29/09/09

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"a minha casa"

uma ilha
os livros todos que a poesia
tivesse julgado como abrigo

um solstício suspenso
para a luz ser lida
com tempo

e uma história para
mobiliar as paredes brancas

boa ou má
uma história com um passadiço
para o amor

Daniel Gonçalves In "a casaDescrita", edição de autor numerada e assinada, 2009, p 11.
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"a casa escrita"


a casa escrita
abre a sua grande janela
musical

deixa volutear as suas cortinas
brancas

como a orla de uma dança
cristalina

e chama as cotovias
a água primordial
do dia

o gato azul

para se sentar
no colo do poeta

Daniel Gonçalves In "a casaDescrita", edição de autor numerada e assinada, 2009, p 1.
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28/09/09

"E nenhum vínculo as ligará à morte"

"Retrato # 1, Lacedonia - Itália, 1957" foto de Frank Cancian (Irvine, Califórnia).
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Hão-de crescer mulheres como flores sobre os telhados.

Sonhar-se-ão em volta, arqueadas como abóbodas.

Serão verticalmente o poema
com suas frontes altas e brancas.

E nenhum vínculo as ligará à morte

quando sobre as cabeças ondularem como tochas.


Jorge Melícias In "disrupção", Cosmorama Edições, Vila Nova de Famalicão,
2008, p 116.
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"um metal onde florescem guelras."

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A vara cantada ao longo dos dedos,
um metal onde florescem guelras.

Eis o lugar infusível do poema.

A cegueira com a
precisão de um eixo.


Jorge Melícias In "disrupção", Cosmorama Edições, Vila Nova de Famalicão,
2008, p 90.
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27/09/09

"um deus despótico e cego"

"Estudos para a Morte de Cleópatra" (c. 1791) de Domingos António de Sequeira
(carvão e giz branco sobre papel). Foto de Arnaldo Soares.


"Punition"

Aujourd'hui
en cet instant
la vie sans foi est un verdict
les objects deviennent des dieux
le corps devient un dieu

un dieu despotique et aveugle
il engloutit et digère ses fidèles
puis les excrète


Tadeusz Rózewicz In "Inquietude", Buchet-Chastel Ed., Paris, 2005,
p 6o (tradução do polaco para o francês de Grazyna Erhard).
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25/09/09




Que noite escura! Que noite escura!
Bramem as ondas cavernosas...
A grande armada vai largar...
Oh, a armada do rei!... oh, as naus pavorosas
Na escuridão, turbilhonando, a baloiçar!...
São esquifes mortuários,
São féretros com velas de sudários,
Tumbas negras nas ondas a boiar!...
Ai que gemidos, que alaridos
De multidões na praia, olhando o mar!...
Lá vem o rei... lá vem a côrte... e luzes, luzes
De brandões, de tocheiros a sangrar...
Vai a embarcar?... vai a enterrar?... Não trazem cruzes,
Nem há sinos por mortos a dobrar...
Oh, a lúgubre, estranha comitiva
A bandada de espectros singular!...
É gente morta?... é gente viva?...
Procissões de defuntos a marchar!...
Cortesãos, cavaleiros e soldados,
Tudo esqueletos descarnados,
Olhos de treva e crânios de luar!...
Ladeiam côches fúnebres doirados...
São os côches d'El-Rei... vai a enterrar?...
Lá se apeiam as damas das liteiras...
Gestos de manequins, rir de caveiras...
Fitas e plumas sôltas pelo ar...
Olha a rainha, vem em braços, morta e doida.
Morta e doida a clamar que a vão matar!...
E o rei!... olhem o rei!... que rei de entrudo!...
Um porco em pé, com manto de veludo
E c'roa na cabeça, a andar, a andar!
Mas reparem... tem cornos! é cornudo!
Dois chavelhos de boi no seu logar!
Um rei, que é porco e tem chavelhos!
Um rei que é porco e tem chavelhos!
Que fantasia! enlouqueci!... ando a sonhar!...
Mas bem no vejo! eu bem no vejo,
C'roa de rei, tromba de porco e chifres no ar!...
.....................
Cái de rastros, chorando, o povo inteiro,
Beija-lhe a côrte as patas e o traseiro...
E êle a grunhir! e êle a roncar!...
......................
Lá vão as naus... lá vai o rei com seus tesoiros...
E lá ficam na praia, como agoiros,
As multidões soturnas a ulular! ...
......................
Olha uma águia rubra, uma águia bifronte,
Incendiando o horizonte,
A voar, a voar, a voar!...
Ai dos rebanhos!... ai dos rebanhos!...
Águia de extermínios, onde irás poisar?!
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Guerra Junqueiro In "Pátria", Livraria Chardron, de Lélo & Irmão,
Porto, 1912 (Quarta Edição), pp 129 - 131.
NOTA: este poste mantém a grafia de 1912.
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23/09/09

Angélique Ionatos canta a poesia de Odysseus Elytis.

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Sempre que a mim regressas indefeso te recebo e, sem temor
ou artifício, indefeso me dissipo na tentação por nós
arquitectada. Mas há tentações assim... Que nos devoram.
Que nos devoram e limpam da ferocidade diária,
dos mitos que nos apregoam mas não compramos,

porque tentação mais vil do que a nossa. Sempre que a mim
regressas - qual rosa ou vala ou ferida aberta - uma maré
de alegria me retoma, me submerge e apequena sem eu saber
como nem porquê. Grande é a vizinhança entre os instantes
das tuas vindas e a eternidade que nelas inscrevemos.

Grande a felicidade se acaso te demoras e eu, para além
das armadilhas da noite, para além do estampido das ondas
contra as rochas, dos estalidos do soalho sob os nossos
pés nus, do arquejar dos nossos corpos já saciados, esqueço
a minha boca colada à tua pele, como jóia cintilante a prender
o manto da mais bela rainha do Mediterrâneo.


Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 17.
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Aportados em tão extrema manhã ao que vínhamos
bem nós sabíamos. Mas ao que estávamos, só quem via
aquele azul como nós, que religiosamente o calávamos
como coisa rara, coisa de impossível dizer, só quem via
nossa busca em seu intrépido fulgor, poderia perceber

tanto e tanto ardor. Aportados naquela manhã, na ponta
norte, de onde as costas da Lacónia nos apareciam
como um leve traço antes do céu, logo ali desocultámos
desse admirável princípio seu estranho véu. E com o teu
braço sobre os meus ombros, por entre sumagres, faias

e avelaneiras, adentrei-me naquela ilha, que por nossa
se desenhava. Ilha para lá do vazio, da felicidade imitada,
dos escombros: terra finalmente alcançada com o teu
braço sobre os meus ombros. Nenhum mal a poderia
já extinguir como marco nunca havido, nem a persistente

fragrância a si própria acrescentada de sémen e saliva
- de nós húmidos rastros - no abandono dos cômoros, nem
tão-pouco as terríveis perdas, que nas cidades fervilham
em correria inóspita e vã, parecer por nós recusado
quando à ilha havíamos chegado naquela extrema manhã.



Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 10.
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22/09/09

"(...) parler d'une manière telle que mes paroles/ à travers les larmes atteignent l'éclat des sourires"


"Désir"

Je voudrais aujourd'hui parler un langage si imagé et si clair
que les enfants accourent vers moi comme vers un parc
baigné de soleil et gorgé de lumière

Je voudrais aujourd'hui parler avec tant de chaleur et de simplicité
que les personnes âgées puissent se sentir utiles

Je voudrais parler d'une manière telle que mes paroles
à travers les larmes atteignent l'éclat des sourires

Je voudrais aujourd'hui parler avec calme et douceur
afin que les gens puissent se reposer avec moi
rire et pleurer
et se taire et chanter

Je voudrais aujourd'hui parler avec rage et sévérité
afin qu'ils retrouvent leurs rêves égarés
l' Aile jadis jaillie de leur épaule

Je voudrais ne pas parler
mais agir avec des paroles
pour que les hommes de leurs mains
touchent mes paroles

Tadeusz Rózewicz, "Inquiétude", Buchet Chastel Éditions, Paris,
2005, pp 37 - 38 (tradução do polaco para o francês de Grazyna Erhard).
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20/09/09

" O futuro de um país lê-se no rosto dos seus habitantes"

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A este propósito, é bom lembrar que cerca de um terço da população portuguesa continua a viver no exterior. Cinco milhões de emigrantes encontram-se dispersos pelos Estados Unidos, pela França e pelo Brasil, por muitos e vários outros destinos, em confronto com os dez milhões e trezentos mil que vivem em território nacional, o que significa que Portugal continua a ser um país de partida. Aliás, a emigração de portugueses para a Europa mesmo nos últimos tempos não abrandou de ritmo. De momento, é mesmo o país da União Europeia que apresenta a percentagem mais elevada de cidadãos em idade activa a residir em outros Estados-membros. Isto é, como desde há muito, continua a existir um vasto país fora do país, e os números relativos a essa emigração continuada, esmagadoramente de natureza económica, não param de aumentar.
Mas se todos esses dados só confirmam realidades que vêm de trás, eles inscrevem-se agora numa constante bem mais alargada, integrada na mobilidade global que faz mover as populações em torno da Terra em direcção a determinados destinos. Quanto ao que nos diz respeito, o que há de novo, precisamente, é que Portugal tenha passado, nas últimas décadas, a ser cada vez mais um país de destino, e que se aproxime de meio milhão o número de estrangeiros a trabalharem e a residirem entre nós. (...) Os últimos números oficiais dão conta de quase meio milhão de estrangeiros a viverem legalmente em Portugal, sem contar com os clandestinos. À semelhança de outros países europeus, o maior número de imigrantes provém dos antigos espaços coloniais a que se juntam imigrantes oriundos das antigas repúblicas soviéticas - Rússia, Ucrânia, Roménia, Moldávia. Actualmente, pode dizer-se que cinco, em cada cem cidadãos deste país, são estrangeiros, e mesmo tendo em conta oscilações sazonais, o número tende a aumentar. Espera-se mesmo que o equilíbrio demográfico venha a ser alcançado, num futuro próximo, a partir das faixas da imigração residente. O que quer dizer que, à semelhança de outros países da Europa, num futuro imediato, Portugal terá um desafio importante pela sua frente, no qual já inclui uma bela moeda de troca.
É que neste campo de permuta, feito de partida e chegada, deve-se ter em conta que rara será a família portuguesa que não teve no seu passado a experiência do desconhecido e da errância. A força do seu trabalho e da sua energia espalhou-se por toda a parte. O português contactou com todos, à volta do mundo, conhece de tudo um pouco. Mas é a primeira vez, nos tempos modernos, que outras diásporas se cruzam no seu próprio espaço territorial, estando em vias de se desenhar um novo rosto para o futuro.
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O futuro de um país lê-se no rosto dos seus habitantes, e em trinta anos o rosto da população mudou. O vocabulário também.`É verdade que os conflitos aumentaram e a instabilidade se instalou em zonas que não era suposto, e surgiram tensões sociais que nos eram desconhecidas, crispações étnicas que entretanto se cruzaram com outras de vária natureza, à medida que a sociedade se foi tornando complexa e fragmentada. Mas se esta estrada tem oferecido vários caminhos divergentes, por vezes eles cruzam-se sobre o mesmo tapete de asfalto e alguns deles conduzem a locais inesperados.
Falemos desses lugares, alguns deles de natureza simbólica, por exemplo. É o caso da palavra "raça", que praticamente desapareceu do uso quotidiano para dar lugar a "etnia", um termo que sublinha a inscrição da pessoa numa cultura que lhe é própria, abrindo caminho para uma ligação a um "lugar" e uma "história", mais do que a uma História e uma Geografia.(...) e abre espaço, no plano dos conceitos, para aquilo que é hoje comum ser defendido pelos grupos que se batem pelo reconhecimento da igualdade biológica, em face da Ciência. E provenientes desse campo, até agora, só têm chegado notícias de que nada distingue os homens segundo as raças. As distinções, a nível biológico, estabelecam-se homem a homem, e as mais relevantes entram por outras portas e baseiam-se noutros critérios. (...) "O genoma humano não tem raça" - foi uma frase emblemática, proclamada a 13 de Fevereiro de 2001, e com a qual se baptizou o início deste século, que se pretende sem preconceito. Mas nem todas as alterações provêm do campo dos novos conceitos. Muitas delas resultam das circunstâncias nuas, e por vezes cruas, da pura factualidade.(...)
É assim que, entre nós, a pressão crescente dos números também explica a alteração positiva que se tem feito sentir neste domínio. Ainda há trinta anos, uma criança estrangeira que chegasse a uma escola portuguesa constituia um caso isolado. Hoje, há escolas que registam mais de trinta etnias, e turmas onde estudam em conjunto crianças oriundas de dez países diferentes, desde o Paquistão à Argentina, da Roménia à China.
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Lídia Jorge In "Contrato Sentimental", Sextante Editora, Lisboa, 2009, pp 28 - 31.
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19/09/09


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                   "Anto"


Bem que o cego avisara:
"César, tem cuidado com os idos de Março".
Mas isso fora há mil e muitos anos
e na história, mais que a realidade,
sempre procuraste o mito e a ficção.
Não é verdade que para ti
Hamlet era mais real que Shakespeare?
Quando chegaste ao Seixo, santo Deus, como vinhas!
Eram bem maiores as moléstias da alma
do que aquelas que carregavas no corpo
e te minavam os pulmões.
Tudo te causava horror.
Tinhas nojo dos homens e das coisas
mas a bondade renascia em teu coração
quando olhavas os carreirinhos de formigas.
No Seixo sonhaste reencontrar
o aconchego do ventre de tua mãe.
Mas os ares eram fortes de mais,
não fugias aos orvalhos da noite
e a ciência há muito te abandonara.
De nada valiam as rezas de Carlota
nem as perdizes do Senhor Abade.
Por isso tiveste de deixar
o lar da tua infância, a tua taça de leite.
Querias apenas dormir, dormir, dormir...
Enquanto olhavas do teu quarto
as ondas brancas do teu mar da Foz,
adormeceste para sempre, docemente,
nos braços maternais de teu irmão.
Era Março e tinhas a idade de Cristo.

António José Queirós In "Os Meninos e Outros Poemas", 2ª edição,
Editora Labirinto, Fafe, 2008, p 17.
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    "Soneto da Inquietação"


Olho a ponte, olho o rio, mas não vejo
quem meus olhos procuram cegamente:
corre o tempo, fica a dor e o desejo
que o mundo se acabe de repente!

Passa um dia, outro dia, já não sei
por onde se perdeu meu pensamento;
caem sombras nos sonhos que sonhei
debruadas de mágoa e esquecimento.

Com a vida, por vezes, não me entendo,
nem com seus alados véus de ilusão.
E enquanto o meu mundo vai morrendo,

em saudosas vigílias de paixão
recordando o passado vou vivendo
numa louca e amarga inquietação.

