Mostrar mensagens com a etiqueta ZZ - Teatro/Cinema/Música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ZZ - Teatro/Cinema/Música. Mostrar todas as mensagens

07/10/13


.
   Decididamente este fim de semana foi momento de cinema. Havia muita coisa para ver e, quando se juntam sete pessoas, há sempre que fazer concessões. Isto para dizer que, por vontade minha, não teria visto o "Por detrás do candelabro" (Behind the candelabra, 2013) e não o teria visto porque não gosto da música de Liberace e o seu tipo de vedetismo sempre me irritou.
   Steven Soderbergh não faz parte dos meus realizadores preferidos, apesar de ter realizado dois dos meus filmes de cabeceira: "Sexo, mentiras e vídeo " (1989) e "Kafka" (1991), a partir daqui pouco do seu trabalho me tem motivado, contudo - devo confessar - estava desejoso de ver o desempenho de alguns actores em "Candelabro" e, nesse aspecto, valeu a pena!
   Soderbergh retrata no seu filme os últimos anos da grande vedeta que foi Liberace (16/5/1919 - 4/2/1987), papel desempenhado magistralmente por Michael Douglas, sobretudo dando ênfase à relação que o cantor manteve com um dos seus últimos amantes, Scott Thorson, interpretação a cargo de Matt Damon. Relação secreta, tumultuosa, com uma enorme diferença de idades e onde os dois eram de proveniência social bem distinta, mas que, apesar de tantos contras, durou ano após ano. E foi exactamente isto que fez com que me convencessem a ver o filme: como pegariam nos respectivos papéis um Michael Douglas e um Matt Damon que toda a vida vimos em heterossexualíssimos desempenhos? Fiquei estarrecido! Creio mesmo que é assim que se vêem os grandes actores. As recriações feitas por estes dois senhores são do melhor que tenho visto! Outro pormenor: Soderbergh vai buscar a retirada Debbie Reynolds para desempenhar o papel da desmemoriada mas astuta mãe de Liberace. O resto do elenco também é de luxo: Rob Lowe, Dan Aykroyd, Scott Bakula... Conclusão: se não tivesse visto o filme não teria perdido nada de especial, mas se não tivesse visto aqui as fabulosas interpretações de Douglas, Damon e Reynolds teria perdido MUITO. Como é que se consegue uma coisa sem a outra? Não se consegue!
.

