04/03/10

Apresentação de um livro.

A EDITORA LABIRINTO E A LIVRARIA PÓ DOS LIVROS CONVIDAM-VOS PARA O
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LANÇAMENTO DO LIVRO "QUANDO JUNTO ÀS HORAS SE ILUMINA UM RIO",
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DE ALICE FERGO.
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A SESSÃO TERÁ LUGAR NO DIA 6 DE MARÇO, PELAS 16h,30, NA LIVRARIA PÓ DOS
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LIVROS SITA NA AVª MARQUÊS TOMAR, 89 - LISBOA.
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A APRESENTAÇÃO DA OBRA SERÁ FEITA POR Victor Oliveira Mateus, AUTOR DO
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POSFÁCIO.
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Tão verdade que já estavam na vila os carros dos engenheiros e as máquinas de lavrar - informou outra voz. Vinham portanto os cães do Governo escorraçá-los da serra! Então o dia do juízo estava a amanhecer!
Governo para o aldeão é sinónimo de Estado e de tudo o que dá leis, uma quadrilha de olho vivo. Já lhes levavam coiro e camisa em contribuições, tributos, posturas, alcavalas de vária ordem, e vinham ainda esbulhá-los da serra! Hoje a serra, amanhã, por uma razão análoga, corriam-nos de casa para fora. Ah, cachaporra dum santo! O que todos queriam era viver à custa da barba longa, mãos brancas com bons anéis, bom automóvel, amigas para o gozo e criadas para todo o serviço que vinham buscar aos viveiros da plebe, cabritos gordos que se criavam nos ferregiais, e trutas que eles serranos estavam proibidos de pescar nos seus rios. Que maiores carrascos e ladrões!?
Esta era a noção que tinham do Governo. O Governo não era formado por um corpo de homens bons e sábios, com função directiva, reguladora e distribuidora dos bens comuns, e atentos à promulgação e defesa do direito? Qual quê? Bandoleiros das encruzilhadas e gorgulhos silenciosos das arcas e larvas da carne é que eles eram!
- Morram! - rouquejava a voz irosa pelas vielas das dez aldeias.
Uma vez a correr o rumor de que o Governo ia tomar posse da serra, o problema transcendia para o terreno do assalto e roubalheira à mão armada. Em brejos e chapadas, os roçadores endireitavam a suã e, queixo por cima dos punhos, apoiados ao cabo da roçadoira, olhos em alvo, quedavam-se a considerar. Alguns amortalhavam o seu paivante. Os mais jogaram fora a enxada:
- Se me hão-de levar o mato, já não roço mais. Puta que os pariu!
Foram-se juntando e alagando os ecos com sua grita de incêndio.(...) Tudo a postos, sem que soasse o clarim! Ia-se ver quem os tinha no seu lugar. Parada da Santa era a sede do quartel general, uma vez que ali residia o mais afoito e denodado dos serranos, homem de cabeça e de pulso, o João Rebordão. Este, por fas ou por nefas, estava arvorado em caudilho. Mas ele queria e, tomando a investidura a capricho, desatou a dar ordens de alevante.
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Aquilino Ribeiro in "Quando os lobos uivam", Livraria Bertrand, Lisboa, 1974, pp 196 - 197.
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02/03/10

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Io ero un ucello
dal bianco ventre gentile,
qualcuno mi ha tagliato la gola
per riderci sopra,
non so.
Io ero un albatro grande
e volgeggiavo sui mari.
Qualcuno ha fermato il mio viaggio,
senza nessuna carità di suono.
Ma anche distesa per terra
io canto ora per te
le mie canzoni d'amore.

Alda Merini in "A Terra Santa", Edições Cotovia, Lisboa, 2004, p 38.

(Tradução de Clara Rowland:

Eu era um pássaro
com o branco ventre gentil,
alguém me cortou a garganta
para se rir,
não sei.
Eu era um grande albatroz
e pairava sobre os mares.
Alguém deteve a minha viagem,
sem qualquer caridade de som.
Mas mesmo estendida no chão
eu canto agora para ti
as minhas canções de amor.

Alda Merini, op. cit., p 39.)
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01/03/10

Mary Renault (com o cão no colo) e Julie Mullard.
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Ninguém possui os deuses. Mas há alguns que eles escolhem para mais perto de si. Não o esqueci.
Encostado a uma parede na sala de audiências em Zadracarta, observei-o numa audiência que concedeu aos macedónios(...) quando um correio entrou com mensagens da Macedónia.(...)Enquanto as abria, Heféstion aproximou-se e sentou-se a seu lado. Dei um suspiro mais forte: isto ultrapassava todos os limites. No entanto, Alexandre limitou-se a passar-lhe alguns rolos para a mão.
Não estava muito longe de mim, por isso ouvi Alexandre quando ele pegou na carta maior: "É da Mãe", e suspirou.
"Lê-a já", disse Heféstion.
Embora o odiasse, entendia porque razão as mulheres de Dario lhe prestaram honras na confusão da sua dor. Segundo os nossos cânones persas, suponho que era o mais belo; era o mais alto, com feições raiando a perfeição. Quando o seu rosto se quedava em silêncio, era de uma gravidade onde se insinuava a tristeza. O seu cabelo era de um bronze brilhante embora mais áspero do que o meu.
Alexandre abrira entretanto a carta da Rainha Olímpia. Heféstion apoiando-se no seu ombro leu-a também.
Através da minha amargura percebi que tal chocara os próprios macedónios. Os seus murmúrios chegavam até mim. "Quem é que ele pensa que é?","Claro que todos o sabemos mas não é necessário gritá-lo aos quatro ventos."(...)
Aquilo que ele possuíra, jamais voltaria a ser de outro. O seu direito era honrado; que podia ele desejar mais?(...) Nessa noite, sentia-me confuso num misto de dor e culpa. Perdi então a noção de equilíbrio e experimentei um truque que aprendera em Susa, o tipo de coisas que nunca lhe passaria pela cabeça que eu sabia...
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Mary Renault in "O Jovem Persa", Assírio & Alvim, Lisboa, 1991, pp 136 - 138.
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28/02/10

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"Peregrino"


Teu destino é andar
pelo mundo

Estar a caminho

Bater às portas dos palácios
perguntar
se mora alguém

Que o pão da poesia
não falte na tua mesa incerta

Manuel Silva-Terra In "o que sobra", Editora Casa do Sul, s/c, 2008, p 43.
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27/02/10

"dar-lhe essa certeza de se achar em casa"

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quantas vezes quem se afasta não sabe regressar
porém sem que suspeite a sua morada segue-o
e mesmo perdido não se encontra longe

tudo é uma questão de realidade
assim os peregrinos mais que os aventureiros
são reais

num tempo que se agita é um bem estar parado
num tempo de homens lentos é melhor a agilidade
deste modo a quietude conhece o movimento
e o movimento transporta o Deus imóvel

mesmo nas cidades mais ignorantes
é possível e é belo ritmar o coração
dar-lhe essa certeza de se achar em casa

os furtivos os trânsfugas os vertiginosos
não fogem nem caem - apenas são errantes
enganam-se de morte e não sabem o lugar

Carlos Poças Falcão in "A Nuvem", Pedra Formosa, Guimarães, 2000, p 70.
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26/02/10


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Para sobreviver, nunca precisei dos conhecimentos máximos;
tão pouco das horas que se misturavam com os meandros
com os altos e baixos da vida; com a infância que desejei ter vivido;
com a gente que me rodeou, ou que ajudei a que me rodeassem
naquela pontualidade extrema
que foi sempre um dos meus sagrados defeitos. A partir daí
fui de encontro à expressão que julguei coerente e sincera
tentando compreender as ajudas e os apoios
os sentimentos de aproximação e as rejeições
os dogmas e os círculos que se abriam e fechavam
conforme os desejos e os entendimentos.
Tudo isso procurei apreender. No melhor e no pior.
Com dificuldades maiores ou facilidades menores.
No entanto...

José Manuel Capêlo in "A Noite das Lendas", Aríon Publicações,
2000, p 26.
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25/02/10

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    "Alhambra"


Deitado
à sombra das laranjeiras
em flor
posso esperar
que caia a última
pétala branca sobre os olhos
e os feche para sempre

Manuel Silva-Terra in " o que sobra", Editora Casa do Sul,
s/c., 2008, p 27.
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23/02/10

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       "Amazigh"


Caminhas quase sem te moveres
os campos estendem um corpo
colado ao teu
em íntima escuridão
Quando avanças ponte fora
um dos teus ombros brilha como marfim

Nós não os ouvimos
mas os desertos, os oceanos, os cimos remotos
ensinam-te finalmente o que não entendes

Descobres uma casa
noutras direcções
a igual distância
da vida que deixamos para trás

José Tolentino Mendonça in "O Viajante Sem Sono", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2009, pp 35 - 36.
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22/02/10

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fait-on la chasse aux colombes?

je m'assieds au second rang
ma vue de là porte plus loin
mes oreilles entendent mieux
et ma voix résonne plus fort
l'amertume ne me ronge pas
je ne me pousse pas du coude
je prends mieux mes aises qu'au premier rang

comment tirer sur les colombes?

de ma chaise tournante
je mesure à merveille les crânes chauves
et les ventres obèses
subtil est le mensonge
qui dit que moi Ali Podrimja
je suis un citoyen de second rang
de la planète ka ka

vrai chasse-t-on les colombes?