António José Queirós In "Os Meninos e Outros Poemas", 2ª edição,
Editora Labirinto, Fafe, 2008, p 57.
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18/09/09




                             "Confidências"


Mãe! dói-me o peito. Bati com o peito contra a estátua que tem em cima o verbo ganhar. Ainda não sei como foi. Eu ia tão contente! eu ia a pensar em ti e no verbo saber e no verbo ganhar. Estava tudo a ser tão fácil! Já estava a imaginar a tua alegria quando eu voltasse a casa com o verbo saber e o verbo ganhar, um em cada mão!
Dói-me muito o peito, Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
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Mãe!
Já não volto à cidade sem ir contigo! para a cidade ser bonita. Irmos os dois juntos de braço-dado, e andarmos assim a passear; para ver como tudo está posto na cidade por causa de ti e de mim e por causa dos outros que andam de braço-dado.
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Mãe! dize essa metade que tu sabes do que é necessário saber, dize essa metade que tu sabes tão bem! para eu pensar na outra metade..
Se não houvesse senão homens e saltimbancos eu ia buscar a outra metade, mas os saltimbancos estão vestidos como os homens, e os homens estão vestidos como os saltimbancos, ambos estão vestidos de uma só maneira, não sei quais são os homens nem os saltimbancos, eles também não o sabem, - não há senão losangos de arlequim!
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Mãe!
Quando eu vinha para casa a multidão ia na outra direcção. Tive de me fazer ainda mais pequeno e escorregadio, para não ir na onda.
Perguntei para onde iam tão unidos, assim, com tanto balanço. Responderam-me: Para diante! para a frente!
Iam para diante! iam para a frente!
Fiquei a pensar na multidão.
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O meu anjo de guarda disse-me: Pronto! A multidão já passou, levou um quarto de hora a passar. A multidão não é senão aquilo que levou um quarto de hora a passar. Pronto! Já está vista! anda daí!
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O meu anjo da guarda está sempre a dizer-me: De que estás à espera? Vá, anda! Começa já! Começa já a cuidar da tua presença!
Não sei o que o meu anjo da guarda quer que eu adivinhe em tais palavras.
Outras vezes, o meu anjo da guarda pede-me que seja eu o anjo da guarda dele.
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Mãe!
Hoje acordei todo virado para diante. Assim, como tu compreendes, Mãe!
Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas como ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.
Fiz todas as horas do sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de acordo com o sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por hoje. Depois veio o sono. E o sono chegou a horas. Antes do sono ainda houve uma imagem - um leão a dormir!
Na verdade, não há sono mais bem ganho do que o de um leão a dormir com restos de sangue ainda no focinho, como os leões de pedra que há nas escadarias por onde se sobe depois da batalha!
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José de Almada Negreiros In " Poesia - Obras Completas Vol. 4",
Editorial Estampa, Lisboa, 1971, pp 167-168.
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16/09/09

" Fear in my mind # 7" (2008) foto de Jong Seong Park, Coreia.


Ora até que enfim... perfeitamente...
cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estoirou como uma bomba de pataco.
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
e, como cuspo atirado ao vento,
me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
e me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários -
também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida.

Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos In "Poesias - Obras Completas de
Fernando Pessoa, Vol. II", Edições Ática, Lisboa, 1980, pp 116 - 117.
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14/09/09


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. Esquecidos os nomes é a ti que me dirijo.
Em busca de uma memória onde enxertar
estes ramos, estas promessas por cumprir.
Vêm de um tempo em que o trovão, as leis
e a vida não ser isso se chocavam contra a
descrença e o areal escaldante. Não é
longínquo nem próximo esse tempo -
suspenso, misturam-se nele as vozes que
amo e me trazem até aqui, a este lugar
onde as imagens sobrepostas se vão
desfazendo e se vê, sobre o mar que fica,
como tudo foi roubado cedo e o naufrágio
era congénito.
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Silvina Rodrigues Lopes In "Sobretudo as vozes",
Edições Vendaval, s/c, 2004, pp 65-66.
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. Aquém do canto, o desconhecido regressou.
Chama-me lá do alto e as sílabas do meu nome
elevam-se para cair. Com a força da água, da
ausência. Ouço e escavo as palavras até serem
casas. Pelas janelas, ao longe, as chagas da
impaciência e dos dias escuros. Nada que perturbe
as falhas, o seu aprofundar-se, o equilíbrio da
rocha que absorve o tremor da gaivota.

Silvina Rodrigues Lopes In "Sobretudo as vozes",
Edições Vendaval, s/c, 2004, p 13.
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12/09/09



"Segunda Variação Sobre o Sublime"
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Temos sublime de tipo A e sublime de tipo B.
Qual deseja? - Não tem de tipo C?
Não, desse não temos. - Então dê-me
um de tipo A e outro de tipo B. Posso misturá-los?
Não é muito conveniente. - Porquê?
Porque o de tipo A, apesar de ser constituído
por substâncias amigas do de tipo B, pode,
se misturado com este, desencadear reacções adversas.
- Quais? Bem, temos conhecimento
de alguma perfídia, rancor... Por vezes
a afeição dissimulada entre ambos resulta
numa maledicência caluniosa nunca assumida.
O que dantes era genial transforma-se em bestial,
como um amor que se dissolve em ódios
de trazer a tiracolo à hora do tiro aos pratos.
Convém também esclarecer que a mistura
de sublime de tipo A com o de tipo B
pode acarretar consequências embaraçosas
para o consumidor, como sejam as de em honra
do silêncio perder-se a honra pela palavra.
Sabe como é, tudo bem quando acaba bem,
tudo mal quando nasce torto. O melhor será
manter ambos dentro de frascos hermáticos,
separados por alguns metros, à distância
de mortais quebrantos, que isto de se zangarem
comadres, ao contrário do apregoado,
nunca traz as verdades. As verdades são
sempre as de cada qual como convém a cada um.
E entre sublimes, como sabeis, não há verdades.
Só há conveniências e oportunidades,
questões de agenda e de tabela periódica.
Sabe como é. - Sei, sei. E noto que percebe
muito de sublimes. Sendo assim, o melhor será
não levar nenhum e mantê-los na prateleira.
Não tendo o de tipo C, procurarei noutro lado.
Lamento informá-lo de que está esgotado.
- Não importa. Prefiro continuar a procurar
a desenrascar-me com o que não presta.
É como diz o povo: o barato sai caro. Lá isso é.
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Henrique Fialho In " Big Ode # 7 - Sublime ", 2009, p 9.
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11/09/09

"em cima da cama da tua pele./ sublime brilho."

"A água e o céu" foto tirada por mim (Portinho da Arrábida, 2009)


II ( sexo)

exacta é a medida entre as tuas pernas e a tua boca.
calor onde nenhum amor se vem.
confundir-me no cobertor da dimensão do teu cheiro.
do teu gosto a febre
onde levantas a caixa de fósforos vazia.
em cima da cama da tua pele.
sublime brilho.

Maria Quintans In "Big Ode # 7 - Sublime ", 2009, p 75.
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"Poema em Azul"
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As expectativas são azuis
como o horizonte depois de cada colina.
Têm cor intensa,
existe um dia na sua origem.
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Não são a compensação da noite,
quando nada mais é possível.
Partilham o fundo da provação,
a altura da vertigem.
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Dizem que estamos na penumbra,
ausentes de nós, privados de tudo;
mas, se a claridade não é verdadeira,
por que os nossos sonhos são azuis?
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Joel Henriques In "Revista de Poesia Saudade Nº 11", 2009, p 38.
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10/09/09

"à medida que lês/ estas palavras adquirem/ existência..."


" Nude # 6 " foto de Maurice Pitre, Quebec - Canadá (2005).
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diseuse? é para ti que falo.
imagino-te como uma voz
feminina, macia e doce,
impregnada do mistério das
mães. à medida que lês,
estas palavras adquirem
existência e depois voltam-se
a calar. fico envergonhado:
sei que não consigo estar
à tua altura. há também
a tua boca, diseuse: pinto-a
como uma ave a pôr asas
em tudo o que toca.
é neste momento que deves dar
a entender que caí nestas folhas
à procura de não sei quê
e que depois me debato,
neste lado, para estar ao pé
de ti, como um dos melhores
amigos da alegria. quando
estiveres a ler o texto seguinte
ficarei sentado, numa das mesas
defronte, a ouvir-te,
entretendo nas mãos uma
pequena chávena de café.
é preciso dar lugar à vida.
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Rui Tinoco In "Big Ode # 7 - Sublime ", 2009, p 95.
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09/09/09

"regresso/ aqui à procura de palavras/ desconformes."

