. Soneto 43 ( Concerto em Paris 16/6/2009).
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19/10/09
Vejo os dias quais noites não te vendo (Soneto 43).
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When most I wink, then do mine eyes best see;
For all the day they view things unrespected,
But when I sleep, in dreams they look on thee,
And darkly bright, are bright in dark directed.
Then thou whose shadow shadows doth make bright,
How would thy shadow's form form happy show
To the clear day with thy much clearer light,
When to unseeing eyes thy shade shines so?
How would (I say) mine eyes be blessed made
By looking on thee in the living day,
When in dead night thy fair imperfect shade
Through heavy sleep on sightless eyes doth stay?
.. All days are nights to see till I see thee,
.. And nights bright days when dreams do show thee me.
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Tradução:
Meus olhos vêem melhor se os vou fechando.
Viram coisas de dia e foi em vão,
mas quando durmo, em sonhos te fitando,
são escura luz que luz na escuridão.
Tu cuja sombra faz a sombra clara,
como em forma de sombras assombravas
ledo o claro dia em luz mais rara,
se em sombra a olhos sem visão brilhavas!
Que bênção a meus olhos fora feita
vendo-te à viva luz do dia bem,
se tua sombra em trevas imperfeita
a olhos sem visão no sono vem!
.. Vejo os dias quais noites não te vendo,
.. e as noites dias claros sonhos tendo.
Shakespeare In "Os sonetos de ... ", Bertrand Editora, Lisboa, 2002,
pp 96 - 97 (Tradução de Vasco Graça Moura).
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When most I wink, then do mine eyes best see;
For all the day they view things unrespected,
But when I sleep, in dreams they look on thee,
And darkly bright, are bright in dark directed.
Then thou whose shadow shadows doth make bright,
How would thy shadow's form form happy show
To the clear day with thy much clearer light,
When to unseeing eyes thy shade shines so?
How would (I say) mine eyes be blessed made
By looking on thee in the living day,
When in dead night thy fair imperfect shade
Through heavy sleep on sightless eyes doth stay?
.. All days are nights to see till I see thee,
.. And nights bright days when dreams do show thee me.
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Tradução:
Meus olhos vêem melhor se os vou fechando.
Viram coisas de dia e foi em vão,
mas quando durmo, em sonhos te fitando,
são escura luz que luz na escuridão.
Tu cuja sombra faz a sombra clara,
como em forma de sombras assombravas
ledo o claro dia em luz mais rara,
se em sombra a olhos sem visão brilhavas!
Que bênção a meus olhos fora feita
vendo-te à viva luz do dia bem,
se tua sombra em trevas imperfeita
a olhos sem visão no sono vem!
.. Vejo os dias quais noites não te vendo,
.. e as noites dias claros sonhos tendo.
Shakespeare In "Os sonetos de ... ", Bertrand Editora, Lisboa, 2002,
pp 96 - 97 (Tradução de Vasco Graça Moura).
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18/10/09
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"Soneto"
Cresce a sintaxe com muito vagar.
Diz ao fonema: Vem. Depois, sou eu.
Ri o Sol da gramática, apesar
de o Sol só fazer más rimas no céu.
Faço as pazes com ele, vou tomar
banho - "Belo transporte", concedeu.
Saio prà rua grávido de um par
de versos: páro, vejo-Me ao léu,
volto depressa a casa por papel.
Eis aqui está um bom decassilábico,
sobretudo, prudente: não repele
plo aroma e até o lê um estrábico.
Mas lixou-se o soneto isabelino.
Cacofonias, ai!, fazem o pino.
(Budapeste, 15 - III - 1984)
Ernesto Rodrigues In "Revista Mealibra", Nº 20, Série 3, 2006/7.
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"Soneto"
Cresce a sintaxe com muito vagar.
Diz ao fonema: Vem. Depois, sou eu.
Ri o Sol da gramática, apesar
de o Sol só fazer más rimas no céu.
Faço as pazes com ele, vou tomar
banho - "Belo transporte", concedeu.
Saio prà rua grávido de um par
de versos: páro, vejo-Me ao léu,
volto depressa a casa por papel.
Eis aqui está um bom decassilábico,
sobretudo, prudente: não repele
plo aroma e até o lê um estrábico.
Mas lixou-se o soneto isabelino.
Cacofonias, ai!, fazem o pino.
(Budapeste, 15 - III - 1984)
Ernesto Rodrigues In "Revista Mealibra", Nº 20, Série 3, 2006/7.
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"Pátria"
Heróis do mar. Por favor!
Heróis foram, no entanto.
Partiu-se barca de espanto,
vogamos sempre em redor.
Levantemos o esplendor,
hoje, da pátria; um canto
novo quer pausa, enquanto
vemos saída melhor.
Chão, Deus, água, valor, língua,
são quinas de Portugal.
Fez-se milagre, à míngua
de mar, de vinho do Porto;
Deus foi bem, mas também mal.
Ao mar, ao mar, ser absorto!
(Budapeste, 21-II-1999)
Ernesto Rodrigues In "Revista Mealibra", Nº 20, Série 3, 2006/7
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"Pátria"
Heróis do mar. Por favor!
Heróis foram, no entanto.
Partiu-se barca de espanto,
vogamos sempre em redor.
Levantemos o esplendor,
hoje, da pátria; um canto
novo quer pausa, enquanto
vemos saída melhor.
Chão, Deus, água, valor, língua,
são quinas de Portugal.
Fez-se milagre, à míngua
de mar, de vinho do Porto;
Deus foi bem, mas também mal.
Ao mar, ao mar, ser absorto!
(Budapeste, 21-II-1999)
Ernesto Rodrigues In "Revista Mealibra", Nº 20, Série 3, 2006/7
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17/10/09
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já não me lembro se era inverno ou verão.
sei que o sol estava baixo e a sombra dos prédios
se alongava pelo rio e um último feixe de luz precipitava
o início de um crepúsculo de cores muito saturadas.
alguém veio chamar a minha ama
e ela levou-me pela mão como se houvesse
no ar o sinal de uma catástrofe
maior do que poderia pressentir.
só parámos em frente à entrada principal do palácio das sereias
de onde vi, ao longe, a carga policial
sobre os manifestantes que se aglomeravam no largo da alfândega.
de um lado havia gente em silêncio
e do outro guardas a cavalo.
dir-se-ia que apenas esperavam
o momento adequado para o impulso
de raiva que se lhes vislumbrava
estampada nos rostos. eu não sabia
o que não sabia existir. de súbito, senti
um nó na garganta
que apertava tanto que me fez doer
a nuca, os braços, as clavículas,
as pernas, os joelhos. a minha mão
na mão da minha ama, que senti tremer.
de súbito, provindo do silêncio
em que tudo decorria, sem prévio
aviso, ouvimos um estampido, e outro, e outro, ainda.
dos homens a cavalo, alguém puxara
de uma pistola e disparara sobre a multidão
silenciosa, que começou a gritar e a correr,
arremessando pedras sobre os guardas
de esporas nos cavalos, que espumavam
e levantavam as patas dianteiras.
nas janelas das casas vi
gente que levantava bandeiras negras
e vermelhas, outras brancas,
e apupava a polícia e clamava
palavras que até ali desconhecia
e aprendi, para sempre, serem
as mais essenciais para quem da vida
só espera a liberdade. do sítio de onde
estava, num relance, vi um homem
com sangue a escorrer do peito e da cabeça, estando muitos
caídos pelo chão, que os cavalos pisavam
e a quem os guardas batiam com bastões,
enquanto outros não paravam de correr,
procurando refúgio atrás das poucas árvores
e de alguns automóveis ali parados.
por essa altura, todo o meu corpo
se pôs em convulsões, acompanhando
os gritos que ainda hoje oiço
da infância.
Amadeu Baptista In "os selos da lituânia", & etc., Lisboa, 2008, pp 19 - 21.
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já não me lembro se era inverno ou verão.
sei que o sol estava baixo e a sombra dos prédios
se alongava pelo rio e um último feixe de luz precipitava
o início de um crepúsculo de cores muito saturadas.
alguém veio chamar a minha ama
e ela levou-me pela mão como se houvesse
no ar o sinal de uma catástrofe
maior do que poderia pressentir.
só parámos em frente à entrada principal do palácio das sereias
de onde vi, ao longe, a carga policial
sobre os manifestantes que se aglomeravam no largo da alfândega.
de um lado havia gente em silêncio
e do outro guardas a cavalo.
dir-se-ia que apenas esperavam
o momento adequado para o impulso
de raiva que se lhes vislumbrava
estampada nos rostos. eu não sabia
o que não sabia existir. de súbito, senti
um nó na garganta
que apertava tanto que me fez doer
a nuca, os braços, as clavículas,
as pernas, os joelhos. a minha mão
na mão da minha ama, que senti tremer.
de súbito, provindo do silêncio
em que tudo decorria, sem prévio
aviso, ouvimos um estampido, e outro, e outro, ainda.
dos homens a cavalo, alguém puxara
de uma pistola e disparara sobre a multidão
silenciosa, que começou a gritar e a correr,
arremessando pedras sobre os guardas
de esporas nos cavalos, que espumavam
e levantavam as patas dianteiras.
nas janelas das casas vi
gente que levantava bandeiras negras
e vermelhas, outras brancas,
e apupava a polícia e clamava
palavras que até ali desconhecia
e aprendi, para sempre, serem
as mais essenciais para quem da vida
só espera a liberdade. do sítio de onde
estava, num relance, vi um homem
com sangue a escorrer do peito e da cabeça, estando muitos
caídos pelo chão, que os cavalos pisavam
e a quem os guardas batiam com bastões,
enquanto outros não paravam de correr,
procurando refúgio atrás das poucas árvores
e de alguns automóveis ali parados.
por essa altura, todo o meu corpo
se pôs em convulsões, acompanhando
os gritos que ainda hoje oiço
da infância.