06/10/13


.
.
Margarethe von Trotta, juntamente com Schlondorff e Fassbinder, é uma das impulsionadoras do novo cinema alemão. De entre a sua conceituada obra contam-se filmes como: "Anos de Chumbo" (1981), sobre os grupos de guerrilha que atuaram nos países ricos da Europa ainda não há muito tempo, e "Rosa Luxemburgo " (1986), a ativista e filósofa marxista assassinada pela direita nazi na Alemanha. Não deixa de ser significativo que, nos dias de hoje, Madame von Trotta vá exactamente fazer um filme sobre uma filósofa a quem o problema do Mal tanto obcecou - Hanna Arendt.
 O filme "Hanna Arendt" (2012), cujo papel principal é magistralmente representado por Barbara Sukowa, narra a posição da filósofa alemã, não só relativamente à questão do Mal, mas sobretudo demonstra como ela chega às suas conclusões (PENSANDO e... VENDO!) através do julgamento de Eichmann em Jerusalém. O filme, em cenas secundárias, mostra-nos ainda aquilo que foi a consumada paixão de Hanna Arendt pelo seu velho mestre, Martin Heidegger, e como ela dele se desiludiu e afastou após ter descobrido as ligações deste ao Partido Nazi, vê-se ainda a sua amizade com o casal Jonas em várias ocasiões, contudo, o filósofo Hans Jonas viria a romper com Hanna Arendt após a publicação que esta fez do seu texto sobre Eichmann.
Adolf Eichmann (19/3/1906 - 31/5/1962), oficial das SS, foi um dos maiores organizadores do holocausto: pelas mãos dele foram encaminhadas para morte milhões e milhões e milhões de pessoas. Após a derrota nazi na 2ª Grande Guerra, Eichmann consegue um passaporte falso da Cruz Vermelha e esconde-se na Argentina, onde passa a viver clandestinamente. Em 1960 a Mossad localiza-o e rapta-o para logo o colocar em Israel, mais propriamente diante de um tribunal em Jerusalem, ante o qual Eichmann terá de responder por crimes de guerra e por crimes contra a humanidade. Considerado culpado, Eichmann é executado em 1962.
Ora sucede que Hanna Arendt é encarregada, pelo jornal para o qual trabalha, de ir VER/ASSISTIR ao julgamento de Eichmann. A primeira coisa que a surpreende é que aquilo que vê dentro de uma jaula de vidro não é propriamente o monstro que esperava ir ver, mas antes um zé-ninguém engripado. Aquele indivíduo nunca ligou uma válvula ou uma torneira para gasear pessoas, ele nunca empurrou ninguém para dentro de camionetas que gaseavam, ele, conforme afirmava no tribunal, limitava-se a ser fiel a um juramente e a uma dada noção de dever. Este foi o primeiro grande choque de Hanna Arendt, ela não conseguia estabelecer nenhum elo de causalidade direta entre qualquer ação de Eichmann e as mortes concretas que os seus comportamentos jamais se esforçaram por impedir. ONDE PROCURAR ENTÃO A CAUSA DO MAL? E a resposta de Hanna Arendt foi depois bem clara: primeiro, é possível existirem momentos na História e nas Sociedades em que, apesar de dotados de CONSCIÊNCIA, os indivíduos não exercem o PENSAMENTO (veja-se com atenção todos os diálogos do filme que abordam a questão da consciência, do pensamento e da culpa!) acabando assim por levar ao sofrimento e à morte muitos seres humanos; segundo, esses indivíduos, ESSES ZÉS-NINGUÉM são o que mais existe nesses momentos nas referidas sociedades edificando assim, e fortificando, A BANALIDADE DO MAL. A filósofa diz mesmo, em certo momento do filme: "o Mal nunca é radical, radical só o Bem, mas o Mal pode ser extremo e profundo" quando propagado pelos incapazes de pensar. O filme levanta depois outras questões, como por exemplo o papel dos Conselhos Judaicos nos países ocupados, questão a que a autora não consegue responder a 100%, embora assumindo que eles também participaram em mortes e que...  "entre a consumação da ação odienta e o leque de possibilidades devem existir muitas posições", mas aqui Hanna Arendt não conclui o raciocínio.
As posições da filósofa levantariam depois um coro de ódios, ameaças e acusações, nomeadamente a de estar a defender Eichmann e é a essas acusações que ela responde aqui nesta aula dada num anfiteatro.
Acabo apenas dizendo que não creio ser por acaso que um nome prestigiado como Margarethe von Trotta, decide fazer um filme sobre "a banalidade do mal", sobre a "culpa dos zés-ninguém que se recusam a pensar", sobre "facilidade com que indivíduos que dizem que se limitam a cumprir ordens "(como Eichmann o faz no tribunal!) acabam conduzindo ao sofrimento, e até à morte, tantos seres humanos; não creio - repito - que na atual, e desumana, crise do capitalismo financeiro a feitura deste filme tenha sido trabalho gratuito e de mero passatempo.
.
(Mera sugestão- "Eichmann em Jerusalem - Uma reportagem sobre a banalidade do mal" de Hanna Arendt, Edições Tenacitas, Coimbra, 2003; "As origens do totalitarismo" de Hanna Arendt, Dom Quixote, Lisboa, 2006).
.
.

13/09/13

Otto Sander ( 30/6/1941 - 12/9/2013 )


.Otto Sander interpretando o papel do Anjo Cassiel em AS ASAS DO DESEJO de Wim Wenders.
.
UMA SUGESTÃO: depois deste filme convém ver também TÃO LONGE, TÃO PERTO igualmente de Wim Wenders. O poema 24 (p 37) do meu Pelo Deserto as Minhas Mãos baseia-se nestes dois filmes (e em nada mais), aliás, a epígrafe refere mesmo uma cena belíssima com a Nastassja Kinski.
.

