20/05/08
seduzem-me
os barcos que abandonam o porto
ao romper do dia
e a sua navegação solitária
entre as ilhas
a outra mão dos maestros
e todas as mãos
que falam dão e recebem
e se acariciam
as paisagens
quentes do sul
os sons duma guitarra
e os gestos lentíssimos do tai chi
esse estranho e antigo bailado matinal
seduzem-me
os livros abertos
e os olhos ardendo
de palavras e sinais
os olhos correm
juntam símbolos e correm
decifram a mensagem fixam a notícia
detêm-se por momentos
para medirem a realidade circundante
da casa do chá
o tempo de virar a página
e ei-los a correr de novo
até à última linha
entre amores e ódios
delírios e intrigas
prazeres e dores
leis e razões
dúvidas e medos
sonhos
esperanças
e cantos
imensa roda
a preto e branco
de um mundo que é sempre notícia
aberta aos sentidos
António Cardoso Pinto, In "A lua dos astronautas
não é a minha lua", Gradiva, Lisboa...
18/05/08
.
.
"La Mendiga"
.
La mendiga bajaba siempre a la misma hora y se situaba
en el mismo tramo de la escalinata, con la misma enigmática
expresión de filósofo del siglo diecinueve. Como era habitual,
colocaba frente a ella su platillo de porcelana de Sèvres pero
no pedía nada a los viandantes. Tampoco tocaba quena ni
violín, o sea que no desafinaba brutalmente como los otros
mendigos de la zona.
A veces abría su bolsón de lona remendada y extraía algún
libro de Holderlin o de Kierkegaard o de Hegel y se concentraba
en su lectura sin gafas.
Curiosamente, los que pasaban le iban dejando monedas o
billetes y hasta algún cheque al portador, no se sabe si en
reconocimento a su afinado silencio o sencillamente porque
comprendían que la pobre se había equivocado de época.
Mario Benedetti, In "La Vida ese Paréntesis"
17/05/08
Poetas
"Funeral Blues"Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.
W. H. Auden
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães:
"Blues Fúnebres"
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das
pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa,
a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.
(Abril, 1936)
W. H. Auden, In "Diz-me a Verdade Acerca do Amor"
15/05/08
Poetas

Nota: não são apenas alguns poemas que me influenciam
e/ou intimidam, há também autores perante os quais sou
incapaz de articular o mínimo juízo, ou de acerca deles
executar qualquer tarefa, por mais anódina que seja. Em
tempos pediram-me um texto para uma antologia sobre
Neruda - não fui capaz de o fazer! Mas entre os autores
que exercem sobre mim esse bloqueio, para além de Neruda,
estão também os nomes de Pasolini e de Pavese. Assim,
segue-se um dos mais belos poemas de Pavese: no original
e na versão francesa, apesar de serem duas línguas que
domino razoavelmente, não ousei fazer a tradução para
português...
.
.
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Verrà la morte e avrà i tuoi occhi -
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, come un vecchio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi occhi
saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Cosí li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello specchio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla.
.
Per tutti la morte ha uno sguardo.
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi.
Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello psecchio
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.
.
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22 marzo 1950
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Cesare Pavese, In "Verrà la morte e avrà i tuoi occhi"
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Tradução do italiano para o francês
feita por Gilles de Van (Éditions Gallimard):
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La mort viendra et elle aura tes yeus -
cette mort qui est notre compagne
du matin jusqu'au soir, sans sommeil,
sourde, comme un vieux remords
ou un vice absurde. Tes yeux
seront una vaine parole,
un cri réprimé, un silence.
Ainsi les vois-tu le matin
quand sur toi seule tu te penches
au miroir. O chère espérance,
ce jour-là nous saurons nous aussi
que tu es la vie et que tu es le néant.
.
La mort a pour tous un regard.
La mort viendra et elle aura tes yeux.
Ce sera comme cesser um vice,
comme voir resurgir
au miroir un visage défunt,
comme écouter des lèvres closes.
Nous descendrons dans le gouffre muets.
.
.
22 mars 1950.
.
.
Cesare Pavese
14/05/08
"Os loucos"
Há vários tipos de loucos.
O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.
O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.
O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.
E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.
Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.
António Osório, In "A Ignorância da Morte"
13/05/08
ISSILVA
rodrigo pereira issilva
soares constante issilva
alves bandeira issilva
simões quintino issilva
macedo bastos issilva
sotto mayor issilva
rosado rosado issilva
nunes fernandes issilva
vieira tavares issilva
rebelo teixeira issilva
madeira romão issilva
vicente cabral issilva
nogueira guerra issilva
espírito santo issilva
de maldonado issilva
de lacerda issilva
de moraes issilva
nunes valente issilva
f. lacombe issilva
domingues magalhães issilva
m. athayde issilva
monteiro pires dassilva
Alexandre O'Neill, In "Poesias Completas",
1951/1986, pgs. 332/3
12/05/08
"Visita"
Que ela chegue
sem clarins ou trombetas,
entre como facho de luz
pelas gretas da janela
e atravesse o quarto
na sua claridade.
Que ela chegue
inesperada,
como a chuva
na tarde calorenta
e faça subir o odor
de poeira molhada.
Que ela chegue
e se deite ao meu lado,
sem que a perceba.
Que me lave
com água da fonte
e me cubra
com o bálsamo branco
do silêncio.
