26/09/08


Quando foi o tempo certo que o não vi?
E se o não vi, como poderia ter sido certo;
concordância de sinais nos ondulantes
trilhos que somos? Ou até mesmo tempo?
Como poderia ter sido tempo, essa Duração
do Todo nos fugazes acenos com que nos

vestimos e nas noites de mar revolto -
julgando ser o que não somos - dançamos,
esquecemos, rimos? Quando foi o tempo
certo? Esse inapagável tempo que, apenas
imaginado, te sai da boca em gritos,
em arrastar de cadeiras, em violência

de porta cerrada ante mim aturdido,
sem gota de pensamento nem palavra
que me console? Mas quando foi?
Quando foi esse desacerto certo no
cerco que disseste ter havido? Essa
funesta e fulminante funda sobre mim

atirando, pedra atrás de pedra, palavra
atrás de palavra, em sórdida acusação.
Mas através da janela nem uma aragem
vejo. Apenas o sufoco. Uma asfixia
rude e fera. Pego numa taça de fresco
branco e deixo-a no degrau à tua espera.


Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 29 (Posfácio de Cláudio Neves e texto da contracapa de Olga Savary).

Nunca te pedi que ficasses. Nem que uma qualquer
dádiva fingisses na irremediável mobilidade dos afectos.
Nunca te pedi um qualquer excesso. Não daqueles
que na sua vagueação assumida se tornaram essência
do que essência já não tem, mas dos outros, dos que

me enchem por dentro, quando te encostas à janela
para fumar o último cigarro, quando sorrindo me apontas
o cabriolar dos gatos nos telhados em frente, quando
me olhas sem me conseguir ver: ávido que sou de
permanência no descuidado tumulto com que te fartas.

De mim a mim há um abismo onde nem sempre cabes.
Talvez em certas noites, naquelas em que a solidão aperta
e a dúvida me corrói, até te consiga sentir perto, mas sentir
perto não é ficar. Ficar é coisa que nem à palavra vem de
forma clara e nítida. É onda a trespassar-nos o corpo. Brilho

persistente na lenta preparação do último encontro. Nunca
te pedi que ficasses. Mas ainda acalentei a esperança
que por ti o decidisses. E assim, chegado o instante que
derradeiro sabemos ser, e sem que alguém o visse, e sem
que alguém sequer o suspeitasse, a alma me arrancarias
para que eu forçosamente voltasse em novo re-canto de nós.


Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 32 (Posfácio de Cláudio Neves e texto da contracapa de Olga Savary).

22/09/08

Poetas

"Northumbria's Coastline", foto de Geoff Simpson


Devolveste-me o sem sentido original
das coisas
Devolveste-me as ruas ao natural
as ruas só por si
as ruas estoirando liberdade por todas as frestas
das pedras
as ruas em que dantes pesavas
me oprimias
as ruas que dantes eram tu
tu apenas tu em todas as esquinas
de lado a lado nas paredes
que me estreitavam até gritar
o teu nome

Devolveste-me as ruas livres
descomprometidas
as ruas sem nome sem encontros sem sentido
as ruas que se despem às estrelas
para ninguém
Devolveste-me as árvores
as árvores apenas elas mesmas
no impulso lenhoso dos seus ramos
na sua casca áspera
nas suas casuais flores
para ninguém colher

Devolveste-me o tempo fluindo sem margens
sem fronteiras
as madrugadas espantadas de existirem
as madrugadas sem ninguém à espera

Devolveste-me as noites fruto fechado sobre si
o céu sozinho

As estrelas já não se juntam
para escrever o teu nome
existem
resistem em seu lugar
de olhos muito abertos e brilhantes
sem lágrimas

Devolveste-me os Cafés
cheios de gente que afinal
existe

Devolveste-me o tampo liso das mesas
sua lúcida certeza
de estar só

Devolveste-me as algibeiras sem nada
corajosamente sem nada
só para meter as mãos

Devolveste-me o deslisar dos barcos no rio
sua orgulhosa serenidade
Não mais terás que ver
com barcos e comboios chegando
e partindo

Todos os comboios e barcos partem
e chegam
sem ti
Todos são iguais
e livres
e inúteis

Me encontro
de novo
a sós com as coisas

As mãos sem nada nas algibeiras vazias

me lanço nas ruas com furor
acamarado com sua brutal nudez
sem disfarce

Sabemos que nada temos para trocar
que existimos cada um em seu lugar
sabemos

que apenas nos podemos dar
inteiros
sem paixão
distintos

Ruas paredes pedras
árvores ruas
luas barcos mastros
te devemos
nossa solidão recuperada

Teresa Rita Lopes, Primeiro Poema do Amor Difícil
In"Os dedos os dias as palavras", Porto, Figueirinhas, 1987,
pp 81-83.


( Nota - agradecemos à Profª Teresa Rita Lopes o
ter-nos dado a conhecer alguns poemas deste seu livro.
Gostariamos de chamar a atenção para aquilo a que
podemos chamar a "complexa simplicidade" deste
texto, susceptível de ser apreendida se atendermos
aos jogos de concomitância e/ou de contradição
entre alguns dos seus nós temáticos - Exemplo:
- (o sem) sem sentido original das coisas/liberdade;
- as ruas onde as presenças pesavam/ as ruas livres, descomprometidas;
- a existência (plena dos cafés)/ a solidão; as algibeiras sem nada;
- o saber e a consciência (de nada ter para...)/a abolição da paixão
etc.
Conclusão: um livro a necessitar rápida reedição.)


18/09/08

Natália Correia com Dórdio Guimarães (foto tirada
no "Botequim" no Natal de 1991).

"A Defesa do Poeta"

Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêncio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Natália Correia, In "O Sol nas Noites e o
Luar nos Dias" Vol I, Projornal, s/c, 1993,
pp 443-444.

