22/04/08

Poetas

" Cold" (2008), Foto de Carla Nunes


"Migrar"

Matrimónio de vogais: agora nada.
Fica a distância entre o corpo e a palavra.
Sequer a marca do sol ou da sarça.
Faróis azuis na memória, e mais nada.

Além do mar, o tempo não traga.

Gaivotas mergulham sem regressar ao quadro.
Nenhum nome persiste além do enigma: migrar sempre.
E esta noite é tudo o que temos.

Toda palavra é precária: flor, pauta de aves, rosa clara.
Nada persiste além da chaga.
Seus instantes de amor, suor e toque, a enseada.
A solidão não une. Tudo nos separa.

Além do mar.

Negro, meu espírito recorda o exílio prolongado.
O golpe solar não muda esta noite, minha pele.
Todo nome é grave e transfigura.
Só posso oferecer esta noite, e mais nada.

A morte eclode em cada verso. Nudez necessária.
E só posso oferecer isto: o sonho primitivo dos corpos em busca.
A mágoa.
Renuncio ao amor, pois sou precária.

Outros amantes espalham gemidos pela casa.
São todos comuns em seus homicídios e meias-verdades.
Uma vez foi dito: é para sempre. Ao meio-dia, uma vez e basta.
O espelho sempre nos mostra o que nos falta.

Mesmo esta paisagem sucumbe em seus vocábulos.
É belo naufragar entre os meus lábios.
Renuncio a ti, amor, pois sou precária.
Além do mar, um país sem nome me aguarda.


Maiara Gouveia

21/04/08

Poetas

(A modelo Doutzen Kroes da agência "Viva"
numa foto da série "Into the Wild" de 2007)


"Espelho"

A mulher desata o cabelo diante de mim. Generosa
é a imagem que lhe devolvo, apossando-me de sua
alma para sempre.

Álvaro Cardoso Gomes, In "Ficções Lunares"

Poetas

"Invocação"


Quis o destino, a sorte, avara como o leito
de um rio seco, que ele fosse único - larva
matizada entre alvas larvas, e ouvisse o
apelo e, por isso mesmo, levasse à boca um
búzio e o fizesse soar, até que se ouvisse
a rouca melodia, invocando os mortos.

Álvaro Cardoso Gomes, In "Ficções Lunares"

20/04/08

Foto de Tim Hetherington (tirada em 16/9/2007 no
Afeganistão). World Press Photo 2008.


"O Menino da Sua Mãe"


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
-Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino de sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


Fernando Pessoa

Poetas

"Le Dormeur du Val"





C'est un trou de verdure où chante une rivière

Accrochant follement aux herbes des haillons

D'argent; où le soleil, de la montagne fière,

Luit: c'est un petit val qui mousse de rayons.



Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,

Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,

Dort; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,

Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.



Les pieds dans les glaieuls, il dort. Souriant comme

Sourirait un enfant malade, il fait un somme:

Nature, berce-le chaudement: il a froid.



Les perfums ne font pas frisonner sa narine;

Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,

Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.



Arthur Rimbaud

19/04/08

Poetas

"One Way Ticket", Foto de Mike Jackson


"Carta de Amor Informático"

Penetraste no meu coração
Como um vírus no meu processador

Vindo de lado nenhum
Ofereces-me agora
O vazio da não opção

Estragaste-me o real
Obrigaste-me a reinventá-lo:
Para quê?

Agora estás
No meu cemitério de textos
Já não te posso reencaminhar

Arquivei-te no lixo da memória
Do meu Pentium IV
Que aliás já vendi

Troquei-o por um lap top
Mais leve
Mais portátil
Mais facilmente descartável

Ana Hatherly, In "A Neo-Penélope"





            " Ódio? "


Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! Nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena.

Florbela Espanca, In "Sonetos"

18/04/08

Foto de Nuno Fernandes (2007), sem título


Dalla luce il volto breve
mi saluta tra i cespugli. Balla come nave
nel torbido chiarore del pomereriggio.
Luce misteriosa luce, fermo segnale
sulla non ascosa confusione del mondo,
finestra spalancata sull'ampiezza degli
oceani. Vieni. Tu che sempre ti nascondi
e ti palesi quandi il sole era una fiaccola
incandescente e la brezza sfociava
lentamente sul mio corpo. Vieni, portami
le grida dei ragazzi ao porto, i riflessi
del legno di unm veliere, il molo,
le casupole, le acque. Ah, portami tutto
ciò che innanzi me rese pien di gioia!
Tutto quanto in terra mi è toccato
dalla fortuna. Ma, se per caso, ciò non
potessi, portami, almeno, e leggermente,
la dignità nella morte.

Victor Oliveira Mateus, In "Antologia dei
poeti nel mondo", Mosaico Italiano,Febbraio,
2006.