Donizete Galvão, In "Mundo Mudo"
10/05/08
Poetas
Foto de Davy Ligeraqui cheguei com o tempo
gasto na bagagem e a casa
vazia para ocupar
a terra era quente e o milho
crescia entre espasmos de sol
nos meus olhos marejados de solidão
insinuou-se o teu horizonte
ponte entre duas ilhas
o dia começou noite
e adormeci em teu regaço
Paulo Moreiras, In "Do Obscuro Ofício"
09/05/08
"Carta a meus filhos sobre Os Fuzilamentos de Goya"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse "com suma piedade
e sem efusão de sangue".
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente
quanto haviam vivido,
ou as cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham
consciência de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos
tanto não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de serem vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
(Lisboa, 25 Junho 59)
Jorge de Sena, In "Poesia II", s/c, Moraes Editores, 1978.
08/05/08
Poetas
"Um indiano dormindo numa escadaria",In "Mère Teresa de Calcutta", Paris, Éditions
du Seuil, 1973.
"Os Expostos"
Há ainda pássaros de luz nas árvores anoitecidas.
Os retardatários deixam a avenida, envoltos já em
capas de sombra, e mergulham nas ruelas da cidade
antiga, por onde me aventuro eu também em busca
não sei de quê. Esta mulher triste leva nos olhos, que
não conseguem esconder-se, as cinzas ainda mornas
de um amor. Em toda a parte eros comanda a vida,
mesmo nos bairros da penúria e do fracasso ou da
avidez do negócio que por aqui fervilha. Por detrás
das portas que se fecham adivinha-se gente a fazer
contas ao destino e à escassez, mas há também lá
dentro beijos e abraços de corpo inteiro. O ouro das
aparências empalidece agora. Os olhos da escuridão
gelam gestos e projectos, empurram os desistentes
para as rotinas da sobrevivência.
E eis que encontro a morte nesta rua. Uma jovem,
violentada pela miséria, além se quedou, em chão de
pó, anónimo cadáver a decompor-se, com duas velas
compassivas à sua beira. Aguarda que sobre ele
caiam uma a uma pequenas moedas até se perfaze-
rem as cinquenta rupias que as autoridades exigem
para decidir o enterro.
Não adormeças ainda, não descanses, minha fé na
vida. Mas esta noite é um muro sem limites, com o
implacável reflexo de duas ou três estrelas na
podridão de um charco.
Urbano Tavares Rodriges, In "Rostos da Índia
e alguns sonhos"
"Antes e Depois do Amor"
Lembro-me
(ou imagino que me lembro?)
de uma rosa antes do amor
e depois do amor.
Os olhos a morderem a rosa
eternizando
astros indomáveis. Uma bruxa
a varrer intrusos, uma fada a multiplicar
o acerto do prazer.
Lembro-me
(ou imagino que me lembro?)
da caneca do chá a seguir
a todas as rosas, o colar de pérolas
na penumbra.
Lembro-me do espelho
estilhaçado por um choque brutal
de temperaturas
(ou imagino que me lembro?)
Silva, Maria Augusta. Dança de Matisse. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p 44.
.
"Insubmissos"
Dias tenho em que me afundo
na terra
como toupeira escavando sonos
longos.
Pertenço a esse reino de procura
esperando
encontrar dálias na tua urna. Dálias
e a sinfonia
guardada na caixa verde, fecunda
identidade
do amor que nos fez insubmissos
Silva, Maria Augusta. Dança de Matisse. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p 61.
.
06/05/08
05/05/08
Nas dunas mais douradas próximas do mar
descobri tua morada. Mas te ausentaras.
Olhei barcos de pesca marinheiros ao sol
não estavas lá. Entre os que puxavam redes
e escolhiam peixes por qualidade e tamanho
também não estavas. Indaguei ninguém sabia teu nome
riam do embaraço com que eu buscava descrever-te.
Ninguém vira alguém assim. Esperei junto à duna
as horas passavam descuidadas e nada sabiam
de ti. No céu as primeiras estrelas assomaram
e riam do meu rosto desfeito de cansaço.
Vasculhei desesperada o antro em que te abrigas
vi sinais tão vagos: marcas de pés descalços
um vasilhame intacto e vestes brancas.
Nada parecia usado pela vida. Tua coleção
de conchas nacaradas teu chapéu de algas
te denunciavam.
Existes ó ausente ou és somente quem buscamos
numa realidade arisca e improvável?
Dora Ferreira da Silva, In "Poemas da Estrangeira"
04/05/08
Poetas
"Em pura ausência (I)"
Em pura ausência
reconstruo o dia.
Fugiu-me a alma das coisas.
A rosa não é rosa,
apenas uma sombra.
A música de Mozart
é triste melodia
na tarde que se escoa.
Tua ternura antiga
urge ser esquecida.
Destruo lembranças
como quem queima
a vida.
Lara de Lemos. In "Águas da Memória"
Poetas
Jacopo Tintoretto, Autorretrato, ca. 1547-1548"Difícil Amor"
Acordas líquido no teu sangue sobre meu sangue
de asas paradas
Acordas distante e próximo e cantas-me o cântico sem fundo
Cantar amigo inimigo cantar dobrado que desde a infância
escutei
E amo-te amo-te sem saber o objecto amado
Sem esquecer todo o óleo derramado em tuas mãos pesadas
De bens que não são os meus
E contudo tudo é amor incoerente e real e que se reconhece
Sem coragem de romper os linhos do amanhã
E não te amo não não se ama esta ferida de mistério
que se sente em já saudade de barro húmido
lavrando no beijo a secura da humilde pele
E eu sei o que é amar e ser amada meus olhos limpos
não dizem adeus.