02/08/13


.
"Paixões Proibidas" (Two Mothers, 2013) é o novo filme da luxemburguesa Anne Fontaine baseado num conto da escritora britânica Doris Lessing (Prémio Nobel, 2007). Filme arrojado sobre o amor, a amizade e o poder, Two Mothers é um poderoso testemunho sobre o que une os seres humanos ou sobre aquilo que os poderá também desunir, esta obra é igualmente um corajoso afrontar de vários dos padrões da conformidade veiculados pela moral burguesa, que dogmaticamente se firmam como modelos normativos da ação ético-moral. Nesta película, duas amigas de infância - Lil (Naomi Watts) e Roz (Robin wright) - acabam por, anos depois, se apaixonar pelos filhos uma da outra - Ian (Xavier Samuel) e Tom (James Frecheville) -, este relacionamento, claustrofóbico e obsessivo, começa a desmoronar-se quando Tom se envolve com uma jovem da sua idade. As duas mulheres decidem, num rasgo de lucidez perante um envelhecimento que se avizinha, cortarem cerce a situação. Os dois jovens casam, têm filhas e lá vemos, então, as duas famílias "felizes" a caminho da praia com as duas "jovens-avós" mimando as netas. Tudo estaria "normal", tudo estaria equilibrado e bem arrumado nas prateleiras do socio-moral, tudo seria o melhor dos mundos não fora apenas uma coisa... uma coisa pequeniníssima, ínfima mesmo: é que nisto da atração entre os seres a vontade e a razão, por mais cenários que montem, contam muito pouco: Tom volta a reatar a sua relação com Lil, o filho desta, por sua vez, assedia Roz... e um dia as jovens esposas acabam por descobrir tudo e abandonam os maridos levando as filhas, o que, aliás, parece aliviá-los, sobretudo a Ian... Naquele círculo fechado, confirma-se: não cabe mais nada a não ser essa qualquer coisa de que os quatro não conseguem, nem querem, libertar-se, e que os puxa para um universo solar, uterino (a presença do mar e do sol é recorrente!) e onde apenas o presente conta (Ian chega mesmo a prometer a Roz, ante os pedidos dela, que jamais a deixará envelhecer!)... Doris Lessing é, decididamente, uma das minhas romancistas, e o filme é um arrebatado momento poético. A não perder!
.

20/07/13

 
 
"Dentro de Casa" (Dans la maison, 2012) é o penúltimo filme de François Ozon, que em 2013 apresenta já em Cannes o seu "Jeune et Jolie" onde lança a jovem Marine Vacth. A obra de Ozon conta com alguns filmes de culto como "8 femmes" e "Le temps qui reste", onde importantes nomes do ecrã são chamados a ótimos desempenhos. Em "Dentro da casa", grandes actores como Fabrice Luchini (Germain, o professor de literatura), Kristin Scott Thomas (a mulher de Germain) e Emmanuelle Seigner (a mãe de Rapha, um amigo de Claude) têm excelentes interpretações. A grande revelação é, sem sombra de dúvida, a de Ernst Umhauer no papel de Claude. Este filme, baseado na peça "El chico de la última fila" do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, situa-se no entrecruzar de vários géneros: o suspense, o melodrama e mesmo a sátira social, pois não nos podemos esquecer do olhar mordaz e cínico que Claude imprime aos seus relatos (as suas redações) quando descreve a família Rapha, cuja figura feminina é frequentemente referida de forma pejorativa como "a mulher da classe média". Tem a crítica assinalado duas influências importantes nesta película: "A janela indiscreta" de Hitchcock e "Teorema" de Pasolini, contudo, a minha leitura é ligeiramente diferente: a influência de Pasolini é mais formal do que de conteúdo, isto é, o herói do realizador italiano é um angustiado, um ser colocado no aberto da existência que nada pretende nem goza, e, se atendermos às concepções religiosas de Pasolini, quase se poderia dizer que estamos ante um anjo que anuncia, ora, Claude é exactamente o oposto. Claude é um manipulador, um perverso que colhe prazer no jogo e no domínio, esta personagem de Ozon, ao contrário da de Pasolini, nunca chega a partir (ver final do filme!), ela fica com a sua vítima porque precisa dela, deixar partir a vítima seria condenar-se a si próprio ao nada que suspeita ser. A construção da personagem de Ozon nada tem a ver, portanto, com a de Pasolini, também magistralmente interpretada, mas por Terence Stamp.
Por tudo isto, para mim, "Dentro de casa" não é apenas um filme sobre o voyeurismo, mas é, sobretudo, uma obra sobre a manipulação do outro e o domínio: Claude, um jovem de dezasseis anos
("loiro e tímido" como o descreve a empregada da secretaria da Escola!), introduz-se em casa de um colega de turma (Rapha), selecionado de forma gratuita, e a partir da observação directa dessa família vai tecendo uma teia de relatos que vão prendendo, cada vez mais, a atenção e o interesse do seu professor de literatura. Claude, para atingir os seus objectivos, cilindra tudo o que se lhe atravessa no caminho: ridiculariza Rapha, mantém um caso com a mãe deste, destrói a carreira profissional do professor, destrói igualmente o seu casamento já que chega ao ponto de ir para a cama com a mulher do professor... e, por fim, os seus objectivos (a certa altura do filme ele diz mesmo para Germain: eu sou como a Sherezzade que vai contando histórias para prender a atenção do sultão!) são conseguidos: o professor (em estado de depressão)! internado, desprotegido e ao seu dispor é completamente contaminado pelo seu voyeurismo. Claude tem, finalmente, à sua disposição, alguém com quem pode dialogar acerca de tudo, mas, principalmente, acerca das ficções que constrói a partir do que vai observando através das janelas. "Dentro de casa" de François Ozon é um filme brilhante!
.


