29/08/08




Ainda existem as ruas onde por acaso
nos encontrámos? Tantos dias correram
num ano, viam-me em dias de mais desejo
apressar os passos, olhar o relógio, pôr
falhando os discos nas capas. Parecia
ter sido só uma despedida de um dia
para o outro, agora se escrevo é porque
és apenas uma imagem da memória, pouco
faltará para que guarde de ti um risco,
um embaraço. E sempre chegarei a tactear
o rosto, fingir que lembro pequenos sinais,
as poucas palavras necessárias para eu
aceitar, duas vezes o meu corpo esteve
com o teu, muitas mais sem saberes.
Na volta de uma esquina não reparo,
tropeço, encontro, o último sorriso
começa a nascer.


Helder Moura Pereira, In"De Novo as Sombras e as Calmas -
poesia 1976/1990", Contexto Editora, 1990, p 159.

27/08/08

Poetas

Foto de Tim Mantoani com Miles Alderidge segurando
uma das suas fotos mais emblemáticas, que Alderidge tirou
em Paris para a semana santa em Córdova.





"O Anjo do Poema"



Dentro da mortalha desta casa,
nesta noite erma com tanta solidão,
ao olhar sem saudade o que partiu de minha vida
o que não pôde ser,
esta vasta ruína do passado,
também sem esperança
no que virá ainda flagelar-me,
só um bem é possível: a aparição do anjo,
seus olhos vivos, não sei de que cor, mas de fogo,
a paralisação perante o rosto formosíssimo.
Depois ouvir, saindo do silêncio e em tanta solidão,
sua voz sem tradução, que é só um fiel
entendmento sem palavras.
E o anjo faz, fechando-se em minhas pálpebras e
abrigado nelas, sua derradeira aparição:
com sua espada de fogo expulsa o mundo hostil,
que gira fora, às escuras.
E não há Deus para ele nem para mim.





Francisco Brines, In "A Última Costa", Assírio
& Alvim (Trad. José Bento), p 33.

23/08/08




      "Margem Sul"


Não quero libertar-me
da minha história, dos grandes navios
que ajudei a reparar, pintar, soldar,
equilibrado como um hábil trapezista
a grandes alturas. Exilado
do cais, hoje navego
na luz do fim da tarde. As minhas mãos
voam na perícia que me resta
jogando os trunfos
que verdadeiramente nunca tive.


Inês Lourenço, In "A Enganosa Respiração da Manhã",
Edições Asa, Porto, 2002, p 33.

21/08/08

Poetas


.
.


"Oculta Lágrima"

Mesmo que retornases a pisar
as ervas do caminho,
mesmo que as tuas mãos anunciassem
em concha água das fontes,
mesmo que em desatino
os sons da tua voz
como outrora se ouvissem perto ou longe
e mesmo que os teus olhos
languidamente para os meus olhassem -
só poderia responder-te agora
com uma oculta lágrima
que não foi derramada.

António Salvado, In "Essa Estória", Portugália Editora,
Lisboa, 2008, p 89.

17/08/08

Poetas

"Progresso", foto de Nuno Fernandes (2008)


"Prometeu acorrentado"


Pelo homem, pus minha mão no fogo.
Me queimei.
Agora só me cabe apelar:
- Livrai-me dos abutres, ó Zeus!


Flávio Moreira da Costa, In "Malvadeza Durão
e outros contos", AGIR Editora, Rio de Janeiro, p 59.

Poetas

"Crepúsculo dos deuses"

1

Que teu coração enterneça,
poluído homem urbano:
Kaváfis não deu um tiro
na cabeça: escreveu um poema.
Já leu?

2

Que teu coração enterneça,
homem urbano/poluído:
Cesare Pavese terminou
de escrever Ofício de viver
e deu um tiro no ouvido.

3

Nelson Cavaquinho bebeu demais
- um porre não lírico
mas homérico. Perdeu
seu cavaquinho.
Ficou sem sobrenome.

Que teu coração enterneça.


Flávio Moreira da Costa, In "Malvadeza Durão
e outros contos", AGIR Editora, Rio de Janeiro, p 65.

11/08/08




         " SONETO "


Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto, que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;

só a ti canto, que não há desastre
donde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.


Eugénio de Andrade, In "Antologia (1940-1961)",
Ed. Delfos, pgs. 95/6.

07/08/08




Em qualquer momento, no começo e no fim,
mesmo na medida de toda a vida - falhos de toda a pena,
permanecemos sem amanhã nem princípio,
esbatidos na idade e na distância, saqueados na sua mentira,
apenas acumulando areia para o fundo de um recreio
a simular um amuleto contra o regresso impossível.
Não temos trégua - não podemos voltar - e afastamo-nos - sem
ruído - lá para onde de longe chamamos, no ar rarefeito
- figuras resumidas a uma branca poeira informe,
em quantas inumeráveis semelhanças com a morte.
Pressentida ruína, a do íntimo declínio disto tudo,
demais cientes na incerteza como o sinal exposto da memória,
resina que nela se abate à frente dos olhos, que
esmaga cada braçada do tempo ao seu embuste
e nos recusa a menor separação do abandono -
que por nada existimos - e só acenamos - acenamos -
senão para crer no que julgamos não ter acontecido,
senão a entender a justa aceitação da nossa vida.