E os deuses não esperam
Matilde Rosa Araújo, In "Voz Nua"
03/05/08
Poetas
"Dawn", Foto de Annette Blattman"Paisagens"
Paisagens tranquilas ou desoladas.
Paisagens da estrada da vida mais do que da superfície da Terra.
Paisagens do Tempo que se escoa lentamente, quase imóvel
e às vezes como que de marcha atrás.
Paisagens de retalhos, de nervos lacerados, de "saudades".
Paisagens para tapar as feridas, o aço, o estoiro, o mal,
a época, a corda ao pescoço, a mobilização.
Paisagens para abolir os gritos.
Paisagens como um lençol puxado até à cabeça.
Henri Michaux, In "Peintures"
Poetas
"O pássaro que se apaga"
É durante o dia que ele aparece, no dia mais branco. Pássaro.
Bate as asas, voa. Bate as asas, apaga-se.
Bate as asas ressurge.
Pousa. E depois desaparece. Com um bater de asas
apagou-se no espaço branco.
É assim que se comporta o meu pássaro familiar,
o pássaro que vem povoar o céu do meu pequeno pátio.
Povoar? Bem se vê de que maneira...
Mas permaneço quieto, a contemplá-lo, fascinado
pela sua aparição, fascinado pela sua desaparição.
Henri Michaux, In "Apparitions"
É durante o dia que ele aparece, no dia mais branco. Pássaro.
Bate as asas, voa. Bate as asas, apaga-se.
Bate as asas ressurge.
Pousa. E depois desaparece. Com um bater de asas
apagou-se no espaço branco.
É assim que se comporta o meu pássaro familiar,
o pássaro que vem povoar o céu do meu pequeno pátio.
Povoar? Bem se vê de que maneira...
Mas permaneço quieto, a contemplá-lo, fascinado
pela sua aparição, fascinado pela sua desaparição.
Henri Michaux, In "Apparitions"
02/05/08
Inabalável Memória
"A lição dos Horizontes"Um ceu dormente
morre nas curvas baças do Horizonte...
E Ceus e Longes, Horizontes e Ceus,
abraçam-se, confumdem-se irmãmente.
Abraçam-se, confundem-se irmãmente,
- e nem eu sei, ó Horizontes rasos,
atrás de que alto enlevo é que abalais,
sempre com ar ausente,
suspensos, misteriosos, sempre iguais!
Ruim quebranto
que de indiziveis coisas nos alaga,
por todo êste concavo em que habito
vai uma ânsia indefinida, vaga.
Não sabe a gente,
na indecisão em que ela ondeia e erra,
onde termina a Terra e se entra no Infinito,
onde o Infinito acabe e seja a Terra!
A estrofe embaladora da Distancia,
num marulhar de encanto, em nossas veias
dilui-se em opio, em opio se desfaz.
Atrás da fluida estancia,
abalam sem partir os Horizontes,
que essa cantiga, irmã da das sereias
arrastadoramente as leva atrás!
... ... ...
Ó circulo da Vida! Ó mito da Serpente!
Só é feliz quem a lição te aprova!
Meu coração, descansa, não te agites,
- não sejas tu também a Estrada-Nova!
A posse da Existência está somente
na aceitação gostosa dos Limites!
Exalta-te, mas fica! Não te sumas,
meu coração, na febre de abalar!
Desejos sem raiz são cinza, espuma,
- desfazem-se o ar!
Olha, menino e moço. os Horizontes
querem partir, mas deixam-se ficar!
Antonio Sardinha, In "A Epopeia da Planicie"
Coimbra, França Amado Editor, 1940,
Nota 1- conservo sempre a grafia das edições.
Nota 2- as rubricas: "Poetas", "Poemas" e "Inabalável
memória" são só para poemas, mesmo que os autores
sejam conroversos, mas nos comentários poderá ser
escrito o que entenderem sobre o tema. Outras
rubricas existem com outro tipo de preocupações
como, por exemplo, a "Notas soltas"...
01/05/08
Poetas
"Salisbury Plain, South Georgia", Foto de Thijs Heslenfeld" Princípio e Fundamento"
Quem rega com amor não morre.
Rebentam flores.
Os frutos esplendem.
Rompe a semente
tecido vivo.
Quem rega com amor não morre.
Conhece o início
e os fins do tempo.
Quem rega com amor não morre.
Adianta-se à terra
e serve.
Ruy Cinatti, In "corpo-alma"
Poetas
Retrato de Mme Judith Teixeira, In "Ilustração Portuguesa", nº 886, de 10/2/1923.
"A Minha Amante"
Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!...
Eles sabem lá o que há de sublime,
nos meus sonhos de prazer...
De madrugada, logo ao despertar,
há quem me tenha ouvido gritar
pelo teu nome...
Dizem - e eu não protesto -
que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!
Dizem que eu me embriago toda em cores
para te esquecer...
E que de noite pelos corredores
quando vou passando para te ir buscar,
levo risos de louca, no olhar!
Não entendem dos meus amores contigo -
não entendem deste luar de beijos...
- Há quem lhe chame tara perversa,
dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal -
o meu castigo...
E eu em sombras alheio-me dispersa...
E ninguém sabe que é de ti que eu vivo...
Que és tu que doiras ainda,
o meu castelo em ruína...
Que fazes da hora má, a hora linda
dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltes aos meus apelos dolorosos...
- Adormenta esta dor que me domina!
Judith Teixeira, In "Decadência"
29/04/08
28/04/08
Poetas
"Noite escura"
Numa noite escura,
Por tormentos amorosos inflamada
(Oh, ditosa ventura!)
