17/06/09
Ode da liberdade II
devíamos criar uma cidade nova
livre
desde as pontas dos dedos
as estradas
à polpa das palmas das mãos
as muralhas
até ao centro histórico
para nela vivermos séculos sem fim
e mergulharmos nos rios as linhas do destino.
devíamos criar uma cidade livre
nova
desde o vulcão
o nosso repouso em labaredas
para um primeiro beijo
fora do território nacional
até à lonjura da maior viagem
dormirmos na pousada
que abriga tectos em estrelas
com os olhos fechados
trocados
numa nova cidade
até sermos ilha.
quando regressássemos
morávamos
na nossa grande casa da árvore
cravejados de folhas
pássaros e beijos
as mãos um do outro
polpa de maçã
só à espera de ver nascer
a madrugada debaixo dos braços
para o último arrepio
de todos os tempos
amarmo-nos.
ana salomé In "odes", Editora Canto Escuro, s/c, 2008, pp 64-65.
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16/06/09
"Da Terra à Luz"

"Os Escribas"
Nunca senti por eles grande entusiasmo.
Se eram excelentes eram também petulantes
e de um trato tão espinhoso como o azevinho
de que extraíam a tinta.
E se nunca fui um deles também é certo
que nunca me puderam negar o meu lugar.
Na quietude do scriptorium
crescia neles a todo o tempo uma pérola negra
como o velho coágulo seco por dentro das penas.
À margem de textos laudatórios
arranhavam, esgadanhavam.
Rosnavam se o dia estava escuro
ou se giz a mais amolecera o vellum
ou giz a menos o deixara oleoso.
Sob os dorsos da caligrafia
arrebanhavam rancores míopes.
Sementes de ressentimento ponteavam-lhes
as espirais de fetos das maiúsculas.
De vez em quando eu tinha um sobressalto
a milhas de distância, e via na minha ausência
o cursivo inclinado de cada dorso, e sentia-os
a aperfeiçoarem-se contra mim, página a página.
Que se recordem deste contributo não desprezível
para a sua arte de invejas.
Seamus Heaney In "Da Terra à Luz - poemas 1966-1987 ",
Relógio D'Água Editores, Lisboa, 1997, p. 333, (trad. Rui Carvalho Homem).
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14/06/09

"Effigy"
If you come to find me affable
And build a replica for me
Would the idea to you be laughable
Of a pale facsimile
So when you come to burn an effigy
It should keep the flies away
When you learn to burn this effigy
Il should be
For the hours that slip away
It could be you, it could be me
Working the door, drinking for free
Carrying on with your conspiracies
Filling the room with a sense of unease
Fake conversations on a nonexistent telephone
Like the words of a man who's spent a little too much time alone
When one has spent too much time alone...
So if you come to burn my effigy
It should keep the flies away
When you learn to burn an effigy it should be
Of a man who's lost his way, slips away
Andrew Bird, do C.D. "Noble Beart", Wegawam Music Co., E.U., 2009.
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.Nota - As sardinhas só vieram hoje...Naquele terraço de corte mediterrânico entravamos e
saíamos. Lembrei-me dos pavões a quem o A. cortara as asas e as raposas devoraram num fim-de-semana. Alguém veio cá abaixo bater estridentemente palmas... "Para espantar os gaios - explicaram-me depois -, os cabrões dão cabo de tudo!". A música continuava a sair pelas janelas escancaradas. Eu e a H. protestavamos do exagerado volume do som.
Ninguém nos dava ouvidos. Felizmente! Porque foi assim que dei com um C.D. que me tinha escapado.
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12/06/09
Dois poemas de um livro a sair em breve ...

MUSA
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1.
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Vem, ó Mouça, vem logo com teu charme,~
traz inteiro o teu nome e teu segredo:
eu preciso de ti, vem encontrar-me
que te direi de cor o "Amor e medo".
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Nem o amor se disfarça em pesadelo
nem o medo remói o sentimento,
o sinal da baliza a inscrevê-lo
num beijo, noutro beijo, noutro intento,
nisto que a vida pôs nesta alegria,
nesta canção de amor no fim do dia.
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2.
Nem é preciso vir, manda o teu nome
e com ele virão a tua imagem,
a vida, o amor e o tempo que se some
na busca do melhor como linguagem.
Mas é preciso ir, inominado
e simples como o acaso me permite:
buscando sempre esse teu lado alado
que se oculta sem tempo nem limite.
Aí teu corpo é mais que corpo - a essência
do melhor, do mais belo, do mais puro,
da vida desdobrada e sem carência
navegando em si mesma no futuro.
Gilberto Mendonça Teles In " Linear G." (No prelo)
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Nem é preciso vir, manda o teu nome
e com ele virão a tua imagem,
a vida, o amor e o tempo que se some
na busca do melhor como linguagem.
Mas é preciso ir, inominado
e simples como o acaso me permite:
buscando sempre esse teu lado alado
que se oculta sem tempo nem limite.
Aí teu corpo é mais que corpo - a essência
do melhor, do mais belo, do mais puro,
da vida desdobrada e sem carência
navegando em si mesma no futuro.
Gilberto Mendonça Teles In " Linear G." (No prelo)
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10/06/09
"meu mundo é do outro lado"

"marginal"
não sou poeta de dentro
vivo na periferia
onde aprendo ao relento
os sinais da poesia
sem outro mestre ou sebenta
outros meios auxiliares
que a alma nua e atenta
às evidências singulares
não vou às festas galantes
onde se bebe do fino
com papagaios falantes
num linguajar de cretino
(mas de cretino laureado
com imarcescíveis lauréis)
meu mundo é do outro lado
entre plebeus menestréis
marginal mas livre e limpo
de certas quedas na lama
com que se sobe ao olimpo
da torpe festa da fama
Cláudio Lima In "Itinerarium III", Opera Omnia Ed., Guimarães, 2006, p 40.
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oiço-te a respiração; é leve como a
de um pássaro em sono descuidado
os olhos, fechados, guardam a luz
perene, intensa, com que acendes
as auroras do mundo
o peito, num arfar ritmado de serenidade,
é o escrínio inviolado dos meus afectos
vigilantes
o umbigo assinala
um viveiro de pérolas cativas
a noite é longa na alvura do linho
onde repousas
nada é urgente ou repetido,
nenhum relógio tange os ponteiros agressivos
do dever
olho-te em silêncio e sou feliz
Cláudio Lima In " Maçã pra Dois", Ed. Tartaruga, Chaves, 2001, p 14.
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de um pássaro em sono descuidado
os olhos, fechados, guardam a luz
perene, intensa, com que acendes
as auroras do mundo
o peito, num arfar ritmado de serenidade,
é o escrínio inviolado dos meus afectos
vigilantes
o umbigo assinala
um viveiro de pérolas cativas
a noite é longa na alvura do linho
onde repousas
nada é urgente ou repetido,
nenhum relógio tange os ponteiros agressivos
do dever
olho-te em silêncio e sou feliz
Cláudio Lima In " Maçã pra Dois", Ed. Tartaruga, Chaves, 2001, p 14.
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05/06/09
Foto de autoria do polaco Oiko Petersen. Este trabalho pertenceao ciclo "Downtown Collection".
O AUTOR CONSTRÓI UM MODELO DO UNIVERSO QUE
OBEDECE APENAS À PRESENÇA VOLÁTIL DA AMADA
não há muito mais a fazer sobre o chão depois de se ter olhado
o mar cheirado a terra assistido ao verão incorrer
feroz no lugar das têmporas e ter
apontado decifrado a sujidade derramada sobre o planeta
sob a mudez das flores
porquanto eu admito haver ainda tanto a fazer e a desfazer
no mundo
rodar um complicado jogo de esferas mapear o
insondável lugar do amor
democratizar o perfume das populosas pétalas do gerânio
e da papoila vermelha tão próximas pétalas de um rosto
de natureza mais que babilónica
regresso sempre ao modelo geocêntrico do universo
centrado na amada
tudo gira em volta desse rosto lírio entre os cardos
esqueço a coperniciana construção do mundo amiúde imundo
muitas vezes hei-de voltar à mulher
como as ondas voltam num rigor de espuma aos versos de ruy belo
e desenho na aliterada elegância da paronomásia
o arquétipo da letra - minha ortografia copiada dos
extractos mensais do céu
que é o mesmo que dizer: resumi sempre os mistérios cósmicos
à deslumbrante assiduidade dessa face
anterior à graduação musical pitagórica pouco coeva destes pássaros
que crescem alheios a bach na folhagem e caem para o céu
contrários insurgentes sublevados às propostas de isaac newton
a quem começaram primeiro por obedecer as maçãs
e agora todo o universo se convencionou
julgo dizer nestes versos que nunca amei tão alto nesta cidade
que nunca os antigos pensadores da ásia ousaram de tanta liberdade
moral e estética que ninguém foi tão silencioso e inútil
frente ao mar do estoril onde esta tarde ateei dez cigarros dez
fortíssimos por causa das coisas
que nunca abri tanto o tórax que nem nunca os velhos pintores
mongóis do século dezasseis
saberiam copiar tão bem o entono de amamte amplo
frente ao mar de um mês frio de um ano bissexto
a balbuciar: amo-te todo o ano e neste fevereiro
ainda mais um dia
esperando nas palmas do século na miséria estíptica do país
o acelerar do degelo dos pólos para que o mar lave e leve de vez
esta terra que sempre publicitou a sua vocação para o mar
não há nada a fazer neste mundo a não ser o gesto de
circunscrever a amada entre as demais mulheres
pensar determinar métodos ficar em casa a escrever princípios
de exclusão e equivalência
tratados enigmáticos
que definam e representem num rigor alcoólico
um sistema livre de tudo o que não obedeça ao aferro
da amada
Miguel-Manso In "Quando Escreve Descalça-se", Ed. Trama Livª,
Lisboa, 2008, pp 16-17.
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03/06/09
PRÉMIO CAMÕES 2009

