07/04/08

                                                           Foto de Tana Kaleya


De tão longe me tocaste.
Ou foi a tua sombra
que dançou
na minha sombra?
Podia ser de júbilo
a linha do teu rosto
quando soletraste
a rebeldia dos sonhos
e te fizeste errante.
Agora o sonho
é também o meu exílio.
E muito mais me perturba
o luto do olhar
do que a boca
ferida de silêncio.

Graça Pires, In "Uma Extensa Mancha de Sonhos"

05/04/08


               " Poema   12 "


                            (Em torno de um título
                            de Maria Archer)


Devia haver uma lei
um qualquer decreto ou norma
que nos impedisse o rigor dos afectos
o cataclismo dos desejos

Devia haver um céu
com nuvens de arame-farpado
onde estiletes vigilantes
pronto trespassassem
todo o peito que o sonho insistisse

Talvez - quem sabe?- até
se pudesse criar uma ilha
cercada de vidros e circuitos eléctricos
para onde se desterravam
os obstinados das paixões
os insurrectos da fantasia

Devia era haver qualquer coisa
contra esta tortura de ouro e maravilha
que nas margens do tempo insiste
e em barcos que ninguém vê
aos poucos nos desencaminha


Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editª, 2001, p 35.
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         "  Poema  25  "


Sobre o verde a triste joaninha
saltita com os seus pézinhos de joaninha
dança as suas danças de joaninha
ama com o seu coraçãozinho de joaninha

Durante alguns minutos
faz o seu número de equilibrismo
no rebordo dourado do pires
lança-se de improviso
para o trapézio na asa da chávena
e impõe um estranho sapateado
na capa do último Josef Winkler
que acabei agora de ler

Sobre o verde da mesa verde
a triste joaninha improvisa todos os números
para os seus pézinhos de joaninha
para o seu coraçãozinho de joaninha

Durante alguns minutos
toma o seu banho
na bica já esfriada
assobia mecanicamente
encostada ao copo de água
enquanto alisa as suas antenas
de erudita deprimida
para a sua questão fundamental
de joaninha:

"então ó meu grande parvo
a vida é apenas isto?"



 Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, p 61.
.

04/04/08




E se te transformasses em pássaro?
Eu tranformava-me em céu, um vasto céu azul, com nuvens de fogo
nas pontas e sulcos de pétalas no centro; um fulgurante azul celeste
criado só para ver todo o fascínio do teu irromper.

E se te transformasses em água?
Eu transformava-me em fonte, ou talvez numa nascente, que a ânsia
de ver-te inundasse e nas paisagens que te vou escrevendo a minha
sede abrandasse.

E se te transformasses em estrela?
Uma imponente estrela de espuma com brilho de lava e gestos de
vento? Eu transformava-me em sombra, uma sombra incandescente,
onde tu: pássaro, água ou estrela, pudesses andar e na varanda de
minha espera, devagarinho, viesses pousar.

Victor Oliveira Mateus, In "Col. afectos: Amor", Labirinto.





Volto à infância uma vez
mais. À cintilação do verde
entre os pinheiros. À humidade
do musgo a desdobrar-se
por serras e caminhos

nunca vistos. Regresso ao jogo
cristalino dos espelhos. À cantante
refracção dos rios
alimentando pomares e azenhas.
Torno ao meu país, sempre

sonhado e sempre incompleto;
país antiquíssimo, onde os homens
conservam a exacta dimensão
dos magos e dos deuses. Volto,
de novo, à infância: fabuloso
lugar de onde nunca saí.

Victor Oliveira Mateus, In "Col. afectos: Natal", Labirinto

01/04/08

Poetas


Elegía

Yo quiero ser llorando el hortelano
de la tiera que ocupas y estercolas,
compañero del alma, tan temprano.

Alimentando lluvias, caracolas
y órganos mi dolor sin instrumento,
a las desalentadas amapolas

daré tu corazón por alimento.
Tanto dolor se agrupa en mi costado,
que por doler me duele hasta el aliento.

Un manotazo duro, un golpe helado,
un hachazo invisible y homicida,
un empujón brutal te ha derribado.

No hay extensión más grande que mi herida,
lloro mi desventura y sus conjuntos
y siento más tu muerte que mi vida.

Ando sobre rastrojos de difuntos,
y sin calor de nadie y sin consuelo
voy de mi corazón a mis assuntos.

Temprano levantó la muerte el vuelo,
temprano madrugó la madrugada,
temprano estás rodando por el suelo.

No perdono a la muerte enamorada,
no perdono a la vida desatenta,
no perdono a la tierra ni a la nada.

En mis manos levanto una tormenta
de piedras, rayos y hachas estridentes
sedienta de catástrofes y hambrienta.

Quiero escarbar la tierra con los dientes,
quiero apartar la tierra parte a parte
a dentelladas secas y calientes.

Quiero minar la terra hasta encontrarte
y besarte la noble calavera
y desamordazarte y regresarte.

Volverás a mi huerto y a mi higuera:
por los altos adamios de la flores
pajareará tu alma colmenera

de angelicales ceras y labores
Volverás al arrullo de las rejas
de los enamorados labradores.

Alegrarás la sombra de mis cejas,
y tu sangre se irá a cada lado
disputando tu novia y las abejas.

Tu corazón, ya terciopelo ajado,
llama a un campo de almendras espumosas
mi avariciosa voz de enamorado.

A las aladas almas de las rosas
del almendro de nata te requiero,
que tenemos que hablar de muchas cosas,
compañero del alma, compañero.

Miguel Hernández

(Escrito em 10/1/36, quando o poeta soube
da morte do seu amigo Ramón Sijé...)

31/03/08



         "  Poema  1  "


Nunca a terra assim se disse
na beleza calma das águas
no melopeia frágil dos seixos
raiados de azul e prata
e nos meus olhos que ulcerados
de aparente sem sentido
devagarinho pousam nas raízes
dos lírios adormecidos

Nem o fogo esta forma teve
de em brandura torturar
os socalcos desordenados das colinas
o despique incestuoso dos cheiros
da malva amarelecida da beladona
de mim à procura
no doloroso bordejar do bosque
em que me aparecia

Nunca a terra assim se disse
nesta sombra onde aos poucos
se perdia


Mateus, Victor Oliveira. Movimento de Ninguém. Lisboa: Minerva, 1999, p 13.



             " Poema  1 "


Sobre o dragoeiro, na sua ponta
mais extrema, ali deixei um gesto
esquecido, um farol compassivo,
uma réstia de tudo, depois,
depois sentei-me em frente,
na esperança que viesses
beber à armadilha.

Mateus, Victor Oliveira. Nas Águas a Luz Suspensa. Lisboa: Minerva, 1998, p 9.