04/08/09
"Condomínio Fechado"
Ficou o cedro enorme, disseste, o que guarda
os nossos afectos e as conversas avulsas dos outros:
o lugar de todas as passagens é agora o centro
do vazio que sobe das raízes até ao horizonte
se houvesse horizonte, ao menos um pouco de ar.
O cedro e os segredos antes de corrermos para o forte,
de combinarmos as guerras maninho,
de sabermos que tudo ia ruir, menos o cedro, dizes.
Que adiantaram as nossas vitórias? As derrotas dos outros
deixaram-nos a memória ruidosa de um cedro, o ouvido
disperso pelas folhas e o silêncio magoado a toda à volta.
Combinávamos a vida, o alvoroço da folhagem.
Agora o telefone toca por engano - não mora aqui ninguém
com esse nome, todos moramos num ecrã de televisão
com vista para o mar. Eu só lembro o tufão que te arrancou:
nós torciamos o bibe com mãos nervosas e as mãos
dos homens refaziam os alicerces agasalhando-te
na terra fértil. Cheirava a estrume e nós sabíamos
que a vida voltava - na folhagem luziam os afectos
que limpam o tempo depois da tempestade. Guardião
do templo, para quem guardas as nossas vozes
se nós mesmos perdemos os ouvidos e as mensagens
não chegam até nós? Pelo sim, pelo não
maninho, deixa ligado o telemóvel.
Rosa Alice Branco In "Da Alma e dos Espíritos Animais", Campo das Letras Ed.,
Porto, 2001, pp 37-38.
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03/08/09
"A noite, se existiu, foi para nós um erro"
"Telhados de Lisboa", quadro de Maluda."manhã"
É um pequeno milagre, esta claridade.
Os telhados acendem-se como fornalhas,
permanece vermelha uma parte do céu.
A noite, se existiu, foi para nós um erro
de perspectiva, uma ilusão, um ardil de
sombras e estrelas perdidas no escuro.
Agora é de um azul sem mácula, o céu;
a cidade, um corpo branco a levantar-se;
e esta luz - rasa, rosa, crua - já não um
pequeno milagre, mas uma evidência.
José Mário Silva In "Luz Indecisa", Oceanos/LeYa, Alfragide, 2009, p 48
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"Agora vejo a poeira suspensa na luz"

"ich habe genug (bwv 82) "
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Não é uma questão de lógica.
O milagre está muito além
da pauta, a lenta melodia do oboé
desenhando uma arquitectura aérea.
Agora vejo a poeira suspensa na luz,
o apogeu do outono numa cidade
que se recusou a ser minha, as
armas serenas da tristeza. A voz
de Hans Hotter - tão escura, tão
funda, tão resignada - traz-me
ainda uma capitulação feliz.
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José Mário Silva In "Luz Indecisa", Oceanos/LeYa, Alfragide, 2009, p 42.
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30/07/09
"Soneto das Sombras das Moças em Flor"
Aonde estão as moças que floriam
a primavera azul de Itapuã
desabrochando os corpos que vendiam
na incerteza que mancha o amanhã?
Aonde estão estas meninas? Mora
nas árvores a chuva, o vento, o frio:
o inverno se assentou de vez agora;
pouca lembrança há-se restar do estio -
Só uma nesga de sol que se insinua
sobre as mesas de plástico molhadas;
só uma réstia de vida veste a rua:
os raros transeuntes nas calçadas.
Neste deserto, sob um céu sem cor,
procuro as sombras das moças em flor.
Ildásio Tavares In "As Flores do Caos", Editª Labirinto, Fafe, 2009,
p 33 ( Prefácio de Casimiro de Brito).
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"Dor e glória partilharam, afinal, homens e deuses que,
por terra e mar, vaguearam sem destino!" - considerou
o prestável Eumeu, depois de tantas coisas termos dito,
em seu casebre, nessa noite, não longe do lugar onde, ao
romper da Aurora, não tardaria a desembarcar Telémaco,
para preparar a conjura, e cumprir a vingança.
Vergílio Alberto Vieira In "Sombras de Reis Mendigos", Ed. Livros de Horas,
Porto, 2009, p 46, (Prefácio de Miguel Real).
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29/07/09
"Agora, há ruído/ além do vento."

Nota - Enquanto aguardamos o lançamento do livro da Maiara Gouveia, que, julgo, está para breve, segue um inédito seu de um outro projecto. Gostei muito deste poema e ela autorizou-me a publicá-lo, portanto ...
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"Da origem "
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1.
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Aquém da intriga, a face, ainda oculta
por água turva, em plena queda,
mistura-se ao vácuo, abertura
de uma era. E a treva, armadilha, rodeia
este nada recém descoberto.
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Do oco, um lume revela
o barulho da pedra, esse sopro
a rolar sobre a esfera,
agora líquida, translúcida, repleta
de infinito.
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O firmamento divide o tempo
em duas águas. O árido
insurge, é a forma do corpo,
ainda inerte. No entanto,
um vapor cobre tudo, e brota o fruto
e a erva. Da noite, a lua e as guelras
têm poder. E da manhã, a matéria
forma o astro, o fervilhar, de onde,
num vôo ou mergulho, os seres
retiram potência e à vida
chegam.
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Do ovo, a serpente quebra
a superfície, e a pele fria
toca o solo, à espreita
do mistério. O homem,
da lama se desprende, e sem medo
existe até que o desejo
penetre em seus poros.
Agora, há ruído
além do vento.
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Do sono, a costela
expele a fêmea, de onde vem
a dor que tudo alimenta.
A história sela o destino
de ser. Esse deus
corpóreo, o cancro da fera,
com a presa na boca
e porque a fome o deseja. E desaba
um cortejo
de vozes, o cheiro
de banha e sangue
pisado. No centro, a raiz
expande a morte.
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Sabemos?
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Maiara Gouveia (Inédito)
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26/07/09
"Retrato de Vergílio Alberto Vieira" (2007). Desenho de José Rodrigues.Sempre que, em Ogígia, voltava aos braços de Calipso
para, no seu leito de rosas, travar sem tréguas nova
batalha fingida, não era pois do mar esse rumor de
vagas que, de céu a céu, me perseguia, mas da cadência
do remo com que, mais tarde, havia de medir: do sol, a
altura; do abismo, a sombra do naufrágio.
Vergílio Alberto Vieira In "Sombras de Reis Mendigos", Ed. Livros de Horas,
Porto, 2009, p 19 (Prefácio de Miguel Real).
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25/07/09
"Não é simples impudência o que contra ti vocifera!"
A (grande) interpretação da "Fedra" de Racine por DOMINIQUE BLANC.DVD zona 2 com uma realização de Stéphane Metge (2003) e a encenação
de PATRICE CHÉREAU.
"Mensagem"
Para Hipólito, da Mãe - Fedra - Rainha - a mensagem.
Para o rapaz caprichoso, belo, fugindo de Fedra como,
De Febo pomposo, a cera... E pois então,
Para Hipólito, de Fedra: o gemer de lábios ternos.
Sacia minha alma! (Impossível, sem tocar os lábios,
Saciar a alma!) Impossível, ao tocá-los,
Não beijar Psique, dos lábios a visitante alada...
Sacia a minha alma: logo, sacia-me os lábios.
Cansada, Hipólito... Às putas e sacerdotizas - opróbrio!
Não é simples impudência o que contra ti vocifera!
Simples, só falas e mãos... Um grande mistério esconde
O seu tremor atrás dos lábios que o dedo sela.
Oh, perdoa, meu virgem!, donzel!, cavaleiro!, inimigo
Do deleite! Não é luxúria! Não é o seio da fêmea!
É ela, a sedutora! É lisonja de Psique -
Ouvir junto aos seus lábios o balbucio de Hipólito -
"Tem vergonha!" - Mas é tarde! É o último marulho!
Meus cavalos desvairam! Da rocha abrupta - em pó -
Também sou amazona! Lanço-me do cume dos peitos,
Fatais colinas - para o abismo do teu peito!