Dieu me garde
de siéger au premier rang
flanqué de pierres tombales
et de tirer sur les colombes

Ali Podrimja in "Défaut de verbe" (édition bilingue), Cheyne Éditeur,
Le Chambron-sur-Lignon, 2000, p 95 (Tradução do albanés para o
francês de Alexandre Zotos.)
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21/02/10

"neste assombro de navegar e dar a volta ao mundo"

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Estou na página. neste falso regaço materno
neste assombro de navegar e dar a volta ao mundo
da maneira mais estranha

as crianças vêm aconchegar-se aqui
quase sempre tristes,

esmagam a luz nos olhos
de tanto sonho e escuridão

só quero sentir esta luz. esta luz que amei
e perdi

Maria Azenha in "de amor ardem os bosques", ed./autor, 2010, p 60.
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20/02/10

"durante anos treinei o lúmen do coração"

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Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio
há uma ave onde este texto se apoia.
fecho os olhos, e o poema traz para este lugar
o búzio dos cofres

escrevo em filigranas de ar
secretas harpas de sombra
onde as primeiras letras ousam pousar.
durante anos treinei o lúmen do coração
em cântaros de sol subindo os primeiros degraus

depois habituei-me à confidência das aves
pousada na inteligência dos bosques
movidos a vento e água,
acácias entre mãos

por último a ciência da respiração
no sumo das auroras

Maria Azenha in "de amor ardem os bosques", ed./aut., 2010, p 30.

Nota - este livro, a não perder, pode ser adquirido através do endereço colocado no blogue da autora.
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19/02/10

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"souvenir de ma mère et de la lune"


quand la lune se levait au-dessus du mont Tchabrat
ma mère disait:
ta soeur s'est mise à la fenêtre

je prenais mon écharpe une cruche d'eau
et m'en allais pieds nus par la verte colline
sécher les larmes de ses yeux
essuyer ses joues pâles

quand la lune dévêtue
disparaissait dans les eaux de l'Erénik
je me laissais glisser en bas du mont Tchabrat
gardant en main sa jupe déchirée

ma mère alors se renfermait en elle-même

puis j'empoignais le marteau de mon père
brisais l'insoutenable silence
et tout le quartier dressait ses oreilles de choux
et tout le quartier implorait Dieu

ma mère souriait alors:

quand tes pas soulèvent la poussière
je te sais fruit de mes entrailles
je te sais vivant

il advint que ma mère fut changée en oiseau
et le ciel noir s'abattit sur notre toit
j'entrepris un jour de rassembler ses mots épars
puis je m'en fus de par le monde seul coupé de tout

la lune dit-on ne paraît plus au-dessus du mont Tchabrat
ni ne descend le cours de l'Erénik
peut-être éclaire-t-elle le chemin de ma mère

Ali Podrimja in "Défaut de verbe", Cheyne Éditeur, Le Chambon-sur-Lignon,
2000, pp 45 - 47 (Traduzido do albanês para o francês por Alexandre Zotos).
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18/02/10

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"20030407"
Petite histoire d'orphée au portugal
(A broken orgy of verbomania)
Mudada livremente para português
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1.
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Um dia em que orfeu acordou com a mosca
A mosca vai e acordou a musa
Que estremunhada de ralada disse:
Vade retro mosca-demo
Mai-lo orfeu que te carregue;
Ide lá ide lá
Lirar a outra freguesia!
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Orfeu bem mandado tomou a lira
E meteu-se co'a mosca no inferno:
Là-bas, je ne sais où, em francês de musa
Any where out of the world, em inglês de museu.
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2.
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Assim que o tejo encontra o estige
Que vai no verso correndo stix
A mosca salta pulga à orelha
Do velho sticadíssimo cerbereu
Cria das ceres e do teu
Que para bellum ao portão
De ródão arrojado
Não cuidava de ser cuidado.
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Ferocíssima besta - o cão
No comboio descendente
De palmela a portimão
Vinha a todos dando a trela
Uns pasmados outros no chão
Uns por verem nele o diabo
E os outros enfim então.
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3.
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Orfeu da conceição
Vindo em morro descaído
Caiu morto no samba
Acabado de chegar, caramba,
Ao carnaval de olhão.
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Dlim
Dlão.

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Jorge Fazenda Lourenço in "Cutucando a musa",
Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2009, 41 - 42.
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"20031213 (2)"

Também tu, musa,
Traído nesta língua
Último nó no laço
Do fato contrariado
Escravo dela me fazes
Putinha alada
Purinha.

Jorge Fazenda Lourenço in "Cutucando a musa",
Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2009, p 26.
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17/02/10

"Exorcizando sustos/ que eu próprio espantava. "

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"Para o meu bem"

Os pais tudo fizeram
para o meu bem.
Amparando quedas
da metafórica bicicleta.
Exorcizando sustos
que eu próprio espantava.
Dizendo, sem dizer,
a razão que tinha Agostinho.
Mostrando, sem mostrar,
a ética diferença.
Os pais tudo fizeram
para o meu bem.
A quem posso eu sair?

Pedro Mexia in "Vida Oculta", Relógio D'Água Editores,
Lisboa, 2004, p 30.
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"Feminina"


Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.
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Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer "potins" - muito entretida.
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Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.
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Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...
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Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me recusar
........
Ah, que te esquecesses sempre das horas
Polindo as unhas -
A impaciente das morbidezas louras
Enquanto ao espelho te compunhas...
.........
A da pulseira duvidosa
A dos anéis de jade e enganos -
A dissoluta, a perigosa
A desvirgada aos sete anos...
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O teu passado, sigilo morto,
Tu própria quasi o olvidaras -
Em névoa absorto
Tão espessamente o enredaras.
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A vagas horas, no entretanto,
Certo sorriso te assomaria
Que em vez de encanto,
Medo faria.
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E em teu pescoço
- Mel e alabastro -
Sombrio punhal deixaria rasto
Num traço grosso.
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A sonhadora arrependida
De que passados malefícios -
A mentirosa, a embebida
Em mil feitiços...
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Mário de Sá-Carneiro in "Poemas Completos", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2005, pp 144 - 146.
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16/02/10

A Poesia da Catalunha: JOAN ALCOVER (1854-1926)...

" LA BALANGUERA" por MARIA DEL MAR BONET

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La balanguera misteriosa,
com una aranya d'art subtil,
buida que buida sa filosa,
de nostra vida treu el fil.
Com una parca bé cavil.la,
teixint la tela per demà.

La balanguera fila, fila,
la balanguera filarà.

Girant la ullada cap enrere
guaita les ombres de l'avior,
i de la nova primavera
sap on s'amaga la llavor.
Sap que la soca més s'enfila
com més endins pot arrelar.

La balanguera fila, fila,
la balanguera filarà.

Quand la parella ve de noces,
ja veu i compta ses minyons;
veu com davallen a les fosses
els que ara viuen il.lusions,
els que a la plaça de la vila
surten a riure i a cantar.

La balanguera fila, fila,
la balanguera filarà.

Bellugant l'aspi el fil cabdella,
i de la pàtria la visió
fa bategar son cor de vella
sota la sarja del gipó.
Dins la profunda nit tanquil.la,
destria l'auba que vindrà.

La balanguera fila, fila,
la balanguera filarà.

De tradicions i d'esperances
tix la senyera del jovent,
com qui fa un vel de nuviances
amb cabelleres d'or i argent
de la infantesa qui s'enfila,
de la vellura qui se'n va.

La balanguera fila, fila
la balanguera filarà.

Joan Alcover In "Antologia de Poesia Catalana" (a cura d'Isidor Cònsul
i Llorenç Soldevila), Raval Ediciones SLU Proa, Barcelona, 2008, pp 152 - 153.
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15/02/10

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Só no sonho os meus dias se consentem
A um nome se reduz
esta ânsia de ser
presença viva do meu gesto outrora

Eu não sei de outro nome para a ternura.

Amélia Pais
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14/02/10

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Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

Na escuridão do mar
brancos
gritos de gaivotas


Matsuo Bashô in "O gosto solitário do orvalho", Assírio & Alvim, Lisboa,
1986, p 51 ( Versão de Jorge de Sousa Braga).
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13/02/10

Do capítulo "Os Sinais"...

