17/03/09


"A Irresístivel Voz de Ionatos" de Victor Oliveira Mateus, Editora Labirinto.
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Lançamento no dia 21 de Março, pelas 16 horas, no espaço
da Empresa Somafre (Pólo Tecnológico de Lisboa, Rua I, Lote 25,
16oo-546). A apresentação será feita pela escritora Maria Lucília Meleiro
("A mitologia dos povos germânicos" Ed, Presença, "A Rosa de Alexandria"
Ed. Presença, etc.) e alguns poemas serão ditos pela actriz Eugénia Bettencourt
(" As horas de Maria" de António Macedo", "Chá preto com limão", etc.).
No final será servido um beberete.
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(Nota - para mais fácil localização do espaço consultar planta
num post abaixo).
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11/03/09


A Editora Labirinto comemora este ano o Dia Mundial da Poesia, que ocorre a 21 de Março, com o lançamento de um novo livro de Victor Oliveira Mateus: A Irresistível Voz de Ionatos. A obra conta com um posfácio do professor e poeta brasileiro Cláudio Neves e um texto da poeta, romancista e ensaísta, também brasileira, Olga Savary.A apresentação deste novo livro de poesia de Victor Oliveira Mateus estará a cargo da escritora Maria Lucília Meleiro e alguns dos poemas serão depois ditos pela actriz Eugénia Bettencourt.Este evento ocorrerá no dia 21 de Março pelas 16h no espaço cedido pela Empresa Somafre (Pólo Tecnológico de Lisboa, Rua I, Lote 25, 1600-548 Lisboa) para acontecimentos de carácter cultural.
No final da sessão será servido um beberete.

http://www.editoralabirinto.com/

03/03/09

"Pilots sur la plage de Sète (Hérault)" foto de François Bucaille


" Evocação"

Cansei-me deste exílio de onde há dias
fugi na direcção do mar. A gente
abandonara a praia, os gritos e os navios,
que nunca navegaram, tinham fundeado
na areia onde as gaivotas devoravam
as pegadas humanas, deixando as suas
que o vento apagaria à noite,
e as ondas repetiam a espúria eternidade.
Que mais posso dizer? Que fui eu quem voltou
ao exílio, que os cedros escurecem,
que os dias não tornaram mais com alegria,
que vejo na cidade, em janelas como esta,
caminhos incompletos atrás das vidraças
e, à distância, outra larga frente ao mar,
onde, olhando, o teu vulto permanece.

Nuno Dempster In "Dispersão - Poesia Reunida", Edições Sempre-Em-Pé,
Águas Santas, 2008, p 102.
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27/02/09


Luto por existir
num lugar
onde a luz nasce.
Procuro as fontes do dia,
florestas azuis,
um oásis que amanhece.
Estou num limbo
entre o nada
e uma incorruptível Primavera.
Aí colho as palavras
uma a uma,
leves e insubmissas
como a espuma.
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Maria João Fernandes In "Dias de Seda/Jours de Soie" (livro bilingue),
Prefácio de Robert Bréchon, Apresentação de Eugénio Lisboa, Pinturas
de Júlio Resende, Caixotim Edições, Porto, 2003, p 63.
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25/02/09


Sacré-Coeur!


Sacré-Coeur!
je te vois
Ô Biberon
avec ta grosse tétine en forme de croix

Sacré-Coeur!
mais vous êtes sept biberons!
je vous aperçois très bien du bas de la pente
square Saint-Pierre
trois petits biberons
trois moyens biberons
et un gros

C'est le soir
la gloire du ciel s'écarte
pour que les anges viennente téter
trois petits biberons
trois moyens biberons

Mais toi
gros biberon
tu es pour l'Enfant Jésus
ah!
puisse-t-il na pas se blesser les lèvres
sur ta tétine en forme de croix

Jacques Roubaud In "La forme d'une ville change plus vite,
hélas, que le coeur des humains", Poésie-Gallimard, Paris, 1999, p 35.
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23/02/09





Anjos e demónios caminham nos nossos jardins e
batem-nos à porta.
O que fazer?
Lançar-lhes pedras como aos cães vadios ou
convidá-los à nossa mesa?
Ouvir as histórias que eles trazem nos dedos é
como entrar de costas num espelho e afogar-se
assim no desconhecido que se atravessa.



Lídia Martinez In "Cartas de Pedro e Inez - o mel do meu
consolo", Ulmeiro, Lisboa, 1994, p 40.

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22/02/09




O caule épico do agapanto
ergue-se desmedido do púbis de espadas
até à umbela de grinaldas na glande
que o coroa majestático e trágico.

Não o visita já o vento, não o estiola,
ninguém mais o dobra, nem a resolução
depois
de quebrados os vasos.

Imperturbável como um deus entre deuses
com ninguém copula
porque lhe colheram o ápice quando tentou
falar, votando-o a uma castidade sem igual,
mudo e sem memória.

É alto e triste e só,
apesar de sexual, belo mas inútil
porque ocupa o seu embotado reino
vizinho de ângulos e vértices e pontas,
demarcado por fragmentos e vidros e ferros.

Reina rombo sobre quem
não rompe:
sobre quem agulhas toldam e deprimem
com sua sombra incisiva.

Daniel Jonas In "Os Fantasmas Inquilinos", Edições Cotovia,
Lisboa, 2005, p 47.
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Nova Zelândia, foto de Juan Carlos Muñoz


Esperança minha, is-vos:
nam sei se vos verei mais,
pois tam triste me leixais.

Noutro tempo ua partida,
qu'eu nam quisera fazer,
me magoou minha vida
quanto eu nela viver.
Desta já quê posso crer:
que, pois qu'assi me leixais,
é pera nam tornar mais.

Após tamanha mudança
ou desaventura minha,
onde vos m'is, esperança,
vá-se todo o mais qu'eu tinha.
Perca-s'assi tam-nasinha
tudo, pois que nam olhais
quam tarde e mal me leixais.

Bernardim Ribeiro In "Cancioneiro de Garcia de Resende", V, 272-3.

(Nota - magoou - o termo está aqui próximo do seu sentido originário
- MACULARE -, imprimir nódoa, deixar um sinal; já quê - alguma
coisa, isto; tam-nasinha - tão depressa. O n resultaria de um desdobramento
da nasal ou de uma assimilação: tan d'asinha, a melhor forma seria talvez
tãnasinha).
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21/02/09




Quanto, quanto me queres?, - perguntaste
Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fora a luz do sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proibida...

Beijámo-nos, então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar...

Não perguntes, não sei, - não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.

António Botto In "Canções e Outros Poemas", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2008, pp 59-60.
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20/02/09



E se tu não existisses? Se apenas fosses
um secreto lugar onde se escondem as montanhas?
Se ninguém fosse teu, como da terra os oceanos
e os lugares, os dons da luz e da cor?
Poderias ser como o oco das máscaras e dos falsos ocasos
a vulgar penumbra dos lugares e dos rostos indescritíveis
um sorriso pleno aos lugares dos corpos
rio paralelo duma ponte sem margens, sem dor
sem força. E se tu não existisses? Poderias ser
apenas sorriso que se fizesse em lugar reservado
um olhar por entre os corpos que se movimentam
num recinto de dança, entre abraços de ocasião.
Se apenas fosses esse lugar, talvez que os teus olhos
se tornassem azuis de tanto serem verdes. Sorrir-me-ias
com o mesmo encanto, com que teus lábios suavíssimos
se me sorriam, pois longe está o corpo do homem próximo
como perto, está o meu de beleza indómita e selvagem.
Lembrei-te, porque, se existisses, eras meu corpo
nesta terra de alegria. E como é triste esta terra
de alegria-assim, réstea de um lugar onde se vêem
os olhos, que, de tão sedentos, cegos são.