Saí sem ser notada,
Estando já minha casa sossegada.
Disfarçada, segura,
Na escuridão subi a secreta escada,
(Oh, ditosa ventura!)
Oculta e emboscada,
Estando já minha casa sossegada.
Nessa noite ditosa,
Em segredo, quando ninguém me via,
Saí sem olhar, suspeitosa,
E sem outra luz nem guia,
Se não a que em meu coração ardia.
Só ela me guiava,
Mais certeira que a luz do meio-dia,
Aonde me esperava
Aquele que eu bem sabia,
Nesse lugar onde mais ninguém surgia.
Oh noite, que me guiaste!
Oh noite, mais amável que a alvorada!
Oh noite que juntaste,
Amado com amada,
Sendo esta naquele transformada!
No meu peito florido,
Que inteiro só para ele se guardava,
Ali ficou adormecido,
Enquanto eu tudo lhe ofertava,
E um renque de cedros brisa dava.
Das ameias a aragem plena,
Quando eu seus cabelos espargia,
Com a sua mão serena
O meu pescoço feria,
E todos os meus sentidos suspendia.
Fiquei, e de mim me esqueci,
O meu rosto reclinado sobre o Amado,
Tendo tudo cessado por si,
Deixando o que antes fora cuidado,
Entre as açucenas olvidado.
In "Poemas de S. João da Cruz" (edição bilingue)
em tradução (e prefácio) de Victor Oliveira Mateus,
Ed. Coisas de Ler.
27/04/08
Poetas
"Natalia Vodianova" (para a revista "W" de Out.,2006)Foto de Mert Alas e Marcus Piggott
"Oscuridad Hermosa"
Anoche te he tocado y te he sentido
sin que mi mano huyera más allá de mi mano,
sin que mi cuerpo huyera, ni mi oído:
de un modo casi humano
te he sentido.
Palpitante,
no sé si como sangre o como nube
errante,
por mi casa, en puntillas, oscuridad que sube,
oscuridad que baja, corriste, centelleante.
Corriste por mi casa de madera,
sus ventanas abriste
y te sentí latir la noche entera,
hija de los abismos, silenciosa,
guerrera, tan terrible, tan hermosa
que todo cuanto existe,
para mí, sin tu llama, no existiera.
Gonzalo Rojas, In "Las hermosas - Poesías de amor"
Poetas
"Jumpin' Jack Flash", Foto de Ekkeheart Gurlitt"Passado Tanto Tempo..."
Procura guardá-las, Poeta,
por poucas que sejam de guardar,
do teu amar as visões.
(Konstandinos Kavafis, Trad. Jorge de Sena)
A partir do local
talvez possa evocar-te...
A praça. A esquina da praça, uma cabine.
Agora tenho tempo... passados tantos anos...
Sei que era noite, e bem noite.
Que andara toda a noite, perdido.
E que ali viera parar, não sei como... -
em busca, certamente,
de um corpo, de outro corpo.
De passagem, furtivamente ali te vi,
encostado.
Reparara em ti imediatamente.
Como não reparar?
Em frente - não, ao lado- não esquecer que havia
uma esquadra.
E dei a volta à praça.
E separei-me de ti, deixei-te ali,
encostado, longo tempo.
Sei - ou adivinhei- que havia em ti o gosto,
o gosto e o propósito,
firme e devoluto,
de te entregares, de possuires.
Eras belo como sempre imaginei a beleza.
Eras jovem e penso
que baixo, de cabelos castanhos, as faces meio
rosadas, os olhos entre o azul e o verde.
Um precipício branco e luxuriante de brancura
expresso no vermelho sanguíneo do teu sangue.
Eras uma promessa e eras, também, oferta.
Eras - serias- a posse, nessa noite, de um pouco
de infinito.
Não esquecer que a praça era guardada.
Não esquecer que me afastei, por fim,
depois de longo e longo tempo rondar,
indeciso...
Ainda hoje- tantos anos passados...-
conservo na lembrança e no arrependimento
de não te ter falado,
de não ter provado, uma a uma, os saborosos
frutos da vida.
Raul de Carvalho, In "um e o mesmo livro"
26/04/08
Poetas
"Cold", Foto de Carla NunesNotas:
1- voltamos a editar este trabalho de Carla Nunes,
por considerarmos que a anterior publicação da
mesma foto, por questões informáticas, não revelou
toda a qualidade da mesma. O acordo foi estabelecido
com a fotógrafa;
2- O poema que se segue (Migrar II) de Rodrigo Petronio
deve ser lido a seguir ao poema de Maiara Gouveia
(Migrar I). O acordo foi também estabelecido com
os dois poetas brasileiros.
"Migrar II"
Migro para ti, além-palavra.
As vozes e murmúrios que te acuam, não, não dizem nada.
São a fala de um dia ao sol a pino, alguns volteios de luz,
leque opaco, marcas.
Velas não desfraldam mais nem cinzas dessas pátrias.
Pois a luz maior ainda prepara seu sopro de beleza,
solfejo, harpa.
Sabes que o tempo enterra, mas não dança.
Não sabe da tragédia entre duas asas.
Ardem as formas claras do esquecimento, a poeira original,
miragem: farsa.
Que temos com isso? Quem mais vem ao encontro dos arquivos?
O incêndio lunar das casas? Nossos corpos sejam benditos,
membros, orifícios.
Já somos deuses, Amada.
Retenho esse momento entre meus dedos.
