19/11/09

"A Musa atormenta-se no impasse, instiga..."

.
.
"Musas ( De Boecklin)"

I

Desce, crispa-se, rasga e conspurca, escorraça, perscruta,
Enraíza o pensar
(Encapelada, balbuciante, eclesiástica),
O sussurrar, o sossego da Musa aos pés do auctor, em fria laje, a arquejar,
Deixa-o à solidão, ao Beato.
(A proclamação ao Bem
É a cura do desatino.) Expira
A suprimir o aniquilamento do que o inspira.
Em tudo o que se escreve falta "o mais além".
A Musa com fuligem, o rosto de abcessos, obsessões,
No véu que não sendo de tule é de frieza.
Musa, as Musas,
Em cada injúria acena com a morte no
Mundo, o modelo eterno da atracção que acolhe as sete lágrimas
Na piedade ou na comiseração para vaguear
Entre os arbustos empoerados do
Jardim fechado em nuvens aparadas.
A Musa Conventual devassa o Pavilhão de Caça, seria melhor dizer,
Sodomita, deslumbrada pela "impunidade de outros".
Chagas emplumadas no nicho em que o penduraram escanzelado,
Não escapa à cobiça,
Não lhe convém, o Beato evoca a Moral ritmada.

II

Nas grinaldas versificadas
Busque-se mais enfeites de gesso, florzita.

A Musa atormenta-se no impasse, instiga, deixa-o ao acaso da indolência para que desvairado, a
ciciar, se mantenha sob influência. Noutra escala, gesto inofensivo, haverá elos de Consolação (de
Boécio) e de outras afinidades morais do
Problema. As variantes desregradas do praguejador de chifres atordoado pela irresolução.
A Musa melancólica persuade. Persuade? (A Crítica reluz a submeter o poeta que não persuade.)
A Musa no crepúsculo, empunha um ceptro empenado.
(As alusões a este assunto devem explicar o nome inspirador.)
E a Crítica ofensora ( a Musa, as Musas a farejar o gomil de belos ditos).
E o auctor desagradado, cuspinhando, tossindo,
"Tão vãmente", exausto, em certo sentido envolve-se
Na folia para fabular.

José Emílio-Nelson In "Bibliotheca Scatologica", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, pp 14 - 15.
.
.
.

18/11/09

.
.
                 " Conversa fiada "


Eu gosto de fazer poemas de um único verso.
Até mesmo de uma única palavra
Como quando escrevo o teu nome no meio da página
E fico pensando mais ou menos em ti
Porque penso, também, em tantas coisas... em ninhos
Não sei por que vazios em meio de uma estrada
Deserta...
Penso em súbitos cometas anunciadores de um Mundo Novo
E - imagina! -
Penso em meus primeiros exercícios de álgebra,
Eu que tanto, tanto os odiava...
Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores, flores, amores,
Nos olhos-flores das menininhas - isso mesmo! O mundo
Era um livro de figuras
Oh! os meus paladinos, as minhas princesas prisioneiras em suas altas torres,
Os meus dragões
Horrendos
Mas tão coloridos...
E - já então - o trovoar dos versos de Camões:
"Que o menor mal de todos seja a morte!"
Ah, prometo àqueles meus professoreas desiludidos que na próxima vida eu vou ser um grande matemático
Porque a matemática é o único pensamento sem dor...
Prometo, prometo, sim... Estou mentindo? Estou!
Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo...

Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, pp 62 - 63.
.
.
.

17/11/09

.
.
Voltámos para a barca. Soprava um vento singularmente frio. Sentado junto a mim, Lúcio puxava com os dedos delgados as mantas de algodão bordado; por delicadeza, continuávamos, animadamente, a trocar impressões acerca dos negócios e escândalos de Roma. Antínoo, deitado no fundo da barca, encostara a cabeça aos meus joelhos; fingia dormir para se isolar daquela conversação que lhe não dizia respeito. A minha mão deslizou na sua nuca, sob os cabelos. Nos momentos mais vãos ou mais ternos, eu tinha assim o sentimento de ficar em contacto com os grandes objectos naturais, a densidade das florestas, o dorso musculado das panteras, a pulsação regular das fontes. Mas nenhuma carícia chega à alma. O sol brilhava quando chegámos a Serapeu; os mercadores de melancias apregoavam a sua mercadoria pelas ruas. Dormi até a hora da sessão do conselho local, a que assisti. Soube mais tarde que Antínoo aproveitara aquela ausência para persuadir Chábrias a acompanhá-lo a Canopo. E voltou a casa da feiticeita.
No primeiro dia do mês de Athyr, no segundo ano da Olimpíada duzentos e vinte e seis... É o aniversário da morte de Osiris, deus das agonias: em todas as aldeias ao longo do rio ressoavam desde há três dias agudas lamentações. Os meus hóspedes romanos, menos acostumados que eu aos mistérios do Oriente, mostravam uma certa curiosidade por aquelas cerimónias de uma raça diferente. A mim, pelo contrário, irritavam-me. Tinha mandado amarrar a minha barca a alguma distância das outras, longe de qualquer lugar habitado: todavia, nas proximidades da margem erguia-se um templo faraónico meio abandonado; tinha ainda o seu colégio de padres; não escapei inteiramente ao ruído das lamentações.
Na noite precedente Lúcio convidou-me para cear na sua barca. Dirigi-me para lá ao Sol-pôr. Antínoo recusou-se a acompanhar-me. Deixei-o sozinho na minha cabina de popa, estendido sobre a sua pele de leão, entretido a jogar aos ossinhos com Chábrias. Meia hora mais tarde, já noite fechada, ele reconsiderou e mandou buscar uma canoa. Ajudado por um só barqueiro, percorreeu, em contracorrente, a distância bastante longa que nos seprava das outras barcas. A sua entrada na tenda onde se realizava a ceia interrompeu os aplausos provocados pelas contorsões de uma dançarina. Tinha vestido um longo trajo sírio, fino como a pele de um fruto, todo semeado de flores e de Quimeras. Para remar mais à vontade despira a manga direita: o suor tremia sobre o seu peito liso. Lúcio atirou-lhe uma grinalda, que ele apanhou no ar; a sua alegria quase estridente não se desmentiu um só instante, mantida apenas por uma taça de vinho grego. Regressámos juntos na minha canoa de seis remadores, acompanhados por um alto "Boa noite!" mordaz de Lúcio. A alegria selvagem persistiu. Mas de manhã aconteceu-me tocar, por acaso, num rosto coberto de lágrimas. Perguntei-lhe com impaciência a razão daquele choro; respondeu-me humildemente desculpando-se com a fadiga. Aceitei a mentira; tornei a adormecer. A sua verdadeira agonia passou-se naquele leito, a meu lado.
O correio de Roma acabava de chegar; o dia passou-se a ler e a responder ao que lia. Como de costume, Antínoo ia e vinha, silenciosamente, na sala: não sei em que momento aquele belo lebréu saiu da minha vida. Pela décima segunda hora, Chábrias entrou, agitado. Contrariamente a todas as regras, o jovem havia saído da barca sem explicar o fim e a duração da sua ausência: tinham passado pelo menos duas horas depois da sua partida. Chábrias lembrava-se de estranhas frases pronunciadas na véspera, de uma recomendação feita naquela mesma manhã e que me dizia respeito. Comunicou-me os seus receios. Descemos apressadamente para a margem. Instintivamente, o velho pedagogo dirigiu-se para uma capela situada à beira rio, pequeno edifício isolado que fazia parte das dependências do templo e que Antínoo e ele tinham visitado juntos. Sobre uma mesa de oferendas estavam as cinzas de um sacrifício ainda mornas. Chábrias meteu os dedos e retirou, quase intacto, um anel de cabelos cortados.
Não havia nada mais a fazer senão explorar a margem. Uma série de reservatórios que deviam ter servido outrora para cerimónias sagradas comunicava com uma enseada do rio: à claridade do crepúsculo, que descia rapidamente, Chábrias avistou na borda do último tanque uma veste dobrada e sandálias. Desci os degraus escorregadios: Antínoo estava deitado no fundo, já mergulhado no lodo do rio. Com a ajuda de Chábrias, consegui levantar o corpo, que pesava, subitamente, como pedra. Chábrias chamou os barqueiros, que improvisaram uma maca de pano. Hermógenes, chamado à pressa, só pôde verificar a morte. Aquele corpo tão dócil recusava deixar-se reaquecer, reviver. Transportámo-lo para bordo. Tudo se desmoronava; tudo pareceu extinguir-se. O Zeus Olímpico, o Senhor de tudo, o Salvador do Mundo aluíram e ficou só um homem de cabelos grisalhos soluçando na ponte de uma barca.
.
.
Marguerite Yourcenar In "Memórias de Adriano", Editora Ulisseia, Lisboa,
2000, pp 164 - 166 (Tradução de Maria Lamas).
.
.

16/11/09

.
.
" O pobre poema"


Eu escrevi um poema horrível!
É claro que ele queria dizer alguma coisa...
Mas o quê?
Estaria engasgado?
Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura
mansa como a que se vê nos olhos de uma criança
doente, uma precoce, incompreensível gravidade
de quem, sem ler os jornais,
soubesse dos sequestros
dos que morrem sem culpa
dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados...
Poema, menininho condenado,
bem se via que ele não era deste mundo
nem para este mundo...
Tomado, então, de um ódio insensato,
esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável
verdade, dilacerei-o em mil pedaços.
E respirei...
Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, p 37.
.
.
.

15/11/09

"Em torno da poesia de Pompeu Miguel Martins: breves considerações para uma leitura possível" por: Victor Oliveira Mateus.