(Da luz o rosto breve
me acena entre a folhagem. Como um navio
balança na turva limpidez da tarde. Misteriosa
luz, firme sinal na indisfarçável confusão
do mundo, janela escancarada à vastidão
dos oceanos. Vem. Tu que sempre ocultas
e revelas, traz-me de novo as tardes
da minha ilha. Essas tardes, quando o sol
era um facho incandescente e a brisa
desaguava lenta no meu corpo. Vem. Traz-me
os gritos dos rapazes no porto, os reflexos
no casco de um veleiro, o molhe, o casario,
as águas. Ah, traz-me tudo o que em tempos
me fez feliz! Esse tudo que na terra me coube
em sorte. Mas, se por acaso tal não puderes,
traz-me ao menos, e de mansinho,
a dignidade na morte.)

17/04/08

Poetas

"Friendship" (2008), Foto de Carla Nunes


Paciência

Faz-se o amor como se fosse um castelo
de cartas. Copas, paus, ouros, espadas. Um equilíbrio
difícil. Negros sobre vermelhos, damas e valetes
no meio de reis e ases. Ponho uma carta
sobre a carta que tu puseste; e tu acrescentas
a essa ainda outra. Até onde? Neste jogo, não
convém respirar com muita força; evitemos
os gestos bruscos, os que deitam tudo abaixo,
de súbito; e espreitemos o olhar de cada um de nós,
quando nos prepararmos para fazer subir o castelo.

Assim, ponho a minha emoção sobre o sentimento
que me confessas. Não precisas de mo dizer;
basta que eu saiba que os teus dedos brincam
entre corações e manilhas; que a tua voz treme
quando o edifício se parece com um labirinto;
e que ambos descobrimos uma saída, para um
lado ou outro
da toalha. Na mesa, com efeito, podem já
nascer as flores, cantar as aves que brotam
de uma ilusão de primavera, ou morrerem frases
e borboletas que esvoaçam numa corrente de ar.

Por que abriste a janela? Agora que tudo caiu,
sem que um nem o outro tivéssemos feito alguma coisa
para isso, de quem é a culpa? Então,
aproveitemos este silêncio breve, enquanto a tarde
não chega, e recomecemos o jogo.

Poetas

Vitorino Nemésio (1901-1978)

O Afilhado


O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
Veio verme.
Verme não é. E, se fosse, isso que tinha?
Os anelídeos têm os seus anéis elásticos,
Num começo de élan superior, bem soldado,
A blocos de control e direcção,
Enquanto que ele a perde em centros
altamente sinápticos
E fica pobre e triste entre os apáticos.


O meu afilhado epiléptico
Veio ver-me,
Veio verme,
Veio eclético,
Entre os que sim e os que não,
Quase empastado e céptico
Num sorriso de vã resignação.
Fosse ele verme, o pobrinho, e até crustáceo!
Teria o sistema nervoso ao longo da barriga,
Táctico nas antenas de precisão, como a formiga.
Mas tem espinha dorsal e cabos de nervo de alto diâmetro,
Que deviam ser rápidos e senhoris na opção,
Mas às vezes não são...
O meu pobre afilhado epiléptico,
Eterno aprendiz de sapateiro,
Aplicando serol a fibras de cairo para botas
E fazendo virolas
De meias solas
Rotas.


- E ganhas...? - lhe pergunto.
- Vinte paus, meu Padrinho.
"E não posso beber vinho:
"Nem um copinho,
"Meu Padrinho!"


O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
E pensei no Pessanha:
"Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme..."
Vinte paus é o que ganha
O meu afilhado epiléptico,
Com os dedos no unto.


Patético, hein?
Mas - mudemos de assunto.

Vitorino Nemésio, In " Cão Atómico, etc. e Bio-Poemas"

