11/04/08


                       " Poema  5 "


De muitas formas se diz a minha luz
De muitos modos me visita o meu anjo
Vem devagarinho. Por dentro me rasga com navalhas
de cristal. Veste-me de âncoras na turbulência dos
abismos. Molda-me com esperas na voraz negritude
da cidade. Às vezes, na deriva repetida das pedras,
ensina-me o silêncio que tudo mostra, e à noitinha,
na solidão dos bosques, enfeita de estrelas os
espelhos onde me deito

De muitas formas se diz a minha luz
Vem comigo ao sussurrar das ondas, e aí, no janelo da
tarde, diz-me palavras p'ra que a minha tristeza não
alastre. Desliza também nos palácios dos subúrbios,
nos espaços nevados de brilhantes, onde a melancolia,
redil de gestos impossíveis, inventa reinos que só eu
habito

De muitas formas se diz a minha luz
Por fim, numa pausa de murmúrios, numa paleta de
cheiros bem fortes, deixa meu corpo feliz na alegria
revolta da terra


Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, p 21.
.

Inabalável Memória

Foto de Nuno Fernandes ( Sem título)


Soneto


Amor, se ua mudança imaginada
é já com tal rigor minha homicida,
que será se passar de ser temida
a ser como temida averiguada?

Se só por ser de mi tão receada
com dura execução me tira a vida,
que fará se chegar a ser sabida?
que fará se passar de suspeitada?

Porém se já me mata, sendo incerta,
somente imaginá-la, e presumi-la,
claro está (pois da vida o fio corta),

Que me fará despois, quando for certa?
ou tornar a viver, para senti-la,
ou senti-la também despois de morta.

Sóror Violante do Céu, In "Rimas Várias"

10/04/08

Poetas

"Circle in Costa Rica" (2006), foto de Nino Muñoz

Nocturno


O desenho redondo do teu seio
tornava-te mais cálida, mais nua,
quando eu pensava nele... Imaginei-o,
à beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
ornar-te o busto de uma renda leve
e a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
era um convite lúcido às estrelas...

Imaginei-te assim à beira-mar,
só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
no desenho redondo do teu peito...

David Mourão-Ferreira, In "A Secreta Viagem"


"Aos vinte e três ou
vinte e quatro anos"




Tinha estado desde as dez e meia no café,
à espera de que o outro viesse.
A meia-noite passou - e ainda esperava.
E passava agora da uma e meia; o café
quase por completo se esvaziara.
Fartara-se já de ler os jornais
maquinalmente. Dos seus três solitários xelins
apenas um restava: tanto tempo à espera,
e os outros gastara em cafés e brândi.
Fumara todos os cigarros.
Tão longa espera acabava-o. Porque,
assim sòzinho horas, começara
a ser tomado por inquietos juízos
da vida dissoluta que levava.

Mas quando viu o seu amigo entrar - num instante
cansaço e tédio, e pensamentos sérios foram-se.

O amigo trazia grandes novidades:
ganhara ao jogo sessenta libras.

E os rostos belos deles, a juventude esplêndida,
o sensual amor que havia entre ambos,
renovaram-se, reanimaram-se, ganharam novas forças,
com as sessenta libras da casa de jogo.

Radiantes de alegria, transbordando vida,
os dois sairam - não para casa de suas respeitáveis
famílias
(onde aliás não eram desejados),
mas para uma casa conhecida, casa
de má nota. Foram e pediram
um quarto, bebidas caras, e beberam.

E quando as bebidas caras se acabaram
lá pelas quatro horas da manhã,
alegremente entregaram-se ao desejo.


Poema de Konstandinos Kavafis
(Traduzido por Jorge de Sena)
In "90 e Mais Quatro Poemas"

(Nota acerca da palavra "sòzinho":
nunca actualizo a grafia das edições.)