O júri do Prémio Camões 2009 decidiu atribuir o galardão ao poeta cabo-verdiano
Arménio Adroaldo Vieira e Silva.
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"Canto Final ou Agonia duma Noite Infecunda"
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Como a flor cortada rente e desfolhada
ou os olhos vazados da criança
e o seu fio de pranto ténue e impotente
assim a noite caminha com os astros todos em vertigem
até que se atinge o ponto da mudez
a pesada mó triturando a sílaba
a garganta com as cordas dilaceradas
e uma lêmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida
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Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro
tanto assim que a flor desfeita
não embala o coração do poeta
oh não
porque a flor defunta
se voa
não sobre nunca
e só dura
o espaço breve duma nota
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Assim o canto se detém imóvel
como se da flauta
falhando súbito
na boca do poeta
ficasse o hiato
ou a saliva
de um tempo devassado por insectos cor de cinza
.
A voz suspensa e negada
cede a vez à letra amorfa
inscrita no silêncio
com seu peso
de chumbo e olvido
acaba o poema
e um ponto final selando tudo.
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Arménio Vieira In "Vozes Poéticas da Lusofonia", Ed. Câmara
Mun. de Sintra, 1999.
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"Cantiga do Batelão"
Se me visses morrer
os milhões de vezes que nasci
Se me visses chorar
os milhões de vezes que te riste...
Se me visses gritar
os milhões de vezes que me calei...
Se me visses cantar
os milhões de vezes que morri
e sangrei...
Digo-te irmão europeu
havias de nascer
havias de chorar
havias de cantar
havias de gritar
E havias de sofrer
a sangrar vivo
milhões de mortes como Eu !!!
José Craveirinha In "Xigubo", Edições 70,
Lisboa, 1980, p 36.
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31/05/09
" Autogénese"
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Nascitura estava
sem faca nos dentes
cómoda e impura
de não ter vontade
de bater nas gentes.
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Nasce-se em setúbal
nasce-se em pequim
eu sou dos açores
(relativamente
naquilo que tenho
de basalto e flores)
mas não é assim:
a gente só nasce
quando somos nós
que temos as dores;
.
pragas e castigos
foram-me gerando
por trás dos postigos
e um fórceps de raiva
me arrancou toda
em sangue de mim.
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Nascitura estava
sorria e jantava
e um beijo me deste
tu Pedro ou Silvestre
turvo namorado
do verão ou de outono
hibernal afecto
casca azul do sono
sem unhas do feto.
.
Eu nasci das balas
eu cresci das setas
que em prendas de sala
me foram jogando
os mulheres poetas
eu nasci dos seios
dores que me cresceram
pomos do ciúme
dos que os não morderam;
.
nasci de me verem
sempre de soslaio
de eu dizer em junho
e eles em maio
de ser como eles
às vezes por fora
mas nunca por dentro
perfil de uma estátua
que não sou de frente.
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Nascitura estava
e mais que imperfeita
de ser sorte ou dado
que qualquer mão deita.
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Eu nasci de haver
os bairros da lata
do dedo que escapa
dos sapatos rotos
da fome que mata
o que quer nascer
e que o sábio guarda
em frascos de abortos;
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eu nasci de ver
cheirar e ouvir
dum odor a mortos
(judeus enlatados
para caberem mais
mas desinfectados)
pelas chaminés
nazis a sair
de te ver passar
de me despedir
de teus olhos tristes
como se existisses.
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Nascitura estava
tom de rosa pulcra
eu me declinava
vésper em latim:
impura de todos
gostarem de mim.
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Natália Correia In "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias - Vol I",
Projornal S.A., Lisboa, 1993, 319-321.
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29/05/09
desarrumo essa estrela que estala nos teus olhos como alma que se
assopra ao sabor da substância das águas que não sendo lágrimas são a
cal suspensa dos lábios. que sendo casa são delírios que o vento arrasa.
que não sendo corpo é a tua asa sobre um relâmpago que é a nossa chegada.
íngreme o destino do instinto das tuas pupilas, onde me desenhas um
sinal. que sendo recente é antigo. próximo da música longe das estátuas.
que te abrasam como palavras cegas... tão dolorosamento cegas.
e se é ao sul que os animais se estendem ao sol estendo-te a memória.
faz-me um nome. um só que seja. só uma sílaba. tu sabes que a morte é
um grito. sufocado e laço. nó que te desato. para que me sejas o
assombroso movimento de um bicho de seda. distância lenta na tua
pele. sempre adiante.
sempre pálpebra delicada... macio dedilhar onde te cuido a favor do
tempo... taça de espuma selvagem onde te declaro mais puro.
e se disser que te amo? como ilha convulsiva?
e se disser que me és MAIOR na orla das marés e que me invades como um
osso fino... que dirás amanhã... quando o dia te fizer carta ou
pássaro?
Isabel Mendes Ferreira In "Os dias do Amor - Um poema para cada dia
do ano" (Antologia organizada por Inês Ramos e prefaciada por Henrique
Manuel Bento Fialho), Ministério dos Livros Editores, Parede, 2009, p 300.
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26/05/09
Pátio interior do Plalácio Ducal de Urbino. obra do arquitecto dálmata Luciano Laurano. Este palácio considerado um dos mais belos de todo o Quattrocento italiano, teria influência directa da obra de Bramante, que nele passou a Juventude.J. Pijoan, História da Arte - Vol. 5, Publicações Alfa, Lisboa, p 121.
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Primeira Carta
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Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa. Há-de então este afastamento, para o qual a minha dor, por mais subtil que seja, não encontrou nome bastante lamentável, privar-me para sempre de me debruçar nuns olhos onde já vi tanto amor, que despertavam em mim emoções que me enchiam de alegria, que bastavam para meu contentamento e valiam, enfim, tudo quanto há? Ai!, os meus estão privados da única luz que os alumiava, só lágrimas lhes restam, e chorar é o único uso que faço deles, desde que soube que te havias decidido a um afastamento tão insuportável que me matará em pouco tempo.
Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta. Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por toda a parte e, em troca de tanto desassossego, só me trazem sinais da minha má fortuna, que cruelmente não me consente qualquer engano e me diz a todo o momento: Cessa, pobre Mariana, cessa de te mortificar em vão, e de procurar um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebatamento e nem sequer sabe agradecer-to. Mas não, não me resolvo a pensar tão mal de ti e estou por de mais empenhada em te justificar. Nem quero imaginar que me esqueceste. Não sou já bem desgraçada sem o tormento de falsas suspeitas? E porque hei-de eu procurar esquecer todo o desvelo com que me manifestavas o teu amor? Tão deslumbrada fiquei com os teus cuidados, que bem ingrata seria se não te quisesse com desvario igual ao que me levava a minha paixão, quando me davas provas da tua.
Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza sirva agora só para me torturar o coração? Ai!, a tua última carta reduziu-me a um estado bem singular: bateu de tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. Fiquei tão prostrada de comoção que durante mais de três horas todos os meus sentidos me abandonaram: recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a não posso guardar. Enfim, voltei, contra vontade, a ter a luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, além do mais, era um alívio não voltar a ser posta em frente do meu coração despedaçado pela dor da tua ausência.
Depois deste acidente tenho padecido muito, mas como deixarei de sofrer enquanto não te vir? Supoorto contudo o meu mal sem me queixar, porque me vem de ti. É então isto que me dás em troca de tanto amor? Mas não importa, estou resolvida a adorar-te toda a vida e a não ver seja quem for, e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais ninguém. Poderias contentar-te com uma paixão menos ardente que a minha? Talvez encontrasses mais beleza (houve um tempo, no entanto, em que me diizias que eu era muito bonita), mas não encontrarias nunca tanto amor, e tudo o mais não é nada.
Não enchas as tuas cartas de coisas inúteis, nem me voltes a pedir que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e não esqueço também a esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo. Ai!, porque não queres passar a vida inteira ao pé de mim? Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumpriumento da tua promessa: iria eu, sem guardar nenhuma conveniência, procurar-te, e seguir-te, e amar-te em toda a parte. Não me atrevo a acreditar que isso possa acontecer; tal esperança por certo me daria algum consolo, mas não quero alimentá-la, pois só à minha dor me devo entregar. Porém, quando meu irmão me permiitiu que te escrevesse, confesso que surpreendi em mim um alvoroço de alegria, que suspenseu por momentos o desespero em que vivo. Suplico-te que me digas porque teimaste em me desvairar assim, sabendo, como sabias, que terminavas por me abandonar? Porque te empenhaste tanto em me desgraçar? Porque não me deixaste em sossego no meu convento? Em que é que te ofendi? Mas perdoa-me; não te culpo de nada. Não me encontro em estado de pensar em vingança, e acuso somente o rigor do meu destino. Ao separar-nos, julgo que nos fez o mais temível dos males, embora não possa afastar o meu coração do teu; o amor, bem mais forte, iniu-os para toda a vida. E tu, se tens algum interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me.
Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.
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"Cartas Portuguesas" atribuídas a Mariana Alcoforado, edição bilingue,
prefácio e tradução de Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Lisboa,
1998, (Primeira Carta) pp 16- 19.
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22/05/09
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" POEMA DE NAVIDAD "
En navidad no te olvides de limpiarte las legañas
y de indagar por dentro de los ojos el pulso del mundo.
Limpia las caños de las escopetas,
para que después no pierdas tiempo al disparar.
Respira. Hazte una limpieza de cútis, quítate
todas las espinillas y prepárate para la cena.
Dale una sopa a los pobres, tira piedras a las latas,
acaríciale el pelo al perro, aunque tenga pulgas.
En navidad hasta las pulgas son bienvenidas. Respira.
En navidad dale cuerda a los muñecos, programa las cuerdas
vocales para un playback hospitalario y carcelario.
Reparte canapés entre los vagabundos, los forajidos,
los dictadores acosados. Prepárate para un (a)balanceo.
Respira. En navidad alégrate con tu cuenta a cero,
con el patrón con la bolsa azul al hombro, con los espantajos
cotidianos, con las huelgas de la huelga,
con la mensulidad vestubular en una patada de misericordia.
En navidad sic. Porque en navidad toodos los demonios son buenos.
Por lo menos un dia al año: olvídate del mundo
que se extiende más allá de las fronteras.
Quédate en un viaje detenido, quédate:
detenido - como un sonido que se balancea dentro del cuerpo,
como una piedra que sangra en la piel de un cuerpo callado.
Que ese sea el dia de navidad. Aunque estes obligado
a pagar el peaje de un suicida más que no cree
en la expiación universal de los pecados particulares,
en navidad dame un abrazo y no digas que fuiste de aquí.
Henrique Manuel Bento Fialho In " BALUERNA - Cuadernos del Viajero
(nº 29)", trad. Antonio Sáez Delgado, Estación de Autobuses, Cáceres, 2008.
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18/05/09
"Atlântico"
Sempre que atravesso o oceano
suspeito que algo se abre na distância
quando cruzo o crepúsculo sem pássaros
é como se começasse a viver de novo
mas uma vida outra/ desprendida
de um passado até agora inexplicável
clemências e longínquas efusões
assomam implacáveis na massa de nuvens
talvez para medir o meu esboço de infinito
e há pobres abalos de uma verdade a toda a prova
um rufar de tambores que perturbaram o descanso
marcas de esperanças ou de tédio
por isso sempre que atravesso o oceano
os ouvidos isolam-me/ a memória zumbe
as hospedeiras oferecem o seu sorriso estudado
e o piloto encarrega-se da minha alma
é como se morresse por instantes
mas uma morte nova/ em equilíbrio
Mario Benedetti In "O Mar na Poesia da América Latina",
Assírio & Alvim, Lisboa, 1999, p 385 (Organização de Isabel
Aguiar Barcelos e Tradução de José Agostinho Baptista).
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17/05/09
"Alone" fotografia de Ivan Bajic (Hungria, 2009)."Luto"
Os amigos são feridas antigas que crescem
connosco. Feridas que por vezes cicatrizam,
deixando-nos inteiramente contra o vento.
Aconchegados a uma arrastada melancolia,
ingerimos pequenas doses de substâncias letais,
coisas que nos dão cabo do canastro, por assim dizer.
Eis, em suma, o desalento com a vida
que entretanto nos assola, presos
a uma espécie de amargura e de desejo.
Porém, o instinto de sobrevivência
é a ferramenta mais espalhada no mundo.
Toda a gente aprende a utilizar esse recurso.
E não falo do modo como reconhecemos as aves,
as plantas. Ou de como construímos abrigos
nocturnos nas copas das árvores.
Falo simplesmente de uma grande habilidade
para limpar o local do crime:
admitimos sempre que melhores dias virão;
faz parte da nossa essência.
Pois bem, cortámos o alarme agora mesmo.
De quanto tempo precisamos, afinal?
Vítor Nogueira In "Comércio Tradicional", Averno,
Lisboa, 2008, p 32.
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15/05/09
PRÉMIO NACIONAL POETA RUY BELO 2009
S. João da Cruz traduzido por...
ESPOSA
Aonde te escondeste,
Amado, que me deixaste com tal gemido?
Como veado correste,
Tendo-me ferido;
Saí atrás de ti clamando, mas já tu eras ido.
Pastores, vós que ides
Além pelas malhadas do outeiro,
Se por ventura virdes
Aquele que mais quero,
Dizei-lhe que peno, morro e espero.
Buscando meus amores,
Irei por esses montes e ribeiras,
Nem colherei flores,
Nem temerei feras,
Antes passarei fortes e fronteiras.
PERGUNTA ÀS CRIATURAS
Oh bosques e matas de tanta espessura,
Tudo plantado pela mão do meu Amado!
Oh prado de verdura,
De flores esmaltado,
Dizei-me se por vós ele tem passado!
RESPOSTA DAS CRIATURAS
Mil graças derramando,
Passou por estes soutos com ligeireza,
E para eles olhando,
Com sua figura e destreza,
Vestidos os deixou de beleza.
ESPOSA
Ai quem me poderá curar?
Vem, entrega-te em acto puro e verdadeiro,
Não insistas em enviar
Nenhum outro mensageiro,
Que não saiba o que quero primeiro.
Pois todos os que me vêm visitar,
De ti mil graças vão contando,
E todos acabam por ulcerar,
Pelo que vão balbuciando,
O que em mim se vai finando.
Mas, como podes insistir,
Oh vida, não vivendo onde vives?
Levam-te daqui a partir,
Os dardos que recebes,
Do que do Amado concebes.
Porquê, pois, teres golpeado
Este coração, não o curando,
Já que mo tinhas roubado?
E porquê ires assim deixando,
Todo o saque que vais tirando?
Que meus pesares, por ti, apagados sejam,
Já que nenhum outro os pode desfazer,
E que meus olhos, por fim, te vejam,
Pois és a luz que os faz ver,
E só por ti os quero ter.
Revela-me a tua presença,
Mata-me com essa aparição e formosura;
Olha que toda a doença
De amor, apenas se cura
Com a presença e a figura.
Oh fonte de cristal tão brilhante,
Se nesses teus traços prateados,
Formasses num mero instante,
Esses olhos almejados
Que em mim tenho desenhados!
Afasta-os, Amado,
Que meu voo se inicia!
ESPOSO
Volta, pomba, para meu lado,
Que o cervo magoado
Pelo outeiro aparece
Ao ar do teu voo, e aí reverdece.
ESPOSA
Amado meu, as montanhas,
Os vales solitários e nemorosos,
As ilhas estranhas,
Os rios rumorosos,
O silvo dos ventos amorosos.
A noite sossegada
Aquando do surgir da aurora,
A música silenciada,
A solidão sonora,
A ceia que alegra e enamora.
.........................
Oh ninfas da Judeia,
Enquanto que nas flores e roseirais
O âmbar balanceia,
Ficai onde morais,
Sem quererdes tocar nossos umbrais!
Esconde-te, Amado,
E olha com tua face as montanhas,
Mas nada querendo enunciado:
Observa também as companhas
Da que vai por ilhas estranhas.
............................
Desfrutemo-nos Amado,
E vejamos na tua formosura
O monte e o colado,
Donde brota a água pura;
Entremos mais adentro na espessura.
E logo nas subidas
Em cavernas de pedras entraremos,
Que estão bem escondidas,
Mas ali iremos,
E o mosto das romãs provaremos.
Ali me mostrarias
Aquilo que minha alma pretendia,
E depois me darias
O que me deras noutro dia,
Tu, vida, que eu tanto requeria.
O aspirar do ar,
Do rouxinol a doce cantilena,
O bosque e seu embelezar
Na noite serena,
Com chama que consome e não dá pena.
Que ninguém o olhava,
Aminadab tão-pouco aparecia,
E o cerco sossegava,
E a cavalaria
Ao ver as águas descia.
S. João da Cruz In "Poemas de S. João da Cruz",
Coisas de Ler Ed., 2002, pp 17-35. (Edição bilingue
com tradução de Victor Oliveira Mateus).
Nota - Traduzir é sempre uma tarefa bastante complexa, sobretudo
quando estamos frente a grandes textos de poesia. No caso presente
tenho consciência de ter feito um trabalho bastante discutível, pois
estava frente a um autor cujas obras em prosa dominava (e domino)
razoavelmente. Ainda hoje considero "A subida ao Carmelo" o grande livro
de João da Cruz, por isso sacrifiquei aspectos formais desta poesia à coerência
interna de um pensamento. Nestas questões muitas são as opções e todas elas legítimas!...
Aqui usei, como base de trabalho, a edição do Padre Silvério de Santa
Teresa, C.D. (obras de San Juan de la Cruz, Burgos, 1929-31).
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Aonde te escondeste,
Amado, que me deixaste com tal gemido?
Como veado correste,
Tendo-me ferido;
Saí atrás de ti clamando, mas já tu eras ido.
Pastores, vós que ides
Além pelas malhadas do outeiro,
Se por ventura virdes
Aquele que mais quero,
Dizei-lhe que peno, morro e espero.
Buscando meus amores,
Irei por esses montes e ribeiras,
Nem colherei flores,
Nem temerei feras,
Antes passarei fortes e fronteiras.
PERGUNTA ÀS CRIATURAS
Oh bosques e matas de tanta espessura,
Tudo plantado pela mão do meu Amado!
Oh prado de verdura,
De flores esmaltado,
Dizei-me se por vós ele tem passado!
RESPOSTA DAS CRIATURAS
Mil graças derramando,
Passou por estes soutos com ligeireza,
E para eles olhando,
Com sua figura e destreza,
Vestidos os deixou de beleza.
ESPOSA
Ai quem me poderá curar?
Vem, entrega-te em acto puro e verdadeiro,
Não insistas em enviar
Nenhum outro mensageiro,
Que não saiba o que quero primeiro.
Pois todos os que me vêm visitar,
De ti mil graças vão contando,
E todos acabam por ulcerar,
Pelo que vão balbuciando,
O que em mim se vai finando.
Mas, como podes insistir,
Oh vida, não vivendo onde vives?
Levam-te daqui a partir,
Os dardos que recebes,
Do que do Amado concebes.
Porquê, pois, teres golpeado
Este coração, não o curando,
Já que mo tinhas roubado?
E porquê ires assim deixando,
Todo o saque que vais tirando?
Que meus pesares, por ti, apagados sejam,
Já que nenhum outro os pode desfazer,
E que meus olhos, por fim, te vejam,
Pois és a luz que os faz ver,
E só por ti os quero ter.
Revela-me a tua presença,
Mata-me com essa aparição e formosura;
Olha que toda a doença
De amor, apenas se cura
Com a presença e a figura.
Oh fonte de cristal tão brilhante,
Se nesses teus traços prateados,
Formasses num mero instante,
Esses olhos almejados
Que em mim tenho desenhados!
Afasta-os, Amado,
Que meu voo se inicia!
ESPOSO
Volta, pomba, para meu lado,
Que o cervo magoado
Pelo outeiro aparece
Ao ar do teu voo, e aí reverdece.
ESPOSA
Amado meu, as montanhas,
Os vales solitários e nemorosos,
As ilhas estranhas,
Os rios rumorosos,
O silvo dos ventos amorosos.
A noite sossegada
Aquando do surgir da aurora,
A música silenciada,
A solidão sonora,
A ceia que alegra e enamora.
.........................
Oh ninfas da Judeia,
Enquanto que nas flores e roseirais
O âmbar balanceia,
Ficai onde morais,
Sem quererdes tocar nossos umbrais!
Esconde-te, Amado,
E olha com tua face as montanhas,
Mas nada querendo enunciado:
Observa também as companhas
Da que vai por ilhas estranhas.
............................
Desfrutemo-nos Amado,
E vejamos na tua formosura
O monte e o colado,
Donde brota a água pura;
Entremos mais adentro na espessura.
E logo nas subidas
Em cavernas de pedras entraremos,
Que estão bem escondidas,
Mas ali iremos,
E o mosto das romãs provaremos.
Ali me mostrarias
Aquilo que minha alma pretendia,
E depois me darias
O que me deras noutro dia,
Tu, vida, que eu tanto requeria.
O aspirar do ar,
Do rouxinol a doce cantilena,
O bosque e seu embelezar
Na noite serena,
Com chama que consome e não dá pena.
Que ninguém o olhava,
Aminadab tão-pouco aparecia,
E o cerco sossegava,
E a cavalaria
Ao ver as águas descia.
S. João da Cruz In "Poemas de S. João da Cruz",
Coisas de Ler Ed., 2002, pp 17-35. (Edição bilingue
com tradução de Victor Oliveira Mateus).
Nota - Traduzir é sempre uma tarefa bastante complexa, sobretudo
quando estamos frente a grandes textos de poesia. No caso presente
tenho consciência de ter feito um trabalho bastante discutível, pois
estava frente a um autor cujas obras em prosa dominava (e domino)
razoavelmente. Ainda hoje considero "A subida ao Carmelo" o grande livro
de João da Cruz, por isso sacrifiquei aspectos formais desta poesia à coerência
interna de um pensamento. Nestas questões muitas são as opções e todas elas legítimas!...
Aqui usei, como base de trabalho, a edição do Padre Silvério de Santa
Teresa, C.D. (obras de San Juan de la Cruz, Burgos, 1929-31).
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14/05/09