16/04/08

" Caminho" (2003), Foto de Nuno Fernandes
*
*
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Para uma leitura de A outra margem do Tempo (de
Alexandre Bonafim) - breves considerações.
*
*
Longe de vislumbrarmos uma ruptura entre os dois livros já
publicados por Alexandre Bonafim, julgamos antes poder descortinar
um percurso dotado de coerência, onde a poesia é esse dizer "entre
o efémero e a eternidade" (p.25). Assim, se em Biografia do deserto
o poeta opta por enfatizar a transitoriedade da errância humana
com todos os seus acidentes, em A outra margem do tempo o Eterno
e o Imortal tomam a dianteira sobrepondo-se àquilo que na primeira
obra era imanente e circunstancial. As descontinuidades vêmo-las,
não no continuum de um itinerário, como já dissemos, mas no exímio
domínio da linguagem e na escorreita forma como toda uma complexa
imagética é manipulada, para a consecução de uma voz una e inconfun-
dível. Consideramos, pois, o novo livro de Alexandre Bonafim um
texto de maturidade, em que a minúcia no trabalhar da palavra poética
ombreia com a precisão com que se expõem inquietações, observações
e anseios.
Recusamos a ideia de que uma obra de arte só é profunda se versar
temas que se circunscrevem às concepções cépticas e/ou niilistas da
existência, ou aquelas outras, que, num malabarismo antinómico, se
limitam a colocar todo o seu discorrer num além apenas entrevisto e
completamente desligado do real objectivo; por esta razão diremos
que pode haver tanta profundidade num poema em torno de sofrimento
de um animal (cf. Alexandre Bonafim, Biografia do Deserto, p.72)
como na descrição de um êxtase pessoal. A profundidade não nos advém
do objecto abordado, mas do modo como sobre ele recolocamos o
olhar (cf. Henrique Manuel Bento Fialho, O meu cinzeiro azul,pp30-38).
Fazer poesia não se limita a um mero alinhar de símbolos, é igualmente
instituir uma prática, que, partindo do quotidiano, visa dar alma ao
mundo e nele desdobrar o ser nas suas múltiplas significações, por
conseguinte terá de ser por aí que o homem simples se encaminhará,
(cf. Henrique Manuel Bento Fialho, op.cit.) e, em persistência e abnegação,
procurará essa outra margem do tempo, território onde o mais
absoluto silêncio coincide com a suprema auscultação de tudo o que
das coisas ressuma. Por tudo isto, diremos que a profunda acuidade
da poesia de Alexandre Bonafim vem-lhe muito mais da forma como
coloca o seu olhar sobre os temas do que da especificidade destes.
Em segundo lugar, o cismar do poeta em torno do Eterno não é uma
lucubração gratuita desligada do nosso tempo concreto; é para nós
claro que estamos ante um itinerário que visa o transcendente, mas
que não deriva de qualquer prestidigitação grosseira; é um itinerário
sim, mas que parte desta margem que habitamos e que temos como nossa,
margem simultaneamente marcada e ferida pela temporalidade, logo,
pelo efémero também.
A viagem do efémero para o Eterno e Imortal é, quanto a nós, a
primeira grande ideia deste livro:"Em minha voz. um veleiro traçou
um rito de espantos,/um itinerário de espumas em despedida"(p30);
"Caminho por uma praia sem margens,/inteiro azul a queimar os
barcos"(p42);"Em cada segundo, veleiros inscrevem,/no meu rosto,
um roteiro de límpidas espumas."(p60). Mas o poeta não se limita
a viajar, ele viaja-se também e em simultâneo, aliás, este último
propósito atinge, por vezes, um tom confessional:"(...)Na imensa
correnteza dos acontecimentos perdidos, viajo-me/em busca do meu
rosto inaugural,"(p34). São inúmeras as referências à efemeridade
a partir da qual se inicia a caminhada (ou ascensão?) do poeta, a
essa correnteza de acontecimentos eivada de "gritos de algazarra"(p25)
(...) esta viagem poética não visa apenas esse solo matricial firmado
pela eternidade, mas incorpora igualmente a demanda do rosto
originário do próprio poeta, daquilo que ele essencialmente é em
todo o cosmos que o rodeia:"(...) Repentinamente, as árvores do verão,/
verde além do tempo, além do espaço, germinam/ o que eu fui,
o que ficou apagado pela escritura/dos desertos, pela constante
passagem das chuvas"(p55). Eis um dos grandes paradoxos desta
aventura poética!: o efémero é o espaço onde progressivamente se
institui todo um percurso gradativo, mas ele é também o lugar
onde repentinamente germinam factos e coisas(...)De tudo isto
um terceiro item aparece-nos nesta obra de Alexandre Bonafim:
o poeta procura, e procura-se. mas apenas entregue às suas
próprias forças:"(...)Sem itinerários,/sem bússola que me norteasse
/pelo deserto, caminhei sob a solidão/como quem espera a visita/
de uma manhã de setembro."(p71);"(...)Nessa viagem/sem bússola,
fluxo de veleiros sem rumo,/ vou-me embora de toda a ausência
desaguo/o meu rosto na origem das palavras:milagre/ a refulgir o
mar e o sonho"(p75); "A ampulheta partida:/ os segundos derramaram-se/
para além de toda a hora"(p31).
... ... ...
Urge ainda ressalvar a tão conseguida poeticidade deste novo livro
de Alexandre Bonafim: aqui a envolvente musicalidade dos versos
articula-se, quer num jogo de bruxuleio apenas insinuando, quer numa
veemência flamejante enformando a complexidade de um dado
discurso, articula-se - dizíamos nós -, com uma irrepreensibilidade
de estilo e com a nitidez radical de sentido: "Esculpes o infinito no
itinerário dos pássaros/a rasgarem o silêncio. Tão intensamente
abraças/ a febre, que a vida multiplica, em ti, os pães e as
palavras(p.73);"(...)Um rio solitário navegou-me/ em seus braços,
levou-me para a outra face/da morte. Nessa viagem despida de
leste/e sul, bebo o silêncio de tudo o que é eterno (p75).
... ... ...
Victor Oliveira Mateus, In A outra margem do tempo de
Alexandre Bonafim, Ribeirão Editora, São Paulo-Brasil, 2008.