A fagulha doura o céu, enquanto pontilhas o horizonte:
O corpo de magma e a espada te atravessam, meio a meio.
Gozo e ressurreição: nossa hóstia, nossa vinha e
novos zelos.
Eis minha resposta à tua indagação:
Sermos o veio, a foz, partitura e aragem: sermos.
Amo-te com estes lábios, os de sempre, intocados.
Descubro em cada curva em que volteio, um país, toda
a linguagem.
Abro-me à tua nova flora, cadela, hino entoado entre
ruínas,
Virgem Negra de meus sonhos mais plenos, de minha
miséria mais clara.
Farejo-te nas estações, contorno o círculo de águas.
Nossas cicatrizes, mapas: viagens ainda a desvendar
depois da pele.
Tudo isso é parte do poema, a tatuagem transborda.
Fora da vida, dentro do mundo: és minha alma,
quando falo.
Marco-zero, nem pedra sobre pedra do passado.
Aqui, agora, sempre, construo este poema: o teu corpo.
Sou a seiva enraizada em pergaminhos, folhas de relva,
cabras.
Espaço virgem, Musa Negra, minha amada sem começo.
Nossa vida indestrutível rumo ao albedo.
Presentes na eterna duração.
O futuro redivivo: chama nossos corpos.
Nunca um amor maior viveram estes meus poros.
Em tua boca, nuca, sêmen, dorso, fronte: retorno ao nada.
Eis a minha ascese, sem templo ou gênese: clarão.
Decifra-me e habita o meu país, ventre e delicadeza
de tuas espáduas.
Deserto de minha sede sem retorno.
Plenitude de um deus que anima as tuas mãos.
Rodrigo Petronio (Inédito)
Poetas
24/04/08
Poetas
" O Poeta "não me aproximo
vou meditando as linhas
da inesperada súbita escultura
ali posta na rua
como se por acaso
O homem magro senta-se apagado
a uma pequena mesa
usa chapéu um liso fato
e espera e pensa
- Álvaro Ricardo Fernando
Bernardo Alberto -
aproximo-me
e agora de tão perto
pouso-lhe a mão no ombro
e sorrindo suspiro
assim se quer o Poeta sempre
perdido entre pessoa e toda a gente
Glória de Sant'Anna, In "E nas mãos algumas flores"
"No ônibus"
dormia no ônibus
a cada parada o corpo se sacudia
ele abria os olhos via a gente que entrava
via a gente que saía pensava fosse
outro aquela moça aquele rapaz
tinha outra história começava de novo
morava noutro canto da cidade
cochilava com aquele sonho
de ser qualquer outra pessoa do mundo
menos ele mesmo
Vera Lúcia de Oliveira, In "No Coração da Boca"
23/04/08
" Poema 26 "
Ninguém sabe como começa
o irrefreável movimento dos mercadores, esse burburinho
forte quando pelo chão espalham os seus produtos
Ninguém sabe como no azul das camionetas se amontoam
tantas coisas incríveis: homens, cestos, galinhas... é uma
enchente ao despique com o vagido dos dromedários, com
os gritos dos berberes a quem só vejo os olhos
E vêm também uns jograis do outro lado do Mediterrâneo:
cabriolam, mimam actos desconexos, tecem imagens a seu
bel-prazer em poemas curtos e de rápido efeito
Ninguém sabe como começa
o instante em que me aproximo: calado, nu, completamente
indefeso. Frente ao turbilhão - eu, com todas as mazelas
à mostra; eu, pequena Viagem dentro de outra bem maior.
Mas que importância tem esta incauta leveza se estou
apenas de passagem?
Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto As Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler, 2004, p 61.
.

" Poema 21 "
Querer-te é sentar-me na praça, logo de manhã,
só para te ver passar
Querer-te é os teus olhos, o teu sorriso cúmplice,
as tuas palavras
Querer-te é também não me veres, se por acaso
alguém está perto
Querer-te é haver sol e vento e estrelas. É o verde
das acácias e das palmeiras e as rosas de Jericó
alinhadas até à ponta das dunas
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa,
as tâmaras, a voz da grande Kolthoum vinda de uma
janela num cântico apaixonado ao Nilo
Querer-te é haver noite - ah, sobretudo a noite! E é
o teu corpo nu, exausto, branco como um templo,
porque todos os corpos são um templo no solo
consagrado que há
Querer-te é o sorriso no rosto das crianças, o grácil
e dançante caminhar das mulheres, a fonte, as águas
Querer-te é tudo, até o meu desejo de te não querer
Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler, 2004, p 51.
.

" Poema 3 "
Que voz chora por mim
no outro lado das grandes pedras? Que lamento? Que murmúrio
por entre a sombra rala dos arbustos? Talvez seja o vento: o zurzir
de um estranho vento oceânico no meu rosto enquanto durmo. Ou
talvez seja o sol, que esgarçando as longas nuvens, cai depois a
pique sobre o meu corpo. Ou ainda - quem sabe?- talvez nenhuma
dessas coisas seja, mas apenas o esquivo sibilar de um réptil no seu
ardil para me tentar
Mas não, nada disso poderá por mim chorar no outro lado das
grandes pedras. Nada, a não ser o eco dos teus olhos; o azul
desmaiado desses olhos, onde o meu sonho era um barco
impossível e as palavras soçobravam na raiz do meu desejo
Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler, 2004, p 15.
.