26/05/13


.
"A Essência do Amor" (To The Wonder) é a mais recente película de Terrence Malick. Realizador americano conhecido por produzir pouco (a sua média estava num filme de sete em sete anos!), Malick tem, contudo, nos últimos tempos, dado ao seu público filmes com uma maior regularidade: "A Árvore da Vida" é de 2011 e está já, neste momento, a trabalhar numa outra obra. O presente filme aborda o encontro de Neil (Ben Affleck), na Europa, com Marina (Olga Kurylenko) que vive em Paris com uma filha de dez anos. Convencida a ir para o Estados Unidos com o companheiro, o casal irá experienciar aí todo um conjunto de situações, emoções e sentimentos, que justificam e fundamentam o título do filme. Após o fracasso desta estória amorosa, e do regresso de Marina a Paris, Neil envolve-se com uma antiga namorada (Rachel McAdams), mas súbito toma conhecimento do regresso de Marina aos Estados Unidos para se encontrar com outro alguém e o filme acaba exactamente aqui: um final aberto que nos deixa entrever que a estória de Marina e Neil, como todas as estórias de amor pleno (veja-se o título em português variante brasileira!), não está afinal definitivamente escrita... Fundamentalmente dicotómico o amor humano apresenta-se como um caminho de felicidade/sofrimento, alegria/dor, certezas/ dúvidas, arrebatamentos/ hesitações, etc, etc. A Essência do Amor não nos é dada a priori, o ser humano terá de a apreender e de a trabalhar em si através de um caminho muitas vezes agreste! Mas a estória deste amor humano entrecruza-se com uma outra relacionada com o amor divino, já que o padre da localidade deste casal (Javier Bardem) atravessa exactamente as mesma hesitações e a mesma dor em relação à matéria da sua crença - Deus.
 O tema central deste filme é, por conseguinte, uma reflexão cuidada e pormenorizada em torno do Amor, em torno de Deus e em torno dos momentos em que estas duas instâncias se interpenetram: "Deus não nos dá o que queremos mas aquilo de que, em dado momento, precisamos", diz uma das personagens. É igualmente uma reflexão que se processa através de uma narração fragmentada em que que a estória está constantemente a sofrer avanços e recuos; um filme também repleto de longos silêncios e de uma beleza e de uma poeticidade raras no cinema dos último anos. O quadro apresentado é de tal modo portentoso que nada é deixado ao acaso: a belíssima música de Hanan Townshend, a fotografia, os diálogos e/ou monólogos em quatro línguas (inglês, francês, espanhol e italiano), a beleza e autenticidade das expressões, sobretudo as faciais, a fazerem-me lembrar o melhor de Bergman, de Duras e até o "Paixão" de Godard ou o "As Asas do Desejo" de Wim Wenders - a alma destas personagens está-lhes constantemente inscrita no rosto, nos passos, nos olhos. Uma obra-prima!!!
.

