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12/12/12

Acerca do último livro de Nuno Dempster.


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  O livro de contos recém-publicado da autoria de Nuno Dempster apresenta-se-nos como um conjunto de narrativas todas elas integradas no cânone literário do realismo e aqui surge-nos uma característica deste livro que me parece interessante referir: o autor, sem recorrer a técnica alguma de encaixe, e sem se afastar desse cunho do concreto que pretende para os seus contos, acena-nos, por vezes, com características e técnicas daquilo, que, para alguns teóricos, não chega a formar géneros literários específicos, assim, encontramos tonalidades da escrita gótica em “A chaise longue”; da ficção policial – sobretudo o mistério, a estranheza e a actuação do protagonista tão avessa à razão natural - em “Jack”; da narrativa histórica em “Vénus”. Contudo, esta deriva do autor, aparentemente aleatória, não é utilizada para dar foros de cidadania a quaisquer dos movimentos referidos, mas apenas para enfatizar uma realidade que se pretende actual e concreta. Mas Nuno Dempster não se limita a circundar as suas opções estilísticas com acenos de uma ou outra escola, de um outro movimento, ele considera o realismo, em algumas das suas várias facetas, em cada um dos seus contos, no entanto, convenhamos, essa mesma consideração não é exclusiva mas tão-só predominante, pois na trama narrativa todas se encontram interligadas. Por conseguinte, podemos encontrar um realismo de cariz sociocultural em “O papel de prata”, de tipo subjectivo em “Meia dúzia de sardinhas” e até mesmo sociopolítico em “ A bilha de água”.

  O facto de Nuno Dempster recorrer, nos seus contos, a um narrador não-participante (com excepção de “Uma aula de inglês”), a personagens redondas e a uma quase constante coincidência do tempo cronológico com o tempo do discurso, não só dota a sequencialidade narrativa de uma extrema limpidez, mas também funciona de forma eficaz como estratégia de captação do leitor para a estória de que ele passará também a fazer parte. Ainda relativamente às personagens parece-me importante ressalvar a sua bem conseguida caracterização psicológica, social e cultural, aliás, nem sempre feita de modo directo, e urge ainda acentuar o modo criterioso como todas elas são colocadas, pelo narrador, no conjunto dos acontecimentos – tomemos como exemplo o primeiro conto, “O papel de prata”: a estória decorre em torno do protagonista (Horácio), cuja caracterização – complexa – psicológica e social nos vai sendo dada no decorrer da acção, todavia, apesar do desenrolar desta ser linear (com excepção de “O reflexo” as analepses e as prolepses são banidas da narrativa dempsteriana!) e do espaço ser quase sempre fechado e privado, a acção desenvolve-se pela sedução de um ritmo ao qual o leitor não consegue ficar indiferente, e contribuindo também para esse prendimento o exímio manejar de outras categorias da narrativa, neste caso concreto as personagens secundárias ( Marta, a tia e Hermínio ) e os figurantes (os pais de Horácio). Tal minúcia narrativa pode ser detectada em qualquer um dos outros contos desta colectânea, veja-se, por exemplo, “Swing” em que bastaria a supressão de um mero figurante (neste caso Márcia Medeiros, a professora de matemática) para que todo o conto se esboroasse ou adquirisse um trajecto completamente distinto.

  O livro “O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio” da autoria de Nuno Dempster e recentemente publicado pela “Companhia das Ilhas” foi, portanto, e pelos motivos apontados, uma obra que li com muito interesse e agrado.

 

 

                                                                                           VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS

12/09/12


   A poesia de Maria João Cantinho instaura-se nesse solo onde a memória e a procura se interpenetram e entre si dialogam, visando esse outro território  onde a alma nos possa sobejar nesta passagem que somos, e onde o olhar, límpido e de autenticidade cheio, se apreenda como uma outra linguagem a escrever-se no silêncio.
  A simultaneidade com que o resplendor e o justo equilíbrio deste processo metafórico se vai edificando – e onde podemos encontrar aspetos da memória cultural (os anjos de Chagall…), das inquietações metafísicas ( como tudo é sagrado e se renova…) e das partilhas afetivo-passionais  - faz-nos intuir que a poesia de Maria João Cantinho transporta no seu seio uma intenção abrangente, derradeira e marcada por um certa visão esperançosa do real, isto é, que a casa do humano possa ainda vir a recuperar vida por entre os escombros da memória.

                                                                  Victor  Oliveira  Mateus   
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14/05/12

Apresentação...

( Texto de apresentação do livro "Obra ao Rubro" de António Gil. Lido no dia 12 de maio no Auditório do Campo Grande, 56.)

Obra ao Rubro, de António Gil, numa primeira aproximação, alerta-nos para a especificidade do seu próprio título. Plurisignificativo, ele contém em si uma dedicatória a um dado processo ígneo e incandescente, mas também uma oferenda e um tributo a um caminho no desvelamento de algo. Parece-me, pois, podermos estabelecer uma contraposição entre o livro de que nos ocupamos aqui e a célebre Obra ao Negro de Marguerite Yourcenar. Assim, se esta última mostra (e denuncia) um estar-aqui marcado pelo obscurantismo e pela negritude, em Obra ao Rubro é outro o itinerário que se pretende traçar.
António Gil, num texto preambular ao nó central da obra, traça um paralelísmo entre um processo organizativo alquímico-fisicista:

" Matérias primordiais, a inconjunta mole dos tecidos minerais (...) num cadinho de sais reagente..." (p 7)

com um outro que mais não é do que a própria experiência poética:

"(...) o poema e sua gema em conjunto, escolhem indigentes seu caminho, seu tempo, seus referentes, seu assunto..." (p 7)

Na terceira secção deste primeiro texto o poeta mapeia o que irá ser o solo fundamental (e fundante) deste seu livro ao falar do que se ergue das "trevas da matéria", isto é, dos "ribeiros de luz, regatos de fascínio, cascata de deslumbre", que são voz que circum-navega o eu-poético. António Gil, nesta minha leitura, pretende encaminhar-nos para um périplo simultaneamente poético-existencial, cosmológico e metapoético. Périplo este que ele cinde em cinco estádios - de que mais à frente falaremos -: Magmas, Irrupções, Aras, Fluxos, Auras.
Dos vários procedimentos estilísticos utilizados pelo poeta, podemos já referir um que surge como liame encaminhador de estádio para estádio: após discorrer, poeticamente, sobre cada uma destas etapas, António Gil vai lançando expressões e imagens que permitem a transposição para a temática seguinte sem que tal se faça com hiatos ou passagens abruptas. Estamos, por conseguinte, ante um livro de poesia que, sem pôr em causa a autonomia de cada poema, finca como cunho último a organicidade do todo. E chamo-lhe livro de poesia porque a sua não homogeneidade formal ( veja-se logo os primeiros textos: uma quadra, dois textos aparentemente prosaicos, um poema formado por dois tercetos...) jamais põe em causa a poeticidade da obra, bem como o solo matricial do qual ela irrompe e que a torna una e estruturada. Relativamente a esses textos que não assumem a forma (tradicional) de poema, direi tão-só que pode existir poesia sem que haja verso (vejam-se obras de Rimbaud, Christian Bobin, André Velter, Bernard Noel...), mas também podem existir outras, que, apesar de serem em verso, não o são de poesia, atenda-se, por exemplo, a Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares. Portanto, e superado este aparente obstáculo, penso que Obra ao Rubro é um livro todo ele enformado por textos poéticos, mesmo consderando os que se inscrevem numa linearidade e narratividade com configuração de prosa, estes, por sua vez, apresentam-se como fragmentos de discurso trespassados por ritmo e compasso, que, regra geral, são enfatizados por dados esquemas rimáticos e por recorrentes figuras de estilo, que lhes vincam uma musicalidade bem próxima da existente nas estrofes tradicionais

Exemplo 1 ( texto de Magmas, p 16, a partir da 6ª linha ):
"(...) no céu frio petrifica, alta vaga marítima que avança, de fogo a ponta de sua lança (...) então falo e sinto que para dentro grito..."

Vemos aqui elementos cujo uso tem por fim a assunção do poético pelo fragmento, elementos como:
. o predomínio de uma pontuação prosódica
. rimas internas (fugindo, contudo, à definição estatuida deste conceito!) de carácter soante ou consonante: lança/ balança; rebate/ bate; relance/ lance; calo/ falo...

Exemplo 2 (texto de Irrupções, p 39, da 1ª à 9ª linha):
" É verdade que desenraizado andei de cidade em cidade (...) o desfalecido traço não avivo nem refaço."

Também neste excerto podem ser detetados diversos procedimentos que inserem toda esta produção textual na área da poesia. Eis, por exemplo, as mesmas rimas internas soantes, ou consoantes ( aliás, António Gil raramente utiliza rimas toantes): verdade/ cidade; balsa/ valsa; falso/ valso, etc.
Para além destes dois exemplos à guisa de breve fundamentação do carácter rítmico-poético deste livro de António Gil e, especificamente, deste tipo de textos, encontramos ainda outros procedimentos estilísticos que sedimentam (e ajudam a caracterizar) esta escrita:

Exemplo 3 ( texto de Irrupções, p 30):
" O solo em fuga decolando das minhas solas decoladas, o cabelo despenteando o vento (...) por força da sugestão e da palavra, acima, bem acima, muito acima...

Apenas alguns recursos estilísticos para reforçar a tese da riqueza desta tecedura poética:
. prosopopéias: "o solo em fuga"... esta figura aparece também noutros textos: "a fome das águas" (p 22)
. comparações: " os braços adejando como flâmulas"
. repetições intensificadores (gradações): " acima, bem acima, muito acima..."
. metáforas: "esta ave de rapina que já então no pulso me saía "

Finalmente o Exemplo 4 (texto da secção Irrupções, p 27):

Neste caso temos um poema constituído por quatro estrofes (quadras) que se apresenta:
. com rima externa interpolada ( António Gil nunca usa a rima emparelhada nem a alternada) e, de novo, a predominância das rimas soantes
. um deliberado desrespeito pela métrica do verso
. certos procedimentos estilísticos que raramente aparecem nos outros poemas, tais como:
----- jogos de paronímia: pareceria/ parceria (3ª estrofe); tacto/ tato (4ª estrofe)
----- o encavalgamento (processo que levanta, hoje, alguma polémica entre os poetas): veja-se o que surge na passagem da 1ª para a 2ª estrofe.