(Ou do meu?!) - Tenta! Ousa! Mais ternura!
Grifo na cera da tabuinha - ou cera de um coração
Feito a estilete escolar... Oh, antes lesse
Nos lábios o segredo de Hipólito a tua
Insaciável Fedra...
Marina Tsvetáeva In "Depois da Rússia 1922-1925", Relógio d'Água, Lisboa,
2001, pp 163-165 (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra).
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22/07/09
"Desperto, no meio do negro, ouvem-se as constelações baterem o pé, de impaciência..."
(Nota - é enorme a importância de Transtromer, na Suécia e fora dela, assim, dada a caracterização desta poesia, as relações que tem com várias correntes e poetas de outros países,a polémica que levantou com a geração de 70, o modo como, apesar dos obstáculos, se tem conseguido impor como um dos grandes vultos da poesia europeia, sugerimos a leitura do Prefácio a esta obra, da autoria de Jacques Outin, bem como do breve esboço biográfico que está na Wikipédia...)
"Les Pierres"
Les pierres que nous avons jetées, je les entends
tomber, cristallines, à travers les années. Les actes
incohérents de l'instant volent dans
la vallée en glapissant d'une cime d'arbre
à une autre, s'apaisent
dans un air plus rare que celui du présent, glissent
telles des hirondelles du sommet d'une montagne
à l'autre, jusqu'à ce qu'elles
atteignent les derniers hauts plateaux
à la frontière de l'existence. Où nos
actions ne retombent
cristallines
sur d'autres fonds
que les nôtres.
Tomas Transtromer In "Baltiques - Oeuvres complètes 1954 - 2004 ", Poésie Gallimard,
Paris, 2004, p 36 (traduzido do sueco para o francês por Jacques Outin).
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20/07/09

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"Lá no Água Grande"
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Lá no "Água Grande" a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
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Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
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Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
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As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.
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E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.
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Alda do Espírito Sanro In "É Nosso o Solo Sagrada da Terra", Ulmeiro, Lisboa, 1978.
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19/07/09
"Manifesto Imaginado de um Serviçal"
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Chão inconquistado, chama-me teu que sobre minha fronte se
esvai a lua esburacada na sanzala. Não mais regressarei ao Sul.
Morador interdito, ficarei nas tuas entranhas. Aqui onde tudo
dei e me perdi. Morro sem respirar o hálito de uma outra cidade
que adubei.
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Irmãos:
Deitai-me amanhã no terreiro à hora do sol nascente: quero
olhar de frente as plantações. Quero contemplar, morto e inteiro, meu
legado involuntário de africano em África desterrado.
Clamo o pó que reclama a exaustão serena do meu corpo.
Não mo podeis usurpar, ngwêtas, com o ferro da vossa força.
Não mo negueis, ó híbridos forros, com vosso frio desdém de
séculos. Este barro é meu, espinho a espinho penetrou o osso dos
meus passos como um sopro cruel e palpitante. Até ao fim onde agora
começo porque a morte é o estuário de onde desertam os barcos todos
que cavaram meu destino.
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Irmãos:
Pelo mar viemos com febre. De longe viemos com sede.
Chegámos de muito longe sem casa.
Dai-me a beber agora a amarga infusão do caule do aloé, quero
esgotar o cálice do nosso calvário.
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Dai-me uma coreografia de labaredas e vertigens que a nossa
saga é uma constelação de astros absurdos.
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Dai-me amanhã em oferenda todos os sons que criei e os sons
que não criei mas aprendi
a puíta, o ndjambi, o bulauê
a dêxa também e o socopé
Trazei-me os silêncios todos que percorri
Mostrai-me os caminhos que não trilhei mas construí
Celebrai-me anónimo na praça que não verei mas antevi
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Ilhas! Clamai-me vosso que na morte
não há desterro e eu morro. Coroai-me hoje
de raízes de sândalo e ndombó
Sou filho da terra.
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Conceição Lima In " O Útero da Casa", Ed. Caminho, Lisboa, 2004, pp 35-37.
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17/07/09
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"A Casa"
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Aqui projectei a minha casa:
alta, perpétua, de pedra e claridade.
O basalto negro, poroso
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
a cor dos ibiscos
para o telhado.
Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem trancas nos caminhos.
Sobre os escombros da cidade morta
projectei a minha casa
recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar -
uma rectidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul.
E reinvento em cada rosto fio
a fio
as linhas inacabadas do projecto.
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Conceição Lima In "O Útero da Casa", Ed. Caminho, Lisboa, 2004, pp 19-20.
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16/07/09
"contornos perfeitos de cisne"
"Advancing plant on wall with window", Besozzo - Italia (2008), foto de Paul C. Smits.
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Insistes em não compreender
ser eu aquele que pinta
a poeira no fim da luz
aquele que no parque finge
contornos perfeitos de cisne.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues, In "Malva 62", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão,
2005, p 16.
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13/07/09
"Para me não veres -"
.jpg)
"Raios através da janela", Pittsburgh, Pennsylvania (2008), foto de Kristen Swamer
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Para me não veres -
Na vida - cinjo-me da cerca
Invisível e penetrante.
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Cinjo-me da madressilva,
Cubro-me do algodão de geada.
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Para me não ouvires
Na noite - com manha de velha
Me dissimulo - e me protejo.
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Cinjo-me do restolhar.
Cubro-me de ramagens.
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Para que não floresças muito
Em mim - nos silvados: enterro-me
Nos livros ainda em vida:
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Cinjo-te de fantasias,
Cubro-te de ilusões.
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Marina Tsvetáeva In "Depois da Rússia, 1922-1925", Relógio d'Água,
Lisboa, 2001, p 43 (trad. de Nina Guerra e Filipe Guerra).
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12/07/09
"vou a caminho da saída"
"Mágoa"
não vêdes
que vou a caminho da saída
e que por isso
conto coisas que me são queridas
e não contaria
se não fosse
esta aura de espanto
e de
espectativa
não vêdes
que a solidão trazida
me cobre a face os ombros
e toda a vida
que por ser um resto
ainda é consentida
Glória de Sant'Anna In "Trinado para a noite que avança", ed. aut., 2009, p 15.
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não vêdes
que vou a caminho da saída
e que por isso
conto coisas que me são queridas
e não contaria
se não fosse
esta aura de espanto
e de
espectativa
não vêdes
que a solidão trazida
me cobre a face os ombros
e toda a vida
que por ser um resto
ainda é consentida
Glória de Sant'Anna In "Trinado para a noite que avança", ed. aut., 2009, p 15.
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11/07/09
Eugénio Lisboa escreve sobre Glória de Sant'Anna
(Nota - não é meu hábito usar este blogue para "artigos de opinião". Penso, nesta altura, que as minhas opiniões fazem parte de um foro privado, que partilho com alguns mas não tenho direito de as estar, com carácter sistemático, a enfiar pela "goela abaixo" de todos. O espírito de cruzada tem pouco a ver comigo! Apesar destas resistências, e porque existem sempre excepções nas regras, gostaria de reafirmar o que recentemente escrevi à filha de Glória de Sant'Anna, a pintora Inez Andrade Paes: considero o esquecimento a que foi votada a poesia daquela poeta um dos maiores danos causados à poesia portuguesa das últimas décadas... Que se me perdoe a soberba intelectual, mas, e relativamente a este assunto, ainda assim penso.)
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" UM DENSO AZUL SILÊNCIO"
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Deixou-nos há dias (2.6.2009) Glória de Sant'Anna, quase tão discretamente como entrou no território da literatura, embora nos tenha legado alguns marcos assinaláveis do lirismo português. A autora de Distância (1951) e de Música Ausente (1954) nasceu em Lisboa, em 25 de Maio de 1925, e foi viver para Moçambique, em 1951, com 26 anos, primeiro em Nampula, e depois, a partir de 1953, em Porto Amélia (hoje, Pemba), em frente ao faustoso mar daquela imensa baía que é a terceira mais importante do mundo.
