11/09/09
"Poema em Azul"
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As expectativas são azuis
como o horizonte depois de cada colina.
Têm cor intensa,
existe um dia na sua origem.
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Não são a compensação da noite,
quando nada mais é possível.
Partilham o fundo da provação,
a altura da vertigem.
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Dizem que estamos na penumbra,
ausentes de nós, privados de tudo;
mas, se a claridade não é verdadeira,
por que os nossos sonhos são azuis?
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Joel Henriques In "Revista de Poesia Saudade Nº 11", 2009, p 38.
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10/09/09
"à medida que lês/ estas palavras adquirem/ existência..."
.jpg)
" Nude # 6 " foto de Maurice Pitre, Quebec - Canadá (2005).
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diseuse? é para ti que falo.
imagino-te como uma voz
feminina, macia e doce,
impregnada do mistério das
mães. à medida que lês,
estas palavras adquirem
existência e depois voltam-se
a calar. fico envergonhado:
sei que não consigo estar
à tua altura. há também
a tua boca, diseuse: pinto-a
como uma ave a pôr asas
em tudo o que toca.
é neste momento que deves dar
a entender que caí nestas folhas
à procura de não sei quê
e que depois me debato,
neste lado, para estar ao pé
de ti, como um dos melhores
amigos da alegria. quando
estiveres a ler o texto seguinte
ficarei sentado, numa das mesas
defronte, a ouvir-te,
entretendo nas mãos uma
pequena chávena de café.
é preciso dar lugar à vida.
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Rui Tinoco In "Big Ode # 7 - Sublime ", 2009, p 95.
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09/09/09
"regresso/ aqui à procura de palavras/ desconformes."
"Feast " (Alemanha, 2006), foto de David Lykes Keenan (Austin, Texas)quando termino um verso
fico imediatamente sentado
na cadeira do leitor... por favor,
arranjem-me um lugar...
obrigado. ponho-me à-vontade.
sigo com interesse
várias histórias na grande
televisão da vida. regresso
aqui à procura de palavras
desconformes. fosse possível
corrigir assim as existências.
Rui Tinoco In "Revista Big Ode # 7 Sublime", 2009.
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08/09/09
"e disputam a amizade como um jovem lobo que aprende/ a caçar"
" amigos de longa data do dia que não acaba"quero os amigos que tenho na cabeça
os que tenho em mente nunca conhecer pessoalmente
e não vão ter defeitos os meus amigos de nunca
mais
os meus amigos são Simão que vende seguros e por isso
usa óculos só para os poder partir
são Jaime que tem um snack-bar que dá prejuízo
são Abu que é indiano e que está na minha cabeça só
para provar que sou multicultural e tirando isso o
Abu cala-se o Abu canha-se
e são eles aqueles que eu gostava de levar para a cova
para os apresentar à Nossa Senhora
e são eles aqueles com quem jogo cartas sem me
preocupar com a morada certa
e desabafo com eles como quem tem falta de ar
e converso com eles nos intervalos das discussões
que o resto do tempo fica para discutir quem é mais
meu amigo
amigo meu mais
meu mais amigo
e fazem concursos para ver quem me lava melhor os
pés
quem me coça melhor as costas
quem me dá o abraço mais apertado e sexual sem
chegar ao ponto do desconforto de ter vontade de o
beijar
e tenho tantas saudades deles
inventei as saudades que lhes tinha e pedi que chorassem
muito
e eles choraram o dobro de muito que é para cima de
um lago onde vamos nadar os quatro
o choro deles quando se juntam é do tamanho
da água de que precisa o veleiro de onde partimos à
aventura
e ao partir a aventura dividi-a pelos três
e agora estão ciumentos porque não dá conta certa
e disputam a amizade como um jovem lobo que aprende
a caçar
e eu dou-me todo por não ter a quem mais dar
e converso-lhes as palavras todas porque eles não
existem
e digo-me os elogios todos porque eles não me podem
ver
e canto-me as canções mais doces porque voz não
sabeis
não sabes
não estás cá
não estão cá
antes estivessem
se cá estivessem era melhor
não estando tenho de me contentar com os homens e
mulheres que estão ao meu lado e que eu não inventei
e cada vez tenho mais saudades deles
procuro alguém parecido mas não encontro
e quando encontro não gosto porque me apaixono pelas
pessoas que são o contrário do que a minha imaginação
prefere
e o Jaime o Simão e o Abu levaram a mal e foram
passar férias para acabeça de outra pessoa e nem um
recado deixaram
e se calhar não voltam
e se calhar não quero
e a cabeça já não tem inquilinos
e os que há estão à minha volta
mesmo à minha volta
mesmo de verdade
com caras que não me são familiares e personalidades
defeituosas que eu julgo como quem beija
a cabeça levo-a leve mas o coração bate mais forte
mais pesado
pudera tem gente lá dentro
João Negreiros In "Luto Lento", Ed. Projecto Literatura em Movimento,
(http://www.oletras.com/), s/c, 2008, pp 57 - 59.
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06/09/09
"O/ desprendimento é o único/ elo."
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De que vale tudo recordar,
se nada sei esquecer? O
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desprendimento é o único
elo. Deixar o rio seguir
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o seu curso e todo o fluxo
que depois vier sempre será
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água nova. Essa vela fugaz
enquanto acesa e perene
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quando apagada. Levar para
dentro do desejo, a árvore
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e sua colheita. Levar para
dentro da árvore, como uma
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vela num quarto, o desejo aceito.
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Maria Carpi In "Desiderium Desideravi", Ed. Movimento,
Porto Alegre, 1991, p 70.
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05/09/09
"Posso, minúscula, adormecer/ na ventania."
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Posso, minúscula, adormecer
na ventania. Posso, rala,
serenar-me os rios. Porém,
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quando o abandono em mim
pede trégua e a tua saliva
busca meu germe, ainda
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sou desordem, ainda engendro
distâncias. Não sei acolher-te
da errância. A não me isolar
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entre pedras, a não me secar
entre gráficos ou jazer cinza entre
cinzas, a não revirar os olhos,
.
clausuro-me em teu andamento.
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Maria Carpi In "A força de não ter força", Escrituras Editora,
São Paulo, 2003, p 51.
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04/09/09
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Lava a minha suja memória neste rio de lama.
Com a ponta da tua língua limpa-me por todos os lados.
E não deixes o mínimo vestígio de tudo quanto me prende e cansa.
Ah, caça! Persegue-a em mim, pois só em mim ela vive!
E quando a tiveres sob a alçada do teu fuzil
não escutes as suas súplicas.
Tu bem sabes que ela deve morrer - uma segunda morte.
Então, mata-a! Uma vez mais...
Chora! Também eu, antes de ti, já o fiz,
mas foi em vão.
E quão belos são os soluços inundando as almofadas!
Eu tentei, tentei mas tenho o coração seco e os olhos inchados
(tenho o coração seco e os olhos inchados...)
Então queima! Queima o momento em que te envolves no meu grande leito de gelo,
este leito que, como uma banquisa, se derrete se acaso me abraças.
Nada é mais triste. Nada é mais grave
se tenho o teu corpo como uma torrente de lava.
A minha suja memória neste rio de lama
lava! Lava a minha memória suja
neste rio de lama - Lava!
Alex Beaupain In "Les chansons d'amour" de Christophe
Honoré (tradução de Victor Oliveira Mateus).
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Lava a minha suja memória neste rio de lama.
Com a ponta da tua língua limpa-me por todos os lados.
E não deixes o mínimo vestígio de tudo quanto me prende e cansa.
Ah, caça! Persegue-a em mim, pois só em mim ela vive!
E quando a tiveres sob a alçada do teu fuzil
não escutes as suas súplicas.
Tu bem sabes que ela deve morrer - uma segunda morte.
Então, mata-a! Uma vez mais...
Chora! Também eu, antes de ti, já o fiz,
mas foi em vão.
E quão belos são os soluços inundando as almofadas!
Eu tentei, tentei mas tenho o coração seco e os olhos inchados
(tenho o coração seco e os olhos inchados...)
Então queima! Queima o momento em que te envolves no meu grande leito de gelo,
este leito que, como uma banquisa, se derrete se acaso me abraças.
Nada é mais triste. Nada é mais grave
se tenho o teu corpo como uma torrente de lava.
A minha suja memória neste rio de lama
lava! Lava a minha memória suja
neste rio de lama - Lava!
Alex Beaupain In "Les chansons d'amour" de Christophe
Honoré (tradução de Victor Oliveira Mateus).