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"XIII"

Porque te vou erguendo ó torre de papel
se cada vez comigo a sós menos me entendo

David Mourão-Ferreira In "Obra Poética - 2º Vol.",
Livraria bertrand, Amadora, 1980, p 119.
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11/02/10

"Desalento e persistência na poesia de Alice Fergo"

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Este novo livro de Alice Fergo parte de uma preocupação fundamental - a de narração: "Resumo em poucos meios o que suponho ouvir" (p. 10), "Para que me sigas não devo acrescentar mais nada." (p. 11), "Desdobro planos. Volto às fundações. Encontro a candura floral da polpa e, com dedos de leite, esfrego-a no corpo." (p. 26). Neste último excerto vislumbra-se a razão principal, e última, desta narratividade, bem como os intentos da procura que nesta obra se exibem: procuram-se as fundações, "o horizonte" (p. 13), "a nascente" (p. 25), "a cidade" finalmente conquistada (p. 53). Vê-se, portanto, que a busca empreendida, bem como a apresentação ao leitor do itinerário que ao eu-poético coube em sorte, têm por objectivo essa nascente de onde flui o rio referido no título do livro; esse solo matricial onde esta poesia pretende entrever o sentido do devir, da vida, metaforizados ambos na figura do rio.
O desvelamento desta aventura de ao mesmo tempo ser e dizer não é contudo linear, bem ao gosto de certas poéticas alicerçadas em paradigmas de cariz imediatista. Em Alice Fergo é a própria linguagem que é experienciada, pois a poeta sabe que a palavra, em seu elíptico falar, apenas por aproximação diz: "Difícil saber o guião todo. Incerto o travo das falas. Metade escuro. Metade claro" (p. 9), "Não vou contar o que imagino saber - um sentimento não se diz assim. As palavras mal recriam o que as funda. Servem a elipse" (p. 44). Consciente da vária perigosidade dos símbolos linguísticos e do grau de imprevisibilidade daquilo de que pretende falar, Alice Fergo recorre a alguns procedimentos formais que visam articular a complexidade daquilo que urge dizer com a beleza do modo como tal é feito; por conseguinte encontramos nesta obra - aliterações: "Brumoso. Bruxo..." (p.15), "A lua lambe os limos fétidos." (p. 16); oximoros: "...meninas velhas..." (p. 20); processos de tipo anafórico: "Digo o erro de amor. A ferida de ver (...); digo o mar alojado nas têmporas..." (p. 22), "E a água mói. E a água insiste. E a água não tem verbo que a escorra." (p. 45); personificações: "O rio vê tudo com uma visão faraónica e, de tempos a tempos, conta as águas pelas constelações do reino." (p. 27); enumerações (de seres concretos): "A concha. A cratera. A mulher que nascia de si pela evidência de um beijo..." (p. 28). A maestria na urdidura desta obra e, consequentemente, o excelente domínio do código linguístico, levam muitas vezes Alice Fergo a enveredar por sendas bem mais heterodoxas: "... nunca percepcionei o conflito à história. Intrigo-a" (p. 11) - atente-se à especular plurisignificação do verbo "intrigar" neste excerto; "Vou de muito longe " (p. 12) - mais do que ampliar a abrangência do verbo "ir", a poeta joga aqui com um processo de homofonia, nomeadamente com a palavra "voo"; adjectivação de carácter antitético e/ou contraditório: "... o amor é odioso..." (p. 19), "... um espinho doce." (p. 28), "... a impura sacerdotisa..." (p. 29); etapas de metaforização muitas vezes estabelecidas a partir de objectos do real imediato, do quotidiano: "Faço a sopa da minha existência." (p. 40), "Na rua um gato indiferente aos semáforos atravessa a luz." (p. 43); a afirmação de um léxico à revelia de uma tradição poética: "Sei de bisontes que pegaram no sono em salas rupestres..." (p. 54), esta associação do bisonte à força raramente foi usada na poesia portuguesa das últimas décadas - veja-se, por exemplo, a página 20 de "O jogo dos silêncios" de Maria Alberta Menéres. Depois de tudo o que temos vindo a dizer, não se pense que o novo livro de Alice Fergo tem por objectivo a demonstração de um qualquer virtuosismo formal, a frívola exibição de uma prestidigitação gratuita - é outra a nossa leitura: se a poeta usa todos os recursos que a língua lhe permite, é porque antevê árduo o seu duplo desígnio de procurar e de, ao mesmo tempo, narrar esse caminho que a sua lucidez lhe vai ditando: "Ó Minotauro, para quando o horizonte?!! (p. 13), "Volta não volta sangro-me." (p. 21), "O meu delírio não é negociável..." (p. 23). Este delírio do eu-poético, ou melhor, esta lucidez, não é mais do que a coragem de, no tempo, "junto às horas", procurar os momentos em que "se ilumina um rio"; viver e contar esses instantes-fulgor em que nosso solo matricial e dador de sentido afinal se deixa entrever.
Neste seu périplo poético vários são os estados de alma que podem ser encontrados na autora: a imprecação (cf. p. 13); a estranheza, "Dou corpo a enigmas. Recebo-os como se viessem à boca certa." (p. 29), "Estou a pontos de descobrir o que escondo, algures..." (p. 32); a nostalgia (cf. p. 16); o desalento e o desencanto: "... nua até ao infinito. Só." (p. 17), "O que poderá o futuro contra este exílio..." (p. 37), "Junto à lareira, nada que desarme as horas das suas armadilhas. Já tudo foi vivido pelos salteadores." (p. 66); a ironia amarga: "... aqui, a intriga, segundo o evangelho de Brutus." (p. 25), "Tudo me é familiar até ao fundo do prato." (p. 40); mas encontramos também momentos em que uma luminosa candura aflora: "Viagem pelos frutos dentro, aqui me tens! Aqui me entrego à substância quase divina dos dias e sou até quando." (p. 26); "Avó beija-flor - endiabrada voadora - se não te guardo, o futuro desmerece as asas do teu estro (...) Deixa que tudo arrefeça e volta noutro livro, devagarinho. Como as santas." (p. 33).
Se a narratividade se nos apresenta como um "cântico cercado" (cf. p. 63) e a busca empreendida por Alice Fergo nos aparece marcada essencialmente pelo desalento, já que os salteadores de tudo parece terem-se apoderado, dir-se-ia estarmos frente a uma poética marcada por um cepticismo radical. Mas é então que, exímia no manejo da arte poética, a poeta nos lança um último poema de cariz epigramático: "Sol. Corpo sideral em cima da mesa, a que vens?", reabrindo assim o leque de possíveis nessa dialéctica de desalento e persistência que afinal sempre houvera e que uma leitura outra facilmente recupera: "... ninguém duvidará da semente que absorve os pântanos e emerge à procura de um nome: nenúfar ou anjo ressurgido, assim nós" (p. 47). É como se a clarividência e a extrema mestria poética de Alice Fergo nos tivesse querido dizer, nesta sua conseguida obra: naquilo que em nós, e fora de nós, é, fundamentalmente desalento, talvez o sol ainda... Ou, como o título livro tão bem enfatiza: ainda aqui e ali, junto às horas, e apesar de tanta coisa acontecida, é possível que se ilumine esse rio que somos e onde somos chamados a estar.
A tese acima avançada remete-nos para o último nó temático deste texto-posfácio: o diálogo que este livro vem sempre mantendo com outros autores e áreas do saber. São várias as pontes estabelecidas com a História e a Mitologia. Quanto a autores existem situações de intertextualidade com Stendhal: "... por quem morres de morte serpentina entre a paixão do negro e do vermelho" (p. 27), de diálogo com a obra "As Cidades Invisíveis" de Italo Calvino (cf. p. 53). Mas é sobretudo com o discurso cinematográfico que essa forma de diálogo é mais nítida desde títulos de filmes tomados como referentes: "Johnny Guitar" (p. 41), "O Sabor da Cereja" (p. 51), passando pelos referidos momentos de intertextualidade, como o que é mantido com a pelicula "A Guerra das Rosas": " Talvez convalescenças da guerra das rosas e de outras lanças" (p. 46) e no poema "A palavra" com o filme homónimo de Carl Dreyer, "Agora, ela quer Deus, quer a sua palavra: quer o átomo da seda, o algodão doce, a música das árvores. Coisas assim, abençoadas, fáceis." (p. 62). Alice Fergo, que em vários dos seus poemas alude ao léxico cinematográfico ("The End" p. 4, "Ecrã a negro" p. 48...), diz-nos mesmo: "Quem lê, divaga, filma." (p. 31), "Filmo. Não legendo. Filmo. Absorvo a imagem e estimulo as fontes" (p. 42). Perante a radicalidade desta pretensão percebe-se o fascínio da poeta pela obra de Abbas Kiarostami, onde também um homem marcado pelo desalento e pelo desencanto acaba por reaprender a virtude da persistência ("Sei do sabor da cereja- almas de cerejeira são pecados encerados de sol." p. 54), aprendizagem essa mediatizada por uma figura anunciadora, que, após um ritual quase iniciático, lhe (re)ensina a olhar as estrelas. Em Kiarostami, como em Alice Fergo, quando tudo parecia absoluta esterilidade e anunciada desolação, eis que algo, rasgando o tão conhecido cenário, irrompe como "Visitação": "Sol. Corpo sideral em cima da mesa, a que vens?"
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Victor Oliveira Mateus in "Quando junto às horas se ilumina um rio" de Alice Fergo, Editora Labirinto, Fafe, 2009, pp 69 - 74.
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09/02/10