Dali só regressaria a Portugal - para Ovar, onde se fixou - em 1974, isto é, ao fim de 23 anos de permanência numa África que amou e cantou. Tendo casado em 1949, depois de terminado o curso complemetar de Letras, no Colégio de Odivelas, Glória de Sant'Anna viria, por via do ensino, a apertar contactos com a população nativa de Pemba, sondando vidas, dramas, alegrias, aspireções, angústias...
Em 1962 (era Outubro), caíu-me nas mãos, em Lourenço Marques, um livrinho de poesia de 54 páginas, óbvia edição da autora, com título aliciante e algo indecifrável ou quase demasiado decifrável: Livro de Água. Começara a publicar-se, ali, por essa altura, um diário promissor - A Tribuna - que incluía um suplemento cultural cuja direcção fora cometida a mim e ao poeta Rui Knopfli. O livro de Glória, que eu recebera quase coincidentemente com o aparecimento do jornal, tocou-me profundamente; e logo decidi consagrar-lhe algumas linhas entusiásticas, naquele suplemento que viria a durar pouquíssimo tempo.
Foi o primeiro de vários textos que dediquei, ao longo dos anos, à arte "serena" da autora de Um Denso Azul Silêncio. Falando do livro de uma autora que até aí me fora completamente desconhecida, concluía, nestes termos, que ainda hoje não renego, a caracterização da ars poetica da escritora: "Uma arte líquida, secreta, discretamente deslizante, atenta e comovida, contidamente dramática, ilusoriamente tranquila, rica nos seus meios de uma simplicidade enganadora, nítida mas plena de mistério, límpida mas 'mortal' e tocada pela asa de uma angústia que mal se mostra. Uma arte de rigor e de modéstia - clássica portanto. Mas viva."
Ao Livro de Água, outros se seguiram, em que o ofício poético da escritora se confirmou, numa monotonia suave e intensa, sempre aliciante e esquisitamente inquietante: Poemas do Tempo Agreste (1964), Um Denso Azul Silêncio (1965), Desde que o Mundo e 32 Poemas de Intervalo (1972), todos de poesia e todos publicados em Moçambique. Além destes, editaria também ali, o livro de crónicas ... do Tempo Inútil (1975). Já depois do seu regresso a Portugal, publicaria ainda Não Eram Aves Marinhas (1988), Zum-Zum (1995) e Algures no Tempo (2005).
Em 1988, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda editou, sob o título geral Amaranto e com prefácio meu, o total das suas obras publicadas até então e alguns inéditos que, pela sua natureza supostamente subversiva não tinham podido ver a luz durante os "anos da peste". Já depois da independência, em 2000, a editora moçambicana Ndjira homenageou a autora, pela mão de Fernando Couto, publicando uma antologia que, sob o título Solamplo, coligia poemas de Música Ausente, Livro de Água, Poemas do Tempo Agreste, Um Denso Azul Silêncio, Cancioneiro Incompleto (que fora incluído em Amaranto) e Desde que o Mundo...
A arte de Glória de Sant'Anna, embora profundamente empenhada na realidade social moçambicana, porque era uma arte de subtilíssimo "recuo autobiográfico", nada tinha de ostensivamente proclamativo, nem de dramaticamente gesticulante. Em versos serenos, quase perfidamente tranquilos, cheios de um pudor que nos atingia bem mais fundo do que qualquer grito incontinente, tão "secreta/como o tecido da água", entregava-nos, "purificada" e cheia de dignidade, a tragédia de um povo emudecido.
Assim falava, por exemplo, da mulher morta por uma inundação: "O rosto é liso/ a fronte é alta/ o perfil limpo". Ou ainda: "A mão no peito/ longa, pousada./ O lábio breve/ descida a pálpebra."
Poesia intensa, que aspira ao máximo pudor e a uma espécie de "silêncio" - um "denso azul silêncio"-, ela enreda-se no nobre conflito milenar dos que se dilaceram entre o desejo de falar (testemunhar, manifestar) e o desejo não menos forte de calar. "Pesa-me o silêncio de todas as palavras", diz ela num verso, podendo igualmente ter dito: "Pesa-me o ruído que faz o silêncio..."
O outro importante pilar desta poesia insinuante é o mar, a água que visita e vivifica tantas páginas dos vários livros que compõem o cânone de Glória. Dissemos algures e pedimos licença para aqui brevemente o transcrever: " Nalgumas tradições, a hebraica, por exemplo, a água é a matriz, é a fonte de todas as coisas. Nalguns casos, na alquimia chinesa, por exemplo, o banho e a lavagem são, por outro lado, operações ígneas, isto é, a água é também fogo. Era talvez, intuindo isto, que Novalis afirmava que 'a água é uma chama molhada'.O universo aquático de Glória de Sant'Anna, no seu ímpeto rigorosamente purificador, tem qualquer coisa de um fogo que se contém, mas limpa".
Como todos os que escreveram fora da estreita paróquia lusíada - mesmo que o tenham feito em português e em nobilíssima toada - Glória de Sant'Anna foi pouco vista e pouco comentada pelos donos da poesia que por aí fazem e desfazem reputações. Não foi a única. Rui Knopfli nunca foi devidamente apreciado, em todo o caso, não à altura a que se guindou o autor de O Escriba Acocorado ou de O Monhé das Cobras. E Grabato Dias, certamente um dos quatro ou cinco maiores poetas portugueses do século XX, é aquele nome que fica escandalosamente esquecido, quando em alegre tertúlia se fazem balanços para manuais-a-haver. Ter vivido em África, ter gostado de lá estar - é pecado que sempre se pagou e se continua a pagar com língua de palmo. A Europa para os europeus, ou coisa assim, imagino eu.
Seja como for, a autora de Amaranto, pouco vista, pouco lida, pouco visitada pelos buscadores de graus académicos (com a excepção de eu próprio a ter convidado a estar presente num dos meus seminários de literatura portuguesa na Universidade de Aveiro - que diabo!, Ovar ficava mesmo ali ao lado...), a autora de Amaranto, dizia eu, deixou-nos há dias, deixando-nos também, para nosso uso, e regalo um belo canto de poucas e avaras palavras. Mas sempre de bom aviso:
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Não sei porque buscas palavras longas
Para as coisas breves que nos assombram.
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Nem mais. O assombro também se explora com palavras breves: se forem certeiras.
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Eugénio Lisboa In "JL" de 17 a 30 de Junho de 2009, pp 22-23.
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10/07/09

Il marchait un matin d'hiver
dans les rues vides d'un dimanche à Paris -
vent froid, ciel gris,
l'air un peu hagard, égaré
de l'errant qui ne sait pas au juste où il va -
il avait pourtant un désir précis:
arriver par-delà le désespoir -
Lorand Gaspar In "Patmos et autres poèmes", Poésie Gallimard, Paris, 2004, p 170.
08/07/09
"querer um verso que dissesse tudo"
.jpg)
"Negra e branca" de Man Ray (1926) In "Centro de Arte Rainha Sofia", Madrid.
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"As Perdas Os Ganhos"
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Este não é o poema que eu gostaria de ter escrito:
tudo no fundo se resume no poema
à soma dos ganhos e das perdas
afinal tão semelhante à vida é esse jogo
de querer um verso que dissesse tudo
e nada mais dissesse
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António Carlos Cortez In "à flor da pele", Editora Casa do Sul, Évora, 2007, p 19.
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"A Pintura"
Monet tens a impressão da realidade
e ela não pode ser de outro modo
Misturas na tela as cores primárias
como hoje a pintora no seu atelier
traçando a negro a figura humana
A poesia é talvez o momento
em que a pintura é exercida
de outra forma Um défice de realidade
nos olhos Nesse tempo o poema
surge para um dizer novo
António Carlos Cortez In " à flor da pele", Editora Casa do Sul, Évora, p 48.
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Grande Prémio de Poesia da A.P.E./C.T.T.
06/07/09
Sobre una mínima cornisa
al otro lado de la calle
alguna paloma se posa,
hincha sus plumas, picotea
el enlucido, mata el tiempo
y se lanza de nuevo al vuelo
como un tren que en un túnel entra.