 
Rui Coias, poema 7 de "A Ordem do Mundo",
Ed. Quasi, 2005, p 15.

05/08/08

Da esquerda para a direita: Marco Lucchesi, António Ramos Rosa
e Victor Oliveira Mateus (foto de Julho de 2008).



Do rosto não
sabemos mais
que o véu

do caçador não
mais que a caça

é madrugada
e assim tudo

descansa em toda a parte


Marco Lucchesi, In "Sphera", Editora Record,
São Paulo/Rio de Janeiro, 2003, p 91.
"A sós, em seu tormento"


Pouco
abaixo
do sono
de Deus

cai a pele
das horas

e a tarde
ensolarada

livre
de papoulas

move

as rodas
do tempo

olhos

(entretanto)

medem
o não visível
rosto

desperto
onde repousa

a sós em
seu tormento

de todos
esquecido

destino
universal

o príncipe
do nada

Marco Lucchesi, In "Erwartungslicht",
Ed. Leonardo Verlag, Curitiba/Berlim, 2003.

27/07/08

Poetas

"Carcavelos", foto de Gérard Castello Lopes (1956)

Vê amor, como o belo entra na nossa vida e parte
Vê como se circunda também ele de corpos belos
e também partem.

As coisas que nos causam pena serão ditas doutra forma, amor.
Não se tratará de nenhuma espécie de retrocesso do nosso
corpo na linguagem,
mas talvez a suprema adivinha do que será o nosso corpo
futuramente,
quando ele se encostar e se aquecer definitivamente na
linguagem.
Deliramos hoje nos nossos sonhos com as coisas que serão
futuramente perfeitas -
as partes de nós que arderão no fogo ancião de todos os dias,
para se tornarem,
pela luxúria e pelo descuido das cinzas,
brancas, absolutas, meu amor.


Eduarda Tavares, In "Sono Derramado", Ed. Caminho,
1992, p 19.

Poetas


"Monologue pour Cassandre"

C'est moi, Cassandre.
Et voici ma cité recouverte de braises.
Et voici mon bâton, mes rubans de prophète.
Et voici ma tête pleine d'incertitudes.

C'est vrai, je triomphe.
Le feu de ma raison lèche la voûte céleste.
Seuls les prophètes que personne ne croit
jouissent de tels spectacles;
seuls ceux qui s'y sont assez mal pris
pour que tout s'accomplisse aussi rapidement
comme s'ils n'avaient pas existé.

Je me souviens maintenant, très distinctement
de ceux qui, devant moi, arrêtaient de parler.
Rires qui s'étouffaient.
Mains qui se dénouaient.
Enfants qui couraient vers leurs mères.
Je n'ai même pas connu leurs noms si périssables.
Et cette chanson sur la petite feuille verte
personne ne l'achevait quand j'étais là.

Je les aimais.
Mais les aimais de haut.
Bien plus haut que la vie.
De l'avenir. Où il fait toujours vide,
d'où rien n'est plus facile qu'apercevoir la mort.
Je regrette maintenant que ma voix fût si dure.
Regardez-vous vous-mêmes depuis les étoiles, disais-je.
Regardez-vous vous mêmes depuis les étoiles.
Ils m'entendaient, et baissaient les yeux.

Dans la vie ils vivaient.
Portés par le grand vent.
Déterminés,
dès leur naissance, dans ces corps migratoires.
Mais il y avait en eux comme un espoir humide,
une flamme nourrie de son propre grésillement.
Ils savaient mieux que moi ce que c'est qu'un instant,
un seul au moins, unique, n'importe lequel - Avant -

J'avais raison.
Seulement voilá, il n'en résulte rien.
Et voici ma chemise barbouillée par le feu.
Et voici ma quincaillerie de prophétesse.
Et voici mon visage tordu.
Visage qui n'a pas su qu'il pouvait être beau.

Wislawa Szymborska, do livro "Cent blagues"
(Sto pociech/1967), In "De la mort sans exagérer",
Poésie Fayard, 1996, p.37/8. (Tradução do polaco
para o francês por Piotr Kaminski)
" O Pescador"


Há vício no meu olhar fixo
basta lançar a linha e logo serena
em mim o desassossego
os olhos repousam no flutuador, mas é mais
que repousar, é como se finalmente
estivesse livre para não sair do sítio,
e assim o meu olhar fica inerte - não espero
que o peixe morda - fixo
o momento. Não preciso de nada não preciso
de olhar. Concentro-me nas rugas à superfície
não me esforço em penetrar até ao fundo.
Indiferente ao que possa aparecer, desaparecer
por cima ou por baixo de mim, indiferente
ao que foi e indiferente ao que está para vir.
As cores lisas a brilhar à tona da água
já são acontecimentos a mais
e vejam, eis o primeiro círculo
de algo que caiu na água ao longe.
Nada melhor do que não fazer nada,
do que não me mexer. Até um mínimo
erguer de olhos perturba irremediavelmente a ordem
e faz acontecer, faz acontecer.