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03/09/09

"Vi - Ana do Castelo "
Nesta moldura branca a cidade és tu
escrevo-te como condição e semelhança
plena sem limites ou esquinas
contigo nesta página componho a grama pulsada
pelo tempo rememorando o sol e o silêncio
que em ti grafei um dia
e persisto na claridade e na folhagem
que despontam no leito que sublima o bulício dos dias
num disperso labor ou tráfego
em ti giram o espaço o rio
as horas os séculos o tempo e a foz
é no castelo que repousas serena
rodeada pelas muralhas outrora abrigo
pouso devagar os pés entre as ameias
e avisto-te por entre sílabas esguias
desenho o teu desejo e as ruas percorrem-me
trespasso o castelo e os muros numa incandescência ocre
e desaguo junto à margem do tempo
que reflecte um presente perpétuo
e vejo nesta página o nome
que eleva a ponte das raízes
Gisela Ramos Rosa In "Viana a Várias Vozes", Ed. Câmara
Municipal de Viana do Castelo, 2009.
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"(...) Trémula, nua, desenhada/ na poeira ou no mármore do tempo ..."

"La Belleza"
Ah, quién podrá decir qué es la belleza!
Secreta en su envoltura celeste de cristal
como un reloj o un ángel debajo de un fanal
que brilla y nos otorga la dicha o la tristeza
de un modo natural.
Qué es la belleza! Trémula, desnuda y dibujada
sobre el polvo o el mármol del tiempo que sedientas
largas horas contemplan, liman, pulen atentas
como la suave piedra por los mares besada
que atraviesa tormentas.
No supo Schopenhauer definirla y fue en vano
que Platón en sus Diálogos hablara tanto de ella.
Tiembla como en el agua, que la oscuridad sella,
el reflejo perfecto de un ala o de una mano
o de una antigua estrella.
Ah, quién podrá decir de qué ansiosas sustancias
nace y en qué momento y con qué proporciones
descubrieron sus rostros con tantas perfecciones
misteriosas, fugaces, como son las fragancias
de una flor sin razones.
Silvina Ocampo In "Poèmes d'amour désespéré" (Édition bilingue - traduction Silvia
Baron Supervielle), Librairie José Corti, Paris, 1997, p 116.
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28/08/09
"Marcello Caetano - O mito esvaziado"
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Marcello Caetano. O Homem que Perdeu a Fé, de Manuela Goucha Soares, "a biografia completa", segundo reza o anúncio da capa, possui o dom de reunir o melhor da reportagem jornalística com o melhor da investigação histórica. Dito de outro modo, reúne a narrativa da existência de um homem político com a descoberta e a inventariação de fontes históricas novas que iluminam de uma outra luz a vida do biografado.
No campo da biografia, todos os cuidados são poucos quanto ao escrúpulo e ao rigor da análise, porque não raro, em Portugal, sobretudo no aspecto político, se confunde biografia com hagiografia, como se constata pela recente publicação de biografias sobre políticos vivos ou sobre figuras carismáticas do Estado Novo. Descansemos, porém, neste caso.
Com efeito, o trabalho de Manuela Goucha Soares não só segue uma rigorosa metodologia jornalística (pesquisa, entrevistas, testemunhos escritos e orais, aplicação da regra do contraditório, deslocação aos lugares, neste caso ao Brasil), como aplica igualmente regras básicas da investigação histórica (a pesquisa em fontes originais e a descoberta de novos documentos, inclusive fotos), como, igualmente, propõe um fio condutor analítico-interpretativo na história colectiva.
Neste último caso, a autora conseguiu uma vincada harmonia entre a vida particular de Marcello Caetano e os acontecimentos públicos que lhe iam moldando o destino político, evidenciando um entrelaçamento muito forte entre a evolução do país e a evolução da vida do biografado. Polémico apenas o subtítulo (O Homem que perdeu a Fé) - a hipostasiação de um facto íntimo da vida do biografado que não explica nem a sua actividade política nem interfere nas suas intervenções públicas.
Que nos dá a ler a autora através da narração da vida de Marcello Caetano? A grande, grande conclusão que se extrai do encadeamento dos factos vivenciais apresentados reside na circunstância, até hoje não suficientemente relevada do ponto de vista histórico, que - primeiro - Marcello Caetano nunca superou o estatuto de um funcionário superior do Estado Novo, nem sempre passivo, mas sempre obediente ao chefe, isto é, a Oliveira Salazar; segundo, quando lhe faltou o chefe, não o soube substituir através de políticas próprias actualizadas, segundo um horizonte político próprio, desbloqueador do nó górdio em que se tornara Portugal, limitando-se a prolongar as do passado ("complexo" do funcionário superior). Quando sucedeu a vacatura de Primeiro-Ministro, Marcello Caetano evidenciou os seus genuínos limites políticos, transpondo para este alto cargo político e administrativo a estrutura mental e as categorias sociais próprias de um funcionário há 40 anos conivente e convivente com o regime, explorando os limites deste, mas evidenciando uma forte incapacidade para o renovar.
Com efeito, como funcionário superior, Caetano encontra-se ao lado de Salazar desde o primeiro minuto do regime do Estado Novo. Este convida-o para Subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social, Marcello Caetano recusa (encontra-se em plena preparação das provas de doutoramento) e Salazar nomeia-o para a Comissão Executiva da Comissão Central da União Nacional com a incumbência de preparar o primeiro congresso desta organização política. Mais concordante ou mais discordante, Marcello Caetano frequenta o pequeno círculo de conselheiros de Salazar durante 30 anos, até ao final da década de 50. As suas discordâncias, porém, nunca são levadas ao limite da ruptura, muito longe disso, revelando - conclui-se após a leitura do livro de Manuela Goucha Soares - "pequenos atritos tácticos e conjunturais mas grandes afinidades estratégicas ao nível da criação e organização corporativa do Estado Novo".
De facto, não foi a política que fez de Marcello Caetano um grande homem, mas os sesu estudos de Direito - este seria, porém, um caminho que daria um outro tipo de biografia (a "biografia intelectual"), que, estatuindo-se apenas como um plano da vida do biografado, Manuela Goucha Soares não seguiu, e muito bem, oferecendo-nos um retrato mais completo.
De facto, como classificar senão de funcionário superior incondicional do regime um jovem político (35 anos) nomeado para fundar e dirigir a Mocidade Portuguesa? Que outro senão um fiel e leal discípulo poderia escrever as cartas ao chefe dadas a conhecer pela autora (pp. 81 - 82)? Que outro senão um funcionário superior poderia ser nomeado Ministro das Colónias, em 1944, em plena II Guerra Mundial, seguindo de imediato em viagem para as colónias de modo a promover o cerrar de fileiras dos territórios ultramarinos em torno da política do Chefe? Que a outro senão a um indefectível exigiria ao chefe mais e melhor no campo social e corporativo contra a "burguesia capitalista" (p.97)? Que outro senão um lealíssimo colaborador poderia ser nomeado, em 1947, presidente da Comissão Executiva da União Nacional, alertando o chefe para a ineficácia da propaganda do Estado Novo, que não arregimentava as "massas populares" (p. 107)? Que outro senão um fidelíssimo poderia ser nomeado Presidente da Câmara Corporativa em 1949?
Face à fidelidade ao regime, haveria, de facto, dissonância crítica com o chefe? Como político, Marcello Caetano é fiel; como intelectual, crítico. Como a autora evidencia, é justamente a crise académica de 1962 que revela a diferença entre o político e o intelectual, levando a um afastamento.
Porém, após a subida ao lugar do Chefe, em 1968, o mito esvazia-se de todo. No essencial, Marcello Caetano, preso a uma educação integralista e incapaz de encontrar verdadeiras alternativas para o bloqueio em que Portugal vivia (Guerra Colonial; existência de uma classe média sem expressão no espaço público; isolamento internacional...), segue a política do seu antecessor, evidenciando a sua real face política - a de um funcionário superior do regime. Com efeito, lendo a biografia de Marcello Caetano por Manuela Goucha Soares rápido se conclui que, dentro de um século, a História não registará o seu nome, "saltando" de Oliveira Salazar directamente para a revolução do 25 de Abril de 1974, como a História não regista (senão por académicos e eruditos) o nome do ministro sucessor de João Franco, entre 1908 e 1910, "saltando" do nome deste para a implementação da I República, em 5 de Outubro de 1910.
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(Manuela Goucha Soares, Marcello Caetano. O Homem que perdeu a Fé, A Esfera dos Livros, 293pp, 30 euros)
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Miguel Real In "Jornal de Letras" 1014, Agosto, 2009.