Como corolário deste breve olhar para o último livro de António Gil, e apenas no que diz respeito aos seus aspectos formais, não me ficaram quaisquer dúvidas que o poeta domina este seu fazer, mas sem dele se sentir prisioneiro, antes pelo contrário, a urdidura dos textos aparece-nos subordinada ao sentido dos mesmos. Por conseguinte, António Gil dota a sua escrita não só de fluidez, mas de um intencional acicate como forma de envolver o leitor com o corpo do texto; como forma de o comprometer com um percurso que, apesar de polissémico, parece-me subrepticiamente apontar para uma finalidade que o eu-poético pretende, com alguns laivos de normatividade, endossar àquele que o está lendo e, em certa medida, completando.
Este percurso inicia-se com uma primeira secção denominada Magmas. Para a leitura que temos vindo a fazer é importante esta opção pelo plural da palavra! Esta matéria ( ou matérias?) ardente surge-me associada a uma negatividade que se encontra esparsa por todas as vertentes dessa massa heteróclita e fervente:
. " Logo que as trevas jorravam dentro do quarto" (p 12)
. " Chorei no asfalto espargido" (p 14)
. " O ruído da metrópole desprende-se da ponta desta hora..." (p 15)
. " Assim como os níveis do ruído se podem elevar até à dor " (p 16)
. " Tanto nos habituámos a viver à superfície das coisas" (p 19)

E será depois, no texto da página 20, que, enfaticamente, nos surgirá a associação já referida entre o mundo físico e o mundo do poema:

" Embora haja quem o considere extinto ou de flor rara o repute, o poema é animal vivo e portanto repercute a respiração, a circulação e do voo o instinto: o seu magma particular é a vontade de voar nos dedos acesos como asas... "

A confirmação deste paralelismo mundo físico/ universo do poema poderá também ser inferida do final da página 22 , à medida que se anuncia o final desta secção e se adivinha a "divina irrupção" (p 23).
Em Irrupções ( e António Gil opta de novo pelo plural!) o magma incandescente, revolto e inundante do Todo encontra a sua porta de saída:

" O poema então irrompia
na língua viva do tacto
escrito na pele com o tato
do contacto que o escrevia "   (p 27)

Estas irrupções, tal como o entrevisto, e apesar do continuum do trajecto que atravessa todos os territórios do aqui abordado, são plurais, e mantém-se nelas uma interconexão em todos os sentidos. Dito de outro modo: se as irrupções ocorrem nos planos cosmológico e antropológico (veja-se texto da página 30), logo, elas se repercutem também no plano da criação poética:

" Se acaso para escrever aqui me sento
logo em voo uma ave se levanta
e é ainda em voo que ela canta
a imensidão do mútuo amor ao vento "  ( p 31 )

Esta irrupção, que é também existencial (leia-se a primeira estrofe do poema da página 35 ou o texto da 39), é acima de tudo o que nos leva dos Magmas ao "aprender o alfabeto da luz, a pronúncia sussurrada da folhagem, estudar apaixonadamente as conjugações estelares " ( p 34 ). Estamos, portanto, no seio de um caminho que é também decifração, onde " raras são as criaturas que aprendem a ler " ( p 41 ) aquilo que realmente É, aquilo que, pela sua sacralidade, não se encontra a todas as horas nem a todas as pessoas se entrega. Chegados a este ponto, e num reforço da coerência desta obra, percebe-se por que o poeta opta por epígrafes de autores como Jakob Boheme e Eckhart.
A terceira secção do livro, Aras, aparece intimamente ligada a uma dimensão sacrificial e a uma dada encenação do rito. Aqui, sobre as aras, é uma etapa fundamental do percurso que se desvela, uma etapa onde " o tempo é círculo " (p 47), como em qualquer ritual de consagração, e, portanto, onde cosmos, homem e poema ressurgem "ao arrepio da morte" (p 47), numa dimensão do sagrado que nada tem a ver com a noção tradicional de Deus, já "que de um deus abstracto e ausente, só necessita quem, pelo tacto, já seu Deus não sente" (p 48). É neste caminho que, por vocação e sentir o eu-poético a si destina... será por aí, por essa estrada, que o seu frio se transformará em brasa e a sua sede em água ( cf. p 51). Após esta apreensão (ou intuição?) António Gil escreve que é nas pelejas da terra, nessa incontornável guerra terrena, que ele ensaia algo:

"(...) onde treino e realizo a promessa antiga de um reino que me preza e que me abriga... " ( p 51 )

São vários, nesta secção, os elementos de uma simbologia iniciática, veja-se, por exemplo, "a rosa": páginas 56, 57, 63, 88, mas são ainda mais as passagens que nos remetem para a ritualização transmutativa de todas essas matérias provenientes dos Magmas originários (homem, poema, cosmos, etc.), que agora, sobre as Aras, vislumbram um território outro, um espaço onde serão plenamente, onde serão na absoluta coincidência do seu em-si essencial com o sagrado de que emanam e participam. A súmula deste itinerário aparece de forma nítida no poema da página 56:

" Ao sonho chegarás seguindo o curso
da rosa pendular da hipnose, do transe
da suspensa pedra que balance
entre dois pontos fixos do percurso

assim tu, auto-sugestionado
subirás ao miradouro do que és
e a paisagem que tiveres a teus pés
é imagem de teu ser distanciado "

Esta minha leitura tem logo outra confirmação na epígrafe de Fluxos, já que aí se diz explicitamente que a luz divina que ilumina todas as coisas e, consequentemente, a transmutação divinizante que recai sobre os entes, não é assimilada da mesma maneira por todos, já que o "coração grosseiro e inferior" devora-a, enquanto que o "coração subtil e superior absorve-a e irradia-a", ou seja, dotado de Aura este último funde-se com o próprio sagrado. É este, penso, o roteiro poético-metafísico apontado pelo o eu-lírico, roteiro que é igualmente ético, antropológico e até mesmo cosmológico. Um roteiro que, proveniente desses Magmas iniciais e através de etapas e transformações - Irrupções, Aras, Fluxos - alcança, em Auras, esse clímax que é simultaneamente plenitude, concretização fundamental e obtenção da verdadeira OBRA: sagrada, divina, RUBRA. Diz o poeta:

"Rubra é a obra que semeia
na carne fria da pedra
o verbo divino que impregna
de sangue quente a ideia "  ( p 87 )

Neste labor poético-existencial a poesia assume-se como um Fluxo privilegiado, mas, nas minha leitura, existem outros igualmente importantes (o Amor, a Palavra... até a Contemplação, como se lê na página 83), no entanto, é na (e pela) poesia que toda a obra humana se vê como transformável, pelo que uma OBRA AO RUBRO será necessariamente POÉTICA e uma OBRA POÉTICA será invariavelmente uma OBRA AO RUBRO. E será, por consequência, nesse território dual ( e dialogal) que o poeta tenderá a manter-se sempre, como António Gil conclui num dos seus poemas:

" Seja o poema abrigo
percurso, rosa acesa
rio, raio de surpresa
aura de rosto amigo

não me ocupa entrar
no poema ou dele sair:
se nele estou deixo-me ir
se dele saio é para voltar "   ( p 88 )
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                     Victor  Oliveira  Mateus

29/03/12


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                  " A  CONFIRMAÇÃO "

  Ao ver-lhe a aliança, pela primeira vez, Teresa sentiu um misto de estupefacção e asco. Aquele pedaço de prata reluzente, assim exibido no anelar esquerdo, trouxe-lhe à memória as reuniões columbófilas da sua infância: as aves fechadas em minúsculas gaiolas, o arrulhar monotonamente idêntico, a domesticação a desenhar-se numa liberdade para divertimento alheio. Como poderia, pois, alguém alegrar-se com uma entrega cheirando à oca rotina das aparências?, pensou Teresa, à entrada do café, enquanto se amparava à arca dos gelados. O que a chocava não era - como é óbvio - o símbolo do pacto, mas o ar de conquista, de alvo conseguido com que Diogo exibia o troféu.
  ( Sabes?, diria ela, nessa tarde, a Gonçalo, seu amigo de infância que sempre a entendia ou a isso se esforçava: era como se se estivesse frente à vida como uma corrida de obstáculos e aquele idiota andasse a apregoar que tinha superado mais um... )
  Cumprimentaram-se. Sorriram. Tomaram o pequeno-almoço ao balcão como era hábito: ele sempre de sorriso estudadamente inocente em riste, de olhar perverso que prometia o que de antemão sabia que jamais iria dar e com as mesmas palavras de uma venenosa fragilidade a armadilharem-lhe os instantes. Teresa não podia deixar de fixar a aliança, e ele, provocatoriamente, fingiu sacudir com essa mesma mão umas migalhas que nem sequer tinham caído no casaco. Despediram-se como de costume. Nessa tarde, a pretexto de uma questão qualquer, Diogo arranjara um modo de lhe ligar para o telemóvel. Enviara-lhe igualmente dois incipientes emails com notícias sobre uma cantora de que ambos gostavam.
  No dia seguinte não se encontraram, de manhã, no café. Estudadamente, ou não, ele não aparecera à hora do costume para o pequeno-almoço. Mas, em contrapartida, Diogo sentar-se-ia à sua mesa, na esplanada, naquele mesmo dia, ao fim da tarde. Sorridente. Acabado de sair da capa de uma revista de moda masculina. O anelar esquerdo a tamborilar, a despropósito, no tampo da mesa. Ela não conseguia disfarçar o seu nervosismo e - porque não confessá-lo? - o seu desejo, mas ele, com ar de quem acena mas não dá, convidou-a para nessa noite irem ao cinema, para, minutos depois, exibir a pose de quem se recordava de algo e logo dizer que não, afinal não podiam ir, ele tinha-se esquecido de uma coisa: tinha um encontro com uma amiga e já se estava a esquecer. Teresa não perguntou nada, apenas se ia acusando de não conseguir sair daquele redil a que se prendia cada vez mais.
  ( Não é possível que tudo aquilo seja representação!, confidenciou ela a Gonçalo, por telefone nessa mesma noite. Olha lá, perguntou-lhe este, por sua vez: tu não estarás a ficar um pouco paranóica? Se calhar até estou, pois não pode haver ninguém assim tão perverso, tão monstruoso... )
  O resto dessa semana passou-se exactamente da mesma maneira: os encontros da manhã, os fins de tarde na esplanada, os melífluos telefonemas, os emails ambíguos. Dir-se-ia que aquele fim de Julho iria trazer a Teresa uma qualquer oferta promissora, uma qualquer regeneração que lhe adensasse a vida e a dotasse de sentido e alegria. E, com este estado de espírito, entrou ela na primeira semana de Agosto. Nos primeiros dias do mês estranhou que Diogo não aparecesse mais, nem para os pequenos-almoços nem ao fim do dia na esplanada. Estranhou de tal modo que não se conteve e, ao fim de uns tempos, perguntou a um dos empregados. Mas então a menina não sabe?! Fitou-a atónito o empregado. Não sei o quê? O Diogo casou-se no domingo passado e deixou de morar aqui na rua. Teresa não soube que cor adquiriu, porque ouviu a voz do empregado como vinda de muito longe: está a sentir-se bem? Estou, estou sim, obrigado! Mas o Diogo não lhe disse, vocês eram tão amigos, estavam sempre aqui?, perguntou o empregado, de olhos esbugalhados. Ah, vai ver que ele me disse - recuperou Teresa -, mas eu sou tão distraída que devo ter feito qualquer confusão. Pois!, tartamudeou o empregado, já que era suposto ter de dizer alguma coisa.
  ( Não é possível, sussurrou ela a Gonçalo, que, enroscado num sofá não sabia o que responder. Ao fim de uns minutos ele ousou dizer: talvez se tenha esquecido de se despedir ou pensasse que o assunto não te interessava. Ela fulminou-o com o olhar: por favor, Gonçalo, agora não, solidariedade masculina a estas horas não, e muito menos vinda de ti.)
  Teresa nunca mais falou em tal coisa. Se nela pensava, ou não, nunca o viremos a saber, pois não deixou nada escrito acerca de tal assunto. Nos primeiros dias de Setembro, meteu-se no carro e rumou à casa de Tavira, onde iria passar o resto das férias.