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C'est deux jours après cette lettre retrouvée que vous m'avez télèphonè, ici, aux Roches Noires, pour me dire que vous allez venir me voir.
Votre voix ao télèphone était légèrement altérèe comme par la peur, intimidée. Je ne la reconnaissais plus. C'était... je ne sais pas le dire, oui, c'est ça, c'était la voix de vos lettres que j' inventais justement, moi, quand vous aviez télèphoné.
Vous aviez dit: Je vais venir.
J'ai demandé porquoi venir.
Vous avez dit: Pour se connaìtre.
À ce moment-là de ma vie, que l'on vienne me voir ainsi, de loin, c'était un événement effrayant. Je n'ai jamais parlé, c'est vrai, jamais de ma solitude à ce moment-là de ma vie.(...)
Vous m'aviez dit qu'après ce coup de téléphone vous m'aviez téléphoné plusieurs jours d'affilée, que je n'étais pas là.(...)
Je vous ai encore demandé: Venir pourquoi? (...)
J'ai demandé quand vous arriviez. Vous avez dit: Demain dans la matinée, le car arrive à dix heures et demie, je serai chez vous à onze heures.
C'est du balcon de ma chambre que je vous ai attendu. Vous avez traversé la cour des Roches Noires.
J'avais oublié l'homme de India Song.
Vous étiez une sorte de Breton grand et maigre. Vous étiez élégant me semblait-il, très discrètement, vous ne saviez pas que vous l'étiez, ça ce voit toujours. (...)
C'était donc onze heures du matin, au début du mois de juillet.
C'était l'été 80. L' été du vent et de la pluie. L' été de Gdansk. Celui de l'enfant qui pleurait. Celui de cette jeune monitrice. Celui de notre histoire. Celui de l'histoire ici racontée, celle du premiére été 1980, l'histoire entre le très jeune Yann Andréa Steiner et cette femme qui faisait des livres et qui, elle, était vieille et seule comme lui dans cet été grand à lui seul comme une Europe.
Je vous avais dit comment trouver mon appartement, l'étage, le couloir, la porte.(...)
Et puis ça a été les coups à la porte et puis votre voix: C'est moi, c'est Yann.(...)Vous avez répété: C'est moi Yann. Avec la même douceur, le même calme.(...)
J'ai ouvert.
On ne connaît jamais l'histoire avant qu'elle soit écrite.(...)
On a parlé pendant plusieurs heures.
Toujours des livres on a parlé. Toujours, pendant plusieurs heures.(...)
Et puis le soir est venu. Je vous ai dit: Vous pouvez rester là, vous pouvez dormir dans la chambre de mon fils, qu'elle donnait sur la mer, que le lit était fait.(...)
Le premier soir vous avez dormi dans la chambre qui donne sur la mer. Aucun bruit n'est venu de cette chambre comme quand j'étais seule.(...)
Il y avait votre voix. La voix d'une incroyable douceur, distante, intimidante, comme à peine dite, à peine perceptible, comme toujours un peu distraite, étrangère à ce qu'elle disait, séparée. Encore maintenant, douze ans après, j'entends cette voix que vous aviez. Elle est coulée dans mon corps. Elle n'a pas d'image. Elle parle de choses sans importance. Elle se fait aussi.(...)
Vous vous êtes assis de nouveau face à moi et vous avez dit:
- Vous n'écrirez jamais l'histoire de Théodora?
J'ai dit que je n'étais jamais sûre de rien quand à ce que j'allais ou non écrire.(...)
Vous avez eu des larmes dans les yeux.(...)
On s'est couchés avec la lune dans le ciel sombre et bleu. C'est le lendemain qu'on a fait l'amour.
Vous êtes venu me rejoindre dans ma chambre. Nous n'avons pas dit un mot.
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Marguerite Duras in "Yann Andréa Steiner", Gallimard, Paris, 1992, pp 13 - 26.
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Sei o som dos passos
com que regressas a casa.
No quarto virado a norte,
a prevenir-nos de todos os invernos,
aguardo que prolongues em mim
a tua sombra intacta.
De frutos doces me enfeito.
Uma luz quase clandestina
inunda minhas margens
e deixa-me um rio no vinco da cintura.
O teu desejo terrivelmente puro!

Graça Pires in " O silêncio: lugar habitado", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 28.
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08/02/10

"não, não tragas a alma,/ animal sempre volátil"

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deixarei as luzes acesas
para que saibas o caminho
de regresso ao meu corpo,
não, não tragas a alma,
animal sempre volátil,
perfume fútil.
sacrifica antes uma onda
antes da noite,
um milagre para migrar
com outras aves daninhas,
vem, dá-me o fruto e a semente,
aquele lugar no corpo
onde a fonte cresce ao ar
e a nudez se faz mais pura.

João de Mancelos in "Línguas de Fogo", MinervaCoimbra,
Coimbra, 2001, p 50.
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"O meu compromisso não é contigo "

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O meu compromisso não é com a memória
com os pedaços de pele
que deixei na boca dos cães
com a inquietação das ondas
que me temperaram de sal e tempestade

O meu compromisso não é com o riso
nem com os gritos nem com as lágrimas
O meu compromisso não é com os olhares
com os murmúrios com o vento

O meu compromisso não é contigo
por mais que eu te ame
e sejas o voo da minha liberdade

O meu compromisso místico e solene
é com o corpo exacto fugidio sedutor
equívoco imperativo do não dito

O meu compromisso
é com as palavras.

Rosa Lobato de Faria In "Poemas Escolhidos e Dispersos", Roma Editora,
Lisboa, 1997, p 78.
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07/02/10

"o teu nome entrelaçado/ nos meus dedos..."

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"prece do mareante à estrela aldebaran"

aldebaran, ilha de luz,
peixe voador à entrada da noite,
bendita sejas entre as aves incendiadas
e abençoado o naufrágio do teu lume.
como o sal foi feito para os lábios,
como o oceano teme a terra,
como um rio regressa à estrela,
é dentro de ti, aldebaran,
que eu atravesso o fim da noite.
e cego, cego de tanto mar,
eu, ulisses, adormeço,
uma gaivota morta em pleno voo,
o teu nome entrelaçado
nos meus dedos, aldebaran,
sonhando ilhas por dizer.

João de Mancelos in "Línguas de Fogo", MinervaCoimbra, Coimbra, 2001, p 28.
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06/02/10

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Aqui, olhando as pessoas ao acaso,
vêm-me à lembrança aqueles dias
em que os nossos olhos se ajustavam
e tu lias, em voz alta, os autores
da nossa preferência.
Recordo isto, como um tempo
em que os pássaros vinham,
em grandes círculos, sobrevoar
a imprevisível alegria,
tecida por nossas mãos,
para iluminar, sobre a mesa,
as flores tardias de maio.

Graça Pires In "O silêncio: lugar habitado", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 11.
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05/02/10

"Esta alma, que sedenta em si não coube "

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Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

Bocage In "Poesias", Círculo dos Leitores, s/c, s/d, p 98.
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04/02/10

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Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!

Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera da maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
Clamam todos à uma: "Agôra! agôra! agôra!"
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

Senhora Nagonia!

Olha, acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!

Senhora Daguarda!

(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!

Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Calluda!
Sêmos probes!
Senhor dos ramos!
Istrella do mar!
Cá bamos.

Parecem Nossa Senhora, a andar.

Senhora da Luz!

Parece o Farol...

Maim de Jesus!

É tal-qual ela, se lhe dá o Sol!

Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!

Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...

Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matuzinhos!

Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vascos da Gama, que andam a ensaiar...

Senhora dos aflitos!
Martyr São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Bamos em paz!

Ó lanchas, Deus nos leve pela mão!
Ide em paz!

Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes
"As armas e os varões assinalados..."

Lá vai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira...
Como ela corre! com que força o Vento a impele:

Bamos com Deus!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...