Amadeu Baptista In "os selos da lituânia", & etc., Lisboa, 2008, pp 19 - 21.
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São figuras reais? Penso que não
e serão talvez um reflexo de seres que eu conheci
Mas tal como as vejo têm uma presença profunda
algumas de uma beleza fulgurante
mas discreta
na trémula penumbra ou aura que as envolve
Não sei se sou eu que as suscito
ou convoco
mas a sua aparição é como um botão que rapidamente desabrocha
e eu apenas posso tentar mudar a imagem
para que outra lhe suceda ou fixá-la para que mais nenhum se lhe siga
Quer sejam figuras de mortos ou de vivos
quer sejam imagens do meu desejo ou do meu tremor
elas possuem um ritmo fremente
na iluminação dos rostos
e no silêncio de secreta tranquilidade
Não posso recusá-las
Aceito-as
mas não sei o que significam
embora talvez o seu secreto sentido
seja uma relação entre a beleza e a morte
ou talvez nada mais
que o fulgor esparso de tantas figuras
que por acaso ou não eu encontrei
mas não sei explicar a profunda beleza
de alguns destes rostos
que me fixam e para quem eu não sei quem sou
Nós não andamos à volta de um mistério
Não perdemos tempo com o que irreparavelmente se esconde
ou não se esconde
mas é a nulidade de ser como se fosse
Nós queremos estender o braço para um rosto
que não está formado
e é tão aéreo
como três ramos de árvore
Esse rosto é o alvo da mão nua
mas é ela que deslizando nas linhas do ar
o delineia primeiro como uma folha
depois como o peito de um pássaro
e finalmente como uma pluma de fogo e outra de água
Está finalmente aceso
com a delicadeza
da água
com a lascívia
do fogo
e não te vendo ainda
é a evidência discreta
sobre a pedra
António Ramos Rosa In "Deambulações Oblíquas", Quetzal Editores,
Lisboa, 2001, pp 46 - 47.
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e serão talvez um reflexo de seres que eu conheci
Mas tal como as vejo têm uma presença profunda
algumas de uma beleza fulgurante
mas discreta
na trémula penumbra ou aura que as envolve
Não sei se sou eu que as suscito
ou convoco
mas a sua aparição é como um botão que rapidamente desabrocha
e eu apenas posso tentar mudar a imagem
para que outra lhe suceda ou fixá-la para que mais nenhum se lhe siga
Quer sejam figuras de mortos ou de vivos
quer sejam imagens do meu desejo ou do meu tremor
elas possuem um ritmo fremente
na iluminação dos rostos
e no silêncio de secreta tranquilidade
Não posso recusá-las
Aceito-as
mas não sei o que significam
embora talvez o seu secreto sentido
seja uma relação entre a beleza e a morte
ou talvez nada mais
que o fulgor esparso de tantas figuras
que por acaso ou não eu encontrei
mas não sei explicar a profunda beleza
de alguns destes rostos
que me fixam e para quem eu não sei quem sou
Nós não andamos à volta de um mistério
Não perdemos tempo com o que irreparavelmente se esconde
ou não se esconde
mas é a nulidade de ser como se fosse
Nós queremos estender o braço para um rosto
que não está formado
e é tão aéreo
como três ramos de árvore
Esse rosto é o alvo da mão nua
mas é ela que deslizando nas linhas do ar
o delineia primeiro como uma folha
depois como o peito de um pássaro
e finalmente como uma pluma de fogo e outra de água
Está finalmente aceso
com a delicadeza
da água
com a lascívia
do fogo
e não te vendo ainda
é a evidência discreta
sobre a pedra
António Ramos Rosa In "Deambulações Oblíquas", Quetzal Editores,
Lisboa, 2001, pp 46 - 47.
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15/10/09
"Ainsi qu'un petit café, tel est l'amour"
Ainsi qu'un petit café
dans la rue des étrangers,
tel est l'amour... il reçoit tout le monde.
Ainsi qu'un café bondé ou déserté
selon la méteo.
La pluie tombe, les clients son plus nombreux.
Le ciel s'adoucit, les voici moins nombreux
qui s'ennuient...
Je suis là, ô étrangère, assis dans mon coin.
(De quelle couleur sont tes yeux?
Quel est ton nom?
Comment t'appeler quand tu passes près de moi,
assis à t'attendre?)
Comment t'appeler quand tu passes près de moi,
assis à t'attendre?)
Un petit café que l'amour.
Je commande deux verres
de vin et je bois à ma santé et à la tienne.
J'ai emporté
deux chapeux et un parapluie. Il pleut.
Il pleut plus fort que jamais
et tu n'entres pas.
Finalement je me dis: Celle que j'attendais
m'a peut-être attendu... ou attendu
un autre homme. Elle nous a attendu
et ne l'a pas,
ne m'a pas, reconnu.
Et elle disait: Je suis là, à t'attendre.
(De quelle couleur sont tes yeux?
Quel vin aimes-tu?
Quel est ton nom? Comment t'appeler
quand tu passes près de moi?)
Ainsi qu'un petit café, tel est l'amour...
Mahmoud Darwich In "Comme des fleurs d'amandier ou plus loin", Actes Sud,
Paris, 2007, pp 59 - 60 ( Tradução do árabe - Palestina - para o francês de Elias Sanbar).
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14/10/09

"Il y a une noce"
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Il y a une noce à deux maisons de la nôtre,
ne fermez pas les portes...
ne nous interdisez pas ce besoin
incongru de joie.
Le printemps ne se sent pas obligé
de pleurer chaque fois qu'une rose se fane.
Et quand, malade, le rossignol devient muet,
il cède au canari
sa part de chant et quand une étoile tombe,
aucun mal n'atteint le ciel...
Il y a une noce,
ne fermez pas la porte au nez de cet air
chargé de gingembre et des prunes
de la mariée
qui mûrit maintenant.
(Elle pleure et rit comme l'eau.
Pas de blessure dans l'eau. Pas de trace
d'un sang répandu dans la nuit.)
L'on dit: L'amour est fort comme la mort!
Je dis: Mais notre appétit de vie est plus fort
que l'amour et la mort,
même si nous ne pouvons le prouver.
Mettons un terme à nos rites funéraires
pour nous associer
au chant de nos voisins,
la vie est évidente... et réelle comme la poussière!
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Mahmoud Darwich In "Comme des fleurs d'amandier ou plus loin", Actes Sud,
Paris, 2007, pp 31-32 ( Tradução do árabe - Palestina- para francês de Elias Sanbar).
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12/10/09
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"Nós desejamos aquilo que vemos. Ser como os outros, ter o que os outros têm.(...) Mas esta incessante actividade de desejo provoca, inevitavelmente, frustrações. Nem sempre conseguimos obter aquilo que obtiveram os que nos serviram de modelo. Somos então obrigados a dar um passo atrás. Este recuo pode assumir diversas formas: de cólera, de tristeza, de renúncia. Ou mesmo de renegação do modelo com que nos tínhamos identificado. Para repelir o desejo repelimos a pessoa que no-lo havia indicado, desvalorizamo-la, dizemos que não merece, que não vale nada. É esta a primeira raiz da inveja.
A outra raiz da inveja apoia-se na necessidade de julgar.(...) Começamos em criança a comparar-nos (...)E depois continuamos ao longo da vida(...) elogio e reprovação, sucesso e insucesso, tudo isto são comparações. (...)Queremos ser melhores, superiores, mais apreciados. Não há qualquer limite para esta ambição, para esta ascensão. Por isso não há fim para o confronto, para o juízo, para o ilimitado suceder-se de valorizações (...) E se não conseguimos, se a comparação for em nossa desvantagem, sentimo-nos diminuídos, desvalorizados, vazios. Procuramos, então, proteger o nosso valor. Aqui ainda podemos fazê-lo de muitas maneiras: renunciando às nossas metas, tornando-nos indiferentes, ou então procurando desvalorizar o modelo, baixando-o para o nosso plano. Este mecanismo de defesa, esta tentativa de nos protegermos através da acção de desvalorização, é a inveja.
A inveja é, por isso, uma paragem, uma retirada, um estratagema para nos subtrairmos ao confronto que nos humilha. É uma tentativa de abastardar o estímulo desvalorizando o objecto, a meta, o modelo. Mas é um tentativa incongruente, porque o objecto do desejo e o modelo continuam ali, como uma teia na qual a alma se debate prisioneira.