"Canção do Exílio"
Galápos e Polinésias,
apesar destes trajes
debruados de pudor e pó
e das cargas e trastes
de cárceres cidades,
apesar desses mares
a esbravejarem entre nós
sempre crespos e cruéis,
vos habito assídua
oh chãos céus de paraíso,
meus instintos a pastarem
entre a pureza das pedras
e a solicitude do capim.
A pressa inútil relegada,
eu irmã de tartarugas e lesmas
fruindo a madrugada sem fim.
Astrid Cabral In "Poesia Viva em revista",
Rio de Janeiro, 2008, p 109.
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"Revelação do Vento"
Quietas quedam-se árvores.
A flor, o singular alarde
da discreta vida em surdina.
No entanto, se ágil na tarde
o ar acorda e em pranto sopra
as árvores se põem loquazes:
gesticulam abraçam dançam
sussurram cochicham cantam.
É quando súbito enxergamos
a prisão de troncos e ramos
e a longa noite das raízes.
Astrid Cabral In "Poesia viva em revista",
Rio de Janeiro, 2008, p 11o.
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Quietas quedam-se árvores.
A flor, o singular alarde
da discreta vida em surdina.
No entanto, se ágil na tarde
o ar acorda e em pranto sopra
as árvores se põem loquazes:
gesticulam abraçam dançam
sussurram cochicham cantam.
É quando súbito enxergamos
a prisão de troncos e ramos
e a longa noite das raízes.
Astrid Cabral In "Poesia viva em revista",
Rio de Janeiro, 2008, p 11o.
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13/05/09
A poesia e a questão do fingimento.
" Paul Veyne, o grande historiador da cultura, assevera que, desde Petrarca (1304-1374), todos nós, leitores de poesia, nos habituamos a divisar, no recesso de toda obra poética, a voz particular de um ego que expõe publicamente suas dores e alegrias pessoais, historicamente datadas e situadas. A partir daí, ao contrário do que ocorria na Antiguidade, quando era aceita como uma forma de encenação, a poesia lírica passa a ser encarada como confidência íntima. Camões, nosso petrarquista exemplar, colabora para endossar e reforçar o hábito, alertando-nos: "Sabei, pois, que segundo o amor tiverdes/ Tereis o entendimento dos meus versos". Desde então, o primado da voz particular e da subjectividade, que irmana sujeito-poeta e sujeito-leitor, tem sido encarado como verdade inquestionável, uma segunda natureza, indissociável do lirismo confessional. Poesia passa por ser isso mesmo, entrelaçamento de subjectividades, sensíveis e permeáveis, propiciado pela franqueza com que o poeta nos expõe sua subjectividade modelar. Tal franqueza faculta a todos, dos primeiros leitores de Petrarca aos leitores dos poetas nossos contemporâneos, o acesso a esse entrelaçamento, que nos mantém na firme convicção de que estamos fortemente ancorados na realidade (a mesma dos poetas, pois não?), quando talvez estejamos apenas a alimentar a fantasia de que assim seja - ludibriados ou pelo engenho e a arte dos poetas, ou pela força da inércia.
Hoje sabemos (a malícia pós-moderna nos põe a salvo dessa ilusão, embora não nos torne imunes a outras) que nem em Petrarca, nem em Camões, nem em nenhum dos nossos grandes poetas, antigos e modernos, o ego que nos fala em seus versos "retrata" a subjectividade ou a vida privada do cidadão responsável por esses mesmo versos. Hoje preferimos falar em "eu lírico", para contrapô-lo à conjectura de um "eu empírico", e já não exigimos do poeta a franqueza ou a "sinceridade" que dele se esperava, desde os tempos de Petrarca.
(...) A linguagem humana não tem como "dizer" o mundo. Schopenhauer não hesita: "O mundo é a minha representação do mundo", e certa pós-modernidade nos convencerá de que tudo são relatos, tudo são discursos - ficções que variam ao infinito, supostamente no encalço de uma subjacente verdade singular (a verdade do eu ou a verdade do mundo), à qual não temos acessos. Ao proferir "eu", Petrarca, Camões, Hoelderlin - qualquer poeta - já não tem mais como "dizer", com "sinceridade" o que lhe vai pela vida íntima. O que daí provém será sempre simulação, representação figurada, encenação - tal como o fora, entre os antigos, e, ao que parece, nunca deixou de ser. Rimbaud admite: "Je est un autre", ciente de que isso vale para toodos os poetas - os que sabem, como Fernando Pessoa, e os que não sabem que o poeta "finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente".
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Carlos Felipe Moisés
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(Nota - Todas as discussões, francas e despojadas, são enriquecedoras. Não teria chegado a uma série de textos sem uma delas... )
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12/05/09

