30/06/09


A actriz americana Candice Bergen e o realizador francês Louis Malle (uma das relações mais conseguidas na História do Cinema) aquando do seu casamento em 1980, Lugagnac - França.
A foto é da célebre fotógrafa de vedetas - Mary Ellen Mark.
.
.
.


às vezes
estou num ponto da casa,
e sei, e sinto, que tu estás algures
noutro ponto
da mesma casa.
.
e sinto, e penso:
demos mais um passo
para a vida eterna.
cada um de nós deu mais
um passo
em direcção à sua morte.
.
e perdemos mais este momento
em que podíamos ter falado,
ou entretecido bocas
e olhares.
.
tomámos, em diferentes
sítios da casa,
diferentes caminhos;
iniciámos trajectos
discordantes
em direcção ao nosso
desaparecimento
na noite do espaço/tempo.
.
quando nos depedirmos,
o que diremos?
até onde, até quando?
.
será possível termos
partilhados tanto,
e partir assim sem aviso,
como se tivéssemos sido privados
de toda a história anterior?
.
por isso, peço:
quando estiveres para morrer
noutro ponto da casa,
por favor diz primeiro.
.
combina comigo,
para eu ver se tenho tempo
de ir morrer lá também.
.
.
.
Vítor Oliveira Jorge In "Pequeno Livro de Aforismos seguido de Algumas Alumiações,
Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2008, pp 68-69.
.
.

29/06/09

Convite de lançamento.



A "Editora Trinta Por Uma Linha" lança, no dia 4 de Julho, pelas 17h,00, o livro

"Verso a Verso - Antologia Poética", da autoria de Amadeu Baptista, Francisco Duarte Mangas,

João Manuel Ribeiro, Luísa Ducla Soares, Nuno Higino, José António Franco e

Vergílio Alberto Vieira. As ilustrações são de João Concha.

A apresentação será feita por Sérgio Almeida ( jornalista do J.N.) e ocorrerá na

"Tropelias & Companhia" (à Rua Calouste Gulbenkian, 201, no Mota Galiza, PORTO ).
.
.

28/06/09

"Gato sem sorriso" foto de Jerzy Urban (2008)


desconfia sempre de alguém
que se justifica com a falta de tempo.

nós temos sempre tempo
para aquilo que realmente queremos.

uma pessoa que deixou
de ter tempo para ti
foi uma pessoa que te elidiu
para sempre da sua vida.


Vitor Oliveira Jorge In "Pequeno Livro de Aforismos seguido de
Algumas Alumiações", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2008, p 16.
.
.

26/06/09

"quando a alma confirma o deserto - "


À l'eau sombre qui là-bas recueille
le vert ferment d'une aube sur terre -
à l'eau qui va riant dans les pierres
dissiper la ferveur des images -
à la goutte d'eau claire dans mon oeil
mémoire d'une aveugle fraîcheur
quand l'âme vérifie le désert -

À ce qui me dit indivis et fluide
chante levé dans l'essor du chant
essaim de lueurs que rien n'interrompt
mots et gestes brefs tissés dans l'ouvert -

Sur la rive rêche et endolorie
fruits tombés que décompose la mer
lambeaux de brumes, pansements jetés.

Lorand Gaspar In "Patmos et autres poèmes", Poésie Gallimard,
Paris, 2004, p 81.

Nota - Lorand Gaspar nasceu em 1925 duma família húngara, em Marosvásárhely na Transilvânia oriental, hoje parte da Roménia. Fez aí o ensino secundário, sendo depois admitido no Instituto Politécnico de Budapeste em 1943, mas foi mobilizado meses mais tarde.
Em 1944, após o fracasso de uma paz separada seguido da imposição de um governo nazi na Hungria, Lorand Gaspar é deportado para um "campo" na Suabo-Francónia, de onde consegue fugir em Março de 1945 e apresentar-se a uma unidade francesa que se encontrava situada perto de Pfullendorf.
Estudou medicina em Paris e veio depois a ser cirurgião em vários hospitais franceses.
.
.

25/06/09

Nota -(...) Séculos mais tarde( a Eurípides, Séneca e Ovídio) Corneille (1606-1684) retomou o tema na sua peça "Medeia". Para ele, Jasão é um homem ambicioso, não heróico, que faz do relacionamento amoroso apenas um instrumento para alcançar os seus objectivos (...) O poeta austríaco Franz Grillparzer (1791-1872) dedica uma trilogia à lenda do "Tosão de Ouro".(...) Jean Anouih (1910-1987 ) também aborda o tema, embora utilizando uma linguagem moderna: Medeia é uma cigana e a sua humilhação não está no abandono, mas na piedade do homem que a deixou. Seu orgulho fere-se porque ela deseja amor e não um tratamento compassivo. Para Pier Paolo Pasolini ( 1922 -1975 ), Medeia aparece como vinda de um país bárbaro onde se sacrificam vidas humanas. Ela tudo abandona por amor de Jasão, inclusive a sua magia, mas quando se vê traída, utiliza os seus dons para se vingar. Entretanto, na Medeia de Pasolini entrelaçam-se presente e passado, e ela parece muito mais próxima da mulher moderna que comete um crime passional do que de uma feiticeira da Antiguidade. De todos estes autores, para o meu modestíssimo poema, apenas me interessaram Corneille e Pasolini.
.
.
" Medeia e os Outros Tempos"

Vista daqui a terra não tem a importância que julga
ter. Vista daqui até a cidade, teia de empestada glória
e ridículas imagens, a ostentação recusa. Vista daqui,
ó odiosa Corinto, não passas de uma puta velha
a cirandar pela praia, no alcance de afectos jamais
refeitos ou de memórias à deriva, por entre marinheros,
sidra, bárbaros dizeres, que nunca entendeste nem a isso
chamada foste. Vista daqui apenas eu coincido comigo:
princesa cólquida, dona de insondáveis talentos e artes,
arrebatada, crédula nas palavras dos homens, implacável
se com essas mesmas palavras eles atraiçoam os pactos,
a solidariedade generosa, a mais resplandecente entrega

quando enorme e até mesmo sagrada. Por tudo isto te vi
eu cair, ó verme! Ao ver-me de tal modo afastada
da tua cama, do teu corpo que tão bem montava como a potro
selvagem nas planícies da Tessália, da tua boca quase sempre
em lume, gume em mim esventrada do já ciúme, nesse cume
de coisa pouca, que em nada transformei com minha fúria
e vingação de fêmea atraiçoada, quase louca. Acaso pensaste
que, impune, te deixaria partir, para lá do tudo que havíamos
partilhado? Acaso supunhas que te daria um aberto caminho
para de novo assaltares tronos e troféus? Eu, que traí uma linhagem,
um povo; eu que dispersei os pedaços de Apsirto (o miserável!),
que me vinha dar caça, como o costume prediz a guerreiro macho

e irmão. Ai, pobre Jasão, que das mulheres nada sabias!
Sobretudo daquelas para quem a honra não é negociável,
nem a dignidade se troca na ágora, por entre potes
de azeitonas, galinhas poedeiras ou as mais raras especiarias
vindas do oriente. Vê (desgraçado) ao que te levou a cupidez
sem freio, a vida onde o ter e o parecer apenas bastavam,
espezinhando tudo o que os outros são, esperam, sonham.
Restam-te hoje os unguentos que não cheguei a usar,
os estiletes envenenados, as funestas sementes que a pressa
nem me deixou triturar. Restam-te as convulsões de Glauce,
tão culpada quanto os outros, o cadáver já frio de Creonte
com seus lábios de Cera, seus olhos baços, como costumavam

ficar quando de ambição cheios, tal como os teus, seus gémeos
e herdeiros. Restam-te os corpos inocentes de teus filhos,
lapidados pelos coríntios em fúria, que, ao quererem atingir a mãe.
o pai castigaram com raiva nunca antes vista por estas paragens.
O que de ti ficou ( infeliz), por tal ganância e soberba desenfreada,
é nada - absolutamente nada! Mas não te iludas Medeia, os homens
deste tipo raramente mudam: levantam-se após a dor encenada e,
estropiados, retomam sua antiga crueldade, bem mais crueldade
porque primeira e não resposta; levantam-se e, quais loureiros
persistentes, sugam as húmidas vertentes, os frondosos bosques.
Sossega Medeia! Acalma essa cabeça de teus crimes talvez inúteis.
Aguarda. Quem poderá saber o desenlace de tão horrenda história?


Victor Oliveira Mateus In "Revista Inútil" Nº 1 Out. 09, p 98.
.
.