José Manuel Capêlo In "Odes Submersas", Átrio,
Lisboa, 1995, p 35.
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18/02/09

Foto tirada por Laurie Campbell, uma fotógrafa profissional da natureza.

não tragas aqui a tua tristeza
não a movas não a demores
não lhe dês outra ilha
que essa vertigem
há-de morrer-te nas mãos

não tragas aqui a tua tristeza
a menos que queiras
um rasgo na tua boca
uma porta acidentada
para a colheita do silêncio

a menos que me ames neste poema
e fiques comigo até entardecermos
no recuo delicado do verão

Daniel Gonçalves In " dez anos de solidão", Editora Labirinto,
Fafe, 2007, p 64.
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16/02/09


havia cinco macieiras, com folhas escuras e troncos da cor do carvão,
e uma nascente com um fio de água salgada, a vir do fundo da terra.

o botão da luz do sol estava desligado naquele lugar e a criança teve
medo de cair

eu caio, eu caio.
nunca se cai do céu para a terra
a terra tem lugares mais altos do que uma criança pode imaginar.
eu já caí do céu para o mar e também da terra para a terra, e tu, quem és?
eu sou a sombra da montanha e sou o vento a querer assustar uma menina.
o vestido parecia um balão cheio de ar e uma macieira partiu um galho.

a criança ficou com um susto grande porque as sombras não têm olhos
para se verem.

Isabel Aguiar Barcelos In "nunca se regressa ao mesmo lugar", Quasi Edições,
V. N. Famalicão, 2003, p 36.
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14/02/09


C'est à Lefteris que je veux être. Dans la coloration diverse
de sa petite plage. Dans son air sauvage qui s'accorde
avec toi quand tu émiettes les feuilles de tabac,
absente, et les mélanges avec ce que tu achètes toujours
dans le marché agité de Potamos.
Ágios Lefteris, écris-tu, avec un couteau
sur une des planches du sol sous l'auvent.
Celle avec laquelle je naufrage en moi même inventant
des chemins jamais représentables, tu écris des sens
dont nous ne parlons pas. Ou alors c'est de nous que tu traces
.
une brève et rigoureuse ébouche. De cette vocation translucide
qu'est la nôtre por apaiser les mots devant être sacrés
que nous trahissons si souvent dans l'épineuse grammaire
des affects. Avec une petite bûche tu remues les galets
près de la ligne d'eau et le silence est une plaine
subitement et félinement attrapée par le désir. Le désir.
Non l'aveugle impulsion sans source ni direction, mais
cette avidité infinie d'être l'autre, comme une chose à nous
qui nous prolonge et nous individualise, bien loin de l'être
gratuit, qui, devise de ce temps, tue autant de gens
.
sans contours ni aliment. Le desir.
Le battement de mes veines au combat avec
le dérèglement de l'âme. Notre agréable tourment
devant l'immensité de la mer et le déclin du soleil
(ce n'est qu'à Lefteris qu'il y a un tel coucher du soleil!),
tandis que ton svelte corps escalade gaillardement la maison
et riant et rigide ressurgit avec la voix lumineuse
d' Angélique Ionatos derrière toi: Lygmos Aggelon.
C'est une chanson qui parle du sanglot transi des anges.
Une chanson qui parle de ces sanglots, de ce prétexte
.
pour que nous liberions nos oiseaux et avec eux chantions
sous les fenêtres qui insistent pour se fermer devant nous.
C'est à Lefteris que je me veux, j'y suis bien décidé!
Lieu du plus admirable éblouissement, des plus
inexprimables signes en moi, attentif et dépouillé.
Mais, entre temps, tandis que le temps existe encore et ne resiste pas,
toi qui es là et me séduis, mets de nouveau la chanson
qui parle des sanglots des anges, la voix irrésistible
de Ionatos et, de tes gestes décidés, ouvre-moi
avec douceur la fenêtre, le corps, la mort pressentie.
.
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D'aprés "Em Lefteris" de Victor Oliveira Mateus, traduit par Huguette Rodrigues
(le 24 Janvier 09)
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13/02/09


"Cantiga, Partindo-se"
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Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
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Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
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Partem tam tristes os tristes,
tam fora d'esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
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João Roiz de Castelo Branco (Séc. XV) In
Antologia "Os dias do amor", Ministério dos Livros
Editores, Parede, 2009, p 64.
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10/02/09


(Vejo passar gente monstruosa através
da montra do café. Pesadelo.)
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Alguns destes monstros
já nasceram como os vejo de mordaças de pano cru,
açames de gelo,
simulacro de dentes com fome (chora-se melhor assim),
silêncio por fora das palavras de que ninguém já sabe o sentido
sem desterro.
.
Outros entraram nas escolas
de bocas ainda livres
- mas logo corriam os senhores professores com agulhas enfiadas de treva
a coserem-lhe os lábios
com teias de aranha.
E ai de quem não desaprendesse
que os números têm a cor misteriosa dos dedos
- e fechem por favor as crianças nos quartos às escuras,
ensinem-nas a sonhar
a instrução primária dos cárceres
(contanto que não sonhem alto).
.
Os mais velhos,
esses operam-se,
substituem-se-lhes as cordas vocais
por guitarras de açúcar ardente,
enquanto se colam nos lábios dos ditadores
mecanismos com espelhos para darem a ilusão do diálogo,
e pequenos aparelhos transparentes de repetir ecos.
.
Outras vezes encosto-me
à porta do café
à espera do Carlos ou do Fafe
contente de haver raparigas luminosas nos intervalos,
todas tão ágeis nas suas mordaças de cetim implácido
tules de voos mentais,
filtros de véus de mel
a cheirarem tão bem a palavras lúcidas
atravessadas de risos e saliva.
De vez em quando
apetece-me quebrar os vidros do café
e perguntar aos monstros
(por gestos, visto as próprias palavras já serem mordaças):
como conseguem comer
com dentes de algodão em rama?
E onde aprenderam a sorrir assim
com gengivas forradas de sedas de punhal
e arame farpado nos bocejos?
- como se as mordaças tornassem o mundo mais azul
e as línguas beijassem melhor
fechadas em redomas de cristal.
.
Agora só falta amordaçar o resto,
o vento, os pássaros, as fontes, os vulcões, o fogo,
as maçãs, os oboés, os tufões
a desordem do sonho.
.
A desordem, sim. Porque a desordem já começou - informam os jornais
com alarde de tinta inquieta.
A desordem que vai destruir os tijolos do sono
nesta cidade
construída de perfumes mortos
e materiais de luz
por arquitectos que usam principalmente a argamassa do sol
traçada de céu vivo
na construção de cofres subterrâneos dos Bancos Loucos
onde os poetas guardam o ouro das nuvens dos poentes
para as reformas na velhice.
.
Sim. Garantem-me e eu confirmo,
graças aos sinais secretos que aprendi para furar mordaças
(ai dos poetas que não rasgam mordaças nem pedras!)
que já começou a desordem.
.
Mas uma desordem tão compassada e grave
que, pela primeira vez, não me apetece gritar
com os outros,
os que só agora repararam nas mordaças
e deixaram de ouvir
os violinos de viverem mortos,
como quem pede desculpa de haver relâmpagos e trovões
- a falsa linguagem dos gigantes nas alturas
que faz tremer o mundo
quando se torna humana.
.
Mas não assim, nas bocas cerradas à força com adesivos
destes pobres anões montados em sombras de burros espectrais
que apodrecem amordaçadamente dos cascos às crinas
e mesmo quando zurram não arreganham os dentes
para acordar o marasmo do pântano
onde os combates continuam e continuarão até à última caveira do sol,
- só com furor de ecos
em busca de lâminas
nas manhãs desistentes.
.
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José Gomes Ferreira, Poema I de "Grito Plural"
In "Poesia V", Liboa, 1958.
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Foto sem título. Autor: Nuno Fernandes.


"The Encounter"


A hand was resting on the table in front of me in a sleepy
fist. Suddenly it flipped on its back and opened its fingrs as
if asking to have its palm read.
But as I looked into its lines it suddenly flew up and
slapped my face.
I began to cry...
Then this same hand lifted and began to wipe my tears
away...

Russell Edson In "O Espelho Atormentado", Ovni,
Entroncamento, 2008, p 154.

(Tradução de Guilherme Mendonça:

"O Encontro"

Uma mão fechada, em frente a mim, dormitava sobre a
mesa. Voltou-se subitamente e abriu os dedos como se me
pedisse para lhe ler a palma.
Mas, enquanto lhe observava as linhas saltou subitamente
e deu-me uma bofetada.
Comecei a chorar...
E essa mesma mão levantou-se e limpou-me as lágrimas
do rosto...