.
.
Longe de uma linearidade que a si se joga no encalço de um rigor de cariz científico, ao invés de uma positividade que se arvora em meta de certezas inquestionáveis, assumimos antes, neste nosso falar de poesia, intentos bem mais modestos, porque limpos da presunção das palavras que tudo explicam. Discorrer sobre poesia, ou, como é este o caso, sobre uma poética em concreto, é, para nós, sobretudo tomar consciência da incapacidade da Razão em iluminar plenamente um Discurso que pretendemos do essencial.
Salvaguardados os procedimentos de tipo metodológico, que chamam a atenção para a incompletude e para a revisibilidade deste nosso texto, sentimo-nos à-vontade para avançar dizendo que esta obra de Pompeu Miguel Partins nos aparece, numa primeira abordagem, como um cismar em torno da noção de enraizamento. A forma apurada como aqui se articula o quotidiano com a procura e desvelamento das raízes parece-nos perpassar ao longo de todo o livro: as raízes do eu-poético ("A secretária", p 56); do eu existencial ( "O velho prédio", p 18; "A esplanada", p 21) - convém enfatizar que a procura de autenticidade do poeta é tal que, muitas vezes, leva a que se esbata o hiato entre o eu-poético e o eu existencial - ; as raízes do Homem enquanto espécie e Universal ("Os resistentes", p 42; "A montanha", p 77); as raízes de certos conceitos pertencentes à tradição filosófica ( de Liberdade In "Voo nascente", p 34, "Os cavalos" p 74... de Temporalidade In "O Tempo", p 70, etc.)... É também uma constante na poesia de Pompeu Miguel Martins a deambulação em torno de um outro enraizamento: o da própria vida, não de uma vida abstracta produto do raciocínio e/ou da imaginação, mas de uma vida concreta, entendida sempre como viagem, com os seus barcos, os seus cais, as suas gares. Esquadrinhando este mistério que é a errância do humano, o poeta não abdica da consciência de que ela é essencialmente efemeridade, por isso vemo-lo muitas vezes desembocando na nostalgia ("Quantos abraços couberam/ nas incontidas gargalhadas/ dos que amámos?", In "A mesa de jantar", p 63) e no desalento (" Demoram-se aí as árvores que não tive/ e os barcos onde nunca parti." In "A varanda", p 58), mas, e apesar de tanta perplexidade, a poesia de Pompeu Miguel Martins não é uma poesia do fracasso, que paulatinamente conduza à desistência. Não! Integrando todas as vicissitudes o eu-poético acaba sempre por se reerguer retomando esse caminho que sabe ser o seu ("Mas traziam os dias claros/ de cada vez que regressavam,/ não do verão, mas do sofrimento." In "Os resistentes" p 42), também, e segundo a linha de leitura que aqui propomos, o poema do final do livro (" A última flor", p 79) aparece-nos como o corolário de um itinerário poético: apela-se aí a um desejo de tranquilidade, de acalmação, frente ao efémero da vida, onde o Homem vai morrendo ante "uma última flor", que mesmo podendo não existir, eventualmente, na realidade objectiva, existirá seguramente no coração dele, para que, a partir daí, a vida possa ser justificada ("de um cais para a felicidade/ interiormente contada ao cansaço do olhar,/ao seu resguardo, ao ter valido a pena." In "A casa nova", p 17). E é em consonância com tudo isto que o penúltimo poema da obra ( "Os peixes", p 78) nos virá falar de "rota", "verso" e "missão". Por conseguinte, se anteriormente o poeta, ao reerguer-se quando regressa do sofrimento, se afasta de um cepticismo radical, agora ao defender uma missão, um compromisso com a vida concreta, ele escapa também à urdidura do idealismo, que, devido à tónica sempre colocada no coração, poder-se-ia apresentar como fundamento desta poética. Vemos, pois, que deste périplo iniciado por uma desocultação de um plurifacetado enraizamento, e esboçando o que na vida é essencial, o eu-poético apela a um compromisso: mesmo quando procura de um abrigo (" As chuvas", p 75) ele não pretende aí sufocar a sua derrota, mas antes temperar forças para se recuperar e poder continuar a sua viagem, quanto mais não seja porque "No chão espelha-se o céu." ("As chuvas, p 75).
Inúmeras são as conexões desta poesia com as preocupações fundamentais de muitos pensadores do século XX: "Le déracinement est de loin la plus dangereuse maladie des sociétés humaines, car il se multiplie lui-même. Des êtres vraiment déracinés n'ont guére que deux comportements possibles: ou ils tombent dans une inertie de l'âme presque equivalent à la mort (...) ou ils se jettent dans une activité tendant toujours à déraciner (...), ceux qui ne le sont pas encore..." (1). Este excerto de Simone Weil ilustra a leitura de Pompeu Miguel Martins que temos vindo a propor, seria mesmo interessante trabalhar a noção e o estatuto dinâmico que ambos os autores atribuem à dimensão do "passado" (2). Também esta filósofa receia a inércia da alma proveniente de todo o tipo de desenraizamento, também ela apela a uma militância que vise contrariar todo o tipo de inautenticidade e alienação. Urge, para estes escritores, um não afastamento do essencial, facto que o poeta afirma até com uma certa frontalidade: "Tudo desaparece em gestos simples/ e é da simplicidade que vivemos, (In "Quintal", p 28).
Ajustam-se os processos de metaforização e de apreensão do real utilizados por Pompeu Miguel Martins ao modo como ele dispõe as suas imagens do quotidiano: as suas representações, quer sejam urbanas, quer rurais, só num primeiro momento se destinam à sensibilidade e à imaginação do leitor, já que, quanto a nós, elas visam acima de tudo uma abrangente inquirição sobre o ser de tudo aquilo que é ( cf. poemas como: "O nome", p 37; "Deus", p 43; "A secretária", p 56). Longe de nos intrometermos nos debates em torno da validade das emoções no processo cognitivo (3), diremos tão só que para o poeta compete ao coração a validação de todo o saber que se pretenda fiável e susceptível de ser comunicado ( "pela clareza das emoções" In "As ruas", p 19; "e que o teu coração/ conhece tão bem" In " O homem", p 44; "as praças que se abrem ao coração" In "O quadro", p 50) e se a esse atributo do humano estivermos desatentos corremos o risco de não sermos nós próprios, de estarmos desenraizados, de sermos outros para sempre (" sobre o coração longínquo/ dos que foram outros/ para sempre." In "O chá", p 62). De acordo com Maria Zambrano o coração " é o lugar onde se albergam os sentimentos indecifráveis, que saltam por cima dos juízos e daquilo que pode ser explicado (...) tem um fundo de onde saem as grandes resoluções, as grandes verdades que são certezas." (4). Pela senda do coração saímos desta nossa - tão falível - proposta de leitura, de uma poesia que se nos oferece simultaneamente rica e eloquente, sem que isso colida com a nítida e cristalina arte como nas páginas o poeta vai incrustando os seus versos; é exactamente por essa senda que Pompeu Miguel Martins edificou todo um projecto que fez seu e que, sem alarde, nos revela como oferenda para o olhar e para o entendimento, já que só pelas raízes daquilo que é o poeta pode, através das suas imagens do quotidiano, cumprir essa missão de nos oferecer uma última flor, flor que mais não é do que esta poesia que ousa ainda falar aos homens que não possuem um coração longínquo.
.
.
(1) Simone Weil, L'enracinement, Éditions Gallimard, Paris, p 66.
(2) Simone Weil, op. cit., p 71.
(3) Cf. Daniel Goleman, Emotional Intelligence, Bentam Books, New York, 1995 e Martha Nussbaum, Upheavals of Thought: The Inteligence of Emotions, Cambridge University Press, New York, 2001.
(4) Maria Zambrano, A Metáfora do Coração e outros escritos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993, p 22.
.
.
Victor Oliveira Mateus In "DO INTANGÍVEL/ de l'intangible" de Pompeu Miguel Martins (edição bilingue), Editora Labirinto, Fafe, 2008, pp 5 - 8 (tradução do português para francês de Victor Oliveira Mateus com revisão de Sandra Tomás e Liliana Sousa e Silva).
.
.
.

14/11/09

"Não me arrependo de nada querer lembrar."

.
.
"Cynthia e outros vôos sem mim dentro - Poema 1 "

Sinto-me do avesso. Pós ou pré agonia, não sei. Malcriado comigo mesmo, penitente ou déspota. Oco, sem profundidade, sem amarras. Elos distendidos, a sensação de sentimentos frouxos, lassos. Creio mesmo que ninguém já sente nada por mim, me olvida depressa, se distancia no espaço e no tempo e arrefece progressivamente, num esvair de afecto e de memória. Alguém, com o seu peso solene e duradouro, partiu, de comboio, de avião, de coração. Dissipou ou cerrou a minha imagem de seus olhos, de vez, sem regresso. Na sua bagagem todas as despedidas, implicitamente nos lábios um nunca mais. Assim, disponível, como quem vai ao encontro de remotos ou de novos ardores. E eu, no interior do meu avesso, em pós ou pré agonia que não sei, aqui ficado em nenhuma gare ou tórax, desmaio, nulo e indiferente, com um apagado cigarro entre os dedos e um desdém íntimo que cresce. Que importa se um cão ladra por ladrar, se a mãe solitária suspira, se a televisão transmite um telefilme piegas, se a ausência de um amigo ensurdece o telefone? Aceito a minha abulia, a minha pusilanimidade, a falta de transparência desta opacidade. Estou, não viajo, fico, não me excedo. Tudo o que me era lícito e caro, se move, transmigra, evade. Tudo livre, à solta, vário, menos eu. Pedra imutável na sombra, sempiterna e rígida, de crosta inacessível, muda e desemocionada. Eu, com todo o auto-desprezo e o desprezo dos outros. Só, alheio ao sofrimento, como um crustáceo num aquário de cervejaria. Se pudesse, desistia ainda mais, sem remorsos, sem simpatia. Confortavelmente, reunia-me, num nódulo, num novelo, fofo, e flutuava, quase imóvel, ao deus dará. Que o dia se torne noite, que apaguem a luz se houver, que chova ou venha calor, a quem interessa? Não me incomodem, nem me incomodo. A morte, de súbito? Não me façam rir. Estou-me nas tintas, não desperdiço adeuses vãos. Quem os queria? Tu, eu? Não me arrependo de nada querer lembrar. Estou abandonado, ponto final.
Alguém partiu com a alegria de me esquecer, sem olhar ou falar para trás e eu estava lá, nesse atrás. Boa viagem, ignora até o meu nome, para sempre, não existi. Sinto-me do avesso. O eu é, era quem?
.
Dórdio Guimarães In "Cynthia em viagem", Editora Tertúlia, Sintra, 1992, pp 23 - 24.
.
.
.