Judith Herzberg, do livro "Botshol" (1981), In
"O que resta do dia", Ed. Cavalo de Ferro, p 125.

26/07/08

         " Frequência "


O teu número de telefone martela-me na cabeça
um ressoar ligeiramente agitado. Está em tudo
o que faço, impõe-se enquanto leio
enfia-se por baixo das palavras enquanto
escrevo.
E se o deixar um momento à solta
corre então para o telefone e liga
para que a tua casa vazia ressoe
um som que ninguém ouve. Talvez
uma chávena vibre com ele se o tom
atingir a sua amplitude.
Quando muito estala uma jarra.

Judith Herzberg, do livro "Botshol" (1981) In
"O que resta do dia", Ed. Cavalo de Ferro, p 119.

24/07/08


Graça Pires e Victor Oliveira Mateus: fotos tiradas aquando do lançamento do livro "não sabia
que a noite podia incendiar-se nos meus olhos" de autoria de Graça Pires (Livraria Buchholz,
 Maio, 2007).



"Foram os olhos. Foram os olhos dele, quando pousaram, devagar,
sobre os meus olhos, que me trouxeram esta sede até esse momento
apenas pressentida. Foram os olhos dele, tão acesos nos meus, que
encheram os meus olhos de estrelas e de sonhos e de lágrimas e de
pássaros errantes. E juro que pensei: não me importava de ficar cega
de tanto o olhar, porque a imprevisível cor de todas as madrugadas
ficará, para sempre, intacta, no meu peito. Desde então, os meus
olhos atraem a nitidez da noite e as aves nocturnas deslizam no meu
corpo, para lamber a lua escondida nos meus lábios. Cerro as pálpebras
à inquietação da manhã. Não procuro razões para a súbita armadilha
que foi o seu olhar. A sua respiração perto da minha era uma espécie
de afago. Tantas vezes me apeteceu dizer-lhe: aceita o vazio das mãos
que te estendi e guarda dentro delas teus desejos. Tantas vezes quis
falar-lhe do meu amor, como de barcos que chegam e partem de algum
lugar onde eu gostaria de ter nascido. Tantas vezes escrevi o nome
dele em todas as paredes imaginadas. E se ele me dissesse onde era
o lugar da sua sede, eu estaria lá para saciar com ele a minha sede"

Carta 1, In "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos"
de Graça Pires.

10/07/08




Mas fui feliz.
Puseram a mão nesta mão.
Não me apagaram o choro da orfandade,
mas fui feliz.

Nada pedi
- o som da bica ouço,
o mesmo que irá comigo à morte
e esteve sempre no meu dia antigo,
e sabe o que eu queria -
mas fui feliz.

Fui pranto de outros olhos.
Fui feliz.

Senti o afago
entre o peito e a pele da camisa.
Fui feliz.


Alberto da Costa e Silva, Poema 3 do Ciclo "As linhas da mão",
In "Melhores Poemas", seleção André Seffrin, Ed. Global,
São Paulo, 2007.

08/07/08




Queria para mim
a vastidão inconfundível
do sonho, o inexorável excesso
do horizonte. Queria
para mim um oceano

rumoroso de andorinhas
nos luminosos beirais
das colinas. Queria
a impertinência de um desejo
sempre retomado

e incompleto. Mas nunca
a voracidade deste lodo
nos alicerces da cidade;
monstro irrefreável
que amordaça a liberdade.


Victor Oliveira Mateus, In "Liberdade", col. afectos nº3,
Ed. Labirinto, 2008.

05/07/08

Poetas



Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atavessei as estações
respirei - ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas


Ruy Belo, In "Todos os Poemas", Assírio & Alvim, pp. 212/3.

01/07/08


Quantas vezes me deixei ficar,
como hoje, de caneta em riste,
sentado a esta mesma mesa
esperando que tu ou o texto viessem...
.
Quantas vezes, em vão, lançava
o olhar sobre o porto, tentando
adivinhar-te no bojo
de um qualquer barco que divisava
.
ao longe, como quem investiga
de falhas a mais nítida presença.
E quantas, no meio do tilintar
das chávenas e do bulício do balcão,
.
as tuas palavras acabavam sempre
por me aquietar. No entanto, sei-me
de sina igual a hoje: o constante medo
de que um dia possas não vir
.
e que o futuro mais não seja
do que a inquirição dos dias,
onde os versos se firmam
como escolhos à deriva
em simples guardanapos de papel.
.
.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p  

28/06/08


"Os Gatos"

Estudiosos austeros ou libertinos ferverosos
Chegada a maturidade
Começam a gostar de gatos____
Os gatos a sério Verdadeiras preciosidades Meigos e poderosos

Amigos do saber e do prazer Os gatos
Procuram o sossego e a sombra estranha

Se fosse possível vergar-lhes o orgulho em servidão
Erebe tê-los-ia empregue como seus mensageiros fúnebres

Altivos por indiferença
Tomam as poses nobres
Das grandes esfinges
Que no fundo da sua solidão
Parecem dormitar sem fim nem despertar

