo bateu o teu coração assim? Quantas vezes foste o que não soubeste? Quantas vezes foste apenas o que sentiste? E era assim Portugal, o nosso tão íntimo Portugal, meu amor (…) um país que mais ninguém soube senão nós. Lembras-te, Magda?” ( In “Ficar”, p 84);

dois, a modernidade desta obra, e no que diz respeito à fragmentação do próprio texto, é ainda corroborada pelo facto do narrador chamar a si o género e o subgénero literário que melhor se adapta ao momento da enunciação, assim, vemo-lo saltar de um registo onde sobressai o ingénuo e o infantil ( cf. capítulos ligados à infância):

“ Há meses que o Lininho deixou de falar da mãe. Há meses que deixei de lhe falar da nossa mãe para que ele não fique triste. Se ele voltar a falar, eu falo. Caso contrário, não tocarei tão cedo nesse assunto. Tenho medo de o ver chorar. (In “Ficar”, p 96)

 para outro mais emotivo e engajado (cf. capítulos da juventude) ou ainda para um registo vernacular e erudito (cf. capítulos do envelhecimento):

“ As leituras têm inúmeras cadências. Todas elas vocacionadas para que mudemos o nosso mundo. As leituras de fuga, carregadas de fúria, onde soubemos erguer a juventude e as suas contradições (…) As leituras de infância, tão lentas, tão longas, ainda que de histórias brevíssimas, a explicar-nos tão claramente (…) que a única coisa objectiva é a subjectividade que cada coisa encerra em si mesma, que cada fantasia tem sempre uma feroz correspondência ao mais imanente objecto, à mais tangível e terrena situação. “ (In “Ficar”, p 77)

vemos igualmente o narrador passar, por vezes, e de acordo com as exigências da narração, do romance-ensaio – a fazer-nos lembrar, em certos momentos, algumas das obras de Vergílio Ferreira, aliás, e a título de curiosidade, seria interessante inventariar no livro de Pompeu Miguel Martins a expressão “para sempre” (pp 33, 67, 73, 90 etc.), no que nos pareceu ser uma homenagem àquele existencialista – para uma escrita assumidamente realista e lírica. Mas em Ficar podemos ainda encontrar o epistolar (pp 65-66 e p 67), assim como o poético ( exº: o último parágrafo da página 42 é nitidamente poesia escrita em prosa!). Paralelamente a tudo o que temos vindo a dizer, e que integra o romance de Pompeu Miguel Martins no seio de uma escrita contemporânea, ocorre um assumidamente clássico manipular do léxico e da gramática, facto – aliás – que pode ser encontrado em alguns dos nossos grandes prosadores atuais: escutemos  Miguel Real falando de Gonçalo M. Tavares: “ Se, perturbando o leitor, a apresentação estilística das ideias, nos livros de prosa Gonçalo M. Tavares, é nova e a sua manipulação fundamentada na evidenciação de uma lógica paradoxal, a gramática, essa, é a mais clássica – frase curta, componentes sintáticos no seu lugar, a tentativa bem-sucedida de fazer corresponder com clareza uma ideia a um parágrafo. Porém, como as ideias se torturam labirinticamente entre si, as frases ondeiam arrastando o leitor para uma contínua abertura ao espanto…” (In “ O Romance Português Contemporâneo: 1950-2010”, p 164).