" Poema 2 "
Às vezes também os homens
espreitam na margem do oásis, vagueiam com desespero
no tosco emaranhado das dunas. Às vezes também eles,
por entre os cedros, em mim desenham um estranho mistério;
falam alto, gesticulam... São suas vozes uma ave inusitada no
azulado entardecer do Deserto. Mas eu finjo nem perceber.
É no Longe o que procuro
bem no centro desta paisagem, no macio regaço dos povos
nómadas, onde as caravanas se balanceiam sem nunca se
deterem
O meu lugar é um minúsculo e límpido poço, todo rodeado
de seixos, para lá do ocre de tantos palácios antigos - é o
lugar onde não sou, um estilhaçado vitral que ninguém vê,
mas que liberta
Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler, 2004, p 13.
.
Em minha voz, um veleiro traçou um rito de espantos,
um itinerário de espumas em despedida. Nas origens
do mundo, o vento batizou o meu nome, imprimiu,
em minha pele, um sol sem margens, um dia sem muros.
Na manhã em que nasci, um bando de garças
iluminou o profundo silêncio dos milagres.
Alexandre Bonafim, In "A Outra Margem do Tempo"

Para habitar esse tempo,
era necessário desnudar-se
até o âmago de toda palavra,
latejar a sede na anunciação
das primícias maduras.
Para respirar esse instante
desatado de relógios e datas,
era preciso latejar o cerne
da emoção mais viva,
inscrever o agora no fluir
da lua e das tempestades.
Esse tempo sabe soletrar
a nudez da inocência,
sabe nomear o azul
do esquecimento,
o norte da alegria.
Para habitar essa hora,
era necessário despir-se
até a origem de todo sorriso.
Alexandre Bonafim, In "A outra margem do tempo"
22/04/08
Poetas
" Cold" (2008), Foto de Carla Nunes"Migrar"
Matrimónio de vogais: agora nada.
Fica a distância entre o corpo e a palavra.
Sequer a marca do sol ou da sarça.
Faróis azuis na memória, e mais nada.
Além do mar, o tempo não traga.
Gaivotas mergulham sem regressar ao quadro.
Nenhum nome persiste além do enigma: migrar sempre.
E esta noite é tudo o que temos.
Toda palavra é precária: flor, pauta de aves, rosa clara.
Nada persiste além da chaga.
Seus instantes de amor, suor e toque, a enseada.
A solidão não une. Tudo nos separa.
Além do mar.
Negro, meu espírito recorda o exílio prolongado.
O golpe solar não muda esta noite, minha pele.
Todo nome é grave e transfigura.
Só posso oferecer esta noite, e mais nada.
A morte eclode em cada verso. Nudez necessária.
E só posso oferecer isto: o sonho primitivo dos corpos em busca.
A mágoa.
Renuncio ao amor, pois sou precária.
Outros amantes espalham gemidos pela casa.
São todos comuns em seus homicídios e meias-verdades.
Uma vez foi dito: é para sempre. Ao meio-dia, uma vez e basta.
O espelho sempre nos mostra o que nos falta.
Mesmo esta paisagem sucumbe em seus vocábulos.
É belo naufragar entre os meus lábios.
Renuncio a ti, amor, pois sou precária.
Além do mar, um país sem nome me aguarda.
Maiara Gouveia
21/04/08
Poetas
Poetas
"Invocação"
Quis o destino, a sorte, avara como o leito
de um rio seco, que ele fosse único - larva
matizada entre alvas larvas, e ouvisse o
apelo e, por isso mesmo, levasse à boca um
búzio e o fizesse soar, até que se ouvisse
a rouca melodia, invocando os mortos.
Álvaro Cardoso Gomes, In "Ficções Lunares"
Quis o destino, a sorte, avara como o leito
de um rio seco, que ele fosse único - larva
matizada entre alvas larvas, e ouvisse o
apelo e, por isso mesmo, levasse à boca um
búzio e o fizesse soar, até que se ouvisse
a rouca melodia, invocando os mortos.
Álvaro Cardoso Gomes, In "Ficções Lunares"
20/04/08
Foto de Tim Hetherington (tirada em 16/9/2007 noAfeganistão). World Press Photo 2008.
"O Menino da Sua Mãe"
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
-Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino de sua mãe".
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
Fernando Pessoa
Poetas
"Le Dormeur du Val"
C'est un trou de verdure où chante une rivière
Accrochant follement aux herbes des haillons
D'argent; où le soleil, de la montagne fière,
Luit: c'est un petit val qui mousse de rayons.
Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.
Les pieds dans les glaieuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme:
Nature, berce-le chaudement: il a froid.
Les perfums ne font pas frisonner sa narine;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.
Arthur Rimbaud
C'est un trou de verdure où chante une rivière
Accrochant follement aux herbes des haillons
D'argent; où le soleil, de la montagne fière,
Luit: c'est un petit val qui mousse de rayons.
Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.
Les pieds dans les glaieuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme:
Nature, berce-le chaudement: il a froid.
Les perfums ne font pas frisonner sa narine;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.
Arthur Rimbaud
19/04/08
Poetas
"One Way Ticket", Foto de Mike Jackson"Carta de Amor Informático"
Penetraste no meu coração
Como um vírus no meu processador
Vindo de lado nenhum
Ofereces-me agora
O vazio da não opção
Estragaste-me o real
Obrigaste-me a reinventá-lo:
Para quê?
Agora estás
No meu cemitério de textos
Já não te posso reencaminhar
Arquivei-te no lixo da memória
Do meu Pentium IV
Que aliás já vendi
Troquei-o por um lap top
Mais leve
Mais portátil
Mais facilmente descartável
Ana Hatherly, In "A Neo-Penélope"
" Ódio? "
Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!