14/09/08

Poetas


Foto tirada a Malraux em Paris em 1960

"A Condição Humana"

À luz vacilante do crepúsculo,
no Château de Verrières,
André Malraux e Louise Vilmorin
falavam, pausadamente, diante de uma chávena de chá.
Inteligente, subentendida, lúcida,
a conversa era quase uma música,
quando um golpe seco no vidro da janela
- talvez um pássaro ofuscado pelas luzes -
lhe recordou certas noites de Espanha,
o ruído dos motores dos aviões,
as metralhadoras atroando o ar.
Seria em Espanha ou na China?
Um áspero cheiro de húmida vegetação,
clarões, corpos que caem junto de um rio,
estrelas impassíveis na sombra infinita.
Não, não, era na Alsácia, os tanques nazis
a arrastarem-se sobre a erva
e, de súbito, soldados e mais soldados.
Detinham-no, iam fuzilá-lo,
o matraquear final da descarga e depois nada.
Quieta e em silêncio, diante dele,
Louise via o reu rosto descomposto,
aqueles tiques, implacáveis e rápidos,
que desfiguravam as suas feições,
o tremor da sua mão na chávena de chá,
umas gotas de suor na ampla testa.
Não, também não era na Alsácia, eram os seus dois filhos
e o Alfa Romeo a 120 que se estampa
e os corpos despedaçados sobre a estrada.
- "Iam a velocidade excessiva", disse uma testemunha -.
O vazio, um gelado vazio, fez-se por um momento
na sua memória,
olhou para os móveis, para as delicadas chávenas na mesa,
para os olhos de Louise.
Com afectada expressão esboçou um sorriso,
enquanto passava o lenço pela testa.
Levantou-se, com visível esforço
gordo, inchado pelo álcool e a droga,
já não era o jovem guerreiro das fotografias -
serviu-se de um whisky e ao voltar a sentar-se
acariciou, suavemente, a cabeça de Louise.
Escutava-se o leve rumor dos móveis antigos,
lá fora, o vento do outono empurrava as folhas.
Voltou-se para ela, olhou-a outra vez nos olhos,
perguntou-lhe, com voz rouca, talvez sem esperar resposta,
"Que relação há entre um homem
e o mito que esse homem encarna?"
Escutava-se o leve rumor dos móveis antigos;
lá fora, o vento do outono empurrava as folhas.

Juan Luis Panero, In "Poemas", Relógio D'Água,
Lisboa, 2003, pp 43-45 (Trad. Joaquim Manuel
de Magalhães).

13/09/08

Poetas


"Quando ninguém olhava"
.
.
Passava os dias iluminado por uma janela
Esperando os dias seguintes
Escoando memórias inquietas
Esvaziando contornos de feridas
Abertas, sem horas nem promessas
No sossego
Quando ninguém estava a olhar.
.
Custava viver emparedado no teu silêncio
Devassado de ambições e chama
De olhos abertos, adormecidos sem lágrimas
Com as mãos mordidas, em sangue
Presas violentamente na parede.
.
Percorrer a vida no meu rasto
Pisando as minhas pegadas
Respirando os mesmos minutos
Sem trabalhos de monta
Que tudo o mais daria muito trabalho
Como falar
Como sonhar
Como inventar
Como vivermos com pressa de viver.
.
Quando ninguém olhava
Deixei de te ver
Respirei os meus minutos sozinho
Iluminado por uma janela
À beira do mundo, começando outra vez.
.
.
Daniel Costa-Lourenço, In "Furor das Noites Cheias",
Edições EC, s/cidade, 2008 (?), pp 69-70.

08/09/08

Poetas

"Corp Dévoilé", foto de Julienne Rose


Engalanada con las joyas de Subad
y con el manto púrpura, me presentaré a ti
para que lentamente tus manos me despojen.
Liberarás primero los dorados ramajes
que cercan el cabello y tus yemas las crenchas
surcarán, posándose, suaves, en los lóbulos
por desasir los aros. Del oído
enfilarán a la garganta
tejiéndose en las sartas de fuego y lapislázuli,
que hacia el pecho conducen.
Y cuando altivo el manto se desprenda
y revele los hombros satinados,
por un lino muy leve deslizarás los dedos
hasta dejar desnudo el rosicler y el nácar.
Y ya con impaciencia asentarás tu estirpe
sellando con tu lacre el rizado azabache.

Clara Janés, In "Cresciente Fértil"

(Tradução de Vergílio Alberto Vieira:

"Fragmento"

Ornada com folhas de Subad
e com o manto de púrpura,
comparecerei diante de ti
para que tuas mãos lentamente me indiciem.
Libertarás primeiro os dourados raminhos
que cercam o cabelo
e teu âmago hão-de as tranças
sulcar, expondo-se, leves, nos lóbulos
os brincos por abrir. Do ouvido
atravessarão a garganta
cruzadas por contas de fogo e lazúli
o acariciado seio.
E quando do alto se desprender o manto
e o macio ombro se mostrar,
o inefável linho atrairá os dedos
até intacto ficar o rosicler e o nácar.
E já inquieto tua estirpe descobrirás
fixando com teu lacre o anelado azeviche.)


Nota - Poema retirado da Revista "Hífen" nº 9
de Setembro de 1995, dedicada à poesia hispânica.

07/09/08



         " Tragédia "

Foi para a escola e aprendeu a ler
e as quatro operações, de cor e salteado.
Era um menino triste:
nunca brincou no largo.
Depois, foi para a loja e pôs a uso
aquilo que aprendeu
- vagaroso e sério,
sem um engano,
sem um sorriso.
Depois, o pai morreu
como estava previsto.
E o Senhor António
(tão novinho e já era "o Senhor António"!...)
ficou dono da loja e chefe da família...
Envelheceu, casou, teve meninos,
tudo como quem soma ou faz multiplicação!...
E quando o mais velhinho
já sabia contar, ler, escrever,
o Senhor António deu balanço à vida:
tinha setenta anos, um nome respeitado...
- que mais podia querer?
Por isso,
num meio-dia de Verão,
sentiu-se mal.
Decentemente abriu os braços
e disse: - Vou morrer.
E morreu!, morreu de congestão!...