13/11/09

.
.
XXXV


dois homens brincavam como se fossem crianças . O primeiro
fazia castelos na areia, o segundo fazia castelos no ar. O primeiro
dizia: a areia é o material do meu jogo , e sujava-se plantando
os dedos como retroescavadoras, enquanto fazia "vruum-vrrum".
O segundo olhava o ar e dizia: o silêncio é o material do meu
jogo, enquanto inspirava carregando-se da mesma brisa com
que enchia as altas torres.
Cada um era uma criança à sua maneira. Ambos foram constru-
indo incríveis castelos com princesas e dragões lá dentro.
O primeiro homem quis entrar no castelo de areia, mas não podia,
por ser muito grande e pesado, e se o fizesse, ao primeiro passo
que desse, acabaria por o esmagar, já que era , na verdade , um
enorme gigante . O segundo homem queria entrar no castelo
imaginado suspenso no ar, bem por cima das nuvens , mas como
era muito pequenino - como o polegarzinho - não conseguia chegar
sequer à fechadura do portão de entrada.
Os dois adultos decidiram, então, brincar ainda mais , e , por isso,
resolveram construir juntos um castelo , só que agora feito com
uma metade de ar e outra de areia . No fim , o castelo era do
tamanho preciso e correcto e , desta forma , puderam realmente
brincar, ao entrarem para salvar a princesa , com espadas de
fogo e unicórnios voadores, mas isso já é outra história.

Carlos Vaz In "o estrangulador de bonecos de neve", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, pp 49-50.
.
.
.

"Aqui digo o teu nome, fio de água..."

.
.
"Distante Sul"


Tão longe os dias claros de cegonhas e loendros, o horizonte
inteiro e raso onde nada - dir-se-ia - está inscrito . E entre
fomes, sementeiras e colheitas, o sol desfraldando as estações.
Aqui o vento fere , traz outonos magoados . Aqui digo o teu
nome, fio de água - remoçando a planície da memória.

João Pedro Mésseder In "Meridionais", Deriva Editores, Porto, 2007, p 64.
.
.
.

11/11/09

"Desde que as nuvens caíram no chão, as pessoas deixaram de lhes procurar os rostos..."




Fotos da apresentação do livro " o
estrangulador de bonecos de neve"
da autoria de Carlos Vaz.
.
.
XXII

um dia todas as nuvens caíram como rochas no chão . Em
vez de voar leves e silenciosas, faziam agora um ruído atroz
ao arrastarem-se pelos caminhos e roçarem nas casas,
parecendo enormes caracóis por largarem, atrás de si, uma
longa baba líquida.
Desde que as nuvens caíram no chão, as pessoas deixaram
de lhes procurar os rostos e as formas, afastando-se delas
por parecerem repugnantes, envoltas na agonia por terem
perdido a licença de voar. Assim passaram de coisas belas
e límpidas, a coisas atrozes, sujas pelo lixo do chão , envoltas
numa papa corporal, fazendo lembrar, em vez de castelos
translúcidos a pairar no ar, enormes aglomerados de lama e
rochas cinzentas.
Com o tempo , entre os humanos inventaram-se novas
profissões como, por exemplo, os pedreiros de nuvens, que
retiravam os minérios líquidos do seu interior; os limpadores
de nuvens, etc. Graças a estas e muitas outras profissões
inventadas, as nuvens foram instantaneamente consumidas,
até que desapareceram para sempre. Depois, foi a vez dos
pássaros caírem como rochas no chão.

Carlos Vaz In "o estrangulador de bonecos de neve", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 35.
.
.
.

09/11/09



"Una casa pintada de blanco con el horizonte al fondo"


La casa abierta a la amplitud del blanco. La casa
donde cada noche se descierran las ventanas
con sus huellas de amargura, sus umbrales
divididos entre el resplandor del desierto y la brisa
siempre dócil del Mediterraneo. La casa
rodada de calles estrechas. De callejones. Pero también

de puertas abiertas a las retorcidas formas
de los olivos, a las flores de los almendros
en pleno estio y hasta a las manos límpidas
de los vecinos, si a ellas vienen inundados de pájaros
o de madrugadas - por fin tan posibles. Una casa
indivisa, una, con sus patios de vides,

sus tejados repletos de cielo en la circular migración
de las garzas. En fin, una casa toda de blanco pintada
mas allá de los precipícios y la tierra calcinada. Espacio
oliendo a vida, donde un nuevo lenguaje se inscriba
con caracteres de luz en el pacificado corazon de los hombres.

Victor Oliveira Mateus In "Versos para derribar muros - Antologia poética por Palestina"
(Edición y prólogo: Ana Patricia Santaella e Inmaculada Calderón), Los Libros de Umsaloua,
Sevilla, 2009, p 222 (Tradução para o castelhano de Sónia Serrano).
.
.
Versão Portuguesa:
.
"Uma casa pintada de branco com o horizonte ao fundo"

A casa aberta à vastidão do branco. A casa
onde à noite as janelas se descobrem
com suas pegadas de mágoa, suas soleiras
divididas entre o clarão do deserto e a brisa
sempre mansa do Mediterrâneo. A casa
cercada de ruas estreitas. De becos. Mas também

de portas escancaradas para as formas retorcidas
das oliveiras, para as flores das amendoeiras
em pleno estio e até para as mãos límpidas
dos vizinhos, se a elas vierem inundados de pássaros
ou de madrugadas - afinal tão possíveis. Uma casa
indivisa, una, com seus quintais de videiras,

seus telhados cheios de céu na circular migração
das garças. Enfim, uma casa toda de branco pintada
para além dos precipícios e da terra calcinada. Espaço
cheirando a vida, onde uma nova linguagem se inscreva
com caracteres de luz no pacificado coração dos homens.

Victor Oliveira Mateus (obra citada acima, pp 148 - 149)
.
.
.

"Vivenda"

Na tarde, o calceteiro bate no granito.
Na noite, o mocho pia no silêncio.
E além destes ruídos, a água
escorre na bica do velho tanque.

Nos meus ouvidos, a minha vida
reparte-se entre outrora e tudo isto.
Entre um ouvido e outro, o centro
dos sons revive, porém não tenho
de reconhecer o que já vi ou vejo,
nem o que abandono. Sou livre
para a traição e o esquecimento
quando aqui estou.

Fiama Hasse Pais Brandão In "Cenas Vivas", Relógio D' Água Editores,
Lisboa, 2000, p 78.
.
.
.

08/11/09

"e olha por momentos o horizonte"

.
.
"No barco para Égina"

Sentada junto à proa
Alexandre o Grande
de Nikos Kazantzakis

Depois coloca o marcador
entre as folhas do livro
bebe um gole de água
e olha por momentos o horizonte
onde agora se não vê nenhuma ilha
e apenas um barco e outro barco
inscrevem no mar dois sulcos brancos

É então que ela abre o pequeno caderno
e hesitando entre o horizonte e a página
anota um, dois versos, nada mais -

pois não há olhos azuis que não invejem
o azul centrípeto da hora

João Pedro Mésseder In "Meridionais", Deriva Editores, Porto, 2007, p 18.
.
.
.

"... a opacidade deste irmão/ de desígnios por decifrar..."

.
.
"Irmão"

O mar de inverno destrói a percepção e comunga com as
nuvens numa gramática extrema. Um homem cuja subs-
tância humana se irreconhece persiste no seu jogo de cir-
cunstância. Quando me retiro, a opacidade deste irmão
de desígnios por decifrar (ah, a ímpia intenção em deci-
frá-los!) retira-se também, e na minha ausência - na sua
ausência - o mundo define-se , sem que eu ou ele
( ambos ausentes do filme da tarde) sejamos capazes de
definição.

Luís Quintais In "Duelo ", Edições Cotovia, Lisboa, 2004, p 72.
.
.
.

07/11/09

Vinícius de Moraes por Ney Matogrosso...

.
.
.
.
" A rosa de Hiroshima"

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hirosima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vinicíus de Moraes In "Antologia Poética", Publicações Dom Quixote,
Lisboa, 2001, p 299.
.
.
.

06/11/09

"sob a luz recíproca, como se pudéssemos"

.
.
" O sonho de Santa Úrsula"
(Carpaccio)


Disse-te que não seria capaz de escrever
um poema de amor.

Como representar a luz quando essa luz
é o véu que recobre o sonho de outrém?

Assim é aquilo que a palavra amor diz,
aponta, descreve em seu secreto centro.

Íntimo lugar onde um anjo se abeira
da tua morte, da minha morte, e nos enlaça

sob a luz recíproca, como se pudéssemos
sonhar, ambos, o mesmo sonho, a mesma dor,

o mesmo movimento, lento e obscuro,
de um deus frágil e atento.

Seríamos o imaginado centro
desta sala, deste limiar, deste medo

que o anjo diz sem dizer, que o anjo
persegue sem sinal de perseguição sequer.

Algo se diz, inapelável, atrás
do umbral que não vemos.

Luís Quintais In "Duelo", Edições Cotovia, Lisboa, 2004, p 32.
.
.
.

05/11/09

.
.
         "O Momento"


Observando dois surfistas a caminho das ondas,
Flutuando as pranchas ao seu lado enquanto ao longo
Do lento declive da praia, os joelhos, depois a cintura,
Penetram naquele abraço elementar,
Suspendo a escolha na dependência deles, enquanto uma
Onda de milhentas se forma e se aproxima:
E eles estão prontos para ela, ao rodarem
Como aves que se voltam para levitar no vento:
Tudo é certeiro agora ao deslizarem lado a lado:
Pelo que invejo o jeito dos seus corpos
Para aguentar e prolongar a descida veloz
Opto pelo momento em que as suas escolhas coincidem
E, em equilíbrio, como se no ar, hesitam
Numa culminação que com o mar partilham.

Charles Tomlinson In "Poemas", Edições Cotovia, Lisboa, 1992, p 45
(Tradução de Gualter Cunha).
.
.
.