"Feast " (Alemanha, 2006), foto de David Lykes Keenan (Austin, Texas)


quando termino um verso
fico imediatamente sentado
na cadeira do leitor... por favor,
arranjem-me um lugar...
obrigado. ponho-me à-vontade.
sigo com interesse
várias histórias na grande
televisão da vida. regresso
aqui à procura de palavras
desconformes. fosse possível
corrigir assim as existências.

Rui Tinoco In "Revista Big Ode # 7 Sublime", 2009.
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08/09/09

"e disputam a amizade como um jovem lobo que aprende/ a caçar"

" amigos de longa data do dia que não acaba"

quero os amigos que tenho na cabeça
os que tenho em mente nunca conhecer pessoalmente

e não vão ter defeitos os meus amigos de nunca
mais

os meus amigos são Simão que vende seguros e por isso
usa óculos só para os poder partir

são Jaime que tem um snack-bar que dá prejuízo

são Abu que é indiano e que está na minha cabeça só
para provar que sou multicultural e tirando isso o
Abu cala-se o Abu canha-se

e são eles aqueles que eu gostava de levar para a cova
para os apresentar à Nossa Senhora

e são eles aqueles com quem jogo cartas sem me
preocupar com a morada certa

e desabafo com eles como quem tem falta de ar
e converso com eles nos intervalos das discussões
que o resto do tempo fica para discutir quem é mais
meu amigo
amigo meu mais
meu mais amigo

e fazem concursos para ver quem me lava melhor os
pés
quem me coça melhor as costas
quem me dá o abraço mais apertado e sexual sem
chegar ao ponto do desconforto de ter vontade de o
beijar

e tenho tantas saudades deles
inventei as saudades que lhes tinha e pedi que chorassem
muito

e eles choraram o dobro de muito que é para cima de
um lago onde vamos nadar os quatro

o choro deles quando se juntam é do tamanho
da água de que precisa o veleiro de onde partimos à
aventura

e ao partir a aventura dividi-a pelos três
e agora estão ciumentos porque não dá conta certa
e disputam a amizade como um jovem lobo que aprende
a caçar

e eu dou-me todo por não ter a quem mais dar
e converso-lhes as palavras todas porque eles não
existem

e digo-me os elogios todos porque eles não me podem
ver

e canto-me as canções mais doces porque voz não
sabeis
não sabes
não estás cá
não estão cá
antes estivessem
se cá estivessem era melhor
não estando tenho de me contentar com os homens e
mulheres que estão ao meu lado e que eu não inventei

e cada vez tenho mais saudades deles
procuro alguém parecido mas não encontro

e quando encontro não gosto porque me apaixono pelas
pessoas que são o contrário do que a minha imaginação
prefere

e o Jaime o Simão e o Abu levaram a mal e foram
passar férias para acabeça de outra pessoa e nem um
recado deixaram

e se calhar não voltam
e se calhar não quero
e a cabeça já não tem inquilinos
e os que há estão à minha volta
mesmo à minha volta
mesmo de verdade
com caras que não me são familiares e personalidades
defeituosas que eu julgo como quem beija

a cabeça levo-a leve mas o coração bate mais forte
mais pesado
pudera tem gente lá dentro

João Negreiros In "Luto Lento", Ed. Projecto Literatura em Movimento,
(http://www.oletras.com/), s/c, 2008, pp 57 - 59.
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06/09/09

"O/ desprendimento é o único/ elo."


De que vale tudo recordar,
se nada sei esquecer? O
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desprendimento é o único
elo. Deixar o rio seguir
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o seu curso e todo o fluxo
que depois vier sempre será
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água nova. Essa vela fugaz
enquanto acesa e perene
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quando apagada. Levar para
dentro do desejo, a árvore
.
e sua colheita. Levar para
dentro da árvore, como uma
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vela num quarto, o desejo aceito.
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Maria Carpi In "Desiderium Desideravi", Ed. Movimento,
Porto Alegre, 1991, p 70.
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05/09/09

"Posso, minúscula, adormecer/ na ventania."


Posso, minúscula, adormecer
na ventania. Posso, rala,
serenar-me os rios. Porém,
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quando o abandono em mim
pede trégua e a tua saliva
busca meu germe, ainda
.
sou desordem, ainda engendro
distâncias. Não sei acolher-te
da errância. A não me isolar
.
entre pedras, a não me secar
entre gráficos ou jazer cinza entre
cinzas, a não revirar os olhos,
.
clausuro-me em teu andamento.
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Maria Carpi In "A força de não ter força", Escrituras Editora,
São Paulo, 2003, p 51.
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04/09/09

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Lava a minha suja memória neste rio de lama.
Com a ponta da tua língua limpa-me por todos os lados.
E não deixes o mínimo vestígio de tudo quanto me prende e cansa.
Ah, caça! Persegue-a em mim, pois só em mim ela vive!
E quando a tiveres sob a alçada do teu fuzil
não escutes as suas súplicas.
Tu bem sabes que ela deve morrer - uma segunda morte.
Então, mata-a! Uma vez mais...
Chora! Também eu, antes de ti, já o fiz,
mas foi em vão.
E quão belos são os soluços inundando as almofadas!
Eu tentei, tentei mas tenho o coração seco e os olhos inchados
(tenho o coração seco e os olhos inchados...)
Então queima! Queima o momento em que te envolves no meu grande leito de gelo,
este leito que, como uma banquisa, se derrete se acaso me abraças.
Nada é mais triste. Nada é mais grave
se tenho o teu corpo como uma torrente de lava.
A minha suja memória neste rio de lama
lava! Lava a minha memória suja
neste rio de lama - Lava!

Alex Beaupain In "Les chansons d'amour" de Christophe
Honoré (tradução de Victor Oliveira Mateus).
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"Les chansons d'amour" de Christophe Honoré

Poema de Alex Beaupain por Louis Garrel

03/09/09


"Vi - Ana do Castelo "

Nesta moldura branca a cidade és tu

escrevo-te como condição e semelhança
plena sem limites ou esquinas
contigo nesta página componho a grama pulsada
pelo tempo rememorando o sol e o silêncio
que em ti grafei um dia
e persisto na claridade e na folhagem
que despontam no leito que sublima o bulício dos dias
num disperso labor ou tráfego

em ti giram o espaço o rio
as horas os séculos o tempo e a foz
é no castelo que repousas serena
rodeada pelas muralhas outrora abrigo

pouso devagar os pés entre as ameias
e avisto-te por entre sílabas esguias
desenho o teu desejo e as ruas percorrem-me
trespasso o castelo e os muros numa incandescência ocre
e desaguo junto à margem do tempo
que reflecte um presente perpétuo
e vejo nesta página o nome
que eleva a ponte das raízes

Gisela Ramos Rosa In "Viana a Várias Vozes", Ed. Câmara
Municipal de Viana do Castelo, 2009.
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"(...) Trémula, nua, desenhada/ na poeira ou no mármore do tempo ..."


"La Belleza"

Ah, quién podrá decir qué es la belleza!
Secreta en su envoltura celeste de cristal
como un reloj o un ángel debajo de un fanal
que brilla y nos otorga la dicha o la tristeza
de un modo natural.

Qué es la belleza! Trémula, desnuda y dibujada
sobre el polvo o el mármol del tiempo que sedientas
largas horas contemplan, liman, pulen atentas
como la suave piedra por los mares besada
que atraviesa tormentas.

No supo Schopenhauer definirla y fue en vano
que Platón en sus Diálogos hablara tanto de ella.
Tiembla como en el agua, que la oscuridad sella,
el reflejo perfecto de un ala o de una mano
o de una antigua estrella.

Ah, quién podrá decir de qué ansiosas sustancias
nace y en qué momento y con qué proporciones
descubrieron sus rostros con tantas perfecciones
misteriosas, fugaces, como son las fragancias
de una flor sin razones.