Adeus! adeus! adeus!

António Nobre In "Só", Publicações D. Quixote, 2009, pp 35 - 37.
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03/02/10

" que não saber voar/ foi sempre a minha lei."

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Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a noite é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.

Rosa Lobato de Faria In " Poemas Escolhidos e Dispersos",
Roma Editora, Lisboa, 1997, p 27.
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02/02/10



ATÉ BREVE !!!
(Durante dois anos habitámos o mesmo prédio. Aquele no topo da rua. Agora com a fachada já esfacelada. Eu e a Ana alugaramos o quarto andar, ela vivia num outro, mais abaixo. Depois os anos passaram... Reencontrei-a através de uma amiga comum, já ela era enorme, apesar da muita inveja que a cercava. Houve episódios originais, como aquele em que eu troquei um livro e, passados dias, o telefone tocou:
- Ó Victor Mateus...
- Como está R.?
- É só para lhe dizer que não me chamo Júlio Cunha!
- Ah, troquei os livros! - Ria eu - R., faça-me um favor: leve o livro para o seu lançamento e trocamos lá... - Creio que o meu ar desajeitado e perdido a desarmava. Gostava dela... sem precisar de lhe falar de uma antiga vizinhança.)
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01/02/10

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Doente, desmamado à força aos nove meses, a febre e o embrutecimento impediram-me de sentir a última tesourada que corta os laços entre a mãe e o filho; mergulhei num mundo confuso, povoado de alucinações simples e de frustes ídolos. À morte de meu pai, Anne-Marie e eu despertámos de um pesadelo comum: sarei. Mas ambos éramos vítimas de um mal-entendido: ela reencontrava com amor um filho que jamais abandonara realmente; eu voltava a mim no regaço de uma estranha.
Sem dinheiro nem profissão, Anne-Marie decidiu regressar a casa dos pais. Mas o insolente passamento de meu pai desgostara os Schweitzer: assemelhava-se demais a um repúdio. Por não ter sabido prevê-lo nem preveni-lo, minha mãe foi tida como culpada; tomara, tontamente, um marido que não durarara.(...) meu avô, que tinha pedido a reforma, retomou o serviço sem uma palavra de censura; minha avó, por sua vez, mostrou discreto triunfo. No entanto, Anne-Marie, gelada de gratidão, adivinhava o vitupério sob a capa dos bons procedimentos: as famílias, sem dúvida, preferem as viúvas às mães solteiras, mas por pouco. A fim de lograr o perdão, Anne-Marie gastou-se sem medida, dirigiu a casa dos pais, em Meudon e depois em Paris, fez-se governanta, enfermeira, mordomo, dama de companhia, criada, sem conseguir desarmar o mudo agastamento de mãe.(...) Louise começou a sentir ciúmes da filha. Pobre Anne-Marie: passiva, teria sido acusada de constituir um fardo; activa, era suspeita de querer mandar na casa. Para evitar o primeiro escolho, precisou de toda a coragem; para evitar o segundo, de toda a humildade. Não passou muito tempo até que a jovem viúva regressasse à menoridade: uma virgem maculada. Não lhe recusavam o dinheiro miúdo: esqueciam-se de lho dar; usou o seu guarda roupa até ao fio sem que o meu avô se lembrasse de o renovar. Mal toleravam que saísse sozinha.(...)Os convites rarearam e minha mãe desgostou-se de prazeres tão custosos.
A morte de Jean-Baptiste foi o grande acontecimento da minha vida: devolveu minha mãe aos seus grilhões e deu-me, a mim, a liberdade.
Não há bom pai, é a regra; que não se faça disso agravo aos homens, mas ao laço de paternidade que apodreceu. Fazer filhos, não há coisa melhor; tê-los, que iniquidade! Houvesse vivido, meu pai ter-se-ia deitado sobre mim a todo o comprimento e ter-me-ia esmagado. Por sorte, morreu jovem(...); deixei atrás de mim um jovem morto que não teve tempo de ser meu pai e que bem poderia ser, hoje, meu filho. Foi um mal? Um bem? Não sei; mas subscrevo de bom grado o veredicto de um eminente psicanalista: não tenho Superego.
(...) Meu pai tivera a gentileza de morrer erradamente: minha avó repetia que ele se furtara às suas obrigações; meu avô, justamente orgulhoso da longevidade Schweitzer, não admitia que alguém desaparecesse aos trinta anos; à luz desse óbito suspeito, acabou por duvidar que o genro tivesse alguma vez existido e, por fim, esqueceu-o. Nem precisei sequer de o esquecer: despedindo-se à francesa, Jean-Baptiste recusara-me o prazer de o conhecer. Ainda hoje me espanto do pouco que sei a seu respeito(...) Mas em relação a esse homem, ninguém, na minha família, soube tornar-me curioso.(...) Mais do que filho de um morto, deram-me a entender que eu era filho do milagre. Daí provém, sem dúvida alguma, a minha incrível leviandade. Não sou um chefe, nem aspiro a sê-lo. Comandar e obedecer dão no mesmo. O mais autoritário comanda em nome de outro, de um parasita sagrado - seu pai -, e transmite as abstractas violências de que padece. Nunca na minha vida dei ordens sem rir, sem fazer rir; é que não estou roído pelo cancro do poder; não me ensinaram a obediência.
A quem obedeceria eu? Mostram-me uma jovem gigante e dizem-me que é a minha mãe(...): Amo-a: mas como havia de a respeitar, se ninguém a respeita?
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Jean-Paul Sartre In "As Palavras", Livª Bertrand, Amadora, s/d, pp 17 - 21.
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31/01/10

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                            "Made in China: um instântaneo de Macau"


Talvez primeiro seja o calor. Para quem gosta dele. Envolve-nos mal pomos o pé fora do jetfoil, como um abraço confortável e húmido que se cola à pele. É um calor denso e pesado, que não dá tréguas, que entra na respiração a parece conseguir chegar até à alma. Claro que há quem não o suporte. Comigo foi o reencontro com uma sensação perseguida, entrevista, de outras terras e lugares com os quais o primeiro embate é físico e só depois racional.
A seguir talvez seja o movimento incessante, qualquer coisa que pulsa duma vitalidade colorida, simultaneamente berrante, suja, kitsch e harmoniosa. Os milhares de néones, a desordem barroca do inexistente ordenamento territorial, os prédios e lojas encavalitados, as ruas labirínticas. As ruas por detrás das ruas principais a levar-nos de imediato para um território obscuro, mais silencioso, mais cinzento. Os rostos inexpressivos, as pessoas que passam por nós lado a lado nem curiosas, nem hostis, que apenas parecem não nos ver. Deambula-se facilmente por esta cidade com essa sensação de estar noutra dimensão, paralela e, como tal, impenetrável. E talvez esse seja o segundo trunfo de Macau - a liberdade de pisar um chão ao mesmo tempo familiar e estranho. Porque a sensação é de familiaridade, não haja equívocos. A calçada portuguesa, da qual só nos apercebemos ao fim de algum tempo, de tão próxima, a toponímia feita de palavras conhecidas e por vezes um pouco deslocadas, como se tivessem deslizado de outro tempo e chegado até aqui ao século vinte e um como ecos dessa errância histórica de centenas de anos que nos está nos genes. Palavras que escorregaram e se instalaram à sua maneira ingénua, desconcertante, arcaica nas tabuletas, nos anúncios, mesmo nos serviços públicos, nos domínios institucionais. Palavras portuguesas.
Talvez ainda sejam os portugueses que aqui vivem, portugueses ilhéus duma pátria idealizada ou mítica. Portugueses que falam em eles e em nós e que não são uma coisa nem outra, conformados à geografia da terra, parecidos com as tais palavras extemporâneas que povoam as ruas. Que comem em restaurantes portuguesíssimos com bandeiras do sporting ou do benfica e ao fim de vinte anos de permanência continuam a detestar a comida local que nunca provaram. Mais uma vez, surpreendentes na sua generosidade, por vezes manhosa, interesseira, mas que está lá. Que fazem questão de acolher, "ensinar" quem chega, avisar sobre as perfídias da terra. Portugueses que dificilmente voltarão a viver em Portugal, que dificilmente serão felizes noutro local, que usam o verbo ir e raramente o verbo voltar.
Podem ser os souvenirs locais, os muito típicos galos de Barcelos e os pastéis de nata egg tarts que constam serem péssimos. O cheiro doce e intenso em algumas ruas, um cheiro indecifrável a coco, os numerosos vãos de escada onde se vendem espetadas com pedaços de comida que oscila à vista entre o vegetal e o animal, tudo cozido no mesmo caldo espesso e intenso. De novo a tentação, a hesitação entre a repulsa e a prova. As pessoas a comerem na rua a toda hora, o exotismo hábil dos pauzinhos, a delicadeza de alguns sabores, a beleza de algumas composições gastronómicas. O luxo dos muitos restaurantes, o típico das barraquinhas de rua.
Ou a luz. A luz que não é luminosa a maior parte das vezes. Baça. Baixa. Uma luz sem horizonte, sem espaço. Qua às vezes pesa, que às vezes oprime amarelamente o peito. Dizem que chega a haver quarenta e cinco dias seguidos sem sol, só este contínuo manto nevoento que às tantas parece um sonho onde tudo flui fantasmagoricamente, silenciosamente e o coração começa a bater mais devagar, como nos contos de fadas em que o tempo se suspende na imobilidade do presente.
Podia ser um caso de amor. Mas Macau é também a proliferação ad nauseam das coisas acessíveis. Coisas. Objectos. Novidades. Brinquedos. Coisas que se coleccionam compulsivamente, que se adquirem, todos os dias, continuamente - porque são acessíveis. Porque são novidade. Que não se usam? Que não se desfrutam? Que não nos fazem falta? Que se têm para estarem à mão, para sabermos que estão ali quando as quisermos? Que se vão juntando até já não sabermos quais, quem, como são, qual a sua individualidade, porque nos aproximamos delas um primeiro lugar? São as compras e o consumo, é a evidência do que fizeram os economistas, os jornais ou as notícias sobre a liderança económica da China no cenário mundial. O que não deixa de ser irónico se pensarmos que o país se chama República Popular da China e tem um regime comunista. Esta insaciedade é histórica, sociológica ou é estrutural, o mundo a caminho de lado nenhum? Talvez Macau seja uma alegoria ou uma metáfora. É de certeza. Vai-se a gongbei, passa-se para a China como se diz por cá e compram-se todos os livros, todos os dvd's, todas as malas, sapatos, relógios, telemóveis de todas as marcas de todos os últimos modelos em todas as cores e tamanhos. Made in China. Igualzinho ao original, se é que o original existe. Volta-se carregado. Volta-se mais vazio?
Macau é uma casca. Penso que é preciso muito tempo para saber o que lá está dentro. Podia ser um caso de amor. Mas o amor deve ter uma profundidade mais profunda que a dos aterros, que a da terra que foi roubada ao rio e sobre a qual se construiu o admirável mundo novo dos casinos - deslumbrantes, imensos, impactantes, mas assentes num chão que não existe.
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Macau, 23 de Janeiro de 2010.
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Ana Paula Dias (Inédito)
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29/01/10