Russell Edson, op. cit., p 155. )
.
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07/02/09


Que sei eu do vento que, impetuoso e assertivo, nas suas franjas leva
os frutos apodrecidos, os galhos dos arbustos, os nodosos ramos há muito
espalhados pelo chão? Que sei eu desse furor com que adverte os barcos
e confunde os portos; com que dispersa as nuvens e a tempestade agiganta
no justo sítio onde o lodo se concentra e as algas se entrecruzam, para
a sôfrega destruição das ondas? Que sei eu do vento tão falho que sou

de alento, tão inseguro... privado de instrumentos que das coisas me
limpem seu traiçoeiro parecer? Que sei eu dele, quando à noite, cansado
de ser vento, completamente esgotado pelos trabalhos a que a distracção
dos deuses o votou, se recolhe às furnas desta margem, com seu corpo
de vento, suas mãos de argila, seu olhar a pedir fim? Dantes, quando eu era
menino, escondido na gabardina de meu pai, julguei-o pela frieza que me

deixava no rosto, pelos meus pés enregelados se acaso atravessava as quintas,
o regueirão, o lamaçal que a inépcia da vizinhança insistia em não remover.
Depois, nos meses do sufoco, o vento chegava em vergastas de fogo
aos meus pulmões ameaçando já ruína; era uma fogueira a estampar o medo
na face de minha mãe, com a estridência da sirene a devorar as ruas;
as mulheres de branco a correr e um fino tubo a raspar-me o nariz.

O vento era então o que mais tarde li em Thomas Mann: uma dor
na clavícula, outra mais abaixo, a saliva pegajosa na garganta, o sangue.
E vinha então outro vento, mas em altas e esguias garrafas, trazidas por
homens com máscaras esverdeadas, que de mim logo fugiam como de gafo
a quem sobravam dias. Que sei eu do vento se nunca nos encontrámos
verdadeiramente, mas tudo foram acidentes, resquícios de julgar ver,

refracções, imagens distorcidas, intuições à deriva, como à deriva eu
já refeito, pelas veredas abaixo? Mas agora, agora vejo-o de novo
do outro lado da vidraça, a zurzir a falésia, a beijar a praia em frente,
a vir ao varandim para me espreitar, como se nunca me tivesse
visto, porque - e pensando bem - que sabe de mim o vento?


Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 37 (Posfácio de Cláudio Neves e texto de contracapa de Olga Savary).
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05/02/09

" A Ilha de Jade"


1.
De céu a céu
contempla em chamas verdes
desertos de água.

2.
Apagam sóis
veredas que a cinza cerca
nas dobras do coração.

3.
De 'strelas coroada
enfíngica repousa a noite
no fundo dos vulcões.

4.
Amanhecidas brumas
esbatem pelos cumes a emurchecida
flor do mal.

5.
No dedo frágil os-
tentam o ardor que o jade esfria
à sombra do jasmim.

6.
Aromáticos, nocturnos,
em suas camisas de ramagens esperam
cair de novo em tentação.

7.
Contra a nudez
do bosque enfermam então perdidas
luas, de mel.

8.
Esborratam cerros
de água, as cabras que o vento
em lava afixou.

9.
Ao mar atidos
como lobos fisgam a morte:
o lanço com cautela.

10.
Escalando escostas
descem à terra, provam da ira
o oiro dos vinhedos.

11.
Enamoradas virgens
entre heras, com fraguedo nu,
se deitam as ribeiras.

12.
Do vale aos cimos,
acordam a luz que a mão bordou
na fímbria das marés.

13.
Silvam nos renques,
voam, imóveis como o funcho,
à sombra do penhasco.

14.
Decapitados pela sede,
no copo vencem a medo tormentas
e naufrágios.

15.
Criou Deus então
a ilha, e o nácar lhe deu corpo
de navio, e de mulher.

Vergílio Alberto Vieira In "O Voo Da Serpente",
Campo das Letras, Porto, 2001, pp 33-47.
.
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04/02/09




as asas as nossas mãos o divino céu...
louvo-te de joelhos sem saber da dor da vida...
o vazio nas mãos as linhas o destino...
juntos o mar os lagos os rios...
e cada gota cada nota cada dó...
é luto é alma é cinza...

o beijo dos teus lábios são os meus
perdidos em ondas de espuma
que esperam da tua boca estonteados
os beijos teus ainda

ó no meu peito floresce uma hora
que perco e ganho quando os cílios toco
estremece-me o corpo inacessível a outro
diamante vermelho triunfante

Henrique Levy In "Intensidades", Europress,
Odivelas, 2001, p 38.
.
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02/02/09


"Palavras"
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Machados,
Após cada pancada sua a madeira range,
E os ecos!
São ecos que viajam
Do centro para fora como cavalos.
.
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A seiva
Brota como lágrimas, como a
Água a esforçar-se
Por recompor o seu espelho
Sobre a rocha
.
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Que pinga e se transforma,
Uma caveira branca
Comida pelas ervas daninhas.
Anos mais tarde
Encontro-as no caminho -
.
.
Palavras secas e indomáveis,
Infatigável som de cascos no chão.
Enquanto
Do fundo do charco estrelas fixas
Governam uma vida.
.
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Sylvia Plath In "Ariel", Relógio D'Água,
Lisboa, 1996, p 173.
.
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21/01/09


"Y MI CUERPO?"

Me acerco
y no veo ninguna ventana.
Ni aproximación ni cerrazón,
ni el ojo que se extiende,
ni la pared que lo detiene.
Me alejo
y no siento lo que me persigue.
Mi sombra
es la sombra de un saco de harina.
No viene a abrazarse con mi cuerpo
ni logro quitármela como una capota.
La noche está partida por una lanza,
que no viene a buscar mi costado.
Ningún perro esmalta
el farol sudoroso.
La lanza sólo me indica
las órdenes de la luna
haciendo detener la marea.
Es la triada del colchón,
la marea y la noche.
Siento que nado dormido
dentro de un tonel de vino.
Nado con las manos amarradas.

José Lezama Lima In "Poesía", Ediciones Cátedra,
Madrid, 1992, pp 388-389.

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20/01/09


"Uma vítima da retórica"
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Tua ausência me enfeitiça e renasces
como uma fraude por repetidas noites.
Pressinto a espreita dos gemidos pegajosos:
teus lábios sempre no limite. Nada em mim
jamais esteve a salvo de tua voragem.
Quando me encontraste eu estava louco.
Recolhia pequenos pássaros congelados
e mascava seus vôos em rituais de pranto.
Tu me deste a efígie negra de teu ser,
como um último recurso e livre rota celeste
por entre deuses, desertos, misérias, nomes
Moí o vazio à procura de como empregá-la,
a imagem lutuosa de teu afastamento.
Percorri os círculos brancos da memória,
com suas bestas cochichando ardilezas,
até que não houvesse mais noites em mim
sem a tua nudez invisível: falso terror
com que me golpeias o vôo cristalizado
dentro dos pássaros que se foram comigo.
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Floriano Martins (Inédito).
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( Tradução para castelhano de Susana Giraudo:
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Tu ausencia me hechiza y renaces
como una fraude por repetidas noches.
Presiento el acecho de los gemidos pegajosos:
tus lábios siempre en el limite. Nada en mí
jamás estuvo a salvo de tu vorágine.
Cuando me encontraste yo estaba loco.
Recogía pequeños pájaros congelados
y mascaba sus vuelos en rituales de llanto.
Tú me diste la efígie negra de tu ser,
como un último recurso y libre ruta celeste
por entre dioses, desiertos, miserias, nombres.
Moli el vacío buscando cómo emplearla,
la imagem luctuosa de tu alejamiento.
Recorrí los círculos blancos de la memoria,
con sus bestias cuchicheando ardides,
hasta que no hubiesse para mí más noches
sin tu desnudez invisible: falso terror
con que me golpeas el vuelo cristalizado
dentro de los pájaros que se fueron conmigo.)
.
.
Nota - o poeta e ensaísta brasileiro Floriano Martins é,
como muitos sabem, um dos responsáveis pela célebre
"Revista Agulha", agradecemos-lhe o envio de alguns dos
seus poemas (e respectivas fotos) para os podermos publicar
aqui. Bem-haja!
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18/01/09


"As pessoas sensíveis"


As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
" Com o suor dos outros ganharás o pão."