Desejar e julgar são dois pilares do nosso ser, mas também a fonte da inveja.(...) Corremos para a frente, depois paramos, olhamos em redor, voltamos novamente a proceder com prudência. A seguir, reassegurados, voltamos a fazer outro avanço. O fluxo vital é um contínuo suceder-se de explorações, de tentativas e erros, de avanços e de recuos. O momento de paragem, de refluxo, de recusa, faz parte integrante do processo, é-lhe essencial. A inveja é um acto de defesa, uma tentativa de nos recolhermos num refúgio, numa fortaleza, com medo do que nos espera. É por isso a sombra negra do nosso esforço vital, a omnipresente força contrária à nossa vontade. (...) a forma como esses fins e esses desejos se nos revelam na inveja, está distorcida e é repugnante. Não é um esforço límpido, uma corajosa marcha em direcção à meta, não é sequer uma aceitação consciente do desafio. O desejo frustrado regressa através da nossa concentração obsessiva em alguém que conseguiu ser bem sucedido onde falhámos, e nós não estamos apenas descontentes com o nosso insucesso, mas cheios de ódio pelo que venceu. A inveja tem raízes no modelo, mas esse modelo, através do processo da inveja, transforma-se numa figura em que não podemos pensar sem nos sobressaltarmos, sem sermos tomados de raiva. A inveja (...)é um protesto rancoroso contra esta substância evasiva que avilta o nosso ser. É uma revolta contra a nossa falta metafísica de autonomia. Mas é um protesto cheio de má-fé, porque apenas o agredimos quando nos sentimos vacilar, não antes. Pelo contrário, antes, clamávamos a construção da nossa segurança e do nosso valor com base nesses confrontos. A inveja é o protesto de um batoteiro que se lembra de ter feito batota, quando começa a perder. Nessa altura quereria fazer um jogo leal, mas não o pode fazer porque pensa que todos fazem batota e, não confia neles, como não confia em si próprio.
A inveja é a maldade contra os outros quando pensamos que a sociedade, o mundo, não são suficientemente bons para connosco. É um veneno que colhemos e com o qual intoxicamos o ambiente. E neste ambiente nos movimentamos incomodamente, temos dependência e medo. (...) Na palavra inveja há uma terceira acusação. "Que mal te fez?", dizem-nos. E nós não sabemos que responder. Porque aquele que invejamos não fez qualquer gesto agressivo. Não "fez" absolutamente nada. O nosso desânimo, a nossa catástrofe interna, não foi determinada por uma acção, por uma violência, mas pura e simplesmente pela comparação que nós próprios levámos a efeito. (...) Mas não fomos agredidos por ninguém. Passamos pela experiência devastadora de termos sido destruídos por outro, sem sequer o podermos acusar. "
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Francesco Alberoni In "Os Invejosos", Bertrand Editora, Lisboa, 1997, pp 7 - 17.
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11/10/09
"Não a tua sombra, mas plenamente... "
"Portrait Flamand" foto de Blue Belhomme, Paris, 2009."A Cruz do Sul"
Desejei-te, Mulher do Sul sem nome,
Não a tua sombra, mas plenamente - quando ainda mais solitária,
A Cruz do Sul possui a noite
E a despoja das suas faixas, uma a uma -
Altiva, serena
longe do lento fogo
Dos céus inferiores -
etéreas cicatrizes!
Eva! Madalena!
ou tu, Maria?
Qualquer apelo - cai inútil entre as ondas.
Oh simiesca Vénus, desalojada Eva,
Por casar, errando sem um jardim onde chorasses
As guitarras varridas pelo vento sobre pontes isoladas;
Para finalmente responder a tudo dentro de um túmulo!
E este longo sulco de fósforo,
iridescente
Esteira de toda a nossa viagem - perseguida irrisão!
Os olhos dividem-se com o seu beijo. O seu longo, interminável fascínio
Incita a gritar. Deslizando nessa visão oculta
O espírito lança o seu escarro, sussurrante inferno.
Desejei-te... As brasas da Cruz
Subiam oblíquas e amontoavam-se aromáticas.
É sangue para recordar; é fogo
Hesitante que responde... É
Deus - o teu anonimato. E a ablução -
Toda a noite a água alinhou teus cabelos com negra
Insolência. Rastejante agitada até à tua realização.
A água provocou aquele pungente ruído, o teu
Cabelo enumerado - dócil, ai de ti, depois de sujeita a tantos braços.
Sim, Eva - sombra da minha semente sem amor!
Selada a Cruz, um fantasma - desceu mais baixo que a aurora.
A luz afogou aos milhares a tua lícita geração.
Hart Crane In "A Ponte", Relógio D'Água Editores, Lisboa, 1995,
pp 85-87 (Tradução de Maria de Lourdes Guimarães).
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10/10/09
"É pouco tudo o que eu vejo "
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Da margem esquerda da vida
Parte uma ponte que vai
Só até meio, perdida
Num halo vago, que atrai.
É pouco tudo o que eu vejo,
Mas basta, por ser metade,
P'ra que eu me afogue em desejo
Aquém do mar da vontade.
Da outra margem, direita,
A ponte parte também.
Quem sabe se alguém ma espreita?
Não a atravessa ninguém.
Reinaldo Ferreira In "Poemas", Vega, Lisboa, 1998, p 151 (Com um estudo de
José Régio sobre esta obra e Prefácio de Guilherme de Melo).
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Da margem esquerda da vida
Parte uma ponte que vai
Só até meio, perdida
Num halo vago, que atrai.
É pouco tudo o que eu vejo,
Mas basta, por ser metade,
P'ra que eu me afogue em desejo
Aquém do mar da vontade.
Da outra margem, direita,
A ponte parte também.
Quem sabe se alguém ma espreita?
Não a atravessa ninguém.
Reinaldo Ferreira In "Poemas", Vega, Lisboa, 1998, p 151 (Com um estudo de
José Régio sobre esta obra e Prefácio de Guilherme de Melo).
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"Estas verdades, / Que são do senso comum,"
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Sei que a ternura
Não é coisa que se peça,
E dar-se não significa
Que alguém a queira ou mereça.
Estas verdades,
Que são do senso comum,
Não me dão conformação
Nem sentimento nenhum
De haver força e dignidade
Na minha sabedoria...
Eu preferia
- Sinceramente, preferia! -
Que, contra as leis recolhidas
No que ficou dos destroços
De outras vidas,
Tu me desses a ternura que te peço;
Ou que, por fim, reparasses
Que a mereço.
Reinaldo Ferreira In "Poemas", Vega, Lisboa, 1998, p 166.
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Sei que a ternura
Não é coisa que se peça,
E dar-se não significa
Que alguém a queira ou mereça.
Estas verdades,
Que são do senso comum,
Não me dão conformação
Nem sentimento nenhum
De haver força e dignidade
Na minha sabedoria...
Eu preferia
- Sinceramente, preferia! -
Que, contra as leis recolhidas
No que ficou dos destroços
De outras vidas,
Tu me desses a ternura que te peço;
Ou que, por fim, reparasses
Que a mereço.
Reinaldo Ferreira In "Poemas", Vega, Lisboa, 1998, p 166.
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09/10/09
"E vimos a noite erguida nos teus braços."
"À Ponte de Brooklyn"Em quantas madrugadas, arrefecidas pelo repouso ondulante,
As asas da gaivota hão-de imergi-la e voar em seu redor,
Espalhando anéis brancos de tumulto, erigindo bem no alto
Sobre as águas agrilhoadas da baía a liberdade -
Então, numa curva inviolada, deixarão os nossos olhos
Tão espectrais como veleiros que cruzam
Uma página cheia de parcelas a arquivar;
- Até que os elevadores nos libertem do nosso dia...
Sonho com cinemas, truques panorâmicos
Com multidões debruçadas sobre uma cena fulgurante
Jamais revelada, mas passada de novo à pressa,
A outros olhos prometida sobre o mesmo écran;
E TU, por cima do porto, ao ritmo da prata
Como se o sol te imitasse, embora deixasse
Um gesto nunca acabado no teu rasto, -
Implicitamente ficas com a tua liberdade!
De uma abertura no metro, de uma cela ou mansarda
Um louco precipita-se para os teus parapeitos,
Oscilando aí por momentos, a garrida camisa enfunada,
E um gracejo solta-se da multidão surpreendida.
Por Wall Street, escorre o meio-dia desde a viga mestra atá à rua,
Um rasgão no acetilene do céu;
Toda a tarde os guindastes envoltos pelas nuvens giram...
Os teus cabos respiram ainda o Atlântico Norte.
E é obscura, como aquele céu dos judeus,
A tua recompensa... tu conferes o louvor
De um anonimato que o tempo não pode evocar:
Testemunhas uma indulgência e um perdão vibrantes.
Harpa e altar pelo furor unidos,
( Como pôde o simples trabalho alinhar as tuas cordas cantantes!),
Medonho limiar da promessa do profeta,
Prece de um pária, e grito de um amante, -
E de novo as luzes do trânsito que deslizam pelo teu idioma
Veloz e total, imaculado suspiro de estrelas
Ornando o teu caminho, condensam a eternidade:
E vimos a noite erguida nos teus braços.
Sob a tua sombra, esperei junto dos pilares;
Apenas na escuridão é a tua sombra nítida.
Os bairros flamejantes da cidade todos inacabados,
A neve submerge já um ano de ferro...
Ó Insone como o rio lá em baixo,
Em abóboda sobre o mar, erva sonhadora das pradarias,
Desce, vem até nós, os mais humildes,
E da tua curvatura empresta a Deus um mito.
Hart Crane In "A Ponte", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
1995, 17-19 (Tradução de Maria de Lourdes Guimarães).