24/06/09


" Poema 6 de Os Dentes Cor de Rosa do Ilusor (1)"
.
.
Eu, que muito mal consigo ser quem sou,
bato-me com este eu mais forte que eu mesmo
e perco. E digo-me: é preciso
jogar tudo pro ar, é preciso esquecer,
o sol está tão límpido tão lindo, como
permanecer imerso nas dobras de si mesmo? Esquecer.
A vida rudimentar te atormenta, o choro
das crianças, as contas do mercado, a torneira pingando,
essa indolência essa revolta essa indolência
o mundo aí, gratuito, a palmilhar e não
e não e não, o sono vem, vem o vazio, amar
é um ato frustro - e que significa?
Esquecer.
Esquecer sobretudo que é fraco, é sozinho
- mas não somos todos sozinhos? nos perguntam,
e o existir não passa da mentira
de nos dizermos fortes e adultos? nos
perguntam, e cada qual em seu canto não há que sofrer
seu tanto? nos perguntam, e a vida inteira
de um homem
não é pura e pura e pura
ilusão?
Esquecer.
.
.
.
Antonio Brasileiro In "Antologia Poética", Ed, Fundação Casa de Jorge Amado,
Salvador, 1996, p 68.
.
.

.
."Tudo que somos"
.
.
Tudo que somos,
pouco sabemos.
.
Um poço imenso,
cheio de sonos.
.
Quando choramos,
não nos perdemos.
.
Viver é um sonho,
não esqueçamos.
.
Viver é a sombra,
o assombro, o apenas.
.
/Tão frágeis somos!
Frágeis e imensos.
.
.
.
Antonio Brasileiro In "Antologia Poética 1968-1996", Ed. Fundação Casa de Jorge Amado,
Salvador, 1996, p 17
.
.

23/06/09

"entre o mar e o céu"

.
.
Est-ce lui? est-ce la mer? ou le ciel?
la morsure du poignard dans le jour
la blessure de l'épervier jeté
lacis de nerfs dans l'eau allumé -
miroir et lumière aussitôt guéris.
.
Et quelle aisance, quelle précision!
Elles gouvernent remous et courbures
de l'eau, de l'air, de la nage et du vol
le sol raviné, les ardeurs du vert
.
verts et bleus
âme ou aile
déplient la haute étendue -
.
.
.
Lorand Gaspar In "Patmos et autres poèmes", Poésie Gallimard, Paris, 2004, p49.
.
.



"ode do fim da paixão"


agora que a paixão se demoveu de ti
são poucas as notícias que te trago.

as palavras bem podem ser
pequenos papéis atirados ao chão.
se o vento as levantar é porque ainda
haverá um livro de poemas
nas pontas dos dedos a ferir o espaço
para um último batimento.

deixaste-me assim com a paixão rápida
o funeral e os pássaros nos ramos
a aprender asneiras e as marchas de séculos
anteriores. recusaste um coração
a cercania das mãos
a destapar o rosto oculto.

agora é tarde
os poemas são vedações de florestas
que não podem crescer mais.
sem árvores o vento não sopra
e é pouco o que chega até ti.


ana salomé In " Odes", Ed. Canto Escuro, s/c, 2008, p 94.
.
.

21/06/09

Inocência Mata escreve sobre Arménio Vieira.

Arménio Vieira é um escritor que sempre me intrigou. Lembro-me de o ter visto pela primeira vez - não conhecido, pois nunca fomos apresentados - numas férias em Cabo Verde. Estava com a minha amiga e anfitriã, Evelina Santos, e entrámos num bar-restaurante da Prainha. Lá estava ele, imerso no seu jogo, beberricando a sua cerveja, e ela apontou-mo: aquele é o Arménio Vieira, mas não tenho relações com ele por isso não to apresento... Entendi, por isso, que não seria gente de grandes aberturas com quem não conhece. Ademais, parecia completamente alheado de tudo, apenas concentrado no seu jogo.
Era, à altura, autor de apenas dois livros de poesia. Poemas (1981, que seria reeditado em 1998) e O Eleito do Sol (romance, 1990) - um livro em todos os títulos original. Seguir-se-iam, para além da reedição de Poemas, No Inferno (romance, 1999) e MITOgrafias (poesia, 2006).
Apesar de ser por causa do Prémio Camões que Arménio Vieira salta para a ribalta, não serve este apontamento para falar da pertinência do prémio e da sua justeza. Nem da justiça (finalmente feita!) a Cabo Verde - como já ouvi. Julgo que este Prémio, que não deveria ser político (apesar de o ser, pelas afirmações de pessoas responsáveis), distingue o escritor e, através dele, o sistema nacional em que se insere o escrito - não o contrário: não se distingue o sistema elegendo um escrito, mas distingue-se aquele escritor e, por implicação, aquela literatura! Além de que o mais alto galardão literário da língua portuguesa, língua oficial de oito países, é uma criação de... apenas dois países! Claro que haverá quem diga logo que o Prémio Cervantes é criação de um só país, mas não acredito em argumentos de "jurisprudência" nestes casos...
Falemos, pois, da originalidade da obra do santiaguense Arménio Vieira, escritor já distinguido no seu país, pela Associação de Escritores Caboverdianos, é um escritor inclassificável mesmo no panorama literário cabo-verdiano. Pertencendo, se assim se pode dizer, à geração da folha Seló- Página dos Novíssimos (suplemento literário do jornal Notícias de Cabo Verde, cujos dois únicos números são de 1962), Arménio Vieira pontua ao lado de nomes porventura injustamente pouco estudados pela/na academia: Maria Margarida Mascarenhas, Jorge Miranda Alfama, Mário Fonseca e Osvaldo Osório (além de Rolando Vera-Cruz Martins, que acabou por não integrar a galeria do registo autoral da literatura cabo-verdiana).
Conheci a poesia de Arménio Vieira pela mão do meu eterno mestre Manuel Ferreira. Uma poesia (ainda) intensamente telúrica mas simultaneamente metafísica, estranhamente narrativa mas substancialmente lírica, feita de ressonâncias deslocalizadas culturalmente mas também localmente cabo-verdiana. Potenciaria essa pulverização de "contaminações" culturais em MITOgrafias, livro feito de poemas construídos a partir de referências de leituras e de afectos literários, revelando excentricidades de influências, geografias e temas: literatura, filosofia, história, teologia, condição humana.
Porém, apesar de No Inferno ser porventura a obra mais insólita da literatura cabo-verdiana, pela singularidade genológica que caracteriza a urdidura romanesca (estilhaçamento sintáctico e de vozes narrativas e ausência de uma intriga que conduza o fio da narrativa), O Eleito do Sol é mais desafiante na sua inserção no sistema.
O Eleito do Sol começa por estilhaçar a caboverdianidade "tradicional", feita de marcas de insularidade geográfica, ambiental, sociocultural, ideológica e psicológica, criando uma história que se passa no Egipto antigo, protagonizada por um escriba pícaro que, pela subtileza de espírito, pelo saber e pela astúcia, consegue vencer um faraó - personificação do poder político instituído, inerte e incompetente, adverso a qualquer ideia de mudança e confrontação de pontos de vista. É, aliás, esta bizarria romanesca que faz deste romance um caso singular na literatura cabo-verdiana: socorrendo-se de um discurso alegórico, uma realidade política codificada, para dissimular a sua inscrição no domínio político, através da feição (pseudo-)histórica da sua ontologia, a construção de imagens daí decorrente vai dando forma a ideias cuja interpretação só parece fazer sentido dentro do próprio texto, sem qualquer ligação com o contexto sociocultural e político. Daí muitas vezes surgir o cómico pelo desfasamento entre o que é dito (que nem sempre faz sentido) e aquilo para o qual remete: o poder destituído de saber, vivendo numa inactividade conservadora e que aos poucos vai sucumbindo a uma nova topia (espácio-temporal) protagonizada por alguém que, "como herói de certas histórias", se safa sempre na hora H. Desse labor astucioso resultam um novo regime democrátrico, uma nova forma de fazer política, a destruição de categorias sociais ditadas pela vinculação a uma "dinastia".
Alguma ligação com o Cabo Verde a sair do monopartidarismo por estas alturas, 1990? Apenas se desconsiderarmos a remoticidade da fábula fazendo com que o assunto adquira actualidade no capítulo das relações de poder.
Já se disse do Prémio Camões que preferia a ficção à poesia - apesar de Miguel Torga (1989), João Cabral de Mello Neto (1990), José Craveirinha (1991), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999) e Eugénio de Andrade (2001). Na sua 20ª edição o Prémio Camões distingue um escritor que é poeta e romancista. Talvez por isso grande parte de notícias se refira a Arménio Vieira como poeta. Porém, para mim, surprende-me mais a imaginação do ficcionista.
.
.
Inocência Mata In "J.L. de 17 a 30 de Junho, p 10.
.
.