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen In "Antologia", Moraes Editores,
Lisboa, 1975, p 195.

(Nota - este poema faz parte de "Livro Sexto", 1962).
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16/01/09


"Auto da Horta Destruída"

Que triste, país, é a moral
da fábula campestre
que longos séculos nos deste
a ler - frautas e penhas,
arroios e fráguas, acaso
aproveitaste, pastor? Acaso,
velho, te acharás menino
a caminho da horta depois
de abertas as comportas?
Quem te virá demandar
cheiros pera a panela?
Ficas viúvo, país, até que falem
de novo os animais, o teu luto
dá pelo nome de turismo rural.
Fábulas contadas, sobra
a metade mais salgada
e pífia de Portugal:
a banhos vai, com espuma
e crescidas ondas pela cinta avança
mas perde o pé, e às arrecuas
se firma no cómico areal,
veleiro roto, crustáceo,
heróico baixio, obesa
prancha ocidental.

Rui Lage In "Corvo", Quasi Edições,
Vila Nova Famalicão, 2008, p 13.
.
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(Nota - Como vulgarmente sucede a foto não
foi tirada do livro, mas do Blogue "Textualino"
do escritor Carlos Vaz. Ela será imediatamente
retirada caso algum dos dois autores mo diga...)
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14/01/09



deram-me um espelho onde me queimei
integral e semente

atravessava vultos corredores do tempo
mas só a sede me vivia

a criança que corre pelo outono
só deseja a morte
gosto de areia é a memória
vai cegando de coisas irreais
famílias de divisas actos de passagem

um rosto devorado pelas invasões
com a sede a diluir-lhe o corpo
cadáver absoluto nas vizinhanças da
dor que Deus doía

Pedro Sena-Lino In "deste lado da morte ninguém responde",
Quasi Edições, 2008, p 32.
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11/01/09



"para voltar ao princípio do mundo"


sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor

sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola

com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento

era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte

um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar

disse: tece-me

e o mar inclinou-se por dentro
para tecer

o poema


Maria Azenha In "A Chuva Nos Espelhos", Alma Azul,
Coimbra, 2008, p 9.
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10/01/09




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"Antinoo"
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Tu nariz pensativa sostiene la balanza de tus hombros,
tan breve el balanceo quedaron en el fiel diestra y siniestra.
Dentro está el péndulo
dispuesto a señalar con su parada el perfecto equilibrio,
dispuesto a detenerse en el instante
en que comienza lo que no termina.
Tu nariz pensativa, meditativa y contempladora
de ti mismo,
de su último aliento se despide.
En él tu juventud, épico aroma!
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Rosa Chacel, "Poesia (1931-1991)", Tusquets Editores,
Barcelona, 1992, p 173.
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09/01/09


"Canção de graças"

Estou-te grata por não me protegeres
por não te ter quando de ti preciso
por não seres firmamento para a Ursa Menor
nem bengala e bastão para me defenderes.

Por cada pontapé te estou agradecida
que me faz avançar para mim
no meu caminho. Tenho que o andar só.
Estou-te grata. Facilitas-me a vida.

Estou-te grata pela tua cara linda
que para mim é tudo e nada mais.
E também por não ter que agradecer-te
senão este poema e alguns outros ainda.

Ulla Hahn In "A sede entre os limites", Relógio d'água,
Lisboa, 1992, p 61.
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08/01/09

Nature Boy In "Someone Special" album de Max India, British Library,
London, 1988.


"Isso é que era uma vida!"


Faço o meu ninho na axila
do homem com o elmo de ouro. Se ele anda
eu imóvel ando também. Se ele dobra
o corpo eu em pé faço o mesmo.
Se ele come o pão com o suor do seu rosto
eu perturbada pelos aromas deito-me-lhe
debaixo do braço viril.
A sua conversa Sim Não é obviamente sempre
a minha. Não semeies não colhas: Para quê
se ele me dá de comer e vestir! E
nada mais exige em troca do que a sua dose diária
de rosas sem espinhos lhe teço a coroa
chilreando à volta da divina cabeça.

Ulla Hahn In "A Sede Entre Os Limites", Relógio d'Água,
Lisboa, p 31.
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06/01/09

 
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O desejo é um desastre que se vai
acumulando silencioso à sombra
de oliveiras interiores. Arte lenta,
essa que vem de longe: o ofício das ondas,
a sedução do corpo pelas rotinas do dia,
e tudo canta.
O corpo vazio, em Delfos, foi abrigo
das estrelas; um lugar invisível onde,
sendo cego, me deixei banhar em águas
primeiras. Para tudo ver. E vi o tormento,
mais amplo do que o desejo: e desejei morrer,
e morri, nas tuas sedas mais íntimas.
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Casimiro de Brito, In "Livro das Quedas" (Fragmento VIII do Poema 55),
Roma Editora, Lisboa, 2005, p 75.
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" AMOR"


Te amo como a mi madre,
te amo como a la Hélade,
lucero verde
suspendido encima de mis noches!

Mis pensares arrancan de tu nombre,
mis pensares acaban en tu nombre,
cinto de fuego de mi pensamiento,
estrecho como anillo de esponsales,
inmenso como anillo de Saturno.
Oh compañero alado,
oh espejo límpido!


Pandelís Prevelakis In "Poemas (1933-1945)",
Ediciones Kyklades, Barcelona, 1986, p 15
(Tradução do grego para o castelhano a cargo de
José Ruiz e G. Varlamos).
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05/01/09


"África, mulher - mãe de consistência"


África
Que o teu criador não te fez à semelhança de nada
África
Generoso enigma da razão solta
Quando antes da partida já meu corpo se quedava
África
Meu ciclo de esperança
Minha sedutora ladra que me roubaste de mim
Para me levares às essências
África
Renovadora incessante do desejo
Extensão sólida, miragem real
Com que critério viver-te?
África
Minha emergência de reconciliação
Meu grande olhar iniciático
Às tuas formas adiro e descalça
Obedeço ao teu pulsar
África
Meu coração central
Tua receita secreta
Aventura de mim a ti a erguer-se do nada
África
Meu frágil dormir
Quando teus sons próximos e longínquos
Me dão a ilusão do silêncio
Enquanto os bichos homens, bichos mulheres
E bichos por superioridade
Feitiçam tuas noites e fortes cheiros
Ai! África mulher-mãe de consistência
Tua lei, minha morte satisfeita
África
Sem intervalo
Melodia lavrada à extensão de perder de vista
Iluminura na bíblia dos meus dias
E sempre novas maravilhas atiçam
Danças de alquimia ao fogo
OH! África
Conclusão do meu destino
Recorte do meu corpo
Espírito exposto ao tempo próprio
Começo sem limites onde já descanso meu cansaço
África
Das cores fortes com nome
Ser tua amante sob as luas
É saciar minha avidez chamada mundo
OH! África
Das trovoadas que rebentam em partos de vida
Universidade inesgotável de saberes
Deixa que enfim
por mim mesma
Evoque o imperativo de me aceitares
Um pouco
tua.

Teresa Vieira (Inédito - 1999?)
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03/01/09

"se o pulmão fora pétala e a rosa um campo minado
e a casa o coração da música serias tu o meu sul na volátil geografia do caminho certo. se nada
nos distraísse da miséria e das patas sobre o corpo e dos segredos irredutíveis numa página de
temperatura gelada serias o meu sentido único sobre as cinzas.

mas estamos aquém. como cidade sobre estacas ardidas. e deslizo-te.
como rio ao contrário. reacendo as artérias que te ascendem aos ombros. como matéria assisti-
da de símbolos vibráteis. serpentes e asas. peixes voadores no arvoredo dos teus lábios.
pequenos e dóceis os intervalos sucedem-se na tensa harmonia dos teus olhos de bambu.

lá fora o vento é montanha e águia. aqui sou uma prece. e prendo-te com ganchos de plátanos.
assim fora eu o pulmão da terra interior. da água mais pura que o esforço de mudar-te a foz.
é tão feroz a mão que nos escreve. o fundo.