15/04/08

Inabalável Memória

SALOMÉ


Olha-se a furto, inquieta, nos espelhos
que lhe reflectem a beleza e a graça...
E sacode, fremente, quando passa,
as anilhas de prata dos artelhos...


Ergue-se toda e logo cai, de joelhos.
Os perfumes são quentes; a luz, baça...
E aquele corpo já não anda, esvoaça
sobre os tapetes flácidos, vermelhos...


E corre sempre! Tilintando, as contas
como serpentes perturbadas, tontas,
cingem-lhe os braços, o pescoço, a trança.


Desmaiam chamas... Vai surgindo a Lua...
Deusa do Ritmo, Salomé, flutua,
e ri, num grande riso, e dança... dança...


Virgínia Vitorino, In "Apaixonadamente"

Poetas

Foto de Nuno Fernandes, sem título


Tanto Amor

Tanto amor imaginado
em condição de brinquedo
sem atinar com o sentido.

Tanto amor predestinado
para terminar tão cedo
no branco peito do olvido.

Tanto amor transfigurado
na solidão sempre ledo
pelo tempo de vivido.

Tanto amor acobertado
pela sombra do arvoredo
para depois desmentido.

Tanto amor atenazado
cede, não cedo não cedo,
pelo que já está cedido.

Tanto amor em bom-bocado
pelo quinhão do segredo
que foi à praça vendido.

Tanto amor recomeçado
mais belo após o degredo
pela arte de haver fugido.

Tanto amor entregue ao lado
da fúria sem nenhum medo
de haver matado e morrido.

Tanto amor pefeito amado
acima de todo enredo
por jamais existido.


Henriqueta Lisboa, In "Além da Imagem"

14/04/08

Poetas

Hans van Manen, Foto de René van Rijn (1984)


De trás pra frente


O amante
Cabeça tronco membro
Eretos para o amado,
Não o decifra um só instante.
Eu mesmo ainda me lembro:
O amante é devorado.
Já o amado,
Por mais ignorante e indiferente,
Decifra o seu amante
De trás pra frente.


António Cicero, In "Guardar"

Poetas

Foto de Stéphane Sednaoui


SÃO PEÇAS BEM UNIDAS DESUNIDAS...


As peças do teu corpo bem ligadas
desligam-se para os gestos mais perfeitos:
são joelhos e coxas separadas,
é desalinho de ombros e de seios.

E os lábios também vão desordenados...
E os infindáveis braços sobrevoam-se...

E nesses movimentos sem regresso
em perdidas peças transviadas,
eu também me perco e sou um voo
muito além de tudo o que entrevejo
nesta ondulação onde balouço...

São peças bem unidas desunidas
pelo caudal das sedes debatidas
em lençóis de sumo rumoroso.


João Rui de Sousa, In "Obstinação do Corpo"



Poetas

Deusa imortal, do teu ornado trono,
tecelã de mil penas, Afrodite, escuta:
não atormentes mais com pesar e angústias
minha alma senhora,


aproxima-te antes, se a minha voz ao longe
de novo ouviste e me escutaste
e deixando para trás tua esplendorosa casa
pátria vieste,


após jungir teu carro; belos gorriões
à negra terra ligeiros se atiravam
e com suas fortes asas desde os céus
o ar fustigavam.


E pronto chegaram, e tu, ditosa,
com teu divino rosto me sorrias
perguntando-me o que se passava, por que
outra vez te chamava


e o que quero que em minha alma louca
aconteça agora: "A quem desejas
que teu amor eu leve? Ai, Safo, diz-me,
quem assim te faz dano?"


Pois se de ti fugiu, em breve virá buscar-te;
se aceitar não quis, oferendas te fará;
amar-te-á prestes, se te não ama,
ainda que o não queira."


Vem também agora, livra-me de tão amargas
penas, consente o que a minha alma
anseia ver cumprido e sê nesta guerra
minha aliada.


Safo,"Fragmentos Poéticos" (Trad. de Victor Oliveira Mateus),
Ed. Coisas de Ler
PONTO DE PÉROLA


Este é o ponto de pérola
alinhavado
que ternamente agarro
com a língua

Lambo e engulo
o seu travo amargo

Travo-lhe o gosto
cuspo-lhe a bainha

Em seguida perco-me
confundindo os cheiros
dividindo os gostos
que se alpendram gastos

O cuspo grosso
de açúcar cheio
se mexo e o ponho a um lume
farto

Que importa, afinal,
o doce que se alcança?
O rasto rápido
de um limão amargo?