Nos seus rins fecundos
Jazem mágicas setas de luz
Limalhas de ouro
Poalhas finas
Basta olhar suas pupilas místicas____
Estrela estrelas em dispersão

Maria Gabriela Llansol, tradução de "Les chats" de Baudelaire
"Les Chats"


Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté,
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres;
L'Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin;

Leurs reins féconds sont pleins d'étincelles magiques,
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

Charles Baudelaire, In "As Flores do Mal",
Relógio d'Água, 2003

25/06/08

Poetas


Nota- C.Ds. a não perder:
a) "Lorquiana", Ana Belén canta "canciones populares de
Federico Garcia Lorca, Dir. Chano Dominguez, Etiqueta BMG;
b) "Présence de Lorca" - Lorca dito por Germaine Montero,
Vinil de 1968 passado a C .D. pela "Harmonia Mundi";
c) "Canciones españolas antiguas", Federico Garcia Lorca,
Dir. Josep Pons, "cantaora" - Ginesa Ortega, Etiqueta
"Harmonia Mundi - France"
.
.
"La Cogida y la Muerte"
.
.
A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.
.
Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
Ay qué terribles cinco de la tarde!
Eran las cinco en todos los relojes!
Eran las cinco en sombra de la tarde!
.
.
Federico García Lorca, Antologia Poética,
Relógio d'Água, pp. 172-174.

24/06/08


        "Livros Usados"
.
.
Tudo que se disse depois e
ainda se diz, pode estar num usado
exemplar de Crime e Castigo ou da Utopia.
Os livros usados - mesmo
que se chamem Utopia -
têm aquela terna docilidade
das páginas em que outras
mãos passaram, ao contrário
dos novos, que em rígidas e
intactas páginas são só apenas
papel impresso.
.
E para escassos amigos, quando
se fugiu duma livraria de
consumíveis tops,
talvez seja essa
a melhor oferta.
.
.
Inês Lourenço, In "a disfunção lírica"

21/06/08

Poetas

Olga Savary


"Coração Subterrâneo"


Tempo de terra e de água é este tempo
do corpo que no outro não procura espelho
mas conhecimento ávido, progressivo e lento,
pasto de magma alimentando o ventre.
Amando e se tornando amado, o corpo
do outro é de repente o nosso corpo
e dentro, coração subterrâneo,
no pequeno mato solta seus cavalos
cadenciadamente.
Como de bilha derrubada, a água fresca
e o mel-salsugem, em pulsações sedentas,
faz no tear interior do outro corpo
desenho de vida nos que estão morrendo.
O sortilégio de uma palavra
há que ser gritado como o desenfreio
dos cavalos e da bilha derramada.
Porém, calado, o tempo é dos amantes
e, deliquescidos, eles não dizem nada.


Olga Savary, In "Repertório Selvagem - Obra
Reunida", p. 188.

20/06/08

Poetas

OLGA SAVARY (poeta, escritora, ensaísta, tradutora,
antologista e jornalista) caricaturada pelo artista plástico
Anderson Kocis).


"Guerra Santa"

Tenho um medo da fera que me pelo,
ao vê-la quase perco a fala
(embora seja a fera o que mais quero)

mas reagindo digo-lhe palavras doces
e palavras ásperas, torno
igual minha voz à voz dos bichos

para seduzi-la ou para intimidá-la,
para que pontiaguda me tome das entranhas
depois de dilacerar com as garras meu vestido.

Olga Savary, In "Repertório Selvagem -
obra reunida", Multi Mais editorial, p. 174.

(Nota - este poema integra-se no livro "Altaonda"
(1971-1977) incluido na antologia já referida.)

17/06/08

Poetas




Vai chegar a manhã.
A luz treme nos arbustos.
Algas, seixos, limos
guiam pelas fragas
a água sem fundura,
o ardor levantino do anil.

Ouves correr poalhas de bruma?
Silêncios do vento que renasce?

Seguro na mão que não seguras
uma lâmina de fogo, um erro
de árvores, e olhas-me.

Pouso os lábios no teu pulso
para te sentir o coração.
É tão perigoso ser feliz.


Joaquim Manuel Magalhães, In "uma luz com um toldo vermelho"


16/06/08

Poetas

(Nota - hoje lembrei-me de juntar "três grandes": uma foto
de CHARLES CHAPLIN, datada de 13/9/1952, tirada em
Nova Iorque por RICHARD AVEDON, quando Chaplin se via
forçado a abandonar os E.U.A., para ilustrar JUARROZ...)


Cada poema faz esquecer o anterior,
apaga a história de todos os poemas,
apaga a sua própria história
e até apaga a história do homem
para ganhar um rosto de palavras
que o abismo não apague.

Também cada palavra do poema
faz esquecer a anterior,
desfilia-se por um momento
do tronco muitiforme da linguagem
e reencontra-se depois com as outras palavras
para cumprir o rito imprescindível
de inaugurar outra linguagem.

E também cada silêncio do poema
faz esquecer o anterior,
entra na grande amnésia do poema
e vai envolvendo palavra por palavra,
até sair depois e envolver o poema
como uma capa protectora
que o preserva dos outros dizeres.