19/06/09



" a viola toca meu silêncio"
.
.
dolentemente
.
re
.

spiro
.
minhas
.
fantasias
.
solitárias
.
ladeando o
.
silêncio
.
.
.
António Cardoso Pinto (Inédito)
.
.
.
.


Notas:
- o verso "spiro" não segue a ordenação gráfica dos outros versos, já que não se integra na escala musical que o poeta pretende evocar. Infelizmente foi-me impossível ,a nível informático, manter tal rigor
- António Cardoso Pinto, que tem poesia sua espalhada por diversas publicações e livros, e que gravou recentemente um CD com poesia de José Agostinho Baptista, acaba de criar um
"sítio" de Poesia:
António's Site
.
.

18/06/09

"O Estrangulador dos Bonecos de Neve", novo livro de Carlos Vaz.

O cuidado, essa derivação não científica de outras categorias como a de rigor, parece-me ser uma das vertentes fundamentais da escrita de Carlos Vaz; tipo de depuração que nem sempre se nos apresenta do mesmo modo: rondando a musicalidade onde a estrutura narrativa é secundarizada ante o fulgor do dito, como em Gabriela Llansol, em "Capricho 43"; o burilar da linguagem que, sem perder uma certa poeticidade, opta agora por uma mensagem directa bem ao jeito de escritores como Mário Henrique Leiria, em "O Estrangulador dos Bonecos de Neve".
Este cuidado, ou melhor, este medir forças com a palavra recusando todo o tipo de estatismo sintáctico - que também pode ser encontrado na poesia da Carlos Vaz - faz-nos ver a escrita deste autor como um organismo que incessantemente se reformula e (re)enuncia nessa procura que a si própria se impõe: a de um persuasivo resplendor que, armadilhando o leitor num jogo de encantamento e sentidos vários, nunca cede na construção de novos paradigmas do dizer, que, contudo, jamais se afastam do real concreto nem de múltiplas inquietações de cariz existencial e histórico-social.
.
.
Victor Oliveira Mateus
.
Lisboa, 18 de Junho de 2009.
.
.

Novo livro de José Agostinho Baptista


" O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos" é o novo livro de José Agostinho Baptista
.
a sessão de lançamento será no dia 4 de Julho (sábado), pelas 18 horas, no Restaurante
.
Many, na Fajã da Areia, São Vicente (entre São Vicente e Ponta Delgada)
.
(Informação via "Porosidade Etérea". Um grande obrigado à Inês Ramos. )
.
.

17/06/09




Ode da liberdade II


devíamos criar uma cidade nova
livre
desde as pontas dos dedos
as estradas
à polpa das palmas das mãos
as muralhas
até ao centro histórico
para nela vivermos séculos sem fim
e mergulharmos nos rios as linhas do destino.

devíamos criar uma cidade livre
nova
desde o vulcão
o nosso repouso em labaredas
para um primeiro beijo
fora do território nacional
até à lonjura da maior viagem
dormirmos na pousada
que abriga tectos em estrelas
com os olhos fechados
trocados
numa nova cidade
até sermos ilha.

quando regressássemos
morávamos
na nossa grande casa da árvore
cravejados de folhas
pássaros e beijos
as mãos um do outro
polpa de maçã
só à espera de ver nascer
a madrugada debaixo dos braços
para o último arrepio
de todos os tempos

amarmo-nos.


ana salomé In "odes", Editora Canto Escuro, s/c, 2008, pp 64-65.
.
.

16/06/09


DIA 19 DE JUNHO, PELAS 19 HORAS, A EDITORA 101 NOITES APRESENTARÁ
O AUDIOLIVRO "O BANQUEIRO ANARQUISTA" DE FERNANDO PESSOA LIDO
POR FILIPE VARGAS.
O EVENTO TERÁ LUGAR NO GOETHE INSTITUT, NO CAMPO DOS MÁRTIRES
DA PÁTRIA, 37 EM LISBOA.
.
.

"Da Terra à Luz"



"Os Escribas"

Nunca senti por eles grande entusiasmo.
Se eram excelentes eram também petulantes
e de um trato tão espinhoso como o azevinho
de que extraíam a tinta.
E se nunca fui um deles também é certo
que nunca me puderam negar o meu lugar.

Na quietude do scriptorium
crescia neles a todo o tempo uma pérola negra
como o velho coágulo seco por dentro das penas.
À margem de textos laudatórios
arranhavam, esgadanhavam.
Rosnavam se o dia estava escuro
ou se giz a mais amolecera o vellum
ou giz a menos o deixara oleoso.

Sob os dorsos da caligrafia
arrebanhavam rancores míopes.
Sementes de ressentimento ponteavam-lhes
as espirais de fetos das maiúsculas.

De vez em quando eu tinha um sobressalto
a milhas de distância, e via na minha ausência
o cursivo inclinado de cada dorso, e sentia-os
a aperfeiçoarem-se contra mim, página a página.

Que se recordem deste contributo não desprezível
para a sua arte de invejas.


Seamus Heaney In "Da Terra à Luz - poemas 1966-1987 ",
Relógio D'Água Editores, Lisboa, 1997, p. 333, (trad. Rui Carvalho Homem).
.
.

14/06/09



"Effigy"

If you come to find me affable
And build a replica for me
Would the idea to you be laughable
Of a pale facsimile

So when you come to burn an effigy
It should keep the flies away
When you learn to burn this effigy
Il should be
For the hours that slip away

It could be you, it could be me
Working the door, drinking for free
Carrying on with your conspiracies
Filling the room with a sense of unease
Fake conversations on a nonexistent telephone
Like the words of a man who's spent a little too much time alone
When one has spent too much time alone...

So if you come to burn my effigy
It should keep the flies away
When you learn to burn an effigy it should be
Of a man who's lost his way, slips away


Andrew Bird, do C.D. "Noble Beart", Wegawam Music Co., E.U., 2009.
.
.Nota - As sardinhas só vieram hoje...Naquele terraço de corte mediterrânico entravamos e
saíamos. Lembrei-me dos pavões a quem o A. cortara as asas e as raposas devoraram num fim-de-semana. Alguém veio cá abaixo bater estridentemente palmas... "Para espantar os gaios - explicaram-me depois -, os cabrões dão cabo de tudo!". A música continuava a sair pelas janelas escancaradas. Eu e a H. protestavamos do exagerado volume do som.
Ninguém nos dava ouvidos. Felizmente! Porque foi assim que dei com um C.D. que me tinha escapado.
.
.

12/06/09

Dois poemas de um livro a sair em breve ...


MUSA
.
1.
.
.
Vem, ó Mouça, vem logo com teu charme,~
traz inteiro o teu nome e teu segredo:
eu preciso de ti, vem encontrar-me
que te direi de cor o "Amor e medo".
.
.
Nem o amor se disfarça em pesadelo
nem o medo remói o sentimento,
o sinal da baliza a inscrevê-lo
num beijo, noutro beijo, noutro intento,
nisto que a vida pôs nesta alegria,
nesta canção de amor no fim do dia.
.
.
.
2.


Nem é preciso vir, manda o teu nome
e com ele virão a tua imagem,
a vida, o amor e o tempo que se some
na busca do melhor como linguagem.


Mas é preciso ir, inominado
e simples como o acaso me permite:
buscando sempre esse teu lado alado
que se oculta sem tempo nem limite.


Aí teu corpo é mais que corpo - a essência
do melhor, do mais belo, do mais puro,
da vida desdobrada e sem carência
navegando em si mesma no futuro.


Gilberto Mendonça Teles In " Linear G." (No prelo)



.
.