Silvina Ocampo In "Poèmes d'amour désespéré" (Édition bilingue - traduction Silvia
Baron Supervielle), Librairie José Corti, Paris, 1997, p 116.
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28/08/09

"Marcello Caetano - O mito esvaziado"
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Marcello Caetano. O Homem que Perdeu a Fé, de Manuela Goucha Soares, "a biografia completa", segundo reza o anúncio da capa, possui o dom de reunir o melhor da reportagem jornalística com o melhor da investigação histórica. Dito de outro modo, reúne a narrativa da existência de um homem político com a descoberta e a inventariação de fontes históricas novas que iluminam de uma outra luz a vida do biografado.
No campo da biografia, todos os cuidados são poucos quanto ao escrúpulo e ao rigor da análise, porque não raro, em Portugal, sobretudo no aspecto político, se confunde biografia com hagiografia, como se constata pela recente publicação de biografias sobre políticos vivos ou sobre figuras carismáticas do Estado Novo. Descansemos, porém, neste caso.
Com efeito, o trabalho de Manuela Goucha Soares não só segue uma rigorosa metodologia jornalística (pesquisa, entrevistas, testemunhos escritos e orais, aplicação da regra do contraditório, deslocação aos lugares, neste caso ao Brasil), como aplica igualmente regras básicas da investigação histórica (a pesquisa em fontes originais e a descoberta de novos documentos, inclusive fotos), como, igualmente, propõe um fio condutor analítico-interpretativo na história colectiva.
Neste último caso, a autora conseguiu uma vincada harmonia entre a vida particular de Marcello Caetano e os acontecimentos públicos que lhe iam moldando o destino político, evidenciando um entrelaçamento muito forte entre a evolução do país e a evolução da vida do biografado. Polémico apenas o subtítulo (O Homem que perdeu a Fé) - a hipostasiação de um facto íntimo da vida do biografado que não explica nem a sua actividade política nem interfere nas suas intervenções públicas.
Que nos dá a ler a autora através da narração da vida de Marcello Caetano? A grande, grande conclusão que se extrai do encadeamento dos factos vivenciais apresentados reside na circunstância, até hoje não suficientemente relevada do ponto de vista histórico, que - primeiro - Marcello Caetano nunca superou o estatuto de um funcionário superior do Estado Novo, nem sempre passivo, mas sempre obediente ao chefe, isto é, a Oliveira Salazar; segundo, quando lhe faltou o chefe, não o soube substituir através de políticas próprias actualizadas, segundo um horizonte político próprio, desbloqueador do nó górdio em que se tornara Portugal, limitando-se a prolongar as do passado ("complexo" do funcionário superior). Quando sucedeu a vacatura de Primeiro-Ministro, Marcello Caetano evidenciou os seus genuínos limites políticos, transpondo para este alto cargo político e administrativo a estrutura mental e as categorias sociais próprias de um funcionário há 40 anos conivente e convivente com o regime, explorando os limites deste, mas evidenciando uma forte incapacidade para o renovar.
Com efeito, como funcionário superior, Caetano encontra-se ao lado de Salazar desde o primeiro minuto do regime do Estado Novo. Este convida-o para Subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social, Marcello Caetano recusa (encontra-se em plena preparação das provas de doutoramento) e Salazar nomeia-o para a Comissão Executiva da Comissão Central da União Nacional com a incumbência de preparar o primeiro congresso desta organização política. Mais concordante ou mais discordante, Marcello Caetano frequenta o pequeno círculo de conselheiros de Salazar durante 30 anos, até ao final da década de 50. As suas discordâncias, porém, nunca são levadas ao limite da ruptura, muito longe disso, revelando - conclui-se após a leitura do livro de Manuela Goucha Soares - "pequenos atritos tácticos e conjunturais mas grandes afinidades estratégicas ao nível da criação e organização corporativa do Estado Novo".
De facto, não foi a política que fez de Marcello Caetano um grande homem, mas os sesu estudos de Direito - este seria, porém, um caminho que daria um outro tipo de biografia (a "biografia intelectual"), que, estatuindo-se apenas como um plano da vida do biografado, Manuela Goucha Soares não seguiu, e muito bem, oferecendo-nos um retrato mais completo.
De facto, como classificar senão de funcionário superior incondicional do regime um jovem político (35 anos) nomeado para fundar e dirigir a Mocidade Portuguesa? Que outro senão um fiel e leal discípulo poderia escrever as cartas ao chefe dadas a conhecer pela autora (pp. 81 - 82)? Que outro senão um funcionário superior poderia ser nomeado Ministro das Colónias, em 1944, em plena II Guerra Mundial, seguindo de imediato em viagem para as colónias de modo a promover o cerrar de fileiras dos territórios ultramarinos em torno da política do Chefe? Que a outro senão a um indefectível exigiria ao chefe mais e melhor no campo social e corporativo contra a "burguesia capitalista" (p.97)? Que outro senão um lealíssimo colaborador poderia ser nomeado, em 1947, presidente da Comissão Executiva da União Nacional, alertando o chefe para a ineficácia da propaganda do Estado Novo, que não arregimentava as "massas populares" (p. 107)? Que outro senão um fidelíssimo poderia ser nomeado Presidente da Câmara Corporativa em 1949?
Face à fidelidade ao regime, haveria, de facto, dissonância crítica com o chefe? Como político, Marcello Caetano é fiel; como intelectual, crítico. Como a autora evidencia, é justamente a crise académica de 1962 que revela a diferença entre o político e o intelectual, levando a um afastamento.
Porém, após a subida ao lugar do Chefe, em 1968, o mito esvazia-se de todo. No essencial, Marcello Caetano, preso a uma educação integralista e incapaz de encontrar verdadeiras alternativas para o bloqueio em que Portugal vivia (Guerra Colonial; existência de uma classe média sem expressão no espaço público; isolamento internacional...), segue a política do seu antecessor, evidenciando a sua real face política - a de um funcionário superior do regime. Com efeito, lendo a biografia de Marcello Caetano por Manuela Goucha Soares rápido se conclui que, dentro de um século, a História não registará o seu nome, "saltando" de Oliveira Salazar directamente para a revolução do 25 de Abril de 1974, como a História não regista (senão por académicos e eruditos) o nome do ministro sucessor de João Franco, entre 1908 e 1910, "saltando" do nome deste para a implementação da I República, em 5 de Outubro de 1910.
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(Manuela Goucha Soares, Marcello Caetano. O Homem que perdeu a Fé, A Esfera dos Livros, 293pp, 30 euros)
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Miguel Real In "Jornal de Letras" 1014, Agosto, 2009.
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27/08/09

"A demissão da vaidade permite a lucidez"

"Imaginary voyage", Wies - Austria (2008) foto de Tomaz Crnej


A demissão da vaidade permite a lucidez
E alivia o peso das horas correctas enquanto
O zelo da alegria enuncia o respeito pela dor.

A ausência de desejo submete a cor à dúvida,
Compromete a seriedade e o caos numa mesma
Espera e limita o espaço onde se movimentam

Os braços. A morte da ternura é demasiado
Lenta e avança com uma delicadeza suave,
Melodiosa até, que rompe limites até então

Seguros e nunca postos em causa pelo corpo.
A água escorre através das fendas provocadas
Pela seca continuada. Há sinais de

Mudança legitimados pela frescura
Dos arbustos que ladeiam o caminho incerto
Que conduz a um silêncio em construção, uma

Ideia indefinida de prazer sensual e puro
Que permanece. Toda a paz respira dentro
De uma loucura reconhecida pelos homens

Que seguem a luz reveladora dos limites
E acrescenta à harmonia a sede líquida
Da exclamação correcta. Há-de chegar o fim.

Rui Almeida in "Lábio Cortado", Livro do Dia Editores,
Torres Vedras, 2009, p 47.
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"Sei que recordo tudo em certos momentos."