Así lo imaginará el gato
que la observa en la ventana.
Es un gato casero y fofo
que se arrellana en el sofá
mientras su dueña ve la tele
y yo desde el balcón contemplo
el resplandor de las imágenes.
José Ángel Cilleruelo In "antologia", Averno, 2004, p 108.
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05/07/09
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Quem me teria enviado esta foto? Quem me inundou
assim o P.C., que pretendia branco e limpo de qualquer
mágoa? De quem este retumbante e perverso intento
a revolver-me o pântano da memória? Porquê um anexo
a inundar-me o ecrã e a desafiar o esquecimento, que era
.
já coisa certa e bem minha? Porquê a tua figura de novo,
aqui, bem na minha frente, com o nome do aeroporto
por detrás, as malas, a mochila a escorregar, os cabelos
- que naquela altura tinhas deixado crescer - quase
a tocarem o azul da camisola e o teu sorriso infantil,
.
que ambos sabemos a quem se destinava? Terrível esta
alegoria da vida: as chegadas com o iníquo sabor da partida,
a bagagem aparentemente cheia no periclitante embarque
de nada, os sorrisos frágeis e efémeros, a quotidiana fuga
a cercear o que para ti tão raro quisera. Mas... quem me
.
teria enviado esta foto? Esta virtual lembrança,
que nenhum antivírus impedirá agora de se tornear real,
obsessiva até? Através da janela nem uma resposta sequer.
Apenas o ecrã do céu - igualmente belo, igualmente azul.
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Victor Oliveira Mateus In "Revista de Poesia Saudade" Nº 11,
Junho, 2009, p 59.
04/07/09
"Tu corazón corea el ritmo de la música,"

La música estalla cuando al abrir la puerta
das el último atusón al cabello, dentro
enrojecen las sombras, fluyen pastosas
como un secreto inofensivo. Te acomodas
en la barra. Te apareces bastante ajeno
mientras sorbes despacio, con intriga,
un híbrido combinado de muchos alcoholes.
Ella se acerca entre satinados paños y zurea
lacónica su diestra petición de enlace
que aceptas con fingida abulia.
Te rodea el cuello con sus brazos, desanuda
sonriente la corbata y te empuja
entre las coloradas sombras hacia ciertos
peldaños que en el fondo emergen.
Tu corazón corea el ritmo de la música,
tras el nailon lucen unos muslos
hinchados cuya cadencia halaga
y descompone la acrimonia del lugar.
Muy pronto la cubrirás con tu deseo,
y ella, levantando ligeramente una pierna
por encima de tus jadeos, preocupada
repasará con el índice ensalivado
una triste carrera en la media.
José Ángel Cilleruelo In "antologia", Averno, 2004, p 30.
.
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02/07/09
.jpg)
Eu sou a juventude: sou o canto das avelaneiras a deixar oiro
aos meus cabelos, que são teus.
Na minha carne verás o poder do teu quebranto
e a arte que na memória toca o fundo de duas árvores opostas
a tornarem-se uma só.
Sou o fruto que receio de mim,
quando me ouvires contar a minha história cercada de alabastro. Sou
o que desejas agora, nessa audácia pelos campos
com desapego e indolência. E não verás nenhuma fonte,
mas posso falar-te de uma a nove léguas de distância.
Eu sou a juventude que possuis,
sou a vanglória atraída a outra coisa que viu longe,
que em breve saberás.
Abrigo a tua pele ignorada para que nenhuma mulher te veja sem amar-te, e
dos meus jardins te afasto,
cujas lembranças que terás os tornam graciosos.
Nem sempre creias na cidade futura a que prometia que chegasses,
nem enquanto nos tivermos apenas a nós dois
nesses corações, que nossos, não pensam no que nasce.
Virá o tempo em que te verás desaparecer
e eu já não poderei imaginar-te. E
com os frutos que se desprendem
entre olvidos, como agora se despede esta manhã,
irás dizer-me de uma forma distante
o que dentro e à volta do mundo eu fui deixando.
Sim, em breve eu e tu, e dos restantes, estaremos separados,
e a todos quererão outros lábios mais vorazes, que
sejam, em vez de mim, o meu perdão.
Sim... em breve... olha além a luz que clareia os campos,
vê lá os cantoneiros a segredar que estão aqui,
vê os vigilantes de jardins a acender o funcho, mais
os que estão por nascer, mais os velhos em redor do fumo e que estão certos,
vê se calhar isolado entre as heras o meu canto,
mas não digas adeus, não acenes cabisbaixo à cidade que se afasta; que
na última colheita dos teus frutos
virei com meu rebanho
sobre as nuvens dos teus filhos.
Rui Coias (Pré-publicação)
.
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(tradução do português para o francês)
Je suis la jeunesse: je suis le chant des aveniliers laissant tomber l'or
dans mes cheveux, qui sont à toi
Dans ma chair tu verras le pouvoir de ta lassitude,
et l'art qui, dans la mémoire, touche le fond
de deux arbres opposés devenant un seul.
Je suis le fruit qui me crains,
quand tu m'écouteras raconter mon histoire cernée d'albâtre.
Je suis ce que tu désires à présent, dans cette audace parmi les champs,
détaché et indolent.
Tu ne verras aucune fontaine mais je peux t'en parler
d'une à neuf lieues de distance.
Je suis la jeunesse que tu possèdes
je suis la vaine gloire attirée par autre chose qui au loin se prolonge,
bientôt tu le sauras.
Je mets ta peau à l'abri pour qu'aucune femme ne te voit sans t'aimer,
et de mes jardins je t'éloigne,
selon les souvenirs que tu possèdes, cela les rendra pleins de grâce.
Ne crois pas toujours dans la ville future
à laquelle je promettais que tu arriverais,
ni pendant que nous nous possédons, l'un l'autre dans ces coeurs,
qui sont les nôtres, car ils ne pensent pas à ce qui prend vie
à mes cheveux, qui sont à toi.
Viendra le temps où tu te verras disparaître
et moi je ne pourrai plus t'imaginer.
Et avec les fruits qui se dátachent entre les oublis,
comme maintenant prends congé de nous ce matin,
tu iras me dire d'une façon distante
ce que dedans et autour du monde j'ai laissé.
Oui, bientôt, toi et moi, des autres, nous serons séparés
et tous voudront d'autres lèvres plus voraces,
qu'ils soient, ainsi et à ma place, ils voudront mon pardon.
Oui... bientôt... regarde au loin la lumière qui éclaire les champs,
vois les cantonniers murmurant qu'ils sont ici,
vois les veilleurs de jardins qui allument le fenouil,
et ceux qui sont à naître, et les vieux autour de la fumée et qui ne doutent pas,
vois peut-être isolé entre les lierres de mon chant,
mais ne dis pas adieu, pas de salut pensif vers la ville qui s'éloigne;
dans la dernière cueillette de tes fruits
je viendrai avec mon troupeau
sur les nuages de tes enfants.
Lidia Martinez e Guy Vivien traduzindo Rui Coias
(Nota - os meus agradecimentos ao Rui Coias por me ter autorizado esta pré-publicação.
Os meus agradecimentos à Lidia Martinez e ao Guy Vivien por terem ousado esta
excelente tradução de um tão belo poema).
dans mes cheveux, qui sont à toi
Dans ma chair tu verras le pouvoir de ta lassitude,
et l'art qui, dans la mémoire, touche le fond
de deux arbres opposés devenant un seul.
Je suis le fruit qui me crains,
quand tu m'écouteras raconter mon histoire cernée d'albâtre.
Je suis ce que tu désires à présent, dans cette audace parmi les champs,
détaché et indolent.
Tu ne verras aucune fontaine mais je peux t'en parler
d'une à neuf lieues de distance.
Je suis la jeunesse que tu possèdes
je suis la vaine gloire attirée par autre chose qui au loin se prolonge,
bientôt tu le sauras.