Ah! Nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena.
Florbela Espanca, In "Sonetos"
18/04/08
Foto de Nuno Fernandes (2007), sem títuloDalla luce il volto breve
mi saluta tra i cespugli. Balla come nave
nel torbido chiarore del pomereriggio.
Luce misteriosa luce, fermo segnale
sulla non ascosa confusione del mondo,
finestra spalancata sull'ampiezza degli
oceani. Vieni. Tu che sempre ti nascondi
e ti palesi quandi il sole era una fiaccola
incandescente e la brezza sfociava
lentamente sul mio corpo. Vieni, portami
le grida dei ragazzi ao porto, i riflessi
del legno di unm veliere, il molo,
le casupole, le acque. Ah, portami tutto
ciò che innanzi me rese pien di gioia!
Tutto quanto in terra mi è toccato
dalla fortuna. Ma, se per caso, ciò non
potessi, portami, almeno, e leggermente,
la dignità nella morte.
Victor Oliveira Mateus, In "Antologia dei
poeti nel mondo", Mosaico Italiano,Febbraio,
2006.
(Da luz o rosto breve
me acena entre a folhagem. Como um navio
balança na turva limpidez da tarde. Misteriosa
luz, firme sinal na indisfarçável confusão
do mundo, janela escancarada à vastidão
dos oceanos. Vem. Tu que sempre ocultas
e revelas, traz-me de novo as tardes
da minha ilha. Essas tardes, quando o sol
era um facho incandescente e a brisa
desaguava lenta no meu corpo. Vem. Traz-me
os gritos dos rapazes no porto, os reflexos
no casco de um veleiro, o molhe, o casario,
as águas. Ah, traz-me tudo o que em tempos
me fez feliz! Esse tudo que na terra me coube
em sorte. Mas, se por acaso tal não puderes,
traz-me ao menos, e de mansinho,
a dignidade na morte.)
17/04/08
Poetas
"Friendship" (2008), Foto de Carla NunesPaciência
Faz-se o amor como se fosse um castelo
de cartas. Copas, paus, ouros, espadas. Um equilíbrio
difícil. Negros sobre vermelhos, damas e valetes
no meio de reis e ases. Ponho uma carta
sobre a carta que tu puseste; e tu acrescentas
a essa ainda outra. Até onde? Neste jogo, não
convém respirar com muita força; evitemos
os gestos bruscos, os que deitam tudo abaixo,
de súbito; e espreitemos o olhar de cada um de nós,
quando nos prepararmos para fazer subir o castelo.
Assim, ponho a minha emoção sobre o sentimento
que me confessas. Não precisas de mo dizer;
basta que eu saiba que os teus dedos brincam
entre corações e manilhas; que a tua voz treme
quando o edifício se parece com um labirinto;
e que ambos descobrimos uma saída, para um
lado ou outro
da toalha. Na mesa, com efeito, podem já
nascer as flores, cantar as aves que brotam
de uma ilusão de primavera, ou morrerem frases
e borboletas que esvoaçam numa corrente de ar.
Por que abriste a janela? Agora que tudo caiu,
sem que um nem o outro tivéssemos feito alguma coisa
para isso, de quem é a culpa? Então,
aproveitemos este silêncio breve, enquanto a tarde
não chega, e recomecemos o jogo.
Poetas
Vitorino Nemésio (1901-1978)O Afilhado
O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
Veio verme.
Verme não é. E, se fosse, isso que tinha?
Os anelídeos têm os seus anéis elásticos,
Num começo de élan superior, bem soldado,
A blocos de control e direcção,
Enquanto que ele a perde em centros
altamente sinápticos
E fica pobre e triste entre os apáticos.
O meu afilhado epiléptico
Veio ver-me,
Veio verme,
Veio eclético,
Entre os que sim e os que não,
Quase empastado e céptico
Num sorriso de vã resignação.
Fosse ele verme, o pobrinho, e até crustáceo!
Teria o sistema nervoso ao longo da barriga,
Táctico nas antenas de precisão, como a formiga.
Mas tem espinha dorsal e cabos de nervo de alto diâmetro,
Que deviam ser rápidos e senhoris na opção,
Mas às vezes não são...
O meu pobre afilhado epiléptico,
Eterno aprendiz de sapateiro,
Aplicando serol a fibras de cairo para botas
E fazendo virolas
De meias solas
Rotas.
- E ganhas...? - lhe pergunto.
- Vinte paus, meu Padrinho.
"E não posso beber vinho:
"Nem um copinho,
"Meu Padrinho!"
O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
E pensei no Pessanha:
"Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme..."
Vinte paus é o que ganha
O meu afilhado epiléptico,
Com os dedos no unto.
Patético, hein?
Mas - mudemos de assunto.
Vitorino Nemésio, In " Cão Atómico, etc. e Bio-Poemas"
16/04/08
*
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Para uma leitura de A outra margem do Tempo (de
Alexandre Bonafim) - breves considerações.
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Longe de vislumbrarmos uma ruptura entre os dois livros já
publicados por Alexandre Bonafim, julgamos antes poder descortinar
um percurso dotado de coerência, onde a poesia é esse dizer "entre
o efémero e a eternidade" (p.25). Assim, se em Biografia do deserto
o poeta opta por enfatizar a transitoriedade da errância humana
com todos os seus acidentes, em A outra margem do tempo o Eterno
e o Imortal tomam a dianteira sobrepondo-se àquilo que na primeira
obra era imanente e circunstancial. As descontinuidades vêmo-las,
não no continuum de um itinerário, como já dissemos, mas no exímio
domínio da linguagem e na escorreita forma como toda uma complexa
imagética é manipulada, para a consecução de uma voz una e inconfun-
dível. Consideramos, pois, o novo livro de Alexandre Bonafim um
texto de maturidade, em que a minúcia no trabalhar da palavra poética
ombreia com a precisão com que se expõem inquietações, observações
e anseios.