PRESUNÇÃO DE LÁGRIMA LUMINOSA, IGNORO TODOS OS TEXTOS que não sejam de
prados movediços. pétala a pétala recupero a simetria do in.divino.
e
espero. o outro dia."

Isabel Mendes Ferreira

(Nota - agradeço à poeta Isabel Mendes Ferreira a autorização
que me deu para publicar este seu texto).
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01/01/09

Foto de Daniel Magnin


"Nascimento"

A mão tocou no rosto: fê-lo para que assim pudessem os olhos
ver finalmente como é todo o espaço que existe
a partir dela. Depois, foi o rosto que tocou nas mãos
para estas saberem o que as limita. Faltava ainda
um nome, apenas o ruído límpido de uma voz
cuja origem se desconhece, a sua tranquila surpresa.
Pronunciá-lo-emos finalmente. Não é o princípio de tudo?
Tu podes esquecê-lo, porque nas tuas vestes a noite desce e hás-de esconder
no próprio sono esse corpo que chegava da luz, apenas vestido
pelo que parece ser o nosso sangue. Espera um pouco. A quem
podes levar agora o primeiro alimento, aquele que recebeu a forma
de uma folha? O que vês? Tudo se torna simples
ao esperares a palavra que não pertence a ninguém porque continuas
sozinho. Talvez ela seja uma promessa ou o que ficou
do que para os outros era uma despedida. Vês um caminho: estendes
para o chão um dos braços para te aproximares mais do seu calor,
dessa luz espalhada agora à tua volta. Compreendeste melhor
o sentido de cada gesto que fazes, a maneira de tocar
numa coisa só para que fique idêntica a si mesma. Será
isto suficiente? Procura dentro de ti o que falta para assim receberes
o que podia ser uma primeira dádiva. Outras raízes
finalmente nascem.

Fernando Guimarães In "Limites para uma árvore",
Edições Afrontamento, 2000, pp 30-31.
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30/12/08

Écoute, écoute...Dans le silence de la mer, il y a comme un balancement maudit qui vous met le coeur à l'heure, avec le sable qui se remonte un peu, comme les vieilles putes qui remontent leur peau, qui tirent la couverture.

Immobile... L'immobilité, ça dérange le siècle. C'est un peu le sourire de la vitesse, et ça sourit pas lerche, la vitesse,
en ces temps.
Les amants de la mer s'en vont en Bretagne ou à Tahiti...
C'est vraiment con, les amants.

Il n'y a plus rien

Camarade maudit, camarade misère...
Misère, c'était le nom de ma chienne qui n'avait que trois pattes.
L'autre, le destin la lui avait mise de côté pour les olympiades de la bouffe et des culs semestriels qu'elle accrochait
dans les buissons pour y aller de sa progéniture.
Elle est partie, Misère, dans des cahots, quelque part dans la nuit des chiens.
Camarade tranquile, camarade prospère,
Quand tu rentreras chez toi
Pourquoi chez toi?
Quand tu rentreras dans ta boîte, rue d'Alésia ou du Faubourg
Si tu trouves quelqu'un qui dort dans ton lit,
Si tu y trouves quelqu'un qui dort
Alors va-t-en, dans le matin clairet
Seul
Te marie pas
Si c'est ta femme qui est lá, réveille-la de sa mort imaginée

Fous-lui une baffe, comme à une qui aurait une syncope ou une crise de nerfs...
Tu pourras lui dire:" T'as pas honte de t'assumer commer ça dans ta liquide sénescence.
Dis, t'as pas honte? Alors qu'il y a quatre-vingt-dix mille espèces de fleurs?
Espèce de conne!
Et barre-toi!
Divorce-la
Te marie pas!
Tu peux tout faire:
T'empaqueter dans le désordre, pour l'honneur, pour la conservation du titre...

Le désordre, c'est l'ordre moins le pouvoir!

Il n'y a plus rien

Je suis un nègre blanc qui mange du cirage
Parce qu'il se fait chier à être blanc, ce nègre,
Il en marre qu'on lui dise: "Sale blanc!"

A Marseille, la sardine qui bouche le Port
Etait bourrée d'héroine
Et les hommes-grenouilles n'en sont pas revenus...
Libérez les sardines
Et y'aura plus de mareyeurs!

Si tu savais ce que je sais
On te montrerait du doigt dans la rue
Alors il vaut mieux que tu ne saches rien
Comme ça, au moins, tu es peinard, anonyme, Citoyen!

Tu as droit, Citoyen, au minimum décent
A la publicitè des enzymes et du charme
Au trafic des dollars et aux traficants d'armes
Qui traînent les journaux dans la boue et le sang
Tu as droit à ce bruit de la mer qui descend
Et si tu veux la prendre elle te fera du charme
Avec le vent au cul et des sextants d'alarme
Et la mer reviendra sans toi si tu es méchant

Les mots... toujours les mots, bien sûr!
Citoyens! Aux armes!
Aux pépées, Citoyens! A l'Amour, Citoyens!
Nous entrerons dans la carrière quando nous aurons cassé la gueule à nos ainés!
Les préfectures sont des monuments en airain... un coup d'aile d'oiseau ne les entame même pas...
C'est vous dire!

Nous ne sommes même plus des juifs allemands
Nous ne sommes plus rien

Il n'y a plus rien

Des futals bien coupés sur lesquels lorgnent les gosses, certes!
Des poitrines occupées
Des ventres vacants
Arrange-toi avec ça!

Le sourire de ceux qui font chauffer leur gamelle sur les plages reconverties et démoustiquées
C'est-à-dire en enfer, lá où Dieu met ses lunettes noires pour ne pas risquer d'être reconnu par ses admirateurs
Dieu est une idole, aussi!
Sous les pavés il n'y a plus la plage
Il y a l'enfer et la Sécurité
Notre vraie vie n'est pas ailleurs, elle est ici
Nous sommes au monde, on nous l'a assez dit
N'en déplaise à la littérature

Les mots, nous leur mettons des masques, un bâillon sur la tronche
A l'encyclopédie, les mots!
Et nous partons avec nos cris!
Et voilà!

Il n'y a plus rien... plus, plus rien

Je suis un chien?
Perhaps!
Je suis un rat
Rien

Avec le coeur battant jusqu'à la dernière battue
Nous arrivons avec nos accessoires pour faire le ménage dans la tête des gens:
"Apprends donc à te coucher tout nu!
" Fous en l'air tes pantoufles!
"Renverse tes chaises!
"Mange debout!
"Assois-tois sur des tonnes d'inconvenances et montre-toi à la fenêtre en gueulant des gueulantes de principe

Si jamais tu t'aperçois que ta révolte s'encroûte et devient une habituelle révolte, alors,
Sors
Marche
Crève
Baise
Aime enfin les arbres, les bêtes et détourne-toi du conforme et de l'inconforme
Lâche ces notions, si ce sont des notions
Riens ne vaut la peine de rien

Il n'y a plus rien... plus, plus rien

Invente des formules de nuit: CLN... C'est la nuit!
Même au soleil, surtout au soleil, c'est la nuit
Tu peux crever... Les gens ne retiendront même pas une de leur inspiration
Ils canaliseront sur toi leur air vicié en des regrets éternels puant le certificat d'études et le
cathéchisme ombilical.
C'est vraiment dégueuelasse
Ils te tairont, les gens.
Les gens taisent l'autre, toujours.
Regarde, à table, quand ils mangent...
Ils s'engouffrent dans l'innomé
Ils se dépassent eux-mêmes et s'en vont vers l'ordure et le rot ponctuel!

La ponctuation de l'absurde, c'est bien ce renversement des réacteurs abdominaux, comme à l'atterrissage: on rote
et on arrête le massacre.
Sur les pistes de l'inconscient, il y a des balises baveuses toujours un peu se souvenant du frichti, de l'organe, du repu.

Mes plus beaux souvenirs sont d'une autre planète
Où les bouchers vendaient de l'homme à la criée

Moi, je suis de la race ferroviaire qui regarde passer les vaches
Si on ne mangeait pas les vaches, les moutons et les restes
Nous ne connaîtrions ni les vaches, ni les moutons, ni les restes...
Au bout du compte, on nous élève pour nous becqueter
Alors, becquetons!
Côte à l'os pour deux personnes, tu connais?