10/06/09

"meu mundo é do outro lado"



"marginal"

não sou poeta de dentro
vivo na periferia
onde aprendo ao relento
os sinais da poesia

sem outro mestre ou sebenta
outros meios auxiliares
que a alma nua e atenta
às evidências singulares

não vou às festas galantes
onde se bebe do fino
com papagaios falantes
num linguajar de cretino

(mas de cretino laureado
com imarcescíveis lauréis)
meu mundo é do outro lado
entre plebeus menestréis

marginal mas livre e limpo
de certas quedas na lama
com que se sobe ao olimpo
da torpe festa da fama


Cláudio Lima In "Itinerarium III", Opera Omnia Ed., Guimarães, 2006, p 40.
.
.
oiço-te a respiração; é leve como a
de um pássaro em sono descuidado

os olhos, fechados, guardam a luz
perene, intensa, com que acendes
as auroras do mundo

o peito, num arfar ritmado de serenidade,
é o escrínio inviolado dos meus afectos
vigilantes

o umbigo assinala
um viveiro de pérolas cativas

a noite é longa na alvura do linho
onde repousas

nada é urgente ou repetido,
nenhum relógio tange os ponteiros agressivos
do dever

olho-te em silêncio e sou feliz


Cláudio Lima In " Maçã pra Dois", Ed. Tartaruga, Chaves, 2001, p 14.
.
.

05/06/09

Foto de autoria do polaco Oiko Petersen. Este trabalho pertence
ao ciclo "Downtown Collection".


O AUTOR CONSTRÓI UM MODELO DO UNIVERSO QUE
OBEDECE APENAS À PRESENÇA VOLÁTIL DA AMADA


não há muito mais a fazer sobre o chão depois de se ter olhado
o mar cheirado a terra assistido ao verão incorrer
feroz no lugar das têmporas e ter
apontado decifrado a sujidade derramada sobre o planeta
sob a mudez das flores
porquanto eu admito haver ainda tanto a fazer e a desfazer
no mundo
rodar um complicado jogo de esferas mapear o
insondável lugar do amor
democratizar o perfume das populosas pétalas do gerânio
e da papoila vermelha tão próximas pétalas de um rosto
de natureza mais que babilónica
regresso sempre ao modelo geocêntrico do universo
centrado na amada
tudo gira em volta desse rosto lírio entre os cardos
esqueço a coperniciana construção do mundo amiúde imundo
muitas vezes hei-de voltar à mulher
como as ondas voltam num rigor de espuma aos versos de ruy belo
e desenho na aliterada elegância da paronomásia
o arquétipo da letra - minha ortografia copiada dos
extractos mensais do céu
que é o mesmo que dizer: resumi sempre os mistérios cósmicos
à deslumbrante assiduidade dessa face
anterior à graduação musical pitagórica pouco coeva destes pássaros
que crescem alheios a bach na folhagem e caem para o céu
contrários insurgentes sublevados às propostas de isaac newton
a quem começaram primeiro por obedecer as maçãs
e agora todo o universo se convencionou
julgo dizer nestes versos que nunca amei tão alto nesta cidade
que nunca os antigos pensadores da ásia ousaram de tanta liberdade
moral e estética que ninguém foi tão silencioso e inútil
frente ao mar do estoril onde esta tarde ateei dez cigarros dez
fortíssimos por causa das coisas
que nunca abri tanto o tórax que nem nunca os velhos pintores
mongóis do século dezasseis
saberiam copiar tão bem o entono de amamte amplo
frente ao mar de um mês frio de um ano bissexto
a balbuciar: amo-te todo o ano e neste fevereiro
ainda mais um dia
esperando nas palmas do século na miséria estíptica do país
o acelerar do degelo dos pólos para que o mar lave e leve de vez
esta terra que sempre publicitou a sua vocação para o mar
não há nada a fazer neste mundo a não ser o gesto de
circunscrever a amada entre as demais mulheres
pensar determinar métodos ficar em casa a escrever princípios
de exclusão e equivalência
tratados enigmáticos
que definam e representem num rigor alcoólico
um sistema livre de tudo o que não obedeça ao aferro
da amada


Miguel-Manso In "Quando Escreve Descalça-se", Ed. Trama Livª,
Lisboa, 2008, pp 16-17.
.
.

03/06/09

PRÉMIO CAMÕES 2009


O júri do Prémio Camões 2009 decidiu atribuir o galardão ao poeta cabo-verdiano
Arménio Adroaldo Vieira e Silva.
.
.
"Canto Final ou Agonia duma Noite Infecunda"
.
.
Como a flor cortada rente e desfolhada
ou os olhos vazados da criança
e o seu fio de pranto ténue e impotente
assim a noite caminha com os astros todos em vertigem
até que se atinge o ponto da mudez
a pesada mó triturando a sílaba
a garganta com as cordas dilaceradas
e uma lêmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida
.
Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro
tanto assim que a flor desfeita
não embala o coração do poeta
oh não
porque a flor defunta
se voa
não sobre nunca
e só dura
o espaço breve duma nota
.
Assim o canto se detém imóvel
como se da flauta
falhando súbito
na boca do poeta
ficasse o hiato
ou a saliva
de um tempo devassado por insectos cor de cinza
.
A voz suspensa e negada
cede a vez à letra amorfa
inscrita no silêncio
com seu peso
de chumbo e olvido
acaba o poema
e um ponto final selando tudo.
.
.
.
Arménio Vieira In "Vozes Poéticas da Lusofonia", Ed. Câmara
Mun. de Sintra, 1999.
.
.



"Cantiga do Batelão"



Se me visses morrer
os milhões de vezes que nasci

Se me visses chorar
os milhões de vezes que te riste...

Se me visses gritar
os milhões de vezes que me calei...

Se me visses cantar
os milhões de vezes que morri
e sangrei...

Digo-te irmão europeu
havias de nascer
havias de chorar
havias de cantar
havias de gritar

E havias de sofrer
a sangrar vivo
milhões de mortes como Eu !!!


José Craveirinha In "Xigubo", Edições 70,
Lisboa, 1980, p 36.
.
.

31/05/09


" Autogénese"
.
.
Nascitura estava
sem faca nos dentes
cómoda e impura
de não ter vontade
de bater nas gentes.
.
Nasce-se em setúbal
nasce-se em pequim
eu sou dos açores
(relativamente
naquilo que tenho
de basalto e flores)
mas não é assim:
a gente só nasce
quando somos nós
que temos as dores;
.
pragas e castigos
foram-me gerando
por trás dos postigos
e um fórceps de raiva
me arrancou toda
em sangue de mim.
.
Nascitura estava
sorria e jantava
e um beijo me deste
tu Pedro ou Silvestre
turvo namorado
do verão ou de outono
hibernal afecto
casca azul do sono
sem unhas do feto.
.
Eu nasci das balas
eu cresci das setas
que em prendas de sala
me foram jogando
os mulheres poetas
eu nasci dos seios
dores que me cresceram
pomos do ciúme
dos que os não morderam;
.
nasci de me verem
sempre de soslaio
de eu dizer em junho
e eles em maio
de ser como eles
às vezes por fora
mas nunca por dentro
perfil de uma estátua
que não sou de frente.
.
Nascitura estava
e mais que imperfeita
de ser sorte ou dado
que qualquer mão deita.
.
Eu nasci de haver
os bairros da lata
do dedo que escapa
dos sapatos rotos
da fome que mata
o que quer nascer
e que o sábio guarda
em frascos de abortos;
.
eu nasci de ver
cheirar e ouvir
dum odor a mortos
(judeus enlatados
para caberem mais
mas desinfectados)
pelas chaminés
nazis a sair
de te ver passar
de me despedir
de teus olhos tristes
como se existisses.
.
Nascitura estava
tom de rosa pulcra
eu me declinava
vésper em latim:
impura de todos
gostarem de mim.
.
.
.
Natália Correia In "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias - Vol I",
Projornal S.A., Lisboa, 1993, 319-321.
.
.

29/05/09





desarrumo essa estrela que estala nos teus olhos como alma que se
assopra ao sabor da substância das águas que não sendo lágrimas são a
cal suspensa dos lábios. que sendo casa são delírios que o vento arrasa.

que não sendo corpo é a tua asa sobre um relâmpago que é a nossa chegada.

íngreme o destino do instinto das tuas pupilas, onde me desenhas um
sinal. que sendo recente é antigo. próximo da música longe das estátuas.

que te abrasam como palavras cegas... tão dolorosamento cegas.

e se é ao sul que os animais se estendem ao sol estendo-te a memória.

faz-me um nome. um só que seja. só uma sílaba. tu sabes que a morte é
um grito. sufocado e laço. nó que te desato. para que me sejas o
assombroso movimento de um bicho de seda. distância lenta na tua
pele. sempre adiante.

sempre pálpebra delicada... macio dedilhar onde te cuido a favor do
tempo... taça de espuma selvagem onde te declaro mais puro.
e se disser que te amo? como ilha convulsiva?
e se disser que me és MAIOR na orla das marés e que me invades como um
osso fino... que dirás amanhã... quando o dia te fizer carta ou
pássaro?