Este classicismo de Pompeu Miguel Martins no que diz respeito à ordenação do sentido e do código acaba mesmo por ser ilustrado por uma cena em que o narrador se encontra em “St Germain a beber café com leite. A reler pela milésima vez a Marguerite “ ( cf. p 42), ora, se atendermos à data do episódio e ao facto de estarmos ante releituras, só se pode estar a falar da Yourcenar ou, quando muito, da Duras da primeira fase. Neste aspecto, portanto, Ficar demarca-se dos romances de carácter desconstrucionista, que nas décadas de 60 e 70 ganharam foros de cidadania: Maria Gabriela Llansol ( Os pregos na erva, 1962), Maria Velho da Costa (Maina Mendes, 1969), José Cardoso Pires (O Delfim, 1969), Nuno Bragança (A noite e o riso, 1969), Rui Nunes (Sauromaquia, 1974) e de novo Carlos de Oliveira (Finisterra, 1978) e Fernanda Botelho (Lourenço é nome de jogral, 1971). Se a Pompeu Miguel Martins, à imagem de muitos destes romances de 60/70, interessa mostrar a “desconstrução” das instituições políticas e sociais dominantes, os meios utilizados, no entanto, aproximam-no antes desse realismo que  vem dos anos 80 até aos nossos dias e que, por exemplo, o colocam junto de João de Melo (Gente feliz com lágrimas, 1988), João Aguiar (Navegador solitário, 1996) e Lídia Jorge (O vento assobiando nas gruas 2003 e Combateremos a sombra, 2007). Seria mesmo interessante uma análise intertextual de Ficar com os romances desconstrutivistas, bem como com estes dois de Lídia Jorge, veríamos que, ao contrario dos primeiros, a Pompeu Miguel Martins não interessa a autonomização absoluta da categoria do tempo em relação ao espaço e que, como em Lídia Jorge, as descrições, as reflexões e as especulações jamais perdem de vista a realidade concreta. Em Pompeu Miguel Martins as experiências com a linguagem apenas importam para uma intensificação da poeticidade de um excerto ou para a clarificação racional de uma qualquer especulação de cariz filosófico, jamais lhe interessa que o seu romance adquira uma autonomia semântica e sintática relativamente à realidade concreta que o narrador rememora ou vivencia. E é neste sentido que se enfatiza a já citada modernidade desta obra na qual se incrustam, de modo não determinante, os aspectos clássicos também aqui referidos. Ao falarmos de especulação e de clarificação racional ocorre-nos a veemente salvaguarda do primado do estético, enquanto território de universalidade, levada a cabo por Harold Bloom contra diversas correntes teóricas como o novo historicismo, o neomarxismo, o multiculturalismo, etc.: Bloom, ao fundamentar a centralidade de Shakespeare no cânone ocidental, e enquanto enumera variáveis e justificações de tal posição, refere que o dramaturgo inglês “ dá origem à descrição de mudança individual dos seres na base da escuta de si mesmos” (In “ O cânone ocidental “, p 60), e continua: “ A partir de Falstaff, Shakespeare acrescenta à função da escrita imaginativa, que era instrução do modo como se deve falar aos outros, aquela que é hoje a lição dominante (se bem que mais melancólica) da poesia: como se deve falar com nós mesmos. “ ( Idem, p 61). Ora, é exactamente tudo isto que gostaríamos de unificar: o romance Ficar de Pompeu Miguel Martins, apesar de incluir, não só toda a caracterização já referida, mas também os mais diversos monólogos de cariz político, ético, antropológico e metafísico, não se apresenta como um desarticulado teórico-narrativo, mas antes como uma unidade coerente e dotada de sentido a valorar, não numa perspectiva ideológica e/ou historicista – apesar das inúmeras descrições sócio-políticas -, mas exclusivamente através de uma grelha literária e estética e, nesse sentido – como Bloom diz de Shakepeare –, é uma belíssima lição sobre a escuta e o estar-aqui dada por um eu falando consigo mesmo:

“ Talvez um dia eu consiga olhar para as ruas da Vila e não me lembrar do que magoa. Só me magoa o que me falta. O que já tive e não tenho. Quando vou de casa para a escola, olho para o chão e vejo o que está diferente de um dia para o outro. As marcas, a sujidade, as folhas que caem das árvores, um pedaço de papel, uma corisca de tabaco. E, olhando as diferenças, penso nelas e nas histórias que lhes podem estar associadas (…). A vida diferente que cada um leva complica tudo. É como estar a jogar um jogo em que se tem de aprender novas regras a cada instante. O encontro das pessoas é um interminável e difícil jogo.” (In Ficar, p 86).

Apesar desta obra referir à saciedade o Tempo (significando-o inclusivamente com maiúscula), não nos pareceu ver nela, como objectivo primordial, um deambular em torno dessa entidade: aqui aborda-se fundamentalmente a partilha daquilo que no ser humano é íntimo. O tempo, enquanto categoria da narrativa, aparece fragmentado: o tempo histórico (Estado Novo e pós-25 de Abril); o tempo cronológico (infância, juventude, envelhecimento); o tempo do discurso (os acontecimentos não se apresentam de forma linear, mas segundo o esquema: A,B,C; A,B,C, etc.); o tempo psicológico jamais é experienciado pelo narrador de modo contínuo e raramente coincide com a acção, pelo que várias vezes ele recorre a: analepses, prolepses, resumos e elipses e, finalmente, o Tempo enquanto categoria ontológica não é mais do que o palco em que a partilha do “si-próprio” ocorre:

Tinha a certeza de que nos encontraríamos para sempre nesse lanche, ao longo de uma tarde de que jamais nos haveríamos de esquecer.” ( In Ficar, p 26)