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27/08/09
"A demissão da vaidade permite a lucidez"
"Imaginary voyage", Wies - Austria (2008) foto de Tomaz CrnejA demissão da vaidade permite a lucidez
E alivia o peso das horas correctas enquanto
O zelo da alegria enuncia o respeito pela dor.
A ausência de desejo submete a cor à dúvida,
Compromete a seriedade e o caos numa mesma
Espera e limita o espaço onde se movimentam
Os braços. A morte da ternura é demasiado
Lenta e avança com uma delicadeza suave,
Melodiosa até, que rompe limites até então
Seguros e nunca postos em causa pelo corpo.
A água escorre através das fendas provocadas
Pela seca continuada. Há sinais de
Mudança legitimados pela frescura
Dos arbustos que ladeiam o caminho incerto
Que conduz a um silêncio em construção, uma
Ideia indefinida de prazer sensual e puro
Que permanece. Toda a paz respira dentro
De uma loucura reconhecida pelos homens
Que seguem a luz reveladora dos limites
E acrescenta à harmonia a sede líquida
Da exclamação correcta. Há-de chegar o fim.
Rui Almeida in "Lábio Cortado", Livro do Dia Editores,
Torres Vedras, 2009, p 47.
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"Sei que recordo tudo em certos momentos."
.jpg)
"Shedding Skin", Portland, Oregon - 2008, foto de Andrea Galluzzo
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A prontidão das sombras resume
Um simples corpo e resvala sinuosa.
Sei que recordo tudo em certos momentos.
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Recordo-te até como se te chamasse,
Como se corresse através do caminho
Que vais preparando junto aos precipícios.
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Mas a memória revela o que não sei,
Desfaz sequências de nomes até ti.
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Repito a violência e seguro uma pedra
Com as mãos - tal como as tuas - já perdidas.
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Repito toda a fragilidade que o teu peso insinua
E derramo a voz ao limite - ossos e carne
Que nos atiram ao chão com o afecto da dor.
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Rui Almeida In "Lábio Cortado", Livro do Dia Editores,
Torres Vedras, 2009, p 27.
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25/08/09
"Eu Me Deleto"
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1
Eu me dilato:
rejeito a vida prêt-à-porter de massa e consumismo
fujo da matriz, evito o invólucro que me oferece como outro:
umbigo-conexão em fôrma e forma de fora para dentro
formulo e me reformulo
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mas estou infectado pelo vírus
electrônico, invadido por hackers de plantão
eliminando minha individualidade
- inteligência destrutiva
viral, virtual, visceral, vital.
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Me estendo, me simulo e dissimulo:
continuo sendo dionisíaco, lúdico
com o complexo de Narciso:
e me excomungo, me abduzo, me exorcizo.
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Como tudo é instantâneo
nem reflito
- espelho a derrocar a própria imagem.
Sou um rito de passagem.
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2
Eu me delato:
tudo pela onipresença
pela ubiquidade absoluta
- eu-prótese, eu-extensão
do modo de acomodar e conjugar
os mitos e as alegorias.
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3
E me deleto:
atrelado à rede total que me esgarça, me dispersa.
Me desloco, descolo, me desintegro, me desconecto.
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Estou cada vez mais fuso, parafuso, confuso
num esquema difuso
pelas regras da nanotecnologia
- daí a minha tecnofobia, minha agonia.
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É mesmo o fim da ideologia?
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Na missa virtual
em vez da pomba da paz
aparece uma vagina cósmica
denunciando minha origem.
Onde o antivírus? Cadê a vacina?
Vertigem do ser.
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Antonio Miranda In "Despertar das Águas", Thesaurus Editora,
Brasília, 2006, pp 74 - 76.
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24/08/09
"Rio de Janeiro Madrugada 1957"
que importa já passou nada restou
daquelas noites mornas e sem normas
pelas ruelas sujas paredes descascadas
da Lapa detrás dos Arcos prostitutas
mendigos tabuleiros angu com torresmo
travestis drogados acuados grasnando
de saltos altos seios postiços línguas
masturbando clientes colados aos postes
garotos de programa na Galeria Alasca
mostrando pénis rijos como mercadorias
vendedores de amendoim torradinho
lá vem o camburão arrasando quarteirão
sexo ali na praia ali mesmo luzes
refletidas corpos nus fricção orgasmo
curra sofreguidão susto prostração
que a noite é longa e os sonhos aguçados
um intelectual na porta do boteco cisma
um resto de samba-canção desnaturado
o bonde trepida os marinheiros urinam
e as igrejas dormem e os ratos assustados
os jornais da madrugada pesam nas calçadas
os bêbedos os malandros os vendedores de rua
os casais que saem dos cabarés suados
e o velho que dorme no banco de praça
e as luzes da avenida reverberando
e as colunas mortas e as portas fechadas
os anúncios luminosos as hospedarias
e os sobrados envergonhados sonolentos
não há lua sob um céu de chumbo
o bolso vazio o coração esfacelado
um desempregado com fome na parada
esperando o ônibus para o subúrbio
fantasias notívagas os preconceitos suspensos
desejos absconsos e sua cumplicidade
classes sociais aproximando-se promíscuas
antes que o dia enquadre as criaturas
Antonio Miranda In "Despertar das Águas", Thesaurus Editora,
Brasília, 2006, pp 47-48.
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REVISTA SAUDADE
.jpg)
ENCONTRA-SE À VENDA O Nº 11 DA " REVISTA DE POESIA SAUDADE" (JUNHO 2009 ).
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O REFERIDO NÚMERO TEM A COLABORAÇÃO DOS SEGUINTES POETAS:
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ALFREDO FERREIRO (Galiza), AMADEU BAPTISTA, ANA LUÍSA AMARAL, ANTÓNIO
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CABRITA, ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO, ANTÓNIO FERRA, ANTÓNIO JOSÉ QUEIRÓS,
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ANTÓNIO SALVADO, AVELINO DE SOUSA, BRUNO BÉU, DANIEL GONÇALVES,
.
DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES, EDUARDO BETTENCOURT PINTO, FERNANDO
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BOTTO SEMEDO, FERNANDO DE CASTRO BRANCO, FERNANDO FÁBIO FIORENSE
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FURTADO (Brasil), FERNANDO DA GLÓRIA DIAS (Angola), FERNANDO GRADE,
.
FERNANDO PINTO DO AMARAL, FRANCISCO CURATE, GRAÇA MAGALHÃES,
.
HENRIQUE MONTEIRO, IACYR ANDERSON FREITAS (Brasil), ILDÁSIO TAVARES (Brasil),
.
IOLANDA R. ALDREI (Galiza), ISABEL CRISTINA PIRES, JOÃO RUI DE SOUSA, JOAQUIM
.
CARDOSO DIAS, JOEL HENRIQUES, JORGE REIS-SÁ, JOSÉ A. DAMAS, JOSÉ LUÍS DE
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ALMEIDA MONTEIRO, JULIÃO BERNARDES, LUÍS ADRIANO CARLOS, LUÍS FILIPE
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CRISTÓVÃO, LUÍS FILIPE PEREIRA, LUÍS QUINTAIS, MAFALDA CHAMBEL, MARIA DO
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SAMEIRO BARROSO, NICOLAU SAIÃO, NUNO DEMPSTER, PEDRO SENA-LINO, PEDRO
.
S. MARTINS, POMPEU MIGUEL MARTINS, RUI CAEIRO, SÉRGIO PEREIRA, TATI
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MANCEBO (Galiza), TIAGO PATRÍCIO, VICTOR OLIVEIRA MATEUS, VÍTOR OLIVEIRA
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JORGE e XOSÉ LOIS GARCÍA (Galiza).
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22/08/09
" L'indomptable n'a pas de mots."
.jpg)
"En Mars - 79 "
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Las de tous ceux qui viennent avec des mots, des mots
mais pas de langage,
je partis pour l'île recouverte de neige.
L'indomptable n'a pas de mots.
Ses pages blanches s'étalent dans tous les sens!
Je tombe sur les traces de pattes d'un cerf dans la neige.
Pas des mots, mais un langage.
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Tomas Transtromer In "Baltiques - Oeuvres complètes 1954 - 2004",
Poésie/Gallimard, Paris, 2004, p 244 (Tradução do sueco por Jacques Outin).
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traduzindo Tomas Transtromer...
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"Em Março de 79"
Cansado de todos os que vêm à mistura com as palavras,
com as palavras não com a linguagem,
parto para uma ilha recoberta de neve.
O indomável não se deixa dizer.