  Dois meses depois, por um puro acaso, Gonçalo encontraria Diogo numa das discotecas mais in de Lisboa. Cumprimentaram-se. Sabes quem morreu?, perguntou-lhe Gonçalo. O outro olhou-o como se a pergunta não fizesse sentido naquele momento. Mas Gonçalo insistiu: a Teresa! A Teresa, qual Teresa?, sorriu o outro com o ar falsamente ingénuo do costume. Eh, pá, a Teresa, aquela que morava no prédio em frente ao teu... vocês davam-se... teve um desastre de automóvel lá em baixo, no Algarve... teve morte imediata. Mas eu não sei de quem estás a falar!, exclamou Diogo, através da música, postando um ar doce, quase angelical. Eh, pá, não me digas que não te lembras da Teresa, vocês deram-se durante anos?! Não, não estou a ver quem é... enfim, é a vida! Olha a ti é que gostei de te voltar a ver, estás com bom aspecto. Ciao, a gente vai-se encontrando por aí! E regressou para junto de um grupo esfuziante, deixando em Gonçalo a confirmação de uma suspeita que nem sequer fora sua.

  Mateus, Victor Oliveira. Suplemento h do Macau Hoje. Macau, 4 de Maio de 2012.
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13/03/12

(Um) Prefácio.

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 " Tempo e Transcendência na poesia de Tiago Nené "

O novo livro de Tiago Nené, logo no primeiro poema, e em jeito de nos transmitir o verdadeiro método de interpretar, firma o que irá ser o princípio estruturante de toda a obra: por um lado, os obstáculos do real na sua dualidade de acidentes na superfície da terra e de coisa a realçar: o relevo ( a vontade do editor ) - mas atente-se, contudo, que este relevo, apesar de algumas vezes aparecer como estático e imutável, é ele que desempenha sempre a função de móbil da acção -; por outro lado, o modo de apreensão desse mesmo real, que não é a razão nem nenhum dos sentidos exteriores, mas sim o coração (... foram os únicos/ que leram o poema que escrevi;) e, finalmente, o tempo, que nos surgirá numa multiplicidade de formas. Esta a tríade que atravessará todo o texto. Aliás, neste primeiro poema constata-se que o plano da coincidência com o real, da apreensão do em-si da coisa, não se faz pela eliminação do sujeito, mas tão-só que este feche os olhos e, suspendendo o tempo, conceba um azul ( o do céu ) emanação de um outro primordial ( a folha azul ), que o criador não pode dar a ver.
Esta errância do eu-poético no tempo, muitas vezes geradora de nostalgia e angústia, conduz-nos à necessidade de entender os vários territórios da temporalidade em que ocorre o périplo poético, e Tiago Nené é minucioso e exaustivo quanto a esse aspecto: o tempo cronológico ( in Jardins Hamarikyu ), o tempo pensado ( in Mulher inexorável ), o tempo meteorológico ( in Azul, segunda estrofe ), o tempo vivenciado ( in De certo Modo ), o tempo actualidade sociocultural ( in Europa ) etc. Mas o poeta não se fica por uma mera enumeração, toda a obra é trespassada pelo digladiar das três determinações essenciais da temporalidade: o passado - " ficamos a respirar o ar um do outro, o ar de um passado/ que nos construiu..." ( in Mapa-Múndi ); o presente - " é que para essas pessoas, estas que agora sobem semi-ausentes/ de si mesmas para um eléctrico " ( in Estação de Outono ); o futuro - " e quando regressares do presente interrompido/ não saberás se és magnólia ou violeta;" ( in Evaporação ). Mas Tiago Nené não se limita ao manipular dos fios de uma já tão conseguida urdidura, vai mais longe: concomitante com este ser no tempo é todo um conjunto de memórias, de observações e de inquietações que vão sendo desfiadas e que desembocam no desencanto do eu-poético, numa sensação de falha impreenchível com constantes alusões à perda e à morte. Se não se vislumbram quaisquer influências de autores como Antero, Florbela ou Nobre, o que é um facto é que se percebe estarmos aqui frente a uma escrita de uma extrema melancolia.

nunca quis ser só distância
sempre houve cavalos
seguindo a minha inutilidade prosperante,
palavras comprometidas com toda a imitação
de sentimento e bicho.
sempre me esvaziei da responsabilidade
de semear o meu tempo,
cresci ajoelhado, em constante
importância assintomática.
depois soube que o tempo castiga
um silêncio em silêncio
e então comecei a guardar as palavras.

   ( in O Guardador de Palavras )

o tempo é o eco da primeira palavra
esquiando sobre o gelo fino;
eternamente repito a ignorância
permanecente nos seus cabelos longos
e eléctricos;
estou de novo no começo da falha
apesar de o tempo ter os pés em chamas
e correr como sangue não reconhecido
...

   ( in Subgluttiare )

Este último excerto traz para a boca de cena aquilo que é o nó górdio que continuará marcando indelevelmente o coração de tempo ( o eco da primeira fala; ), pois a eternidade é a única intemporalidade possível ( in Carta a um jovem poeta ). Como entender um coração de tempo agindo, e sentindo, nesse mesmo tempo, já que sempre acicatado por todo um relevo móbil, que constantemente se afirma num modo peremptório e de relevo? Esta é a pergunta a que o poeta tenta responder; esta é também uma das questões fundamentais que tem marcado a cultura ocidental. Stephen Hawking, contestando a teoria aristotélica do lugar natural, bem como a concepção de tempo absoluto que vigorou até Newton, é bastante claro quando se refere ao Bing Bang: " Se houve acontecimentos antes desse tempo, não podem afectar o que acontece no tempo presente. A sua existência pode ser ignorada, por não ter consequências observáveis." (1) Numa outra passagem desta obra Hawking cita, com pouco rigor, o gracejo referido por Santo Agostinho de que Deus preparava o inferno para quem perguntasse o que fazia ele antes da criação; é evidente que essa alusão pretende afirmar que, numa perspectiva religiosa, só faz sentido falar de tempo após o Big Bang, mas Santo Agostinho, numa invocação a Deus, - e para o que aqui nos interessa - reitera, na sua abordagem, a existência de um plano imutável e eterno: "(...) e o vosso dia não é um mero acontecimento quotidiano, é um perpétuo hoje, já que esse vosso hoje não cede lugar a um amanhã e o amanhã não sucede a um ontem. O vosso hoje é a Eternidade..." (2). Esta dicotomia entre um tempo onde somos chamados a ser, e a agir, de acordo com todos os relevos móbiles, e uma eternidade com a qual o nosso coração de tempo se mede e se confronta, não é exclusiva dos autores cristãos: século e meio antes de Agostinho de Hipona, Plotino tinha discorrido já sobre o mesmo tema, numa perspectiva radicalmente distinta. Plotino, no seu quadragésimo quinto tratado, Da Eternidade e do Tempo, estabelece, logo no início, que este só pode ser medido a partir da eternidade, depois, ao longo de toda a obra, vai inventariando o que essa eternidade não é, por fim - e recusando a ideia de Criação!- , este neoplatónico é peremptório ao defender que a temporalidade não depende já da vontade de um qualquer deus, mas da natureza curiosa da acção, isto é, da alma que, recusando a sua permanência no suprasensível, se encaminha depois para o sensível, inaugurando assim o tempo: "(...) a alma recusa que todo o ser inteligível lhe seja presente de imediato. Ela actua como a razão espermática que sai de um germe imóvel, desenvolvendo-se evoluindo a pouco e pouco, parece, na direcção da pluralidade, e manifesta essa mesma pluralidade cindindo-se (...) ela perde a força que lhe é própria durante este caminhar." (3) Depois deste perambular por temas fundamentais da cultura do ocidente, poder-se-á estabelecer a ponte com a poesia de Tiago Nené, através de alguns dos sesu versos, para assim dar a ver o quanto esta mesma poesia se encontra enraizada no que de mais arguto e inquietador uma dada cultura tem pensado: " lêem-nos nos olhos um intemporal esquisito e uma/ omnipresença pecadora, um dia à luz da vela" ( in  Jardins Hamarikyu ), "corrompidas até ao osso efémero;/ e é tudo um material de luxúria(...)/ o emprenhar do infinito nas cores da boca;" ( in O Fim Vai Dentro do Corpo do Começo ). Convém acrescentar, no entanto, que este almejado "para lá" de um sensível turbilhonar é alcançado, não por uma evasão desse mesmo sensível, mas por um acto transmutativo operado por um coração de tempo após a evidência de todos os relevos móbiles; Tiago Nené, como Plotino e Agostinho de Hipona, aceita a existência dos já referidos dois planos, mas, ao contrário deles, escreve que o seu "além" só pode abrir-se no "aqui", e através de uma nova tríade: o Amor, a Poesia e a Autenticidade:

é possível que viver signifique contrafazer-me,
sim, é possível, desmontar o inato toda a vida,
as crenças, as igualdades e impossibilidades inatas,
os sorrisos que parecem astros de culto;
tudo é possível, mas requer um convencimento,

     ( in Um Círculo Hermético )

um tempo nunca se explica a si mesmo,
um tempo é explicado por outro tempo,

o meu problema é amar-te sem saber
qual o tempo que o explica

     ( in (...) )

poesia é a arte metafísica de escavar as palavras
e encontrar outras palavras;
e escavar estas palavras e encontrar outras
palavras;
foi assim que escrevi o teu corpo
e, escavando as suas palavras; encontrei
outras palavras
que diziam ser a outra metade da solidão a esperança
e os nossos corpos
o princípio da distância;

      ( in O Princípio da Distância )

Esta poesia vinca a ideia de que a transcendência se afirma como um trancender no "aqui", lugar onde Poesia, Amor e Autenticidade se deverão interligar para imprimir num coração de tempo  não só momentos de plenitude, mas sobretudo a mais lúcida angústia (4) motivada por tão ingente projecto poético-existencial.
Convém acrecentar que esse Outro passível de uma vivência amorosa, de uma partilha autêntica e de poetificação não se restringe à figura de um ente específico (humano ou não), ele possui, em vez disso, um carácter universal e abrangente, isto é, o que o eu-poético persegue acima de tudo - embora nunca o diga de forma directa!- é essa comunhão amorosa, autêntica e poética com tudo aquilo que é: "(...) mas aqui estás tu, dormindo/ na minha revista científica, sobre a qual os/ pulmões dos meus dedos te escutam" (in A Criança de Neandertal ), "(...) e só quando/ a sua bondade se exercitou na sede de outrem,/ na lama, e depois no mais inalcançável," ( in Instinto ), " dos que sofrem impossivelmente/ sobre os detritos das palavras, sobre/ o humor aleatório do tempo;" ( in Europa ).
A um intento complexo do sentido, correspondem, nesta poesia, preocupações estilístico-formais igualmente abrangentes: não se demarcam fronteiras nítidas entre o metafórico, mesmo que as metáforas tenham o sabor do mercúrio ( in Criaturário, sobretudo os dois primeiros versos deste poema), as comparações de grande riqueza imagética e um quotidiano de referencial imediatista; utilizam-se aspectos de todo um aparelho pertencente às ciências exactas, quer através de títulos ( O Princípio da Distância, Definição por Comparação ), quer na estrutura do próprio texto, como é o caso do irrepreensível poema "Um excerto de experiência", que me fez lembrar a Teoria da Relatividade; já na linha do seu livro anterior, o poeta dialoga com outros autores quer através de epígrafes quer de poemas ( in O Bom Poeta, Carta a um Jovem Poeta - a fazer lembrar Rilke -, Canção Para Matsuo Bashô) e neste livro o diálogo alarga-se à música ( in Subluttiare ) e ao cinema ( in A Idade da Inocência ), finalmente urge também não esquecer um discorrer de cariz metapoético que poreja em muitos dos poemas.
Por tudo o que já referi, penso estarmos ante um livro de poesia que alia, de forma admirável, um excelente domínio da escrita e de estruturação das diversas unidades poemáticas na sua conjugação com a obra enquanto todo, com preocupações de grande riqueza de sentido; talvez porque - quem sabe?- para Tiago Nené aquilo que existe e/ou é não se resuma à mera possibilidade de se autofrequentar ( in A Dimensão do Ser, 11º - 13º versos).