Je mets ta peau à l'abri pour qu'aucune femme ne te voit sans t'aimer,
et de mes jardins je t'éloigne,
selon les souvenirs que tu possèdes, cela les rendra pleins de grâce.
Ne crois pas toujours dans la ville future
à laquelle je promettais que tu arriverais,
ni pendant que nous nous possédons, l'un l'autre dans ces coeurs,
qui sont les nôtres, car ils ne pensent pas à ce qui prend vie
à mes cheveux, qui sont à toi.
Viendra le temps où tu te verras disparaître
et moi je ne pourrai plus t'imaginer.
Et avec les fruits qui se dátachent entre les oublis,
comme maintenant prends congé de nous ce matin,
tu iras me dire d'une façon distante
ce que dedans et autour du monde j'ai laissé.
Oui, bientôt, toi et moi, des autres, nous serons séparés
et tous voudront d'autres lèvres plus voraces,
qu'ils soient, ainsi et à ma place, ils voudront mon pardon.
Oui... bientôt... regarde au loin la lumière qui éclaire les champs,
vois les cantonniers murmurant qu'ils sont ici,
vois les veilleurs de jardins qui allument le fenouil,
et ceux qui sont à naître, et les vieux autour de la fumée et qui ne doutent pas,
vois peut-être isolé entre les lierres de mon chant,
mais ne dis pas adieu, pas de salut pensif vers la ville qui s'éloigne;
dans la dernière cueillette de tes fruits
je viendrai avec mon troupeau
sur les nuages de tes enfants.
Lidia Martinez e Guy Vivien traduzindo Rui Coias
(Nota - os meus agradecimentos ao Rui Coias por me ter autorizado esta pré-publicação.
Os meus agradecimentos à Lidia Martinez e ao Guy Vivien por terem ousado esta
excelente tradução de um tão belo poema).
01/07/09
Novos lançamentos...


Brevemente à venda os dois últimos livros de Vergílio Alberto Vieira: "Sombras de Reis
.
Mendigos" e " Melancholia Perennis" (Preços: 6,50E e 8,ooE respectivamente).
.
Na eventualidade de não os encontrar na sua livraria, adquira o hábito de os encomendar
.
para a própria Editora, neste caso a "Tropelias & Companhia" (este blogue tem uma Hiperligação
.
com o blogue da referida Editora, caso pretenda mais informações).
.
.
30/06/09
.jpg)
A actriz americana Candice Bergen e o realizador francês Louis Malle (uma das relações mais conseguidas na História do Cinema) aquando do seu casamento em 1980, Lugagnac - França.
A foto é da célebre fotógrafa de vedetas - Mary Ellen Mark.
.
.
.
às vezes
estou num ponto da casa,
e sei, e sinto, que tu estás algures
noutro ponto
da mesma casa.
.
e sinto, e penso:
demos mais um passo
para a vida eterna.
cada um de nós deu mais
um passo
em direcção à sua morte.
.
e perdemos mais este momento
em que podíamos ter falado,
ou entretecido bocas
e olhares.
.
tomámos, em diferentes
sítios da casa,
diferentes caminhos;
iniciámos trajectos
discordantes
em direcção ao nosso
desaparecimento
na noite do espaço/tempo.
.
quando nos depedirmos,
o que diremos?
até onde, até quando?
.
será possível termos
partilhados tanto,
e partir assim sem aviso,
como se tivéssemos sido privados
de toda a história anterior?
.
por isso, peço:
quando estiveres para morrer
noutro ponto da casa,
por favor diz primeiro.
.
combina comigo,
para eu ver se tenho tempo
de ir morrer lá também.
.
.
.
Vítor Oliveira Jorge In "Pequeno Livro de Aforismos seguido de Algumas Alumiações,
Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2008, pp 68-69.
.
.
29/06/09
Convite de lançamento.

A "Editora Trinta Por Uma Linha" lança, no dia 4 de Julho, pelas 17h,00, o livro
"Verso a Verso - Antologia Poética", da autoria de Amadeu Baptista, Francisco Duarte Mangas,
João Manuel Ribeiro, Luísa Ducla Soares, Nuno Higino, José António Franco e
Vergílio Alberto Vieira. As ilustrações são de João Concha.
A apresentação será feita por Sérgio Almeida ( jornalista do J.N.) e ocorrerá na
"Tropelias & Companhia" (à Rua Calouste Gulbenkian, 201, no Mota Galiza, PORTO ).
.
.
28/06/09
"Gato sem sorriso" foto de Jerzy Urban (2008)desconfia sempre de alguém
que se justifica com a falta de tempo.
nós temos sempre tempo
para aquilo que realmente queremos.
uma pessoa que deixou
de ter tempo para ti
foi uma pessoa que te elidiu
para sempre da sua vida.
Vitor Oliveira Jorge In "Pequeno Livro de Aforismos seguido de
Algumas Alumiações", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2008, p 16.
.
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26/06/09
"quando a alma confirma o deserto - "

À l'eau sombre qui là-bas recueille
le vert ferment d'une aube sur terre -
à l'eau qui va riant dans les pierres
dissiper la ferveur des images -
à la goutte d'eau claire dans mon oeil
mémoire d'une aveugle fraîcheur
quand l'âme vérifie le désert -
À ce qui me dit indivis et fluide
chante levé dans l'essor du chant
essaim de lueurs que rien n'interrompt
mots et gestes brefs tissés dans l'ouvert -
Sur la rive rêche et endolorie
fruits tombés que décompose la mer
lambeaux de brumes, pansements jetés.
Lorand Gaspar In "Patmos et autres poèmes", Poésie Gallimard,
Paris, 2004, p 81.
Nota - Lorand Gaspar nasceu em 1925 duma família húngara, em Marosvásárhely na Transilvânia oriental, hoje parte da Roménia. Fez aí o ensino secundário, sendo depois admitido no Instituto Politécnico de Budapeste em 1943, mas foi mobilizado meses mais tarde.
Em 1944, após o fracasso de uma paz separada seguido da imposição de um governo nazi na Hungria, Lorand Gaspar é deportado para um "campo" na Suabo-Francónia, de onde consegue fugir em Março de 1945 e apresentar-se a uma unidade francesa que se encontrava situada perto de Pfullendorf.
Estudou medicina em Paris e veio depois a ser cirurgião em vários hospitais franceses.
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25/06/09
Nota -(...) Séculos mais tarde( a Eurípides, Séneca e Ovídio) Corneille (1606-1684) retomou o tema na sua peça "Medeia". Para ele, Jasão é um homem ambicioso, não heróico, que faz do relacionamento amoroso apenas um instrumento para alcançar os seus objectivos (...) O poeta austríaco Franz Grillparzer (1791-1872) dedica uma trilogia à lenda do "Tosão de Ouro".(...) Jean Anouih (1910-1987 ) também aborda o tema, embora utilizando uma linguagem moderna: Medeia é uma cigana e a sua humilhação não está no abandono, mas na piedade do homem que a deixou. Seu orgulho fere-se porque ela deseja amor e não um tratamento compassivo. Para Pier Paolo Pasolini ( 1922 -1975 ), Medeia aparece como vinda de um país bárbaro onde se sacrificam vidas humanas. Ela tudo abandona por amor de Jasão, inclusive a sua magia, mas quando se vê traída, utiliza os seus dons para se vingar. Entretanto, na Medeia de Pasolini entrelaçam-se presente e passado, e ela parece muito mais próxima da mulher moderna que comete um crime passional do que de uma feiticeira da Antiguidade. De todos estes autores, para o meu modestíssimo poema, apenas me interessaram Corneille e Pasolini..