Isabel Mendes Ferreira In "Os dias do Amor - Um poema para cada dia
do ano" (Antologia organizada por Inês Ramos e prefaciada por Henrique
Manuel Bento Fialho), Ministério dos Livros Editores, Parede, 2009, p 300.
.
.

26/05/09

Pátio interior do Plalácio Ducal de Urbino. obra do arquitecto dálmata Luciano Laurano. Este palácio considerado um dos mais belos de todo o Quattrocento italiano, teria influência directa da obra de Bramante, que nele passou a Juventude.
J. Pijoan, História da Arte - Vol. 5, Publicações Alfa, Lisboa, p 121.
.
.
Primeira Carta
.
Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa. Há-de então este afastamento, para o qual a minha dor, por mais subtil que seja, não encontrou nome bastante lamentável, privar-me para sempre de me debruçar nuns olhos onde já vi tanto amor, que despertavam em mim emoções que me enchiam de alegria, que bastavam para meu contentamento e valiam, enfim, tudo quanto há? Ai!, os meus estão privados da única luz que os alumiava, só lágrimas lhes restam, e chorar é o único uso que faço deles, desde que soube que te havias decidido a um afastamento tão insuportável que me matará em pouco tempo.
Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta. Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por toda a parte e, em troca de tanto desassossego, só me trazem sinais da minha má fortuna, que cruelmente não me consente qualquer engano e me diz a todo o momento: Cessa, pobre Mariana, cessa de te mortificar em vão, e de procurar um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebatamento e nem sequer sabe agradecer-to. Mas não, não me resolvo a pensar tão mal de ti e estou por de mais empenhada em te justificar. Nem quero imaginar que me esqueceste. Não sou já bem desgraçada sem o tormento de falsas suspeitas? E porque hei-de eu procurar esquecer todo o desvelo com que me manifestavas o teu amor? Tão deslumbrada fiquei com os teus cuidados, que bem ingrata seria se não te quisesse com desvario igual ao que me levava a minha paixão, quando me davas provas da tua.
Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza sirva agora só para me torturar o coração? Ai!, a tua última carta reduziu-me a um estado bem singular: bateu de tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. Fiquei tão prostrada de comoção que durante mais de três horas todos os meus sentidos me abandonaram: recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a não posso guardar. Enfim, voltei, contra vontade, a ter a luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, além do mais, era um alívio não voltar a ser posta em frente do meu coração despedaçado pela dor da tua ausência.
Depois deste acidente tenho padecido muito, mas como deixarei de sofrer enquanto não te vir? Supoorto contudo o meu mal sem me queixar, porque me vem de ti. É então isto que me dás em troca de tanto amor? Mas não importa, estou resolvida a adorar-te toda a vida e a não ver seja quem for, e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais ninguém. Poderias contentar-te com uma paixão menos ardente que a minha? Talvez encontrasses mais beleza (houve um tempo, no entanto, em que me diizias que eu era muito bonita), mas não encontrarias nunca tanto amor, e tudo o mais não é nada.
Não enchas as tuas cartas de coisas inúteis, nem me voltes a pedir que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e não esqueço também a esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo. Ai!, porque não queres passar a vida inteira ao pé de mim? Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumpriumento da tua promessa: iria eu, sem guardar nenhuma conveniência, procurar-te, e seguir-te, e amar-te em toda a parte. Não me atrevo a acreditar que isso possa acontecer; tal esperança por certo me daria algum consolo, mas não quero alimentá-la, pois só à minha dor me devo entregar. Porém, quando meu irmão me permiitiu que te escrevesse, confesso que surpreendi em mim um alvoroço de alegria, que suspenseu por momentos o desespero em que vivo. Suplico-te que me digas porque teimaste em me desvairar assim, sabendo, como sabias, que terminavas por me abandonar? Porque te empenhaste tanto em me desgraçar? Porque não me deixaste em sossego no meu convento? Em que é que te ofendi? Mas perdoa-me; não te culpo de nada. Não me encontro em estado de pensar em vingança, e acuso somente o rigor do meu destino. Ao separar-nos, julgo que nos fez o mais temível dos males, embora não possa afastar o meu coração do teu; o amor, bem mais forte, iniu-os para toda a vida. E tu, se tens algum interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me.
Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.
.
.
.
"Cartas Portuguesas" atribuídas a Mariana Alcoforado, edição bilingue,
prefácio e tradução de Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Lisboa,
1998, (Primeira Carta) pp 16- 19.
.
.

22/05/09


.
                 " POEMA DE NAVIDAD "

En navidad no te olvides de limpiarte las legañas
y de indagar por dentro de los ojos el pulso del mundo.
Limpia las caños de las escopetas,
para que después no pierdas tiempo al disparar.
Respira. Hazte una limpieza de cútis, quítate
todas las espinillas y prepárate para la cena.
Dale una sopa a los pobres, tira piedras a las latas,
acaríciale el pelo al perro, aunque tenga pulgas.
En navidad hasta las pulgas son bienvenidas. Respira.

En navidad dale cuerda a los muñecos, programa las cuerdas
vocales para un playback hospitalario y carcelario.
Reparte canapés entre los vagabundos, los forajidos,
los dictadores acosados. Prepárate para un (a)balanceo.
Respira. En navidad alégrate con tu cuenta a cero,
con el patrón con la bolsa azul al hombro, con los espantajos
cotidianos, con las huelgas de la huelga,
con la mensulidad vestubular en una patada de misericordia.
En navidad sic. Porque en navidad toodos los demonios son buenos.

Por lo menos un dia al año: olvídate del mundo
que se extiende más allá de las fronteras.
Quédate en un viaje detenido, quédate:
detenido - como un sonido que se balancea dentro del cuerpo,
como una piedra que sangra en la piel de un cuerpo callado.
Que ese sea el dia de navidad. Aunque estes obligado
a pagar el peaje de un suicida más que no cree
en la expiación universal de los pecados particulares,
en navidad dame un abrazo y no digas que fuiste de aquí.


Henrique Manuel Bento Fialho In " BALUERNA - Cuadernos del Viajero
(nº 29)", trad. Antonio Sáez Delgado, Estación de Autobuses, Cáceres, 2008.
.
.

18/05/09




           "Atlântico"


Sempre que atravesso o oceano
suspeito que algo se abre na distância
quando cruzo o crepúsculo sem pássaros
é como se começasse a viver de novo
mas uma vida outra/ desprendida
de um passado até agora inexplicável

clemências e longínquas efusões
assomam implacáveis na massa de nuvens
talvez para medir o meu esboço de infinito
e há pobres abalos de uma verdade a toda a prova
um rufar de tambores que perturbaram o descanso
marcas de esperanças ou de tédio

por isso sempre que atravesso o oceano
os ouvidos isolam-me/ a memória zumbe
as hospedeiras oferecem o seu sorriso estudado
e o piloto encarrega-se da minha alma
é como se morresse por instantes
mas uma morte nova/ em equilíbrio


Mario Benedetti In "O Mar na Poesia da América Latina",
Assírio & Alvim, Lisboa, 1999, p 385 (Organização de Isabel
Aguiar Barcelos e Tradução de José Agostinho Baptista).
.
.

17/05/09

"Alone" fotografia de Ivan Bajic (Hungria, 2009).


"Luto"

Os amigos são feridas antigas que crescem
connosco. Feridas que por vezes cicatrizam,
deixando-nos inteiramente contra o vento.
Aconchegados a uma arrastada melancolia,
ingerimos pequenas doses de substâncias letais,
coisas que nos dão cabo do canastro, por assim dizer.
Eis, em suma, o desalento com a vida
que entretanto nos assola, presos
a uma espécie de amargura e de desejo.

Porém, o instinto de sobrevivência
é a ferramenta mais espalhada no mundo.
Toda a gente aprende a utilizar esse recurso.

E não falo do modo como reconhecemos as aves,
as plantas. Ou de como construímos abrigos
nocturnos nas copas das árvores.
Falo simplesmente de uma grande habilidade
para limpar o local do crime:
admitimos sempre que melhores dias virão;
faz parte da nossa essência.
Pois bem, cortámos o alarme agora mesmo.
De quanto tempo precisamos, afinal?


Vítor Nogueira In "Comércio Tradicional", Averno,
Lisboa, 2008, p 32.
.
.

15/05/09

PRÉMIO NACIONAL POETA RUY BELO 2009


GRAÇA PIRES GANHA O PRÉMIO NACIONAL POETA RUY BELO 2009
.
.
COM O LIVRO " O SILÊNCIO: LUGAR HABITADO "
.
.
.
O referido Prémio será entregue, em Sessão Solene na Biblioteca Municipal
.
de Rio Maior, no dia 20 de Junho pelas 11h,30.
.
.