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08/10/09
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"O Jogo dos Vivos"
E por que não fazê-lo?
e por que não enlouquecer?
seria bem melhor perder
de uma vez esta sensibilidade idiota
e incomodativa
parar de pensar
parar de escrever
entregar-me sem reserva à mediocridade
que a realidade envolvente exalta
nesse momento
sem problemas de consciência
passaria a fazer parte integrante da massa amorfa
de cotovelos apontados às bocas abertas
e aos dentes desprotegidos
poderia atropelar pessoas sem pedir desculpa
dizer palavrões quando me negassem qualquer capricho
meter-me em confusões beber até apanhar uma cirrose
fumar até os pulmões rebentarem roubar chupas aos putos
comer à pressa com as mãos não levantar a mesa
não fazer a cama arrotar o abecedário peidar-me
sonoramente nos transportes públicos cuspir para o chão
repreender a criança insistente que descreve
o futuro numa expectativa inocente e ingénua
tudo menos esta passividade
porque eu tenho visto o desenrolar do jogo dos vivos
sentado no banco de suplentes por vezes na bancada
em tantas ocasiões agarrado às grades do portão de entrada já fechado
porque eu condeno quem não sabe jogar quem faz jogo sujo
mas continuo a ceder continuo imóvel desconcentrado
não entro em campo não mostro o meu drible
porque eu porque eu porque
eu vejo esta gente a passar
a olhar-me de relance e juro que os seus olhos
me chamam anormal me chamam coisas incómodas como idealista
me repudiam por ainda aqui estar sentado a reflectir
em vez de consumir todos os outros recursos disponíveis
apetece-me enlouquecer
vingar-me em alguém
Paulo Tavares In "Pêndulo", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão,
2007, pp 50-51.
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"O Jogo dos Vivos"
E por que não fazê-lo?
e por que não enlouquecer?
seria bem melhor perder
de uma vez esta sensibilidade idiota
e incomodativa
parar de pensar
parar de escrever
entregar-me sem reserva à mediocridade
que a realidade envolvente exalta
nesse momento
sem problemas de consciência
passaria a fazer parte integrante da massa amorfa
de cotovelos apontados às bocas abertas
e aos dentes desprotegidos
poderia atropelar pessoas sem pedir desculpa
dizer palavrões quando me negassem qualquer capricho
meter-me em confusões beber até apanhar uma cirrose
fumar até os pulmões rebentarem roubar chupas aos putos
comer à pressa com as mãos não levantar a mesa
não fazer a cama arrotar o abecedário peidar-me
sonoramente nos transportes públicos cuspir para o chão
repreender a criança insistente que descreve
o futuro numa expectativa inocente e ingénua
tudo menos esta passividade
porque eu tenho visto o desenrolar do jogo dos vivos
sentado no banco de suplentes por vezes na bancada
em tantas ocasiões agarrado às grades do portão de entrada já fechado
porque eu condeno quem não sabe jogar quem faz jogo sujo
mas continuo a ceder continuo imóvel desconcentrado
não entro em campo não mostro o meu drible
porque eu porque eu porque
eu vejo esta gente a passar
a olhar-me de relance e juro que os seus olhos
me chamam anormal me chamam coisas incómodas como idealista
me repudiam por ainda aqui estar sentado a reflectir
em vez de consumir todos os outros recursos disponíveis
apetece-me enlouquecer
vingar-me em alguém
Paulo Tavares In "Pêndulo", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão,
2007, pp 50-51.
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O Prémio Nobel da Literatura de 2009...
... foi atribuído a Herta Muller, escritora nascida em Nitchidorf (Roménia) e que em 1987 foi.
viver para a Alemanha. Para além de romancista Herta Muller é também poeta e ensaísta.
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Dois dos seus títulos estão já traduzidos para português: "O homem é um grande faisão sobre
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a terra" (Cotovia) e "A terra das ameixas verdes" (Difel).
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"Luzes Dispersas"
Disseste-me o teu nome
mas acabei por esquecê-lo
numa gaveta ou num armário
da casa antiga que já não habito
ameaçado pelas investidas
silenciosas das traças
ganhando o odor da naftalina
foi envelhecendo juntamente
com as outras coisas que não soube amar
os nomes fazem parte de nós
percorrem o sangue e as artérias
preenchem o intervalo entre os órgãos
sem eles a anatomia da vida
seria uma espiral de derrames consecutivos
quando voltei à casa antiga
em busca das divisões de outrora
as gavetas e os armários estavam cheios
de memórias que não me pertenciam
procurei em vão o teu nome
por todas as divisões
restava apenas o vestígio dos teus olhos:
lanternas imprecisas apontadas à escuridão.
Paulo Tavares In "Pêndulo", Quasi Ed., 2007, p 29.
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"Luzes Dispersas"
Disseste-me o teu nome
mas acabei por esquecê-lo
numa gaveta ou num armário
da casa antiga que já não habito
ameaçado pelas investidas
silenciosas das traças
ganhando o odor da naftalina
foi envelhecendo juntamente
com as outras coisas que não soube amar
os nomes fazem parte de nós
percorrem o sangue e as artérias
preenchem o intervalo entre os órgãos
sem eles a anatomia da vida
seria uma espiral de derrames consecutivos
quando voltei à casa antiga
em busca das divisões de outrora
as gavetas e os armários estavam cheios
de memórias que não me pertenciam
procurei em vão o teu nome
por todas as divisões
restava apenas o vestígio dos teus olhos:
lanternas imprecisas apontadas à escuridão.
Paulo Tavares In "Pêndulo", Quasi Ed., 2007, p 29.
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07/10/09
" Poema 18 "
Neste voo de escrever-te um poema
um poema que falasse
dos rios ocultos
com cestas de astros e corais
que falasse das flautas de sol
polindo a tarde
e de picaretas de luz
que do peito à boca me ressoam
Um poema com peixes verde-prata
vindo à tona entre os juncos e as palavras
e onde os sapos surpreendidos em seus saltos
deixassem os gritos suspensos
nos cabelos das algas
com regatos de permeio
Um poema que tivesse também
um longuíssimo solo de violino
com todos os mundos que para ti inventei...
- Neste voo de escrever-te um poema
que não sei...
Mateus, Victor Oliveira. Movimento de Ninguém. Lisboa: 1999, p 30.
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06/10/09
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Fizera arquitectura em Sevilha e no Canadá
Viera ter aqui para te fazer ciúme,
Criatura vibrátil,
Modelava o riso oriental com réguas
Finas, lisas, transparentes,
E recriava as casas com mãos breves de cera
E muita, requintada submissão.
Trazia sempre à luz o seu perfil elástico
Confundido nas falas dobrava-se em silêncio.
Foram meses de ouro para mim que não te ouvia
Desdobrado em amores também australianos.
Tens que aceitar-me as costas, e só, com a dor
Arrefecendo-me os flancos
Na tua intimidade que já nem recalcitra.
Seishu parou de aparecer voou para Nova Iorque
Talvez Hamburgo lhe gele agora o reticente cabelo.
Como iria eu saber que já não tinhas pátria
Quando os olhos de flecha meio cerrada
Me fitavam de longe, fotográficos?
Na praia do Meco ou nesse altar do desejo
Erguido sobre o mar enraivecido
Como colunas brancas e pedras amarelas de tabaco
Pernas e dentes sitiavam-me o corpo.
Seishu, um nome simples
Que articulava, em coro, uma inteira panóplia
De pequenos gestos e pássaros
Um tecido de luxo, decisivo e tão puro
A envolver-lhe as nádegas.
E tanta espuma risonha e tanto bem saber
Na tua boca fresca.
Eu já não te sentia no meu espaço
Não te exaltes
A memória enaltece os nomes concubinos.
Tu não estavas no sangue, tolhido na garagem estranha
O teu corpo esfriava
No vazio.
Armando Silva Carvalho In "O Amante Japonês, Assírio & Alvim,
Lisboa, 2008, pp 40-41.
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Fizera arquitectura em Sevilha e no Canadá
Viera ter aqui para te fazer ciúme,
Criatura vibrátil,
Modelava o riso oriental com réguas
Finas, lisas, transparentes,
E recriava as casas com mãos breves de cera
E muita, requintada submissão.
Trazia sempre à luz o seu perfil elástico
Confundido nas falas dobrava-se em silêncio.
Foram meses de ouro para mim que não te ouvia
Desdobrado em amores também australianos.
Tens que aceitar-me as costas, e só, com a dor
Arrefecendo-me os flancos
Na tua intimidade que já nem recalcitra.
Seishu parou de aparecer voou para Nova Iorque
Talvez Hamburgo lhe gele agora o reticente cabelo.
Como iria eu saber que já não tinhas pátria
Quando os olhos de flecha meio cerrada
Me fitavam de longe, fotográficos?
Na praia do Meco ou nesse altar do desejo
Erguido sobre o mar enraivecido
Como colunas brancas e pedras amarelas de tabaco
Pernas e dentes sitiavam-me o corpo.
Seishu, um nome simples
Que articulava, em coro, uma inteira panóplia
De pequenos gestos e pássaros
Um tecido de luxo, decisivo e tão puro
A envolver-lhe as nádegas.
E tanta espuma risonha e tanto bem saber
Na tua boca fresca.
Eu já não te sentia no meu espaço
Não te exaltes
A memória enaltece os nomes concubinos.
Tu não estavas no sangue, tolhido na garagem estranha
O teu corpo esfriava
No vazio.
Armando Silva Carvalho In "O Amante Japonês, Assírio & Alvim,
Lisboa, 2008, pp 40-41.