Manuel da Fonseca, In "Obra Poética",
Ed. Caminho, Lisboa, 1984, pp 120-121.

04/09/08

Poetas


" A Madre da Casa da Avó" (Excerto)
.
.
havia um rasto de oliveiras
no manto estonteante
campo aberto
jorrado torrado a eito
forro de cortiça e azeitonas
padrão de oiros
campo pão
esbugalhado nos olhos
de bestas, mulas morenas
lentas.
cheiro a chão.
campo maior
do pão.
.
partiam-nos talhadas de sabor
ternuras doces verdes e vermelhas
que secavan no papel pelo ano
.
à madre da casa da avó
agarravam-se as coisas da memória:
dizer-te desse cheiro que havia
um rasto de oliveiras
e restolho
manto
estonteante manto
campo jorrado, torrado a eito
forro de cortiças e papoilas
pão esbugalhado nos punhos
de bestas
mulos à jorna
cheiro a fome do pão.
e a madre
castanha
suspira
eterna
impotente
pelos choros que não mais
- febres de incansável
pouca idade
birras de sestas enganadas
a inventar monstros
príncipes
rostos
formas aflitas nas gretas da parede
branco eterno, antigo
resguardo do abismo
pela madre,
castanha muito
madeira da memória dessa casa
à mesa
partiam-nos talhadas
barcas guardoras da magia
da família
ternuras doces
vermelhas, verdes
sementes secas
na varanda ou no sobrado
que apuravam no papel
ano adentro
até à hora de provar
a melancia
brinde da escola certinha
(lindas meninas!)
merecida
-Estado Novo
meninas lindas-
.
.
... ... ... ...
.
Maria Toscano, In "A madre da casa da avó - os nomes
infinitos do ser", Ed. Pé de Página, Coimbra, 2002, p 55.
.
.
(Nota - Este post só foi possível graças à amizade e à solidariedade
da poeta nele referida, no entanto dada a extensão do poema é-nos
completamente impossível postar, num blogue com estas características,
o texto na integra, contudo não queriamos deixar de mostrar uma
poesia que, quanto a nós, articula de forma primorosa a célebre questão
do quotidiano com todo um mundo imagético, muitas vezes inexistente
em poéticas que a si se chamam destes epítetos. Aqui o quotidiano é o
espaço dos afectos, da memória, de um certo "olhar socio-económico"
e até político - veja-se a ironia do final do excerto -, estamos a léguas
do frio quotidiano de muitas poesias.
Este post será imediatamente retirado se a Maria Toscano, ou alguém
em seu nome, nos disser que a supressão de texto atraiçoou o espírito
do poema, pois a nossa intenção era precisamente o contrário: revelar
uma poesia que merece ser mostrada.)

01/09/08

Poetas

Eunice Arruda (foto de Julho de 2008)



"MOMENTO - I "


Estou deitada em meu corpo
A vida rumoreja
recua como um mar
E o sangue circula sem saída


Eunice Arruda, In "Os Momentos", S.P. Nobel/
Secretaria de Estado da Cultura, 1981.

Poetas

"Consequência"

Em silêncio vimos o sofrimento

rio escuro
se alastrando
alagando a casa

Em silêncio respiramos

sob escombros
o peso
forçando os ombros

Metade do que éramos viveu

Eunice Arruda


(Nota - estes posts só foram possíveis graças à gentileza
e à solidariedade da poeta aqui referida.)

29/08/08




Ainda existem as ruas onde por acaso
nos encontrámos? Tantos dias correram
num ano, viam-me em dias de mais desejo
apressar os passos, olhar o relógio, pôr
falhando os discos nas capas. Parecia
ter sido só uma despedida de um dia
para o outro, agora se escrevo é porque
és apenas uma imagem da memória, pouco
faltará para que guarde de ti um risco,
um embaraço. E sempre chegarei a tactear
o rosto, fingir que lembro pequenos sinais,
as poucas palavras necessárias para eu
aceitar, duas vezes o meu corpo esteve
com o teu, muitas mais sem saberes.
Na volta de uma esquina não reparo,
tropeço, encontro, o último sorriso
começa a nascer.


Helder Moura Pereira, In"De Novo as Sombras e as Calmas -
poesia 1976/1990", Contexto Editora, 1990, p 159.

27/08/08

Poetas

Foto de Tim Mantoani com Miles Alderidge segurando
uma das suas fotos mais emblemáticas, que Alderidge tirou
em Paris para a semana santa em Córdova.





"O Anjo do Poema"



Dentro da mortalha desta casa,
nesta noite erma com tanta solidão,
ao olhar sem saudade o que partiu de minha vida
o que não pôde ser,
esta vasta ruína do passado,
também sem esperança
no que virá ainda flagelar-me,
só um bem é possível: a aparição do anjo,
seus olhos vivos, não sei de que cor, mas de fogo,
a paralisação perante o rosto formosíssimo.
Depois ouvir, saindo do silêncio e em tanta solidão,
sua voz sem tradução, que é só um fiel
entendmento sem palavras.
E o anjo faz, fechando-se em minhas pálpebras e
abrigado nelas, sua derradeira aparição:
com sua espada de fogo expulsa o mundo hostil,
que gira fora, às escuras.
E não há Deus para ele nem para mim.





Francisco Brines, In "A Última Costa", Assírio
& Alvim (Trad. José Bento), p 33.