Eu sou aquela que sem
esperanças
leva o desejo até ao ponto exacto


Maria Teresa Horta, In "Destino"

Poetas

Um estudo, sem título, do fotógrafo Frank Horvat
Por isso não sabemos
do amor das coisas raras
do soluço das facas afiadas
do bisonte da noite procurando
no luminoso bosque as suas asas.
Do plaino inicial ficaram as pegadas
das palavras mais leves
e um ou outro arbusto resistente.
Nem Branca-Flor salvando o seu amado
saberia falar de outras viagens,
ela que sempre descobriu o enredo
do amor das coisas raras
que pelo desamor desafiavam
o bisonte da noite equilibrando
a penumbra do bosque em suas patas.


Maria Alberta Menéres, In "O Jogo dos Silêncios"

13/04/08

Poetas

Sem título, Foto de Nuno Fernandes


ESTA CIDADE

O lugar de repouso
está por inventar
A cidade é morna
o rio vazio
nem o mar é filho do mundo
nem o mundo é mar
nem o meu corpo
um chapéu de ilusionar

A cidade é morna
o espaço baço
nem caem da face os olhos
nem se perde o braço



Na cidade
onde há a mais
a água e a sede
vamos na rede
como animais



Os sinais chegam
pelo mesmo aqueduto
Se a água é limpa
o sangue é bruto

Exacerbadamente
vejo que onde
estamos teremos
Já temos Tejo



Tão poucas folhas caídas a desoras
menos gente que ontem em sentido
contrário ao vôo das aves

Poucas camas desfeitas com o peso
da insónia
larvas e ovos de larvas dentro da boca

Tão pouca gente a sós com a vertigem
tão pouquíssima gente nas ruas
com o astro-rei a tombar
Estão em casa a jantar



Antes que nos cubra a pedra
por lavrar
antes que o lavrador perca
a partilha

um monumento exacto há
que erigir
entre a Batalha e a Bastilha


Luiza Neto Jorge, In "Os Sítios Sitiados"

Poetas

"Costa Alentejana" (2007), Foto de Nuno Fernandes




ERRO


Edifiquei minha
casa sobre a
areia


Todo dia recomeço


Eunice Arruda, In "As pessoas, as palavras"

11/04/08


                       " Poema 24 "
            

                          " Que mais posso responder-te, Konrad?
                            Tu és alguém que encontrou o caminho."

                            (Nastassja Kinski, In "Tão Longe, Tão Perto"
                            de Wim Wenders)


Habito a extensa curva das areias
a soma de todas as vastidões, só aparentemente áridas,
onde o Longe se desfralda, com a óbvia simplicidade das
coisas puras
Habito este imenso continente, onde, no heroísmo cego
de nada querer, homens vivem o despojamento de tudo:
posses, estatuto, fama... Fama?! E o que é afinal a fama?
Uma estátua de bronze, onde os pombos meticulosamente
depositam seus excrementos
Habito os cheiros fortes do bairro copta; o arroz de açafrão,
o fumegante chá de anis num copo de vidro espesso
Habito a caliça a soltar-se das paredes, como de mim se
solta todo o vazio desejo
Habito esta condição de Forasteiro; irrevogável pedaço
de nada, isto é, habito como quem parte


Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler, 2004, p 57.
.

                       " Poema  5 "


De muitas formas se diz a minha luz
De muitos modos me visita o meu anjo
Vem devagarinho. Por dentro me rasga com navalhas
de cristal. Veste-me de âncoras na turbulência dos
abismos. Molda-me com esperas na voraz negritude
da cidade. Às vezes, na deriva repetida das pedras,
ensina-me o silêncio que tudo mostra, e à noitinha,
na solidão dos bosques, enfeita de estrelas os
espelhos onde me deito

De muitas formas se diz a minha luz
Vem comigo ao sussurrar das ondas, e aí, no janelo da
tarde, diz-me palavras p'ra que a minha tristeza não
alastre. Desliza também nos palácios dos subúrbios,
nos espaços nevados de brilhantes, onde a melancolia,
redil de gestos impossíveis, inventa reinos que só eu
habito

De muitas formas se diz a minha luz
Por fim, numa pausa de murmúrios, numa paleta de
cheiros bem fortes, deixa meu corpo feliz na alegria
revolta da terra


Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, p 21.
.

Inabalável Memória

Foto de Nuno Fernandes ( Sem título)


Soneto


Amor, se ua mudança imaginada
é já com tal rigor minha homicida,
que será se passar de ser temida
a ser como temida averiguada?