AVISO: A TROVA MEDIEVAL QUE SE SEGUE CONTÉM PALAVRAS VULGARMENTE
CHAMADAS DE "PALAVRÕES"!
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Elvira Lopez, muito mal sabeis
acautelar-vos com esse peão
que anda convosco e tem a pretensão
de dormir convosco e não entendeis.
Tenho medo que, se ele vos surpreender
algures sozinha e se vos foder,
esse engano nunca comprovareis.
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Ele sabe sempre onde vós jazeis
e vós não sabeis dele vos resguardar
porque abandonais em qualquer lugar
a vossa maleta (1) e quanto trazeis.
Dizei-me ora, Deus vos dê o perdão:
se, de noite, vos foder o peão
em que lugares o procurareis?
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Digo-vos, pois, o que esperar podeis
desse peão que vós trazeis assim,
convosco, por aqui e por ali:
Vós, um pouco, por certo, dormireis
e o peão, se vontade tiver
de foder, foder-vos-á, se quiser
e nunca o que é vosso retomareis.
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Porque vós direis: - Fodeu-me o peão!
E dirá ele: - Boa senhora, eu não!
E com que provas o acusareis?
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Joan Garcia de Guilhade In " Cantigas obscenas de escárnio
e maldizer" (Org. e Pref. de Orlando Neves), Editorial Notícias,
Lisboa, 2004, pp 52-53.
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.(1) A palavra "maeta" (maleta, em português contemporâneo) podia ser
usada para designar o sexo da mulher.
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Joan Garcia de Guilhade - parece provado que este trovador, durante algum tempo tido
como galego, nasceu em Guilhade, povoação do concelho de Barcelos. Viveu nos meados do
século XIII e frequentou as cortes portuguesa e castelhana. É dos mais fecundos e originais
poetas dos cancioneiros. Dele chegaram até nós 54 poemas.
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11/05/09
"Poema 12 do Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama"
O que difere deste e do outro verso
que pus num outro jarro e esqueci
é que este não caiu no jarro certo
- jarro chinês - e não regou o lis.
As rimas não caíram como consta
que do outro jarro caem as que não quis;
tentei, em vão, reproduzir a nota,
não sei se veio sol, se lá ou si.
Alguém andava sobre o meu cavalo,
andava sem vestido e sem viseira:
de tudo quanto vi, sei que não falo;
só falo parte, o espinho da roseira,
que, sendo espinho, fere e maravilha
um cravo ignoto, o verso de outra ilha.
Érico Nogueira In "O Livro de Scardanelli",
Ed. Realizações, São Paulo, 2008, p 47.
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"Poema 10 de Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama"
Orelhas minhas, que joguei na água,
aonde ides para me escutar,
a que salgado, plúmbeo recital
ides nadando assim, com a minha chaga?
Orelhas, auscultai a minha draga
e me dizei como é e como está;
aquela mancha negra, a rodear,
é ave que prediz alguma praga?
" È sempre o mesmo ritmo, seco ritmo,
embalado no mar, no mar molhado,
que não acaba nunca em algoritmo,
que não compassa o que é descompassado;
é som de draga arfante, e entupida,
que traga com o entulho a própria vida."
Érico Nogueira In "O Livro de Scardanelli",
Ed. Realizações, São Paulo, 2008, p 45.
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Orelhas minhas, que joguei na água,
aonde ides para me escutar,
a que salgado, plúmbeo recital
ides nadando assim, com a minha chaga?
Orelhas, auscultai a minha draga
e me dizei como é e como está;
aquela mancha negra, a rodear,
é ave que prediz alguma praga?
" È sempre o mesmo ritmo, seco ritmo,
embalado no mar, no mar molhado,
que não acaba nunca em algoritmo,
que não compassa o que é descompassado;
é som de draga arfante, e entupida,
que traga com o entulho a própria vida."
Érico Nogueira In "O Livro de Scardanelli",
Ed. Realizações, São Paulo, 2008, p 45.
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05/05/09
... gostava das minhas vozes a ecoar a uma só voz no silêncio...