13/05/13



 
Tarde no El Corte Inglês com um pequeno grupo: almoço, conversa, livraria, cinema... Com tanta coisa que tenho para ler, há muito que deixei de me debruçar sobre certas críticas: a de cinema é uma delas. Por vezes vou mesmo ao ponto de testar esta posição: quando os amigos me diziam que a crítica deitava abaixo dado filme da Liliana Cavani, eu já sabia que era obra a ver; quando hoje me anunciam que o filme X de David Lynch é unanimente louvado, percebo logo que é algo a evitar. Não me tenho dado nada mal com este meu método! Tudo isto para dizer que acabámos por ir ver o último do Costa-Gravas: "O Capital". À noite, e para me contradizer, resolvi ir ler as críticas que andam pela net. Deuses, uma indigência que arrepia! Para muitas das oraculares vozes analíticas o cinema de Gravas resume-se a...  ... um imediatismo que retrata o aqui e agora´, muitas vezes, através da parábola e da denúncia. E pronto, têm dito!!! Claro que fico sem saber como entram nesta caracterização dados diálogos; o do duche de Marc Tourneil (Gad Elmaleh) quando a mulher sente repulsa por ter de usar um vestido que acabara de custar 20.000E, aliás, as figuras femininas são neste filme - à excepção da "tonta" Claude!- personagens muito interessantes, são figuras da inconformidade e do conflito ético-moral que nada têm a ver com uma exposição crua do imediato. Outro momento também que escapa ao retratismo presentificado é o diálogo de Marc com o tio durante o almoço em casa dos pais, logo seguido da observação fugaz das crianças brincando com tudo o que é tecnológico - estamos, aqui, em pleno campo da análise simbólica ou até mesmo de cunho psicologizante, sobretudo se observarmos bem o filho de Marc. O próprio fim do filme nada tem de imediatista: é uma hipérbole onde se ridiculariza o sistema financeiro e, entrando mesmo pelo profético adentro, afirma explicitamente que a bolha acabará por rebentar, já que é da própria essência da todas as bolhas a sua implosão. No final do filme, e como corolário, Costa-Gravas não fala do imediato, fala-nos do futuro: o facto de ter optado por um monólogo para a camara (mais um!) e pelo fecho abrupto da acção parece indiciar um certo temor ante o inevitável que parece avizinhar-se. Este filme não é apenas uma denúncia, é também uma premonição com laivos de uma pedagogia derradeira e desesperada.
Excelentes desempenhos de Gad Elmaleh, Llya Kabele e dos veteranos Gabriel Byrne e Hippolyte Girardot..
.

15/04/13

O regresso de Tornatore.


.
" A Mellhor Oferta" de Giuseppe Tornatore com Geoffrey Rush (Virgil Oldman), Donald Sutherland e Jim Sturgess.
.
Os sentimentos humanos são como a obra de arte: nunca se consegue distinguir o que neles é verdadeiro das falsificações bem conseguidas. Conseguir-se-á separar na amizade e no amor aquilo que neles é autêntico e verdadeiro do que aí não passa de mentira e mero logro? Não, não se consegue e Virgil Oldman, um leiloeiro bem sucedido que ousa amar uma jovem desconhecida e confiar num amigo, aprenderá essa lição à sua custa e com um alto preço. Nenhum homem maduro deve mostrar o seu tesouro à primeira jovem que insiste em amar, aliás, o Fedro de Platão já começava exactamente com este dilema, mas à tese do filósofo, o cineasta contrapõe os riscos que corre quem não sabe separar as águas, isto é, não há qualquer garantia para quem demonstre o que tem de mais valioso e se, mesmo assim, insiste nessa demonstração está por sua conta e risco: esta parece ser a lição que o realizador pretende fazer passar. Expor uma obra de arte, ou um sentimento, é sempre um convite ao roubo, à traição: roubar uma parede cheia de quadros ou atraiçoar um mundo interior não faz, para quem rouba, qualquer diferença. Um filme a não perder, uma lição a manter intacta. Excelentes interpretações com Geoffrey Rush no seu melhor. Não descurar também a grande música de Morricone.
André Téchiné, em Les Voleurs, e Woody Allen, em Match Point, já tinham andado à volta deste tema: Téchiné de um modo bem mais labiríntico, enquanto que Woody Allen e Tornatore com um rigor na caracterização psicológica das personagens, que eu considero perfeito. 
.