As suas páginas brancas desdobram-se em todos os sentidos!
Descubro as pegadas de um veado inscritas na neve.
Nada de palavras, mas sim uma linguagem.
Tomas Transtromer (tradução do francês por Victor Oliveira Mateus)
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"Em Março de 79"
Cansado de todos os que vêm à mistura com as palavras,
com as palavras não com a linguagem,
parto para uma ilha recoberta de neve.
O indomável não se deixa dizer.
As suas páginas brancas desdobram-se em todos os sentidos!
Descubro as pegadas de um veado inscritas na neve.
Nada de palavras, mas sim uma linguagem.
Tomas Transtromer (tradução do francês por Victor Oliveira Mateus)
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20/08/09
Etty Hillesum
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(de 24/10/1941 a 11/11/1941 - excertos).
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(de 24/10/1941 a 11/11/1941 - excertos).
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As pessoas não se devem contaminar mutuamente com as sua más disposições.
Esta noite, mais decretos contra os judeus. Consenti a mim mesma ficar deprimida e desassossegada com isso durante meia hora. Antigamente ter-me-ia consolado a ler um romance e deixar o trabalho por fazer. (...) Enquanto o conseguirmos alcançar através da menor abertura, devemos aproveitar. Pode ser que isso o consiga ajudar (ao Mischa) na vida mais tarde. Uma pessoa não deve querer atingir sempre grandes resultados. Mas devemos acreditar nos pequenos.
Há dois dias que só trabalho e não me aprofundo nos estados de espírito (...).
"Estou tão agarrada a esta vida." O que queres dizer com esta "vida"? A vida fácil que tens agora? Se realmente estás agarrada à vida crua, nua e crua, qualquer que seja a sua forma, isso ainda terá de se ver com o passar dos anos. Tens forças suficientes em ti. Também tens isto: "Se uma pessoa leva a vida a rir ou a chorar, é somente uma vida." Porém isto não está só. Está misturado com dinâmica ocidental, de vez em quando sinto-o de modo muito intenso. Nestes dias mais sóbrios de verdadeira autodisciplina, sinto isso muito intensamente: estás mesmo saudável, estás a avançar para ti própria, a chegar à tua própria base (...).
Parece que já se passaram muitas semanas e que experienciei muitíssimas coisas. E no entanto, a um determinado momento uma pessoa reencontra-se às voltas com a mesma questão: a compulsão que tens em ti ou essa ficção ou fantasia, como lhe queiras chamar, de querer possuir uma só pessoa por uma vida inteira, tens de a estilhaçar em mil pedaços. Esse absoluto tem de ser pulverizado dentro de ti. E em seguida não ficar com essa ideia de que a pessoa fica mais pobre com isso, mas justamente mais rica. Bastante mais difícil, mas com mais nuances. Aceitar os pontos altos e baixos nas relações, e encarar isso como positivo e não como entristecedor. O não querer possuir um outro, o que não significa renunciar ao outro. Deixar o outro em total liberdade, interiormente também, sem que contudo tal signifique resignação. Começo agora a identificar a natureza da minha paixão no meu relacionamento com o Max (Knaap?). Era a dúvida, porque sentias que o outro era inalcançável em última instância e isso atiçava-te ainda mais. Mas isso aconteceu provavelmente porque querias alcançar o outro de modo errado. De modo demasiado absoluto. E o absoluto não existe. Que a vida e as relações humanas são infinitamente matizadas, que não há em parte alguma algo absoluto ou objectivamente válido, isso também eu sei, mas este conhecimento deve estar também no sangue, em ti mesma, não só na cabeça, mas deve também ser vivido. E aqui volto sempre a bater na mesma tecla e uma pessoa tem de se exercitar nisto durante toda a vida: que, tal como uma pessoa aceita viver segundo uma visão do mundo, de idêntico modo deve viver o seu sentimento. Provavelmente é essa a única possibilidade de adquirir um sentimento de harmonia.
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Etty Hillesum In "Diário 1941-1943", Assírio & Alvim, Lisboa, 2008, pp 130-132 (Prefácio de José Tolentino Mendonça, Tradução do neerlandês de Maria Leonor Raven-Gomes.
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.(Nota - Etty Hillesum "foi morta" no campo de concentração de Auschwitz em 1943).
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18/08/09
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Azul que em azul te desdobras.
Cerco de baías. Moldura de espuma.
De penhascos afagados pelo vento.
É na linha do fogo que te desenho,
ó insubmissa de vagas e fulgores!
É em ti que me renovo, Cítera,
a dos amores. E por ti diariamente
renasço, ilha que em ilhas
te desdobras, onde me apoio
e urdo a teia que sempre refaço,
com o Cabo de Maleia ao fundo;
lâmina apontada ao meu peito
lasso. Aqui me fico, envolto em
algas e sargaço. Azul que em azul
te desdobras das chaminés das casas
ao dúctil reflexo do horizonte;
percurso onde sempre me busco
e busco do ser sua nítida fonte.
Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
2009, p 11 (Posfácio de Cláudio Neves e texto da contracapa de Olga Savary).
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Azul que em azul te desdobras.
Cerco de baías. Moldura de espuma.
De penhascos afagados pelo vento.
É na linha do fogo que te desenho,
ó insubmissa de vagas e fulgores!
É em ti que me renovo, Cítera,
a dos amores. E por ti diariamente
renasço, ilha que em ilhas
te desdobras, onde me apoio
e urdo a teia que sempre refaço,
com o Cabo de Maleia ao fundo;
lâmina apontada ao meu peito
lasso. Aqui me fico, envolto em
algas e sargaço. Azul que em azul
te desdobras das chaminés das casas
ao dúctil reflexo do horizonte;
percurso onde sempre me busco
e busco do ser sua nítida fonte.
Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
2009, p 11 (Posfácio de Cláudio Neves e texto da contracapa de Olga Savary).
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16/08/09

" L' aigle noir "
Un beau jour, ou peut-être une nuit,
Près d'un lac je m'étais endormie,
Quand soudain, semblant crever le ciel,
Et venant de nulle part,
Surgit un aigle noir,
Lentement, les ailes déployées,
Lentement, je le vit tournoyer,
Près de moi, dans bruissement d'ailes,
Comme tombé du ciel,
L'oiseau vint se poser,
Il avait les yeux couleur rubis,
Et des plumes couleur de la nuit,
A son front brillant de mille feux,
L'oiseau roi couronné,
Portait un diamant bleu,
De son bec il a touché ma joue,
Dans ma main il a glissé son cou,
C'est alors que je l'ai reconnu,
Surgissant du passé,
Il m'était revenu,
Dis l'oiseau, ô dis, emmène-moi,
Retournons au pays d'autrefois,
Comme avant, dans mes rêves d'enfant,
Pour cueillir en tremblant,
Des étoiles, des étoiles,
Comme avant, dans mes rêves d'enfant,
Comme avant, sur un nuage blanc,
Comme avant, allumer le soleil,
Etre faiseur de pluie,
Et faire des merveilles,
L'aigle noir dans un bruissement d'ailes,
Prit son vol pour regagner le ciel,
Quatre plumes couleur de la nuit
Une larme ou peut-être un rubis
J'avais froid, il ne me restait rien
L'oiseau m'avait laissée
Seule avec mon chagrin
Un beau jour, ou peut-être une nuit,
Près d'un lac, je m'étais endormie,
Quand soudain, semblant crever le ciel,
Et venant de nulle part,
Surgit un aigle noir,
Un beau jour, une nuit,
Près d'un lac, endormie,
Quand soudain,
Il venait de nulle part,
Il surgit, l'aigle noir ...
Barbara
05/08/09

Toma-me ainda em tuas mãos e
não perguntes nada
nem sequer dês um nome aos gestos que se abrigam
como um fruto uma promessa um murmúrio
nas fogueiras ateadas em junho
juro que vou escolher palavras que não doam
parecidas com as que sempre encontrava
nas camas em que tantas vezes te enterrei
por dentro do meu corpo
toma-me ainda em tuas mãos eu sei que
temos pouco tempo que não queres
inventar novos ardis para um desamor tão velho
mas vais ver
o mundo é apenas isto e para isto
não procures nenhuma filosofia redentora
porque tudo é no fim de contas tão banal
podes por isso começar a refazer a estrada que
te levava ao centro dos meus dias e esperar
que eu chegue com um retrato desfocado nas mãos
na hora certa de abrir para ti as minhas veias
Alice Vieira In " o que dói às aves", Ed. Caminho,
s/c, 2009, p 36.