"Shedding Skin", Portland, Oregon - 2008, foto de Andrea Galluzzo
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A prontidão das sombras resume
Um simples corpo e resvala sinuosa.
Sei que recordo tudo em certos momentos.
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Recordo-te até como se te chamasse,
Como se corresse através do caminho
Que vais preparando junto aos precipícios.
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Mas a memória revela o que não sei,
Desfaz sequências de nomes até ti.
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Repito a violência e seguro uma pedra
Com as mãos - tal como as tuas - já perdidas.
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Repito toda a fragilidade que o teu peso insinua
E derramo a voz ao limite - ossos e carne
Que nos atiram ao chão com o afecto da dor.
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Rui Almeida In "Lábio Cortado", Livro do Dia Editores,
Torres Vedras, 2009, p 27.
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25/08/09




"Eu Me Deleto"
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1
Eu me dilato:
rejeito a vida prêt-à-porter de massa e consumismo
fujo da matriz, evito o invólucro que me oferece como outro:
umbigo-conexão em fôrma e forma de fora para dentro
formulo e me reformulo
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mas estou infectado pelo vírus
electrônico, invadido por hackers de plantão
eliminando minha individualidade
- inteligência destrutiva
viral, virtual, visceral, vital.
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Me estendo, me simulo e dissimulo:
continuo sendo dionisíaco, lúdico
com o complexo de Narciso:
e me excomungo, me abduzo, me exorcizo.
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Como tudo é instantâneo
nem reflito
- espelho a derrocar a própria imagem.
Sou um rito de passagem.
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2
Eu me delato:
tudo pela onipresença
pela ubiquidade absoluta
- eu-prótese, eu-extensão
do modo de acomodar e conjugar
os mitos e as alegorias.
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3
E me deleto:
atrelado à rede total que me esgarça, me dispersa.
Me desloco, descolo, me desintegro, me desconecto.
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Estou cada vez mais fuso, parafuso, confuso
num esquema difuso
pelas regras da nanotecnologia
- daí a minha tecnofobia, minha agonia.
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É mesmo o fim da ideologia?
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Na missa virtual
em vez da pomba da paz
aparece uma vagina cósmica
denunciando minha origem.
Onde o antivírus? Cadê a vacina?
Vertigem do ser.
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Antonio Miranda In "Despertar das Águas", Thesaurus Editora,
Brasília, 2006, pp 74 - 76.
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24/08/09




"Rio de Janeiro Madrugada 1957"

que importa já passou nada restou
daquelas noites mornas e sem normas
pelas ruelas sujas paredes descascadas
da Lapa detrás dos Arcos prostitutas

mendigos tabuleiros angu com torresmo
travestis drogados acuados grasnando
de saltos altos seios postiços línguas
masturbando clientes colados aos postes

garotos de programa na Galeria Alasca
mostrando pénis rijos como mercadorias
vendedores de amendoim torradinho
lá vem o camburão arrasando quarteirão

sexo ali na praia ali mesmo luzes
refletidas corpos nus fricção orgasmo
curra sofreguidão susto prostração
que a noite é longa e os sonhos aguçados

um intelectual na porta do boteco cisma
um resto de samba-canção desnaturado
o bonde trepida os marinheiros urinam
e as igrejas dormem e os ratos assustados

os jornais da madrugada pesam nas calçadas
os bêbedos os malandros os vendedores de rua
os casais que saem dos cabarés suados
e o velho que dorme no banco de praça

e as luzes da avenida reverberando
e as colunas mortas e as portas fechadas
os anúncios luminosos as hospedarias
e os sobrados envergonhados sonolentos

não há lua sob um céu de chumbo
o bolso vazio o coração esfacelado
um desempregado com fome na parada
esperando o ônibus para o subúrbio

fantasias notívagas os preconceitos suspensos
desejos absconsos e sua cumplicidade
classes sociais aproximando-se promíscuas
antes que o dia enquadre as criaturas

Antonio Miranda In "Despertar das Águas", Thesaurus Editora,
Brasília, 2006, pp 47-48.
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REVISTA SAUDADE


ENCONTRA-SE À VENDA O Nº 11 DA " REVISTA DE POESIA SAUDADE" (JUNHO 2009 ).
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O REFERIDO NÚMERO TEM A COLABORAÇÃO DOS SEGUINTES POETAS:
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ALFREDO FERREIRO (Galiza), AMADEU BAPTISTA, ANA LUÍSA AMARAL, ANTÓNIO
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CABRITA, ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO, ANTÓNIO FERRA, ANTÓNIO JOSÉ QUEIRÓS,
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ANTÓNIO SALVADO, AVELINO DE SOUSA, BRUNO BÉU, DANIEL GONÇALVES,
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DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES, EDUARDO BETTENCOURT PINTO, FERNANDO
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BOTTO SEMEDO, FERNANDO DE CASTRO BRANCO, FERNANDO FÁBIO FIORENSE
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FURTADO (Brasil), FERNANDO DA GLÓRIA DIAS (Angola), FERNANDO GRADE,
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FERNANDO PINTO DO AMARAL, FRANCISCO CURATE, GRAÇA MAGALHÃES,
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HENRIQUE MONTEIRO, IACYR ANDERSON FREITAS (Brasil), ILDÁSIO TAVARES (Brasil),
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IOLANDA R. ALDREI (Galiza), ISABEL CRISTINA PIRES, JOÃO RUI DE SOUSA, JOAQUIM
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CARDOSO DIAS, JOEL HENRIQUES, JORGE REIS-SÁ, JOSÉ A. DAMAS, JOSÉ LUÍS DE
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ALMEIDA MONTEIRO, JULIÃO BERNARDES, LUÍS ADRIANO CARLOS, LUÍS FILIPE
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CRISTÓVÃO, LUÍS FILIPE PEREIRA, LUÍS QUINTAIS, MAFALDA CHAMBEL, MARIA DO
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SAMEIRO BARROSO, NICOLAU SAIÃO, NUNO DEMPSTER, PEDRO SENA-LINO, PEDRO
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S. MARTINS, POMPEU MIGUEL MARTINS, RUI CAEIRO, SÉRGIO PEREIRA, TATI
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MANCEBO (Galiza), TIAGO PATRÍCIO, VICTOR OLIVEIRA MATEUS, VÍTOR OLIVEIRA
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JORGE e XOSÉ LOIS GARCÍA (Galiza).
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22/08/09

" L'indomptable n'a pas de mots."


"En Mars - 79 "
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Las de tous ceux qui viennent avec des mots, des mots
mais pas de langage,
je partis pour l'île recouverte de neige.
L'indomptable n'a pas de mots.
Ses pages blanches s'étalent dans tous les sens!
Je tombe sur les traces de pattes d'un cerf dans la neige.
Pas des mots, mais un langage.
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Tomas Transtromer In "Baltiques - Oeuvres complètes 1954 - 2004",
Poésie/Gallimard, Paris, 2004, p 244 (Tradução do sueco por Jacques Outin).
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traduzindo Tomas Transtromer...

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"Em Março de 79"

Cansado de todos os que vêm à mistura com as palavras,
com as palavras não com a linguagem,
parto para uma ilha recoberta de neve.
O indomável não se deixa dizer.
As suas páginas brancas desdobram-se em todos os sentidos!
Descubro as pegadas de um veado inscritas na neve.
Nada de palavras, mas sim uma linguagem.