04/11/09

.
.
"Esquecimento"


Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisantemos...

E desse que era meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...


Florbela Espanca In "Sonetos", Livraria Bertrand, Amadora, 1978, p 199
.
.
.

"Seguram as/ mãos/ não/ o tempo"

.
.
"Nostalgia"


Amo
os
casais

Ombro
a
ombro

Pisando a mesma calçada

Amo os casais que
atravessam
ruas
estações

Seguram as
mãos
não
o tempo

Amo
os casais

Que permanecem

Eunice Arruda ( Transcrito de um mail da autora)

Para ler mais poesia de Eunice Arruda
consulte: www.poetaeunicearruda.blogspot.com
.
.
.



(Da direita para a esquerda: o escritor Miguel Real, o Sr. Embaixador Lauro Moreira e
Victor Oliveira Mateus)

31/10/09

.
      " Tramontana em Lerici"


Hoje, deixasse alguém cair um copo de vidro e
Ele desintegrar-se-ia, deflagrando com tal intensidade
Contra a ressonância do frio ( os sons
Duros, separados e distintos, distanciando-se
Em cadência decrescente) que se juraria
Tratar-se da imitação de vidro a quebrar-se.

Nas folhas acentuam-se os matizes. Estimuladas por esta claridade
As mentes dos artífices tornar-se-iam prismáticas,
Arrebatadas por rendas de arestas afiadas,
Cortantes como aço. Constituições
Esboçadas sob este frio fecundo, seriam anuladas
Pelo rigor da sua equidade, pela moderação da sua piedade.

Ao entardecer somos perturbados pela definição
De tantos tons de verde quantos tentamos vislumbrar,
Quantos ainda a própria paisagem,
Absorvida pela firme obscuridade, condensa
Desde o verde-mar até esse lento anil escuro
Onde a luz e o crepúsculo se abandonam.

E o frio aumenta. Aqui, neste ar
Impróprio para políticos e românticos,
O escuro consolida-se do azul, e apaga as janelas:
Um bloco tangível, recusará ser acessório
Do que lhe não disser respeito. Somos ignorados
Por tanto frio suspenso em tanta noite.

Charles Tomlinson In "Poemas", Edições Cotovia, Lisboa,
1992, p 5 (Tradução de Gualter Cunha).
.
.
.

30/10/09

"depois da razia nos campos "

.
.
"Carta para W. H. Auden (I) "

Com o teu rosto de palimpsesto
muito usado e esse ar de cavalheiro
do Império Britânico

para quem o resto do mundo é a Índia,
vi-te apanhar o Expresso do Oriente
em Hallesches Tor. Clio, musa da História,

decerto te dirá porque se mostra
privada de perspectivas romanas a cidade.
Mais belo do que o dia era a noite,

hiante, com o seu cadastro de rapazes
no Cosy Corner, a um minuto
dos teus aposentos em Furbringerstrasse

(Frau Gunther, landlady tolerante...)
Aqui, onde o desejo não precisava
de se imaginar real, deixaste tocar-te

pelo amor ( um exemplar dos sonetos
de Shakespeare, o breviário de bolso,
para qualquer dúvida na hora capital).

Berlim era uma colónia de férias
com pack de Nacktkultur e escola
de sexo e todos os eufemismos

que se escondem na palavra Freudschaft.
Com paciência de tutor inglês
aqui disciplinaste delinquentes juvenis,

às vezes atrevidos e insolentes,
puros, verdadeiros e leais -
assim te descobrias adepto da rudeza

alemã ( força, potência & vigor),
pois não era Gerhart Meyer
the truly strong man?

A sua qualidade elementar
dispensava-os de assunto de conversa:
eram um pedaço de rocha natural

à espera que o moldassem as tuas mãos
ambidestras na penumbra de algum
Jugendbar. Hoje não há bares

de rapazes e outra geração enche,
depois da razia nos campos,
os estabelecimentos de Nollendorf Platz.

Parecem não as vítimas mas os seus algozes,
quando descem, ganchos espetados nos mamilos
e argola bovina no nariz, às catacumbas de Motzstrasse.

Paulo Teixeira, In " O Anel do Poço", Editorial Caminho, s/c, 2009, pp 73-74.
.
.
.

28/10/09

"Efemeridade e permanência na poesia de Cláudio Neves" por Victor Oliveira Mateus.

Neste novo livro de Cláudio Neves assumem particular relevância os conceitos de Amor e de Morte, que, no entanto, são submetidos aqui a uma abordagem cuidadosa e incomum na poesia ocidental. Logo nos dois versos iniciais do primeiro poema o poeta deixa-nos entrever que o amor de que irá falar se coloca em dois planos distintos, embora com zonas tangenciais e de possíveis permutas: aquele que "já foi/ antes de ter sido" (poema 1), que é livre de objectos particulares e, em última instância, livre de si mesmo, e um segundo nível onde o amor, por uma vivência concreta, se revela nos quotidianos gestos. Esta concepção remete-nos imediatamente para um solo matricial bem caro ao Ocidente, embora, e como veremos, Cláudio Neves articule, de forma exímia, todo esse legado da tradição com aspectos de uma modernidade que são intrínsecos à sua arte poética. Os primeiros nomes que nos ocorrem são o de Empédocles e o de arché, substância dinâmica bem cara aos Jónicos, já que o Amor nesta obra de Cláudio Neves é incriado e subjacente a tudo, mas que, no entanto e num segundo momento, " Dança num intervalo/ de luz..." (poema 1). O poeta insiste, em vários dos seus textos, nesta cisão originária que ocorre no seio do amor: "Apenas fora do tempo/ o amor é possível, / mas apenas/ em seu curso é que existe" (poema 6); " O amor é isso:/ o que escolhe ser,/ à revelia de quem o habita" (poema 14). Paralelamente a este nível do Amor, encontramos um outro de estatuto ontológico inferior - aquele que é vivenciado no quotidiano: " o teu amor desliga o som,/ tira-me os óculos e o livro" ( poema 5). Perante esta visão dialógica e especular do amor conseguimos perceber as razões que levaram Cláudio Neves a optar por epígrafes e imagens que nos induzem jogos de reflexos e refrações: o olhar de um cão (cf. poemas 5, 16 e 19); o espelho (cf. poemas 6 e 24). Estes dois planos através dos quais o amor se nos apresenta perpassam todo o livro, o que nos conduz a uma nova dicotomia: a ordem da permanência e a da efemeridade: " Certas manhãs parece que sempre existiram/ em outras somos nós que amanhecemos" (poemas 27); "Aquilo que prestes,/ aquilo que quase,/ os gestos inertes/ vibrarão mais rentes, / tocarão mais leves,/ sorverão mais lentos/ a verdade quieta/ de todo objeto" (poema 21 ). Vemos, por conseguinte, que são inúmeros os versos e/ou os poemas em que se desenham não só os dois níveis do amor já referidos à saciedade, como também a alternância entre os estados de permanência e de transitoriedade. Consciente de que o amor vivido é, então, uma secundarização - ou até uma falha - no meio da totalidade amorosa, o poeta experiencia-o, por vezes, com sentimentos de carácter negativo: o "cínico silêncio" ( poema 15) e o desalento (cf. poemas 9 e 23). É importante enfatizar ainda o cuidado com que toda a imagética desta poesia é trabalhada, e disso daremos aqui um só exemplo: a associação desalento/ insuficiência do amor vivido aparece por duas vezes ligada à cor violeta, que na religiosidade cristã tem uma conotação bem definida: " o pensamento/ assume um tom/ de violeta." (poema 2); "Ficou-lhe a voz,/ o aforismo/ ferindo a tarde violeta" ( poemas 12).
A morte aparece, nesta obra de Cláudio Neves, geminada com o amor, sendo assim uma presença constante ao longo de todo este trabalho: " O Amor e a Morte/ caminhavam juntos/ num jardim fechado." ( poema 20, I ). Todavia ela não tem, para o poeta, uma conotação necessariamente negativa:
.
Na morte seremos
o que perdemos
o que já fomos
antes de sermos.
Apenas na morte
seremos
o que somos,
quem fomos
antes de conhecê-la"
.
( poema 11)
.
A Morte encontra-se, portanto, associada ao desmoronamento da efemeridade e das vivências do amor quotidiano e, consequentemente, à ascensão a esse Amor fonte de tudo. Voltamos assim a um outro item da matriz ocidental: esse morrer para o mundo tão evidenciado nas obras de Teresa de Ávila e de João da Cruz. Se a morte, neste livro, pode ocorrer a qualquer momento ( cf. poema 20, IV ), também a absolutização amorosa se pode fazer a qualquer instante, aliás, a morte no quotidiano e a eternização daquilo que verdadeiramente É, na poesia de Cláudio Neves, e aqui ao contrário da tradição ocidental, é feita a par da materialidade, do corpo, da sexualidade; se na tradição lírica os mais altos cumes têm sido conseguidos através da ausência da amada ou do amado ( a sua morte, o seu afastamento geográfico, o desnível classista, o afeto não correspondido, etc.), nesta poesia a fusão com o Amor pleno pode ser conseguida, não com uma ruptura, mas com uma assunção e transfiguração do amor quotidiano: " Tudo isso farei eterno, / se me confias teu corpo sem ruído," ( poema 16); "E há certas noites, embora vulgares, / em cujo centro onipresente pressentimos/ a combustão de Deus, a marcha dos heróis." (poema 27 ) - eis-nos chegados ao final de todo um ciclo dialéctico. Âmago de uma autêntica epifania: fusão no Amor originário; consumação de um périplo, onde Cláudio Neves retoma as imagens específicas de uma poesia de cariz metafísico: a figura do anjo ( poemas 25, II e IV ), a problemática da ressurreição ( poema 25, I, II e IV ) e, finalmente e à guisa de conclusão, essa ideia de que o deserto é susceptível de ser ultrapassado, mas apenas por esses heróis, que, " à mesa dos loucos " (poema 25, IV ), insistem, quais ressurrectos seres, numa amorosidade diária, firmando esse Amor que, primordial, tudo move.
Outro aspecto quanto a nós fundamental nesta poesia é o modo como Cláudio Neves articula todo o domínio da modernidade poética, que desde o início percebemos ter, com uma súmula de processos formais provenientes da tradição. Este escorreito alcançar de um justo-meio entre as referidas duas instâncias, faz-nos lembrar três dos maiores poetas que, no século XX, escreveram igualmente em português: Vitorino Nemésio, Ruy Belo e David Mourão-Ferreira; também estes, embora com poéticas radicalmente distintas da presente, conseguiram esse equilíbrio entre o que no antigo urge preservar e aquilo que no moderno está para além das espúrias gangas de prestidigitações grosseiras e completamente apoéticas.
Neste livro estamos frente, não a um versejar tradicional e anquilosado ao qual se acrescentou, de forma aleatória, pinceladas de atualidade, apenas para que tal conste, mas a uma poesia que, toda ela porejando modernidade, se encontra embutida de um formalismo que o poeta adotou visando duas finalidades complementares: uma maior apreensão do poema pelo seu leitor, logo, uma veemente recusa da passividade deste, e a conquista de uma harmonia e de uma musicalidade que pareciam já perdidas na poesia contemporânea; ousamos, por conseguinte, dizer que através destes procedimentos estilísticos o autor nos presenteou com uma escrita, que, vincadamente moderna, quando lida nos faz lembrar as pequenas grandes pérolas da poesia trovadoresca galaico-portuguesa e da do Cancioneiro de Garcia de Resende. Esta exemplar tríade modernidade/formalismo/harmonia consegue-a Cláudio Neves através de procedimentos como: anáforas (" alheia ao fato de ser sensata,/ alheia às folhas que ela arrebata,/ alheia às coisas", (poema 2); subversão do esquema rimático tradicional (cf. as duas primeiras quadras do soneto 1); estruturas estróficas de tipo anafórico às quais adiciona rimas cruzadas ( poema 4); versificação de carácter assonante; extensas metáforas correntes que se espraiam ao longo dos poemas ( cf. poema 19, I e II e poema 25, I, II, III e IV); jogos de palavras (por exemplo, seremos/sermos, poema 11), muitas vezes articuladas com anáforas ( poema 19, II); aspectos de continuidade poemática conseguidos através de repetições simples e/ou de anadiploses (poemas 2 e 3), etc. O excelente domínio do português bem como da tradição poética luso-brasileira chega ao ponto de levar Cláudio Neves a trazer para o campo da modernidade processos formais há muito postos de lado: o dobre (" saudade sem objecto/objectos sem ruído,/ tempo sem corrosão," (poema 14); mordobre (poema 11); mote ou tema (poema 5), Porém, e aqui mais uma originalidade desta poesia, o poeta muitas vezes não segue fielmente esses esquemas versificatórios: acena-nos com eles, aqui e ali nos mostra que os domina, mas logo os subverte, não para encenar qualquer artifício gratuito e desinspirado bem ao gosto de certas escritas que começam a vislumbrar o início da sua queda, mas para que o intento da apropriação do real se intensifique e assim se consiga uma maior autenticidade, ao mesmo tempo que, nesta sua arte heterodoxa de desvelamento/ocultação, se implique o leitor de poesia com o sentido do que é mostrado e com a harmonia de um dizer que compromete esse mesmo leitor na dinâmica do fazer poético.
.
Victor Oliveira Mateus In "Os acasos persistentes" de Cláudio Neves, Editora 7Letras,
Rio de Janeiro, 2009.
.
.
.