Heureusement il y a le lit: un parking!
Tu viens, mon amour?
Et puis, c'est comme à la roulette: on mise, on mise...
Si la roulette n'avait qu'un trou, on nous ferait miser quand même
D'ailleurs, c'est ce qu'on fait!
Je comprends les joueurs: ils ont trente-cinq chances de ne pas se faire mettre...
Et ils mettent, ils mettent...
Le drame, dans le couple, c'est qu'on est deux
Et qu'il n'y a qu'un trou dans la roulette...

Quand je vois un couple dans la rue, je change de trottoir

Te marie pas
Ne vote pas
Sinon t'es coincé

Elle était belle comme la révolte
Nous l'avions dans les yeux, dans les bras, dans nos futals
Elle s'appelait l'imagination

Elle dormait comme une morte, elleétait comme morte
Elle sommeillait
On l'enterra de mémoire

Dans le cocktail Molotov, il faut mettre du Martini, mon petit!

Transbhutez vos idées comme de la drogue... Tu risques à la frontière
Rien dans les mains
Rien dans les poches

Tout dans la tronche!

- Vous n'avez rien à déclarer?
- Non.
- Comment vous nommez-vous?
- Karl Marx.
- Allez, passez!

Nous partîmes... Nous étions une poignée...
Nous nous retrouverons bientôt démunis, seuls, avec nos projects d'imagination dans le passé
Ecoutez-les... Ecoutes-les...
Ça rape comme le vin nouveau
Nous partîmes... Nous étions una poignée
Bientôt ça débordera sur les trottoirs
La parlotte ça n'est pas un détonateur suffisant
Li silence armé, c'est bien, mais il faut bien fermer sa gueule...
Toutes des concierges!
Ecoutez-lez...

Il n'y a plus rien

Si les morts se levaient?
Hein?

Nous étions combien?
Ça ira!

La tristesse, toujours la tristesse...

Ils chantaient, ils chantaient...
Dans les rues...

Te marie pas Ceux de San Francisco, de Paris, de Milan
Et ceux de Mexico
Bras dessus bras dessous
Bien accrochér au rêve

Ne vote pas

O DC8 des Pélicans
Cigognes qui partent à l'heure
Labrador Lèvres des bisons
J'invente en bas des rennes bleus em habit rouge du couchant
Je vais à l'Ouest de ma mémoire
Vers la Clarté vers la Clarté

Je m'éclaire la Nuit dans le noir de mes nerfs
Dans l'or de mes cheveux j'ai mis cent mille watts
Des circuits sont en panne dans le fond de ma viande
j'imagine le téléphone dans une lande
Celle où nous nous voyons moi et moi
Dans cette brume obscène au crépuscule teint
Je ne suis qu'un voyant embarrassé de signes
Mes circuits déconnectent
Je ne suis qu'un binaire

Mon fils, il faut lever le camp comme lève la pâte
Il est tôt Lève-toi Prends du vin pour la route
Dégaine-toi du rêve anxieux des biens assis
Roule Roule mon fils vers l'étoile idéale
Tu te rencontreras Tu te reconnaîtras
Ton dessin devant toi, tu rentreras dedans
La mue ça ses fait à l'envers dans ce monde inventif
Tu reprendras ta voix de fille et chanteras Demain
Retourne tes yeux au-dedans de toi
Quand tu auras passé le mur du mur
Quand tu auras autrepassé ta vision
Alors tu verras rien

Il n'y a plus rien

Que les pères et les mères
Que ceux qui t'ont fait
Que ceux qui ont fait tous les autres
Que les "monsieur"
Que les "madame"
Que les "assis" dans les velours glacés, soumis, mollasses
Que ces horribles magasins bipèdes et roulants
Qui portent tout en devanture
Tous ceuz à qui tu pourras dire:

Monsieur!
Madame!

Laissez donc ces gens-là tranquilles
Ces courbettes imaginées que vous leus inventez
Ces désespoirs soumis
Toute cette tristesse qui se lève le matin à heure fixe pour aller gagner VOS sous,
Avec les poumons resserrés
Les mains grandies par l'outrage et les bonnes moeurs
Les yeux défaits par les veilles soucieuses...
Et vous comptez vos sous?
Pardon... LEURS sous!

Ce qui vous déshonore
C'est la propreté administrative, écologique dont vous tirez orgueil
Dans vos salles de bains climatisées
Dans vos bidets déserts
En vos miroirs menteurs...

Vous faites mentir les miroirs
Vous êtes puissants au point de vous refléter tels que vous ètes
Cravatés
Envisonnés
Empapaoutés de morgue et d'ennui dans l'eau verte qui descend des montagnes et que vous vous êtes arrangés pour soumettre
A un point donné
A heure fixe
Pour vos narcissiques partouzes.
Vous vous regardez et vous ne pouvez même plus vous recommaître

Tellement vous êtes beaux

Et vous comptez vos sous
En long
En large
En marge
De ces salaires que vous lâchez avec précision
Avec parcimonie
J'allais dire "en douce" comme ces aquilons avant-coureurs et qui
racontent les exploits du bol alimentaire, avec cet apparat vengeur
et nivellateur qui empêche toute identification...
Je veux dire que pour exploiter votre prochain, vous êtes les champions de l'anonymat.

Les révolutions? Parlons-en!
Je veux parler des révolutions qu'on peut encore montrer
Parce qu'elles vous servent,
Parce qu'elles vous ont toujours servis,
Ces révolutions de "l'histoire",
Parce que les "histoires" ça vous amuse, avant de vous interesser,
Et quand ça vous intéresse, il est trop tard, on vous dit qu'il s'en prépare une autre.
Lorsque quelque chose d'inédit vous choque et vou gêne,
Vous vous arragez la veille, toujours la veille, pour retenir une place
Dans un palace d'exilés, entouré du prestige des déracinés.
Les racines profonds de ce pays, c'est Vous, paraît-il,
Et quand on vous transbahure d'un "d'ésordre de la rue", comme vous dites, à un "ordre nouveau" comme ils disent, vous vous faites greffer au retour et on vous salue.

Depuis deux cent ans, vous prenez des billets oiur les billets pour les révolutions.
Vous seriez même tentér d'y apporter votre petit panier,
Pour n'en pas perdre une miette, n'estce-pas?
Et les "vauriens" qui vous amusent, ces "vauriens" qui vous dérangent aussi, on les enveloppe dans un fait divers pendant que vous enveloppez les "vôtres" dans un drapeau.

Vous vous croyez toujours, vous autres, dans un haras!
La race ça vous tient debout dans ce monde que vous avez assis.
Vous avez le style du pouvoir
Vous en arrivez même à vous parler à vous-mêmes
Comme si vous parliez à vos subordinnés, de peur de quitter votre stature, vos boursouflures, de peur qu'on vous montre du doigt, dans des corridors de l'ennui, et qu'on se dise: "Tiens, il baisse, il va finir par se plier, par ramper"
Soyez tranquilles! Pour la reptation, vous êtes imbattables; seulement, vous ne vous la concédez que dans la métaphore... Vous volez bien vous allonger mais avec de l'allure.,
Cette "allure" que vous portez, Monsieur, à votre boutonnière,
Et quand on sait ce qu'a pu vous coûter de silences aigres,
De renvois mal aiguillés
Dde demi-sourires séchés comme des larmes,
Ce ruban malheureux et rouge comme la honte dont vous ne vous êtes jamais décidé à empourprer votre visage,
Je me demmande comment et pourquoi la Nature met
Tant d'entêtement,
Tant d'adresse
Et tant d'indifférence biologique
A faires que vos ils ressemblent à ce point à leur pères,
Depuis les jupes de vos femmes matrimoniaires
Jusqu'aux salonnardes équivoques où vous les dressez à boire,
Dans votre grand monde,
A la coupe des bien-pensants.