Se só por ser de mi tão receada
com dura execução me tira a vida,
que fará se chegar a ser sabida?
que fará se passar de suspeitada?

Porém se já me mata, sendo incerta,
somente imaginá-la, e presumi-la,
claro está (pois da vida o fio corta),

Que me fará despois, quando for certa?
ou tornar a viver, para senti-la,
ou senti-la também despois de morta.

Sóror Violante do Céu, In "Rimas Várias"

10/04/08

Poetas

"Circle in Costa Rica" (2006), foto de Nino Muñoz

Nocturno


O desenho redondo do teu seio
tornava-te mais cálida, mais nua,
quando eu pensava nele... Imaginei-o,
à beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
ornar-te o busto de uma renda leve
e a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
era um convite lúcido às estrelas...

Imaginei-te assim à beira-mar,
só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
no desenho redondo do teu peito...

David Mourão-Ferreira, In "A Secreta Viagem"


"Aos vinte e três ou
vinte e quatro anos"




Tinha estado desde as dez e meia no café,
à espera de que o outro viesse.
A meia-noite passou - e ainda esperava.
E passava agora da uma e meia; o café
quase por completo se esvaziara.
Fartara-se já de ler os jornais
maquinalmente. Dos seus três solitários xelins
apenas um restava: tanto tempo à espera,
e os outros gastara em cafés e brândi.
Fumara todos os cigarros.
Tão longa espera acabava-o. Porque,
assim sòzinho horas, começara
a ser tomado por inquietos juízos
da vida dissoluta que levava.

Mas quando viu o seu amigo entrar - num instante
cansaço e tédio, e pensamentos sérios foram-se.

O amigo trazia grandes novidades:
ganhara ao jogo sessenta libras.

E os rostos belos deles, a juventude esplêndida,
o sensual amor que havia entre ambos,
renovaram-se, reanimaram-se, ganharam novas forças,
com as sessenta libras da casa de jogo.

Radiantes de alegria, transbordando vida,
os dois sairam - não para casa de suas respeitáveis
famílias
(onde aliás não eram desejados),
mas para uma casa conhecida, casa
de má nota. Foram e pediram
um quarto, bebidas caras, e beberam.

E quando as bebidas caras se acabaram
lá pelas quatro horas da manhã,
alegremente entregaram-se ao desejo.


Poema de Konstandinos Kavafis
(Traduzido por Jorge de Sena)
In "90 e Mais Quatro Poemas"

(Nota acerca da palavra "sòzinho":
nunca actualizo a grafia das edições.)



               " Philtro "


De que é compôsto o philtro que me déste,
amor, que a amar assim me reduziste?
que magas seducções lhe introduziste,
ou de que ethereas plagas o trouxeste?

Em recordar aquillo a que sorriste,
em repetir as phrases que disseste,
pois que bebi do líquido celeste
n'isto a razão do meu viver consíste!

Sei que ao fragor da guerra incandescente,
se erguem nações, e outras nações se abatem
sobre um mundo que rue sinistramente.

Sei que rolam por ingremes declives
mil oppostas noções que se combatem...
E só tenho a noção de que tu vives!...

Branca de Gonta Colaço, In "Hora da Sésta"

09/04/08




             " Cais "


agora que embarcados rumamos ao sol nascente
na traineira que outrora sabíamos abandonada
talvez se aproxime de novo a luz que nos separou


porque o amor não é apenas o outro lado do ódio
é também uma calha de afectos e reencontros
ainda que no cais onde ancorámos a solidão
tenha ficado para sempre o medo de sermos um


agora que embarcados rumamos ao sol nascente
naufraguemos de novo os corpos num mar de cetim
para que não mais a luz se dispa da sombra
para que não mais os dedos sangrem de espera

Henrique Manuel Bento Fialho, In "Cerejas
poemas de amor de autores portugueses
contemporâneos"

Poetas

António Ramos Rosa, na Biblioteca Municipal D.Dinis (2007)

Celebração de um corpo


Quantos prodígios exactos nesse corpo
de simetrias ardentes, de redondas geometrias!
Lavrado pelo vento, modelado pelo fogo,
polido pela água, de incandescentes cimos,
de espumantes funduras sequiosas!
Dir-se-ia um ramo do esplendor o torso oblíquo
onde dois pequenos e redondos seios latejam.
Dir-se-ia um navio pela alta simetria
das suas pernas brancas. E que dizer do rosto?
Talvez três palavras: estrela, alma água.
Como o discurso da água é o ventre liso,
e o umbigo uma côncava conchinha preciosa.
No seu pequeno púbis a penugem é doirada
e leve, de um veludo quase azul.
Redondos e brancos como luas os joelhos,
e os delicados pés, amorosamente exactos,
quase minúsculos, mas sólidos e terrestres.
O vigor e a graça unem-se nesse corpo
sumptuoso e frágil, vegetal e límpido.
Que fulgurantes maravilhas, que jóias tão sedosas!
No amplexo o dorso é espesso como um barco
e as nádegas, quase opulentas, são redondas dunas
de uma flexível argila plenamente solar.
Que tesouros tão fluídos e que energia tão tensa,
que relâmpagos fulgurantes, que flores tão sólidas!