Antonio Carlos Secchin escreve sobre Cláudio Neves

As 30 peças de Os acasos persistentes compõem um dos mais consistentes e bem realizados mosaicos de nossa poesia recente. Herdeiro do rigor cabralino, mas desdobrando-o em territórios diversos dos percorridos por João Cabral, Cláudio Neves elabora um livro em que os poemas se encadeiam e se encandeiam em torno da temática amorosa, alimentados pela memória no seu intérmino embate contra a dissipação e a morte. Cláudio afirma, num dos (muitos) belos versos da obra: "dizemos ser à falta de outro nome". Como todo efectivo criador, ele sabe que a poesia é o reino de assédios e aproximações que jamais se concretizam, pois sempre hão de faltar nomes para estancar a sede do artista.
.
António Carlos Secchin In "Os acasos persistentes" de Cláudio Neves, Ed. 7Letras,
Rio de Janeiro, 2009.
.
.

André Seffrin escreve sobre Cláudio Neves.

Todo poeta é o que é e não aquilo que imagina ser. Ora, apesar do ânimo clássico, aristocrático e até, por vezes, solene, a poesia de Cláudio Neves é portadora de uma inquietante modernidade. Nela, o conteúdo trágico não raro é diluído em formas lúdicas, em que se alternam e se deslocam imagens e sugestões menos óbvias quanto mais aparentes. Como um jogo de claro e escuro, de linhas retas e arabescos que o poeta movimenta com extraordinário senso de medida. Em De sombras e vilas (2008), seu livro anterior, ele se defronta com o espelho da memória, em que os sinais centelham dentro - em luz, palavra, sentido ou abismo, sempre dentro, lá onde residem os arcanos da poesia. Os acasos persistentes reativa essa metafísica convertendo-a, por assim dizer, numa cronologia de sentimentos, em que "as palavras são o que são, e não são nada". Porque, se a existência do amor é possível apenas fora do tempo, é em seu curso (do tempo) que ele (amor) existe. Sim, amor e morte, temas primordiais da poesia - com eles, Cláudio Neves retoma este ofício de palavras, valores e medidas, entre o sonho de Deus e o vazio, para alcançar, talvez, "após uma noite de sonhos concêntricos, a suprema manhã da inexistência". Valores e medidas de grande poeta cósmico que vive e escreve a partir de suas moradas e conflitos.
.
André Seffrin In "Os acasos persistentes" de Cláudio Neves, Ed.7Letras,
Rio de Janeiro, 2009.
.
.
.

27/10/09

Novo livro de Cláudio Neves.


"OS ACASOS PERSISTENTES" de CLÁUDIO NEVES, Ed.7Letras, Rio de Janeiro, 2009.
.
Na Contracapa: texto de ANTÓNIO CARLOS SECCHIN.
.
Nas badanas: texto de ANDRÉ SEFFRIN.
.
Prefácio: "Efemeridade e Permanência na Poesia de Cláudio Neves" por Victor Oliveira Mateus.
.
.
.

"um fio de vigília a remendar/ as costuras ao sono... "

.
.
"Exercício Penitencial"

Eles dormiram lado a lado sem se tocarem
numa cama estreita enquanto a madeira
estalava como uma chama acesa.

A orla da cama era a margem abrupta
que os mantinha, reféns do instante,
à beira de soltarem-se os seus países
à deriva pelos meridianos da noite.

Os minutos fluíam em segredo,
um fio de vigília a remendar
as costuras ao sono, a vegetação

de sombras onde o olhar adivinhava
dos móveis a baça cor primitiva,
a janela abrindo-se com o néon
num voto a ocidente: Westworld Club.

Dormiram a espaços na noite.
Com bons sentimentos e um desejo
a consumir-se disfarçado no corpo.

Pudesse a penumbra emulsionar
no justo embalo em que os corpos vão e vêm
as suas sombras, até estas se fundirem numa solução durável,
sem amén nem sublime licença, sem senhor nem vasalo.

O sonho é a paisagem por desenhar
quando pela manhã se lembrarem
do que ficou aqui, a marca fóssil de dois corpos

num colchão mole e usado do quarto 1014
no Hotel Belarus, em Minsk:
- a perfeita orogenia de um corpo
a construir-se séculos sob os lençóis.

Paulo Teixeira In "O Anel do Poço", Editorial Caminho, s/c, 2009, pp 24 - 25.
.
.
.






25/10/09

"Rêver un impossible rêve"

.
.
"La quête"

Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fîèvre
Partir où personne ne part

Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile

Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importe mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon coeur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux

Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.

Jacques Brel
.
.
.

24/10/09

Acaricio grão a grão a página solar da pele.

Foto de Elian Bachini da série "Toiles sensibles" (2006).

"Da Paixão"

Eis-me aqui: a mesa, a ordem das coisas.
Nunca a falta de amor foi mais clara.
Vem, chacal. Repasto de feras, meu coração aguarda, meu corpo se abre de leste a oeste para o teu solstício.
Aqui estou: altar negro esculpido pela delicadeza das ervas.
Um dilúvio se incumbe de varrer meus restos.

Mas tu ainda brilhas, sempre.
Copo de lírio, vermelho vivo aceso na cama, gesto a gesto:
Meu peito, tua face, o ouro, o verbo.
Acaricio grão a grão a página solar da pele.
A casa se abre, a luz, uma fresta.
E vejo-te aqui, à minha frente, ao alcance da fala: pausada, hesitante, eterna.

Nâo contemplarei as pegadas, resíduos, fotos tardias.
Sofro pela miséria não compartilhada.
Por perfeição perdi o que em mim falta e em ti sobeja:
Amor, finitude, instantes trançados em musgo, pedras desenhando pedras.

Eu: triturado pela engrenagem dos dias.
Tu: clareira nascida no momento mais triste da minha vida.
Animal ferido, maculei tua face com minha queda.
Peço perdão, o perdão das feras, culpadas e cegas.
Enquanto o flamingo atinge a glória da lua em sua extinção,

Sei das palavras, a linguagem dita no escuro.
Murmúrios tramados em nossa caverna:
A transpiração de tua flor em cada uma das minhas células.
Sei que isso ainda vive, se conserva em um quadrante do tempo.
Vazante, amor: a despedida é infinita, nunca se completa.

Ouço teus passos, a respiração, teus olhos firmes e entregues.
Não há reparação, tu sabes.
Mas mesmo assim vens pela noite, navegas meu sangue, meu sêmen, ressurreta.

Sim: abaixo de toda a baixeza, estou sujo. Pregado.
Entre bandidos, o Senhor me abandonou - ainda vivo.
Clamo ao sol: aprofunda esta ferida, esta lepra, escave-a.
Cuspa em minha face e pise minhas vértebras.
E eu possa cumprir a minha consumação, a tua felicidade.
Mãos de cinzas, a cabeça aberta.
Peço-te o perdão da estátua, pobre em sua geometria, agônica.
Morigerante e certa demais para as formas vivas da luz.