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" Medeia e os Outros Tempos"
Vista daqui a terra não tem a importância que julga
ter. Vista daqui até a cidade, teia de empestada glória
e ridículas imagens, a ostentação recusa. Vista daqui,
ó odiosa Corinto, não passas de uma puta velha
a cirandar pela praia, no alcance de afectos jamais
refeitos ou de memórias à deriva, por entre marinheros,
sidra, bárbaros dizeres, que nunca entendeste nem a isso
chamada foste. Vista daqui apenas eu coincido comigo:
princesa cólquida, dona de insondáveis talentos e artes,
arrebatada, crédula nas palavras dos homens, implacável
se com essas mesmas palavras eles atraiçoam os pactos,
a solidariedade generosa, a mais resplandecente entrega
quando enorme e até mesmo sagrada. Por tudo isto te vi
eu cair, ó verme! Ao ver-me de tal modo afastada
da tua cama, do teu corpo que tão bem montava como a potro
selvagem nas planícies da Tessália, da tua boca quase sempre
em lume, gume em mim esventrada do já ciúme, nesse cume
de coisa pouca, que em nada transformei com minha fúria
e vingação de fêmea atraiçoada, quase louca. Acaso pensaste
que, impune, te deixaria partir, para lá do tudo que havíamos
partilhado? Acaso supunhas que te daria um aberto caminho
para de novo assaltares tronos e troféus? Eu, que traí uma linhagem,
um povo; eu que dispersei os pedaços de Apsirto (o miserável!),
que me vinha dar caça, como o costume prediz a guerreiro macho
e irmão. Ai, pobre Jasão, que das mulheres nada sabias!
Sobretudo daquelas para quem a honra não é negociável,
nem a dignidade se troca na ágora, por entre potes
de azeitonas, galinhas poedeiras ou as mais raras especiarias
vindas do oriente. Vê (desgraçado) ao que te levou a cupidez
sem freio, a vida onde o ter e o parecer apenas bastavam,
espezinhando tudo o que os outros são, esperam, sonham.
Restam-te hoje os unguentos que não cheguei a usar,
os estiletes envenenados, as funestas sementes que a pressa
nem me deixou triturar. Restam-te as convulsões de Glauce,
tão culpada quanto os outros, o cadáver já frio de Creonte
com seus lábios de Cera, seus olhos baços, como costumavam
ficar quando de ambição cheios, tal como os teus, seus gémeos
e herdeiros. Restam-te os corpos inocentes de teus filhos,
lapidados pelos coríntios em fúria, que, ao quererem atingir a mãe.
o pai castigaram com raiva nunca antes vista por estas paragens.
O que de ti ficou ( infeliz), por tal ganância e soberba desenfreada,
é nada - absolutamente nada! Mas não te iludas Medeia, os homens
deste tipo raramente mudam: levantam-se após a dor encenada e,
estropiados, retomam sua antiga crueldade, bem mais crueldade
porque primeira e não resposta; levantam-se e, quais loureiros
persistentes, sugam as húmidas vertentes, os frondosos bosques.
Sossega Medeia! Acalma essa cabeça de teus crimes talvez inúteis.
Aguarda. Quem poderá saber o desenlace de tão horrenda história?
Victor Oliveira Mateus In "Revista Inútil" Nº 1 Out. 09, p 98.
.
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24/06/09

" Poema 6 de Os Dentes Cor de Rosa do Ilusor (1)"
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Eu, que muito mal consigo ser quem sou,
bato-me com este eu mais forte que eu mesmo
e perco. E digo-me: é preciso
jogar tudo pro ar, é preciso esquecer,
o sol está tão límpido tão lindo, como
permanecer imerso nas dobras de si mesmo? Esquecer.
A vida rudimentar te atormenta, o choro
das crianças, as contas do mercado, a torneira pingando,
essa indolência essa revolta essa indolência
o mundo aí, gratuito, a palmilhar e não
e não e não, o sono vem, vem o vazio, amar
é um ato frustro - e que significa?
Esquecer.
Esquecer sobretudo que é fraco, é sozinho
- mas não somos todos sozinhos? nos perguntam,
e o existir não passa da mentira
de nos dizermos fortes e adultos? nos
perguntam, e cada qual em seu canto não há que sofrer
seu tanto? nos perguntam, e a vida inteira
de um homem
não é pura e pura e pura
ilusão?
Esquecer.
.
.
.
Antonio Brasileiro In "Antologia Poética", Ed, Fundação Casa de Jorge Amado,
Salvador, 1996, p 68.
.
.
.
."Tudo que somos"
.
.
Tudo que somos,
pouco sabemos.
.
Um poço imenso,
cheio de sonos.
.
Quando choramos,
não nos perdemos.
.
Viver é um sonho,
não esqueçamos.
.
Viver é a sombra,
o assombro, o apenas.
.
/Tão frágeis somos!
Frágeis e imensos.
.
.
.
Antonio Brasileiro In "Antologia Poética 1968-1996", Ed. Fundação Casa de Jorge Amado,
Salvador, 1996, p 17
.
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23/06/09
"entre o mar e o céu"
..
Est-ce lui? est-ce la mer? ou le ciel?
la morsure du poignard dans le jour
la blessure de l'épervier jeté
lacis de nerfs dans l'eau allumé -
miroir et lumière aussitôt guéris.
.
Et quelle aisance, quelle précision!
Elles gouvernent remous et courbures
de l'eau, de l'air, de la nage et du vol
le sol raviné, les ardeurs du vert
.
verts et bleus
âme ou aile
déplient la haute étendue -
.
.
.
Lorand Gaspar In "Patmos et autres poèmes", Poésie Gallimard, Paris, 2004, p49.
.
.
"ode do fim da paixão"
agora que a paixão se demoveu de ti
são poucas as notícias que te trago.
as palavras bem podem ser
pequenos papéis atirados ao chão.
se o vento as levantar é porque ainda
haverá um livro de poemas
nas pontas dos dedos a ferir o espaço
para um último batimento.
deixaste-me assim com a paixão rápida
o funeral e os pássaros nos ramos
a aprender asneiras e as marchas de séculos
anteriores. recusaste um coração
a cercania das mãos
a destapar o rosto oculto.
agora é tarde
os poemas são vedações de florestas
que não podem crescer mais.
sem árvores o vento não sopra
e é pouco o que chega até ti.
ana salomé In " Odes", Ed. Canto Escuro, s/c, 2008, p 94.
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21/06/09
Inocência Mata escreve sobre Arménio Vieira.
Arménio Vieira é um escritor que sempre me intrigou. Lembro-me de o ter visto pela primeira vez - não conhecido, pois nunca fomos apresentados - numas férias em Cabo Verde. Estava com a minha amiga e anfitriã, Evelina Santos, e entrámos num bar-restaurante da Prainha. Lá estava ele, imerso no seu jogo, beberricando a sua cerveja, e ela apontou-mo: aquele é o Arménio Vieira, mas não tenho relações com ele por isso não to apresento... Entendi, por isso, que não seria gente de grandes aberturas com quem não conhece. Ademais, parecia completamente alheado de tudo, apenas concentrado no seu jogo.
Era, à altura, autor de apenas dois livros de poesia. Poemas (1981, que seria reeditado em 1998) e O Eleito do Sol (romance, 1990) - um livro em todos os títulos original. Seguir-se-iam, para além da reedição de Poemas, No Inferno (romance, 1999) e MITOgrafias (poesia, 2006).
Apesar de ser por causa do Prémio Camões que Arménio Vieira salta para a ribalta, não serve este apontamento para falar da pertinência do prémio e da sua justeza. Nem da justiça (finalmente feita!) a Cabo Verde - como já ouvi. Julgo que este Prémio, que não deveria ser político (apesar de o ser, pelas afirmações de pessoas responsáveis), distingue o escritor e, através dele, o sistema nacional em que se insere o escrito - não o contrário: não se distingue o sistema elegendo um escrito, mas distingue-se aquele escritor e, por implicação, aquela literatura! Além de que o mais alto galardão literário da língua portuguesa, língua oficial de oito países, é uma criação de... apenas dois países! Claro que haverá quem diga logo que o Prémio Cervantes é criação de um só país, mas não acredito em argumentos de "jurisprudência" nestes casos...