Nada disto é raro.
No fundo,
também cada homem faz esquecer o anterior,
faz esquecer todos os homens.

Se nada se repete igual,
todas as coisas são últimas coisas.
Se nada se repete igual,
todas as coisas são também as primeiras.


Roberto Juarroz, In Poesia Vertical
(trad. Arnaldo Saraiva)

14/06/08

Poetas

Foto (sem título) de Liliroze


"Debaixo dos Pés se Levantarão"

Virás, seguindo o meu rasto,
sob o impulso de um desejo antigo,
para que de novo as camas se desfaçam
e a tenaz das pernas aprisione
a própria sombra sobre o cenário azul
de uma tela distante do olhar.
Depois chegarão os parentes, alguns amigos,
e debaixo dos pés se levantarão
as lebres da intriga que envenena.
Quererão saber quem és,
de que história saíste,
que mãos te moldaram,
que boca te deu nome e rumo.
Partirão feridos pela dúvida.
Só existes no fogo do que digo,
nas páginas do que desvendo,
na euforia negra do que oculto.
Em mais nada. Ofereces-me
os cadernos em que te escrevo
em que te descrevo
com o pormenor balbuciante e febril
de quem retrata a dor que o fere,
de quem nomeia a dor que o mata.


José Jorge Letria, In "Manuscritos do Mar Vivo"


                   " IN MEMORIAM"

Cheguei a pensar que, com o tempo, vos haveria de esquecer;
que uma qualquer nuvem sulfurosa, aos poucos, acabaria por
corroer todas as vossas imagens, como se corroem hoje os
sentimentos mais belos: agora descartáveis, biodegradáveis,
pronto-a-usar do sentir no turbilhão de tudo

Cheguei a pensar que vos haveria de esquecer. Mas não!
Não, porque lembrar é o preço que pagam os que ficam.
Lembrar... Lembrar os vossos corpos cada vez mais mirrados,
os vossos corpos frágeis de frágeis bonecos de porcelana,
os vossos rostos apenas malares e olhos - olhos terminais de
despedida. Lembrar a minha revolta: "quantos mortos destes
são precisos, para fazer um rico dos outros?" Lembrar um
sonho antigo com a figura imponente de minha avó: sentada
na soleira da porta, rosto carregado, olhar de sibila sobre o
Infinito, calada, sempre calada, tão calada que nesse dia
resolveu gritar: "há demasiado sofrimento na Terra!
Digam-me, a quem aproveita ele?"

Cheguei a pensar que, com o tempo, vos haveria de esquecer,
mas isso foi antes: antes da saudade, antes desta terrível
sensação de perda, desta amputação perversamente
deliberada. Antes do grito lúcido de minha avó.


Victor Oliveira Mateus, In "Mealibra, Revista de Cultura"
Nº9, Série 3, Dezembro 2001.


+

11/06/08


           "  Texto  17  "


A vida. A vida é muito útil: serve para fingir que sabemos
muita coisa, para fingir que gostamos dos outros, para fingir
que somos alguém não o sendo e para querer ter muito
poder. Eu, umas vezes, ponho a vida a tiracolo, para que as
suas franjas arrojem o chão; outras, coloco-a à cabeça, e logo
ela parece querer voar alçando-se ao céu. Certo dia pus a
vida numa capoeira que tenho lá no quintal, mas ela, assim
que se viu presa, começou a uivar no seu poleiro pedindo-me
para que a libertasse, e eu libertei-a mesmo... só que ela,
desorientada, ao atravessar uma rua, foi logo atropelada.
Ainda pensei arranjar outra vida, mas depois vi que não
valia a pena...

   Mateus, Victor Oliveira. Movimento de Ninguém. Lisboa: Minerva, 1999, p 29.
.

09/06/08

Poetas

"Dammartin-en-Goele", foto de Gil Cipière


Amei o Amor, ansiei o Amor, sonhei-o
uma vez, outra vez (sonhos insanos!)...
e desespero haja maior não creio
que o da esperança dos primeiros anos.

Guardo nas mãos, nos lábios, guardo em meio
do meu silêncio, aquem de olhos profanos,
carícias virgens, para quem não veio
e não virá saber dos meus arcanos.

Desilusão tristíssima, de cada
momento, infausta e imerecida sorte
de ansiar o Amor e nunca ser amada!

Meu beijo intenso e meu abraço forte,
com que pezar penetrareis o Nada,
levando tanta vida para a Morte!...

Gilka Machado, Livª Cátedra, pp.153/4

08/06/08

Poetas

"Le lac de Nino: les pelouses andines", foto de Fabrice Milochau


"Violences"

La lanterne s'allumait. Aussitôt une cour de
prison l'étreignait. Des pêcheurs d'anguilles
venaient là fouiller de leur fer les rares herbes
dans l'espoir d'extraire de quoi amorcer leurs
lignes. Toute la pègre des écumes se mettait
à l'abri du besoin dans ce lieu. Et chaque nuit
le même manège se répétait dont j'étais le
témoin sans nom et la victime. J'optai pour
l'obscurité et la réclusion.
Étoile du destiné. J'entr'ouvre la porte du
jardin des morts. Des fleurs serviles se recueillent.
Compagnes de l'homme. Oreilles du Créateur.