06/10/12

Realidade e efabulações...


.
Nada vende melhor, em arte, do que um enredo fantasiado com alguma pitada de sexualidades heterodoxas: excita a curiosidade, sanciona processos de transferência que a nossa cobardia muitas vezes não permite a nós próprios.Assim,em "Les adieux à la reine" (Adeus, minha rainha), realizado por Benoît Jacquot, fala-se do relacionamento da rainha Maria Antonieta (Diane Kruger) com a Duquesa de Polignac (Virginie Ledoyen), relacionamento esse fortemente sexualizado e observado, com algum ciúme, pela camareira Sidonie Laborde (Léa Seydoux). Enfim, é a estafada estória que o fascínio, a admiração e a sedução entre seres do mesmo sexo tem de ter necessariamente um rótulo invulgar. Aliás, quando estava a ver o filme lembrei-me de uma passagem da "Crónica de D. João II" escrita por Garcia de Resende - obra que li há muitos anos!- e onde o próprio Garcia de Resende afirma que tinha tal intimidade com o rei que era a única pessoa que não precisava de bater à porta dos aposentos reais... pensei eu então: qualquer dia aparece aí um filme também a falar desses dois! Conclusão: esta hiperbolização do tema deixou-me já de pé atrás em relação ao filme, acresce depois que a nível técnico ele deixou-me também muito a desejar: a intriga arrasta-se, planos que se repetem desnecessariamente e, por vezes, senti mesmo a própria câmara tremer. Salva a obra as três grandes interpretações das actrizes em causa, grande parte do argumento de Gilles Taurand, e a fidelidade com que é retratada a decadência de Versalhes ante uma Revolução que desponta.
O filme passa-se entre 14 e 17 de julho de 1789 (incluindo, portanto, a célebre tomada da Bastilha!) e retrata a estupefacção e o pânico da Corte ante os acontecimentos que iam começando a alastrar de Paris a toda a França. Maria Antonieta, desprotegida perante os factos, agarra-se ainda mais à sua favorita, e tudo acontece sob o olhar embevecido, enciumado e algo desejante de Sidonie. É em torno deste triângulo que circula o filme, tendo os aspectos sócio-económicos um papel pouco relevante, apenas na cobiça e no desejo de vingança da criadagem frente ao desnorte dos nobres que abandonam a Corte uns a seguir aos outros. Pouco mais o filme me ofereceu...
É um facto que sabemos que a Duquesa de Polignac era extremamente bela, que suscitou em Versalhes o ódio da aristocracia mais antiga, que Maria Antonieta gastou fortunas para manter a sua favorita, o marido desta e os filhos, que este relacionamento foi mesmo uma das causas que mais ódio viria a trazer sobre a rainha, mas a atracção das duas mulheres não parece ter sido mais do que isso... A família Polignac conseguiria, ainda em 1789, refugiar-se na Suiça (no filme com o auxílio de Sidonie!) e viria a acabar por ter descendentes nalgumas casas reinantes da Europa... uma das avós de Rainier III do Mónaco era uma Polignac. Bem, para mim o filme foi apenas isto! Se me tivessem avisado não o teria ido ver!!!
.

22/07/12

A natureza, as máscaras e o possível.