(1) Stephen W. Hawking, Breve História do Tempo, Gradiva, Lisboa, 1988, p 27 ( Relativamente a este tópico ver igualmente: Les lois du chaos de Prigogine, Flammarion, e O Nascimento do Tempo de Ilya Prigogine, Edições 70; Lisboa, 1988, pp 51 - 60).
(2) Saint Augustin, Les Confessions (Livre onzième, chapitre XIII ), Garnier-Flammarion, Paris, 1964, p 263 (tradução de minha autoria).
(3) Plotin, Troisième Ennéade (III, De L'Éternité et du Temps), Les Belle Lettres, 2002, p 241 (tradução de minha autoria)
(4) Cf. paragº 15 ( El ser de los entes que hacen frente en el mundo circundante) e paragº 40 ( El fundamental encontrar-se de la angustia, señalando "estado de abierto" del "ser ahí) in El Ser u el Tiempo, Martin Heidegger, Ediciones F.C.E., Madrid, 1980 ( Traductión de José Gaos.)

  Victor Oliveira Mateus in Nené, Tiago. Relevo Móbil Num Coração de Tempo. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2011, pp 7 - 14.
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12/01/12


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                   A  TRAPEZISTA  DA  RUA  DÊ

               (Breve conto imoral muito edificante)

 


De dentro dos seus 70 anos a trapezista era a figura mais controversa do circo. Com a sua cinturinha-tonel, as suas sapatilhas 46 e o seu tufo piloso sobre o malar direito em todos despertava um misto de fascínio e rancor. Laurinda marreca, a mulher que fazia de tartaruga nos espetáculos das quintas-feiras, ajeitando a bossa do peito, costumava dizer: "parece uma caneca que a minha tia-avó tinha... quando eu não queria comer, traziam o raio da caneca e eu não deixava nem uma massa." Os outros riam. Serafim loiro, o anão, era o único que se mantinha em silêncio: olhar gélido, apreensivo. Mas a velha trapezista lá ia: altiva e hierática atravessava a turbamulta, executava o seu augusto número e logo recolhia à roulotte encostada à vedação da rua Dê, uma das várias ruas do acampamento. " E não há quem lhe dê um sopapo?", vociferava a marreca, cheia de ódio; " Ó mulher, deixa a velha, coitadinha!", vinha em socorro a equilibrista, " não vês que ela não tem os alqueires bem medidos!"; " Sim, sim!", voltava a marreca, " Ela sabe é muito!" E lá ficava rosnando para dentro. O anão registava: olhar penetrante.
A trapezista, de facto, alimentava um sonho, o seu único sonho: ser dona do circo! Argemiro, o real proprietário, já lhe tinha feito a radiografia e deixara bem claro para si próprio: " Antes casar com a marreca ou com os repugnantes ademanes do palhaço rico com suas sedas e chifons, antes isso do que aquela mostrenga", e atirava com as portas, furioso. Vendo que dali não levava nada, a trapezista, que não era mulher para se dar por vencida assim sem mais nem menos, virou o periscópio para o ilusionista, o meio-irmão de Argemiro, mas também aqui - a infeliz - viu a sua estratégia gorada, sobretudo depois de ter assistido ao espectáculo do dia 13, quando o desastrado ilusionista baralhou as caixas e, após ter serrado uma mulher ao meio, o serrote e o chão ficaram ensopados de vermelho, enquanto Ildebranda, a arrumadora, brandamente levou sumiço. Só que a trapezista não parava de olhar para as alturas: queria para sempre aqueles lugares que tão episodicamente visitava. Argemiro, já farto da velha, e temendo que a traição assumisse proporções incontroláveis, propôs ao meio-irmão: " E se a pusessemos no número dos pinguins? Com aqueles pés 46 passava despercebida." Mas tudo se revelava impraticável, condenado ao fracasso, pois as piruetas da velha - qual mestra de equitação - acabavam sempre contornando vielas e cotovelos. E foi por esta altura que o anão loiro, há muito fazendo-lhe uma marcação cerrada, apanhou a estratégia macabra: sentado atrás dos montes de feno dos póneis, ouviu a trapezista conspirando. Ela queria um levantamento geral! " Aliás", ronronava ela com seu ar de falsete, " um golpe de estado num estado que é um circo, até parece coisa bem normal". Serafim teve um baque - finalmente! E dali confessou tudo à surda-muda da bilheteira, que sempre fora a sua mais atenta ouvinte e leal conselheira. A surda-muda, depois de lhe ler as maiores nos lábios, foi peremptória: " ÓÓÓ-MMMÁÁÁ  TÓÓÓ-CÁÁ ", o anão, feliz com a anuência, e ainda nesse dia, subiu (ele) ao ponto mais alto do circo, onde passou a noite escondido num dos refegos laterais da lona do teto e ali se deixou ficar, sem adormecer, esperando, esperando, esperando.
No dia seguinte, por coincidência dia de finados, já no fim da matiné, lá vinha a trapezista velha para a sua extraordinária exibição. Os seus pézinhos 46 eram música no lajedo: CHAP-CHAP-CHAP. Serena, oh, tão deliciosamente serena! CHAP-CHAP-CHAP! Reluzente passou por entre a ignorante assistência, tangenciou os ínfimos colegas, e foi também reluzente que subiu aos píncaros. " Agora só com uma mão!", berrava o altifalante. Voltas e reviravoltas, piruetas e negaças - tudo especialidade da casa! " Agora só com um pé!", voltava o altifalante à carga. E foi quando os tambores começaram a rufar para o ousado momento final, que o desastre aconteceu: " E agora, senhoras e senhores, pede-se o máximo silêncio, vamos assistir a um arriscado salto mortal de um trapézio para outro ainda mais acima!" A velha, confiante, sorriu, olhou sobranceiramente para baixo, ajeitou-se, voltou a olhar, voltou a sorrir e... iniciou o salto. E foi exactamente aqui que Serafim, o anão, saltou da enrugada lona, estendeu a mão com uma enorme tesoura cintilante e... ZÁS!... cortou as cordas do segundo trapézio. Terror geral. Ouviu-se da boca dos espectadores um enorme OHOHOHOH, da boca da surda-muda um perverso IHIHIH e um TCCHOP no fosso da orquestra, que até acordou o primeiro violino. O salto mortal da trapezista da rua Dê fora mesmo mortal! As lantejoulas do rasgado maiô choviam agora como copiosa neve de presépio, enquanto a cabeça, que se desatarraxara, assomava debaixo da poltrona P34 de primeira plateia. " Não olhem pra mim, não olhem pra mim, eu não estou metido nisto", cacarejava o timorato ilusionista. " Pobrezinha, tanto subiu, tanto subiu, que perdeu a cabeça!... Ficou foi agora aqui um grande cheiro a merda", afagou a marreca a bossa do peito. " Sempre foste muito invejosa!", respondeu-lhe a equilibrista. " Meus senhores, vamos mas é voltar ao trabalho!", ordenou Argemiro, pouco à-vontade. IHIHIHIH, insistiu a surda-muda que, sem os outros verem, e debaixo dos seus longos cabelos, recolocou nos ouvidos a sofisticada prótese auditiva.

            Victor  Oliveira  Mateus
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25/12/11

A prenda de Natal.

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Há feriados que deixam a cidade deserta. Nem vivalma nas ruas. Claro que, em termos ecológicos, até talvez seja uma vantagem, o problema é se queremos tomar uma bica - nem um café aberto, com o enorme serão que foi feito, noite adentro, na prática dos sentimentozinhos mais positivos. Mesmo assim costumo sempre ousar: meto-me no carro e acabo encontrando qualquer coisa, nem que seja uma gasolineira... Desta vez também consegui: um pequeno café numa das zonas luxuosas da cidade. Bebi a costumeira bica e, lembrando-me de algo, perguntei ao rapaz:
- Por acaso não têm uma embalagem onde possa levar duas bicas?
- Levar duas bicas?!
- Sim, é que tenho gente lá em casa e assim escusávamos de cá voltar. Às vezes há aqueles copos de plástico...
- Não, não temos!- Depois de olhar todas as prateleiras, rematou: - Só se levar nas duas chávenas!
- Nas duas chávenas?! - Exclamei eu com o ar de um imbecil que é apanhado de surpresa. Mas espere, espere... E já ele enchia as chávenas:
- Pode levar estas duas. Estavam para aqui... nós já nem as usamos.
Eh, ca ganda baile qu'este me está a dar - despertei eu - e atirei-lhe a farpa:
- Ah, já percebi, se hão de ir pró lixo, assim levo-as eu. - O rapaz fez-se desentendido. Pela surpresa dos dois empregados, e conversa entre todos, percebi que ele era o filho do dono. Depois das bicas tiradas, enroscou uma chávena na outra, colocou um guardanapo por cima e sorriu com ar de sacana:
- Como vê é fácil! Leva assim as duas bicas.
- Mas espere lá... e se eu comprar uma garrafa pequena de água e deitarmos lá o café.
- Não, não vale a pena! Olhe, entenda isto como a minha prenda de Natal! - E voltou a sorrir.
Eh, ca granda cabrão - pensei eu, imaginando-me já a fazer equilibrismo, rua afora, com as duas chávenas na mão: - eu não estou a levar um baile, isto é mas é um sarau com orquestra sinfónica e tudo, mas não perdes pela demora... e pus o meu ar de querubim recém purificado:
- Ah, se é a sua prenda de Natal, já é outra coisa... então, sendo assim, levo as chávenas.
E lá vim, rua afora mesmo, até ao carro, qual acrobata de circo... Depois atravessei a cidade, " a vinte à hora", com as duas chávenas "sentadas" no tablier.
Enfim... amanhã, ou depois, será o segundo acto, pois as chávenas já ali estão embrulhadinhas, só me resta encontrar uma loja aberta onde possa comprar um laçarote ostensivamente garrido, já que uma prenda de Natal - dada ou retribuida - tem de ter sempre um significado preciso.
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23/12/11

Acabou de sair...

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Acabou de ser colocada em linha a "REVISTA TRIPLOV - DE ARTES, RELIGIÕES E CIÊNCIAS"
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Nova Série, 2011, Número 19 - 20.
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Ver artigo " Imagens da sexualidade na obra de Ferzan Ozpetek
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aqui:  www.triplov.com/novaserie.revista/numero_19
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15/08/11

Um pequeno contributo para...