René Char de "Seuls demeurent" (1938-1944),
In "Fureur et Mystère", Poésie/Gallimard, Paris, 1967

06/06/08

Poetas


"Cantiga de Amiga"


Nesta tarde de junho
quase julho
feita de bruma
só levanto
se ela chamar por mim,
voz rouca
seios de marfim.

Amados, amigos,
esqueçam a poeta
e seus dizeres
só levanto
se ela chamar por mim,
dedos róseos
lábios de cetim.

Os filmes são improváveis
os encontros adiáveis
hoje não saio daqui
só levanto
se ela,
olhos de alecrim
chamar por mim.

A casa descansa
porque é sábado,
a cidade descansa
porque é sábado.

Quem me faria levantar,
senão ela
aldrava de mim?

Em seu ventre
adormeço,
colho amoras
qual Salomão em seu jardim
e só me levanto
se ela e seus ais
chamarem por mim.

Neide Archanjo, In "Epifanias"

04/06/08

As mesmas letras, outras visões...

Página 4 do artigo (A restante parte deste dossier irá sendo publicada
incluindo os poemas que o Poeta generosamente ofereceu para
ilustrar este meu trabalho... a ele devo o pouco que aqui consegui
fazer!). Para se poder ler as páginas, como sabemos, deve-se
clicar em cima delas...

Página 3 do artigo.

As mesmas letras, outras visões...

Página 2 do artigo.
Página 1 do artigo.

As mesmas letras, outras visões...

Acabou de sair o Número 26 (Ano 14/2007) da Revista
"Poesia Sempre", patrocinada pela Fundação da Biblioteca
Nacional (Rio de Janeiro) e pelo Ministério da Cultura do Brasil.
Este número da revista, com 240 páginas, é dedicado a Portugal.
Passamos à indicação do seu Sumário":

Palavras Iniciais, por Marco Lucchesi - p.7

Manoel de Oliveira: diário de uma amizade,
por Aniello Angelo Avella - p.9

António Ramos Rosa: um construtor que ama a clara
simetria dos terraços, por Victor Oliveira Mateus - p.15

Poesia portuguesa das últimas décadas (antologia
organizada por Arnaldo Saraiva) - p. 37

Crónica de vislumbres - António Bandeira: uma
árvore verde para o novo homem, por Floriano Martins
e Jacob Klintowitz - p. 125

Poesia Inédita (do Brasil) - p. 137

Ensaios - p .201

O Mito Drummond, por Letícia Malard - p.203

Cinema de poesia, por Constança Hertz - p.213

Absortos na vida, por Per Johns - p.223

03/06/08

Poetas

"Bruno" (1984), foto de Dino Pedriali


(Nota - Dino Pedriali é um dos grandes senhores da
História da Fotografia, só por isso o incluo aqui, pois
não sou, de modo algum, admirador da sua obra.
"Bruno" é um dos seus trabalhos mais conhecidos,
por isso o escolhi para ilustrar um poema de uma
grande poeta e amiga...)


"Pousada"

Pousa teus sonhos
Nos meus ombros.
O mormaço escorre
No suor de teu cansaço.
Estamos exaustos:
Eu por te esperar,
Tu por não chegares.
Vem.
Espero teu abraço.
Quero-o ardente,
Possuidor.
Frouxos estão
Meus lamentos.
Tardas.
Não queres voltar?
Estás farto de amor,
Ou tens pouco para dar?
Vem.
Preciso de teus beijos
Longos, gananciosos.
Quero sorver vida
Através de tua boca.
Chama-me louca,
Aventureira,
Presa fácil...
Estás indeciso?
Queres uma pousada segura,
Ou não crês nas minhas oferendas?
Vem.
Encontrarás o que procuras:
Casa, conforto, roupa macia,
Comida farta, carinho
E uma cama ardente.
Vem.
Pousa tua teimosia
Na minha solidão.
Vem.
Há sempre uma vaga
Na minha pousada.
Vem.
Espero tua chegada...


Cleri Aparecida Biotto Bucioli, In
"Sedas Rasgadas", Taba Cultural,
Rio de Janeiro, 2000.

02/06/08




"ilusão"


a flor desata o nó em direcção a uma lâmpada
é livre na sua luz e na sua escolha

enquanto procura o conforto no espaço
entra pela janela uma leve claridade (do sol)
tocando o corpo vegetal que indiferente
procura um lugar na terra herdada

no fim, grita com todas as cores
pela luz falsa que a entretém
numa espécie de ilusão enigmática de liberdade


Carlos Vaz, In "Liberdade - col. afectos Nº 3"
Ed. Labirinto, 2007.