FRANCHETTI, Paulo. Escarnho. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009. 68 p.

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Escarnho: a inabalável harmonia do diverso

Elaborar uma totalidade coesa e repleta de sentido sem perder de vista um conjunto de influências distanciadas no tempo e no espaço, conseguir uma unidade subtilmente estruturada que, contendo em si múltiplos registos e procedimentos formais, reafirma que um livro de poesia não é um agrupar aleatório de textos, mas uma totalidade orgânica com intentos bem definidos - eis a mestria alcançada por este novo livro de Paulo Franchetti.
Nesta sua obra o autor usa a sátira como forma de escalpelizar, não determinados tipos naquilo que eles são essencialmente, mas antes para submeter ao ridículo da cidade o que nesses tipos é acidental e vivenciado de modo inautêntico, isto é, não são as velhas gueixas de exacerbadas pulsões que são visadas pelo azorrague do poeta, mas aquilo que nelas é logro e trapaça (p. 44), ou que nelas se disfarça num processo de sublimação e de pacóvia intelectualização (p. 46); não é uma dada orientação sexual, naquilo que ela tem de estrutural, apesar de minoritária ante um conjunto de modelos de comportamento, que a sátira alveja, mas aquilo que nessa minoria é vivenciado enquanto mentira e máscara deliberadamente assumida (pp. 35, 57, 67, 68), aliás, esta apurada distinção que Paulo Franchetti faz entre aquilo que os tipos são em-si e o que neles é exibição gratuita e carnavalesca, é enfatizada mesmo pelo eu-poético: "(...) ó Deus do céu!/ Tende piedade, não deixeis (amém!),/ Que um dia, eu velho e tonto, vá também/ Choutando assim a carne mole ao léu!" (p. 41). O que ele teme, e a escrita poderá explorar como matéria-prima do riso, não é o ser-se velho, nem tão-pouco o ser-se velho e tonto, mas antes um estar que, tentando iludir tudo isso, acaba montando um cenário de estridências e metais falsos - e são essas excrescências comportamentais que a poesia de Paulo Franchetti capta simultaneamente com minúcia jocosa e uma depurada elegância de estilo.
Para além das figuras já referidas acima, outras aparecem igualmente visadas por todo um dardejar poético mesclado de lucidez e coragem: o "escritor muito prolixo e obtuso" (p. 27); as feias azedas e/ou mesquinhas (p. 33); a multidão urbana e estandardizada (p. 41); o "doutorzinho sonolento" e exibicionista (p. 43)... O pavoneio é mesmo um dos alvos preferidos desta sátira.
Não são apenas vários os visados por esta obra, são também diversas as fontes e os procedimentos de intertextualidade que Paulo Franchetti invoca, para, no seu refinado cadinho, conseguir uma obra singular e distanciada de todos aqueles de que demonstra conhecimento.
Inserido numa tradição cujo ponto de partida remonta à poesia greco-latina, não podemos ler este livro sem nos lembrarmos de alguns poemas de Catulo ("Que boa parelha!", "Que injustiça!" e muitos do ciclo "Gélio"); sem chamarmos a nós também Marcial (Livro II, 29, 36, 61; Livro IV, 43...) e sem recordarmos Ovídio ("Arte de amar", Livro II. 665- 745) - Marcial dá mesmo título a um poema de Escarnho ( pp. 48- 49), enquanto Ovídio, no final do excerto acima citado, pede louvores para o seu canto, canto esse referido igualmente por Paulo Franchetti (p. 67). Mas nem só à Antiguidade vai Franchetti buscar temas, personagens e aspectos da sua imagética - o diverso acaba desdobrando-se por outras épocas, movimentos literários e autores: o primeiro verso do soneto "Assim, ó bom glutão..." (p. 62) lembra-nos de imediato Camões, nomeadamente a terceira estância do Canto Primeiro dos Lusíadas (é interessante até fazermos a comparação entre o final da referida estrofe e o final do soneto). Muitas das queixas camonianas (veja-se o soneto "Quanta incerta esperança, quanto engano!", as oitavas sobre o desconcerto do mundo, algumas das canções, sobretudo a quarta, sobre " a instabilidade da Fortuna") aparecem em Escarnho radiografadas: e esse universo causador de lamentos surge agora cruamente, a preto e branco, na sua perversa bizarria, no seu ramerrão de pura matéria de riso. Mas é muito mais nítido o diálogo de Paulo Franchetti com outros poetas, por exemplo com a veemência de Gregório de Matos, que, não apenas virada contra a sociedade da Bahia, visa um social no seu todo ("Eu sou aquele, que passados anos/ Cantei na minha lira maldizente/ Torpezas do Brasil, vícios e enganos") e com duas das vertentes da poesia de Bocage, pois pegando num célebre soneto deste ("Meu ser evaporei na lida insana"), constrói-lhe a contra-argumentação com o seu "Elegia" (p. 23) que nos remete imediatamente para a poesia satírica do árcade e pré-romântico português. O jogo e a verrina são ainda mais refinados em relação à poesia de António Nobre: ao primeiro poema longo de "Só" (excluindo, obviamente, os dois poemas introdutórios) intitulado "António", contrapõe Paulo Franchetti o soneto decassilábico "Nobre" (p. 19), e a todo um universo agrário e piscatório, intocado pela Revolução Industrial, com as suas lanchas, as suas ermidas, os seus rebanhos, que o autor do "livro mais triste que há em Portugal" espraiou pelas suas páginas, o poeta brasileiro responde com um relacionamento de inconformidade ante a moral esperada, acentuando através de diminutivos (ovelhinha, quietinha...) todo o risível da situação. Saliente-se uma minúcia: António Nobre usa com frequência os diminutivos (sãozinho, anjinho, velhinha, etc.), mas não os usa quando se refere a ovelhas por exemplo em poemas com "Lusitânia no Bairro Latino" e "Purinha"... E são todos estes aspectos que realçam o vasto conhecimento que o autor de Escarnho tem da tradição poética luso-brasileira, bem como dos procedimentos necessários para o bom uso do humor em todo um processo de satirização coerente e inexorável.
O vector da multiplicidade para uma inabalável harmonia aplica-se também, nesta obra, quer ao estilo quer aos vários aspectos formais. O primeiro, marcado por alguns dos autores já falados (Gregório de Matos, Bocage, Nobre...) é-o também por um Olavo Bilac, que, na sua "Profissão de Fé", deixa bem claro: "Quero que a estrofe cristalina,/ Dobrada ao jeito/ Do ourives, saia da oficina/ sem um defeito." Paulo Franchetti é, por conseguinte, herdeiro desta inquietação com o rigor e a precisão... Apenas um exemplo das semelhanças entre ambos os autores ao nível do cuidado com a expressão e a palavra poética: "Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada" diz-nos Bilac no seu "Nel mezzo del camin"; "Pasmei, pasmaste, da mentira absconsa" avança Franchetti num processo eufónico do mesmo tipo numa das "oitavas a um seu amigo". É surpreendente o modo como o poeta contemporâneo tudo conhece, assimila e transmuta numa nova escrita: realidade incontaminada apesar da sua génese; recusa de seguidismos grosseiros para que um dizer singular se afirme - o seu. Dizer esse que - e voltamos ao nó deste texto!- engloba e transpõe: a gíria, o registo erudito, os arcaísmos e até esse crioulo com laivos de italianização (p. 37) usado nas escrita de Juó Bananère. É nesta mesma página que Paulo Franchetti - que escreve em oitavas, em sonetos, em quadras, em sonetos com continuidade poemática (p. 44 e p. 46), em sonetos com processo dialéctico de tese e antítese (p. 20 e p. 21) - se socorre de uma forma pouco usada de composição: "o soneto estrambótico", que aqui aparece com três tercetos após as duas quadras.
Podemos, por fim, dizer que este novo livro de Paulo Franchetti prima sobretudo pela forma como o poeta assume toda uma panóplia de informações e conhecimentos literários, para, estabalecendo entre eles um novo paradigma de interconexões plurisignificativas, dar lugar a um estilo singular e irrepreensível nessa finalidade que a si impõe - dissecar um social através de uma harmoniosa palavra, que é simultaneamente apontar certeiro e ousado riso.
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Victor Oliveira Mateus in "Letras com vida", Nº 1, 1º semestre de 2010, pp 242 - 244.
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28/01/10