23/08/08




      "Margem Sul"


Não quero libertar-me
da minha história, dos grandes navios
que ajudei a reparar, pintar, soldar,
equilibrado como um hábil trapezista
a grandes alturas. Exilado
do cais, hoje navego
na luz do fim da tarde. As minhas mãos
voam na perícia que me resta
jogando os trunfos
que verdadeiramente nunca tive.


Inês Lourenço, In "A Enganosa Respiração da Manhã",
Edições Asa, Porto, 2002, p 33.

21/08/08

Poetas


.
.


"Oculta Lágrima"

Mesmo que retornases a pisar
as ervas do caminho,
mesmo que as tuas mãos anunciassem
em concha água das fontes,
mesmo que em desatino
os sons da tua voz
como outrora se ouvissem perto ou longe
e mesmo que os teus olhos
languidamente para os meus olhassem -
só poderia responder-te agora
com uma oculta lágrima
que não foi derramada.

António Salvado, In "Essa Estória", Portugália Editora,
Lisboa, 2008, p 89.

17/08/08

Poetas

"Progresso", foto de Nuno Fernandes (2008)


"Prometeu acorrentado"


Pelo homem, pus minha mão no fogo.
Me queimei.
Agora só me cabe apelar:
- Livrai-me dos abutres, ó Zeus!


Flávio Moreira da Costa, In "Malvadeza Durão
e outros contos", AGIR Editora, Rio de Janeiro, p 59.

Poetas

"Crepúsculo dos deuses"

1

Que teu coração enterneça,
poluído homem urbano:
Kaváfis não deu um tiro
na cabeça: escreveu um poema.
Já leu?

2

Que teu coração enterneça,
homem urbano/poluído:
Cesare Pavese terminou
de escrever Ofício de viver
e deu um tiro no ouvido.

3

Nelson Cavaquinho bebeu demais
- um porre não lírico
mas homérico. Perdeu
seu cavaquinho.
Ficou sem sobrenome.

Que teu coração enterneça.


Flávio Moreira da Costa, In "Malvadeza Durão
e outros contos", AGIR Editora, Rio de Janeiro, p 65.

11/08/08




         " SONETO "


Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto, que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;

só a ti canto, que não há desastre
donde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.


Eugénio de Andrade, In "Antologia (1940-1961)",
Ed. Delfos, pgs. 95/6.

07/08/08




Em qualquer momento, no começo e no fim,
mesmo na medida de toda a vida - falhos de toda a pena,
permanecemos sem amanhã nem princípio,
esbatidos na idade e na distância, saqueados na sua mentira,
apenas acumulando areia para o fundo de um recreio
a simular um amuleto contra o regresso impossível.
Não temos trégua - não podemos voltar - e afastamo-nos - sem
ruído - lá para onde de longe chamamos, no ar rarefeito
- figuras resumidas a uma branca poeira informe,
em quantas inumeráveis semelhanças com a morte.
Pressentida ruína, a do íntimo declínio disto tudo,
demais cientes na incerteza como o sinal exposto da memória,
resina que nela se abate à frente dos olhos, que
esmaga cada braçada do tempo ao seu embuste
e nos recusa a menor separação do abandono -
que por nada existimos - e só acenamos - acenamos -
senão para crer no que julgamos não ter acontecido,
senão a entender a justa aceitação da nossa vida.

 
Rui Coias, poema 7 de "A Ordem do Mundo",
Ed. Quasi, 2005, p 15.

05/08/08

Da esquerda para a direita: Marco Lucchesi, António Ramos Rosa
e Victor Oliveira Mateus (foto de Julho de 2008).



Do rosto não
sabemos mais
que o véu

do caçador não
mais que a caça

é madrugada
e assim tudo

descansa em toda a parte


Marco Lucchesi, In "Sphera", Editora Record,
São Paulo/Rio de Janeiro, 2003, p 91.
"A sós, em seu tormento"


Pouco
abaixo
do sono
de Deus

cai a pele
das horas

e a tarde
ensolarada

livre
de papoulas

move

as rodas
do tempo

olhos

(entretanto)

medem
o não visível
rosto

desperto
onde repousa

a sós em
seu tormento

de todos
esquecido

destino
universal

o príncipe
do nada

Marco Lucchesi, In "Erwartungslicht",
Ed. Leonardo Verlag, Curitiba/Berlim, 2003.

27/07/08

Poetas

"Carcavelos", foto de Gérard Castello Lopes (1956)

Vê amor, como o belo entra na nossa vida e parte
Vê como se circunda também ele de corpos belos
e também partem.

As coisas que nos causam pena serão ditas doutra forma, amor.
Não se tratará de nenhuma espécie de retrocesso do nosso
corpo na linguagem,
mas talvez a suprema adivinha do que será o nosso corpo
futuramente,
quando ele se encostar e se aquecer definitivamente na
linguagem.
Deliramos hoje nos nossos sonhos com as coisas que serão
futuramente perfeitas -
as partes de nós que arderão no fogo ancião de todos os dias,
para se tornarem,
pela luxúria e pelo descuido das cinzas,
brancas, absolutas, meu amor.


Eduarda Tavares, In "Sono Derramado", Ed. Caminho,
1992, p 19.

Poetas


"Monologue pour Cassandre"

C'est moi, Cassandre.
Et voici ma cité recouverte de braises.
Et voici mon bâton, mes rubans de prophète.
Et voici ma tête pleine d'incertitudes.

C'est vrai, je triomphe.
Le feu de ma raison lèche la voûte céleste.
Seuls les prophètes que personne ne croit
jouissent de tels spectacles;
seuls ceux qui s'y sont assez mal pris
pour que tout s'accomplisse aussi rapidement
comme s'ils n'avaient pas existé.