Começarei por guardar a minha intimidade, sabendo que há-de ser a espécie mais ameaçada (…). Começarei pela intimidade porque aí guardo o maior segredo da minha existência: o de nunca abdicar do lado íntimo da cada coisa, por mais pequena que seja. Não acredito em coisas insignificantes. Tudo tem um significado…” ( Idem, p 27)

… a caminho e Monmartre dava azo à minha felicidade e garantia-lhes o quanto se gravam nos sítios as emoções que nos tornam únicos quando somos íntimos. “ (Idem, p 50)

Logo a partir das primeiras páginas deste livro Pompeu Miguel Martins estabelece uma distinção da qual nunca se afasta ao longo da obra: o que permanece, o que fica para sempre e, por outro lado, aquilo que passa, o efémero. E o que fica é essa partilha do mais íntimo de cada ser (daí ele dirigir-se frequentemente a Magda apesar da morte desta, dito de outro modo: o relacional permanece apesar da ausência física de um dos elementos da relação):

Era mesmo isto o que eu tinha para te dizer, Magda. O que eu tinha para nos dizer, neste tão difícil regresso a casa e às nossas coisas. O primeiro verbo que o Tempo pronuncia não é o verbo ser, é o verbo ficar. Nunca te esqueças, tudo o que vive, vive para ficar. E logo a seguir o Amor, Magda, logo a seguir.” (In Ficar, p 102)

Repare-se na imediata substituição do “te” pelo “nos” logo no início do excerto: a partilha amorosa (“Logo a seguir o Amor…”) deriva necessariamente dessa fusão do íntimo (te/nos), que, no entanto e paradoxalmente, nunca anula a individualidade – quando se comunga com o Outro, no Tempo, aquilo que é da ordem do essencial, tudo o que é diminuto e insignificante desaparece, e o que se alcança é da ordem do Eterno, nada já pode ameaçar a sua Presença, o seu FICAR.

 

                                                              VICTOR   OLIVEIRA   MATEUS

 


25/12/12

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                                 “ Nem sempre a cidade é triste “

 

 Nem sempre a cidade nos surge na sua multiplicidade de formas. Dias há em que parece apostada em oferecer-nos a sua face mais feia, a sua face mais horrivelmente cruel. Olhem, nem vos sei explicar! A única coisa que consigo é dizer-vos que, naquela manhã, não havia ponta a que me pudesse agarrar. Desci a rua de roldão e, mal cheguei ao Largo do Chiado, apenas queria uma mesa vaga na esplanada. O regateio com o alfarrabista deixara-me esgotada. Raio do homem! Anda uma pessoa dez anos à procura de um livro raro e depois de o encontrar ainda tem de travar uma batalha campal… Desculpa, interrompeu-me o Gonçalo, o homem teve razão, ele até te ofereceu o livro! Ah, se visses a cara de sonso dele, no final: ó professora, nós temos estado a discutir o preço da obra, não a venda, à senhora não o vendo, ofereço-o! Gonçalo ria. Agarrou-me pelos ombros: tenho uma mãe que detesta perder torneios. Larga-me! Tomás olhava-nos com aquele seu olhar liquefeito, olhar de cão abandonado, de quem traz em si todos os rasgões do mundo…

( Hum, já me esquecia de falar no Tomás! Veio aqui para casa quando o Gonçalo andou com a irmã, depois tem se deixado ficar: paga as despesas como um hóspede e partilha das vidas como um íntimo…)

Depois, ainda afogueada, sentei-me a ver a cidade a desdobrar o seu espaço, as suas personagens. Ironia cínica, rosnou Gonçalo. Não sei o que era, mas dava-me prazer. Primeiro foi um casal jovem: mochilas enodoadas, alpercatas cambadas, cabelos desgrenhados, enfim, uma tentativa de imitação das classes baixas, mas logo traída pelo olhar altaneiro, pelos queixos levantados. Bem, a minha senhora mãe hoje está cheia de azedume, disse o Gonçalo, vou-me deitar.

(Tomás não parava de me olhar. Não que o assunto parecesse interessar-lhe, todavia, esfíngico, tentava captar todos os modos do dizer.)