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Quanta incerta esperança, quanto engano!
Quanto viver de falsos pensamentos,
pois todos vão fazer seus fundamentos
só no mesmo em que está seu próprio dano!

Na incerta vida estribam de um humano;
dão crédito a palavras que são ventos;
choram depois as horas e os momentos
que riram com mais gosto em todo o ano.

Não haja em aparências confianças;
entende que o viver é de emprestado;
que o de que vive o mundo são mudanças.

Mudai, pois, o sentido e o cuidado,
somente amando aquelas esperanças
que duram pera sempre com o amado.

Luís de Camões in "Lírica Completa - Vol. II",
Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 1980, p 275.

Notas de Maria de Lurdes Saraiva:
"v.5 - Os falsos fundamentos e pensamentos alicerçam-se todos no precário valor que é a vida humana.
v.1o- Segundo a concepção cristã, a vida terrena é um momento transitório, emprestado por Deus.
v.11- que aquilo de que o mundo vive são apenas mudanças, isto é: no mundo não há nada de permanente.
v.14 - amado - o esperado. Na Lírica de Camões, as esperanças ligam-se sempre a um objecto de amor, e são cortadas quando o amor cessa. Isso explica a síntese dos dois últimos versos."
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26/01/10

"Uma árvore de pé, serena e bela,/ Inda se ostenta..."

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"Vestígios"

Foram-te os anos consumindo aquela
Beleza outrora viva e hoje perdida...
Porém teu rosto da passada vida
Inda uns vestígios trémulos revela.

Assim, dos rudes furacões batida,
Velha, exposta aos furores da procela,
Uma árvore de pé, serena e bela,
Inda se ostenta, na floresta erguida.

Raivoso o raio a lasca, e a estala, e a fende...
Racha-lhe o tronco anoso... Mas, em cima,
Verde folhagem triunfal se estende.

Mal segura no chão, vacila... Embora!
Inda os ninhos conserva, e se reanima
Ao chilrear dos pássaros de outrora...

Olavo Bilac In "Poesias", Editora Martin Claret,
São Paulo, 2002, p 71.
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25/01/10

"(...) os narcisos/ e o mundo verdejante que os cerca..."

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A beleza em cada ser é uma alegria eterna"

A beleza em cada ser é uma alegria eterna:
o seu encanto não se extingue, nunca se há-de perder
no nada; reservar-nos-á um refúgio
de paz, onde adormeceremos, habitados por sonhos
suaves, uma íntima plenitude, uma respiração branda.
Comecemos, assim, a tecer em cada manhã
uma grinalda de flores para nos unirmos à terra,
apesar do desalento, da ausência daqueles
cuja nobreza amávamos, dos dias cheios de escuridão,
dos caminhos insalubres e misteriosos,
abertos para os nossos anseios; sim, apesar de tudo,
uma forma de beleza afasta o sudário
das nossas almas sombrias. Assim é o sol, a lua,
as antigas ou recentes árvores que fazem germinar
a sombra sobre os humildes rebanhos; os narcisos
e o mundo verdejante que os cerca; e os límpidos rios
que criam para si mesmos um docel de frescura
durante as estações ardentes; os silvados do bosque
enriquecidos pelo belo, nascente esplendor das rosas;
e, também, a magnificência do destino
que imaginamos para os mortos poderosos;
e as histórias encantadoras que lemos ou escutamos:
fonte inesgotável duma imortal bebida,
que vem do céu e para nós se derrama.
E não é apenas durante algumas horas breves
que ficamos presos a estas essências; assim as árvores
murmurando à volta dum templo logo se tornam
tão amadas como o próprio templo; assim a lua
e a paixão da poesia, glórias infinitas, tantas vezes
nos assombram, até serem uma luz vivificadora
para a alma, e tão estreitamente nos cingem
que, fique a brilhar o sol ou se apaguem os céus,
para sempre hão-de existir em nós, ou morreremos.

John Keats In "Poesia Romântica Inglesa (Byron, Shelley, Keats)",
Editorial Inova, Porto, 1977, pp 79-80 (Tradução de Fernando Guimarães).
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"Awake for ever in a sweet unrest"

John Keats (31/10/1795 - 23/2/ 1821)

"Bright Star"

Bright star, would I were stedfast as thou art -
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors -
No - yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever - or else swoon to death.

John Keats

24/01/10

" Que me cubra/ Num manto espesso de solidão"

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"Noite de chuva e alguma tristeza"

Não quero ouvir mais vozes
E são tantas as que me falam

Onde está o silêncio?
Esse túnel de ar fresco
Em queda livre

Que ele caia sobre mim
Que me cubra
Num manto espesso de solidão
Que organize a fuga de mim mesmo
Para que não volte mais

Aprisiono a quietude
No meu corpo de mármore branco
Talhado a golpes de picareta

Vem, tu não sabes
Mas eu já calei
Todas as vozes

Maico In "As Primeiras Horas", Chiado Editora, s/c, 2009, p 13.
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17/01/10