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04/08/09
"Condomínio Fechado"
Ficou o cedro enorme, disseste, o que guarda
os nossos afectos e as conversas avulsas dos outros:
o lugar de todas as passagens é agora o centro
do vazio que sobe das raízes até ao horizonte
se houvesse horizonte, ao menos um pouco de ar.
O cedro e os segredos antes de corrermos para o forte,
de combinarmos as guerras maninho,
de sabermos que tudo ia ruir, menos o cedro, dizes.
Que adiantaram as nossas vitórias? As derrotas dos outros
deixaram-nos a memória ruidosa de um cedro, o ouvido
disperso pelas folhas e o silêncio magoado a toda à volta.
Combinávamos a vida, o alvoroço da folhagem.
Agora o telefone toca por engano - não mora aqui ninguém
com esse nome, todos moramos num ecrã de televisão
com vista para o mar. Eu só lembro o tufão que te arrancou:
nós torciamos o bibe com mãos nervosas e as mãos
dos homens refaziam os alicerces agasalhando-te
na terra fértil. Cheirava a estrume e nós sabíamos
que a vida voltava - na folhagem luziam os afectos
que limpam o tempo depois da tempestade. Guardião
do templo, para quem guardas as nossas vozes
se nós mesmos perdemos os ouvidos e as mensagens
não chegam até nós? Pelo sim, pelo não
maninho, deixa ligado o telemóvel.
Rosa Alice Branco In "Da Alma e dos Espíritos Animais", Campo das Letras Ed.,
Porto, 2001, pp 37-38.
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03/08/09
"A noite, se existiu, foi para nós um erro"
"Telhados de Lisboa", quadro de Maluda."manhã"
É um pequeno milagre, esta claridade.
Os telhados acendem-se como fornalhas,
permanece vermelha uma parte do céu.
A noite, se existiu, foi para nós um erro
de perspectiva, uma ilusão, um ardil de
sombras e estrelas perdidas no escuro.
Agora é de um azul sem mácula, o céu;
a cidade, um corpo branco a levantar-se;
e esta luz - rasa, rosa, crua - já não um
pequeno milagre, mas uma evidência.
José Mário Silva In "Luz Indecisa", Oceanos/LeYa, Alfragide, 2009, p 48
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"Agora vejo a poeira suspensa na luz"

"ich habe genug (bwv 82) "
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Não é uma questão de lógica.
O milagre está muito além
da pauta, a lenta melodia do oboé
desenhando uma arquitectura aérea.
Agora vejo a poeira suspensa na luz,
o apogeu do outono numa cidade
que se recusou a ser minha, as
armas serenas da tristeza. A voz
de Hans Hotter - tão escura, tão
funda, tão resignada - traz-me
ainda uma capitulação feliz.
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José Mário Silva In "Luz Indecisa", Oceanos/LeYa, Alfragide, 2009, p 42.
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30/07/09
"Soneto das Sombras das Moças em Flor"
Aonde estão as moças que floriam
a primavera azul de Itapuã
desabrochando os corpos que vendiam
na incerteza que mancha o amanhã?
Aonde estão estas meninas? Mora
nas árvores a chuva, o vento, o frio:
o inverno se assentou de vez agora;
pouca lembrança há-se restar do estio -
Só uma nesga de sol que se insinua
sobre as mesas de plástico molhadas;
só uma réstia de vida veste a rua:
os raros transeuntes nas calçadas.
Neste deserto, sob um céu sem cor,
procuro as sombras das moças em flor.
Ildásio Tavares In "As Flores do Caos", Editª Labirinto, Fafe, 2009,
p 33 ( Prefácio de Casimiro de Brito).
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"Dor e glória partilharam, afinal, homens e deuses que,
por terra e mar, vaguearam sem destino!" - considerou
o prestável Eumeu, depois de tantas coisas termos dito,
em seu casebre, nessa noite, não longe do lugar onde, ao
romper da Aurora, não tardaria a desembarcar Telémaco,
para preparar a conjura, e cumprir a vingança.
Vergílio Alberto Vieira In "Sombras de Reis Mendigos", Ed. Livros de Horas,
Porto, 2009, p 46, (Prefácio de Miguel Real).
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29/07/09
"Agora, há ruído/ além do vento."

Nota - Enquanto aguardamos o lançamento do livro da Maiara Gouveia, que, julgo, está para breve, segue um inédito seu de um outro projecto. Gostei muito deste poema e ela autorizou-me a publicá-lo, portanto ...
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"Da origem "
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1.
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Aquém da intriga, a face, ainda oculta
por água turva, em plena queda,
mistura-se ao vácuo, abertura
de uma era. E a treva, armadilha, rodeia
este nada recém descoberto.
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Do oco, um lume revela
o barulho da pedra, esse sopro
a rolar sobre a esfera,
agora líquida, translúcida, repleta
de infinito.
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O firmamento divide o tempo
em duas águas. O árido
insurge, é a forma do corpo,
ainda inerte. No entanto,
um vapor cobre tudo, e brota o fruto
e a erva. Da noite, a lua e as guelras
têm poder. E da manhã, a matéria
forma o astro, o fervilhar, de onde,
num vôo ou mergulho, os seres
retiram potência e à vida
chegam.
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Do ovo, a serpente quebra
a superfície, e a pele fria
toca o solo, à espreita
do mistério. O homem,
da lama se desprende, e sem medo
existe até que o desejo
penetre em seus poros.
Agora, há ruído
além do vento.
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Do sono, a costela
expele a fêmea, de onde vem
a dor que tudo alimenta.
A história sela o destino
de ser. Esse deus
corpóreo, o cancro da fera,
com a presa na boca
e porque a fome o deseja. E desaba
um cortejo
de vozes, o cheiro
de banha e sangue
pisado. No centro, a raiz
expande a morte.
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Sabemos?
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Maiara Gouveia (Inédito)
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26/07/09
"Retrato de Vergílio Alberto Vieira" (2007). Desenho de José Rodrigues.Sempre que, em Ogígia, voltava aos braços de Calipso
para, no seu leito de rosas, travar sem tréguas nova
batalha fingida, não era pois do mar esse rumor de
vagas que, de céu a céu, me perseguia, mas da cadência
do remo com que, mais tarde, havia de medir: do sol, a
altura; do abismo, a sombra do naufrágio.
Vergílio Alberto Vieira In "Sombras de Reis Mendigos", Ed. Livros de Horas,
Porto, 2009, p 19 (Prefácio de Miguel Real).
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25/07/09
"Não é simples impudência o que contra ti vocifera!"
A (grande) interpretação da "Fedra" de Racine por DOMINIQUE BLANC.DVD zona 2 com uma realização de Stéphane Metge (2003) e a encenação
de PATRICE CHÉREAU.
"Mensagem"
Para Hipólito, da Mãe - Fedra - Rainha - a mensagem.
Para o rapaz caprichoso, belo, fugindo de Fedra como,
De Febo pomposo, a cera... E pois então,
Para Hipólito, de Fedra: o gemer de lábios ternos.
Sacia minha alma! (Impossível, sem tocar os lábios,
Saciar a alma!) Impossível, ao tocá-los,
Não beijar Psique, dos lábios a visitante alada...
Sacia a minha alma: logo, sacia-me os lábios.
Cansada, Hipólito... Às putas e sacerdotizas - opróbrio!
Não é simples impudência o que contra ti vocifera!
Simples, só falas e mãos... Um grande mistério esconde
O seu tremor atrás dos lábios que o dedo sela.
Oh, perdoa, meu virgem!, donzel!, cavaleiro!, inimigo
Do deleite! Não é luxúria! Não é o seio da fêmea!
É ela, a sedutora! É lisonja de Psique -
Ouvir junto aos seus lábios o balbucio de Hipólito -
"Tem vergonha!" - Mas é tarde! É o último marulho!
Meus cavalos desvairam! Da rocha abrupta - em pó -
Também sou amazona! Lanço-me do cume dos peitos,
Fatais colinas - para o abismo do teu peito!
(Ou do meu?!) - Tenta! Ousa! Mais ternura!
Grifo na cera da tabuinha - ou cera de um coração
Feito a estilete escolar... Oh, antes lesse
Nos lábios o segredo de Hipólito a tua
Insaciável Fedra...
Marina Tsvetáeva In "Depois da Rússia 1922-1925", Relógio d'Água, Lisboa,
2001, pp 163-165 (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra).
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22/07/09
"Desperto, no meio do negro, ouvem-se as constelações baterem o pé, de impaciência..."