S. João da Cruz traduzido por...

ESPOSA

Aonde te escondeste,
Amado, que me deixaste com tal gemido?
Como veado correste,
Tendo-me ferido;
Saí atrás de ti clamando, mas já tu eras ido.

Pastores, vós que ides
Além pelas malhadas do outeiro,
Se por ventura virdes
Aquele que mais quero,
Dizei-lhe que peno, morro e espero.

Buscando meus amores,
Irei por esses montes e ribeiras,
Nem colherei flores,
Nem temerei feras,
Antes passarei fortes e fronteiras.

PERGUNTA ÀS CRIATURAS

Oh bosques e matas de tanta espessura,
Tudo plantado pela mão do meu Amado!
Oh prado de verdura,
De flores esmaltado,
Dizei-me se por vós ele tem passado!

RESPOSTA DAS CRIATURAS

Mil graças derramando,
Passou por estes soutos com ligeireza,
E para eles olhando,
Com sua figura e destreza,
Vestidos os deixou de beleza.

ESPOSA

Ai quem me poderá curar?
Vem, entrega-te em acto puro e verdadeiro,
Não insistas em enviar
Nenhum outro mensageiro,
Que não saiba o que quero primeiro.

Pois todos os que me vêm visitar,
De ti mil graças vão contando,
E todos acabam por ulcerar,
Pelo que vão balbuciando,
O que em mim se vai finando.

Mas, como podes insistir,
Oh vida, não vivendo onde vives?
Levam-te daqui a partir,
Os dardos que recebes,
Do que do Amado concebes.

Porquê, pois, teres golpeado
Este coração, não o curando,
Já que mo tinhas roubado?
E porquê ires assim deixando,
Todo o saque que vais tirando?

Que meus pesares, por ti, apagados sejam,
Já que nenhum outro os pode desfazer,
E que meus olhos, por fim, te vejam,
Pois és a luz que os faz ver,
E só por ti os quero ter.

Revela-me a tua presença,
Mata-me com essa aparição e formosura;
Olha que toda a doença
De amor, apenas se cura
Com a presença e a figura.

Oh fonte de cristal tão brilhante,
Se nesses teus traços prateados,
Formasses num mero instante,
Esses olhos almejados
Que em mim tenho desenhados!

Afasta-os, Amado,
Que meu voo se inicia!

ESPOSO

Volta, pomba, para meu lado,
Que o cervo magoado
Pelo outeiro aparece
Ao ar do teu voo, e aí reverdece.

ESPOSA

Amado meu, as montanhas,
Os vales solitários e nemorosos,
As ilhas estranhas,
Os rios rumorosos,
O silvo dos ventos amorosos.

A noite sossegada
Aquando do surgir da aurora,
A música silenciada,
A solidão sonora,
A ceia que alegra e enamora.

.........................

Oh ninfas da Judeia,
Enquanto que nas flores e roseirais
O âmbar balanceia,
Ficai onde morais,
Sem quererdes tocar nossos umbrais!

Esconde-te, Amado,
E olha com tua face as montanhas,
Mas nada querendo enunciado:
Observa também as companhas
Da que vai por ilhas estranhas.

............................

Desfrutemo-nos Amado,
E vejamos na tua formosura
O monte e o colado,
Donde brota a água pura;
Entremos mais adentro na espessura.

E logo nas subidas
Em cavernas de pedras entraremos,
Que estão bem escondidas,
Mas ali iremos,
E o mosto das romãs provaremos.

Ali me mostrarias
Aquilo que minha alma pretendia,
E depois me darias
O que me deras noutro dia,
Tu, vida, que eu tanto requeria.

O aspirar do ar,
Do rouxinol a doce cantilena,
O bosque e seu embelezar
Na noite serena,
Com chama que consome e não dá pena.

Que ninguém o olhava,
Aminadab tão-pouco aparecia,
E o cerco sossegava,
E a cavalaria
Ao ver as águas descia.


S. João da Cruz In "Poemas de S. João da Cruz",
Coisas de Ler Ed., 2002, pp 17-35. (Edição bilingue
com tradução de Victor Oliveira Mateus).


Nota - Traduzir é sempre uma tarefa bastante complexa, sobretudo
quando estamos frente a grandes textos de poesia. No caso presente
tenho consciência de ter feito um trabalho bastante discutível, pois
estava frente a um autor cujas obras em prosa dominava (e domino)
razoavelmente. Ainda hoje considero "A subida ao Carmelo" o grande livro
de João da Cruz, por isso sacrifiquei aspectos formais desta poesia à coerência
interna de um pensamento. Nestas questões muitas são as opções e todas elas legítimas!...
Aqui usei, como base de trabalho, a edição do Padre Silvério de Santa
Teresa, C.D. (obras de San Juan de la Cruz, Burgos, 1929-31).
.
.

14/05/09


"Canção do Exílio"

Galápos e Polinésias,
apesar destes trajes
debruados de pudor e pó
e das cargas e trastes
de cárceres cidades,
apesar desses mares
a esbravejarem entre nós
sempre crespos e cruéis,
vos habito assídua
oh chãos céus de paraíso,
meus instintos a pastarem
entre a pureza das pedras
e a solicitude do capim.
A pressa inútil relegada,
eu irmã de tartarugas e lesmas
fruindo a madrugada sem fim.


Astrid Cabral In "Poesia Viva em revista",
Rio de Janeiro, 2008, p 109.
.
.
"Revelação do Vento"


Quietas quedam-se árvores.
A flor, o singular alarde
da discreta vida em surdina.
No entanto, se ágil na tarde
o ar acorda e em pranto sopra
as árvores se põem loquazes:
gesticulam abraçam dançam
sussurram cochicham cantam.
É quando súbito enxergamos
a prisão de troncos e ramos
e a longa noite das raízes.


Astrid Cabral In "Poesia viva em revista",
Rio de Janeiro, 2008, p 11o.
.
.

13/05/09

A poesia e a questão do fingimento.

" Paul Veyne, o grande historiador da cultura, assevera que, desde Petrarca (1304-1374), todos nós, leitores de poesia, nos habituamos a divisar, no recesso de toda obra poética, a voz particular de um ego que expõe publicamente suas dores e alegrias pessoais, historicamente datadas e situadas. A partir daí, ao contrário do que ocorria na Antiguidade, quando era aceita como uma forma de encenação, a poesia lírica passa a ser encarada como confidência íntima. Camões, nosso petrarquista exemplar, colabora para endossar e reforçar o hábito, alertando-nos: "Sabei, pois, que segundo o amor tiverdes/ Tereis o entendimento dos meus versos". Desde então, o primado da voz particular e da subjectividade, que irmana sujeito-poeta e sujeito-leitor, tem sido encarado como verdade inquestionável, uma segunda natureza, indissociável do lirismo confessional. Poesia passa por ser isso mesmo, entrelaçamento de subjectividades, sensíveis e permeáveis, propiciado pela franqueza com que o poeta nos expõe sua subjectividade modelar. Tal franqueza faculta a todos, dos primeiros leitores de Petrarca aos leitores dos poetas nossos contemporâneos, o acesso a esse entrelaçamento, que nos mantém na firme convicção de que estamos fortemente ancorados na realidade (a mesma dos poetas, pois não?), quando talvez estejamos apenas a alimentar a fantasia de que assim seja - ludibriados ou pelo engenho e a arte dos poetas, ou pela força da inércia.
Hoje sabemos (a malícia pós-moderna nos põe a salvo dessa ilusão, embora não nos torne imunes a outras) que nem em Petrarca, nem em Camões, nem em nenhum dos nossos grandes poetas, antigos e modernos, o ego que nos fala em seus versos "retrata" a subjectividade ou a vida privada do cidadão responsável por esses mesmo versos. Hoje preferimos falar em "eu lírico", para contrapô-lo à conjectura de um "eu empírico", e já não exigimos do poeta a franqueza ou a "sinceridade" que dele se esperava, desde os tempos de Petrarca.
(...) A linguagem humana não tem como "dizer" o mundo. Schopenhauer não hesita: "O mundo é a minha representação do mundo", e certa pós-modernidade nos convencerá de que tudo são relatos, tudo são discursos - ficções que variam ao infinito, supostamente no encalço de uma subjacente verdade singular (a verdade do eu ou a verdade do mundo), à qual não temos acessos. Ao proferir "eu", Petrarca, Camões, Hoelderlin - qualquer poeta - já não tem mais como "dizer", com "sinceridade" o que lhe vai pela vida íntima. O que daí provém será sempre simulação, representação figurada, encenação - tal como o fora, entre os antigos, e, ao que parece, nunca deixou de ser. Rimbaud admite: "Je est un autre", ciente de que isso vale para toodos os poetas - os que sabem, como Fernando Pessoa, e os que não sabem que o poeta "finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente".
.
.
Carlos Felipe Moisés
.
.
.
(Nota - Todas as discussões, francas e despojadas, são enriquecedoras. Não teria chegado a uma série de textos sem uma delas... )
.
.