A redenção do mal reconhece o mal, um beijo em tua boca - amada, antiga, redescoberta.
Uma vez e tudo já foi dito.
Uma vez e tudo já foi foi feito.
Plenitude, amor.
Acredite: apenas isso é o que meus passos errantes sempre quiseram.
Louco, tranlúcido, nu e sem nome, abjeto - rezo.

Peço-te um dia a mais sobre a Terra.
Tua mão, teu corpo, o deserto.

Rodrigo Petronio In "Venho de um país selvagem", Topbooks Editora,
Rio de Janeiro, 2009, pp 63 - 65.
.
.
.

23/10/09

"Caminharei sem sombra pelos poços da noite "

Rodrigo Petronio e um casal amigo no dia do lançamento do livro aqui referido.

"Enterrem minha alma em algum lugar sem luz"

Enterrem minha alma em algum lugar sem luz.
Caminharei sem sombra pelos poços da noite entre galhos retorcidos e o ar escasso.
Pergaminho vivo, serei feliz sem nome, rosa túmida avessa ao ser,
Pela própria aniquilação embriagada.
Respirarei o espaço e as estrelas apagadas que unificam minha carne.
Não quero testemunhas. Livrem-se do meu cadáver.
O rebentar de uma só flor já me basta de homenagem.
Que todos os olhos se ceguem e todas as mãos sejam ceifadas.
E eu mastigado pela água em seu ranger de líquidos estalos.
O relógio das casas e sua oração de sinos quebrados.
Meu dorso não suporta o chicote de seus salmos.
À hora grave o sol engole todas essas planícies sem memória.
E somos tocados pela brisa delicada dos mortos.

Não há guerra nem renovação neste mundo limpo.
Não há nada mais sujo do que uma pessoa honrada.
Todos estão do lado da beleza. Todos estão salvos.
Vítimas se multiplicam e não há algozes entre estes ratos.
Senhor, dá-me teu doce flagelo.
Concede-me a honra de ser dentre os assassinos o mais baixo.
Para que a ferida expila o seu fruto sobre a relva.
E nos desperte do sono miserável de nossas obras e nossos quartos.

Só tu, terra devastada que espelha o céu.
Só tu, oásis, beleza sepultada de Deus, onde brotam rosas violentas.
Só tu podes redimir nossa pobreza.
Na decomposição de minhas células serei salvo finalmente.
Aquieta-te, deusa primeira.
E bebe este vaso de sangue em teus poros.
Dá-me o halo de tua glória, celeste, miserável.

Rodrigo Petronio In "Venho de um país selvagem", Topbooks Editora,
Rio de Janeiro, 2009, pp 43 - 44.


Notas:
- esta obra ganhou o Prémio Nacional "Academia de Letras da Bahia/ Braskem 2007".
- optei, como ilustração, por uma foto do próprio lançamento, mas guardando aquelas em que o autor está com Maiara Gouveia para quando postar textos desta última. As fotografias que encontrei na net pareceram-me bem mais antigas.
.
.
.

20/10/09

" REVISTA INÚTIL " (lançamento... )


(Para uma melhor visualização dos colaboradores
clicar sobre a imagem, p f. )
.
.
.
O LANÇAMENTO DO PRIMEIRO NÚMERO DA "REVISTA INÚTIL" DECORRERÁ NO DIA
.
23 DE OUTUBRO DE 2009, ÀS 21H,30, NA LIVRARIA LER DEVAGAR, NO LX-FACTORY,
.
EM LISBOA. A REFERIDA REVISTA TEM: NA COORDENAÇÃO EDITORIAL
.
MARIA QUINTANS, NA DIRECÇÃO FOTOGRÁFICA E PRODUÇÃO ANA LACERDA E NA
.
CONCEPÇÃO/ DIRECÇÃO DE ARTE JOÃO CONCHA. A APRESENTAÇÃO ESTARÁ A
.
CARGO DE CRISTINA PIEDADE (LIVª BERTRAND), O ACTOR ANDRÉ GAGO FARÁ A
.
LEITURA DE TEXTOS E POEMAS... HAVERÁ IGUALMENTE MÚSICA AO VIVO COM:
.
JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA, MÁRIO FRANCO E ALEXANDRE FRAZÃO.
.
.
.
.

19/10/09

Rufus Wainwright interpreta Shakespeare.

. Soneto 43 ( Concerto em Paris 16/6/2009).
.

Vejo os dias quais noites não te vendo (Soneto 43).

.
.
When most I wink, then do mine eyes best see;
For all the day they view things unrespected,
But when I sleep, in dreams they look on thee,
And darkly bright, are bright in dark directed.
Then thou whose shadow shadows doth make bright,
How would thy shadow's form form happy show
To the clear day with thy much clearer light,
When to unseeing eyes thy shade shines so?
How would (I say) mine eyes be blessed made
By looking on thee in the living day,
When in dead night thy fair imperfect shade
Through heavy sleep on sightless eyes doth stay?
.. All days are nights to see till I see thee,
.. And nights bright days when dreams do show thee me.
.
.
Tradução:

Meus olhos vêem melhor se os vou fechando.
Viram coisas de dia e foi em vão,
mas quando durmo, em sonhos te fitando,
são escura luz que luz na escuridão.
Tu cuja sombra faz a sombra clara,
como em forma de sombras assombravas
ledo o claro dia em luz mais rara,
se em sombra a olhos sem visão brilhavas!
Que bênção a meus olhos fora feita
vendo-te à viva luz do dia bem,
se tua sombra em trevas imperfeita
a olhos sem visão no sono vem!
.. Vejo os dias quais noites não te vendo,
.. e as noites dias claros sonhos tendo.

Shakespeare In "Os sonetos de ... ", Bertrand Editora, Lisboa, 2002,
pp 96 - 97 (Tradução de Vasco Graça Moura).
.
.
.

18/10/09

.
.
            "Soneto"


Cresce a sintaxe com muito vagar.
Diz ao fonema: Vem. Depois, sou eu.
Ri o Sol da gramática, apesar
de o Sol só fazer más rimas no céu.

Faço as pazes com ele, vou tomar
banho - "Belo transporte", concedeu.
Saio prà rua grávido de um par
de versos: páro, vejo-Me ao léu,

volto depressa a casa por papel.
Eis aqui está um bom decassilábico,
sobretudo, prudente: não repele
plo aroma e até o lê um estrábico.

Mas lixou-se o soneto isabelino.
Cacofonias, ai!, fazem o pino.

(Budapeste, 15 - III - 1984)

Ernesto Rodrigues In "Revista Mealibra", Nº 20, Série 3, 2006/7.
.
.
.
.
         "Pátria"


Heróis do mar. Por favor!
Heróis foram, no entanto.
Partiu-se barca de espanto,
vogamos sempre em redor.

Levantemos o esplendor,
hoje, da pátria; um canto
novo quer pausa, enquanto

vemos saída melhor.
Chão, Deus, água, valor, língua,
são quinas de Portugal.
Fez-se milagre, à míngua

de mar, de vinho do Porto;
Deus foi bem, mas também mal.
Ao mar, ao mar, ser absorto!

(Budapeste, 21-II-1999)

Ernesto Rodrigues In "Revista Mealibra", Nº 20, Série 3, 2006/7
.
.
.

17/10/09

.
.
já não me lembro se era inverno ou verão.
sei que o sol estava baixo e a sombra dos prédios
se alongava pelo rio e um último feixe de luz precipitava
o início de um crepúsculo de cores muito saturadas.
alguém veio chamar a minha ama
e ela levou-me pela mão como se houvesse
no ar o sinal de uma catástrofe
maior do que poderia pressentir.
só parámos em frente à entrada principal do palácio das sereias
de onde vi, ao longe, a carga policial
sobre os manifestantes que se aglomeravam no largo da alfândega.
de um lado havia gente em silêncio
e do outro guardas a cavalo.
dir-se-ia que apenas esperavam
o momento adequado para o impulso
de raiva que se lhes vislumbrava
estampada nos rostos. eu não sabia
o que não sabia existir. de súbito, senti
um nó na garganta
que apertava tanto que me fez doer
a nuca, os braços, as clavículas,
as pernas, os joelhos. a minha mão
na mão da minha ama, que senti tremer.
de súbito, provindo do silêncio
em que tudo decorria, sem prévio
aviso, ouvimos um estampido, e outro, e outro, ainda.
dos homens a cavalo, alguém puxara
de uma pistola e disparara sobre a multidão
silenciosa, que começou a gritar e a correr,
arremessando pedras sobre os guardas
de esporas nos cavalos, que espumavam
e levantavam as patas dianteiras.
nas janelas das casas vi
gente que levantava bandeiras negras
e vermelhas, outras brancas,
e apupava a polícia e clamava
palavras que até ali desconhecia
e aprendi, para sempre, serem
as mais essenciais para quem da vida
só espera a liberdade. do sítio de onde
estava, num relance, vi um homem
com sangue a escorrer do peito e da cabeça, estando muitos
caídos pelo chão, que os cavalos pisavam
e a quem os guardas batiam com bastões,
enquanto outros não paravam de correr,
procurando refúgio atrás das poucas árvores
e de alguns automóveis ali parados.
por essa altura, todo o meu corpo
se pôs em convulsões, acompanhando
os gritos que ainda hoje oiço
da infância.