Recusamos a ideia de que uma obra de arte só é profunda se versar
temas que se circunscrevem às concepções cépticas e/ou niilistas da
existência, ou aquelas outras, que, num malabarismo antinómico, se
limitam a colocar todo o seu discorrer num além apenas entrevisto e
completamente desligado do real objectivo; por esta razão diremos
que pode haver tanta profundidade num poema em torno de sofrimento
de um animal (cf. Alexandre Bonafim, Biografia do Deserto, p.72)
como na descrição de um êxtase pessoal. A profundidade não nos advém
do objecto abordado, mas do modo como sobre ele recolocamos o
olhar (cf. Henrique Manuel Bento Fialho, O meu cinzeiro azul,pp30-38).
Fazer poesia não se limita a um mero alinhar de símbolos, é igualmente
instituir uma prática, que, partindo do quotidiano, visa dar alma ao
mundo e nele desdobrar o ser nas suas múltiplas significações, por
conseguinte terá de ser por aí que o homem simples se encaminhará,
(cf. Henrique Manuel Bento Fialho, op.cit.) e, em persistência e abnegação,
procurará essa outra margem do tempo, território onde o mais
absoluto silêncio coincide com a suprema auscultação de tudo o que
das coisas ressuma. Por tudo isto, diremos que a profunda acuidade
da poesia de Alexandre Bonafim vem-lhe muito mais da forma como
coloca o seu olhar sobre os temas do que da especificidade destes.
Em segundo lugar, o cismar do poeta em torno do Eterno não é uma
lucubração gratuita desligada do nosso tempo concreto; é para nós
claro que estamos ante um itinerário que visa o transcendente, mas
que não deriva de qualquer prestidigitação grosseira; é um itinerário
sim, mas que parte desta margem que habitamos e que temos como nossa,
margem simultaneamente marcada e ferida pela temporalidade, logo,
pelo efémero também.
A viagem do efémero para o Eterno e Imortal é, quanto a nós, a
primeira grande ideia deste livro:"Em minha voz. um veleiro traçou
um rito de espantos,/um itinerário de espumas em despedida"(p30);
"Caminho por uma praia sem margens,/inteiro azul a queimar os
barcos"(p42);"Em cada segundo, veleiros inscrevem,/no meu rosto,
um roteiro de límpidas espumas."(p60). Mas o poeta não se limita
a viajar, ele viaja-se também e em simultâneo, aliás, este último
propósito atinge, por vezes, um tom confessional:"(...)Na imensa
correnteza dos acontecimentos perdidos, viajo-me/em busca do meu
rosto inaugural,"(p34). São inúmeras as referências à efemeridade
a partir da qual se inicia a caminhada (ou ascensão?) do poeta, a
essa correnteza de acontecimentos eivada de "gritos de algazarra"(p25)
(...) esta viagem poética não visa apenas esse solo matricial firmado
pela eternidade, mas incorpora igualmente a demanda do rosto
originário do próprio poeta, daquilo que ele essencialmente é em
todo o cosmos que o rodeia:"(...) Repentinamente, as árvores do verão,/
verde além do tempo, além do espaço, germinam/ o que eu fui,
o que ficou apagado pela escritura/dos desertos, pela constante
passagem das chuvas"(p55). Eis um dos grandes paradoxos desta
aventura poética!: o efémero é o espaço onde progressivamente se
institui todo um percurso gradativo, mas ele é também o lugar
onde repentinamente germinam factos e coisas(...)De tudo isto
um terceiro item aparece-nos nesta obra de Alexandre Bonafim:
o poeta procura, e procura-se. mas apenas entregue às suas
próprias forças:"(...)Sem itinerários,/sem bússola que me norteasse
/pelo deserto, caminhei sob a solidão/como quem espera a visita/
de uma manhã de setembro."(p71);"(...)Nessa viagem/sem bússola,
fluxo de veleiros sem rumo,/ vou-me embora de toda a ausência
desaguo/o meu rosto na origem das palavras:milagre/ a refulgir o
mar e o sonho"(p75); "A ampulheta partida:/ os segundos derramaram-se/
para além de toda a hora"(p31).
... ... ...
Urge ainda ressalvar a tão conseguida poeticidade deste novo livro
de Alexandre Bonafim: aqui a envolvente musicalidade dos versos
articula-se, quer num jogo de bruxuleio apenas insinuando, quer numa
veemência flamejante enformando a complexidade de um dado
discurso, articula-se - dizíamos nós -, com uma irrepreensibilidade
de estilo e com a nitidez radical de sentido: "Esculpes o infinito no
itinerário dos pássaros/a rasgarem o silêncio. Tão intensamente
abraças/ a febre, que a vida multiplica, em ti, os pães e as
palavras(p.73);"(...)Um rio solitário navegou-me/ em seus braços,
levou-me para a outra face/da morte. Nessa viagem despida de
leste/e sul, bebo o silêncio de tudo o que é eterno (p75).
... ... ...
Victor Oliveira Mateus, In A outra margem do tempo de
Alexandre Bonafim, Ribeirão Editora, São Paulo-Brasil, 2008.
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