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" IMAGENS DA SEXUALIDADE NA OBRA DE FERZAN OZPETEK"
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( A problemática da orientação sexual na filmografia do século XX)
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Um primeiro olhar sobre a obra de Ozpetek remete-nos de imediato para uma das pedras-de-toque da nossa cultura: a relação dos fenómenos com a linguagem e o consequente processo de universalização que desemboca na clarificação dos conceitos. Esboçada já na Antiguidade - lembremo-nos das críticas dos Cínicos ao Platonismo -, a questão dos Universais dá o seu primeiro grande passo na Idade Média - é Roscelino, século XI, quem peremptoriamente afirma: as ideias abstractas não passam de flatus vocis (sopro de voz): instaurando-se assim definitivamente o Nominalismo que Guilherme de Occam, no século XIV, viria a desenvolver e a aprofundar. Sem nos determos na relação que Occam estabelece entre o conhecimento intuitivo e a experiência, digamos tão-só que é baseando-se nesta última que este filósofo afirma a individualidade do real enquanto tal, criticando assim com acerbidade todas as teorias que concedem ao universal um qualquer grau de realidade (cf. In Sent I, d. 2, q. 7 S). Para o que nos interessa neste artigo acrescentemos que Occam não nega a realidade do conceito, mas vê-o apenas como algo mental, tendo, por conseguinte, uma consistência exclusivamente subjectiva, determinada e... singular, com uma função puramente significante; o conceito é um signo das coisas, algo que está em lugar delas e é deste modo que o usamos nos juízos e nos raciocínios. À luz destas posições ( e sem desenvolvermos como muitas destas teses nominalistas irão depois reaparecer em Russell e Wittgenstein) percebemos como, apesar do termo sexualidade do nosso título, se possa dizer que na obra de Ozpetek - e, aliás, na linha do que muitos sexólogos vêm actualmente defendendo - não existe um padrão unívoco da heterossexualidade, mas sim heterossexualidades, nem tão-pouco um arquétipo da homossexualidade, mas antes homossexualidades. Uma posição deste tipo não nega as derivações interpretativas centradas no primado do genótipo e/ou do hipotálamo, antes as integra, mas recusa-se a ver o comportamento sexual dos humanos determinado exclusivamente por uma orientação originária, mecanicista e inamovível.
A tendência para abrir o leque, ao nível da observação e da análise, dos vários comportamentos humanos de tipo sexual - desembocando muitas vezes no âmbito da bissexualidade - aparece, de forma nítida, mas ainda num pequeno número de filmes da cinematografia europeia da segunda metade do século XX, são disso exemplos três dos maiores realizadores desse período: Pasolini com o seu Teorema (1968), Fellini com a sua adaptação do Satyricon de Petrónio (1969), Visconti adaptando também a novela de Mann, Morte em Veneza (1971), e, no seu penúltimo filme, Violência e Paixão (1974), entregando a Burt Lancaster o papel do velho professor que, retirado e rodeado de livros e obras de arte, se vê subitamente envolvido com um grupo de novos vizinhos, vindo a desenvolver um relacionamento ambíguo com um deles. É evidente que a função primordial de qualquer destes filmes não é aquela que aqui estamos a referir - por exemplo, em Teorema e em Violência e Paixão o objectivo é antes a desmontagem de alguns valores intrínsecos à burguesia bem comportada, bem como a algumas instituições nomeadamente a família. Aliás, e como mero parêntesis, digamos que é nesta preocupação de dissecar o quotidiano dos bem comportados que entroncam também alguns filmes já do século XXI, como por exemplo o Tudo pode dar certo de Woody Allen (2009), onde o pai de Melodie corre para Nova Iorque na busca da mulher e da filha e acaba envolvido com alguém que não é filha nem sequer mulher, ou ainda o radical Transamerica onde a actriz Felicity Huffman é soberba na interpretação daquela transexual a quem a sua compreensiva psiquiatra não concede a autorização final para a mudança de sexo, enquanto este ele  não disser toda a verdade ao filho (Kevin Zegers) que havia feito a uma colega de faculdade e que a vida acabara de colocar no seu caminho. Parecendo ser apenas um filme sobre a mudança de género, Transamérica (2006) é também uma grande aula de psicanálise, sobretudo se nos pusermos a dissecar a relação das agora duas irmãs com a mãe. Mas, e recuando às duas últimas décadas do século XX, a História do Cinema conheceu um verdadeiro boom com autênticos estudos de caso que irão entrecruzar: orientação sexual/ valores dominantes e contingência, e esse boom invadirá quer o drama quer a comédia; relativamente a esta última não nos podemos esquecer da lésbica de Belle Époque (filme de Fernando Trueba, 1992), exemplarmente interpretada por Ariadna Gil, que, a certa altura, se sente atraída pela personagem de Jorge Sanz, sobretudo quando o descobre fantasiado de criada. É fazendo rir que Trueba demonstra que a imaginação e a fantasia desorientam o que até então era tido como A orientação sexual, assim como altera um percurso que se julgava de pendor fiixista e fá-lo através de outras variáveis ligadas à aprendizagem e ao social. Até a violência, sobretudo a física, pode desencadear essas mudanças comportamentais, essa desorientação da orientação, como na cena de pugilato no Oito mulheres, de Ozon, quando Catherine Deneuve e Fanny Ardant se amarfanham pelo chão de uma enorme sala. A prostituição masculina, que Andy Warhol já tinha exibido na sua célebre trilogia ( Flesh, Trash e Heat), mas de que se fala hoje muito mais do que há algumas décadas, traz para a luz do dia outro tipo de variáveis ligadas agora ao socio-económico, ao estatutário e ao desejo do novo e do fantasiado; todavia, se um acompanhante heterossexual se pode colocar ao serviço de mulheres, como Josiane Balasko muito bem retratou no seu filme Cliente com uma esplendorosa interpretação de Nathalie Baye (não nos esqueçamos do papel de lésbica que Balasko tão bem levara a cabo no filme Gazon Maudit , chegando ao ponto de seduzir a heterossexualíssima personagem desempenhada por Victoria Abril, que, na película, acabará dividida entre o marido e a inesperada amante), o que é um facto é que esse mesmo indivíduo poderá também colocar a sua orientação sexual à disposição de homens (cf. devassos no paraíso de João Silvério Trevisan, sobretudo as páginas 410-414, onde se referem entrevistas de alguns desses acompanhantes casados e que contam com o apoio das próprias mulheres, ávidas de um qualquer suplemento remuneratório que lhes suavize o quotidiano, aliás, esta derivação de tipo económico é também enfatizada no filme realizado por Balasko; todavia este território está ainda pouco estudado, principalmente na parte que leva a que esses indivíduos, muitas vezes, se apaixonem pelas suas (ou pelos seus) clientes e, fenómeno igualmente já constatado neste meio, que leva ao estabelecimento de um elo preferencial de tipo afectivo-sexual entre dois elementos dessa mesma profissão). Seja de que maneira for parece-nos que algum do cinema feito nas últimas décadas, bem como muito do ensaísmo e da investigação científica parece apontar para a ideia de que a orientação sexual não é coisa de enjaular em espartilho de laboratório ou de compêndio, nem de funcionar, ao modo de uma qualquer implicação lógica, como tabela de branco e preto.
Herdeira de toda esta tradição, a obra cinematográfica de Ferzan Ozpetek chama-nos a atenção para o papel que o quotidiano e o adquirido têm sobre o desejo que sentimos pelo outro, pela outra ou por ambos. Oiçamos a filósofa Martha C. Nussbaum: " Desire, in short, is in good part "in the head". Here, of course, is where culture and cultural variation play a major role. Society shapes a great deal, if not all, of what is found erotically desirable and social forms are themselves eroticized. We see this quickly in the tremendous variety of what is found erotically appealling in differente societies and, of course, by different individuals in different societies: different attributes of bodily shape, of demeanor and gesture, of clothing, of sexual behavior itself. Social constructions of an attractive sexual object vary enormously, and with these, the social meaning of sexual arousal and interation themselves. " ( In Sex, preference, and family - essays on law and natures, p 26). Mas a sociedade e a cultura não modelam somente o desejo e o objecto deste, elas actuam do mesmo modo relativamente a outros sentimentos e emoções decorrentes da concretização, ou não, desse mesmo desejo, nomeadamente a vergonha e a culpa, como bem defende Jesús Ferrero: " La verguenza y la culpa son las pasiones más determinadas por la cultura en la que vive el sujeto que las padece y por sus normas sociales y morales.
Básicamente se podria decir que sentimos verguenza y culpa cuando nos descubren haciendo algo prohibido, o cuando descubrem que lo hemos hecho. La violencia que proyecta la mirada de los otros ante nuestro delito penetra en nosotros como la púa de una cerbatana, y nos odiamos a nosotros mismos y quisiéramos desaparecer bajo tierra: enterrarnos. Pero solo sentimos culpa como un efecto de la mirada acusadora de los otros? Desde luego que no. Todos llevamos una conciencia llena de normas morales. La mirada interior puede proyectar-se sobre nuestros actos con más severidade y más rigor que la mirada de los otros." ( In Las experiencias del deseo, Eros y misos, p 133). É impossível lermos este texto de Ferrero sem nos lembrarmos de um capítulo de "L'étre et le néant" de Sartre - "Le regard", e, por outro, sem concluirmos que se o olhar do outro nos rotula, no torna en-soi como diria o filósofo francês, de um modo directo, também é verdade que a minha auto-imagem é mediatizada por esse mesmo olhar que me é alheio. Assim, a sociedade e a cultura em que me encontro inserido tendem a orientar-me o desejo, o objecto que esse desejo visa e ao périplo de paixões e emoções inerentes a todo o processo, encontrando-me assim eu no seio de uma aporia fundamental: a minha orientação sexual, que, por sua vez, subjaz às minhas atitudes e aos meus comportamentos também de tipo sexual, é ela própria - apesar da inscrição genética - orientada por condicionantes que lhe são externas.
Como corolário das posições defendidas poder-se-á dizer que elas desembocam necessariamente na forma como os parceiros sexuais se procuram uns aos outros e entre si estabelecem todo um universo convivencial. Hoje, na nossa sociedade, os modelos vigentes, e os únicos legalmente aceites, são a monogamia heterossexual e a monogamia homossexual, contudo, uma observação minuciosa do reino animal, concretamente no caso dos mamíferos, poder-nos-á elucidar se essas formas convivência derivam de potencialidades inscritas no património genético, ou se, pelo contrário, ela nos mostra outras evidências onde, uma vez mais, uma orientação exterior (ética, moral, religiosa, jurídica...) ao que somos nos tende a orientar noutros sentidos. Acerca disso atentemos às investigações de David P. Barah e Judith Eve Lipton: "Quando se trata de mamíferos, sabe-se há muito tempo que a monogamia é uma raridade. De 4 mil espécies de mamíferos, não mais do que algumas dezenas formam ligações de par confiáveis, embora em muitos casos seja difícil caracterizá-los com certeza porque a vida social e sexual dos mamíferos tende a ser mais furtiva do que a das aves." ( In O mito da monogamia, Fidelidade e Infidelidade entre pessoas e animais, p 26).
Eis-nos, então, chegados a um ponto crucial desta proposta de leitura da obra cinematográfica de Ferzan Ozpetek: os factores genéticos e biológicos não são condicionantes exclusivos, nem prioritários, da orientação sexual (e seria interessante até discutir a pouca cientificidade deste último conceito, adoptado pela comunidade científica para substituir a balbúrdia teórica que o antecedeu: preferência sexual, opção sexual e outras enormidades deste estilo!) nem do modo como os comportamentos sexuais ocorrem; as diferenças - a vários níveis - dentro da heterossexualidade e da homossexualidade são abissais; os modelos de convivência e/ou de acasalamento monogâmicos podem funcionar para alguns seres humanos, mas as "ligações verdadeiramente confiáveis" são raras: os sentimentos, as emoções, os fracassos e os sucessos de uma vida afectivo-sexual podem ser gravados em nós, mais pelo olhar do outro do que por aquilo que, nos nossos momentos de solidão e de autoquestionamento, apreendemos no mais fundo de nós. E, como cúpula desta visão, a subtil mecânica do jogo: umas vezes alienante e turbilhonar, como no caso dos gays loucos de Mine Vagante; outras, lúcido e desgastante como na avó da mesma película.
Sabemos, todavia, que algumas tendências dentro da psicologia e da psiquiatria têm vindo a substituit o conceito de orientação pelo de identidade sexual, parecendo-nos até com a finalidade de salvaguardar o território da imutabilidade e do genético. Tais posições, varrem assim de cena a bissexualidade, eliminam  de imediato do ser e do idêntico toda a veleidade de um qualquer ir-sendo e, por fim, ver-se-ão na necessidade de defender que essa identidade do ser humano foi o que, nalguns casos, nunca apareceu, tendo assim o eu vivido aquilo que não era em-si, enquanto que a sua verdadeira identidade sexual (?) acabou por nunca despertar, isto é, segundo esta linha teórica é perfeitamente possível, o indivíduo, ao nível sexual, ir sendo aquilo que não é, enquanto que o que ele é verdadeiramente continuará não sendo até ao fim. Esta posição que reduz orientação e comportamento sexuais ao quadriculado de um qualquer balancete genético não é a adoptada por Ferzan Ozpetek, daí a atracção de Michele Mariani por Antónia em Le Fate Ignoranti e, em Mine Vaganti, Tomaso (Ricardo Scamarcio), apesar da relação fortemente apaixonada que vive com Marco, não consegue esconder o fascínio que sente frente a Alba (Nicole Grimaudo). Dito de outro modo: nos filmes de Ozpetek muitos são os casos contemplados pela objectiva do realizador, mas no seu todo predominam as influências do quotiano, da aprendizagem entre grupos, dos esquemas de género sexual aberto e do jogo; jogo esse que, nesta obra, jamais tem uma função oportunista ou de destruição do outro, antes se identifica com o cativar de Exupéry e com o platónico desejo de complementaridade: busco no outro aquilo que me falta, para que ele colha em mim o que lhe aprouver e achar por bem.