António Ramos Rosa, In "A Rosa Intacta"

08/04/08


           " Poema 12 "


Descer-te o corpo palmo a palmo
Descer-to como quem sobe ao cume do mais alto
monte, como quem encontra a firmeza de um
espaço, para o qual nenhuma língua tem nome
Descê-lo ou moldá-lo, nem eu sei bem: o rosto
jovem, o sedoso peito, as coxas; descê-lo e
construir o murmúrio sibilante do vento, ou de
uma boca entreaberta no rumor ofegante da
tarde


Descer-te o corpo palmo a palmo
Não o corpo fardo, prisão, informe desejo que
a si se basta numa infindável corrosão de tudo,
mas um corpo luz, amigo, que sorrindo aquilo
que o excede a mim entrega


Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler, 2004, p 33.
.

( Àquele menino iraquiano
a quem as bombas americanas
arrancaram os braços e as pernas)


Como afagarei eu a terra?
Com que mãos colherei flores na margem do canal, ou atirarei
pedras aos peixes nas tardes ensolaradas de Verão? Com que
dedos folhearei os livros sagrados? Aonde os braços com que
poderia apertar o ébano gigante no outro lado da praça?
Dizem os mais velhos que tudo era previsível, que o grande
cogumelo de Hiroxima continua ainda, agora com roupagens
de falso humanismo

Mas o que me espanta não são bem as mortes, as ocupações,
os desmembramentos. O que me surpreende, e o entendimento
me tolhe, é que eles consigam olhar de frente todas estas coisas
e que, apesar disso, falem; é que à noite, ilesos, regressem a
casa e, sorrindo, beijem a mulher, o filho, o cão. O que de
sobremaneira me espanta é a forma como adormecem: sem
pesadelos, apaziguados, pretensamente puros

Victor Oliveira Mateus, In "Pelo Deserto as minhas mãos"

07/04/08

"Natureza Viva", Fotografia de Nuno Fernandes


E te pressinto
o bafo. Vens
com teus pólipos de águia
submarina, teu
cinto de agudos
sobressaltos. Alga
de sangue e magma, tu
cresces redonda, coroada
de arquipélagos de escamas
e de espuma,

Albano Martins, In "Três poemas de amor seguidos de Livro Quarto"





Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

Maria Teresa Horta, In "Destino"
                                                           Foto de Tana Kaleya


De tão longe me tocaste.
Ou foi a tua sombra
que dançou
na minha sombra?
Podia ser de júbilo
a linha do teu rosto
quando soletraste
a rebeldia dos sonhos
e te fizeste errante.
Agora o sonho
é também o meu exílio.
E muito mais me perturba
o luto do olhar
do que a boca
ferida de silêncio.

Graça Pires, In "Uma Extensa Mancha de Sonhos"

05/04/08


               " Poema   12 "


                            (Em torno de um título
                            de Maria Archer)


Devia haver uma lei
um qualquer decreto ou norma
que nos impedisse o rigor dos afectos
o cataclismo dos desejos

Devia haver um céu
com nuvens de arame-farpado
onde estiletes vigilantes
pronto trespassassem
todo o peito que o sonho insistisse

Talvez - quem sabe?- até
se pudesse criar uma ilha
cercada de vidros e circuitos eléctricos
para onde se desterravam
os obstinados das paixões
os insurrectos da fantasia

Devia era haver qualquer coisa
contra esta tortura de ouro e maravilha
que nas margens do tempo insiste
e em barcos que ninguém vê
aos poucos nos desencaminha


Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editª, 2001, p 35.
.




         "  Poema  25  "


Sobre o verde a triste joaninha
saltita com os seus pézinhos de joaninha
dança as suas danças de joaninha
ama com o seu coraçãozinho de joaninha

Durante alguns minutos
faz o seu número de equilibrismo
no rebordo dourado do pires
lança-se de improviso
para o trapézio na asa da chávena
e impõe um estranho sapateado
na capa do último Josef Winkler
que acabei agora de ler

Sobre o verde da mesa verde
a triste joaninha improvisa todos os números
para os seus pézinhos de joaninha
para o seu coraçãozinho de joaninha

Durante alguns minutos
toma o seu banho
na bica já esfriada
assobia mecanicamente
encostada ao copo de água
enquanto alisa as suas antenas
de erudita deprimida
para a sua questão fundamental
de joaninha:

"então ó meu grande parvo
a vida é apenas isto?"



 Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, p 61.
.

04/04/08




E se te transformasses em pássaro?
Eu tranformava-me em céu, um vasto céu azul, com nuvens de fogo
nas pontas e sulcos de pétalas no centro; um fulgurante azul celeste
criado só para ver todo o fascínio do teu irromper.

E se te transformasses em água?
Eu transformava-me em fonte, ou talvez numa nascente, que a ânsia
de ver-te inundasse e nas paisagens que te vou escrevendo a minha
sede abrandasse.

E se te transformasses em estrela?
Uma imponente estrela de espuma com brilho de lava e gestos de
vento? Eu transformava-me em sombra, uma sombra incandescente,
onde tu: pássaro, água ou estrela, pudesses andar e na varanda de
minha espera, devagarinho, viesses pousar.

Victor Oliveira Mateus, In "Col. afectos: Amor", Labirinto.





Volto à infância uma vez
mais. À cintilação do verde
entre os pinheiros. À humidade
do musgo a desdobrar-se
por serras e caminhos

nunca vistos. Regresso ao jogo
cristalino dos espelhos. À cantante
refracção dos rios
alimentando pomares e azenhas.
Torno ao meu país, sempre

sonhado e sempre incompleto;
país antiquíssimo, onde os homens
conservam a exacta dimensão
dos magos e dos deuses. Volto,
de novo, à infância: fabuloso
lugar de onde nunca saí.

Victor Oliveira Mateus, In "Col. afectos: Natal", Labirinto

01/04/08

Poetas


Elegía

Yo quiero ser llorando el hortelano
de la tiera que ocupas y estercolas,
compañero del alma, tan temprano.

Alimentando lluvias, caracolas
y órganos mi dolor sin instrumento,
a las desalentadas amapolas

daré tu corazón por alimento.
Tanto dolor se agrupa en mi costado,
que por doler me duele hasta el aliento.

Un manotazo duro, un golpe helado,
un hachazo invisible y homicida,
un empujón brutal te ha derribado.

No hay extensión más grande que mi herida,
lloro mi desventura y sus conjuntos
y siento más tu muerte que mi vida.

Ando sobre rastrojos de difuntos,
y sin calor de nadie y sin consuelo
voy de mi corazón a mis assuntos.

Temprano levantó la muerte el vuelo,
temprano madrugó la madrugada,
temprano estás rodando por el suelo.

No perdono a la muerte enamorada,
no perdono a la vida desatenta,
no perdono a la tierra ni a la nada.

En mis manos levanto una tormenta
de piedras, rayos y hachas estridentes
sedienta de catástrofes y hambrienta.

Quiero escarbar la tierra con los dientes,
quiero apartar la tierra parte a parte
a dentelladas secas y calientes.

Quiero minar la terra hasta encontrarte
y besarte la noble calavera
y desamordazarte y regresarte.

Volverás a mi huerto y a mi higuera:
por los altos adamios de la flores
pajareará tu alma colmenera

de angelicales ceras y labores
Volverás al arrullo de las rejas
de los enamorados labradores.

Alegrarás la sombra de mis cejas,
y tu sangre se irá a cada lado
disputando tu novia y las abejas.

Tu corazón, ya terciopelo ajado,
llama a un campo de almendras espumosas
mi avariciosa voz de enamorado.

A las aladas almas de las rosas
del almendro de nata te requiero,
que tenemos que hablar de muchas cosas,
compañero del alma, compañero.

Miguel Hernández

(Escrito em 10/1/36, quando o poeta soube
da morte do seu amigo Ramón Sijé...)

31/03/08



         "  Poema  1  "


Nunca a terra assim se disse
na beleza calma das águas
no melopeia frágil dos seixos
raiados de azul e prata
e nos meus olhos que ulcerados
de aparente sem sentido
devagarinho pousam nas raízes
dos lírios adormecidos

Nem o fogo esta forma teve
de em brandura torturar
os socalcos desordenados das colinas
o despique incestuoso dos cheiros
da malva amarelecida da beladona
de mim à procura
no doloroso bordejar do bosque
em que me aparecia

Nunca a terra assim se disse
nesta sombra onde aos poucos
se perdia


Mateus, Victor Oliveira. Movimento de Ninguém. Lisboa: Minerva, 1999, p 13.



             " Poema  1 "


Sobre o dragoeiro, na sua ponta
mais extrema, ali deixei um gesto
esquecido, um farol compassivo,
uma réstia de tudo, depois,
depois sentei-me em frente,
na esperança que viesses
beber à armadilha.

Mateus, Victor Oliveira. Nas Águas a Luz Suspensa. Lisboa: Minerva, 1998, p 9.