               " Philtro "


De que é compôsto o philtro que me déste,
amor, que a amar assim me reduziste?
que magas seducções lhe introduziste,
ou de que ethereas plagas o trouxeste?

Em recordar aquillo a que sorriste,
em repetir as phrases que disseste,
pois que bebi do líquido celeste
n'isto a razão do meu viver consíste!

Sei que ao fragor da guerra incandescente,
se erguem nações, e outras nações se abatem
sobre um mundo que rue sinistramente.

Sei que rolam por ingremes declives
mil oppostas noções que se combatem...
E só tenho a noção de que tu vives!...

Branca de Gonta Colaço, In "Hora da Sésta"

09/04/08




             " Cais "


agora que embarcados rumamos ao sol nascente
na traineira que outrora sabíamos abandonada
talvez se aproxime de novo a luz que nos separou


porque o amor não é apenas o outro lado do ódio
é também uma calha de afectos e reencontros
ainda que no cais onde ancorámos a solidão
tenha ficado para sempre o medo de sermos um


agora que embarcados rumamos ao sol nascente
naufraguemos de novo os corpos num mar de cetim
para que não mais a luz se dispa da sombra
para que não mais os dedos sangrem de espera

Henrique Manuel Bento Fialho, In "Cerejas
poemas de amor de autores portugueses
contemporâneos"

Poetas

António Ramos Rosa, na Biblioteca Municipal D.Dinis (2007)

Celebração de um corpo


Quantos prodígios exactos nesse corpo
de simetrias ardentes, de redondas geometrias!
Lavrado pelo vento, modelado pelo fogo,
polido pela água, de incandescentes cimos,
de espumantes funduras sequiosas!
Dir-se-ia um ramo do esplendor o torso oblíquo
onde dois pequenos e redondos seios latejam.
Dir-se-ia um navio pela alta simetria
das suas pernas brancas. E que dizer do rosto?
Talvez três palavras: estrela, alma água.
Como o discurso da água é o ventre liso,
e o umbigo uma côncava conchinha preciosa.
No seu pequeno púbis a penugem é doirada
e leve, de um veludo quase azul.
Redondos e brancos como luas os joelhos,
e os delicados pés, amorosamente exactos,
quase minúsculos, mas sólidos e terrestres.
O vigor e a graça unem-se nesse corpo
sumptuoso e frágil, vegetal e límpido.
Que fulgurantes maravilhas, que jóias tão sedosas!
No amplexo o dorso é espesso como um barco
e as nádegas, quase opulentas, são redondas dunas
de uma flexível argila plenamente solar.
Que tesouros tão fluídos e que energia tão tensa,
que relâmpagos fulgurantes, que flores tão sólidas!

António Ramos Rosa, In "A Rosa Intacta"

08/04/08


           " Poema 12 "


Descer-te o corpo palmo a palmo
Descer-to como quem sobe ao cume do mais alto
monte, como quem encontra a firmeza de um
espaço, para o qual nenhuma língua tem nome
Descê-lo ou moldá-lo, nem eu sei bem: o rosto
jovem, o sedoso peito, as coxas; descê-lo e
construir o murmúrio sibilante do vento, ou de
uma boca entreaberta no rumor ofegante da
tarde


Descer-te o corpo palmo a palmo
Não o corpo fardo, prisão, informe desejo que
a si se basta numa infindável corrosão de tudo,
mas um corpo luz, amigo, que sorrindo aquilo
que o excede a mim entrega


Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler, 2004, p 33.
.