Partamos, então, desse conceito de jogo. No início de Le Fate Ignoranti (2001) Ferzan Ozpetek mostra-nos uma mulher vendo uma exposição. Ela está frente a um busto de Antínoo. Um homem aproxima-se e tenta seduzi-la, critica aquele que a deixou ali sozinha, já que menosprezou a sua beleza. Pela indimentária, pelo discurso e pelo ritual de sedução o espectador percebe que está frente a um par da burguesia média-alta. A perseverança do homem não cessa. Ela continua sorrindo. E é só quando ele a abraça pela cintura que nós percebemos que aquela etapa do jogo terminou - estamos frente a marido e mulher; e mais: estamos frente a dois seres cúmplices e que conseguem partilhar coisas importantes. Antónia, a mulher, é médica, e dias depois, quando sentenciava um dos seus doentes de uma situação de seropositividade, recebe o fatídico telefonema comunicando o atropelamento, e morte, desse tal homem com quem vivera em harmonia perfeita. A partir daqui a acção adquire um outro ritmo: Antónia (Margherita Buy), mexendo nas coisas do marido, encontra um quadro que tem uma dedicatória por trás: " A Massimo, pelos sete anos passados juntos. Pela parte de ti que me falta e que eu jamais terei. Por todos os momentos em que me disseste "não posso" e por todos os outros em que me disseste "voltarei". Poderei chamar à minha paciência amor? Mariani." Toda a consistência do universo de Antónia se estatela nessa casa onde ela vivera, a dois, aquilo que não entendia já. Procurando Mariani, a outra, Antónia vai ter a um apartamento onde coabitam os mais diversificados tipos de pessoas: uma gentil e doce cinquentona que vive com um negro, uma transexual, uma empregada de um super que nunca acerta nos namorados, um casal de homessexuais masculinos... Mas Antónia insiste. Quer conhecer a Sra. Mariani. Volta e volta àquele apartamento e... acaba encontrando um rapaz: Michele Mariani (Stefano Accorsi). A relação que se vai estabelecendo entre Antónia e Michele não cabe nos canhenhos dos inventariadores de orientações  sexuais que se baseiam apenas no genético para determinação destas, contudo - algo obsessivamente - ela tenta saber se o marido ainda tivera mais alguém: "nem homem, nem mulher - diz-lhe Michele-  Ele só nos teve a nós dois." E assim ficam presos um ao outro pela perda, pela memória, pela poesia de Hikmet e talvez por algo mais, como se percebe no final do filme, pois, se havia entre eles a crença de que sempre que se partia um copo era alguém que também partia, após a tentativa de fuga de Antónia, Michele atira um copo ao chão, mas... este não se parte.
Em 2003, com La finestra di fronte, Ferzan Ozpetek parece-nos querer homenagear Hitchcock pela semelhança adoptada com um título de 1954 deste último realizador: também aqui a janela indiscreta é o elemento primeiro e coadjuvante de todos os mistérios que se irão tecendo. Ozpetek constrói uma narrativa entrecruzada: a) uma acção passada em Roma, nos inícios dos anos 40, quando nazis e colaboracionistas decidem caçar os judeus da cidade; b) uma outra, que se desenrola com um casal da pequena burguesia vivendo pacatamente com os seus empregos, os seus filhos, as suas domésticas desavenças e aspirações. Todavia, e mais uma vez, o meio vem jogar aqui a sua cartada quando a mulher começa a espiar o vizinho da janela em frente, é então que se percebe que a linearidade das vidas ritualizadas tem muito mais no seu fundo do que à primeira vista se julgava ver, até porque o observado já vinha sendo também observador. Os dois níveis da narração acabam confluindo a partir de certa altura: o jovem que, em 1943, tivera de matar o patrão delator, que o mantinha vigiado, para ir a correr salvar todos os outros judeus, é hoje um velho demenciado que vai parar a casa de Giovanna (Giovanna Mezzogiorno) e Filippo (Filippo Nigro) que, por sua vez, tentam entregá-lo à polícia, embora sem sucesso. Lorenzo (Raoul Boya), o vizinho da janela em frente, é também sugado para dentro da estória deste velho cujos passado e presente passam a invadir todas as personagens, descobrindo-se, finalmente, a sua identidade: Davide Veroli (Massimo Girotti), aquele que em 1943 salvara tantos dos que o apontaram e, por essa necessidade de demonstrar a sua dignidade a quem o marginalizara, já não fora a tempo de salvar Simone, o seu amigo e companheiro. Este é um dos filmes de Ozpetek onde as preocupações sociais e políticas são mais vincadas, mas não descurando nunca a abordagem das questões psicológicas, afectivas e relacionais, por vezes até com alguma ironia, como quando uma das colegas de Giovanna a espicaça para uma aventura extraconjugal, dizendo-lhe que o casamento dela, com quinze anos, era quase incesto. É aqui que o golpe de mestre de Ozpetek atinge um dos seus pontos mais altos, cruzando a estória homossexual de Davide e Simone com a estória heterossexual de Giovanna e Lorenzo através de uma cena emblemática: Lorenzo, d' a janela em frente, narra a Giovanna uma crise demencial de Davide a que acabara de assistir: "Amar-te-ei sempre... Temos de nos amar em segredo..." Dissera Davide a Simone e diz também agora Lorenzo, pelo telefone, de janela para janela, a uma giovanna que ele não deixa de fitar e que também o olha entre o êxtase e o pânico, pois sabe que pode ser surpreendida pelo marido a qualquer instante. Esta sobreposição dos planos remete-nos para o início deste artigo: o que é universal (a frustração ante a perda, as concretizações subreptícias, a mágoa de jamais se poder ser em absoluto, etc.) é transversal a todos os seres humanos, assim, é sendo englobante que tem a importância que tem, e que - eventualmente - até poderá ser muita, no entanto, o que dói verdadeiramente é o processo de singularização, é ao nível do concreto, é o modo como cada um vive essas experiências, e aí cada qual é o seu mundo, não dependendo da cor, do credo religioso, do género, da etnia, da orientação sexual ou ideológica. Há inúmeras cenas nos filmes de Ozpetek (ligações inter-raciais, operárias chinesas, domésticas budistas, burguesas caucasianas com amantes ocultos, etc.) que fundamentam esta ideia do primado do particular, território verdadeiramente real e objectivo, espaço a respeitar porque único, irrepetível e não sujeito a permuta.
Com Mine Vaganti (2010) a intriga torna-se muito mais complexa e o tipo de personagens mais diversificado, no entanto, manter-se-á a fluidez narrativa bem como a clareza dos propósitos, o que nos leva a continuar à distância do rocambolesco precipitado de Almodovar, e talvez mais próximos da técnica, da verosimilhança e do bom gosto de realizadores como Téchiné e Chéreau. O palco deste filme é a burguesia industrial e financeira de Lecce com os seus valores, as suas normas morais e, sobretudo, com o seu temor ao olhar do outro. A película circula sempre entre o rigor da análise e a, aparentemente anódina, desmontagem do grotesco. Tudo começa quando Tomaso (Riccardo Scamarcio) diz a António, o irmão, que durante o grande jantar dessa noite irá revelar à família a sua homossexualidade, ali, sem anestesia, percebe-se de imediato que o que está em causa não é bem o problema das orientações sexuais, mas a despótica figura paterna. E isso é confirmado durante a refeição, pois quando Tomaso pretende tomar a palavra, aquele mesmo António decide antecipar-se, e faz ele a confissão da sua sexualidade, afinal tão idêntica à do irmão. Tomaso recua e a violência verbal que se segue desemboca na expulsão de António, pelo pai, do seio familiar. Este jantar, com visitas - Alba e a família -. disseca toda uma panóplia de personalidades, trabalho esse que será continuado durante um outro jantar, já após a vinda de Marco e de alguns amigos de Tomaso. Naquela casa cruzar-se-ão as mais diversificadas formas de cada um vivenciar a sua orientação sexual, por conseguinte, poder-se-á perguntar: o que há de comum entre a heterossexualidade de uma mãe apagada e submissa e a da sua cunhada ávida de experiências e desajustada em relação àquela ordem repressiva? Nada! O que há de comum entre a homossexualidade viril de Tomaso e Marco e as superficiais tontas vindas de Roma? Nada! Ozpetek usa esta família como em Sociologia, ou em Psicologia Social, se usam as amostras, para a verificação de uma qualquer hipótese, e a observação, aqui nitidamente provocada, tem por função dissecar algo dinâmico e multidireccional: os efeitos do processo de normalização. Ozpetek, durante uma entrevista que concedeu, tem mesmo o cuidado de substituir, corrigindo, o conceito de normalidade pelo de normalização.
Quais as plataformas de estabilidade possíveis durante um processo de normalização que é ele acidentado e aberto ao imprevisto? Apenas dois exemplos: uma das loucas de Roma não caça o tio de Tomaso porque a mulher deste está sempre atenta; Tomaso não investe mais em Alba porque a sua relação com Marco funciona plenamente, contudo aqui mantém-se sempre uma certa ambiguidade, ilustrada pela cena da praia quando Marco e Alba cabriolam na rebentação das ondas, e Tomaso, do alto da duna, olha ambos como ar de um homem que tem ante si tudo e nada mais pode desejar, aliás, o ele decidir juntar-se às brincadeiras dos dois tem uma simbologia bastante clara.
É evidente que Salvatore, o tio de Tomaso, se mantém com a mulher; é evidente que Alba não destrona Marco, mas o que aparece claro no cinema de Ferzan Ozpetek é que são várias as formas de cada um vivenciar a sua orientação sexual e não parece que os mecanismos de índole genética sejam os únicos responsáveis pela orientação da orientação, ou da identidade sexual se se preferir este caminho. Claude Aron, na sua função de académico mas também de fisiologista da reprodução, fala assim das experiências de Hammer com gémeos homossexuais: "(...) mais Hammer reconnut lui-même que d'autres facteurs sont nécessairement impliqués dans le déterminisme de l'homosexualité puisque certains sujets expriment cette orientation sexuelle en l'absence du gene qui d'autres en serait responsable. Ce gene restera d'ailleurs hypothétique jusqu'à ce qu'il soit cloné et donc identifié; et surtout retrouvé dans d'autres enquêtes familiales. Je conçois mal les mécanismes d'action d'un gene de l'homosexualité. S' éxprime-t-il dans l' INAH3? Qu'elle vision simplificatrice à l'égard de la complexitè des mécanismes de la bisexualité chez l'animal! Je raisonne en physiologiste et non pas en psychanalyste. Pourtant je me refuse à un reductionisme biologique qui ferait une part moins belle chez l'Homme que chez l'animal aux facteurs de l'environnement dans les conduites sexueles." ( In La bisexualité et l'ordre de la natures, pp 271-272. Ao longo de toda esta obra Aron chama a atenção para inúmeros factores bio-fisiológicos que estão na base da orientação sexual, ironizando mesmo - nas páginas 281/2 sobre o gene da heterossexualidade - e na página 282 é irredutível: "Le concept de bisexualité de la gonade a été le fruit de longues et patientes recherches embryologiques. Celui de bisexualité comportamentale a des racines mythologiques." Numa perspectiva sociológica é importante também a leitura de "Dupla Atracção" de Martin S. Weinberg, Colin J. Williams e Douglas W. Pryor, sobretudo, na edição portuguesa, das páginas 183-186. Se se pretender - nesta tentativa de se recusar a exclusividade do genético na determinação mecânica da orientação sexual - encetar uma abordagem a partir da História, são importantes as obras de autores como John Boswell e William Naphy. Pesquisar também, na net, o artigo "Heteroinquisidores" de Debora Diniz - antropóloga, investigadora e professora na Universidade de Brasília -, é um texto muito interessante sobre a interdição do corpo do pai ao filho - fenómeno que não acontece na relação mãe/filha - e que orientará o modo como a maioria dos homens passará a ver/sentir o corpo dos outros homens, aqui seria importante comparar depois o modo como o afável Lorenzo de La finestra di fronte abraça/acolhe o velho Davide e como, por oposição, em Mine Vaganti, o tirânico pai se refere ao corpo masculino, sobretudo no monólogo da confeitaria).
Á tese de Tomás de Aquino, depois retomada por certos movimentos estéticos nomeadamente o neorrealismo, de que a arte tinha por função a imitação da natureza - no segundo caso da natureza humanizada na sua vertente social, económica e política - acrescentou-se hoje a noção de que a realidade imita ela o cinema, sendo assim, e um pouco na linha da Claude Aron, cabe-nos a estupefacção de que um comportamento tão complexo como é o sexual, de que uma função tão determinante como é a orientação sexual possam, para alguns, ser submetidos a um processo explicativo afinal tão simples e primário, como aquele que tem sido defendido por certos investigadores mais ligados ao campo da biologia e da genética. Talvez não fosse despiciente um olhar para os trabalhos de outras ciências, para as reflexões de tipo filosófi co e - porque não? - para o que acontece mesmo ao nosso lado, nas ruas e... no cinema.
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  Victor Oliveira Mateus in " Revista TriploV - De Arte, Religiões e Ciências ", Nova Série, 2011, Número 19 - 20.
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24/05/11