01/06/08




Em tua forma mais pura
pelo silêncio me acenas; espraias-te na sombria distracção
da terra. Como corola fendida te abres em lampejos de tantas
cores. Imagem da primeira fala. Espelho nimbado de ouro
que, em jogos de fingimento, o essencial revelas

Nunca te procurei. Não te procuro, tão indolente que sou.
E, no entanto, acabas sempre por vir: de mansinho,
insidiosa... Ó terrível desventura que salva! Em mim te
aconchegas com teu tropel de vozes: lúcida desrazão que
acalma, êxtase do que pressinto. E vens, misto de assombro
e agonia, estranho dizer, talvez poesia

Victor Oliveira Mateus, Poema 27 In "Pelo Deserto
as minhas mãos"

31/05/08





Não temas
deixa meus gestos
descerem-te trago a trago
Deixa minha boca
à deriva
para a macieza transparente
do que julgas não querer

Não digas nada
Confia
A precisão te levará
às paragens longínquas
onde o cheiro do feno
e a saliva insubmissa
se misturam

Nada te fará perigar
nem a frieza do ocaso
nem as farpas aceredas
no vórtice da traição

Não mudes estes caminhos
espécie de jóias
ou lâmpadas salpicando
meu feroz desejo de ti

Não temas
Fecha os olhos
Concede a fúria louca
das nascentes
que num sussurro
atiro com ternura
à tua mudez assustada

Victor Oliveira Mateus, Poema 3
In "Movimento de Ninguém", Lisboa, 1999.

30/05/08




no olhar dos peixes as águas
são tranquilas, réstias de fogo
invadem a certeza do meu partir
no reflexo dos arrozais,
onde o chapinhar das abelhas vai prateando
de alfazema a folhagem inquieta.

no olhar dos peixes um barulho
de asas assustadas, um zumbido
triste por eu não poder voltar
aí, onde a noite, revestida
de conchas opalinas, não atiça já
a vastidão da memória resistente
no subtil olhar dos peixes...

Victor Oliveira Mateus, poema 2 In "Movimento
de Ninguém", Lisboa, 1999.

( Nota - este poema foi gentilmente
gravado em C.D. pela actriz Hermínia Tojal.)

29/05/08



Por todo o lado me cercas
Com teus ramos de límpida filigrana o dia inundas,
os bosques, as colinas persistentes onde o destino
é uma luz difusa, como árvore dilacerada de cores,
no rumor inconsolado da terra

Por todo o lado te anuncias
Com teus oblíquos desígnios verdes em precisão
desvelas a nitidez vaga do horizonte, onde os
símbolos se misturam, na vastidão impenetrável
do silêncio:
a mesa das oferendas para o Alto inclinada
a taça repleta de cerejas
uma mão inerte junto ao umbral
Por todo o lado me cercas, ó fabulosa imagem
e em teu fervor de natureza morta
ao meu corpo prometes vida

Victor Oliveira Mateus, In " Cerejas - poemas
de amor de autores portugueses contemporâneos",
Editorial Tágide, 2004, pág. 64

Áspera e vulgar era a manhã
quando de novo à minha mesa te sentaste:
falaste-me do mar, do teu equilíbrio na crista
das ondas e de um país ao sul, onde em júbilo
incontrolado, novas praias te esperavam

E nessa manhã tão simples, não te falei eu
do que sempre te vou roubando: a brancura
da pele, o ruivo do cabelo, o impetuoso fulgor
de um admirável corpo solar
- vertente do meu fascínio, com inúmeras
flores de cerejeira soberbamente enriquecida;
minha aprazível e quase obscena fonte, onde
sempre me procuro e sempre me acabo por
perder

Afinal foi numa vulgar manhã, que uma vez
mais, com astúcia, te armadilhei: escondidos
foram, num dos teus bolsos, pedaços do meu
destino; réstia de um pretexto que a tua vinda
me desenha

Victor Oliveira Mateus, In "Cerejas - poemas de
amor de autores portugueses contemporâneos",
Editorial Tágide, 2004, pg 65.

28/05/08

Poetas

"Paris", foto de Laurent Beuplet


"L'Imperfection Est La Cime"


Il y avait qu'il fallait détruire et détruire et détruire,
Il y avait que le salut n'est qu'à ce prix.

Ruiner la face nue qui monte dans le marbre,
Marteler toute forme toute beauté.

Aimer la perfection parce qu'elle est le seuil,
Mais la nier sitôt connue, l'oublier morte,

L'imperfection est la cime.


Yves Bonnefoy, In "Poèmes", Mercure de France,
Paris, 1986, pg. 117

26/05/08

Poetas

Theatergroep Hollandia (Betty Schuurman, Bert Luppes
e Adri Overbeeke), foto de Mario Hooglander/ 1992


há um resto de ti no arvoredo
quando o dia desprende a solidão
quando digo frenético e descanso
os meus olhos na sombra da restinga

há um resto de ti que encontro a medo
no imenso abat-jour de gaze branca
sobre a lâmpada rosa do relâmpago
onde as nossas imagens se concentram

há um resto de ti neste fulgor
de ritual de coxas e de línguas
entre dunas de sol e de lianas

há um resto de ti que me não cansa
por ser sombra e ser fundo e ser tecido
de cicatriz contínua entreaberta

Olga Gonçalves, In "só de amor"

Poetas

"Maturação"

era uma vez uma senhora que podia viver sozinha.
que podia em silêncio, ver crescer os frutos de cada
laranjeira. e as árvores nasciam fora e dentro de sua
casa. barravam, por vezes, o caminho, e tomavam
formas e perfumes diferentes para cada noite.
rutilando envoltas numa prosa que as colocava
sobre pedestais. assim, perigosas. assim, irónicas.
assim, susceptíveis de estrangular o medo.

uma senhora triste ao longo das raízes do seu sonho.
quando lhe perguntaram se acreditava em deus
apenas murmurou sim, ando porém a ver se acredito
nos meus sentidos. e alisou a prega do incêndio que
lhe subia às mãos.