( Àquele menino iraquiano
a quem as bombas americanas
arrancaram os braços e as pernas)


Como afagarei eu a terra?
Com que mãos colherei flores na margem do canal, ou atirarei
pedras aos peixes nas tardes ensolaradas de Verão? Com que
dedos folhearei os livros sagrados? Aonde os braços com que
poderia apertar o ébano gigante no outro lado da praça?
Dizem os mais velhos que tudo era previsível, que o grande
cogumelo de Hiroxima continua ainda, agora com roupagens
de falso humanismo

Mas o que me espanta não são bem as mortes, as ocupações,
os desmembramentos. O que me surpreende, e o entendimento
me tolhe, é que eles consigam olhar de frente todas estas coisas
e que, apesar disso, falem; é que à noite, ilesos, regressem a
casa e, sorrindo, beijem a mulher, o filho, o cão. O que de
sobremaneira me espanta é a forma como adormecem: sem
pesadelos, apaziguados, pretensamente puros

Victor Oliveira Mateus, In "Pelo Deserto as minhas mãos"

07/04/08

"Natureza Viva", Fotografia de Nuno Fernandes


E te pressinto
o bafo. Vens
com teus pólipos de águia
submarina, teu
cinto de agudos
sobressaltos. Alga
de sangue e magma, tu
cresces redonda, coroada
de arquipélagos de escamas
e de espuma,

Albano Martins, In "Três poemas de amor seguidos de Livro Quarto"





Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

Maria Teresa Horta, In "Destino"
                                                           Foto de Tana Kaleya


De tão longe me tocaste.
Ou foi a tua sombra
que dançou
na minha sombra?
Podia ser de júbilo
a linha do teu rosto
quando soletraste
a rebeldia dos sonhos
e te fizeste errante.
Agora o sonho
é também o meu exílio.
E muito mais me perturba
o luto do olhar
do que a boca
ferida de silêncio.

Graça Pires, In "Uma Extensa Mancha de Sonhos"

05/04/08


               " Poema   12 "


                            (Em torno de um título
                            de Maria Archer)


Devia haver uma lei
um qualquer decreto ou norma
que nos impedisse o rigor dos afectos
o cataclismo dos desejos

Devia haver um céu
com nuvens de arame-farpado
onde estiletes vigilantes
pronto trespassassem
todo o peito que o sonho insistisse

Talvez - quem sabe?- até
se pudesse criar uma ilha
cercada de vidros e circuitos eléctricos
para onde se desterravam
os obstinados das paixões
os insurrectos da fantasia

Devia era haver qualquer coisa
contra esta tortura de ouro e maravilha
que nas margens do tempo insiste
e em barcos que ninguém vê
aos poucos nos desencaminha


Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editª, 2001, p 35.
.




         "  Poema  25  "


Sobre o verde a triste joaninha
saltita com os seus pézinhos de joaninha
dança as suas danças de joaninha
ama com o seu coraçãozinho de joaninha

Durante alguns minutos
faz o seu número de equilibrismo
no rebordo dourado do pires
lança-se de improviso
para o trapézio na asa da chávena
e impõe um estranho sapateado
na capa do último Josef Winkler
que acabei agora de ler

Sobre o verde da mesa verde
a triste joaninha improvisa todos os números
para os seus pézinhos de joaninha
para o seu coraçãozinho de joaninha

Durante alguns minutos
toma o seu banho
na bica já esfriada
assobia mecanicamente
encostada ao copo de água
enquanto alisa as suas antenas
de erudita deprimida
para a sua questão fundamental
de joaninha:

"então ó meu grande parvo
a vida é apenas isto?"



 Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, p 61.
.

04/04/08




E se te transformasses em pássaro?
Eu tranformava-me em céu, um vasto céu azul, com nuvens de fogo
nas pontas e sulcos de pétalas no centro; um fulgurante azul celeste
criado só para ver todo o fascínio do teu irromper.

E se te transformasses em água?
Eu transformava-me em fonte, ou talvez numa nascente, que a ânsia
de ver-te inundasse e nas paisagens que te vou escrevendo a minha
sede abrandasse.

E se te transformasses em estrela?
Uma imponente estrela de espuma com brilho de lava e gestos de
vento? Eu transformava-me em sombra, uma sombra incandescente,
onde tu: pássaro, água ou estrela, pudesses andar e na varanda de
minha espera, devagarinho, viesses pousar.