"Reflexos"
Eu sabia das histórias dos jacintos que cresciam nos jardins da casa grande, que, à noite, enquanto eu dormia, velavam os meus sonhos. Porque, em cada madrugada, eles se abriam
para mim num sorriso.
Mas também sabia dos peixes multicores que, dentro do aquário, rejeitavam a sua prisão.
Debatiam-se, nadando violentamente contra o vidro para chamarem a minha atenção. Resolvi
libertá-los e deitei-os a nadar livremente dentro do poço grande.
Mas, um dia, um pássaro entrou violentamente pela janela e pousou veloz sobre os meus
ombros franzinos. Estava ferido e não tinha olhos de pássaro. Eu ainda o tratei mas ele nunca
mais voou. Um dia depois caiu repentinamente morto no chão da sala. Eu conhecia a palavra
morte, mas não sabia o significado da morte.
Sabia ainda que as palavras poderiam ter a cadência que eu lhes quisesse dar. Por isso,
gostava das minhas vozes a ecoar a uma só voz no silêncio das colinas, e ainda me lembro
da doçura das manhãs na aldeia, enquanto fazia desenhos de água nas pétalas dos lírios tão frágeis quanto eu.
Hoje, eu sei mais do que sabia nessa altura. Porém, apenas sinto os reflexos da morte dos jacintos, dos pássaros e dos peixes, que nesta manhã me assaltaram cruelmente, enquanto lá
fora os sonhos já não existem e a casa grande apenas resiste ao tempo...
Piedade Araújo Sol (Inédito).
Nota - agradeço à autora a autorização dada para publicar este texto neste meu blogue.
Para mais elementos consultar o blogue " olhares em tons de maresia "
(http://www.olharemtonsdemaresia.blogspot.com/)
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04/05/09
"Domingo"
Hoje é o dia dos senhores
e dos sóis em algumas línguas. Noutras
já foi ontem ou será depois, conforme
o cansaço divino sucedeu ou
não ao sétimo dia. Vária
gente irá aos templos ou ao parque
passear o cão. É dia de
visitar o lar de idosos ou de
abastecer a nossa arca
congeladora. Os pais solteiros levam
os filhos a comer pizza e outros
putativos progenitores recuperam
as horas de sono convivialmente
líquidas. O ar das ruas
é mais leve devido à pausa de
domingo. Ao menos hoje acontece
algo de bom em nome de Deus.
Inês Lourenço In " Logros Consentidos", & etc., 2005, p15.
.
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03/05/09
Cresço no íntimo de tua carne
como fruto túmido,
tombado de um paraíso esquecido.
Em volutas adenso-me
num mar selvagem:
centauro de múltiplas águas
a queimar os muros do teu sonho,
do teu inominado mistério.
Nesse resfolegar de patas e crinas,
desvario de lençóis e adagas,
nos ilimitamos nas sinfonias,
nos adágios tatuados em nossos pulsos.
Eis que do fundo da noite
emerges numa explosão
de ilimitados astros:
cometas a rasgarem tua glande ereta,
coice sobre o meu rosto em vivo êxtase...
Alexandre Bonafim In "Sob o silêncio do anjo",
Ribeirão Ed., Franca-S.P., 2009, p 40.
01/05/09

"burocracia do fim de uma longa amizade"
serve para lhe dizer, senhor
a. n., que depois do que
me fez, levei ao lixo cada objecto
que conservava a sua memória e que
eduquei a cabeça a pensar só em
excrementos sempre que por inércia
me quiser aborrecer com lembranças
do que vivi perto de si. que tolice, a
cabeça prega-nos truques, mas com o
presente estará sanado o vício e o
senhor, de vício, passará a ser um
cidadão livre da minha admiração e
cuidado. vai escrito aos dias vinte
de abril de dois mil e sete e vigora
em território nacional e comunitário
por aplicação directa e no resto do
mundo por força dos acordos tácitos
de quem tem vergonha na cara. no mais,
saiba que este poema o obriga a não
chegar à minha pessoa a menos de
vinte mil metros e a não me dirigir
palavra. com vocação para toda a
vida, este poema não é nada comparado
com a traição de que foi capaz. já penso
em excrementos quando escrevo
estes últimos versos e o meu coração
fecha-se naturalmente a toda e qualquer
ternura da sua amizade
valter hugo mãe In "folclore íntimo", Cosmorama Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2008, p
..
27/04/09
"Salomé após o crime"
Quantas vezes te vi
e me surprendi porque te olhava?
Sentindo a tentação de te espiar
e o desejo de amar
o que não tinha
Como saber
pelos sonhos mais nus
que me assaltavam
que eu não era paisagem
para ti?
Dizem luxúria só
onde houve amor
e um crime tão enorme de luxúria
mas eu quis-te indefeso
como festa
os teus lábios a festa para mim
Quantas vezes me vi
pensando no meu crime
e na história dos homens
a julgar-me!
Mas o que eu li
na bandeja do crime
foram os olhos com que tu
me olhavas
(finalmente eu paisagem)
e a luxúria
que há sempre
no amor
Ana Luísa Amaral In "Às Vezes o Paraíso", Quetzal Editores,
Lisboa, 1998, pp 100-101.
.
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25/04/09
"Quem sou eu? Qual é o meu nome? Quais são os meus títulos de nobreza? Nada, nada. Sou um servo e nada mais. Nada me pertence, nem sequer a vida. Deus é dono de mim, dono absoluto, para a vida e para a morte. Pais, parentes, senhores do mundo: o meu único e verdadeiro dono é Deus.(...) Diante dele, permaneço em sentido, imóvel, como o mais pequeno soldado perfilado perante o seu superior, disposto a tudo, inclusivamente a lançar-me ao fogo. Este deve ser o meu ofício durante toda a minha vida, porque nasci assim; sou um servo. Devo considerar-me sempre nesta condição de servo; não tenho um único momento em que possa ocupar-me de mim mesmo, servir o meu capricho, a minha vaidade, etc. Se o fizer, sou um ladrão, porque roubo um tempo que não é meu, sou um servo infiel, indigno de recompensa. Ai de mim, é o que tenho feito, que confusão, que vergonha.Tanta soberba e presunção, pois nem sequer sei ser servo. (...) Por isso, quando me sirvo das criaturas para meu prazer, transtorno a ordem da Providência, quebro a admirável harmonia do universo..."
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João XXIII In "Diário da Alma", Paulus Ed., Lisboa, 2000, pp 110-112.
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23/04/09