Apresentação do livro "reflexões à boca de cena"

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 REALIDADE E REPRESENTAÇÃO NA POESIA DE JOÃO RICARDO LOPES

"reflexões à boca de cena" de João Ricardo Lopes, quer pelo título quer por alguns dos seus elementos constitutivos, poder-nos-ia levar a considerar, segundo um olhar apressado e desatento, que estamos perante um livro de poesia tomando a dramaturgia como seu nó central e aglutinador. Contudo, na minha leitura, este aceno interpretativo é marca de uma ambiguidade procurada que irá funcionar como chave da real preocupação da obra, isto é, o território da teatralidade não é mais do que um pré-texto daquilo que ao poeta se impõe de modo insofismável - o ser humano enquanto actor social... com os seus desencantos, os seus rasgos de lucidez, as suas paixões.
Ao carácter abrupto do início da obra: abre-se o pano e eles existem (p 8), segue-se um desfilar de figurantes - qual corso atribulado e premonitório - que atravessa todo o palco-cidade onde somos chamados a estar: os que vociferam de calças na arregaçadas (p 8), bobos e anões, cuspidores de fogo/ a meretriz das sardas... ( p 12), um borrachão com a língua de fora, assim como os cães vasculham a noite (p 28). De imediato me agradou esta concepção do labor poético que tão bem articula o esquadrinhar contínuo do mundo interior, que tem um dos seus pontos altos no poema O actor olha-se ao espelho (p 70):

não esperes tanto por mim
não tenho futuro
como passado não tive.
belo talvez seja
porém cru
não menos que estátua
nem melhor do que areia.
como toda a criatura
o que sou não sou.
as mãos ardem-me de frio
e talvez esteja já morto
ou longe de mais.
não esperes tanto por mim
não sabes quem esperas

(este belíssimo solilóquio traz para o proscénio um dos mais interessantes temas de reflexão sobre poesia: a relação do eu com o seu duplo) com um olhar atento e perscrutador do mundo exterior - veja-se, por exemplo, um excerto do poema No centro do palco ( p 56):

no centro do palco as lâmpadas e os adereços
descascam amorosamente batatas
limpam o ranho à filhota das tranças
a plateia está absoluta no encalço da cena
só respiração e alguma tosse medindo
a qualidade de representação.
(...)
uma diversão a vida, um estaleiro de pequenos poemas
( e quem precisa dos enormes?), uma pantomina.
e no fim as palmas, as palmas abundantes
o aceno imprescindível da multidão (sê-lo-á?)
bravos, euforia, teatro delicado
é isto a vida, isto sim, a poesia

Este equilíbrio, este subtil - e arguto - doseamento do interno e do externo, este relacionar que adquire mesmo foros de miscigenação, é, no meu entender, um dos pontos altos da voz poética de João Ricardo Lopes: viver é estar num palco de múltiplos cenários, viver é representar dados papéis repletos de conflitos (não só inter-papeis, mas também intrapapel!), viver é esta incessante procura de um Equilíbrio Instável ( tomando agora de empréstimo - assumidamente - o título da peça de Edward Albee, que Tony Richardson passaria exemplarmente para o cinema com a mítica Katharine Hepburn), equilíbrio entre o dentro e o fora de nós, mas viver é, acima de tudo, a lucidez e a fidelidade: a nós próprios, aos que nos amam ( porque no esboroado palco do hoje já só esses contam!), ao indizível milagre de estarmos vivos neste espaço que nos foi concedido e de que urge cuidar. Quanto ao exterior, ele irrompe em vários poemas deste livro:

(...)
este circo engraçado, colorido, oco por dentro
tanto como por fora - frágil sim, como na moleirinha
dos teus sonhos

  ( p 10)

(...)
há entre nós esta cidade inteira
esta lâmina de silêncio que nos
atravessa ao meio...

  (p 30)

Este estado de alma do sujeito-poético, que é simultanemanente desorientação e vontade de resistir, perpassa toda a obra unindo-se a uma dicotomia que o autor expressa nas mais diversas situações - a escuridão e a luminosidade:

com a boca às escuras, a minha saudade
ela apenas, escuta-a, escuta-a só

  ( p 20)

A noite é para não dizer nada.

  ( p 42)

é na sombra a mais possível das germinações
na penumbra, no poema
na esquina obscura de todo o palco

  ( p 74)

Interessante é também o facto de João Ricardo Lopes não conceder à referida luminosidade nenhum estatuto redentor, antes pelo contrário: todo a emergência do possível encontra-se constante e ininterruptamente  ameaçada:

  "Ruído"

tudo o que disse não disse.
luzes negrentas cevando os olhos
como se cedo fosse já tão tarde.
uma janela declina sobre nós
a pálpebra rude e silenciosa.
que tenha valido a pena. Tudo

  ( p 46)

Frente à lucidez com que se observa o palco e cujas variáveis nos têm sido mostradas, e fundamentadas, nas últimas décadas; frente a esta representação fétida e de mau gosto esventrada à saciedade por vários autores: o vazio e o consumismo (por Baudrillard, Lipovetsky, etc.), a ganância e a perversa manipulação do outro, apenas para que a gratuita exibição de poder conste ( por Singer, Hirigoyen, etc.), enfim, frente a uma cidade esfacelada e à deriva, o eu-poético resgata a ousadia da espera e da reinvenção:

" Alquimicamente"

também eu possuo uma retorta enganadora.
transformar em ouro o teu coração de pedra
nunca foi fácil e o fracasso sacode-me o sono em
estremeções desalmados, sou eu quem te
chama e há um caminho de árvores entre nós.
és longínqua e ris de cada vez que me explode
a decepção e eu juro acabar assim, esfarrapado
vencido e sem ti. mas o poema renasce e eu
renasço devagar. um coração de ouro é coisa de
que não se desiste. Nem até à loucura, nem até ela

   ( p 60)

João Ricardo Lopes coloca a sua escrita no seio desse paradigma que é o do sentir e ser do homem contemporâneo e acerca do qual tanto se tem escrito também nos últimos anos, veja-se. por exemplo, "Les uns avec les autres - Quand l'individualisme crée du lien" de François de Singly. Nesta poesia estamos perante um lirismo que respira e traduz, não só temas que são de todos os tempos, mas também inquietações bem delineadas no hoje, aliás, e já que falei da obra de Singly, poderei acrescentar que a situação de desacerto com o mundo em que se encontra o eu-poético é atenuada fortemente, mas jamais resolvida, pela presença da amada. Contudo - e pormenor interessante - esta amada, tal como a peça do primeiro verso do livro, surge abruptamente; as suas aparições são sempre da ordem do contingente e do ameaçado ( cf. p 14, o poema que dá o nome ao livro); a amada traz consigo algo de salvífico, todavia é sempre de uma salvação possível de que se fala, jamais de uma salvação necessária: o poema "Ligústia" ( p 40) traduz de forma magistral esta carência, já que, apesar da amada ser tão bela, a noite não cessa de vigiar o poeta, de o procurar. Há, pois, uma falha essencial na alma desta voz, um espaço impreenchido - e impreenchível -, uma clareira onde todo o mundo poderia caber, mas de onde a sua poesia e a sua busca extravasam. Dizem os grandes estudiosos destes temas ( e estou a lembrar-me dessa figura enorme que foi Martine Broda) que esta busca fundamental (da Coisa) é a marca dos grandes poetas, pois eu - qual eterno aprendiz como Sérgio! - encontrei-a nesta obra de João Ricardo Lopes. E não apenas isso: a extrema poeticidade deste livro e a pertinente acuidade com que se olha temas e subtemas acabam desembocando numa apurada estrutura concebida para enfatizar os intentos originários do autor: à permanência do palco, à sucessão dos actos, às intermináveis reflexões mesmo ali à boca de cena, terá corresponder a figura óbvia, e desalentadamente rotineira, da continuidade da peça. Por tudo isto, à medida que o livro de vai aproximando do seu fim, ele aproxima-se igualmente de um princípio - veja-se este excerto do penúltimo poema:

 "Regressar"

regressar regressa-se de muita maneira
a casa, à noite, às vezes, nunca mais, para sempre.
mas igualmente a depois da casa, a nós próprios
ao toque da mobília, ao cheiro do sabonete
a outros tempos, à altura em que, a de novo agora
...
porque é assim a vida, porque inifinita graça é a de
emendar a réplica, porque sim, porque assim é o
teatro do coração, porque redondo é o olhar
porque no fim é o princípio, porque, porque sim

   ( p 104)

Neste vivenciar, simultaneamente usual e novo, de um quotidiano que, sendo de tantos, é também de todos, o contra-regra endereça-nos o derradeiro poema deste itinerário poético: Prólogo - é o último título da representação. Que prossiga, então, a realidade, essa miríade de cenas que vamos atravessando... e que inexoravelmente nos atravessam também.