   Espera. Falta ainda o episódio do bardo. Do bardo?! Sim, é que no murete do metro havia um friso de tal modo diversificado… fixei-me num rapaz que durante mais de meia hora dedilhava uma viola e mirava um caderno sebento, pois ali esteve ele, aquele tempo todo, numa infindável lengalenga e sem virar a página. Era um poema curto mas profundo, voltou Gonçalo a sentar-se. Olhem, o que é um facto é que o rapaz sabia um ror de línguas e veio depois percorrer a esplanada, de mão estendida. A mim pediu-me em inglês, não lhe respondi, depois insistiu em italiano, como eu continuasse a não lhe responder, resolveu ficar especado na minha frente, a medir forças com o olhar, então achei por bem dizer-lhe em latim que não o entendia. Gonçalo engasgou-se com a cerveja: não é possível, tiveste coragem de te pores a falar em latim com ele?! O rosto de Tomás iluminou-se, os seus olhos eram agora dois sóis a brilhar por detrás das lentes arredondadas, a sua boca parecia querer esboçar dois traços, que, a medo, avançavam a tactear esse silêncio que tão bem o caracterizava. Não sejas precipitado, recomecei eu, ele até acabou por se sentar à minha mesa e… Gonçalo voltou a levantar-se: eis o clímax; a minha mãe e o cavaleiro andante!, agora é que me vou mesmo deitar. És um parvo, admoestei-o eu, para vocês homens estas coisas acabam sempre da mesma maneira, são mesmo primários, ainda pensei que fosses um bocado diferente, mas afinal: gabarolices e ruminações do não feito é o vosso lema, além disso, o rapaz tinha metade da minha idade.

( Hoje sei – porque ele me viria a dizer – que foi esta a passagem que fez Tomás decidir-se pela sua partida no dia seguinte.)

   E depois?! Depois nada, estás a imaginar-me ao lado de alguém com metade da minha idade? Vocês analisam sempre tudo do lado do homem, dando uma imagem repulsiva da mulher mais velha: a flacidez, a menor resistência ao esforço, etc., mas alguma vez nos perguntaram algo sobre o assunto? Se nos interessava tocar uma pele cheirando a talco e cueiros? És horrível!, resmungou Gonçalo. Horrível não, estas coisas têm sempre duas versões: se vocês achincalham as estrias por que não haveremos nós de fugir do acne? Abandonaram os dois a sala, precipitadamente. Estava eu ajeitando as latas vazias da cerveja, os cinzeiros sujos, quando Gonçalo regressou: foste de uma enorme crueldade. Eu?! Sim tu! Sempre tão centrada nos livros e afinal não vês o que está debaixo do teu nariz, por que pensas que o Tomás anda aqui às voltas em casa? Agarrei-me a uma das estantes, siderada. O quê, não te achas uma mulher interessante que possa atrair alguém também especial como o Tomás?! Eu não sabia o que pensar. Tudo se abatera sobre mim de um jacto. Acho bem que te reabilites, rematou Gonçalo, furioso, ele está a arranjar as coisas para se ir embora amanhã. Tantas teorias e afinal… Por favor, peço-te, deixa-me sozinha!

   Uma hora depois bati-lhe à porta do quarto. A luz estava ainda acesa, passava das duas da manhã: mas… está a arrumar as malas?, avancei eu, falsamente ingénua, aconteceu alguma coisa? Tomás, hirto, com um pólo na mão: acho que devo ir, respondeu com voz sumida, quase um sussurro. Mas não pode ir agora, Tomás! Não posso?! Não… eu vinha precisamente convidá-lo para vir uma semana para a casa de Aveiro; o Gonçalo vai começar com as frequências e nós íamos para lá. Silêncio. Tomás a compreender o que ambos já tínhamos compreendido. Acha que devo ir?, perguntou triste, titubeante. Tem de vir! E agarrei-lhe o braço. Diga que sim, insisti. E os seus olhos foram de novo dois sóis por detrás das lentes, as suas palavras – sempre tão comedidas – foram ainda mais serenas: partimos a que horas? E sorrimos, cúmplices.
 