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05/10/09
"Soneto da fidelidade"
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e dederramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes In "Antologia Poética", Publicações D. Quixote,
Lisboa, 2001, pp 136-137.
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De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e dederramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes In "Antologia Poética", Publicações D. Quixote,
Lisboa, 2001, pp 136-137.
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04/10/09
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Fiel até ao fim. Fiel até ao fel.
Há muito que não sei levar-te a mim.
A esta rude, estranha transparência dos meus dias.
Não sei se me desculpas
Ou imploras aos teus deuses que me assaltem.
Quantas vezes, perdidos já os dois, me confesso inerte dentro do teu corpo,
Cansado dos que suam e não me sonham
Dos que sonham corpos e trazem na cabeça, arrastados pelo medo,
Um suor submisso, um rouco respirar que não me alcança.
E eram mãos absurdas, vermelhas,
Rodadas, rodeadas
De pequeninos coros de papel, vítimas do mundo
E loucas de saberes
Que tu atropelavas nas ruas, selvagens,
Assassino infiel do meu destino.
Armando Silva Carvalho In "O Amante Japonês", Assírio & Alvim, Lisboa, 2008, p 14.
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Fiel até ao fim. Fiel até ao fel.
Há muito que não sei levar-te a mim.
A esta rude, estranha transparência dos meus dias.
Não sei se me desculpas
Ou imploras aos teus deuses que me assaltem.
Quantas vezes, perdidos já os dois, me confesso inerte dentro do teu corpo,
Cansado dos que suam e não me sonham
Dos que sonham corpos e trazem na cabeça, arrastados pelo medo,
Um suor submisso, um rouco respirar que não me alcança.
E eram mãos absurdas, vermelhas,
Rodadas, rodeadas
De pequeninos coros de papel, vítimas do mundo
E loucas de saberes
Que tu atropelavas nas ruas, selvagens,
Assassino infiel do meu destino.
Armando Silva Carvalho In "O Amante Japonês", Assírio & Alvim, Lisboa, 2008, p 14.
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03/10/09
"aquí me tienes para tus enseñanzas"
Oh, Tiempo,
amante más que ninguno,
aquí me tienes para tus enseñanzas,
para tus expansiones,
para tus nudos de corbata.
Aquí me tienes para tus noches
y el recreo estival,
y para ser tu intercesora
en los debates más encarnizados.
Estaré de tu lado
taimadamente, como las novias
que no toman partido
pero no se retiran jamás del lugar
donde los hombres más valientes
son amenazados.
Desde allí todo lo ven
con su ojo atento y forzado
y un embarazo de apenas dos meses
en el que aún no piensan.
Y cuando vengan los pistoleros,
oh, Tiempo,
yo como las novias arrebatadas
esperaré hasta que caiga
la última de tus gotas de sangre,
prestándote todo mi apoyo,
animándote.
Quiero servirte de consuelo
hasta el último segundo de tu existencia,
Tiempo.
Quiero acompañarte toda mi vida
en los escalones
hechos sobre la marcha
de tu infinito atardecer.
Luisa Castro In "Amor mi señor", Tusquets Editores, Barcelona, 2005, pp 99-100.
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02/10/09
"tus ojos no fueron de hombre"
Luisa Castro (Foz/Lugo, Galiza, 1966). Em 1986 obteve logo o Prémio Hiperión dePoesia com "Los versos del eunuco", em 1988 ganhou o Prémio Rei Juan Carlos com
o "poemario Los hábitos del artillero", em 2004 surge a sua "Obra Poética reunida 1984-1997" com o título "Señales con una bandera". O seu romance "El secreto de la lejía" ganha o Premio Azorin 2001 e em 2004 recebe o Prémio Torrente Ballester com a sua colectânea de contos
"Podría hacerte daño". A sua obra foi já traduzida para italiano, inglês, alemão, hebreu, francês e holandês. A escrita de Luisa Castro é praticamente desconhecida em Portugal.
No fue humano tu amor,
no fue de hombre tu mano,
tus ojos no fueron de hombre,
no fue tu nombre de hermano.
No fue ni amigo ni padre
ni guía ni redentor,
no fue ni siquiera un dios,
y sin medida fue amado.
Qué me diste? Qué te di,
que nunca te viste saciado,
campo que todo lo bebes,
fuente que todo lo secas.
Amor que todo lo pides
y nada das que no sea
a cuenta de usura, alegre
fuente que todo lo secas.
Luisa Castro In "Amor mi señor", Tusquets Editores, Barcelona, 2005, p 27.
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01/10/09
""De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável."
Guillaume Depardieu e Jeanne Balibar no filme de Jacques Rivette"Não toquem no machado" (baseado do romance de Balzac "La Duchess de Langeais).
"Uma espécie de perda"
Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos. E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
Ingeborg Bachmann In "O Tempo Aprazado, Poemas 1953-1967", Assírio & Alvim, Lisboa,
1992, pp 99-101 (Tradução de Judite Berkemeier e João Barrento).
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"O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,/(...) não estamos em casa".
.jpg)
"Manobras de Outono"
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Não digo: isso foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gôndolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.
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Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e miríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio-dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas cenas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.
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Vamos viajar! Debaixo de ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pores-de-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
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Ingeborg Bachmann In "O Tempo Aprazado", Assírio & Alvim, Lisboa, 1992,
pp 35-37 (trad. de Judite Berkemeier e João Barrento).
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29/09/09
...
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"a minha casa"
uma ilha
os livros todos que a poesia
tivesse julgado como abrigo
um solstício suspenso
para a luz ser lida
com tempo
e uma história para
mobiliar as paredes brancas
boa ou má
uma história com um passadiço
para o amor
Daniel Gonçalves In "a casaDescrita", edição de autor numerada e assinada, 2009, p 11.
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"a casa escrita"
a casa escrita
abre a sua grande janela
musical
deixa volutear as suas cortinas
brancas
como a orla de uma dança
cristalina
e chama as cotovias
a água primordial
do dia
o gato azul
para se sentar
no colo do poeta
Daniel Gonçalves In "a casaDescrita", edição de autor numerada e assinada, 2009, p 1.
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"a casa escrita"
a casa escrita
abre a sua grande janela
musical
deixa volutear as suas cortinas
brancas
como a orla de uma dança
cristalina
e chama as cotovias
a água primordial
do dia
o gato azul
para se sentar
no colo do poeta
Daniel Gonçalves In "a casaDescrita", edição de autor numerada e assinada, 2009, p 1.
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28/09/09
"E nenhum vínculo as ligará à morte"
"Retrato # 1, Lacedonia - Itália, 1957" foto de Frank Cancian (Irvine, Califórnia)..
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Hão-de crescer mulheres como flores sobre os telhados.
Sonhar-se-ão em volta, arqueadas como abóbodas.
Serão verticalmente o poema
com suas frontes altas e brancas.
E nenhum vínculo as ligará à morte
quando sobre as cabeças ondularem como tochas.
Jorge Melícias In "disrupção", Cosmorama Edições, Vila Nova de Famalicão,
2008, p 116.
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"um metal onde florescem guelras."
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A vara cantada ao longo dos dedos,
um metal onde florescem guelras.
Eis o lugar infusível do poema.
A cegueira com a
precisão de um eixo.
Jorge Melícias In "disrupção", Cosmorama Edições, Vila Nova de Famalicão,
2008, p 90.
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A vara cantada ao longo dos dedos,
um metal onde florescem guelras.
Eis o lugar infusível do poema.
A cegueira com a
precisão de um eixo.
Jorge Melícias In "disrupção", Cosmorama Edições, Vila Nova de Famalicão,
2008, p 90.
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27/09/09
"um deus despótico e cego"
"Estudos para a Morte de Cleópatra" (c. 1791) de Domingos António de Sequeira(carvão e giz branco sobre papel). Foto de Arnaldo Soares.
"Punition"
Aujourd'hui
en cet instant
la vie sans foi est un verdict
les objects deviennent des dieux
le corps devient un dieu
un dieu despotique et aveugle
il engloutit et digère ses fidèles
puis les excrète
Tadeusz Rózewicz In "Inquietude", Buchet-Chastel Ed., Paris, 2005,
p 6o (tradução do polaco para o francês de Grazyna Erhard).
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25/09/09
Que noite escura! Que noite escura!
Bramem as ondas cavernosas...
A grande armada vai largar...
Oh, a armada do rei!... oh, as naus pavorosas
Na escuridão, turbilhonando, a baloiçar!...
São esquifes mortuários,
São féretros com velas de sudários,
Tumbas negras nas ondas a boiar!...
Ai que gemidos, que alaridos
De multidões na praia, olhando o mar!...
Lá vem o rei... lá vem a côrte... e luzes, luzes
De brandões, de tocheiros a sangrar...
Vai a embarcar?... vai a enterrar?... Não trazem cruzes,
Nem há sinos por mortos a dobrar...
Oh, a lúgubre, estranha comitiva
A bandada de espectros singular!...
É gente morta?... é gente viva?...
Procissões de defuntos a marchar!...
Cortesãos, cavaleiros e soldados,
Tudo esqueletos descarnados,
Olhos de treva e crânios de luar!...
Ladeiam côches fúnebres doirados...
São os côches d'El-Rei... vai a enterrar?...
Lá se apeiam as damas das liteiras...
Gestos de manequins, rir de caveiras...