Tomas Transtromer (tradução do francês por Victor Oliveira Mateus)
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20/08/09

Etty Hillesum

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(de 24/10/1941 a 11/11/1941 - excertos).
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As pessoas não se devem contaminar mutuamente com as sua más disposições.
Esta noite, mais decretos contra os judeus. Consenti a mim mesma ficar deprimida e desassossegada com isso durante meia hora. Antigamente ter-me-ia consolado a ler um romance e deixar o trabalho por fazer. (...) Enquanto o conseguirmos alcançar através da menor abertura, devemos aproveitar. Pode ser que isso o consiga ajudar (ao Mischa) na vida mais tarde. Uma pessoa não deve querer atingir sempre grandes resultados. Mas devemos acreditar nos pequenos.
Há dois dias que só trabalho e não me aprofundo nos estados de espírito (...).
"Estou tão agarrada a esta vida." O que queres dizer com esta "vida"? A vida fácil que tens agora? Se realmente estás agarrada à vida crua, nua e crua, qualquer que seja a sua forma, isso ainda terá de se ver com o passar dos anos. Tens forças suficientes em ti. Também tens isto: "Se uma pessoa leva a vida a rir ou a chorar, é somente uma vida." Porém isto não está só. Está misturado com dinâmica ocidental, de vez em quando sinto-o de modo muito intenso. Nestes dias mais sóbrios de verdadeira autodisciplina, sinto isso muito intensamente: estás mesmo saudável, estás a avançar para ti própria, a chegar à tua própria base (...).
Parece que já se passaram muitas semanas e que experienciei muitíssimas coisas. E no entanto, a um determinado momento uma pessoa reencontra-se às voltas com a mesma questão: a compulsão que tens em ti ou essa ficção ou fantasia, como lhe queiras chamar, de querer possuir uma só pessoa por uma vida inteira, tens de a estilhaçar em mil pedaços. Esse absoluto tem de ser pulverizado dentro de ti. E em seguida não ficar com essa ideia de que a pessoa fica mais pobre com isso, mas justamente mais rica. Bastante mais difícil, mas com mais nuances. Aceitar os pontos altos e baixos nas relações, e encarar isso como positivo e não como entristecedor. O não querer possuir um outro, o que não significa renunciar ao outro. Deixar o outro em total liberdade, interiormente também, sem que contudo tal signifique resignação. Começo agora a identificar a natureza da minha paixão no meu relacionamento com o Max (Knaap?). Era a dúvida, porque sentias que o outro era inalcançável em última instância e isso atiçava-te ainda mais. Mas isso aconteceu provavelmente porque querias alcançar o outro de modo errado. De modo demasiado absoluto. E o absoluto não existe. Que a vida e as relações humanas são infinitamente matizadas, que não há em parte alguma algo absoluto ou objectivamente válido, isso também eu sei, mas este conhecimento deve estar também no sangue, em ti mesma, não só na cabeça, mas deve também ser vivido. E aqui volto sempre a bater na mesma tecla e uma pessoa tem de se exercitar nisto durante toda a vida: que, tal como uma pessoa aceita viver segundo uma visão do mundo, de idêntico modo deve viver o seu sentimento. Provavelmente é essa a única possibilidade de adquirir um sentimento de harmonia.
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Etty Hillesum In "Diário 1941-1943", Assírio & Alvim, Lisboa, 2008, pp 130-132 (Prefácio de José Tolentino Mendonça, Tradução do neerlandês de Maria Leonor Raven-Gomes.
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.(Nota - Etty Hillesum "foi morta" no campo de concentração de Auschwitz em 1943).
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18/08/09

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Azul que em azul te desdobras.
Cerco de baías. Moldura de espuma.
De penhascos afagados pelo vento.
É na linha do fogo que te desenho,
ó insubmissa de vagas e fulgores!
É em ti que me renovo, Cítera,

a dos amores. E por ti diariamente
renasço, ilha que em ilhas
te desdobras, onde me apoio
e urdo a teia que sempre refaço,
com o Cabo de Maleia ao fundo;
lâmina apontada ao meu peito

lasso. Aqui me fico, envolto em
algas e sargaço. Azul que em azul
te desdobras das chaminés das casas
ao dúctil reflexo do horizonte;
percurso onde sempre me busco
e busco do ser sua nítida fonte.

Victor Oliveira Mateus In "A Irresistível Voz de Ionatos", Editora Labirinto,
2009, p 11 (Posfácio de Cláudio Neves e texto da contracapa de Olga Savary).
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16/08/09



           " L' aigle noir "


Un beau jour, ou peut-être une nuit,
Près d'un lac je m'étais endormie,
Quand soudain, semblant crever le ciel,
Et venant de nulle part,
Surgit un aigle noir,

Lentement, les ailes déployées,
Lentement, je le vit tournoyer,
Près de moi, dans bruissement d'ailes,
Comme tombé du ciel,
L'oiseau vint se poser,

Il avait les yeux couleur rubis,
Et des plumes couleur de la nuit,
A son front brillant de mille feux,
L'oiseau roi couronné,
Portait un diamant bleu,

De son bec il a touché ma joue,
Dans ma main il a glissé son cou,
C'est alors que je l'ai reconnu,
Surgissant du passé,
Il m'était revenu,

Dis l'oiseau, ô dis, emmène-moi,
Retournons au pays d'autrefois,
Comme avant, dans mes rêves d'enfant,
Pour cueillir en tremblant,
Des étoiles, des étoiles,

Comme avant, dans mes rêves d'enfant,
Comme avant, sur un nuage blanc,
Comme avant, allumer le soleil,
Etre faiseur de pluie,
Et faire des merveilles,

L'aigle noir dans un bruissement d'ailes,
Prit son vol pour regagner le ciel,

Quatre plumes couleur de la nuit
Une larme ou peut-être un rubis
J'avais froid, il ne me restait rien
L'oiseau m'avait laissée
Seule avec mon chagrin

Un beau jour, ou peut-être une nuit,
Près d'un lac, je m'étais endormie,
Quand soudain, semblant crever le ciel,
Et venant de nulle part,
Surgit un aigle noir,

Un beau jour, une nuit,
Près d'un lac, endormie,
Quand soudain,
Il venait de nulle part,
Il surgit, l'aigle noir ...

Barbara

05/08/09



Toma-me ainda em tuas mãos e
não perguntes nada
nem sequer dês um nome aos gestos que se abrigam
como um fruto uma promessa um murmúrio
nas fogueiras ateadas em junho

juro que vou escolher palavras que não doam
parecidas com as que sempre encontrava
nas camas em que tantas vezes te enterrei
por dentro do meu corpo

toma-me ainda em tuas mãos eu sei que
temos pouco tempo que não queres
inventar novos ardis para um desamor tão velho
mas vais ver
o mundo é apenas isto e para isto
não procures nenhuma filosofia redentora
porque tudo é no fim de contas tão banal

podes por isso começar a refazer a estrada que
te levava ao centro dos meus dias e esperar
que eu chegue com um retrato desfocado nas mãos
na hora certa de abrir para ti as minhas veias


Alice Vieira In " o que dói às aves", Ed. Caminho,
s/c, 2009, p 36.
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04/08/09




"Condomínio Fechado"


Ficou o cedro enorme, disseste, o que guarda
os nossos afectos e as conversas avulsas dos outros:
o lugar de todas as passagens é agora o centro
do vazio que sobe das raízes até ao horizonte
se houvesse horizonte, ao menos um pouco de ar.
O cedro e os segredos antes de corrermos para o forte,
de combinarmos as guerras maninho,
de sabermos que tudo ia ruir, menos o cedro, dizes.
Que adiantaram as nossas vitórias? As derrotas dos outros
deixaram-nos a memória ruidosa de um cedro, o ouvido
disperso pelas folhas e o silêncio magoado a toda à volta.
Combinávamos a vida, o alvoroço da folhagem.
Agora o telefone toca por engano - não mora aqui ninguém
com esse nome, todos moramos num ecrã de televisão
com vista para o mar. Eu só lembro o tufão que te arrancou:
nós torciamos o bibe com mãos nervosas e as mãos
dos homens refaziam os alicerces agasalhando-te
na terra fértil. Cheirava a estrume e nós sabíamos
que a vida voltava - na folhagem luziam os afectos
que limpam o tempo depois da tempestade. Guardião
do templo, para quem guardas as nossas vozes
se nós mesmos perdemos os ouvidos e as mensagens
não chegam até nós? Pelo sim, pelo não
maninho, deixa ligado o telemóvel.

Rosa Alice Branco In "Da Alma e dos Espíritos Animais", Campo das Letras Ed.,
Porto, 2001, pp 37-38.
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03/08/09

"A noite, se existiu, foi para nós um erro"

"Telhados de Lisboa", quadro de Maluda.