Amadeu Baptista In "os selos da lituânia", & etc., Lisboa, 2008, pp 19 - 21.
.
.
.
São figuras reais? Penso que não
e serão talvez um reflexo de seres que eu conheci
Mas tal como as vejo têm uma presença profunda
algumas de uma beleza fulgurante
mas discreta
na trémula penumbra ou aura que as envolve
Não sei se sou eu que as suscito
ou convoco
mas a sua aparição é como um botão que rapidamente desabrocha
e eu apenas posso tentar mudar a imagem
para que outra lhe suceda ou fixá-la para que mais nenhum se lhe siga

Quer sejam figuras de mortos ou de vivos
quer sejam imagens do meu desejo ou do meu tremor
elas possuem um ritmo fremente
na iluminação dos rostos
e no silêncio de secreta tranquilidade

Não posso recusá-las
Aceito-as
mas não sei o que significam
embora talvez o seu secreto sentido
seja uma relação entre a beleza e a morte
ou talvez nada mais
que o fulgor esparso de tantas figuras
que por acaso ou não eu encontrei
mas não sei explicar a profunda beleza
de alguns destes rostos
que me fixam e para quem eu não sei quem sou

Nós não andamos à volta de um mistério
Não perdemos tempo com o que irreparavelmente se esconde
ou não se esconde
mas é a nulidade de ser como se fosse
Nós queremos estender o braço para um rosto
que não está formado
e é tão aéreo
como três ramos de árvore

Esse rosto é o alvo da mão nua
mas é ela que deslizando nas linhas do ar
o delineia primeiro como uma folha
depois como o peito de um pássaro
e finalmente como uma pluma de fogo e outra de água

Está finalmente aceso
com a delicadeza
da água
com a lascívia
do fogo
e não te vendo ainda
é a evidência discreta
sobre a pedra

António Ramos Rosa In "Deambulações Oblíquas", Quetzal Editores,
Lisboa, 2001, pp 46 - 47.
.
.
.

15/10/09



"Ainsi qu'un petit café, tel est l'amour"


Ainsi qu'un petit café
dans la rue des étrangers,
tel est l'amour... il reçoit tout le monde.
Ainsi qu'un café bondé ou déserté
selon la méteo.
La pluie tombe, les clients son plus nombreux.
Le ciel s'adoucit, les voici moins nombreux
qui s'ennuient...
Je suis là, ô étrangère, assis dans mon coin.
(De quelle couleur sont tes yeux?
Quel est ton nom?
Comment t'appeler quand tu passes près de moi,
assis à t'attendre?)
Comment t'appeler quand tu passes près de moi,
assis à t'attendre?)
Un petit café que l'amour.
Je commande deux verres
de vin et je bois à ma santé et à la tienne.
J'ai emporté
deux chapeux et un parapluie. Il pleut.
Il pleut plus fort que jamais
et tu n'entres pas.
Finalement je me dis: Celle que j'attendais
m'a peut-être attendu... ou attendu
un autre homme. Elle nous a attendu
et ne l'a pas,
ne m'a pas, reconnu.
Et elle disait: Je suis là, à t'attendre.
(De quelle couleur sont tes yeux?
Quel vin aimes-tu?
Quel est ton nom? Comment t'appeler
quand tu passes près de moi?)

Ainsi qu'un petit café, tel est l'amour...

Mahmoud Darwich In "Comme des fleurs d'amandier ou plus loin", Actes Sud,
Paris, 2007, pp 59 - 60 ( Tradução do árabe - Palestina - para o francês de Elias Sanbar).
.
.
.

14/10/09


         "Il y a une noce"
.
.
Il y a une noce à deux maisons de la nôtre,
ne fermez pas les portes...
ne nous interdisez pas ce besoin
incongru de joie.
Le printemps ne se sent pas obligé
de pleurer chaque fois qu'une rose se fane.
Et quand, malade, le rossignol devient muet,
il cède au canari
sa part de chant et quand une étoile tombe,
aucun mal n'atteint le ciel...
Il y a une noce,
ne fermez pas la porte au nez de cet air
chargé de gingembre et des prunes
de la mariée
qui mûrit maintenant.
(Elle pleure et rit comme l'eau.
Pas de blessure dans l'eau. Pas de trace
d'un sang répandu dans la nuit.)
L'on dit: L'amour est fort comme la mort!
Je dis: Mais notre appétit de vie est plus fort
que l'amour et la mort,
même si nous ne pouvons le prouver.
Mettons un terme à nos rites funéraires
pour nous associer
au chant de nos voisins,
la vie est évidente... et réelle comme la poussière!
.
.
Mahmoud Darwich In "Comme des fleurs d'amandier ou plus loin", Actes Sud,
Paris, 2007, pp 31-32 ( Tradução do árabe - Palestina- para francês de Elias Sanbar).
.
.
.

12/10/09

.
.
"Nós desejamos aquilo que vemos. Ser como os outros, ter o que os outros têm.(...) Mas esta incessante actividade de desejo provoca, inevitavelmente, frustrações. Nem sempre conseguimos obter aquilo que obtiveram os que nos serviram de modelo. Somos então obrigados a dar um passo atrás. Este recuo pode assumir diversas formas: de cólera, de tristeza, de renúncia. Ou mesmo de renegação do modelo com que nos tínhamos identificado. Para repelir o desejo repelimos a pessoa que no-lo havia indicado, desvalorizamo-la, dizemos que não merece, que não vale nada. É esta a primeira raiz da inveja.
A outra raiz da inveja apoia-se na necessidade de julgar.(...) Começamos em criança a comparar-nos (...)E depois continuamos ao longo da vida(...) elogio e reprovação, sucesso e insucesso, tudo isto são comparações. (...)Queremos ser melhores, superiores, mais apreciados. Não há qualquer limite para esta ambição, para esta ascensão. Por isso não há fim para o confronto, para o juízo, para o ilimitado suceder-se de valorizações (...) E se não conseguimos, se a comparação for em nossa desvantagem, sentimo-nos diminuídos, desvalorizados, vazios. Procuramos, então, proteger o nosso valor. Aqui ainda podemos fazê-lo de muitas maneiras: renunciando às nossas metas, tornando-nos indiferentes, ou então procurando desvalorizar o modelo, baixando-o para o nosso plano. Este mecanismo de defesa, esta tentativa de nos protegermos através da acção de desvalorização, é a inveja.
A inveja é, por isso, uma paragem, uma retirada, um estratagema para nos subtrairmos ao confronto que nos humilha. É uma tentativa de abastardar o estímulo desvalorizando o objecto, a meta, o modelo. Mas é um tentativa incongruente, porque o objecto do desejo e o modelo continuam ali, como uma teia na qual a alma se debate prisioneira.
Desejar e julgar são dois pilares do nosso ser, mas também a fonte da inveja.(...) Corremos para a frente, depois paramos, olhamos em redor, voltamos novamente a proceder com prudência. A seguir, reassegurados, voltamos a fazer outro avanço. O fluxo vital é um contínuo suceder-se de explorações, de tentativas e erros, de avanços e de recuos. O momento de paragem, de refluxo, de recusa, faz parte integrante do processo, é-lhe essencial. A inveja é um acto de defesa, uma tentativa de nos recolhermos num refúgio, numa fortaleza, com medo do que nos espera. É por isso a sombra negra do nosso esforço vital, a omnipresente força contrária à nossa vontade. (...) a forma como esses fins e esses desejos se nos revelam na inveja, está distorcida e é repugnante. Não é um esforço límpido, uma corajosa marcha em direcção à meta, não é sequer uma aceitação consciente do desafio. O desejo frustrado regressa através da nossa concentração obsessiva em alguém que conseguiu ser bem sucedido onde falhámos, e nós não estamos apenas descontentes com o nosso insucesso, mas cheios de ódio pelo que venceu. A inveja tem raízes no modelo, mas esse modelo, através do processo da inveja, transforma-se numa figura em que não podemos pensar sem nos sobressaltarmos, sem sermos tomados de raiva. A inveja (...)é um protesto rancoroso contra esta substância evasiva que avilta o nosso ser. É uma revolta contra a nossa falta metafísica de autonomia. Mas é um protesto cheio de má-fé, porque apenas o agredimos quando nos sentimos vacilar, não antes. Pelo contrário, antes, clamávamos a construção da nossa segurança e do nosso valor com base nesses confrontos. A inveja é o protesto de um batoteiro que se lembra de ter feito batota, quando começa a perder. Nessa altura quereria fazer um jogo leal, mas não o pode fazer porque pensa que todos fazem batota e, não confia neles, como não confia em si próprio.
A inveja é a maldade contra os outros quando pensamos que a sociedade, o mundo, não são suficientemente bons para connosco. É um veneno que colhemos e com o qual intoxicamos o ambiente. E neste ambiente nos movimentamos incomodamente, temos dependência e medo. (...) Na palavra inveja há uma terceira acusação. "Que mal te fez?", dizem-nos. E nós não sabemos que responder. Porque aquele que invejamos não fez qualquer gesto agressivo. Não "fez" absolutamente nada. O nosso desânimo, a nossa catástrofe interna, não foi determinada por uma acção, por uma violência, mas pura e simplesmente pela comparação que nós próprios levámos a efeito. (...) Mas não fomos agredidos por ninguém. Passamos pela experiência devastadora de termos sido destruídos por outro, sem sequer o podermos acusar. "
.
.
Francesco Alberoni In "Os Invejosos", Bertrand Editora, Lisboa, 1997, pp 7 - 17.
.

11/10/09

"Não a tua sombra, mas plenamente... "

"Portrait Flamand" foto de Blue Belhomme, Paris, 2009.

"A Cruz do Sul"

Desejei-te, Mulher do Sul sem nome,
Não a tua sombra, mas plenamente - quando ainda mais solitária,
A Cruz do Sul possui a noite
E a despoja das suas faixas, uma a uma -
Altiva, serena
longe do lento fogo
Dos céus inferiores -
etéreas cicatrizes!

Eva! Madalena!
ou tu, Maria?

Qualquer apelo - cai inútil entre as ondas.
Oh simiesca Vénus, desalojada Eva,
Por casar, errando sem um jardim onde chorasses
As guitarras varridas pelo vento sobre pontes isoladas;
Para finalmente responder a tudo dentro de um túmulo!

E este longo sulco de fósforo,
iridescente
Esteira de toda a nossa viagem - perseguida irrisão!
Os olhos dividem-se com o seu beijo. O seu longo, interminável fascínio
Incita a gritar. Deslizando nessa visão oculta
O espírito lança o seu escarro, sussurrante inferno.