Fitas e plumas sôltas pelo ar...
Olha a rainha, vem em braços, morta e doida.
Morta e doida a clamar que a vão matar!...
E o rei!... olhem o rei!... que rei de entrudo!...
Um porco em pé, com manto de veludo
E c'roa na cabeça, a andar, a andar!
Mas reparem... tem cornos! é cornudo!
Dois chavelhos de boi no seu logar!
Um rei, que é porco e tem chavelhos!
Um rei que é porco e tem chavelhos!
Que fantasia! enlouqueci!... ando a sonhar!...
Mas bem no vejo! eu bem no vejo,
C'roa de rei, tromba de porco e chifres no ar!...
.....................
Cái de rastros, chorando, o povo inteiro,
Beija-lhe a côrte as patas e o traseiro...
E êle a grunhir! e êle a roncar!...
......................
Lá vão as naus... lá vai o rei com seus tesoiros...
E lá ficam na praia, como agoiros,
As multidões soturnas a ulular! ...
......................
Olha uma águia rubra, uma águia bifronte,
Incendiando o horizonte,
A voar, a voar, a voar!...
Ai dos rebanhos!... ai dos rebanhos!...
Águia de extermínios, onde irás poisar?!
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Guerra Junqueiro In "Pátria", Livraria Chardron, de Lélo & Irmão,
Porto, 1912 (Quarta Edição), pp 129 - 131.
NOTA: este poste mantém a grafia de 1912.
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23/09/09
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Sempre que a mim regressas indefeso te recebo e, sem temor
ou artifício, indefeso me dissipo na tentação por nós
arquitectada. Mas há tentações assim... Que nos devoram.
Que nos devoram e limpam da ferocidade diária,
dos mitos que nos apregoam mas não compramos,
porque tentação mais vil do que a nossa. Sempre que a mim
regressas - qual rosa ou vala ou ferida aberta - uma maré
de alegria me retoma, me submerge e apequena sem eu saber
como nem porquê. Grande é a vizinhança entre os instantes
das tuas vindas e a eternidade que nelas inscrevemos.
Grande a felicidade se acaso te demoras e eu, para além
das armadilhas da noite, para além do estampido das ondas
contra as rochas, dos estalidos do soalho sob os nossos
pés nus, do arquejar dos nossos corpos já saciados, esqueço
a minha boca colada à tua pele, como jóia cintilante a prender
o manto da mais bela rainha do Mediterrâneo.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 17.
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Sempre que a mim regressas indefeso te recebo e, sem temor
ou artifício, indefeso me dissipo na tentação por nós
arquitectada. Mas há tentações assim... Que nos devoram.
Que nos devoram e limpam da ferocidade diária,
dos mitos que nos apregoam mas não compramos,
porque tentação mais vil do que a nossa. Sempre que a mim
regressas - qual rosa ou vala ou ferida aberta - uma maré
de alegria me retoma, me submerge e apequena sem eu saber
como nem porquê. Grande é a vizinhança entre os instantes
das tuas vindas e a eternidade que nelas inscrevemos.
Grande a felicidade se acaso te demoras e eu, para além
das armadilhas da noite, para além do estampido das ondas
contra as rochas, dos estalidos do soalho sob os nossos
pés nus, do arquejar dos nossos corpos já saciados, esqueço
a minha boca colada à tua pele, como jóia cintilante a prender
o manto da mais bela rainha do Mediterrâneo.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 17.
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Aportados em tão extrema manhã ao que vínhamos
bem nós sabíamos. Mas ao que estávamos, só quem via
aquele azul como nós, que religiosamente o calávamos
como coisa rara, coisa de impossível dizer, só quem via
nossa busca em seu intrépido fulgor, poderia perceber
tanto e tanto ardor. Aportados naquela manhã, na ponta
norte, de onde as costas da Lacónia nos apareciam
como um leve traço antes do céu, logo ali desocultámos
desse admirável princípio seu estranho véu. E com o teu
braço sobre os meus ombros, por entre sumagres, faias
e avelaneiras, adentrei-me naquela ilha, que por nossa
se desenhava. Ilha para lá do vazio, da felicidade imitada,
dos escombros: terra finalmente alcançada com o teu
braço sobre os meus ombros. Nenhum mal a poderia
já extinguir como marco nunca havido, nem a persistente
fragrância a si própria acrescentada de sémen e saliva
- de nós húmidos rastros - no abandono dos cômoros, nem
tão-pouco as terríveis perdas, que nas cidades fervilham
em correria inóspita e vã, parecer por nós recusado
quando à ilha havíamos chegado naquela extrema manhã.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 10.
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Aportados em tão extrema manhã ao que vínhamos
bem nós sabíamos. Mas ao que estávamos, só quem via
aquele azul como nós, que religiosamente o calávamos
como coisa rara, coisa de impossível dizer, só quem via
nossa busca em seu intrépido fulgor, poderia perceber
tanto e tanto ardor. Aportados naquela manhã, na ponta
norte, de onde as costas da Lacónia nos apareciam
como um leve traço antes do céu, logo ali desocultámos
desse admirável princípio seu estranho véu. E com o teu
braço sobre os meus ombros, por entre sumagres, faias
e avelaneiras, adentrei-me naquela ilha, que por nossa
se desenhava. Ilha para lá do vazio, da felicidade imitada,
dos escombros: terra finalmente alcançada com o teu
braço sobre os meus ombros. Nenhum mal a poderia
já extinguir como marco nunca havido, nem a persistente
fragrância a si própria acrescentada de sémen e saliva
- de nós húmidos rastros - no abandono dos cômoros, nem
tão-pouco as terríveis perdas, que nas cidades fervilham
em correria inóspita e vã, parecer por nós recusado
quando à ilha havíamos chegado naquela extrema manhã.
Mateus, Victor Oliveira. A Irresistível Voz de Ionatos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 10.
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22/09/09
"(...) parler d'une manière telle que mes paroles/ à travers les larmes atteignent l'éclat des sourires"

"Désir"
Je voudrais aujourd'hui parler un langage si imagé et si clair
que les enfants accourent vers moi comme vers un parc
baigné de soleil et gorgé de lumière
Je voudrais aujourd'hui parler avec tant de chaleur et de simplicité
que les personnes âgées puissent se sentir utiles
Je voudrais parler d'une manière telle que mes paroles
à travers les larmes atteignent l'éclat des sourires
Je voudrais aujourd'hui parler avec calme et douceur
afin que les gens puissent se reposer avec moi
rire et pleurer
et se taire et chanter
Je voudrais aujourd'hui parler avec rage et sévérité
afin qu'ils retrouvent leurs rêves égarés
l' Aile jadis jaillie de leur épaule
Je voudrais ne pas parler
mais agir avec des paroles
pour que les hommes de leurs mains
touchent mes paroles
Tadeusz Rózewicz, "Inquiétude", Buchet Chastel Éditions, Paris,
2005, pp 37 - 38 (tradução do polaco para o francês de Grazyna Erhard).
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20/09/09
" O futuro de um país lê-se no rosto dos seus habitantes"
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A este propósito, é bom lembrar que cerca de um terço da população portuguesa continua a viver no exterior. Cinco milhões de emigrantes encontram-se dispersos pelos Estados Unidos, pela França e pelo Brasil, por muitos e vários outros destinos, em confronto com os dez milhões e trezentos mil que vivem em território nacional, o que significa que Portugal continua a ser um país de partida. Aliás, a emigração de portugueses para a Europa mesmo nos últimos tempos não abrandou de ritmo. De momento, é mesmo o país da União Europeia que apresenta a percentagem mais elevada de cidadãos em idade activa a residir em outros Estados-membros. Isto é, como desde há muito, continua a existir um vasto país fora do país, e os números relativos a essa emigração continuada, esmagadoramente de natureza económica, não param de aumentar.
Mas se todos esses dados só confirmam realidades que vêm de trás, eles inscrevem-se agora numa constante bem mais alargada, integrada na mobilidade global que faz mover as populações em torno da Terra em direcção a determinados destinos. Quanto ao que nos diz respeito, o que há de novo, precisamente, é que Portugal tenha passado, nas últimas décadas, a ser cada vez mais um país de destino, e que se aproxime de meio milhão o número de estrangeiros a trabalharem e a residirem entre nós. (...) Os últimos números oficiais dão conta de quase meio milhão de estrangeiros a viverem legalmente em Portugal, sem contar com os clandestinos. À semelhança de outros países europeus, o maior número de imigrantes provém dos antigos espaços coloniais a que se juntam imigrantes oriundos das antigas repúblicas soviéticas - Rússia, Ucrânia, Roménia, Moldávia. Actualmente, pode dizer-se que cinco, em cada cem cidadãos deste país, são estrangeiros, e mesmo tendo em conta oscilações sazonais, o número tende a aumentar. Espera-se mesmo que o equilíbrio demográfico venha a ser alcançado, num futuro próximo, a partir das faixas da imigração residente. O que quer dizer que, à semelhança de outros países da Europa, num futuro imediato, Portugal terá um desafio importante pela sua frente, no qual já inclui uma bela moeda de troca.
É que neste campo de permuta, feito de partida e chegada, deve-se ter em conta que rara será a família portuguesa que não teve no seu passado a experiência do desconhecido e da errância. A força do seu trabalho e da sua energia espalhou-se por toda a parte. O português contactou com todos, à volta do mundo, conhece de tudo um pouco. Mas é a primeira vez, nos tempos modernos, que outras diásporas se cruzam no seu próprio espaço territorial, estando em vias de se desenhar um novo rosto para o futuro.