12/05/09


AVISO: A TROVA MEDIEVAL QUE SE SEGUE CONTÉM PALAVRAS VULGARMENTE
CHAMADAS DE "PALAVRÕES"!
.
.
Elvira Lopez, muito mal sabeis
acautelar-vos com esse peão
que anda convosco e tem a pretensão
de dormir convosco e não entendeis.
Tenho medo que, se ele vos surpreender
algures sozinha e se vos foder,
esse engano nunca comprovareis.
.
.
Ele sabe sempre onde vós jazeis
e vós não sabeis dele vos resguardar
porque abandonais em qualquer lugar
a vossa maleta (1) e quanto trazeis.
Dizei-me ora, Deus vos dê o perdão:
se, de noite, vos foder o peão
em que lugares o procurareis?
.
.
Digo-vos, pois, o que esperar podeis
desse peão que vós trazeis assim,
convosco, por aqui e por ali:
Vós, um pouco, por certo, dormireis
e o peão, se vontade tiver
de foder, foder-vos-á, se quiser
e nunca o que é vosso retomareis.
.
.
Porque vós direis: - Fodeu-me o peão!
E dirá ele: - Boa senhora, eu não!
E com que provas o acusareis?
.
.
Joan Garcia de Guilhade In " Cantigas obscenas de escárnio
e maldizer" (Org. e Pref. de Orlando Neves), Editorial Notícias,
Lisboa, 2004, pp 52-53.
.
.(1) A palavra "maeta" (maleta, em português contemporâneo) podia ser
usada para designar o sexo da mulher.
.
.
.
Joan Garcia de Guilhade - parece provado que este trovador, durante algum tempo tido
como galego, nasceu em Guilhade, povoação do concelho de Barcelos. Viveu nos meados do
século XIII e frequentou as cortes portuguesa e castelhana. É dos mais fecundos e originais
poetas dos cancioneiros. Dele chegaram até nós 54 poemas.
.
.

11/05/09



"Poema 12 do Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama"


O que difere deste e do outro verso
que pus num outro jarro e esqueci
é que este não caiu no jarro certo
- jarro chinês - e não regou o lis.
As rimas não caíram como consta
que do outro jarro caem as que não quis;
tentei, em vão, reproduzir a nota,
não sei se veio sol, se lá ou si.
Alguém andava sobre o meu cavalo,
andava sem vestido e sem viseira:
de tudo quanto vi, sei que não falo;
só falo parte, o espinho da roseira,
que, sendo espinho, fere e maravilha
um cravo ignoto, o verso de outra ilha.


Érico Nogueira In "O Livro de Scardanelli",
Ed. Realizações, São Paulo, 2008, p 47.
.
.
.
"Poema 10 de Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama"


Orelhas minhas, que joguei na água,
aonde ides para me escutar,
a que salgado, plúmbeo recital
ides nadando assim, com a minha chaga?
Orelhas, auscultai a minha draga
e me dizei como é e como está;
aquela mancha negra, a rodear,
é ave que prediz alguma praga?
" È sempre o mesmo ritmo, seco ritmo,
embalado no mar, no mar molhado,
que não acaba nunca em algoritmo,
que não compassa o que é descompassado;
é som de draga arfante, e entupida,
que traga com o entulho a própria vida."


Érico Nogueira In "O Livro de Scardanelli",
Ed. Realizações, São Paulo, 2008, p 45.
.
.

05/05/09

... gostava das minhas vozes a ecoar a uma só voz no silêncio...


"Reflexos"

Eu sabia das histórias dos jacintos que cresciam nos jardins da casa grande, que, à noite, enquanto eu dormia, velavam os meus sonhos. Porque, em cada madrugada, eles se abriam
para mim num sorriso.

Mas também sabia dos peixes multicores que, dentro do aquário, rejeitavam a sua prisão.
Debatiam-se, nadando violentamente contra o vidro para chamarem a minha atenção. Resolvi
libertá-los e deitei-os a nadar livremente dentro do poço grande.

Mas, um dia, um pássaro entrou violentamente pela janela e pousou veloz sobre os meus
ombros franzinos. Estava ferido e não tinha olhos de pássaro. Eu ainda o tratei mas ele nunca
mais voou. Um dia depois caiu repentinamente morto no chão da sala. Eu conhecia a palavra
morte, mas não sabia o significado da morte.

Sabia ainda que as palavras poderiam ter a cadência que eu lhes quisesse dar. Por isso,
gostava das minhas vozes a ecoar a uma só voz no silêncio das colinas, e ainda me lembro
da doçura das manhãs na aldeia, enquanto fazia desenhos de água nas pétalas dos lírios tão frágeis quanto eu.

Hoje, eu sei mais do que sabia nessa altura. Porém, apenas sinto os reflexos da morte dos jacintos, dos pássaros e dos peixes, que nesta manhã me assaltaram cruelmente, enquanto lá
fora os sonhos já não existem e a casa grande apenas resiste ao tempo...


Piedade Araújo Sol (Inédito).


Nota - agradeço à autora a autorização dada para publicar este texto neste meu blogue.
Para mais elementos consultar o blogue " olhares em tons de maresia "
(http://www.olharemtonsdemaresia.blogspot.com/)
.
.

04/05/09




      "Domingo"


Hoje é o dia dos senhores
e dos sóis em algumas línguas. Noutras
já foi ontem ou será depois, conforme
o cansaço divino sucedeu ou
não ao sétimo dia. Vária
gente irá aos templos ou ao parque
passear o cão. É dia de
visitar o lar de idosos ou de
abastecer a nossa arca
congeladora. Os pais solteiros levam
os filhos a comer pizza e outros
putativos progenitores recuperam
as horas de sono convivialmente
líquidas. O ar das ruas
é mais leve devido à pausa de
domingo. Ao menos hoje acontece
algo de bom em nome de Deus.

Inês Lourenço In " Logros Consentidos", & etc., 2005, p15.
.
.

03/05/09




Cresço no íntimo de tua carne
como fruto túmido,
tombado de um paraíso esquecido.

Em volutas adenso-me
num mar selvagem:
centauro de múltiplas águas
a queimar os muros do teu sonho,
do teu inominado mistério.

Nesse resfolegar de patas e crinas,
desvario de lençóis e adagas,
nos ilimitamos nas sinfonias,
nos adágios tatuados em nossos pulsos.

Eis que do fundo da noite
emerges numa explosão
de ilimitados astros:
cometas a rasgarem tua glande ereta,
coice sobre o meu rosto em vivo êxtase...


Alexandre Bonafim In "Sob o silêncio do anjo",
Ribeirão Ed., Franca-S.P., 2009, p 40.

01/05/09


"burocracia do fim de uma longa amizade"


serve para lhe dizer, senhor
a. n., que depois do que
me fez, levei ao lixo cada objecto
que conservava a sua memória e que
eduquei a cabeça a pensar só em
excrementos sempre que por inércia
me quiser aborrecer com lembranças
do que vivi perto de si. que tolice, a
cabeça prega-nos truques, mas com o
presente estará sanado o vício e o
senhor, de vício, passará a ser um
cidadão livre da minha admiração e
cuidado. vai escrito aos dias vinte
de abril de dois mil e sete e vigora
em território nacional e comunitário
por aplicação directa e no resto do
mundo por força dos acordos tácitos
de quem tem vergonha na cara. no mais,
saiba que este poema o obriga a não
chegar à minha pessoa a menos de
vinte mil metros e a não me dirigir
palavra. com vocação para toda a
vida, este poema não é nada comparado
com a traição de que foi capaz. já penso
em excrementos quando escrevo
estes últimos versos e o meu coração
fecha-se naturalmente a toda e qualquer
ternura da sua amizade

valter hugo mãe In "folclore íntimo", Cosmorama Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2008, p
.
.

27/04/09




"Salomé após o crime"

Quantas vezes te vi
e me surprendi porque te olhava?
Sentindo a tentação de te espiar
e o desejo de amar
o que não tinha

Como saber
pelos sonhos mais nus
que me assaltavam
que eu não era paisagem
para ti?