"O Futuro"
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
José Carlos Ary dos Santos In "Obra Poética",
Editorial Avante, Lisboa, 1994, p 389.
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22/04/09
as palavras... ainda

o meu agradecimento aos blogues que, nas últimas semanas, publicaram poemas meus,
de livros antigos ou recentes, e dos quais destaco apenas os que vi: "ao longe os barcos de flores", "Logros consentidos", "Maquina Royal", "piano", " Ortografia do olhar", "o pó da escrita", "sulmoura", "Dois Rios", "Magazine"...
Percebi o apoio e... não sei como se agradecem coisas destas! Talvez deixando aqui a foto
da Eugénia Bettencourt... Todos conhecemos esta voz, que, durante anos, na Antena 2, nos
"Sons Férteis", disse textos de muitos e muitos poetas. Talvez possa agradecer-vos com a
foto de uma actriz... aqui dizendo poemas meus, mas que gostariamos de rever (ou reouvir?)
numa reposição do "Sons Férteis"...
20/04/09

"Buscador"
Dónde vas buscando rosas
si el rosal lo tengo yo?
Cada dia y cada noche,
dónde vas buscando amor?
Buscador de las cien puertas
en la búsqueda sin fin.
Cuando las cien puertas abras
Habrá otras cien por abrir.
Buscador,
lo que tú buscas lo tengo
dentro de mi corazón.
Buscador, convéncete:
yo tengo lo que tú buscas
y no me quieres tener.
Tu sed, tus ojos, tus manos
nunca dejan de buscar.
Buscador de las cien rosas
separadas del rosal.
Buscador de las cien puertas
y las cien olas del mar.
Cuando encontres lo que buscas
será espuma y se te irá.
Buscador,
lo que tú buscas lo tengo
dentro de mi corazón.
Buscador, convéncete:
yo tengo lo que tú buscas
y no me quieres tener.
António Gala
Nota - este poema foi tirado do CD "Clara Montes canta a Antonio Gala".
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18/04/09
Icelake (Alberta) foto do canadiano Darwin Wiggett.
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Quand je ne pense pas à toi, je pense à toi. Quand je
parle d'autre chose, je parle de toi. Quand je marche
au hasard, j'avance vers toi.
Je quitte les livres où tu n'entres pas. Je jette les poèmes
qui ne trouvent pas tes lèvres. J'efface les tableaux qui
n' attirent pas tes yeux. J' éteins les chansons qui
n'éveillent pas ta voix.
André Velter In "L'amour extrême et autres poèmes pour
Chantal Maudit", Éd. Gallimard, Paris, 2007, p120.
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16/04/09
FERNANDA DE CASTRO, um afectuoso olhar sobre o quotidiano...
"Haute Couture" foto, do ciclo "Rêves et Désirs", de autoria de Gilles de Beauchêne."O Saco de Retalhos"
Velho saco, onde estavas? No baú
das coisas mortas,
esquecidas como tu?
Guardado na gaveta
como as sedas, as cassas,
os ramos de violeta,
a poeira e as traças?
Velho saco, onde estavas? Pendurado
numa daquelas portas
que um dia se fecharam
sobre a infância, o passado,
e nunca mais se abriram?
Ou no sótão,
na trouxa dos farrapos,
misturado com os trapos?
Velho saco dos tempos esquecidos,
nos teus retalhos desbotados
reconheço os meus bibes,
as chitas e os percais dos meus vestidos.
Estes velhos riscados
foram saias, corpetes, aventais
de criadas que então eram meninas.
E estas cambraias, estas sedas finas,
usou-as minha mãe.
Ó velho saco, feito de retalhos,
rever-te fez-me bem.
Este linho desfeito, remendado,
foi lencol de noivado,
e quantas vezes te vi pôr na cama,
ó minha ama,
esta chita vermelha de ramagens.
Meu velho saco, meu livro de imagens,
rever-te fez-me bem.
Não sei, porém,
que travo amargo esta alegria tem,
que tristeza me fez, que nostalgia,
ver surgir na distância
a minha infância,
descosida, em farrapos,
e reencontrar a minha mocidade
remendada e puída
numa saca de trapos.
Ó saco, ó velho saco de farrapos,
já não sei, afinal,
se ver-te me fez bem ou me fez mal.
Fernanda de Castro In "70 Anos de Poesia", Fundação Eng. António de Almeida,
Agosto, 1989, págs. 126-127.
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11/04/09