Falemos, pois, da originalidade da obra do santiaguense Arménio Vieira, escritor já distinguido no seu país, pela Associação de Escritores Caboverdianos, é um escritor inclassificável mesmo no panorama literário cabo-verdiano. Pertencendo, se assim se pode dizer, à geração da folha Seló- Página dos Novíssimos (suplemento literário do jornal Notícias de Cabo Verde, cujos dois únicos números são de 1962), Arménio Vieira pontua ao lado de nomes porventura injustamente pouco estudados pela/na academia: Maria Margarida Mascarenhas, Jorge Miranda Alfama, Mário Fonseca e Osvaldo Osório (além de Rolando Vera-Cruz Martins, que acabou por não integrar a galeria do registo autoral da literatura cabo-verdiana).
Conheci a poesia de Arménio Vieira pela mão do meu eterno mestre Manuel Ferreira. Uma poesia (ainda) intensamente telúrica mas simultaneamente metafísica, estranhamente narrativa mas substancialmente lírica, feita de ressonâncias deslocalizadas culturalmente mas também localmente cabo-verdiana. Potenciaria essa pulverização de "contaminações" culturais em MITOgrafias, livro feito de poemas construídos a partir de referências de leituras e de afectos literários, revelando excentricidades de influências, geografias e temas: literatura, filosofia, história, teologia, condição humana.
Porém, apesar de No Inferno ser porventura a obra mais insólita da literatura cabo-verdiana, pela singularidade genológica que caracteriza a urdidura romanesca (estilhaçamento sintáctico e de vozes narrativas e ausência de uma intriga que conduza o fio da narrativa), O Eleito do Sol é mais desafiante na sua inserção no sistema.
O Eleito do Sol começa por estilhaçar a caboverdianidade "tradicional", feita de marcas de insularidade geográfica, ambiental, sociocultural, ideológica e psicológica, criando uma história que se passa no Egipto antigo, protagonizada por um escriba pícaro que, pela subtileza de espírito, pelo saber e pela astúcia, consegue vencer um faraó - personificação do poder político instituído, inerte e incompetente, adverso a qualquer ideia de mudança e confrontação de pontos de vista. É, aliás, esta bizarria romanesca que faz deste romance um caso singular na literatura cabo-verdiana: socorrendo-se de um discurso alegórico, uma realidade política codificada, para dissimular a sua inscrição no domínio político, através da feição (pseudo-)histórica da sua ontologia, a construção de imagens daí decorrente vai dando forma a ideias cuja interpretação só parece fazer sentido dentro do próprio texto, sem qualquer ligação com o contexto sociocultural e político. Daí muitas vezes surgir o cómico pelo desfasamento entre o que é dito (que nem sempre faz sentido) e aquilo para o qual remete: o poder destituído de saber, vivendo numa inactividade conservadora e que aos poucos vai sucumbindo a uma nova topia (espácio-temporal) protagonizada por alguém que, "como herói de certas histórias", se safa sempre na hora H. Desse labor astucioso resultam um novo regime democrátrico, uma nova forma de fazer política, a destruição de categorias sociais ditadas pela vinculação a uma "dinastia".
Alguma ligação com o Cabo Verde a sair do monopartidarismo por estas alturas, 1990? Apenas se desconsiderarmos a remoticidade da fábula fazendo com que o assunto adquira actualidade no capítulo das relações de poder.
Já se disse do Prémio Camões que preferia a ficção à poesia - apesar de Miguel Torga (1989), João Cabral de Mello Neto (1990), José Craveirinha (1991), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999) e Eugénio de Andrade (2001). Na sua 20ª edição o Prémio Camões distingue um escritor que é poeta e romancista. Talvez por isso grande parte de notícias se refira a Arménio Vieira como poeta. Porém, para mim, surprende-me mais a imaginação do ficcionista.
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Inocência Mata In "J.L. de 17 a 30 de Junho, p 10.
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19/06/09
" a viola toca meu silêncio"
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dolentemente
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re
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spiro
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minhas
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fantasias
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solitárias
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ladeando o
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silêncio
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António Cardoso Pinto (Inédito)
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Notas:
- o verso "spiro" não segue a ordenação gráfica dos outros versos, já que não se integra na escala musical que o poeta pretende evocar. Infelizmente foi-me impossível ,a nível informático, manter tal rigor
- António Cardoso Pinto, que tem poesia sua espalhada por diversas publicações e livros, e que gravou recentemente um CD com poesia de José Agostinho Baptista, acaba de criar um
"sítio" de Poesia:
António's Site
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18/06/09
"O Estrangulador dos Bonecos de Neve", novo livro de Carlos Vaz.
O cuidado, essa derivação não científica de outras categorias como a de rigor, parece-me ser uma das vertentes fundamentais da escrita de Carlos Vaz; tipo de depuração que nem sempre se nos apresenta do mesmo modo: rondando a musicalidade onde a estrutura narrativa é secundarizada ante o fulgor do dito, como em Gabriela Llansol, em "Capricho 43"; o burilar da linguagem que, sem perder uma certa poeticidade, opta agora por uma mensagem directa bem ao jeito de escritores como Mário Henrique Leiria, em "O Estrangulador dos Bonecos de Neve".Este cuidado, ou melhor, este medir forças com a palavra recusando todo o tipo de estatismo sintáctico - que também pode ser encontrado na poesia da Carlos Vaz - faz-nos ver a escrita deste autor como um organismo que incessantemente se reformula e (re)enuncia nessa procura que a si própria se impõe: a de um persuasivo resplendor que, armadilhando o leitor num jogo de encantamento e sentidos vários, nunca cede na construção de novos paradigmas do dizer, que, contudo, jamais se afastam do real concreto nem de múltiplas inquietações de cariz existencial e histórico-social.
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Victor Oliveira Mateus
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Lisboa, 18 de Junho de 2009.
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Novo livro de José Agostinho Baptista
.jpg)
" O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos" é o novo livro de José Agostinho Baptista
.
a sessão de lançamento será no dia 4 de Julho (sábado), pelas 18 horas, no Restaurante
.
Many, na Fajã da Areia, São Vicente (entre São Vicente e Ponta Delgada)
.
(Informação via "Porosidade Etérea". Um grande obrigado à Inês Ramos. )
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17/06/09
Ode da liberdade II
devíamos criar uma cidade nova
livre
desde as pontas dos dedos
as estradas
à polpa das palmas das mãos
as muralhas
até ao centro histórico
para nela vivermos séculos sem fim
e mergulharmos nos rios as linhas do destino.
devíamos criar uma cidade livre
nova
desde o vulcão
o nosso repouso em labaredas
para um primeiro beijo
fora do território nacional
até à lonjura da maior viagem
dormirmos na pousada
que abriga tectos em estrelas
com os olhos fechados
trocados
numa nova cidade
até sermos ilha.
quando regressássemos
morávamos
na nossa grande casa da árvore
cravejados de folhas
pássaros e beijos
as mãos um do outro
polpa de maçã
só à espera de ver nascer
a madrugada debaixo dos braços
para o último arrepio
de todos os tempos
amarmo-nos.
ana salomé In "odes", Editora Canto Escuro, s/c, 2008, pp 64-65.
.
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16/06/09
"Da Terra à Luz"

"Os Escribas"
Nunca senti por eles grande entusiasmo.
Se eram excelentes eram também petulantes
e de um trato tão espinhoso como o azevinho
de que extraíam a tinta.
E se nunca fui um deles também é certo
que nunca me puderam negar o meu lugar.
Na quietude do scriptorium
crescia neles a todo o tempo uma pérola negra
como o velho coágulo seco por dentro das penas.
À margem de textos laudatórios
arranhavam, esgadanhavam.
Rosnavam se o dia estava escuro
ou se giz a mais amolecera o vellum
ou giz a menos o deixara oleoso.
Sob os dorsos da caligrafia
arrebanhavam rancores míopes.
Sementes de ressentimento ponteavam-lhes
as espirais de fetos das maiúsculas.
De vez em quando eu tinha um sobressalto
a milhas de distância, e via na minha ausência
o cursivo inclinado de cada dorso, e sentia-os
a aperfeiçoarem-se contra mim, página a página.