Je me souviens maintenant, très distinctement
de ceux qui, devant moi, arrêtaient de parler.
Rires qui s'étouffaient.
Mains qui se dénouaient.
Enfants qui couraient vers leurs mères.
Je n'ai même pas connu leurs noms si périssables.
Et cette chanson sur la petite feuille verte
personne ne l'achevait quand j'étais là.

Je les aimais.
Mais les aimais de haut.
Bien plus haut que la vie.
De l'avenir. Où il fait toujours vide,
d'où rien n'est plus facile qu'apercevoir la mort.
Je regrette maintenant que ma voix fût si dure.
Regardez-vous vous-mêmes depuis les étoiles, disais-je.
Regardez-vous vous mêmes depuis les étoiles.
Ils m'entendaient, et baissaient les yeux.

Dans la vie ils vivaient.
Portés par le grand vent.
Déterminés,
dès leur naissance, dans ces corps migratoires.
Mais il y avait en eux comme un espoir humide,
une flamme nourrie de son propre grésillement.
Ils savaient mieux que moi ce que c'est qu'un instant,
un seul au moins, unique, n'importe lequel - Avant -

J'avais raison.
Seulement voilá, il n'en résulte rien.
Et voici ma chemise barbouillée par le feu.
Et voici ma quincaillerie de prophétesse.
Et voici mon visage tordu.
Visage qui n'a pas su qu'il pouvait être beau.

Wislawa Szymborska, do livro "Cent blagues"
(Sto pociech/1967), In "De la mort sans exagérer",
Poésie Fayard, 1996, p.37/8. (Tradução do polaco
para o francês por Piotr Kaminski)
" O Pescador"


Há vício no meu olhar fixo
basta lançar a linha e logo serena
em mim o desassossego
os olhos repousam no flutuador, mas é mais
que repousar, é como se finalmente
estivesse livre para não sair do sítio,
e assim o meu olhar fica inerte - não espero
que o peixe morda - fixo
o momento. Não preciso de nada não preciso
de olhar. Concentro-me nas rugas à superfície
não me esforço em penetrar até ao fundo.
Indiferente ao que possa aparecer, desaparecer
por cima ou por baixo de mim, indiferente
ao que foi e indiferente ao que está para vir.
As cores lisas a brilhar à tona da água
já são acontecimentos a mais
e vejam, eis o primeiro círculo
de algo que caiu na água ao longe.
Nada melhor do que não fazer nada,
do que não me mexer. Até um mínimo
erguer de olhos perturba irremediavelmente a ordem
e faz acontecer, faz acontecer.

Judith Herzberg, do livro "Botshol" (1981), In
"O que resta do dia", Ed. Cavalo de Ferro, p 125.

26/07/08

         " Frequência "


O teu número de telefone martela-me na cabeça
um ressoar ligeiramente agitado. Está em tudo
o que faço, impõe-se enquanto leio
enfia-se por baixo das palavras enquanto
escrevo.
E se o deixar um momento à solta
corre então para o telefone e liga
para que a tua casa vazia ressoe
um som que ninguém ouve. Talvez
uma chávena vibre com ele se o tom
atingir a sua amplitude.
Quando muito estala uma jarra.

Judith Herzberg, do livro "Botshol" (1981) In
"O que resta do dia", Ed. Cavalo de Ferro, p 119.

24/07/08


Graça Pires e Victor Oliveira Mateus: fotos tiradas aquando do lançamento do livro "não sabia
que a noite podia incendiar-se nos meus olhos" de autoria de Graça Pires (Livraria Buchholz,
 Maio, 2007).



"Foram os olhos. Foram os olhos dele, quando pousaram, devagar,
sobre os meus olhos, que me trouxeram esta sede até esse momento
apenas pressentida. Foram os olhos dele, tão acesos nos meus, que
encheram os meus olhos de estrelas e de sonhos e de lágrimas e de
pássaros errantes. E juro que pensei: não me importava de ficar cega
de tanto o olhar, porque a imprevisível cor de todas as madrugadas
ficará, para sempre, intacta, no meu peito. Desde então, os meus
olhos atraem a nitidez da noite e as aves nocturnas deslizam no meu
corpo, para lamber a lua escondida nos meus lábios. Cerro as pálpebras
à inquietação da manhã. Não procuro razões para a súbita armadilha
que foi o seu olhar. A sua respiração perto da minha era uma espécie
de afago. Tantas vezes me apeteceu dizer-lhe: aceita o vazio das mãos
que te estendi e guarda dentro delas teus desejos. Tantas vezes quis
falar-lhe do meu amor, como de barcos que chegam e partem de algum
lugar onde eu gostaria de ter nascido. Tantas vezes escrevi o nome
dele em todas as paredes imaginadas. E se ele me dissesse onde era
o lugar da sua sede, eu estaria lá para saciar com ele a minha sede"

Carta 1, In "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos"
de Graça Pires.

10/07/08




Mas fui feliz.
Puseram a mão nesta mão.
Não me apagaram o choro da orfandade,
mas fui feliz.

Nada pedi
- o som da bica ouço,
o mesmo que irá comigo à morte
e esteve sempre no meu dia antigo,
e sabe o que eu queria -
mas fui feliz.

Fui pranto de outros olhos.
Fui feliz.

Senti o afago
entre o peito e a pele da camisa.
Fui feliz.


Alberto da Costa e Silva, Poema 3 do Ciclo "As linhas da mão",
In "Melhores Poemas", seleção André Seffrin, Ed. Global,
São Paulo, 2007.

08/07/08




Queria para mim
a vastidão inconfundível
do sonho, o inexorável excesso
do horizonte. Queria
para mim um oceano

rumoroso de andorinhas
nos luminosos beirais
das colinas. Queria
a impertinência de um desejo
sempre retomado

e incompleto. Mas nunca
a voracidade deste lodo
nos alicerces da cidade;
monstro irrefreável
que amordaça a liberdade.