um amante assim nunca houve, disse cleópatra.
quando o vi chegar como poderia supor o que
vos afirmarei?
cabisbaixo,
apoiado naquele bordão de forma imprecisa,
o andar errante,
os lábios trémulos, febris...
e os gestos eram de muito longe, como quem vem de
muito longe,
gestos de rei ultrajado, assim pensei.
e o olhar, ah aquele olhar líquido, fundo,
de cão perdido,
despindo a paisagem, o pomar e o vale e o meu
corpo em fogo,
refulgindo no ouro das vestes,
nas preciosas pedras, diamantes tantos, no
peito, nos dedos, revestindo os cabelos...
nunca houve um olhar assim,
rasgando a carne, as entranhas, a minha alma nómada
e repleta de impressões.
ninguém soube ao certo donde vinha,
que regiões conhecera,
que destino o trazia ali, ao império do oriente, ao
reino de alexandria.
o oráculo, afrodite a pitonisa, ptolomeu o sábio e
orim o mensageiro eunuco, só o nome retiveram-
jeremias JEREMIAS -- vejam lá!
alguém partira entretanto, no rumo da terra
fenícia e da terra síria, combatendo sempre.
por isso jeremias conheceu a cidadela, a orgia,
os banquetes e a arte,
o palácio e os aposentos do palácio
e no mais vasto e indescritível adormeceu.
quando o procurei,
trémula e inebriada e só, ele nada disse e
tomou-me a mão
e fomos descendo, descendo
o nilo antes da cheia,
ouvindo a sua voz divina,
sentindo a sua boca que me subia na mais lenta
lentidão em delírio.
nunca houve um amante assim...
alguém era o senhor da guerra, dos exércitos
e da frota,
o senhor do vinho,
o senhor do êxtase;
jeremias era o deus implacável, avassalador e
estranho.
devorando o meu corpo perfeito,
louco de lágrimas e riso,
gemidos, gritos...
ardendo ardendo...
e a rainha que eu era desfalecia através do
oriente,
abandonada àquelas mãos ávidas,
àquela boca que subia na mais lenta
lentidão, em delírio,
enquanto íamos descendo, descendo o
nilo da minha vida.
José Agostinho Baptista In "Biografia", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2000, pp 120-122.
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10/04/09
Foto tirada, em péssimas condições, no Casino do Estoril em 2007, quandoo Miguel Real recebeu o "Prémio Fernando Namora". Da esquerda para a
direita: Ana Paula Dias, Victor Oliveira Mateus, Miguel Real, Teresa Oliveira
e Henrique Levy.
In "J.L." de 21/4/2009:
As características literárias fundamentais presentes na narrativa Cisne de África, primeiro romance de Henrique Levy, autor já conhecido pelo romantismo sagrado dos seus dois livros de poesia (Mãos Navegadas e Intensidades), encontram-se expressas no lúcido prefácio de Inocência Mata, professora da Faculdade de Letras de Lisboa. Neste sentido, reenviamos o leitor para a caracterização geral deste romance feita por Inocência Mata, ensaiando aqui, no JL, uma abordagem diferente, ada sua integração na tradição literária portuguesa.
Com efeito, a leitura de o Cisne de África suscita-nos a suspeita de ser Henrique Levy, na continuidade de Mário Cláudio, Vasco Graça Moura, Bento da Cruz e, de certo modo, A.M.Pires Cabral, um perfeito novelista camiliano. De facto, aplicada ao tempo da Guerra do Ultramar (1961-1974) e aso espaço colonial Português (Moçambique, Lago Niassa e Lourenço Marques), Henrique Levy desenvolve uma narrativa que prolonga e actualiza - indubitavelmente-, em quatro pontos, a técnica narrativa de Camilo Castelo Branco.
Primeiro: uma história de amor trágica. Maria Helena, lisboeta, abandonada no altar pelo noivo espanhol, parte para Moçambique como enfermeira para refazer a sua vida: aqui, em Massicoonono, aldeia indígena do lago Niassa, fronteira com o Malawwi, assumindo uma vida dupla - de dia socorrendo os soldados portugueses; de noite, os combatentes da Frelimo-, apaixona-se por Raimundo Ndahala, comandante dos "terroristas".
Segundo: a narração do triângulo amoroso como figura de tragédia. Entre o amor de Maria Helena e Raimundo Ndhala instala-se o ciúme maligno de Eponine Kathipe, negra, ajudante de Maria Helena na enfermaria militar, espiã da Frelimo no aquartelamento português; Epoline encontra-se igualmente apaixonada por Raimundo Ndhala e, constatando a união entre os dois amantes, desencadeia uma intriga maligna (os militares e a PIDE já saberiam da ajuda de Maria Helena aos combatentes da Frelimo e preparar-se-iam para a prender) que os separa definitivamente (Maria Helena é forçada a fugir para Lourenço Marques, presumindo receber ordens directas de Raimundo).
Terceiro: envolvimento social da narrativa amorosa. Tal como Camilo, Henrique Levy envolve o coração amoroso na história de um conjunto de relações sociais que prestam consistência histórica ao drama romântrico do amor ( C. C. Branco: consequências da guerra civil entre Liberais e Absolutistas; fidelidades de província a D. Miguel ou a D. Pedro IV; intrigas e conflitos entre liberais, entre tradicionalismo português e modernismo industrial...; H. Levy: Guerra do Ultramar, relações com as mulheres da aldeia de Massiconono, especialmente Juliana, mulher-sábia, guardiã das tradições; relações com os agentes da PIDE, com o dr. Rodrigo Noronha, médico militar; vida em Lourenço Marques ao longo da década de 1960...); do mesmo modo, o desenlace trágico é anunciado pelo absoluto ódio (guerra) entre os grupos sociais a que pertence
de raiz cada um dos amantes: brancos contra negros, portugueses contra moçambicanos.
Quarto: envolvimento da natureza na narrativa amorosa através de uma espécie de compaixão mútua. A permanente descrição feita pelo narrador da natirexa luxuriante moçambicana é conducente à exaltação dos sentimentos dos apaixonados numa lógica de mútuo
testemunho e interpenetração.
Narrativa dramática elevada a tragédia existencial, o Cisne de África explora de modo exemplar
as relações românticas, fastas e nefastas, entre os temas do amor, da morte e da separação entre
o desejo e o objecto do desejo, evidenciando, por múltiplos sinais anunciadores, o fecho trágico inelutável (Raimundo Ndhala, ferido em combate, morre suspirando por Maria Helena, que,
regressada a Lisboa, para sempre se isola, guardando as suas desgostosas recordações num diário).
Do mesmo modo, a exemplo das novelas de Camilo, o ritmo narrativo veloz de o Cisne de África,
diverso do do romance, encontra-se repleto de efeitos suspensivos, todos apontando para um
desenlace trágico. O Cisne de África celebra camilianamente, ao modo romântico, ahipostasiação da paixão, desenvolvendo uma retórica sentimental adversa à racionalidade das instituiçoes sociais, nomeadamente, separadora dos amantes. Finalmente, o Cisne de África estrutura-se em
pequenas unidades dramáticas soltas, relativamente independentes, ao modo do folhetim jornalístico e da novela camiliana (15 capítulos para 143 páginas), cujo movimento de passagem
de uma para outra vai compondo a unidade harmoniosa do texto.
Eis o retrato literário do primeiro romance (novela?) de Hanrique Levy, um autor camiliano na
forma e nos valores estéticos, aplicados ao ambiente social da Guerra Colonial, escritor que
escreve mais com a sensibilidade do que com a razão, numa espécie de vitalismo instintivo que
não se encontra longe, nas descrições relativas à natureza, de um paganismo panteísta de matriz
cristã.
Miguel Real "Henrique Levy- um romance camiliano" In "J.L." de 8-21/4/2009, p 24.
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Com efeito, a leitura de o Cisne de África suscita-nos a suspeita de ser Henrique Levy, na continuidade de Mário Cláudio, Vasco Graça Moura, Bento da Cruz e, de certo modo, A.M.Pires Cabral, um perfeito novelista camiliano. De facto, aplicada ao tempo da Guerra do Ultramar (1961-1974) e aso espaço colonial Português (Moçambique, Lago Niassa e Lourenço Marques), Henrique Levy desenvolve uma narrativa que prolonga e actualiza - indubitavelmente-, em quatro pontos, a técnica narrativa de Camilo Castelo Branco.
Primeiro: uma história de amor trágica. Maria Helena, lisboeta, abandonada no altar pelo noivo espanhol, parte para Moçambique como enfermeira para refazer a sua vida: aqui, em Massicoonono, aldeia indígena do lago Niassa, fronteira com o Malawwi, assumindo uma vida dupla - de dia socorrendo os soldados portugueses; de noite, os combatentes da Frelimo-, apaixona-se por Raimundo Ndahala, comandante dos "terroristas".
Segundo: a narração do triângulo amoroso como figura de tragédia. Entre o amor de Maria Helena e Raimundo Ndhala instala-se o ciúme maligno de Eponine Kathipe, negra, ajudante de Maria Helena na enfermaria militar, espiã da Frelimo no aquartelamento português; Epoline encontra-se igualmente apaixonada por Raimundo Ndhala e, constatando a união entre os dois amantes, desencadeia uma intriga maligna (os militares e a PIDE já saberiam da ajuda de Maria Helena aos combatentes da Frelimo e preparar-se-iam para a prender) que os separa definitivamente (Maria Helena é forçada a fugir para Lourenço Marques, presumindo receber ordens directas de Raimundo).
Terceiro: envolvimento social da narrativa amorosa. Tal como Camilo, Henrique Levy envolve o coração amoroso na história de um conjunto de relações sociais que prestam consistência histórica ao drama romântrico do amor ( C. C. Branco: consequências da guerra civil entre Liberais e Absolutistas; fidelidades de província a D. Miguel ou a D. Pedro IV; intrigas e conflitos entre liberais, entre tradicionalismo português e modernismo industrial...; H. Levy: Guerra do Ultramar, relações com as mulheres da aldeia de Massiconono, especialmente Juliana, mulher-sábia, guardiã das tradições; relações com os agentes da PIDE, com o dr. Rodrigo Noronha, médico militar; vida em Lourenço Marques ao longo da década de 1960...); do mesmo modo, o desenlace trágico é anunciado pelo absoluto ódio (guerra) entre os grupos sociais a que pertence
de raiz cada um dos amantes: brancos contra negros, portugueses contra moçambicanos.
Quarto: envolvimento da natureza na narrativa amorosa através de uma espécie de compaixão mútua. A permanente descrição feita pelo narrador da natirexa luxuriante moçambicana é conducente à exaltação dos sentimentos dos apaixonados numa lógica de mútuo
testemunho e interpenetração.
Narrativa dramática elevada a tragédia existencial, o Cisne de África explora de modo exemplar
as relações românticas, fastas e nefastas, entre os temas do amor, da morte e da separação entre
o desejo e o objecto do desejo, evidenciando, por múltiplos sinais anunciadores, o fecho trágico inelutável (Raimundo Ndhala, ferido em combate, morre suspirando por Maria Helena, que,
regressada a Lisboa, para sempre se isola, guardando as suas desgostosas recordações num diário).
Do mesmo modo, a exemplo das novelas de Camilo, o ritmo narrativo veloz de o Cisne de África,
diverso do do romance, encontra-se repleto de efeitos suspensivos, todos apontando para um
desenlace trágico. O Cisne de África celebra camilianamente, ao modo romântico, ahipostasiação da paixão, desenvolvendo uma retórica sentimental adversa à racionalidade das instituiçoes sociais, nomeadamente, separadora dos amantes. Finalmente, o Cisne de África estrutura-se em
pequenas unidades dramáticas soltas, relativamente independentes, ao modo do folhetim jornalístico e da novela camiliana (15 capítulos para 143 páginas), cujo movimento de passagem
de uma para outra vai compondo a unidade harmoniosa do texto.
Eis o retrato literário do primeiro romance (novela?) de Hanrique Levy, um autor camiliano na
forma e nos valores estéticos, aplicados ao ambiente social da Guerra Colonial, escritor que
escreve mais com a sensibilidade do que com a razão, numa espécie de vitalismo instintivo que
não se encontra longe, nas descrições relativas à natureza, de um paganismo panteísta de matriz
cristã.
Miguel Real "Henrique Levy- um romance camiliano" In "J.L." de 8-21/4/2009, p 24.
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08/04/09
07/04/09
"não é fácil o amor"Não é fácil o amor melhor seria
Arrancar um braço fazê-lo voar
Dar a volta ao mundo abraçar
Todo o mundo fazer da alegria
O pão nosso de cada dia não copiar
Os males do amor matar a melancolia
Que há no amor querer a vontade fria
Ser cego surdo mudo não sujeitar
O amor ao destino de cada um não ter
Destino nenhum ser a própria imagem
Do amor pôr o coração ao largo não sofrer
Os males do amor não vacilar ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste não é fácil o amor
Luis Pignatelli In "Obra Poética", & etc., Lisboa, 1999, p 83.
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05/04/09