(Nota - é enorme a importância de Transtromer, na Suécia e fora dela, assim, dada a caracterização desta poesia, as relações que tem com várias correntes e poetas de outros países,a polémica que levantou com a geração de 70, o modo como, apesar dos obstáculos, se tem conseguido impor como um dos grandes vultos da poesia europeia, sugerimos a leitura do Prefácio a esta obra, da autoria de Jacques Outin, bem como do breve esboço biográfico que está na Wikipédia...)
"Les Pierres"
Les pierres que nous avons jetées, je les entends
tomber, cristallines, à travers les années. Les actes
incohérents de l'instant volent dans
la vallée en glapissant d'une cime d'arbre
à une autre, s'apaisent
dans un air plus rare que celui du présent, glissent
telles des hirondelles du sommet d'une montagne
à l'autre, jusqu'à ce qu'elles
atteignent les derniers hauts plateaux
à la frontière de l'existence. Où nos
actions ne retombent
cristallines
sur d'autres fonds
que les nôtres.
Tomas Transtromer In "Baltiques - Oeuvres complètes 1954 - 2004 ", Poésie Gallimard,
Paris, 2004, p 36 (traduzido do sueco para o francês por Jacques Outin).
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20/07/09

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"Lá no Água Grande"
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Lá no "Água Grande" a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
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Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
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Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
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As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.
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E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.
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Alda do Espírito Sanro In "É Nosso o Solo Sagrada da Terra", Ulmeiro, Lisboa, 1978.
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19/07/09
"Manifesto Imaginado de um Serviçal"
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Chão inconquistado, chama-me teu que sobre minha fronte se
esvai a lua esburacada na sanzala. Não mais regressarei ao Sul.
Morador interdito, ficarei nas tuas entranhas. Aqui onde tudo
dei e me perdi. Morro sem respirar o hálito de uma outra cidade
que adubei.
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Irmãos:
Deitai-me amanhã no terreiro à hora do sol nascente: quero
olhar de frente as plantações. Quero contemplar, morto e inteiro, meu
legado involuntário de africano em África desterrado.
Clamo o pó que reclama a exaustão serena do meu corpo.
Não mo podeis usurpar, ngwêtas, com o ferro da vossa força.
Não mo negueis, ó híbridos forros, com vosso frio desdém de
séculos. Este barro é meu, espinho a espinho penetrou o osso dos
meus passos como um sopro cruel e palpitante. Até ao fim onde agora
começo porque a morte é o estuário de onde desertam os barcos todos
que cavaram meu destino.
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Irmãos:
Pelo mar viemos com febre. De longe viemos com sede.
Chegámos de muito longe sem casa.
Dai-me a beber agora a amarga infusão do caule do aloé, quero
esgotar o cálice do nosso calvário.
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Dai-me uma coreografia de labaredas e vertigens que a nossa
saga é uma constelação de astros absurdos.
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Dai-me amanhã em oferenda todos os sons que criei e os sons
que não criei mas aprendi
a puíta, o ndjambi, o bulauê
a dêxa também e o socopé
Trazei-me os silêncios todos que percorri
Mostrai-me os caminhos que não trilhei mas construí
Celebrai-me anónimo na praça que não verei mas antevi
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Ilhas! Clamai-me vosso que na morte
não há desterro e eu morro. Coroai-me hoje
de raízes de sândalo e ndombó
Sou filho da terra.
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Conceição Lima In " O Útero da Casa", Ed. Caminho, Lisboa, 2004, pp 35-37.
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17/07/09
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"A Casa"
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Aqui projectei a minha casa:
alta, perpétua, de pedra e claridade.
O basalto negro, poroso
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
a cor dos ibiscos
para o telhado.
Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem trancas nos caminhos.
Sobre os escombros da cidade morta
projectei a minha casa
recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar -
uma rectidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul.
E reinvento em cada rosto fio
a fio
as linhas inacabadas do projecto.
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Conceição Lima In "O Útero da Casa", Ed. Caminho, Lisboa, 2004, pp 19-20.
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16/07/09
"contornos perfeitos de cisne"
"Advancing plant on wall with window", Besozzo - Italia (2008), foto de Paul C. Smits.
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Insistes em não compreender
ser eu aquele que pinta
a poeira no fim da luz
aquele que no parque finge
contornos perfeitos de cisne.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues, In "Malva 62", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão,
2005, p 16.
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13/07/09
"Para me não veres -"
.jpg)
"Raios através da janela", Pittsburgh, Pennsylvania (2008), foto de Kristen Swamer
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Para me não veres -
Na vida - cinjo-me da cerca
Invisível e penetrante.
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Cinjo-me da madressilva,
Cubro-me do algodão de geada.
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Para me não ouvires
Na noite - com manha de velha
Me dissimulo - e me protejo.
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Cinjo-me do restolhar.
Cubro-me de ramagens.
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Para que não floresças muito
Em mim - nos silvados: enterro-me
Nos livros ainda em vida:
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Cinjo-te de fantasias,
Cubro-te de ilusões.
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Marina Tsvetáeva In "Depois da Rússia, 1922-1925", Relógio d'Água,
Lisboa, 2001, p 43 (trad. de Nina Guerra e Filipe Guerra).
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12/07/09
"vou a caminho da saída"
"Mágoa"
não vêdes
que vou a caminho da saída
e que por isso
conto coisas que me são queridas
e não contaria
se não fosse
esta aura de espanto
e de
espectativa
não vêdes
que a solidão trazida
me cobre a face os ombros
e toda a vida
que por ser um resto
ainda é consentida
Glória de Sant'Anna In "Trinado para a noite que avança", ed. aut., 2009, p 15.
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não vêdes
que vou a caminho da saída
e que por isso
conto coisas que me são queridas
e não contaria
se não fosse
esta aura de espanto
e de
espectativa
não vêdes
que a solidão trazida
me cobre a face os ombros
e toda a vida
que por ser um resto
ainda é consentida
Glória de Sant'Anna In "Trinado para a noite que avança", ed. aut., 2009, p 15.
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11/07/09
Eugénio Lisboa escreve sobre Glória de Sant'Anna
(Nota - não é meu hábito usar este blogue para "artigos de opinião". Penso, nesta altura, que as minhas opiniões fazem parte de um foro privado, que partilho com alguns mas não tenho direito de as estar, com carácter sistemático, a enfiar pela "goela abaixo" de todos. O espírito de cruzada tem pouco a ver comigo! Apesar destas resistências, e porque existem sempre excepções nas regras, gostaria de reafirmar o que recentemente escrevi à filha de Glória de Sant'Anna, a pintora Inez Andrade Paes: considero o esquecimento a que foi votada a poesia daquela poeta um dos maiores danos causados à poesia portuguesa das últimas décadas... Que se me perdoe a soberba intelectual, mas, e relativamente a este assunto, ainda assim penso.)
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" UM DENSO AZUL SILÊNCIO"
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Deixou-nos há dias (2.6.2009) Glória de Sant'Anna, quase tão discretamente como entrou no território da literatura, embora nos tenha legado alguns marcos assinaláveis do lirismo português. A autora de Distância (1951) e de Música Ausente (1954) nasceu em Lisboa, em 25 de Maio de 1925, e foi viver para Moçambique, em 1951, com 26 anos, primeiro em Nampula, e depois, a partir de 1953, em Porto Amélia (hoje, Pemba), em frente ao faustoso mar daquela imensa baía que é a terceira mais importante do mundo.
Dali só regressaria a Portugal - para Ovar, onde se fixou - em 1974, isto é, ao fim de 23 anos de permanência numa África que amou e cantou. Tendo casado em 1949, depois de terminado o curso complemetar de Letras, no Colégio de Odivelas, Glória de Sant'Anna viria, por via do ensino, a apertar contactos com a população nativa de Pemba, sondando vidas, dramas, alegrias, aspireções, angústias...
Em 1962 (era Outubro), caíu-me nas mãos, em Lourenço Marques, um livrinho de poesia de 54 páginas, óbvia edição da autora, com título aliciante e algo indecifrável ou quase demasiado decifrável: Livro de Água. Começara a publicar-se, ali, por essa altura, um diário promissor - A Tribuna - que incluía um suplemento cultural cuja direcção fora cometida a mim e ao poeta Rui Knopfli. O livro de Glória, que eu recebera quase coincidentemente com o aparecimento do jornal, tocou-me profundamente; e logo decidi consagrar-lhe algumas linhas entusiásticas, naquele suplemento que viria a durar pouquíssimo tempo.