Dizem luxúria só
onde houve amor
e um crime tão enorme de luxúria
mas eu quis-te indefeso
como festa
os teus lábios a festa para mim

Quantas vezes me vi
pensando no meu crime
e na história dos homens
a julgar-me!

Mas o que eu li
na bandeja do crime
foram os olhos com que tu
me olhavas
(finalmente eu paisagem)

e a luxúria
que há sempre
no amor


Ana Luísa Amaral In "Às Vezes o Paraíso", Quetzal Editores,
Lisboa, 1998, pp 100-101.
.
.

25/04/09




"Quem sou eu? Qual é o meu nome? Quais são os meus títulos de nobreza? Nada, nada. Sou um servo e nada mais. Nada me pertence, nem sequer a vida. Deus é dono de mim, dono absoluto, para a vida e para a morte. Pais, parentes, senhores do mundo: o meu único e verdadeiro dono é Deus.(...) Diante dele, permaneço em sentido, imóvel, como o mais pequeno soldado perfilado perante o seu superior, disposto a tudo, inclusivamente a lançar-me ao fogo. Este deve ser o meu ofício durante toda a minha vida, porque nasci assim; sou um servo. Devo considerar-me sempre nesta condição de servo; não tenho um único momento em que possa ocupar-me de mim mesmo, servir o meu capricho, a minha vaidade, etc. Se o fizer, sou um ladrão, porque roubo um tempo que não é meu, sou um servo infiel, indigno de recompensa. Ai de mim, é o que tenho feito, que confusão, que vergonha.Tanta soberba e presunção, pois nem sequer sei ser servo. (...) Por isso, quando me sirvo das criaturas para meu prazer, transtorno a ordem da Providência, quebro a admirável harmonia do universo..."
.
.
João XXIII In "Diário da Alma", Paulus Ed., Lisboa, 2000, pp 110-112.
.
.

23/04/09



"O Futuro"

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.


José Carlos Ary dos Santos In "Obra Poética",
Editorial Avante, Lisboa, 1994, p 389.
.
.

22/04/09

as palavras... ainda


o meu agradecimento aos blogues que, nas últimas semanas, publicaram poemas meus,
de livros antigos ou recentes, e dos quais destaco apenas os que vi: "ao longe os barcos de flores", "Logros consentidos", "Maquina Royal", "piano", " Ortografia do olhar", "o pó da escrita", "sulmoura", "Dois Rios", "Magazine"...
Percebi o apoio e... não sei como se agradecem coisas destas! Talvez deixando aqui a foto
da Eugénia Bettencourt... Todos conhecemos esta voz, que, durante anos, na Antena 2, nos
"Sons Férteis", disse textos de muitos e muitos poetas. Talvez possa agradecer-vos com a
foto de uma actriz... aqui dizendo poemas meus, mas que gostariamos de rever (ou reouvir?)
numa reposição do "Sons Férteis"...

20/04/09


"Buscador"

Dónde vas buscando rosas
si el rosal lo tengo yo?
Cada dia y cada noche,
dónde vas buscando amor?

Buscador de las cien puertas
en la búsqueda sin fin.
Cuando las cien puertas abras
Habrá otras cien por abrir.

Buscador,
lo que tú buscas lo tengo
dentro de mi corazón.
Buscador, convéncete:
yo tengo lo que tú buscas
y no me quieres tener.

Tu sed, tus ojos, tus manos
nunca dejan de buscar.
Buscador de las cien rosas
separadas del rosal.

Buscador de las cien puertas
y las cien olas del mar.
Cuando encontres lo que buscas
será espuma y se te irá.

Buscador,
lo que tú buscas lo tengo
dentro de mi corazón.
Buscador, convéncete:
yo tengo lo que tú buscas
y no me quieres tener.

António Gala


Nota - este poema foi tirado do CD "Clara Montes canta a Antonio Gala".
.
.

18/04/09

Icelake (Alberta) foto do canadiano Darwin Wiggett
.
.


Quand je ne pense pas à toi, je pense à toi. Quand je
parle d'autre chose, je parle de toi. Quand je marche
au hasard, j'avance vers toi.
Je quitte les livres où tu n'entres pas. Je jette les poèmes
qui ne trouvent pas tes lèvres. J'efface les tableaux qui
n' attirent pas tes yeux. J' éteins les chansons qui
n'éveillent pas ta voix.

André Velter In "L'amour extrême et autres poèmes pour
Chantal Maudit", Éd. Gallimard, Paris, 2007, p120.
.
.

16/04/09

FERNANDA DE CASTRO, um afectuoso olhar sobre o quotidiano...

"Haute Couture" foto, do ciclo "Rêves et Désirs", de autoria de Gilles de Beauchêne.


"O Saco de Retalhos"

Velho saco, onde estavas? No baú
das coisas mortas,
esquecidas como tu?
Guardado na gaveta
como as sedas, as cassas,
os ramos de violeta,
a poeira e as traças?

Velho saco, onde estavas? Pendurado
numa daquelas portas
que um dia se fecharam
sobre a infância, o passado,
e nunca mais se abriram?

Ou no sótão,
na trouxa dos farrapos,
misturado com os trapos?

Velho saco dos tempos esquecidos,
nos teus retalhos desbotados
reconheço os meus bibes,
as chitas e os percais dos meus vestidos.

Estes velhos riscados
foram saias, corpetes, aventais
de criadas que então eram meninas.
E estas cambraias, estas sedas finas,
usou-as minha mãe.

Ó velho saco, feito de retalhos,
rever-te fez-me bem.
Este linho desfeito, remendado,
foi lencol de noivado,
e quantas vezes te vi pôr na cama,
ó minha ama,
esta chita vermelha de ramagens.
Meu velho saco, meu livro de imagens,
rever-te fez-me bem.

Não sei, porém,
que travo amargo esta alegria tem,
que tristeza me fez, que nostalgia,
ver surgir na distância
a minha infância,
descosida, em farrapos,
e reencontrar a minha mocidade
remendada e puída
numa saca de trapos.

Ó saco, ó velho saco de farrapos,
já não sei, afinal,
se ver-te me fez bem ou me fez mal.

Fernanda de Castro In "70 Anos de Poesia", Fundação Eng. António de Almeida,
Agosto, 1989, págs. 126-127.
.
.

11/04/09



um amante assim nunca houve, disse cleópatra.

quando o vi chegar como poderia supor o que
vos afirmarei?

cabisbaixo,
apoiado naquele bordão de forma imprecisa,
o andar errante,
os lábios trémulos, febris...

e os gestos eram de muito longe, como quem vem de
muito longe,
gestos de rei ultrajado, assim pensei.

e o olhar, ah aquele olhar líquido, fundo,
de cão perdido,
despindo a paisagem, o pomar e o vale e o meu
corpo em fogo,
refulgindo no ouro das vestes,
nas preciosas pedras, diamantes tantos, no
peito, nos dedos, revestindo os cabelos...

nunca houve um olhar assim,
rasgando a carne, as entranhas, a minha alma nómada
e repleta de impressões.

ninguém soube ao certo donde vinha,
que regiões conhecera,
que destino o trazia ali, ao império do oriente, ao
reino de alexandria.

o oráculo, afrodite a pitonisa, ptolomeu o sábio e
orim o mensageiro eunuco, só o nome retiveram-

jeremias JEREMIAS -- vejam lá!

alguém partira entretanto, no rumo da terra
fenícia e da terra síria, combatendo sempre.

por isso jeremias conheceu a cidadela, a orgia,
os banquetes e a arte,
o palácio e os aposentos do palácio
e no mais vasto e indescritível adormeceu.

quando o procurei,
trémula e inebriada e só, ele nada disse e
tomou-me a mão

e fomos descendo, descendo
o nilo antes da cheia,
ouvindo a sua voz divina,
sentindo a sua boca que me subia na mais lenta
lentidão em delírio.

nunca houve um amante assim...
alguém era o senhor da guerra, dos exércitos
e da frota,
o senhor do vinho,
o senhor do êxtase;

jeremias era o deus implacável, avassalador e
estranho.

devorando o meu corpo perfeito,
louco de lágrimas e riso,
gemidos, gritos...
ardendo ardendo...

e a rainha que eu era desfalecia através do
oriente,
abandonada àquelas mãos ávidas,
àquela boca que subia na mais lenta
lentidão, em delírio,

enquanto íamos descendo, descendo o
nilo da minha vida.


José Agostinho Baptista In "Biografia", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2000, pp 120-122.
.
.