Victor Oliveira Mateus, In "Liberdade", col. afectos nº3,
Ed. Labirinto, 2008.

05/07/08

Poetas



Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atavessei as estações
respirei - ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas


Ruy Belo, In "Todos os Poemas", Assírio & Alvim, pp. 212/3.

01/07/08


Quantas vezes me deixei ficar,
como hoje, de caneta em riste,
sentado a esta mesma mesa
esperando que tu ou o texto viessem...
.
Quantas vezes, em vão, lançava
o olhar sobre o porto, tentando
adivinhar-te no bojo
de um qualquer barco que divisava
.
ao longe, como quem investiga
de falhas a mais nítida presença.
E quantas, no meio do tilintar
das chávenas e do bulício do balcão,
.
as tuas palavras acabavam sempre
por me aquietar. No entanto, sei-me
de sina igual a hoje: o constante medo
de que um dia possas não vir
.
e que o futuro mais não seja
do que a inquirição dos dias,
onde os versos se firmam
como escolhos à deriva
em simples guardanapos de papel.
.
.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p  

28/06/08


"Os Gatos"

Estudiosos austeros ou libertinos ferverosos
Chegada a maturidade
Começam a gostar de gatos____
Os gatos a sério Verdadeiras preciosidades Meigos e poderosos

Amigos do saber e do prazer Os gatos
Procuram o sossego e a sombra estranha

Se fosse possível vergar-lhes o orgulho em servidão
Erebe tê-los-ia empregue como seus mensageiros fúnebres

Altivos por indiferença
Tomam as poses nobres
Das grandes esfinges
Que no fundo da sua solidão
Parecem dormitar sem fim nem despertar

Nos seus rins fecundos
Jazem mágicas setas de luz
Limalhas de ouro
Poalhas finas
Basta olhar suas pupilas místicas____
Estrela estrelas em dispersão

Maria Gabriela Llansol, tradução de "Les chats" de Baudelaire
"Les Chats"


Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté,
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres;
L'Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin;

Leurs reins féconds sont pleins d'étincelles magiques,
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

Charles Baudelaire, In "As Flores do Mal",
Relógio d'Água, 2003

25/06/08

Poetas


Nota- C.Ds. a não perder:
a) "Lorquiana", Ana Belén canta "canciones populares de
Federico Garcia Lorca, Dir. Chano Dominguez, Etiqueta BMG;
b) "Présence de Lorca" - Lorca dito por Germaine Montero,
Vinil de 1968 passado a C .D. pela "Harmonia Mundi";
c) "Canciones españolas antiguas", Federico Garcia Lorca,
Dir. Josep Pons, "cantaora" - Ginesa Ortega, Etiqueta
"Harmonia Mundi - France"
.
.
"La Cogida y la Muerte"
.
.
A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.
.
Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
Ay qué terribles cinco de la tarde!
Eran las cinco en todos los relojes!
Eran las cinco en sombra de la tarde!
.
.
Federico García Lorca, Antologia Poética,
Relógio d'Água, pp. 172-174.

24/06/08


        "Livros Usados"
.
.
Tudo que se disse depois e
ainda se diz, pode estar num usado
exemplar de Crime e Castigo ou da Utopia.
Os livros usados - mesmo
que se chamem Utopia -
têm aquela terna docilidade
das páginas em que outras
mãos passaram, ao contrário
dos novos, que em rígidas e
intactas páginas são só apenas
papel impresso.
.
E para escassos amigos, quando
se fugiu duma livraria de
consumíveis tops,
talvez seja essa
a melhor oferta.
.
.
Inês Lourenço, In "a disfunção lírica"

21/06/08

Poetas

Olga Savary


"Coração Subterrâneo"


Tempo de terra e de água é este tempo
do corpo que no outro não procura espelho
mas conhecimento ávido, progressivo e lento,
pasto de magma alimentando o ventre.
Amando e se tornando amado, o corpo
do outro é de repente o nosso corpo
e dentro, coração subterrâneo,
no pequeno mato solta seus cavalos
cadenciadamente.
Como de bilha derrubada, a água fresca
e o mel-salsugem, em pulsações sedentas,
faz no tear interior do outro corpo
desenho de vida nos que estão morrendo.
O sortilégio de uma palavra
há que ser gritado como o desenfreio
dos cavalos e da bilha derramada.
Porém, calado, o tempo é dos amantes
e, deliquescidos, eles não dizem nada.


Olga Savary, In "Repertório Selvagem - Obra
Reunida", p. 188.

20/06/08

Poetas

OLGA SAVARY (poeta, escritora, ensaísta, tradutora,
antologista e jornalista) caricaturada pelo artista plástico
Anderson Kocis).


"Guerra Santa"

Tenho um medo da fera que me pelo,
ao vê-la quase perco a fala
(embora seja a fera o que mais quero)

mas reagindo digo-lhe palavras doces
e palavras ásperas, torno
igual minha voz à voz dos bichos

para seduzi-la ou para intimidá-la,
para que pontiaguda me tome das entranhas
depois de dilacerar com as garras meu vestido.

Olga Savary, In "Repertório Selvagem -
obra reunida", Multi Mais editorial, p. 174.

(Nota - este poema integra-se no livro "Altaonda"
(1971-1977) incluido na antologia já referida.)

17/06/08

Poetas




Vai chegar a manhã.
A luz treme nos arbustos.
Algas, seixos, limos
guiam pelas fragas
a água sem fundura,
o ardor levantino do anil.

Ouves correr poalhas de bruma?
Silêncios do vento que renasce?

Seguro na mão que não seguras
uma lâmina de fogo, um erro
de árvores, e olhas-me.

Pouso os lábios no teu pulso
para te sentir o coração.
É tão perigoso ser feliz.