Olga Gonçalves, In "caixa inglesa"

.
.

" O Melro"
.
.
O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro; dentre a horta,
Dizia-lhe:"Bons dias!"
E o velho padre-cura
Não gostava daquelas cortesias.
.
O cura era um velhote
Malicioso, alegre, prazanteiro:
Não tinha pombas brancas no telhado
Nem rosas no canteiro:
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro desprezava os exorcismos
Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
Até que ultimamente
O velho disse um dia:
"Nada, já não tem jeito!, este ladrão
Dá cabo dos trigais
Qual seria a razão
Por que Deus fez os melros e os pardais?!"
E o melro entretanto
Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente
A madrugada clara,
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
(...)
Chegou a coisa a termo
Que o bom padre-cura andava enfermo;
Não falava nem ria
Minado por tão íntimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
(...)
Enxergou por acaso (que alegria!,
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros, escondido
Entre uma carvalheira.
E ao vê-los exclamou enfurecido:
"A mãe comeu o fruto proibido;
esse fruto era a minha sementeira;
Era o pão, e era o milho;
Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho,
É doutrina da Igreja. Estou vingado!"
... ...
... ...
"O Melro" (excertos), In "A Velhice do Padre Eterno"
.


24/05/08

Inabalável Memória

"Strasbourg", foto de Benoît Linder


"Querer Ser"


Ser
azul, azul, azul, azul ainda
o voar das águias
o canto dos pássaros
das nuvens o capricho

Ser máquina - máquina magnífica
reluzente, complicada de fios, anilhas
pistões, rolamentos, cabos, rodas
roldanas, parafusos, roscas, alavancas
a funcionar
máquina, só objecto impressionante
a não servir para nada
orgulho humilde
ser água britando de cristal de rocha
serpenteando em floresta virgem
ora lago ora cascata
sôfrega de oceanos
ser crista branca de espuma
das ondas do mar em tempestade
na certeza dum fundo sereno
ser estrela cadente
em galáxias infinitas
arco-íris
porque não o homem invisível?

Não ser... e ser
o aroma das flores
o sabor do sal
o luar-sol da noite
erva no fundo da ravina
neve no alto das montanhas
- não pisadas

Ser corajosa sem medo
cantata de Bach
as quatro estações de Vivaldi
sonata de Beethoven
prelúdio de Chopin
valsa de Mozart
concerto de Stockhausen
sinfonia
polifonia (é talvez uma maneira
de nos amarmos uns aos outros)
xilofone em silêncio
filarmónica em dia de festa na aldeia

Ser leite, gema de ovo
borboleta, pirilampo
o fumo de um cachimbo bem aceso
ser girassol, que maravilha
de Van Goh, que loucura!

Ser o tocar dos sinos à tardinha
o delírio do vento nas searas de Chartres
o flamejar do beijo do abraço
amor perfeito esquecido em livros de horas.

Querer efémero.


Merícia de Lemos, In "12 Poemas", Imprensa Nacional-
Casa da Moeda, Lisboa, 1990 (posfácio de Maria de
Lourdes Belchior)

22/05/08




(Nota - não tenho, neste momento, nem o título
deste soneto, nem o nome do livro a que pertence,
mas mesmo assim...)

Hei de morrer em ti, nesse teu corpo estranho
Num espanto feroz, feito de febre e fúria,
Feliz pelo que tive, amante enquanto dure
A alta fonte do amor e seu limpo rebanho.

A tua alma assassina assistirá, contente,
A um sonho agonizante e por si só perdido
E, sonho do meu sonho, esse fim terá sido
Nada de verdadeiro, o falso de quem sente.

Morrerei nos teus olhos, morrerei nas memórias
Do teu mundo cabal, cadafalso de histórias,
Rupturas, padrões, fábulas, ossos, chifres.

Sentirás o meu peso, isso que não sentiste
Senão como um olhar, talvez mau, talvez triste.
Serei por fim em ti, para que me decifres.

Renata Pallottini




    "Atira para o mar"


Atira para o mar as tuas coisas
abandona os teus pais
muda de nome

esquece a pátria
parte sem bagagem
fica mudo e ensurdece
abre os teus olhos

Se o teu amor não vale tudo isso
então fica onde estás
gelado e quieto.

O amor só sabe ir de mãos vazias
e só vale se for
o único projeto.

Pallottini, Renata. Um Calafrio Diário. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002, p 79.
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