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O futuro de um país lê-se no rosto dos seus habitantes, e em trinta anos o rosto da população mudou. O vocabulário também.`É verdade que os conflitos aumentaram e a instabilidade se instalou em zonas que não era suposto, e surgiram tensões sociais que nos eram desconhecidas, crispações étnicas que entretanto se cruzaram com outras de vária natureza, à medida que a sociedade se foi tornando complexa e fragmentada. Mas se esta estrada tem oferecido vários caminhos divergentes, por vezes eles cruzam-se sobre o mesmo tapete de asfalto e alguns deles conduzem a locais inesperados.
Falemos desses lugares, alguns deles de natureza simbólica, por exemplo. É o caso da palavra "raça", que praticamente desapareceu do uso quotidiano para dar lugar a "etnia", um termo que sublinha a inscrição da pessoa numa cultura que lhe é própria, abrindo caminho para uma ligação a um "lugar" e uma "história", mais do que a uma História e uma Geografia.(...) e abre espaço, no plano dos conceitos, para aquilo que é hoje comum ser defendido pelos grupos que se batem pelo reconhecimento da igualdade biológica, em face da Ciência. E provenientes desse campo, até agora, só têm chegado notícias de que nada distingue os homens segundo as raças. As distinções, a nível biológico, estabelecam-se homem a homem, e as mais relevantes entram por outras portas e baseiam-se noutros critérios. (...) "O genoma humano não tem raça" - foi uma frase emblemática, proclamada a 13 de Fevereiro de 2001, e com a qual se baptizou o início deste século, que se pretende sem preconceito. Mas nem todas as alterações provêm do campo dos novos conceitos. Muitas delas resultam das circunstâncias nuas, e por vezes cruas, da pura factualidade.(...)
É assim que, entre nós, a pressão crescente dos números também explica a alteração positiva que se tem feito sentir neste domínio. Ainda há trinta anos, uma criança estrangeira que chegasse a uma escola portuguesa constituia um caso isolado. Hoje, há escolas que registam mais de trinta etnias, e turmas onde estudam em conjunto crianças oriundas de dez países diferentes, desde o Paquistão à Argentina, da Roménia à China.
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Lídia Jorge In "Contrato Sentimental", Sextante Editora, Lisboa, 2009, pp 28 - 31.
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19/09/09
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"Anto"
Bem que o cego avisara:
"César, tem cuidado com os idos de Março".
Mas isso fora há mil e muitos anos
e na história, mais que a realidade,
sempre procuraste o mito e a ficção.
Não é verdade que para ti
Hamlet era mais real que Shakespeare?
Quando chegaste ao Seixo, santo Deus, como vinhas!
Eram bem maiores as moléstias da alma
do que aquelas que carregavas no corpo
e te minavam os pulmões.
Tudo te causava horror.
Tinhas nojo dos homens e das coisas
mas a bondade renascia em teu coração
quando olhavas os carreirinhos de formigas.
No Seixo sonhaste reencontrar
o aconchego do ventre de tua mãe.
Mas os ares eram fortes de mais,
não fugias aos orvalhos da noite
e a ciência há muito te abandonara.
De nada valiam as rezas de Carlota
nem as perdizes do Senhor Abade.
Por isso tiveste de deixar
o lar da tua infância, a tua taça de leite.
Querias apenas dormir, dormir, dormir...
Enquanto olhavas do teu quarto
as ondas brancas do teu mar da Foz,
adormeceste para sempre, docemente,
nos braços maternais de teu irmão.
Era Março e tinhas a idade de Cristo.
António José Queirós In "Os Meninos e Outros Poemas", 2ª edição,
Editora Labirinto, Fafe, 2008, p 17.
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"Soneto da Inquietação"
Olho a ponte, olho o rio, mas não vejo
quem meus olhos procuram cegamente:
corre o tempo, fica a dor e o desejo
que o mundo se acabe de repente!
Passa um dia, outro dia, já não sei
por onde se perdeu meu pensamento;
caem sombras nos sonhos que sonhei
debruadas de mágoa e esquecimento.
Com a vida, por vezes, não me entendo,
nem com seus alados véus de ilusão.
E enquanto o meu mundo vai morrendo,
em saudosas vigílias de paixão
recordando o passado vou vivendo
numa louca e amarga inquietação.
António José Queirós In "Os Meninos e Outros Poemas", 2ª edição,
Editora Labirinto, Fafe, 2008, p 57.
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"Soneto da Inquietação"
Olho a ponte, olho o rio, mas não vejo
quem meus olhos procuram cegamente:
corre o tempo, fica a dor e o desejo
que o mundo se acabe de repente!
Passa um dia, outro dia, já não sei
por onde se perdeu meu pensamento;
caem sombras nos sonhos que sonhei
debruadas de mágoa e esquecimento.
Com a vida, por vezes, não me entendo,
nem com seus alados véus de ilusão.
E enquanto o meu mundo vai morrendo,
em saudosas vigílias de paixão
recordando o passado vou vivendo
numa louca e amarga inquietação.
António José Queirós In "Os Meninos e Outros Poemas", 2ª edição,
Editora Labirinto, Fafe, 2008, p 57.
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18/09/09
"Confidências"
Mãe! dói-me o peito. Bati com o peito contra a estátua que tem em cima o verbo ganhar. Ainda não sei como foi. Eu ia tão contente! eu ia a pensar em ti e no verbo saber e no verbo ganhar. Estava tudo a ser tão fácil! Já estava a imaginar a tua alegria quando eu voltasse a casa com o verbo saber e o verbo ganhar, um em cada mão!
Dói-me muito o peito, Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
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Mãe!
Já não volto à cidade sem ir contigo! para a cidade ser bonita. Irmos os dois juntos de braço-dado, e andarmos assim a passear; para ver como tudo está posto na cidade por causa de ti e de mim e por causa dos outros que andam de braço-dado.
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Mãe! dize essa metade que tu sabes do que é necessário saber, dize essa metade que tu sabes tão bem! para eu pensar na outra metade..
Se não houvesse senão homens e saltimbancos eu ia buscar a outra metade, mas os saltimbancos estão vestidos como os homens, e os homens estão vestidos como os saltimbancos, ambos estão vestidos de uma só maneira, não sei quais são os homens nem os saltimbancos, eles também não o sabem, - não há senão losangos de arlequim!
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Mãe!
Quando eu vinha para casa a multidão ia na outra direcção. Tive de me fazer ainda mais pequeno e escorregadio, para não ir na onda.
Perguntei para onde iam tão unidos, assim, com tanto balanço. Responderam-me: Para diante! para a frente!
Iam para diante! iam para a frente!
Fiquei a pensar na multidão.
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O meu anjo de guarda disse-me: Pronto! A multidão já passou, levou um quarto de hora a passar. A multidão não é senão aquilo que levou um quarto de hora a passar. Pronto! Já está vista! anda daí!
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O meu anjo da guarda está sempre a dizer-me: De que estás à espera? Vá, anda! Começa já! Começa já a cuidar da tua presença!
Não sei o que o meu anjo da guarda quer que eu adivinhe em tais palavras.
Outras vezes, o meu anjo da guarda pede-me que seja eu o anjo da guarda dele.
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Mãe!
Hoje acordei todo virado para diante. Assim, como tu compreendes, Mãe!
Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas como ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.
Fiz todas as horas do sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de acordo com o sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por hoje. Depois veio o sono. E o sono chegou a horas. Antes do sono ainda houve uma imagem - um leão a dormir!
Na verdade, não há sono mais bem ganho do que o de um leão a dormir com restos de sangue ainda no focinho, como os leões de pedra que há nas escadarias por onde se sobe depois da batalha!
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José de Almada Negreiros In " Poesia - Obras Completas Vol. 4",
Editorial Estampa, Lisboa, 1971, pp 167-168.
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16/09/09
" Fear in my mind # 7" (2008) foto de Jong Seong Park, Coreia.Ora até que enfim... perfeitamente...
cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.
Meu coração estoirou como uma bomba de pataco.
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...
Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
e, como cuspo atirado ao vento,
me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
e me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários -
também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida.
Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos In "Poesias - Obras Completas de
Fernando Pessoa, Vol. II", Edições Ática, Lisboa, 1980, pp 116 - 117.
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14/09/09
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. Esquecidos os nomes é a ti que me dirijo.
Em busca de uma memória onde enxertar
estes ramos, estas promessas por cumprir.
Vêm de um tempo em que o trovão, as leis
e a vida não ser isso se chocavam contra a
descrença e o areal escaldante. Não é
longínquo nem próximo esse tempo -
suspenso, misturam-se nele as vozes que
amo e me trazem até aqui, a este lugar
onde as imagens sobrepostas se vão
desfazendo e se vê, sobre o mar que fica,
como tudo foi roubado cedo e o naufrágio
era congénito.
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Silvina Rodrigues Lopes In "Sobretudo as vozes",
Edições Vendaval, s/c, 2004, pp 65-66.
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. Aquém do canto, o desconhecido regressou.
Chama-me lá do alto e as sílabas do meu nome
elevam-se para cair. Com a força da água, da
ausência. Ouço e escavo as palavras até serem
casas. Pelas janelas, ao longe, as chagas da
impaciência e dos dias escuros. Nada que perturbe
as falhas, o seu aprofundar-se, o equilíbrio da
rocha que absorve o tremor da gaivota.