Desejei-te... As brasas da Cruz
Subiam oblíquas e amontoavam-se aromáticas.
É sangue para recordar; é fogo
Hesitante que responde... É
Deus - o teu anonimato. E a ablução -

Toda a noite a água alinhou teus cabelos com negra
Insolência. Rastejante agitada até à tua realização.
A água provocou aquele pungente ruído, o teu
Cabelo enumerado - dócil, ai de ti, depois de sujeita a tantos braços.
Sim, Eva - sombra da minha semente sem amor!

Selada a Cruz, um fantasma - desceu mais baixo que a aurora.
A luz afogou aos milhares a tua lícita geração.

Hart Crane In "A Ponte", Relógio D'Água Editores, Lisboa, 1995,
pp 85-87 (Tradução de Maria de Lourdes Guimarães).
.
.
.

10/10/09

"É pouco tudo o que eu vejo "

.
.
.
Da margem esquerda da vida
Parte uma ponte que vai
Só até meio, perdida
Num halo vago, que atrai.

É pouco tudo o que eu vejo,
Mas basta, por ser metade,
P'ra que eu me afogue em desejo
Aquém do mar da vontade.

Da outra margem, direita,
A ponte parte também.
Quem sabe se alguém ma espreita?
Não a atravessa ninguém.

Reinaldo Ferreira In "Poemas", Vega, Lisboa, 1998, p 151 (Com um estudo de
José Régio sobre esta obra e Prefácio de Guilherme de Melo).
.
.
.

"Estas verdades, / Que são do senso comum,"

.
.
.
Sei que a ternura
Não é coisa que se peça,
E dar-se não significa
Que alguém a queira ou mereça.
Estas verdades,
Que são do senso comum,
Não me dão conformação
Nem sentimento nenhum
De haver força e dignidade
Na minha sabedoria...
Eu preferia
- Sinceramente, preferia! -
Que, contra as leis recolhidas
No que ficou dos destroços
De outras vidas,
Tu me desses a ternura que te peço;
Ou que, por fim, reparasses
Que a mereço.

Reinaldo Ferreira In "Poemas", Vega, Lisboa, 1998, p 166.
.
.
.

09/10/09

"E vimos a noite erguida nos teus braços."

"À Ponte de Brooklyn"

Em quantas madrugadas, arrefecidas pelo repouso ondulante,
As asas da gaivota hão-de imergi-la e voar em seu redor,
Espalhando anéis brancos de tumulto, erigindo bem no alto
Sobre as águas agrilhoadas da baía a liberdade -

Então, numa curva inviolada, deixarão os nossos olhos
Tão espectrais como veleiros que cruzam
Uma página cheia de parcelas a arquivar;
- Até que os elevadores nos libertem do nosso dia...

Sonho com cinemas, truques panorâmicos
Com multidões debruçadas sobre uma cena fulgurante
Jamais revelada, mas passada de novo à pressa,
A outros olhos prometida sobre o mesmo écran;

E TU, por cima do porto, ao ritmo da prata
Como se o sol te imitasse, embora deixasse
Um gesto nunca acabado no teu rasto, -
Implicitamente ficas com a tua liberdade!

De uma abertura no metro, de uma cela ou mansarda
Um louco precipita-se para os teus parapeitos,
Oscilando aí por momentos, a garrida camisa enfunada,
E um gracejo solta-se da multidão surpreendida.

Por Wall Street, escorre o meio-dia desde a viga mestra atá à rua,
Um rasgão no acetilene do céu;
Toda a tarde os guindastes envoltos pelas nuvens giram...
Os teus cabos respiram ainda o Atlântico Norte.

E é obscura, como aquele céu dos judeus,
A tua recompensa... tu conferes o louvor
De um anonimato que o tempo não pode evocar:
Testemunhas uma indulgência e um perdão vibrantes.

Harpa e altar pelo furor unidos,
( Como pôde o simples trabalho alinhar as tuas cordas cantantes!),
Medonho limiar da promessa do profeta,
Prece de um pária, e grito de um amante, -

E de novo as luzes do trânsito que deslizam pelo teu idioma
Veloz e total, imaculado suspiro de estrelas
Ornando o teu caminho, condensam a eternidade:
E vimos a noite erguida nos teus braços.

Sob a tua sombra, esperei junto dos pilares;
Apenas na escuridão é a tua sombra nítida.
Os bairros flamejantes da cidade todos inacabados,
A neve submerge já um ano de ferro...

Ó Insone como o rio lá em baixo,
Em abóboda sobre o mar, erva sonhadora das pradarias,
Desce, vem até nós, os mais humildes,
E da tua curvatura empresta a Deus um mito.

Hart Crane In "A Ponte", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
1995, 17-19 (Tradução de Maria de Lourdes Guimarães).
.
.
.

08/10/09

.
.
.
"O Jogo dos Vivos"


E por que não fazê-lo?
e por que não enlouquecer?

seria bem melhor perder
de uma vez esta sensibilidade idiota
e incomodativa

parar de pensar
parar de escrever
entregar-me sem reserva à mediocridade
que a realidade envolvente exalta

nesse momento
sem problemas de consciência
passaria a fazer parte integrante da massa amorfa
de cotovelos apontados às bocas abertas
e aos dentes desprotegidos

poderia atropelar pessoas sem pedir desculpa
dizer palavrões quando me negassem qualquer capricho
meter-me em confusões beber até apanhar uma cirrose
fumar até os pulmões rebentarem roubar chupas aos putos
comer à pressa com as mãos não levantar a mesa
não fazer a cama arrotar o abecedário peidar-me
sonoramente nos transportes públicos cuspir para o chão
repreender a criança insistente que descreve
o futuro numa expectativa inocente e ingénua

tudo menos esta passividade

porque eu tenho visto o desenrolar do jogo dos vivos
sentado no banco de suplentes por vezes na bancada
em tantas ocasiões agarrado às grades do portão de entrada já fechado
porque eu condeno quem não sabe jogar quem faz jogo sujo
mas continuo a ceder continuo imóvel desconcentrado
não entro em campo não mostro o meu drible
porque eu porque eu porque

eu vejo esta gente a passar
a olhar-me de relance e juro que os seus olhos
me chamam anormal me chamam coisas incómodas como idealista
me repudiam por ainda aqui estar sentado a reflectir
em vez de consumir todos os outros recursos disponíveis

apetece-me enlouquecer
vingar-me em alguém

Paulo Tavares In "Pêndulo", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão,
2007, pp 50-51.
.
.
.

O Prémio Nobel da Literatura de 2009...

... foi atribuído a Herta Muller, escritora nascida em Nitchidorf (Roménia) e que em 1987 foi
.
viver para a Alemanha. Para além de romancista Herta Muller é também poeta e ensaísta.
.
Dois dos seus títulos estão já traduzidos para português: "O homem é um grande faisão sobre
.
a terra" (Cotovia) e "A terra das ameixas verdes" (Difel).
.
.
.
.
.
.
"Luzes Dispersas"


Disseste-me o teu nome
mas acabei por esquecê-lo
numa gaveta ou num armário
da casa antiga que já não habito

ameaçado pelas investidas
silenciosas das traças
ganhando o odor da naftalina
foi envelhecendo juntamente
com as outras coisas que não soube amar

os nomes fazem parte de nós
percorrem o sangue e as artérias
preenchem o intervalo entre os órgãos
sem eles a anatomia da vida
seria uma espiral de derrames consecutivos

quando voltei à casa antiga
em busca das divisões de outrora
as gavetas e os armários estavam cheios
de memórias que não me pertenciam

procurei em vão o teu nome
por todas as divisões
restava apenas o vestígio dos teus olhos:
lanternas imprecisas apontadas à escuridão.

Paulo Tavares In "Pêndulo", Quasi Ed., 2007, p 29.
.
.
.

07/10/09


           "  Poema  18  "


Neste voo de escrever-te um poema
um poema que falasse
dos rios ocultos
com cestas de astros e corais
que falasse das flautas de sol
polindo a tarde
e de picaretas de luz
que do peito à boca me ressoam

Um poema com peixes verde-prata
vindo à tona entre os juncos e as palavras
e onde os sapos surpreendidos em seus saltos
deixassem os gritos suspensos
nos cabelos das algas
com regatos de permeio

Um poema que tivesse também
um longuíssimo solo de violino
com todos os mundos que para ti inventei...
- Neste voo de escrever-te um poema
que não sei...

 
Mateus, Victor Oliveira. Movimento de Ninguém. Lisboa: 1999, p 30.
.
.
.

06/10/09

.
.
.
Fizera arquitectura em Sevilha e no Canadá
Viera ter aqui para te fazer ciúme,
Criatura vibrátil,
Modelava o riso oriental com réguas
Finas, lisas, transparentes,
E recriava as casas com mãos breves de cera
E muita, requintada submissão.

Trazia sempre à luz o seu perfil elástico
Confundido nas falas dobrava-se em silêncio.
Foram meses de ouro para mim que não te ouvia
Desdobrado em amores também australianos.

Tens que aceitar-me as costas, e só, com a dor
Arrefecendo-me os flancos
Na tua intimidade que já nem recalcitra.
Seishu parou de aparecer voou para Nova Iorque
Talvez Hamburgo lhe gele agora o reticente cabelo.

Como iria eu saber que já não tinhas pátria
Quando os olhos de flecha meio cerrada
Me fitavam de longe, fotográficos?
Na praia do Meco ou nesse altar do desejo
Erguido sobre o mar enraivecido
Como colunas brancas e pedras amarelas de tabaco
Pernas e dentes sitiavam-me o corpo.

Seishu, um nome simples
Que articulava, em coro, uma inteira panóplia
De pequenos gestos e pássaros
Um tecido de luxo, decisivo e tão puro
A envolver-lhe as nádegas.
E tanta espuma risonha e tanto bem saber
Na tua boca fresca.

Eu já não te sentia no meu espaço
Não te exaltes
A memória enaltece os nomes concubinos.
Tu não estavas no sangue, tolhido na garagem estranha
O teu corpo esfriava
No vazio.

Armando Silva Carvalho In "O Amante Japonês, Assírio & Alvim,
Lisboa, 2008, pp 40-41.
.
.
.