Joaquim Manuel Magalhães, In "uma luz com um toldo vermelho"


16/06/08

Poetas

(Nota - hoje lembrei-me de juntar "três grandes": uma foto
de CHARLES CHAPLIN, datada de 13/9/1952, tirada em
Nova Iorque por RICHARD AVEDON, quando Chaplin se via
forçado a abandonar os E.U.A., para ilustrar JUARROZ...)


Cada poema faz esquecer o anterior,
apaga a história de todos os poemas,
apaga a sua própria história
e até apaga a história do homem
para ganhar um rosto de palavras
que o abismo não apague.

Também cada palavra do poema
faz esquecer a anterior,
desfilia-se por um momento
do tronco muitiforme da linguagem
e reencontra-se depois com as outras palavras
para cumprir o rito imprescindível
de inaugurar outra linguagem.

E também cada silêncio do poema
faz esquecer o anterior,
entra na grande amnésia do poema
e vai envolvendo palavra por palavra,
até sair depois e envolver o poema
como uma capa protectora
que o preserva dos outros dizeres.

Nada disto é raro.
No fundo,
também cada homem faz esquecer o anterior,
faz esquecer todos os homens.

Se nada se repete igual,
todas as coisas são últimas coisas.
Se nada se repete igual,
todas as coisas são também as primeiras.


Roberto Juarroz, In Poesia Vertical
(trad. Arnaldo Saraiva)

14/06/08

Poetas

Foto (sem título) de Liliroze


"Debaixo dos Pés se Levantarão"

Virás, seguindo o meu rasto,
sob o impulso de um desejo antigo,
para que de novo as camas se desfaçam
e a tenaz das pernas aprisione
a própria sombra sobre o cenário azul
de uma tela distante do olhar.
Depois chegarão os parentes, alguns amigos,
e debaixo dos pés se levantarão
as lebres da intriga que envenena.
Quererão saber quem és,
de que história saíste,
que mãos te moldaram,
que boca te deu nome e rumo.
Partirão feridos pela dúvida.
Só existes no fogo do que digo,
nas páginas do que desvendo,
na euforia negra do que oculto.
Em mais nada. Ofereces-me
os cadernos em que te escrevo
em que te descrevo
com o pormenor balbuciante e febril
de quem retrata a dor que o fere,
de quem nomeia a dor que o mata.


José Jorge Letria, In "Manuscritos do Mar Vivo"


                   " IN MEMORIAM"

Cheguei a pensar que, com o tempo, vos haveria de esquecer;
que uma qualquer nuvem sulfurosa, aos poucos, acabaria por
corroer todas as vossas imagens, como se corroem hoje os
sentimentos mais belos: agora descartáveis, biodegradáveis,
pronto-a-usar do sentir no turbilhão de tudo

Cheguei a pensar que vos haveria de esquecer. Mas não!
Não, porque lembrar é o preço que pagam os que ficam.
Lembrar... Lembrar os vossos corpos cada vez mais mirrados,
os vossos corpos frágeis de frágeis bonecos de porcelana,
os vossos rostos apenas malares e olhos - olhos terminais de
despedida. Lembrar a minha revolta: "quantos mortos destes
são precisos, para fazer um rico dos outros?" Lembrar um
sonho antigo com a figura imponente de minha avó: sentada
na soleira da porta, rosto carregado, olhar de sibila sobre o
Infinito, calada, sempre calada, tão calada que nesse dia
resolveu gritar: "há demasiado sofrimento na Terra!
Digam-me, a quem aproveita ele?"

Cheguei a pensar que, com o tempo, vos haveria de esquecer,
mas isso foi antes: antes da saudade, antes desta terrível
sensação de perda, desta amputação perversamente
deliberada. Antes do grito lúcido de minha avó.


Victor Oliveira Mateus, In "Mealibra, Revista de Cultura"
Nº9, Série 3, Dezembro 2001.


+

11/06/08


           "  Texto  17  "


A vida. A vida é muito útil: serve para fingir que sabemos
muita coisa, para fingir que gostamos dos outros, para fingir
que somos alguém não o sendo e para querer ter muito
poder. Eu, umas vezes, ponho a vida a tiracolo, para que as
suas franjas arrojem o chão; outras, coloco-a à cabeça, e logo
ela parece querer voar alçando-se ao céu. Certo dia pus a
vida numa capoeira que tenho lá no quintal, mas ela, assim
que se viu presa, começou a uivar no seu poleiro pedindo-me
para que a libertasse, e eu libertei-a mesmo... só que ela,
desorientada, ao atravessar uma rua, foi logo atropelada.
Ainda pensei arranjar outra vida, mas depois vi que não
valia a pena...

   Mateus, Victor Oliveira. Movimento de Ninguém. Lisboa: Minerva, 1999, p 29.
.

09/06/08

Poetas

"Dammartin-en-Goele", foto de Gil Cipière


Amei o Amor, ansiei o Amor, sonhei-o
uma vez, outra vez (sonhos insanos!)...
e desespero haja maior não creio
que o da esperança dos primeiros anos.

Guardo nas mãos, nos lábios, guardo em meio
do meu silêncio, aquem de olhos profanos,
carícias virgens, para quem não veio
e não virá saber dos meus arcanos.

Desilusão tristíssima, de cada
momento, infausta e imerecida sorte
de ansiar o Amor e nunca ser amada!

Meu beijo intenso e meu abraço forte,
com que pezar penetrareis o Nada,
levando tanta vida para a Morte!...