Victor Oliveira Mateus, In "Col. afectos: Amor", Labirinto.





Volto à infância uma vez
mais. À cintilação do verde
entre os pinheiros. À humidade
do musgo a desdobrar-se
por serras e caminhos

nunca vistos. Regresso ao jogo
cristalino dos espelhos. À cantante
refracção dos rios
alimentando pomares e azenhas.
Torno ao meu país, sempre

sonhado e sempre incompleto;
país antiquíssimo, onde os homens
conservam a exacta dimensão
dos magos e dos deuses. Volto,
de novo, à infância: fabuloso
lugar de onde nunca saí.

Victor Oliveira Mateus, In "Col. afectos: Natal", Labirinto

01/04/08

Poetas


Elegía

Yo quiero ser llorando el hortelano
de la tiera que ocupas y estercolas,
compañero del alma, tan temprano.

Alimentando lluvias, caracolas
y órganos mi dolor sin instrumento,
a las desalentadas amapolas

daré tu corazón por alimento.
Tanto dolor se agrupa en mi costado,
que por doler me duele hasta el aliento.

Un manotazo duro, un golpe helado,
un hachazo invisible y homicida,
un empujón brutal te ha derribado.

No hay extensión más grande que mi herida,
lloro mi desventura y sus conjuntos
y siento más tu muerte que mi vida.

Ando sobre rastrojos de difuntos,
y sin calor de nadie y sin consuelo
voy de mi corazón a mis assuntos.

Temprano levantó la muerte el vuelo,
temprano madrugó la madrugada,
temprano estás rodando por el suelo.

No perdono a la muerte enamorada,
no perdono a la vida desatenta,
no perdono a la tierra ni a la nada.

En mis manos levanto una tormenta
de piedras, rayos y hachas estridentes
sedienta de catástrofes y hambrienta.

Quiero escarbar la tierra con los dientes,
quiero apartar la tierra parte a parte
a dentelladas secas y calientes.

Quiero minar la terra hasta encontrarte
y besarte la noble calavera
y desamordazarte y regresarte.

Volverás a mi huerto y a mi higuera:
por los altos adamios de la flores
pajareará tu alma colmenera

de angelicales ceras y labores
Volverás al arrullo de las rejas
de los enamorados labradores.

Alegrarás la sombra de mis cejas,
y tu sangre se irá a cada lado
disputando tu novia y las abejas.

Tu corazón, ya terciopelo ajado,
llama a un campo de almendras espumosas
mi avariciosa voz de enamorado.

A las aladas almas de las rosas
del almendro de nata te requiero,
que tenemos que hablar de muchas cosas,
compañero del alma, compañero.

Miguel Hernández

(Escrito em 10/1/36, quando o poeta soube
da morte do seu amigo Ramón Sijé...)

31/03/08



         "  Poema  1  "


Nunca a terra assim se disse
na beleza calma das águas
no melopeia frágil dos seixos
raiados de azul e prata
e nos meus olhos que ulcerados
de aparente sem sentido
devagarinho pousam nas raízes
dos lírios adormecidos

Nem o fogo esta forma teve
de em brandura torturar
os socalcos desordenados das colinas
o despique incestuoso dos cheiros
da malva amarelecida da beladona
de mim à procura
no doloroso bordejar do bosque
em que me aparecia

Nunca a terra assim se disse
nesta sombra onde aos poucos
se perdia


Mateus, Victor Oliveira. Movimento de Ninguém. Lisboa: Minerva, 1999, p 13.



             " Poema  1 "


Sobre o dragoeiro, na sua ponta
mais extrema, ali deixei um gesto
esquecido, um farol compassivo,
uma réstia de tudo, depois,
depois sentei-me em frente,
na esperança que viesses
beber à armadilha.

Mateus, Victor Oliveira. Nas Águas a Luz Suspensa. Lisboa: Minerva, 1998, p 9.