                                 Victor Oliveira Mateus
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21/05/11

Acerca da Poesia de Vera Lúcia de Oliveira

      Vera Lúcia de Oliveira,
                                                                                     Victor Oliveira Mateus
                                                                         e Filipa Barata.
                                                                                                     Livraria "Pó dos Livros" (20/5/2011).

(Clicar sobre a imagem.)
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O primeiro tópico que me ocorreu quando pensei falar da poesia de Vera Lúcia de Oliveira, prende-se com o modo límpido como esta autora se relaciona com a Linguagem, um modo desprovido de quaisquer prestidigitações estilísticas ou efeitos que poderiam correr o risco de empobrecer os seus poemas. Contudo, a autora conhece bem o terreno onde se move... Muitos de nós lemos, em tempos, uma célebre obra do Prof. Cerqueira Gonçalves, onde ele, traçando identificações entre os textos literário e filosófico, dizia que um dos motivos dessas aproximações se ficava a dever ao facto de ambos usarem a Linguagem natural. Não pretendendo ir por aí agora, gostaria apenas de dizer que a poesia, no seu discorrer, não é, nunca foi, nem conseguirá ser, até pelo facto de não poder recorrer à eficácia das Linguagens artificiais e dos  procedimentos lógicos, um discurso que apreenda rigorosamente as múltiplas vertentes da experiência humana, quer quanto à sua totalidade quer naquilo que elas são em si mesmas. Aliás, e relacionado com isto, poder-se-á até fazer, ao nível de uma sabedoria espontânea, a seguinte experiência: se eu disser branco - e partindo de hipótese que o receptor não tem qualquer lesão na área cerebral  que irá receber este estímulo auditivo nem na área secundária que o irá interpretar e coordenar -, no cérebro desse mesmo receptor formar-se-á a representação, não do azul nem do vermelho, mas do branco, o problema colocar-se-á ao nível da gradação das coincidências, do mesmo modo se entrarmos numa loja para comprar tinta branca imediatamente o empregado nos mostrará um catálogo com uma ou duas dezenas de brancos. Não me parece que fique mal a seguir a Cerqueira Gonçalves citar um ensaio de Antonio Brasileiro (A Estética da Sinceridade, p 14), onde o autor, com uma certa ironia nos diz: "Há pouco tempo um desses tipos que está sempre em dia com a última moda do intelecto tentou me convencer de que a diferença entre um bom poema e uma bula de remédio, por exemplo, era nenhuma. Produtos culturais ambos. E só". Ora este é, para mim, o primeiro segredo da arte de Vera Lúcia de Oliveira: movendo-se numa Linguagem despojada, num poema curto e num estilo que recusa todo o tipo de ornado, a poeta insiste em escrever poesia... e não bula de remédio; ela sabe que falar de algo, na prática, será sempre do campo do aproximativo e do incompleto::

"Teoria e prática"

não tinha termo não tinha jeito
de falar do que era uma perda
vivera e aprendera em todos
os livros que dentro da vida
há morte mas uma coisa é a teoria
outra a prática

  ( in A Poesia é um Estado de Transe, p 14)

Ou ainda:

"Por trás"

por trás do olho
sustar é perigoso

por trás do olho
respira sempre um outro
olho suspeitoso
palpar por dentro é vão
por onde um novo olho sobreposto
espreita o mesmo vão

 (in op. cit. p 24)

A autora, em certos poemas, fala-nos mesmo da contaminação (ou do desdobramento) que a Pragmática acaba introduzindo no seio de Linguagem:

" Tem palavras"

tem palavras que têm cicatrizes
a palavra apego, a palavra parto
a palavra tempo
dentro elas são de madeira
dentro elas se impregnam
quando a chuva bate na janela
penetra os poros

( in op. cit. p 13)

Finalmente, e relativamente a este tópico, posso ainda acrescentar que Vera Lúcia de Oliveira articulando a concisão do seu dizer poético com um subtil manejo do código linguístico e do cânone literário entra pelo universo da narratividade adentro, fugindo às armadilhas da microficção e tecendo antes poemas que adquirem uma certa função de alegoria dentro de um universo socio-cultural específico. Veja-se, por exemplo, o seguinte:

"A igreja"

a igreja brilhava em silêncio as pombas
do espírito santo voavam de vez em quando
as andorinhas tinham seus ninhos o padre
que mandara trocar o pavimento por mármore
da mais fina proveniência vivia em eterna luta
com os pássaros amaldiçoados que evacuavam
por toda a parte

( in No Coração da Boca, p 45)

Fugindo à tese que a poesia retrata fielmente o real ( numa época em que até a Fotografia, bem como o Cinema, afastaram já de si tal pretensão anacrónica de se deixarem restringir a uma única função da Arte) apercebemo-nos, neste último poema, de uma série de remissões e abrangentes sentidos (as pombas do espírito santo a fazerem-nos lembrar Alberto Caeiro; a luta do padre solitário contra os pássaros, inclusivé contra os de natureza divina, que enchiam de esterco a igreja, etc.) que nos dão a ver o modo arguto - e apetece-me mesmo dizer: sibilino! - com que a poeta tece os seus textos, assim como todo um universo poemático.
Neste segundo tópico ocorre-me dizer que não foi por acaso que acabei de utilizar o verbo tecer. A imagem da poeta, ao longo da leitura dos seus livros, foi-me surgindo sempre geminada com uma outra - a da tecedeira. Assim, foi com alegria que encontrei, dias depois do início das minhas leituras, através da mão do grande poeta e ensaísta que é Lêdo Ivo, a confirmação do que em mim temia ser mais do que pura conjectura: diz-nos, pois, o referido académico no seu Prefácio ao No coração da boca, que a autora "(...) recusa o fulgor e o esplendor, preferindo o caminho dos monólogos desolados que registram o desamparo e a colisão de seres miúdos, de pequenas vidas aflitas (...) O tecido poético de Vera Lúcia de Oliveira não é uma tapeçaria, antes um estopa (...) A poesia é construção, desconstrução, reconstrução. Vera Lúcia de Oliveira constrói, desconstrói e reconstrói: tece, destece e retece o tecido da vida." Suspeitando que o vocábulo estopa foi escolhido, aqui, como modo de clarificar um dado quotidiano socio-económico, continuarei a usar, fugindo agora delibaradamente ao rigor, o de tapeçaria. Pois nesta poesia, paralelamente à tentativa de apreensão de uma dada ordem, quer no corpo do mundo natural e do mundo humano, quer no corpo do próprio texto, há também um vincado intuito de com este nosso Todo entrar em comunicação directa - o transe deste seu último livro. Mas - e uma vez mais Vera Lúcia parece pretender baralhar incautos - através de um conceito que julgávamos que a tradição tinha clarificado, a poeta acaba falando-nos de outra coisa: o transe a que ela se refere não é o que podemos encontrar em vários autores, como por exemplo os místicos do século XVI espanhol, nestes estamos perante um movimento ascensional do sujeito visando uma transcendência que o supera ontologicamente e à qual se encontra subordinado, é esta a concepção de transe que encontramos em S. João da Cruz e Sta. Teresa de Ávila, por exemplo. Mas o transe de que nos fala Vera Lúcia tem o vector em sentido contrário, e, perdoem-me a heresia religioso-interpretativa: agora não é o indivíduo que se desprende do sensível para tentar chegar a Deus, é precisamente o contrário, ou seja, é o divino que, se quiser comunicar com alguém, ou entrar em contacto com quem escreve os seus versos e sente o real, terá de descer a um plano outro - veja-se por exemplo:

"Acordou de noite"

acordou de noite e disse que sufocava
que não conseguia respirar que uma angústia
dentro rasgava o pulmão as vértebras
não adiantava aquele remédio aquele leito
ela sabia
que na hora chegada
do dia que Deus tinha determinado
dentro da grande língua da terra
ela teria de entrar

  ( in A Poesia é um Estado de Transe, p 8 )

Atente-se ainda a um outro poema onde esse acto de ser tocado aparece agora com mais nitidez:

 "Há uns que são engenheiros"

há uns que são engenheiros
e calculam tempo e dimensão
do arcabouço
há uns que são carpinteiros
e medem ângulos exatos
interjeições da matéria
há uns que vagam no arcano
são medidos e tocados
até perceberem a proporção
correta de cada signo
que revela o mistério

 ( in op. cit. p 14)

É este, na minha leitura, o transe de que nos fala Vera Lúcia de Oliveira na sua elaborada e paciente tapeçaria poética: não uma subida para se juntar, num outro plano, à divindade, mas um vivenciar, no aqui, tudo aquilo que, nas coisas e nos seres, é extra-ordinário e divino, pois não nos enganemos, o mistério de que ela nos fala, e como escreve no poema com  o mesmo nome, não carrega vozes, ele está antes na aragem, na cozinha, nas panelas limpas/ nas tampas penduradas nas hastes/ na goteira incessante da pia. Dito de outro modo: o mistério está por todo o lado e resulta desse contacto directo com o divino destas mesmas coisas e destes mesmos seres, através dessa apreensão, que, como a poeta também nos diz, dá-nos a proporção correcta. Para finalizar, regresso ao ensaio de Antonio Brasileiro, volto de novo à questão da Linguagem e do fazer poético. Refere este autor, após algumas citações de Valéry, que a poesia é resistência, resistência e sobrevivência, e que " numa época de simplificação da linguagem, e de insensibilidade em relação às formas, há que pensar mesmo na poesia como uma coisa preservada", ou, posso eu acrescentar, como coisa a preservar. É isto exactamente o que faz Vera Lúcia de Oliveira: numa Linguagem, que, optando pela clareza, mas nada tendo de simplificação, como acabámos de ver, resgata o divino que existe em tudo aquilo que -para usar aqui um termo tão caro à mundividência llansolinana -; nos mais banais, e muitas vezes sofridos, gestos do quotidiano, a poeta recupera (e preserva) o que neles é essencial, e com eles consegue esse transe que é motor e matéria prima da sua poesia.

                                                                    Victor Oliveira Mateus
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