Gilka Machado, Livª Cátedra, pp.153/4

08/06/08

Poetas

"Le lac de Nino: les pelouses andines", foto de Fabrice Milochau


"Violences"

La lanterne s'allumait. Aussitôt une cour de
prison l'étreignait. Des pêcheurs d'anguilles
venaient là fouiller de leur fer les rares herbes
dans l'espoir d'extraire de quoi amorcer leurs
lignes. Toute la pègre des écumes se mettait
à l'abri du besoin dans ce lieu. Et chaque nuit
le même manège se répétait dont j'étais le
témoin sans nom et la victime. J'optai pour
l'obscurité et la réclusion.
Étoile du destiné. J'entr'ouvre la porte du
jardin des morts. Des fleurs serviles se recueillent.
Compagnes de l'homme. Oreilles du Créateur.

René Char de "Seuls demeurent" (1938-1944),
In "Fureur et Mystère", Poésie/Gallimard, Paris, 1967

06/06/08

Poetas


"Cantiga de Amiga"


Nesta tarde de junho
quase julho
feita de bruma
só levanto
se ela chamar por mim,
voz rouca
seios de marfim.

Amados, amigos,
esqueçam a poeta
e seus dizeres
só levanto
se ela chamar por mim,
dedos róseos
lábios de cetim.

Os filmes são improváveis
os encontros adiáveis
hoje não saio daqui
só levanto
se ela,
olhos de alecrim
chamar por mim.

A casa descansa
porque é sábado,
a cidade descansa
porque é sábado.

Quem me faria levantar,
senão ela
aldrava de mim?

Em seu ventre
adormeço,
colho amoras
qual Salomão em seu jardim
e só me levanto
se ela e seus ais
chamarem por mim.

Neide Archanjo, In "Epifanias"

04/06/08

As mesmas letras, outras visões...

Página 4 do artigo (A restante parte deste dossier irá sendo publicada
incluindo os poemas que o Poeta generosamente ofereceu para
ilustrar este meu trabalho... a ele devo o pouco que aqui consegui
fazer!). Para se poder ler as páginas, como sabemos, deve-se
clicar em cima delas...

Página 3 do artigo.

As mesmas letras, outras visões...

Página 2 do artigo.
Página 1 do artigo.

As mesmas letras, outras visões...

Acabou de sair o Número 26 (Ano 14/2007) da Revista
"Poesia Sempre", patrocinada pela Fundação da Biblioteca
Nacional (Rio de Janeiro) e pelo Ministério da Cultura do Brasil.
Este número da revista, com 240 páginas, é dedicado a Portugal.
Passamos à indicação do seu Sumário":

Palavras Iniciais, por Marco Lucchesi - p.7

Manoel de Oliveira: diário de uma amizade,
por Aniello Angelo Avella - p.9

António Ramos Rosa: um construtor que ama a clara
simetria dos terraços, por Victor Oliveira Mateus - p.15

Poesia portuguesa das últimas décadas (antologia
organizada por Arnaldo Saraiva) - p. 37

Crónica de vislumbres - António Bandeira: uma
árvore verde para o novo homem, por Floriano Martins
e Jacob Klintowitz - p. 125

Poesia Inédita (do Brasil) - p. 137

Ensaios - p .201

O Mito Drummond, por Letícia Malard - p.203

Cinema de poesia, por Constança Hertz - p.213

Absortos na vida, por Per Johns - p.223

03/06/08

Poetas

"Bruno" (1984), foto de Dino Pedriali


(Nota - Dino Pedriali é um dos grandes senhores da
História da Fotografia, só por isso o incluo aqui, pois
não sou, de modo algum, admirador da sua obra.
"Bruno" é um dos seus trabalhos mais conhecidos,
por isso o escolhi para ilustrar um poema de uma
grande poeta e amiga...)


"Pousada"

Pousa teus sonhos
Nos meus ombros.
O mormaço escorre
No suor de teu cansaço.
Estamos exaustos:
Eu por te esperar,
Tu por não chegares.
Vem.
Espero teu abraço.
Quero-o ardente,
Possuidor.
Frouxos estão
Meus lamentos.
Tardas.
Não queres voltar?
Estás farto de amor,
Ou tens pouco para dar?
Vem.
Preciso de teus beijos
Longos, gananciosos.
Quero sorver vida
Através de tua boca.
Chama-me louca,
Aventureira,
Presa fácil...
Estás indeciso?
Queres uma pousada segura,
Ou não crês nas minhas oferendas?
Vem.
Encontrarás o que procuras:
Casa, conforto, roupa macia,
Comida farta, carinho
E uma cama ardente.
Vem.
Pousa tua teimosia
Na minha solidão.
Vem.
Há sempre uma vaga
Na minha pousada.
Vem.
Espero tua chegada...


Cleri Aparecida Biotto Bucioli, In
"Sedas Rasgadas", Taba Cultural,
Rio de Janeiro, 2000.

02/06/08




"ilusão"


a flor desata o nó em direcção a uma lâmpada
é livre na sua luz e na sua escolha

enquanto procura o conforto no espaço
entra pela janela uma leve claridade (do sol)
tocando o corpo vegetal que indiferente
procura um lugar na terra herdada

no fim, grita com todas as cores
pela luz falsa que a entretém
numa espécie de ilusão enigmática de liberdade


Carlos Vaz, In "Liberdade - col. afectos Nº 3"
Ed. Labirinto, 2007.

01/06/08




Em tua forma mais pura
pelo silêncio me acenas; espraias-te na sombria distracção
da terra. Como corola fendida te abres em lampejos de tantas
cores. Imagem da primeira fala. Espelho nimbado de ouro
que, em jogos de fingimento, o essencial revelas

Nunca te procurei. Não te procuro, tão indolente que sou.
E, no entanto, acabas sempre por vir: de mansinho,
insidiosa... Ó terrível desventura que salva! Em mim te
aconchegas com teu tropel de vozes: lúcida desrazão que
acalma, êxtase do que pressinto. E vens, misto de assombro
e agonia, estranho dizer, talvez poesia

Victor Oliveira Mateus, Poema 27 In "Pelo Deserto
as minhas mãos"