"manhã"


É um pequeno milagre, esta claridade.
Os telhados acendem-se como fornalhas,
permanece vermelha uma parte do céu.
A noite, se existiu, foi para nós um erro
de perspectiva, uma ilusão, um ardil de
sombras e estrelas perdidas no escuro.

Agora é de um azul sem mácula, o céu;
a cidade, um corpo branco a levantar-se;
e esta luz - rasa, rosa, crua - já não um
pequeno milagre, mas uma evidência.

José Mário Silva In "Luz Indecisa", Oceanos/LeYa, Alfragide, 2009, p 48
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"Agora vejo a poeira suspensa na luz"


"ich habe genug (bwv 82) "
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Não é uma questão de lógica.
O milagre está muito além
da pauta, a lenta melodia do oboé
desenhando uma arquitectura aérea.
Agora vejo a poeira suspensa na luz,
o apogeu do outono numa cidade
que se recusou a ser minha, as
armas serenas da tristeza. A voz
de Hans Hotter - tão escura, tão
funda, tão resignada - traz-me
ainda uma capitulação feliz.
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José Mário Silva In "Luz Indecisa", Oceanos/LeYa, Alfragide, 2009, p 42.
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30/07/09




"Soneto das Sombras das Moças em Flor"


Aonde estão as moças que floriam
a primavera azul de Itapuã
desabrochando os corpos que vendiam
na incerteza que mancha o amanhã?

Aonde estão estas meninas? Mora
nas árvores a chuva, o vento, o frio:
o inverno se assentou de vez agora;
pouca lembrança há-se restar do estio -

Só uma nesga de sol que se insinua
sobre as mesas de plástico molhadas;
só uma réstia de vida veste a rua:

os raros transeuntes nas calçadas.
Neste deserto, sob um céu sem cor,
procuro as sombras das moças em flor.


Ildásio Tavares In "As Flores do Caos", Editª Labirinto, Fafe, 2009,
p 33 ( Prefácio de Casimiro de Brito).


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"Dor e glória partilharam, afinal, homens e deuses que,
por terra e mar, vaguearam sem destino!" - considerou
o prestável Eumeu, depois de tantas coisas termos dito,
em seu casebre, nessa noite, não longe do lugar onde, ao
romper da Aurora, não tardaria a desembarcar Telémaco,
para preparar a conjura, e cumprir a vingança.

Vergílio Alberto Vieira In "Sombras de Reis Mendigos", Ed. Livros de Horas,
Porto, 2009, p 46, (Prefácio de Miguel Real).
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29/07/09

"Agora, há ruído/ além do vento."


Nota - Enquanto aguardamos o lançamento do livro da Maiara Gouveia, que, julgo, está para breve, segue um inédito seu de um outro projecto. Gostei muito deste poema e ela autorizou-me a publicá-lo, portanto ...
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"Da origem "
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1.
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Aquém da intriga, a face, ainda oculta
por água turva, em plena queda,
mistura-se ao vácuo, abertura
de uma era. E a treva, armadilha, rodeia
este nada recém descoberto.
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Do oco, um lume revela
o barulho da pedra, esse sopro
a rolar sobre a esfera,
agora líquida, translúcida, repleta
de infinito.
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O firmamento divide o tempo
em duas águas. O árido
insurge, é a forma do corpo,
ainda inerte. No entanto,
um vapor cobre tudo, e brota o fruto
e a erva. Da noite, a lua e as guelras
têm poder. E da manhã, a matéria
forma o astro, o fervilhar, de onde,
num vôo ou mergulho, os seres
retiram potência e à vida
chegam.
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Do ovo, a serpente quebra
a superfície, e a pele fria
toca o solo, à espreita
do mistério. O homem,
da lama se desprende, e sem medo
existe até que o desejo
penetre em seus poros.
Agora, há ruído
além do vento.
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Do sono, a costela
expele a fêmea, de onde vem
a dor que tudo alimenta.
A história sela o destino
de ser. Esse deus
corpóreo, o cancro da fera,
com a presa na boca
e porque a fome o deseja. E desaba
um cortejo
de vozes, o cheiro
de banha e sangue
pisado. No centro, a raiz
expande a morte.
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Sabemos?
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Maiara Gouveia (Inédito)
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26/07/09

"Retrato de Vergílio Alberto Vieira" (2007). Desenho de José Rodrigues.


Sempre que, em Ogígia, voltava aos braços de Calipso
para, no seu leito de rosas, travar sem tréguas nova
batalha fingida, não era pois do mar esse rumor de
vagas que, de céu a céu, me perseguia, mas da cadência
do remo com que, mais tarde, havia de medir: do sol, a
altura; do abismo, a sombra do naufrágio.


Vergílio Alberto Vieira In "Sombras de Reis Mendigos", Ed. Livros de Horas,
Porto, 2009, p 19 (Prefácio de Miguel Real).
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25/07/09

"Não é simples impudência o que contra ti vocifera!"

A (grande) interpretação da "Fedra" de Racine por DOMINIQUE BLANC.
DVD zona 2 com uma realização de Stéphane Metge (2003) e a encenação
de PATRICE CHÉREAU.

"Mensagem"

Para Hipólito, da Mãe - Fedra - Rainha - a mensagem.
Para o rapaz caprichoso, belo, fugindo de Fedra como,
De Febo pomposo, a cera... E pois então,
Para Hipólito, de Fedra: o gemer de lábios ternos.

Sacia minha alma! (Impossível, sem tocar os lábios,
Saciar a alma!) Impossível, ao tocá-los,
Não beijar Psique, dos lábios a visitante alada...
Sacia a minha alma: logo, sacia-me os lábios.

Cansada, Hipólito... Às putas e sacerdotizas - opróbrio!
Não é simples impudência o que contra ti vocifera!
Simples, só falas e mãos... Um grande mistério esconde
O seu tremor atrás dos lábios que o dedo sela.

Oh, perdoa, meu virgem!, donzel!, cavaleiro!, inimigo
Do deleite! Não é luxúria! Não é o seio da fêmea!
É ela, a sedutora! É lisonja de Psique -
Ouvir junto aos seus lábios o balbucio de Hipólito -

"Tem vergonha!" - Mas é tarde! É o último marulho!
Meus cavalos desvairam! Da rocha abrupta - em pó -
Também sou amazona! Lanço-me do cume dos peitos,
Fatais colinas - para o abismo do teu peito!

(Ou do meu?!) - Tenta! Ousa! Mais ternura!
Grifo na cera da tabuinha - ou cera de um coração
Feito a estilete escolar... Oh, antes lesse
Nos lábios o segredo de Hipólito a tua

Insaciável Fedra...


Marina Tsvetáeva In "Depois da Rússia 1922-1925", Relógio d'Água, Lisboa,
2001, pp 163-165 (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra).
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22/07/09

"Desperto, no meio do negro, ouvem-se as constelações baterem o pé, de impaciência..."

(Nota - é enorme a importância de Transtromer, na Suécia e fora dela, assim, dada a caracterização desta poesia, as relações que tem com várias correntes e poetas de outros países,
a polémica que levantou com a geração de 70, o modo como, apesar dos obstáculos, se tem conseguido impor como um dos grandes vultos da poesia europeia, sugerimos a leitura do Prefácio a esta obra, da autoria de Jacques Outin, bem como do breve esboço biográfico que está na Wikipédia...)

"Les Pierres"

Les pierres que nous avons jetées, je les entends
tomber, cristallines, à travers les années. Les actes
incohérents de l'instant volent dans
la vallée en glapissant d'une cime d'arbre
à une autre, s'apaisent
dans un air plus rare que celui du présent, glissent
telles des hirondelles du sommet d'une montagne
à l'autre, jusqu'à ce qu'elles
atteignent les derniers hauts plateaux
à la frontière de l'existence. Où nos
actions ne retombent
cristallines
sur d'autres fonds
que les nôtres.

Tomas Transtromer In "Baltiques - Oeuvres complètes 1954 - 2004 ", Poésie Gallimard,
Paris, 2004, p 36 (traduzido do sueco para o francês por Jacques Outin).
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