 Mateus, Victor Oliveira. Nem sempre a cidade é triste In "Letras com vida: Literatura, Cultura e Arte" Nº 4, 2º semestre 2011, Centro de Litªs. e Cultªs. Lusófonas e Europeias da Fac. de Letras da Univ. de Lisboa, pp 141 - 142.
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24/12/12

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                      "  O  Joelho  de  Colbert  "


     Não devia ter combinado aqui. Neste espaço, onde as dimensões do tempo se misturam e a beleza irrompe como corola abruptamente fendida pelos socalcos de uma cidade que desce até ao rio. Não, não devia ter combinado aqui, neste local tão firmado nos mais ousados afetos, sempre à mistura com uma memória inapagável, voraz, e que em tortura me corrói os dias. Talvez pudesse ter optado por um outro lugar. Quem sabe, por uma das esplanadas lá de baixo, sempre repletas de veraneantes, onde o cheiro do peixe se nos entranha no corpo, ou por uma das vielas dos bairros antigos de pescadores, muitos vivendo ainda nas mais precárias condições.
     Mas aqui, neste Forte de S. Filipe, consigo uma lucidez bem difícil de encontrar no turbilhão da cidade. A proximidade dos objetos, a falta de perspetiva, turva-nos sempre o olhar e a correta avaliação do que nos cerca. Hoje, deste terraço, a foz do Sado aparece-me com o encanto que teve naquele primeiro dia. Até os golfinhos, fingindo cumprir um qualquer aprazado ritual, saltam divididos entre o azul das águas e a luminescência dos reflexos por elas devolvidos. Dois overcrafts fazem a ponte com a península de Tróia, em frente. Por baixo do sítio onde me encontro, alguns caiaques entregam-se ao fascínio de juvenis acrobacias. Duas traineiras entram na barra acompanhadas pelo grasnar ávido das gaivotas. Ouve-se uma sirene.
     Acabo sempre por regressar a este local. Trago um livro, uma revista, ou o portátil, e por aqui me deixo ficar, trabalhando, reflectindo, ou, tão-só como hoje, deixando-me aconchegar por tudo o que me envolve, exactamente como no primeiro dia, quando observava a enseada da outra margem, vendo uns minúsculos pontos negros à beira da água - talvez trabalhadores na apanha de bivalves ou turistas dirigindo-se para as antigas ruínas romanas. Neste abandono de mim, sou surpreendido por uma voz infantil que me pergunta o que estou a fazer. Olhei para o lado e vi um miúdo com cerca de três anos, bermudas verdes às ramagens, boné com pala virada para trás. O que estou aqui a fazer? Boa pergunta. Não há como as crianças para, na sua simplicidade, nos alertarem para a nossa condição de viventes tantas vezes à deriva! O meu silêncio forçou-o a insistir. A voz de um homem repreeendeu-o, perguntando-me, depois, se ele me estava a incomodar. Não lhe respondi. Levantei  a mão, encostando-a ao rosto do miúdo, que, acalmado, semicerrou os olhos. O homem, surpreendido, disse não ser habitual o filho serenar com tanta facilidade. Uma música roufenha vinha do interior da pousada. Ouviu-se de novo o som da sirene. Uma das traineiras começou obliquando na direção do porto, onde outrora laboraram as fábricas de conserva. O homem sentou-se à minha mesa e apresentou-se:
- Fernando Colbert. - Estendeu-me a mão. Sorri.
- Como o Ministro das Finanças do Rei-Sol? - Perguntei. Ao que ele respondeu não ser nem rei, nem sol, nem nada. E começou confiadamente a desfiar as suas recentes vicissitudes: o divórcio, o poder paternal partilhado, a solidão...
     O empregado trouxe o café e, num gesto inesperado, o miúdo tocou-lhe no braço fazendo derramar o líquido pela mesa. Todas as minhas folhas A4 completamente perdidas e uma gota a cair exactamente no joelho de Colbert, que, levantando-se de um jacto, conseguiu evitar desastre maior.
     A este primeiro dia outros se seguiram: a troca de experiências, a visão do mundo, os projetos, ora expostos com fulgor, ora desvelados com alguma suspeita.
     A aproximação entre os seres surge umas vezes de aspetos convergentes, mas outras por tácitas cumplicidades, que no quotidiano se vão inscrevendo aos poucos e sem planos preestabelecidos.
     Disso dá testemunho este novo encontro:
- Lembra-se da nódoa no joelho? - Perguntei com ironia. Colbert olhou-me significativamente e sorriu.
- Em mim não há lugar para a nódoa. - Respondeu.
     A comunhão selou-se.
     Vendo bem, fez sentido ter combinado aqui. Local do primeiro dia. E o rio cintilou, dotado de alma, como se nessa transfiguração quisesse revelar tudo aquilo que os homens insistiam em ocultar.
 
  Mateus, Victor Oliveira. O Joelho de Colbert In " Um Rio de Contos: Antologia Luso-Brasileira ". Dafundo: Editorial Tágide, 2009, pp 236 - 237 ( Organização de Celina Veiga de Oliveira e de Victor Oliveira Mateus).
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