Moi, je suis un bâtard.
Nous sommes tous des bâtards.
Ce qui nous sépare, aujourd'hui, c'est que votre bâtardise à vous est sanctionnée par le code civil, sur lequel, avec votre permission, je me plais à cracher, avant de prendre congé.
Soyez tranquilles, Vous ne risquez Rien

Il n'y a plus rien

Et ce rien, on vous le laisse!
Foutez-vous en jusque-là, si vous pouvez,
Nous, on peut pas.
Un jour, dans dix mille ans,
Quand vous ne serez plus là
Nous aurons TOUT
Rien de vous
Tout de nous
Nous aurons eu le temps d'inventer la Vie, la Beauté, la Jeunesse, les Larmes qui brilleront comme des émeraudes dans les yeux des filles,
Le sourire des bêtes enfin détrquées,
La priorité à Gauche, permettez!

Nous ne mourrons plus de rien
Nous vivrons de tout

Et les microbes de la connerie que vous n'aurez pas manqué de nous léguer, montant
De vos fumures
De vos livres engrangés dans vos silothéques
De vos documents publics
De vos réglements d'administration pénitenciaire
De vos décrets
De vos prières, même,
Tous ces microbes...
Soyez tranquilles,
Nous aurons déjà des machines pour les révoquer

NOUS AURONS TOUT

Dans dix mille ans.


Léo Ferré, Il n'y a plus rien .
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"Una pareja depravada"

Maestros de los rateros de baños públicos,
Vibenio padre y marica de hijo
(que si el padre tiene la derecha más sucia,
el hijo tiene el culo más insaciable),
por qué no os marcháis al exilio a tierras
malditas, puesto que la gente está al corriente
de los robos del padre y tú, hijo, no puedes
vender tus peludas nalgas ni por un ochavo?


Catulo, In "Poesias", Alianza Editorial, Madrid,
1988, p 63
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28/12/08




"O Mar Não Conhece O Mar"


o mar não conhece as profundidades
nenhum azul nem conhece as suas ondas
o mar não é soberbo nem
manso nem amargo
não conhece o sabor do vento nem da espuma
o mar não vê nenhum sol
nem terra nem seixos
O mar não ama o céu
nem a lua
o mar não se conhece

Eva Christina Zeller In "Sigo a àgua", Relógio d'água,
Lisboa, 1996, p 17.
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25/12/08

Sebastião da Gama, José Régio e Cristovam Pavia.



a Cristovam Pavia

Pela janela do meu quarto ouço um ruído que se mantém:
longínquo, indistinto na sua sua distância, nessa permanência
de rumor que me sufoca. Que me sufoca e atordoa os pássaros
na ramaria em frente. Pela janela as vozes de um lugar!
Vozes que curiosamente vejo e que magoam este desacerto

que sempre volta entre o diferente que vislumbro e esta cidade
empedernida: fanqueiros com os seus manequins de papelão
carcomidos pelo tempo e pelo desuso; miúdos com os seus carros
de esferas a ziguezaguearem na humidade do asfalto; um cão
vadio (ou de liberdade cioso?) vasculhando os restos com que

os imprestáveis excessos mascaram sua vaidade. Pela janela
do meu quarto bebo a luz que a cidade não tem, mas que para ela
sonho em momentos de insurrecto furor ou de esparsa melancolia;
momentos onde ainda teço os poucos poemas que de mim - talvez -
se firmem, para júbilo dos que suportam, mas não desistem.

Victor Oliveira Mateus In Blogue "Estrada do Alicerce", 2/12/08.
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23/12/08


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    "Murmúrios do Mar"


"Paga-me um café e conto-te
a minha vida"

O inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteir
disso me lembro

Outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem

Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudade desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares
o teu amor"

José Tolentino Mendonça In "A que distância deixaste o coração",
Assírio & Alvim, Lisboa, 1998, pp 27-28.
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20/12/08




Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada.
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.


Fernando Pessoa (Alberto Caeiro), Poema XVI de "O Guardador
de Rebanhos" In Obras Completas de Fernando Pessoa - Vol. III,
Ed. Ática, Lisboa, 1974, p 42.
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18/12/08

"Uma longa meditação sobre o Japão moderno (o Metro de Tóquio)"
Foto de Chris Steele-Perkins


" E claro. um nome. O de Maria Quintans. nome de fulgor. um compromisso
deferente de vírgulas com lobos. uma leitura que se toma na ponta dos dedos.
e que nos persergue. desafia.nos. a ser. muito mais que a Ideia. O verbar intenso."

Isabel Mendes Ferreira In "Nota Introdutória" ao livro "Apoplexia da ideia"


"Subtil, a autora pega da roca e do linho, ou seja dos sentimentos e das palavras
e, com a sabedoria dos lúcidos, desdobra, doba minúsculos/grandiosos reflexos
de vidas por desocultar."

Fernando Dacosta In "Um Universo Fabuloso", Prefácio do livro "Apoplexia da Ideia"


"pensar numa cidade é construir a cidade, ainda que cinzenta
e assustada, é a cidade. ontem construí a cidade - dizia. mas é uma
cidade para o dia seguinte. logo não é a cidade de ontem, nem de hoje.
mas do dia seguinte.
fiquei confusa e desisti de construir a cidade. criei a independência
da cidade. que por não ser minha já o foi.

agora vou ali ao bar dos gestos beber uma cidade.
não sei em que cerveja. "


Maria Quintans In "Apoplexia da ideia", Papiro Editora,
Lisboa, 2008, p 12.
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13/12/08

Sylvie Lancrenan fotografando a actriz Emmanuelle Béart (Foto de John Nollet).


E dói-me esse rio de já me não amares
de já me não quereres assim como eu te quero
de não sobressaltares porque sou eu que te espero
em esquinas de lágrima ou sorriso
foi-se o amor chegou o siso
e eu
que não nasci para ter juízo

E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas está, dê para o que der
e doa a quem doer

Passam sanguessugas pelos trilhos da memória
umas são mortas, outras são vivas,
outras são glória
de já não existir e teimar em persistir
e eu vou ao vento, sou palmeira seca,
sou teimoso sou frágil sou de teca de cetim
sou uns dias teu, outros assim assim

E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas sente, e já pouco quer
para além de seres mulher

E sei que já não sinto o que senti nem sei quem sou
mas seja eu quem for fazes-me falta, ainda és música
perdi a pauta, nada sei cantar, acho que esta conversa
é coça umbigo, vai ter que parar

Mas dói-me o teu ventre que não afago
como quem não sabe nadar
e hoje é de festa, amanhã é de mar
é de mar

Manuel Cintra,"não sei nunca por onde", Quasi Edições,
pp 25-26.
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10/12/08

Foto de Daniel Magnin


"Perfis da Sede"


amei-te em tempo maduro
como os frutos
num chão de estio

em pequenos sinais
de um viver de esperança
e calafrio

também nos momentos azuis
onde moram os gestos
como um voo breve

onde gotejam as fontes
os perfis da sede

depois descri das amoras
nas palavras
viajei num barco novo em cada hora

e hoje a tua graça já não mora
na pele sedosa dos ritos

mas no que em ti é a asa de um regresso
o rio prometido a descoberta

minha bordadeira de sonhos
e de mitos

José Manuel Mendes, In " Setembro Outra Vez",
Ed. Caminho, pp 53-54.
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06/12/08




Cai uma folha no poente destes dias
O que era nítido torna-se difuso
Babel renasce em cinzas de um deserto próprio
E o vento busca em vão uma harmonia

A solidão é em mim um oásis às avessas
Lutando em vão contra a miragem certa


Amélia Pais, In Blogue "Ao Longe os Barcos de Flores" (29/4/2008)


(Nota - agradecemos à Profª Amélia Pais a autorização
que nos deu para postar este seu poema.)
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04/12/08



Eu cantei já, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta quando:
"Não sei, que também fui nisso enganado".
É tão triste este meu presente estado
que o passado por ledo estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
contentamentos não, mas confianças;
cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

Luís de Camões, In "Lírica Completa Vol. II",
Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p 193.