.
O premiadíssimo Steven Soderbergh realizou em 1989 um "dos meus filmes": "Sexo, mentiras e vídeo" com Andie MacDowell e James Spader. A película era uma atenta e minuciosa reflexão sobre a natureza humana e a sexualidade com a sua dupla vertente de autenticidade e jogo. Em 1991 depois de ver o seu "Kafka", que detestei, cortei relações com a obra deste autor, sobretudo para manter a imagem que tinha do filme de 89,  
mas " Magic Mike" trouxe-me de novo ao Soderbergh inicial: Mike (Channing Tatum) stripper num clube feminino conhece Kid ( Alex Pettyfer) e acaba por o introduzir nos shows... mas eis que a (verdadeira) natureza humana nem sempre está à superfície: Mike, que nos parecia perverso e astuto, apenas quer conseguir dinheiro para vir a montar a sua empresa, enquanto que o antes ingénuo Kid, precisava apenas de um ligeiro abanão para que a sua verdadeira natureza viesse à tona, isto é, um deslumbrado com o dinheiro fácil e capaz de vender a mãe se lucrar algo com isso... Por entre corpos, sexo, pastilhas e álcool, tudo se complica com o aparecimento de Brook ( Cody Horn ) a lúcida e segura irmã de Kid. O mundo onde navega Mike e Kid cruza-se com o de Brook, mas ela nunca deixa que eles se misturem... De que modo revelarão estas personagens quem, e como, são?
 Esta ideia de que a natureza humana precisa apenas de um ligeiro sopro para que se mostre tal como é surge em várias cenas do filme, como por exemplo a da psicóloga (bissexual) amiga de Mike que com ele anda pelas noites, bares e discotecas, muitas vezes envolvendo-se ambos com a mesma mulher, contudo, mal a sua situação profissional fica resolvida, coisa que ela vê como subida de estatuto, logo se distancia do seu passado, ou seja, logo mostra a sua natureza, "indicando" a Mike o fosso que os separa, todavia - e porque a vida tem sempre a sua ironia - é essa ruptura com o ex-stripper que acaba por trazer a este algo bem mais importante do que "os monstros" da véspera.
Excelente direção de atores. Excelentes desempenhos (apesar de não ter gostado de Matthew McConaughey). Fecho bem estruturado e algo salvífico como em "Sexo, mentiras e vídeo ". Narrativa bem delineada e com encaixes muito bem feitos.
.

13/02/12


.
Ionatos e Theodorakis
.

28/08/11

"Les petits mouchoirs" (pequenas intrigas entre amigos).


.
Ludo (Jean Dujardin), carregado de snifadelas e ácidos tem um violento acidente de moto, Vincent (Benoît Magimel) apercebe-se que se apaixonou pelas mãos de Max, o padrinho do filho (François Cluzet), Marie,
(Marion Cotillard) apesar de manter uma relação aberta com um jovem músico de Paris, traz no ventre um filho de Ludo, etc., etc. Este é um grupo de amigos que, ano após ano, se mantém coeso apesar de tanta tanta coisa negativa: ciúmes, invejas, omissões... Não concordo, como alguns escreveram, que as pequenas mentiras entre os vários elementos do grupo se devam ao facto de eles, muitas das vezes, não confiarem uns nos outros, quanto a mim elas relevam antes da preocupação de manter a coesão desse mesmo grupo retirando-lhe o que poderia vir a assumir a forma de enormes cascatas de violência. Aliás, a acusação de Louis Philipe, já perto do final da película, de que eles passam a vida mentindo-se uns aos outros, e, sobretudo, a si próprios... essa acusação só pode ser feita, porque vem de alguém que não demonstra o mínimo interesse em sair do seu isolamento.
Um soberbo filme com uma cuidada caracterização das personagens: o obsessivo (François Cluzet), a naturalista Zen ( Valérie Bonneton), a melancólica com grandes esferas de silêncio (Marion Cotillard), o hetero que por desejar tanta saia acaba perdendo a que mais queria ( Gilles Lellouche)...
Um minucioso e atento olhar sobre as relações humanas e os afectos numa realização de Guillaume Canet.
.

15/08/11


.
Uma das refeições da família Cantone do filme "Mine Vaganti".
"Io non so parlare" é uma das mais belas cenas desta película: Tommaso
explica a sua necessidade da literatura... Repare-se na questão da direcção
de actores, sobretudo o ar agressivo do pai contrapondo-se à serenidade
(e cumplicidade) da avó.
.

.
O célebre monólogo de Tommaso de "Mine Vaganti".
Tommaso (Riccardo Scamarcio) conta a Alba (Nicole Grimaudo)
tudo o que acontece em si quando observa Marco.
.

02/08/11

o primeiro olhar...


.
Oscar Wilde (Stephen Fry) e Lord Alfred Douglas (Jude Law): o primeiro encontro.
In "Wilde" de Brian Gilbert (1997). Do elenco constam também: Vanessa Redgrave
e Orlando Bloom.
.