Que se recordem deste contributo não desprezível
para a sua arte de invejas.
Seamus Heaney In "Da Terra à Luz - poemas 1966-1987 ",
Relógio D'Água Editores, Lisboa, 1997, p. 333, (trad. Rui Carvalho Homem).
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14/06/09

"Effigy"
If you come to find me affable
And build a replica for me
Would the idea to you be laughable
Of a pale facsimile
So when you come to burn an effigy
It should keep the flies away
When you learn to burn this effigy
Il should be
For the hours that slip away
It could be you, it could be me
Working the door, drinking for free
Carrying on with your conspiracies
Filling the room with a sense of unease
Fake conversations on a nonexistent telephone
Like the words of a man who's spent a little too much time alone
When one has spent too much time alone...
So if you come to burn my effigy
It should keep the flies away
When you learn to burn an effigy it should be
Of a man who's lost his way, slips away
Andrew Bird, do C.D. "Noble Beart", Wegawam Music Co., E.U., 2009.
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.Nota - As sardinhas só vieram hoje...Naquele terraço de corte mediterrânico entravamos e
saíamos. Lembrei-me dos pavões a quem o A. cortara as asas e as raposas devoraram num fim-de-semana. Alguém veio cá abaixo bater estridentemente palmas... "Para espantar os gaios - explicaram-me depois -, os cabrões dão cabo de tudo!". A música continuava a sair pelas janelas escancaradas. Eu e a H. protestavamos do exagerado volume do som.
Ninguém nos dava ouvidos. Felizmente! Porque foi assim que dei com um C.D. que me tinha escapado.
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12/06/09
Dois poemas de um livro a sair em breve ...

MUSA
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1.
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Vem, ó Mouça, vem logo com teu charme,~
traz inteiro o teu nome e teu segredo:
eu preciso de ti, vem encontrar-me
que te direi de cor o "Amor e medo".
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Nem o amor se disfarça em pesadelo
nem o medo remói o sentimento,
o sinal da baliza a inscrevê-lo
num beijo, noutro beijo, noutro intento,
nisto que a vida pôs nesta alegria,
nesta canção de amor no fim do dia.
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2.
Nem é preciso vir, manda o teu nome
e com ele virão a tua imagem,
a vida, o amor e o tempo que se some
na busca do melhor como linguagem.
Mas é preciso ir, inominado
e simples como o acaso me permite:
buscando sempre esse teu lado alado
que se oculta sem tempo nem limite.
Aí teu corpo é mais que corpo - a essência
do melhor, do mais belo, do mais puro,
da vida desdobrada e sem carência
navegando em si mesma no futuro.
Gilberto Mendonça Teles In " Linear G." (No prelo)
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Nem é preciso vir, manda o teu nome
e com ele virão a tua imagem,
a vida, o amor e o tempo que se some
na busca do melhor como linguagem.
Mas é preciso ir, inominado
e simples como o acaso me permite:
buscando sempre esse teu lado alado
que se oculta sem tempo nem limite.
Aí teu corpo é mais que corpo - a essência
do melhor, do mais belo, do mais puro,
da vida desdobrada e sem carência
navegando em si mesma no futuro.
Gilberto Mendonça Teles In " Linear G." (No prelo)
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10/06/09
"meu mundo é do outro lado"

"marginal"
não sou poeta de dentro
vivo na periferia
onde aprendo ao relento
os sinais da poesia
sem outro mestre ou sebenta
outros meios auxiliares
que a alma nua e atenta
às evidências singulares
não vou às festas galantes
onde se bebe do fino
com papagaios falantes
num linguajar de cretino
(mas de cretino laureado
com imarcescíveis lauréis)
meu mundo é do outro lado
entre plebeus menestréis
marginal mas livre e limpo
de certas quedas na lama
com que se sobe ao olimpo
da torpe festa da fama
Cláudio Lima In "Itinerarium III", Opera Omnia Ed., Guimarães, 2006, p 40.
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oiço-te a respiração; é leve como a
de um pássaro em sono descuidado
os olhos, fechados, guardam a luz
perene, intensa, com que acendes
as auroras do mundo
o peito, num arfar ritmado de serenidade,
é o escrínio inviolado dos meus afectos
vigilantes
o umbigo assinala
um viveiro de pérolas cativas
a noite é longa na alvura do linho
onde repousas
nada é urgente ou repetido,
nenhum relógio tange os ponteiros agressivos
do dever
olho-te em silêncio e sou feliz
Cláudio Lima In " Maçã pra Dois", Ed. Tartaruga, Chaves, 2001, p 14.
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de um pássaro em sono descuidado
os olhos, fechados, guardam a luz
perene, intensa, com que acendes
as auroras do mundo
o peito, num arfar ritmado de serenidade,
é o escrínio inviolado dos meus afectos
vigilantes
o umbigo assinala
um viveiro de pérolas cativas
a noite é longa na alvura do linho
onde repousas
nada é urgente ou repetido,
nenhum relógio tange os ponteiros agressivos
do dever
olho-te em silêncio e sou feliz
Cláudio Lima In " Maçã pra Dois", Ed. Tartaruga, Chaves, 2001, p 14.
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05/06/09
Foto de autoria do polaco Oiko Petersen. Este trabalho pertenceao ciclo "Downtown Collection".
O AUTOR CONSTRÓI UM MODELO DO UNIVERSO QUE
OBEDECE APENAS À PRESENÇA VOLÁTIL DA AMADA
não há muito mais a fazer sobre o chão depois de se ter olhado
o mar cheirado a terra assistido ao verão incorrer
feroz no lugar das têmporas e ter
apontado decifrado a sujidade derramada sobre o planeta
sob a mudez das flores
porquanto eu admito haver ainda tanto a fazer e a desfazer
no mundo
rodar um complicado jogo de esferas mapear o
insondável lugar do amor
democratizar o perfume das populosas pétalas do gerânio
e da papoila vermelha tão próximas pétalas de um rosto
de natureza mais que babilónica
regresso sempre ao modelo geocêntrico do universo
centrado na amada
tudo gira em volta desse rosto lírio entre os cardos
esqueço a coperniciana construção do mundo amiúde imundo
muitas vezes hei-de voltar à mulher
como as ondas voltam num rigor de espuma aos versos de ruy belo
e desenho na aliterada elegância da paronomásia
o arquétipo da letra - minha ortografia copiada dos
extractos mensais do céu
que é o mesmo que dizer: resumi sempre os mistérios cósmicos
à deslumbrante assiduidade dessa face
anterior à graduação musical pitagórica pouco coeva destes pássaros
que crescem alheios a bach na folhagem e caem para o céu
contrários insurgentes sublevados às propostas de isaac newton
a quem começaram primeiro por obedecer as maçãs
e agora todo o universo se convencionou
julgo dizer nestes versos que nunca amei tão alto nesta cidade
que nunca os antigos pensadores da ásia ousaram de tanta liberdade
moral e estética que ninguém foi tão silencioso e inútil
frente ao mar do estoril onde esta tarde ateei dez cigarros dez
fortíssimos por causa das coisas
que nunca abri tanto o tórax que nem nunca os velhos pintores
mongóis do século dezasseis
saberiam copiar tão bem o entono de amamte amplo
frente ao mar de um mês frio de um ano bissexto
a balbuciar: amo-te todo o ano e neste fevereiro
ainda mais um dia
esperando nas palmas do século na miséria estíptica do país
o acelerar do degelo dos pólos para que o mar lave e leve de vez
esta terra que sempre publicitou a sua vocação para o mar
não há nada a fazer neste mundo a não ser o gesto de
circunscrever a amada entre as demais mulheres
pensar determinar métodos ficar em casa a escrever princípios
de exclusão e equivalência
tratados enigmáticos
que definam e representem num rigor alcoólico
um sistema livre de tudo o que não obedeça ao aferro
da amada
Miguel-Manso In "Quando Escreve Descalça-se", Ed. Trama Livª,
Lisboa, 2008, pp 16-17.
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