(Nota de Maria de Lurdes Saraiva - "Soneto autobiográfico. O tema
fundamental é o do engano, ideia que é sucessivamente reformulada
no soneto em planos progressivamente mais complexos e subtis: chora
o tempo em que cantou (...)Sabe que cantou; mas nem sabe quando,
porque pode ser ilusória essa percepção de um antigo tempo feliz(...) O
canto anterior não foi inspirado por alegrias, mas por esperanças sem
fundamento(...) Se tudo é mentira e engano, de quem se queixará? É o
próprio choro que não tem razão de ser (...) a culpa da sua infelicidade;
não foram os seus erros, mas o Destino iníquo, que decidiu da sua sorte")
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03/12/08



Lançamento do livro " DO INTANGÍVEL" de POMPEU MIGUEL MARTINS


dia 9 de Dezembro (3ª feira) na Biblioteca Municipal de Fafe.
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02/12/08


"Les oiseaux journaliers"

Quand les oiseaux ouvrent le matin
ou brunissent sur les arbres nos places,

il s'ouvre un espace à l'intérieur de l'âme
qui ignore les règles du temps,
y élevant la maison
et attendant sereinement
ce que nous ne saurons jamais
sur ce que la mort peut être.

Jusqu'à ce qu'ils partent un jour
vers le coeur le plus voilé,
gardé en nous
comme la plus longue nuit,
fermée en nous
comme la mémoire plus pure.

Victor Oliveira Mateus traduzindo Pompeu Miguel Martins,
op. cit. p 39.

Nota - os meus reconhecidos agradecimentos à equipa de
revisão/ajuda: muitas foram as nossas discussões em torno
de uma palavra, de uma formulação, de um verso... Houve
mesmo um poema que chegou a "estar retido" cerca de dez
dias até que chegassemos a um acordo. Foi bom trabalhar
convosco!
Nota 2 - os nomes de todos os elementos do projecto estão
no lado direito do blogue.


"Os Pássaros Diários"

Quando os pássaros abrem a manhã
ou entardecem nas árvores as nossas praças,

abre-se um lugar dentro do peito
que desconhece as regras do tempo,
aí erguendo a casa
e esperando serenamente
o que nunca saberemos
sobre o que a morte possa ser.

Até que partam um dia
para o mais velado coração,
guardado em nós
como a noite mais longa,
fechado em nós
como a memória mais pura.

Pompeu Miguel Martins, "Do Intangível", Editora Labirinto,
Fafe, 2008, p 39.
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30/11/08

...

A. C. Swinburne - numa aguarela, de 1862, de Dante Gabriel Rossetti.

(Algernon Charles Swinburne - 5/4/1837 - 10/4/1909 )


ANACTORIA

My life is bitter with thy love; thine eyes
Blind me, Thy Tresses burn me, Thy sharp sights
Divide my flesh and spirit with soft sound,
And my blood strengthens, andmy veins abound.
I pray thee sigh not, speak not, draw not breath;
Let life burn down, and dream it is not death.
I would the sea had hidden us, the fire
(Wilt thou fear that, and fear not my desire?)
Severede the bones that bleach, the flesh that cleaves,
And let our sifted ashes drop like leaves.
I feel thy blood against my bloof: my pain
Pains thee, and lips bruise lips, and vein stings vein.
Let fruit be crushed on fruit, let flower on flower,
Breast kindle breast, and either burn one hour.
Why wilt thou follow lesser loves? are thine
Too weak to bear these hands and lips of mine?
I charge thee for my life's sake. O too sweet
To crush love with thy cruel faultless feet,
I charge thee keep thy lips from hers or his,
Sweetest, till theirs be sweeter than my kiss:
Lest I too lure, a swallow for a dove,
Erotion or Erinna to my love.
I would my love could kill thee; I am satiated
With seeing thee live, and fain would have thee dead.
I would earth had thy body as fruit to eat,
And no mouth but some serpent's found thee sweet.
I would find gievous ways to have thee slain,
Intense device, and superflux of pain;
Vex thee with amorous agonies, and shake
Life at thy lips, and leave it there to ache;
Strain out thy soul with pangs too soft to kill,
Intolerable interludes, and infinite ill;
Relapse and reluction of the breath,
Dumb tunes and shuddering semitones of death.
I am weary of all thy words and soft strange ways,
Of all love's fiery nights and all his days,
An all the broken kisses salt as brine
That shuddering lips make moist with waterish wine,
And eyes the bluer for all those hidden hours
That pleasure fills with tears and feeds from flowers,
Fierce at the heart with fire that half comes through,
But all the flower-like white stained round with blue;
The fervent underlid, and that above
Lifted with laughter or abashed with love;
... ... ...
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. Tradução para português de Maria de Lourdes Guimarães:
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ANACTORIA ( excerto)

A minha vida torna-se amarga com o teu amor; os teus olhos
Cegam-me, as tuas tranças queimam-me, os teus suspiros profundos
Dividem a minha carne e o meu espírito com um débil som,
E o meu sangue fortalece-se, e as minhas veias transbordam.
Peço-te que não suspires, não fales, não respires;
Deixa que a vida se reduza a cinzas e sonha que não é a morte.
Queria que o mar nos tivesse escondido, o fogo
(Terás tu medo disso e não receias o meu desejo?)
Quebrou os ossos que branqueiam, a carne que se fende,
E deixa que as nossas cinzas joeiradas caiam como folhas.
Sinto o teu sangue contra a meu; a minha dor
Atormenta-te, e os lábios esmagam os lábios, a veia dilacera a veia.
Que o fruto seja esmagado sobre o fruto, e a flor sobre a flor,
Que o seio desperte o seio e ambos ardam uma hora.
Por que hás-de tu seguir um amor sem importância? É o teu
Demasiado fraco para sustentar estas minhas mãos e estes meus lábios?
Exorto-te a que apenas por mim, ó tão amada,
Esmagues o amor com os teus belos pés cheios de crueldade,
Exorto-te a que afastes os teus lábios dos dela ou dos lábios dele,
Tão doces, até que eles sejam mais doces que o meu beijo:
Para que assim eu não atraia, uma andorinha em vez de uma pomba,
Erotion ou Erinna para o meu amor.
Quem me dera que o meu amor te matasse; fico saciada
Vendo os vivos e de bom grado te queria morta.
Quem me dera que a terra tivesse o teu corpo como fruto para comer,
E que nenhuma boca a não ser a de uma serpente te achasse doce.
Quem me dera encontrar maneiras cruéis de te mandar matar,
Instrumentos violentos e um excessivo fluxo de dor;
Atormentar-te com agonias amorosas e ameaçar
A vida nos teus lábios e deixá-la aí para doer;
Retirar-te a alma com agonias demasiado suaves para matar,
Interlúdios intoleráveis e infinito mal;
Provocar reincidência e relutância do alento,
Melodias mudas e trémulos murmúrios da morte.
Estou cansada de todas as tuas palavras e da tua estranha afabilidade,
De todas as noites escaldantes de amor e de todos os seus dias,
E de todos os beijos interrompidos, salgados como espuma,
Que lábios trémulos tornam húmidos com um vinho mais leve,
E olhos mais azuis por todas aquelas horas escondidas
Que o prazer enche de lágrimas e alimenta de flores,
Cruel fogo no coração que principia a penetrá-lo,
Mas deixando uma brancura de flor manchada à volta de azul;
A pálpebra inferior ardente, e a superior
Erguida com um sorriso ou confundida com o amor;

A. C. Swinburne, Poemas, Relógio D'Água Editores,
Lisboa, 2006, pp 36-39.
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25/11/08

"Veneza, O Grande Canal" - quadro de Turner.


"As ruínas" (Poema I)

Quis um dia essa tarefa, a de projectar ruínas:
de começar uma coisa
como uma coisa termina.
Imaginou-as plantadas, como harpas, numa planície.
Vizinhas a coisa alguma, pois, se a alguma vizinhas,
dela se entranham as ruínas.

E repetiu essa palavra, em tantas línguas traduduziu-a,
até suspeitar-lhe a sombra, até dilatar-lhe os sinos,
até descobrir-lhe arestas, ordens, cicatrizes, até que, dentro da palavra,
soassem guerras suspensas, houvesse incêndios antigos.
Até que, dentro da palavra, a própria coisa ruísse.
E imaginou essa palavra mais do que a coisa em ruína.
E imaginou-a palavra depois de a coisa finda.
E imaginou-a num deserto, mais soprada do que erguida.

Queria suas ruínas inecessárias, daninhas,
a que os gatos viessem por um quase humano instinto.
Onde as sombras florescessem como florescem espinhos.


Cláudio Neves, In "De Sombras e Vilas", Ed. 7 Letras,
Rio de Janeiro, 2008, p 65.
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