Silvina Rodrigues Lopes In "Sobretudo as vozes",
Edições Vendaval, s/c, 2004, p 13.
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. Aquém do canto, o desconhecido regressou.
Chama-me lá do alto e as sílabas do meu nome
elevam-se para cair. Com a força da água, da
ausência. Ouço e escavo as palavras até serem
casas. Pelas janelas, ao longe, as chagas da
impaciência e dos dias escuros. Nada que perturbe
as falhas, o seu aprofundar-se, o equilíbrio da
rocha que absorve o tremor da gaivota.
Silvina Rodrigues Lopes In "Sobretudo as vozes",
Edições Vendaval, s/c, 2004, p 13.
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12/09/09
"Segunda Variação Sobre o Sublime"
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Temos sublime de tipo A e sublime de tipo B.
Qual deseja? - Não tem de tipo C?
Não, desse não temos. - Então dê-me
um de tipo A e outro de tipo B. Posso misturá-los?
Não é muito conveniente. - Porquê?
Porque o de tipo A, apesar de ser constituído
por substâncias amigas do de tipo B, pode,
se misturado com este, desencadear reacções adversas.
- Quais? Bem, temos conhecimento
de alguma perfídia, rancor... Por vezes
a afeição dissimulada entre ambos resulta
numa maledicência caluniosa nunca assumida.
O que dantes era genial transforma-se em bestial,
como um amor que se dissolve em ódios
de trazer a tiracolo à hora do tiro aos pratos.
Convém também esclarecer que a mistura
de sublime de tipo A com o de tipo B
pode acarretar consequências embaraçosas
para o consumidor, como sejam as de em honra
do silêncio perder-se a honra pela palavra.
Sabe como é, tudo bem quando acaba bem,
tudo mal quando nasce torto. O melhor será
manter ambos dentro de frascos hermáticos,
separados por alguns metros, à distância
de mortais quebrantos, que isto de se zangarem
comadres, ao contrário do apregoado,
nunca traz as verdades. As verdades são
sempre as de cada qual como convém a cada um.
E entre sublimes, como sabeis, não há verdades.
Só há conveniências e oportunidades,
questões de agenda e de tabela periódica.
Sabe como é. - Sei, sei. E noto que percebe
muito de sublimes. Sendo assim, o melhor será
não levar nenhum e mantê-los na prateleira.
Não tendo o de tipo C, procurarei noutro lado.
Lamento informá-lo de que está esgotado.
- Não importa. Prefiro continuar a procurar
a desenrascar-me com o que não presta.
É como diz o povo: o barato sai caro. Lá isso é.
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Henrique Fialho In " Big Ode # 7 - Sublime ", 2009, p 9.
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11/09/09
"em cima da cama da tua pele./ sublime brilho."
II ( sexo)
exacta é a medida entre as tuas pernas e a tua boca.
calor onde nenhum amor se vem.
confundir-me no cobertor da dimensão do teu cheiro.
do teu gosto a febre
onde levantas a caixa de fósforos vazia.
em cima da cama da tua pele.
sublime brilho.
Maria Quintans In "Big Ode # 7 - Sublime ", 2009, p 75.
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"Poema em Azul"
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As expectativas são azuis
como o horizonte depois de cada colina.
Têm cor intensa,
existe um dia na sua origem.
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Não são a compensação da noite,
quando nada mais é possível.
Partilham o fundo da provação,
a altura da vertigem.
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Dizem que estamos na penumbra,
ausentes de nós, privados de tudo;
mas, se a claridade não é verdadeira,
por que os nossos sonhos são azuis?
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Joel Henriques In "Revista de Poesia Saudade Nº 11", 2009, p 38.
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10/09/09
"à medida que lês/ estas palavras adquirem/ existência..."
.jpg)
" Nude # 6 " foto de Maurice Pitre, Quebec - Canadá (2005).
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diseuse? é para ti que falo.
imagino-te como uma voz
feminina, macia e doce,
impregnada do mistério das
mães. à medida que lês,
estas palavras adquirem
existência e depois voltam-se
a calar. fico envergonhado:
sei que não consigo estar
à tua altura. há também
a tua boca, diseuse: pinto-a
como uma ave a pôr asas
em tudo o que toca.
é neste momento que deves dar
a entender que caí nestas folhas
à procura de não sei quê
e que depois me debato,
neste lado, para estar ao pé
de ti, como um dos melhores
amigos da alegria. quando
estiveres a ler o texto seguinte
ficarei sentado, numa das mesas
defronte, a ouvir-te,
entretendo nas mãos uma
pequena chávena de café.
é preciso dar lugar à vida.
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Rui Tinoco In "Big Ode # 7 - Sublime ", 2009, p 95.
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09/09/09
"regresso/ aqui à procura de palavras/ desconformes."
"Feast " (Alemanha, 2006), foto de David Lykes Keenan (Austin, Texas)quando termino um verso
fico imediatamente sentado
na cadeira do leitor... por favor,
arranjem-me um lugar...
obrigado. ponho-me à-vontade.
sigo com interesse
várias histórias na grande
televisão da vida. regresso
aqui à procura de palavras
desconformes. fosse possível
corrigir assim as existências.
Rui Tinoco In "Revista Big Ode # 7 Sublime", 2009.
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08/09/09
"e disputam a amizade como um jovem lobo que aprende/ a caçar"
" amigos de longa data do dia que não acaba"quero os amigos que tenho na cabeça
os que tenho em mente nunca conhecer pessoalmente
e não vão ter defeitos os meus amigos de nunca
mais
os meus amigos são Simão que vende seguros e por isso
usa óculos só para os poder partir
são Jaime que tem um snack-bar que dá prejuízo
são Abu que é indiano e que está na minha cabeça só
para provar que sou multicultural e tirando isso o
Abu cala-se o Abu canha-se
e são eles aqueles que eu gostava de levar para a cova
para os apresentar à Nossa Senhora
e são eles aqueles com quem jogo cartas sem me
preocupar com a morada certa
e desabafo com eles como quem tem falta de ar
e converso com eles nos intervalos das discussões
que o resto do tempo fica para discutir quem é mais
meu amigo
amigo meu mais
meu mais amigo
e fazem concursos para ver quem me lava melhor os
pés
quem me coça melhor as costas
quem me dá o abraço mais apertado e sexual sem
chegar ao ponto do desconforto de ter vontade de o
beijar
e tenho tantas saudades deles
inventei as saudades que lhes tinha e pedi que chorassem
muito
e eles choraram o dobro de muito que é para cima de
um lago onde vamos nadar os quatro
o choro deles quando se juntam é do tamanho
da água de que precisa o veleiro de onde partimos à
aventura
e ao partir a aventura dividi-a pelos três
e agora estão ciumentos porque não dá conta certa
e disputam a amizade como um jovem lobo que aprende
a caçar
e eu dou-me todo por não ter a quem mais dar
e converso-lhes as palavras todas porque eles não
existem
e digo-me os elogios todos porque eles não me podem
ver
e canto-me as canções mais doces porque voz não
sabeis
não sabes
não estás cá
não estão cá
antes estivessem
se cá estivessem era melhor
não estando tenho de me contentar com os homens e
mulheres que estão ao meu lado e que eu não inventei
e cada vez tenho mais saudades deles
procuro alguém parecido mas não encontro
e quando encontro não gosto porque me apaixono pelas
pessoas que são o contrário do que a minha imaginação
prefere
e o Jaime o Simão e o Abu levaram a mal e foram
passar férias para acabeça de outra pessoa e nem um
recado deixaram
e se calhar não voltam
e se calhar não quero
e a cabeça já não tem inquilinos
e os que há estão à minha volta
mesmo à minha volta
mesmo de verdade
com caras que não me são familiares e personalidades
defeituosas que eu julgo como quem beija
a cabeça levo-a leve mas o coração bate mais forte
mais pesado
pudera tem gente lá dentro
João Negreiros In "Luto Lento", Ed. Projecto Literatura em Movimento,
(http://www.oletras.com/), s/c, 2008, pp 57 - 59.
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06/09/09
"O/ desprendimento é o único/ elo."
.jpg)
De que vale tudo recordar,
se nada sei esquecer? O
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desprendimento é o único
elo. Deixar o rio seguir
.
o seu curso e todo o fluxo
que depois vier sempre será
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água nova. Essa vela fugaz
enquanto acesa e perene
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quando apagada. Levar para
dentro do desejo, a árvore
.
e sua colheita. Levar para
dentro da árvore, como uma
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vela num quarto, o desejo aceito.
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Maria Carpi In "Desiderium Desideravi", Ed. Movimento,
Porto Alegre, 1991, p 70.
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05/09/09
"Posso, minúscula, adormecer/ na ventania."
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Posso, minúscula, adormecer
na ventania. Posso, rala,
serenar-me os rios. Porém,
.
quando o abandono em mim
pede trégua e a tua saliva
busca meu germe, ainda
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sou desordem, ainda engendro
distâncias. Não sei acolher-te
da errância. A não me isolar
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entre pedras, a não me secar
entre gráficos ou jazer cinza entre
cinzas, a não revirar os olhos,
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clausuro-me em teu andamento.
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Maria Carpi In "A força de não ter força", Escrituras Editora,
São Paulo, 2003, p 51.
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