Foi o primeiro de vários textos que dediquei, ao longo dos anos, à arte "serena" da autora de Um Denso Azul Silêncio. Falando do livro de uma autora que até aí me fora completamente desconhecida, concluía, nestes termos, que ainda hoje não renego, a caracterização da ars poetica da escritora: "Uma arte líquida, secreta, discretamente deslizante, atenta e comovida, contidamente dramática, ilusoriamente tranquila, rica nos seus meios de uma simplicidade enganadora, nítida mas plena de mistério, límpida mas 'mortal' e tocada pela asa de uma angústia que mal se mostra. Uma arte de rigor e de modéstia - clássica portanto. Mas viva."
Ao Livro de Água, outros se seguiram, em que o ofício poético da escritora se confirmou, numa monotonia suave e intensa, sempre aliciante e esquisitamente inquietante: Poemas do Tempo Agreste (1964), Um Denso Azul Silêncio (1965), Desde que o Mundo e 32 Poemas de Intervalo (1972), todos de poesia e todos publicados em Moçambique. Além destes, editaria também ali, o livro de crónicas ... do Tempo Inútil (1975). Já depois do seu regresso a Portugal, publicaria ainda Não Eram Aves Marinhas (1988), Zum-Zum (1995) e Algures no Tempo (2005).
Em 1988, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda editou, sob o título geral Amaranto e com prefácio meu, o total das suas obras publicadas até então e alguns inéditos que, pela sua natureza supostamente subversiva não tinham podido ver a luz durante os "anos da peste". Já depois da independência, em 2000, a editora moçambicana Ndjira homenageou a autora, pela mão de Fernando Couto, publicando uma antologia que, sob o título Solamplo, coligia poemas de Música Ausente, Livro de Água, Poemas do Tempo Agreste, Um Denso Azul Silêncio, Cancioneiro Incompleto (que fora incluído em Amaranto) e Desde que o Mundo...
A arte de Glória de Sant'Anna, embora profundamente empenhada na realidade social moçambicana, porque era uma arte de subtilíssimo "recuo autobiográfico", nada tinha de ostensivamente proclamativo, nem de dramaticamente gesticulante. Em versos serenos, quase perfidamente tranquilos, cheios de um pudor que nos atingia bem mais fundo do que qualquer grito incontinente, tão "secreta/como o tecido da água", entregava-nos, "purificada" e cheia de dignidade, a tragédia de um povo emudecido.
Assim falava, por exemplo, da mulher morta por uma inundação: "O rosto é liso/ a fronte é alta/ o perfil limpo". Ou ainda: "A mão no peito/ longa, pousada./ O lábio breve/ descida a pálpebra."
Poesia intensa, que aspira ao máximo pudor e a uma espécie de "silêncio" - um "denso azul silêncio"-, ela enreda-se no nobre conflito milenar dos que se dilaceram entre o desejo de falar (testemunhar, manifestar) e o desejo não menos forte de calar. "Pesa-me o silêncio de todas as palavras", diz ela num verso, podendo igualmente ter dito: "Pesa-me o ruído que faz o silêncio..."
O outro importante pilar desta poesia insinuante é o mar, a água que visita e vivifica tantas páginas dos vários livros que compõem o cânone de Glória. Dissemos algures e pedimos licença para aqui brevemente o transcrever: " Nalgumas tradições, a hebraica, por exemplo, a água é a matriz, é a fonte de todas as coisas. Nalguns casos, na alquimia chinesa, por exemplo, o banho e a lavagem são, por outro lado, operações ígneas, isto é, a água é também fogo. Era talvez, intuindo isto, que Novalis afirmava que 'a água é uma chama molhada'.O universo aquático de Glória de Sant'Anna, no seu ímpeto rigorosamente purificador, tem qualquer coisa de um fogo que se contém, mas limpa".
Como todos os que escreveram fora da estreita paróquia lusíada - mesmo que o tenham feito em português e em nobilíssima toada - Glória de Sant'Anna foi pouco vista e pouco comentada pelos donos da poesia que por aí fazem e desfazem reputações. Não foi a única. Rui Knopfli nunca foi devidamente apreciado, em todo o caso, não à altura a que se guindou o autor de O Escriba Acocorado ou de O Monhé das Cobras. E Grabato Dias, certamente um dos quatro ou cinco maiores poetas portugueses do século XX, é aquele nome que fica escandalosamente esquecido, quando em alegre tertúlia se fazem balanços para manuais-a-haver. Ter vivido em África, ter gostado de lá estar - é pecado que sempre se pagou e se continua a pagar com língua de palmo. A Europa para os europeus, ou coisa assim, imagino eu.
Seja como for, a autora de Amaranto, pouco vista, pouco lida, pouco visitada pelos buscadores de graus académicos (com a excepção de eu próprio a ter convidado a estar presente num dos meus seminários de literatura portuguesa na Universidade de Aveiro - que diabo!, Ovar ficava mesmo ali ao lado...), a autora de Amaranto, dizia eu, deixou-nos há dias, deixando-nos também, para nosso uso, e regalo um belo canto de poucas e avaras palavras. Mas sempre de bom aviso:
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Não sei porque buscas palavras longas
Para as coisas breves que nos assombram.
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Nem mais. O assombro também se explora com palavras breves: se forem certeiras.
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Eugénio Lisboa In "JL" de 17 a 30 de Junho de 2009, pp 22-23.
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10/07/09

Il marchait un matin d'hiver
dans les rues vides d'un dimanche à Paris -
vent froid, ciel gris,
l'air un peu hagard, égaré
de l'errant qui ne sait pas au juste où il va -
il avait pourtant un désir précis:
arriver par-delà le désespoir -
Lorand Gaspar In "Patmos et autres poèmes", Poésie Gallimard, Paris, 2004, p 170.
08/07/09
"querer um verso que dissesse tudo"
.jpg)
"Negra e branca" de Man Ray (1926) In "Centro de Arte Rainha Sofia", Madrid.
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"As Perdas Os Ganhos"
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Este não é o poema que eu gostaria de ter escrito:
tudo no fundo se resume no poema
à soma dos ganhos e das perdas
afinal tão semelhante à vida é esse jogo
de querer um verso que dissesse tudo
e nada mais dissesse
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António Carlos Cortez In "à flor da pele", Editora Casa do Sul, Évora, 2007, p 19.
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"A Pintura"
Monet tens a impressão da realidade
e ela não pode ser de outro modo
Misturas na tela as cores primárias
como hoje a pintora no seu atelier
traçando a negro a figura humana
A poesia é talvez o momento
em que a pintura é exercida
de outra forma Um défice de realidade
nos olhos Nesse tempo o poema
surge para um dizer novo
António Carlos Cortez In " à flor da pele", Editora Casa do Sul, Évora, p 48.
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Grande Prémio de Poesia da A.P.E./C.T.T.
06/07/09
Sobre una mínima cornisa
al otro lado de la calle
alguna paloma se posa,
hincha sus plumas, picotea
el enlucido, mata el tiempo
y se lanza de nuevo al vuelo
como un tren que en un túnel entra.
Así lo imaginará el gato
que la observa en la ventana.
Es un gato casero y fofo
que se arrellana en el sofá
mientras su dueña ve la tele
y yo desde el balcón contemplo
el resplandor de las imágenes.
José Ángel Cilleruelo In "antologia", Averno, 2004, p 108.
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05/07/09
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Quem me teria enviado esta foto? Quem me inundou
assim o P.C., que pretendia branco e limpo de qualquer
mágoa? De quem este retumbante e perverso intento
a revolver-me o pântano da memória? Porquê um anexo
a inundar-me o ecrã e a desafiar o esquecimento, que era
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já coisa certa e bem minha? Porquê a tua figura de novo,
aqui, bem na minha frente, com o nome do aeroporto
por detrás, as malas, a mochila a escorregar, os cabelos
- que naquela altura tinhas deixado crescer - quase
a tocarem o azul da camisola e o teu sorriso infantil,
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que ambos sabemos a quem se destinava? Terrível esta
alegoria da vida: as chegadas com o iníquo sabor da partida,
a bagagem aparentemente cheia no periclitante embarque
de nada, os sorrisos frágeis e efémeros, a quotidiana fuga
a cercear o que para ti tão raro quisera. Mas... quem me
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teria enviado esta foto? Esta virtual lembrança,
que nenhum antivírus impedirá agora de se tornear real,
obsessiva até? Através da janela nem uma resposta sequer.
Apenas o ecrã do céu - igualmente belo, igualmente azul.
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Victor Oliveira Mateus In "Revista de Poesia Saudade" Nº 11,
Junho, 2009, p 59.