"A um amigo"
Fiel ao costume antigo,
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver tão singelos,
Tão simples como eu, não ria:
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d'alma os faria.
Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que sucede à flor.
Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d'alma os faria.
Almeida Garrett In "Folhas Caídas", Publicações
Europa-América, p 122.
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02/04/09
Elizabeth Bishop" Invitation to Miss Marianne Moore"
From Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning
please come flying.
In a cloud of fiery pale chemicals,
please come flying,
to the rapid rolling of thousands of small blue drums
descending out of the mackerel sky
over the glittering grandstand of harbor-water,
please come flying.
Whistles, pennants and smoke are blowing. The ships
are signaling cordially with multitudes of flags
rising and falling like birds all over the harbor.
Enter: two rivers, gracefully bearing
countless little pellucid jellies
in cut-glass epergnes dragging with silver chains.
The flight is safe; the weather is all arranged,
The waves are running in verses this fine morning.
Please come flying.
Come with the pointed toe of each black shoe
trailing a sapphire highlight,
with a black capeful of butterfly wings and bon-mots,
with heaven knows how many angels all riding
on the broad black brim of your hat,
please come flying.
Bearing a musical inaudible abacus,
a slight censorious frown, and blue ribbons,
please come flying.
Facts and skyscrapers glint in the tide; Manhattan
is all awash with morals this fine morning,
so please come flying.
Mounting the sky with natural heroism,
above the accidents, above the malignant movies,
the taxicabs and injustices at large,
while horns are resounding in your beautiful ears
that simultaneously listen to
a soft uninvented music, fit for the musk deer,
please come flying.
For whom the grim museums will behave
like courteous male bower-birds,
for whom the agreeable lions lie in wait
on the steps of the Public Library,
eager to rise and follow through the doors
up into the reading rooms,
please come flying.
We can sit down and weep; we can go shopping,
or play at a game of constantly being wrong
with a priceless set of vocabularies,
or we can bravely deplore, but please
please come flying.
With dynasties of negative constructions
darkening and dying around you,
with grammar that suddenly turns and shines
like flocks of sandpipers flying,
please come flying.
Come like a light in the white mackerel sky,
come like a daytime comet
with a long unnebulous train of words,
from Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
please come flying.
Elizabeth Bishop In "The Complete Poems, 1927 - 1979 ",
Ferrar, Straus and Giroux, New York, 1984, pp 82-83.
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O Lançamento de "A IRRESISTÍVEL VOZ DE IONATOS"
31/03/09
O Monte Pumori no Território Ocupado do Tibete"Sans rien céder de nous"
Tu es venue dans un halètement d'altitude
en suivant le galop de ton coeur.
Tu es venue mot à mot jusqu'à moi
avec dans le sang mon poème.
Tu es venue comme une aile d'azur
toute à son battement de ciel sur ciel.
Tu es venue ouvrir les fenêtres, les portes,
dilapider, enchanter, mettre en feu, foudroyer.
Tu es venue changer l'heure des cadrans,
choisir tes nuits et ton soleil.
Tu es venue vivre sur le départ
une course aussi joyesse que folle.
Tu es venue pour m'aimer et me détruire,
m'aimer absolument, me détruire tout entier.
Tu es venue et je me voue à ta venue
sans rien céder de nous.
André Velter In "L'amour extrême et autres poèmes
pour Chantal Mauduit", Gallimard, Paris, 2007, pp 35-36.
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30/03/09

Novo livro de MANUELA GOUCHA SOARES : " MARCELO CAETANO - O HOMEM QUE PERDEU A FÉ"
Lançamento no dia 31 de Março, pelas 18h,30, na SOCIEDADE DE GEOGRAFIA em Lisboa.
A apresentação da obra será feita por NUNO SEVERIANO TEIXEIRA.
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(Nota- Este blogue deseja à Manuela Goucha Soares e ao seu novo trabalho
um ENORME sucesso!!!)
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22/03/09
Foto da série "Beautés Picturales" do fotógrafo italiano Paolo Prisco."A invenção do amor"
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartas denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
um sorriso natural e inesperado
Não sairam de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas
Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado
aos longos silêncios e aos chooros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das noemas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam ao temor do castigo
Que todos estejam a postos Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa
Organizem em cada bairro em cada rua em cada prémio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas
Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz. Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Á gua simples correndo A brisa nas montanhas
Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
Impõe-se sistematizar as buscas. Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boites com orquestra privativa
Não estarão nunca aí Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um Vê-los-ão possivelmente
dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher
Mas ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter a coragem para desfechar na fronte o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa crescido a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência
Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família é testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o clímax
e a polícia poderá cumprir o seu dever
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
manchettes cor de sangue no rosto dos jornais
É PRECISO ENCONTRÁ-LOS
ANTES QUE SEJA TARDE
Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócio
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra afogando a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência o universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los
Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga
Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
impôr a violência a tirania o ódio
Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência
COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA
Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro
É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública
Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio
Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a polícia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado
SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA
Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção científica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço
Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as "Crónicas Marcianas"
perdeu-se precipitamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica
Ninguém lhe conheceu uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu
Esperam por ela em casa duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade
Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas
Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A polícia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrain une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)
Daniel Filipe In "A invenção do amor e outros poemas", Editorial
Presença, Lisboa, 1972, pp 25-43.
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" A Map of Europe"Like Leonardo's idea
Where landscapes open on a waterdrop
Or dragons crouch in stains,
My flaking wall, in the bright air,
Maps Europe with its veins.
On its limned window ledge
A beer can's gilded rim gleams like
Evening along a Canaletto lake,
Or like that rocky hermitage
Where, in his cell of light, haggard Jerome
Prays that His Kingdom come
To the far city.
The light creates its stillness. In its ring
Everything IS. A cracked coffee cup,
A broken loaf, a dented urn decome
Themselves, as in Chardin,
Or in beer-bright Vermeer,
Not objects of our pity.
In it is no lacrimae rerum,
No art. Only the gift
To see things as they are, halved by a darkness
From wich they cannot shift.
Derek Walcott, "Poems 1965-1980", Jonathan Cape,
London, 1992, p 36.
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17/03/09

"A Irresístivel Voz de Ionatos" de Victor Oliveira Mateus, Editora Labirinto.
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Lançamento no dia 21 de Março, pelas 16 horas, no espaço
da Empresa Somafre (Pólo Tecnológico de Lisboa, Rua I, Lote 25,
16oo-546). A apresentação será feita pela escritora Maria Lucília Meleiro
("A mitologia dos povos germânicos" Ed, Presença, "A Rosa de Alexandria"
Ed. Presença, etc.) e alguns poemas serão ditos pela actriz Eugénia Bettencourt
(" As horas de Maria" de António Macedo", "Chá preto com limão", etc.).
No final será servido um beberete.
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(Nota - para mais fácil localização do espaço consultar planta
num post abaixo).
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11/03/09

A Editora Labirinto comemora este ano o Dia Mundial da Poesia, que ocorre a 21 de Março, com o lançamento de um novo livro de Victor Oliveira Mateus: A Irresistível Voz de Ionatos. A obra conta com um posfácio do professor e poeta brasileiro Cláudio Neves e um texto da poeta, romancista e ensaísta, também brasileira, Olga Savary.A apresentação deste novo livro de poesia de Victor Oliveira Mateus estará a cargo da escritora Maria Lucília Meleiro e alguns dos poemas serão depois ditos pela actriz Eugénia Bettencourt.Este evento ocorrerá no dia 21 de Março pelas 16h no espaço cedido pela Empresa Somafre (Pólo Tecnológico de Lisboa, Rua I, Lote 25, 1600-548 Lisboa) para acontecimentos de carácter cultural.
03/03/09
"Pilots sur la plage de Sète (Hérault)" foto de François Bucaille" Evocação"
Cansei-me deste exílio de onde há dias
fugi na direcção do mar. A gente
abandonara a praia, os gritos e os navios,
que nunca navegaram, tinham fundeado
na areia onde as gaivotas devoravam
as pegadas humanas, deixando as suas
que o vento apagaria à noite,
e as ondas repetiam a espúria eternidade.
Que mais posso dizer? Que fui eu quem voltou
ao exílio, que os cedros escurecem,
que os dias não tornaram mais com alegria,
que vejo na cidade, em janelas como esta,
caminhos incompletos atrás das vidraças
e, à distância, outra larga frente ao mar,
onde, olhando, o teu vulto permanece.
Nuno Dempster In "Dispersão - Poesia Reunida", Edições Sempre-Em-Pé,
Águas Santas, 2008, p 102.
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