04/07/09
"Tu corazón corea el ritmo de la música,"

La música estalla cuando al abrir la puerta
das el último atusón al cabello, dentro
enrojecen las sombras, fluyen pastosas
como un secreto inofensivo. Te acomodas
en la barra. Te apareces bastante ajeno
mientras sorbes despacio, con intriga,
un híbrido combinado de muchos alcoholes.
Ella se acerca entre satinados paños y zurea
lacónica su diestra petición de enlace
que aceptas con fingida abulia.
Te rodea el cuello con sus brazos, desanuda
sonriente la corbata y te empuja
entre las coloradas sombras hacia ciertos
peldaños que en el fondo emergen.
Tu corazón corea el ritmo de la música,
tras el nailon lucen unos muslos
hinchados cuya cadencia halaga
y descompone la acrimonia del lugar.
Muy pronto la cubrirás con tu deseo,
y ella, levantando ligeramente una pierna
por encima de tus jadeos, preocupada
repasará con el índice ensalivado
una triste carrera en la media.
José Ángel Cilleruelo In "antologia", Averno, 2004, p 30.
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02/07/09
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Eu sou a juventude: sou o canto das avelaneiras a deixar oiro
aos meus cabelos, que são teus.
Na minha carne verás o poder do teu quebranto
e a arte que na memória toca o fundo de duas árvores opostas
a tornarem-se uma só.
Sou o fruto que receio de mim,
quando me ouvires contar a minha história cercada de alabastro. Sou
o que desejas agora, nessa audácia pelos campos
com desapego e indolência. E não verás nenhuma fonte,
mas posso falar-te de uma a nove léguas de distância.
Eu sou a juventude que possuis,
sou a vanglória atraída a outra coisa que viu longe,
que em breve saberás.
Abrigo a tua pele ignorada para que nenhuma mulher te veja sem amar-te, e
dos meus jardins te afasto,
cujas lembranças que terás os tornam graciosos.
Nem sempre creias na cidade futura a que prometia que chegasses,
nem enquanto nos tivermos apenas a nós dois
nesses corações, que nossos, não pensam no que nasce.
Virá o tempo em que te verás desaparecer
e eu já não poderei imaginar-te. E
com os frutos que se desprendem
entre olvidos, como agora se despede esta manhã,
irás dizer-me de uma forma distante
o que dentro e à volta do mundo eu fui deixando.
Sim, em breve eu e tu, e dos restantes, estaremos separados,
e a todos quererão outros lábios mais vorazes, que
sejam, em vez de mim, o meu perdão.
Sim... em breve... olha além a luz que clareia os campos,
vê lá os cantoneiros a segredar que estão aqui,
vê os vigilantes de jardins a acender o funcho, mais
os que estão por nascer, mais os velhos em redor do fumo e que estão certos,
vê se calhar isolado entre as heras o meu canto,
mas não digas adeus, não acenes cabisbaixo à cidade que se afasta; que
na última colheita dos teus frutos
virei com meu rebanho
sobre as nuvens dos teus filhos.
Rui Coias (Pré-publicação)
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(tradução do português para o francês)
Je suis la jeunesse: je suis le chant des aveniliers laissant tomber l'or
dans mes cheveux, qui sont à toi
Dans ma chair tu verras le pouvoir de ta lassitude,
et l'art qui, dans la mémoire, touche le fond
de deux arbres opposés devenant un seul.
Je suis le fruit qui me crains,
quand tu m'écouteras raconter mon histoire cernée d'albâtre.
Je suis ce que tu désires à présent, dans cette audace parmi les champs,
détaché et indolent.
Tu ne verras aucune fontaine mais je peux t'en parler
d'une à neuf lieues de distance.
Je suis la jeunesse que tu possèdes
je suis la vaine gloire attirée par autre chose qui au loin se prolonge,
bientôt tu le sauras.
Je mets ta peau à l'abri pour qu'aucune femme ne te voit sans t'aimer,
et de mes jardins je t'éloigne,
selon les souvenirs que tu possèdes, cela les rendra pleins de grâce.
Ne crois pas toujours dans la ville future
à laquelle je promettais que tu arriverais,
ni pendant que nous nous possédons, l'un l'autre dans ces coeurs,
qui sont les nôtres, car ils ne pensent pas à ce qui prend vie
à mes cheveux, qui sont à toi.
Viendra le temps où tu te verras disparaître
et moi je ne pourrai plus t'imaginer.
Et avec les fruits qui se dátachent entre les oublis,
comme maintenant prends congé de nous ce matin,
tu iras me dire d'une façon distante
ce que dedans et autour du monde j'ai laissé.
Oui, bientôt, toi et moi, des autres, nous serons séparés
et tous voudront d'autres lèvres plus voraces,
qu'ils soient, ainsi et à ma place, ils voudront mon pardon.
Oui... bientôt... regarde au loin la lumière qui éclaire les champs,
vois les cantonniers murmurant qu'ils sont ici,
vois les veilleurs de jardins qui allument le fenouil,
et ceux qui sont à naître, et les vieux autour de la fumée et qui ne doutent pas,
vois peut-être isolé entre les lierres de mon chant,
mais ne dis pas adieu, pas de salut pensif vers la ville qui s'éloigne;
dans la dernière cueillette de tes fruits
je viendrai avec mon troupeau
sur les nuages de tes enfants.
Lidia Martinez e Guy Vivien traduzindo Rui Coias
(Nota - os meus agradecimentos ao Rui Coias por me ter autorizado esta pré-publicação.
Os meus agradecimentos à Lidia Martinez e ao Guy Vivien por terem ousado esta
excelente tradução de um tão belo poema).
dans mes cheveux, qui sont à toi
Dans ma chair tu verras le pouvoir de ta lassitude,
et l'art qui, dans la mémoire, touche le fond
de deux arbres opposés devenant un seul.
Je suis le fruit qui me crains,
quand tu m'écouteras raconter mon histoire cernée d'albâtre.
Je suis ce que tu désires à présent, dans cette audace parmi les champs,
détaché et indolent.
Tu ne verras aucune fontaine mais je peux t'en parler
d'une à neuf lieues de distance.
Je suis la jeunesse que tu possèdes
je suis la vaine gloire attirée par autre chose qui au loin se prolonge,
bientôt tu le sauras.
Je mets ta peau à l'abri pour qu'aucune femme ne te voit sans t'aimer,
et de mes jardins je t'éloigne,
selon les souvenirs que tu possèdes, cela les rendra pleins de grâce.
Ne crois pas toujours dans la ville future
à laquelle je promettais que tu arriverais,
ni pendant que nous nous possédons, l'un l'autre dans ces coeurs,
qui sont les nôtres, car ils ne pensent pas à ce qui prend vie
à mes cheveux, qui sont à toi.
Viendra le temps où tu te verras disparaître
et moi je ne pourrai plus t'imaginer.
Et avec les fruits qui se dátachent entre les oublis,
comme maintenant prends congé de nous ce matin,
tu iras me dire d'une façon distante
ce que dedans et autour du monde j'ai laissé.
Oui, bientôt, toi et moi, des autres, nous serons séparés
et tous voudront d'autres lèvres plus voraces,
qu'ils soient, ainsi et à ma place, ils voudront mon pardon.
Oui... bientôt... regarde au loin la lumière qui éclaire les champs,
vois les cantonniers murmurant qu'ils sont ici,
vois les veilleurs de jardins qui allument le fenouil,
et ceux qui sont à naître, et les vieux autour de la fumée et qui ne doutent pas,
vois peut-être isolé entre les lierres de mon chant,
mais ne dis pas adieu, pas de salut pensif vers la ville qui s'éloigne;
dans la dernière cueillette de tes fruits
je viendrai avec mon troupeau
sur les nuages de tes enfants.
Lidia Martinez e Guy Vivien traduzindo Rui Coias
(Nota - os meus agradecimentos ao Rui Coias por me ter autorizado esta pré-publicação.
Os meus agradecimentos à Lidia Martinez e ao Guy Vivien por terem ousado esta
excelente tradução de um tão belo poema).
01/07/09
Novos lançamentos...


Brevemente à venda os dois últimos livros de Vergílio Alberto Vieira: "Sombras de Reis
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Mendigos" e " Melancholia Perennis" (Preços: 6,50E e 8,ooE respectivamente).
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Na eventualidade de não os encontrar na sua livraria, adquira o hábito de os encomendar
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para a própria Editora, neste caso a "Tropelias & Companhia" (este blogue tem uma Hiperligação
.
com o blogue da referida Editora, caso pretenda mais informações).
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