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- Que esquisito, esqueci-me do sonho, agora lembrei-me, só que não era um sonho - disse Harvey, embaraçado. Sentiu uma curiosa força eléctrica que de alguma forma entrava no seu corpo e dele se apoderava. "Claro que estou bêbado, até me sinto um bocado tonto", pensou. Sefton olhou para os livros, depois para a janela onde o sol ainda não brilhava, em seguida de novo para Harvey. A mão de Sefton, em que se apoiava, estava no chão ao lado dele. Ele pôs a mão sobre a dela. A mão dela mexeu-se como um animalzinho cativo, agarrou a dele por um momento, depois retirou-se. Olharam outra vez um para o outro. Harvey estendeu o braço por cima da superfície resistente da coberta da cama e tocou com a mão os ombros de Sefton, sentindo através da camisa de algodão o calor das suas costas, os seus ossos. Continuaram a fitar-se mutuamente, com um olhar intenso e inquiridor que se dissolvia numa espécie de deslumbramento cego. Harvey deixou os joelhos deslizarem para o lado e ergueu-se um pouco para a frente apoiado no outro braço. Inclinou-se e os seus lábios tocaram muito levemente a face de Sefton. Viu-a fechar os olhos. Ele fechou os olhos. Os lábios de ambos, movendo-se rapidamente, mas com uma precisão tranquila, como pássaros na noite, encontraram-se por um segundo.
Afastaram-se e entreolharam-se com espanto e perplexidade, com medo, quase com terror. Estavam a tremer, arrepiados. Era como se um enorme golpe os tivesse paralisado.(...) Harvey disse, por fim, quase segredando:
- Isto pode realmente acontecer desta maneira? É evidente que sim.
Sefton, sem olhar para ele, disse com uma voz angustiada, quase impertinente:
- Mas que aconteceu? Não faço ideia.(...)
-Sefton, não estejas zangada comigo. Eu amo-te.
Passado um momento, Sefton disse:
- Sim. Aconteceu alguma coisa. Mas acho que é uma loucura (...) Harvey, não. Não sabemos quem somos, nunca me senti tão estranha... tornámo-nos monstros, de repente ficámos uns... monstros.
- Não estejas com medo, minha querida Sefton.
-Não estou... com medo... creio eu... só admirada, espantada.
-Somos monstros bonitos, monstros bons (...)
- Pensa como são estranhas as tuas palavras. Ouve, Harvey, ouve, isto, seja o que for, aconteceu connosco por acaso, aconteceu aos dois...
- Graças a Deus que aconteceu aos dois (...).
- Escuta, Harvey, sou mais velha que tu, sou milhares e milhares de anos mais velha que tu (...)
- Queres tempo para te recompores e me dizeres para ir para o inferno.
- Não. Acredito que isto é tudo real. Faz o que te peço. E, por favor, agora vai-te embora (...)
Harvey acenou com a mão e saiu. A porta fechou-se. Caminhou pela rua a sorrir como um homem louco.
Sefton deitou-se de costas sobre o tapete (...) Pensou:" Agora estou num vácuo, em nenhum lado, entre o ser e o não-ser, onde se pode escolher não ser. Estou dissolvida por medo e violência numa paz intemporal. Não esperava nada esta perturbação, esta súbita e terrível presença do deus. Talvez o melhor, afinal de contas, fosse não ter nascido. Como deve estar perto do nada a alma humana, para ser assim tão facilmente abalada."
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Iris Murdoch In "O Cavaleiro Verde", Publicações Europa-América,
Mem Martins, 1993, pp 371 - 375 (Tradução de Luís Serrão).
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16/01/10

" Après un silence..."

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Après un silence, William et Lavinia se regardèrent, se livrant visiblement à de rapides calculs. Edith qui n'avait pas une brillant réputation de femme d'affaires se montrait toutefois très perspicace. Elle lisait directement dans les pensées des gens et donnait régulièrement son avis avec une franchise plutôt déconcertante. Elle sentit donc ce que William allait dire mais, pour une fois, elle se tut, se retenant même de sourire quand il prit la parole
-"Herbert, je suppose que Père n'a fait aucune allusion aux bijoux?
- Mais si! Vous savez qu'ils représentaient une partie non négligeable de ses biens. Ils lui appartenaient et il a estimé juste de les léguer en totalité à Mére."
Quelle gifle pour Herbert et Mabel! pensa Edith. Ils s'attendaient sans doute à ce que Père les laisse en héritage à son fils aîné. Mais le calme affiché par Mabel lui fit toutefois comprendre qu'elle se trompait. Herbert avait sans doute déjà prévenu sa femme.(...)
- Mais il y a plus important que la question des bijoux ou des revenu", coupa Herbert. "Où Mère va-t-elle vivre? Elle ne peut rester seule. En tout cas, pas ici. La maison sera vendue. Où va-t-elle aller? Il est de notre devoir de nous occuper d'elle. Mère doit vivre parmi nous. "On aurait dit qu'il avait préparé son discours (...)
Enfin nous y voilà! pensa Edith: que vont dire les gens? Ils ne se préoccupent que de l'opinion d'autrui et de l'argent qu'ils vont soutirer à notre pauvre Mère... Chicanes... Chicanes... Elle avait déjà connu ce genre de dispute familiale. Ils vont se déchirer autour de mère comme des chiens le font autour d'un très vieil os. (...) Chaque fois que lady Slane pénétrait dans le salon, les conversations cessaient, tout le monde se levait et l'on s'empressait de l'aider à s'asseoir. Chacun la tratait un peu comme si elle venait d'échapper à un accident, ou avait provisoirement perdu la tête. Edith était certaine que sa mère ne souhaitait pas être guidée ainsi vers un fauteuil (...)
"Mère chèrie. Nous avons discuté entre nous... Vous pensez bien que nous nous sommes préoccupés de votre sort. Nous savons combien vous étiez dévouée envers Père, et réalisons ce que cette perte représente dans votre vie(...) nous nous sommes inquiétés de savoir où, et comment, vous alliez vivre?
- Je suppose que vous avez déjà décidè pour moi, Herbert", commenta lady Slane d'un ton d'une indicible douceur.
Gêné, Herbert passa à nouveau un doigt dans son col. Edith avait l'impression qu'il allait s'étrangler.(...) Lady Slane ne disait toujours rien. Son regard allait de l'un à l'autre, étrangement ironique pour une personne si effacée. (...) - Non, répondit lady Slane en souriant. Je sais à quel point vous pouvez vous montrer prévenants mais je n'entends pas vivre avec aucun de vous. Pas avec vous, Herbert, ni avec vous, Carrie, ni avec vous, William, ni avec vous Charles. Je vais vivre seule. (...) En fait, je me suis trop lontemps préoccupée de l'opinion des autres, j'ai droit à des vacances. Si on ne se fait plaisir à mon àge, quand le fera-t-on?(...) Voyez-vous, Carrie, j'entends devenir complètement égoiste, comment dire, m'immerger dans mon grand àge. Pas de petits-enfants! Ils sont trop jeunes. Aucun n'a la quarantaine. Pas d'arrière-petits-enfants non plus! Ce sarait pire. Je ne veux pas de cette jeunesse qui non seulement s'agite mais cherche toujours, en plus, à savoir pourquoi. Je ne souhaite pas qu'on m'amène d'enfants. Ces malheureux me feraient trop penser à la longue route qu'ils ont à parcourir avant d'arriver au port.
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Vita Sackville-West In "Toute passion abolie", SalvY Éditeur, Paris,
1991, pp 23 - 51 (Tradução do inglês por Micha Venaille).
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Inéditos - VIII

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"Miragem"



para Olga Savary



Chegou, impressentida e silenciosa,
com uma saudade eslava nos cabelos
e um ritmo de crepúsculo ou de rosa.


Os olhos eram suaves, e eis que ao vê-los,
outra paisagem, fluida, na distância,
sugeria doçuras e desvelos.


No coração, agora já sem ânsia,
paira a serenidade comovida
que lembra os puros cânticos da infância.


Logo depois se foi, mas refletida
nesse espelho interior, onde as imagens
se libertam do tempo, além da vida,


Olenka permanece, entre miragens.


(Rio de Janeiro, 1955)



Carlos Drummond de Andrade (Inédito)


Nota - em quatro linhas de rodapé, escritas pelo próprio punho,
Olga Savary esclarece-me alguns aspectos deste texto, dos quais
apenas um interessa agora: Olenka é um diminutivo eslavo; alusão
ao facto dos avós da poeta serem de origem russa.
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15/01/10

Inéditos - VII

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"Canastrinha de Odeleite"

O cesteiro de Odeleite estava a acabar
uma cestinha de cana:
fiquei à espera
que a rematasse
a contemplar seus gestos precisos
firmes e eficazes
Quem me dera fazer assim
os meus versos!
Decidi: "É para a fruta
respirar bem". E comprei.
A cana ainda está meia
verde
quase ressuma seiva
e eu
trago para casa não só a vasilha para
os pêssegos que vou apanhar na minha
horta
mas também a tépida frescura da ribeira de Odeleite
suas densas águas mansas
leite de rãs e aloendros
e também o ramalhar
do canavial ainda verde
a dar de vaia
a algumas cobrinhas de água que por ali estejam
na conversa.

Cacela, 7/9/2000.

Teresa Rita Lopes (Inédito)


Nota - não consegui, informaticamente, manter o espacejamento
tal como a Professora Teresa Rita Lopes tem no seu manuscrito,
mesmo assim resolvi correr o risco... Há escritas às quais não resisto!
Aconselho também o delicioso conto de Teresa Rita Lopes na Antologia
"um rio de contos"... soberbo!
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14/01/10

Inéditos - VI

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"Branco"

Não queiras saber o que é o branco para
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
levou, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.

No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.

E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.

E em cada nuvem que cresce no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.

(Porto, 20/10/2004)

Nuno Júdice (Inédito)
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13/01/10

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"Intermezzo"


Do cais, partiram os navios
onde eu quis ir sempre,
e nunca fui...

No jardim, morreram as flores
que o meu olhar só beijou
através das grades brancas...

E pelos caminhos,
passaram por mim,
sem olharem para trás uma só vez,
todos os que tinham pressa de chegar...

Só eu fui devagar...
cada vez mais devagar
quanto mais perto estava.

A desejar, as flores que morriam
por detrás das grades brancas...
os navios que partiam
envolvidos na bruma,
e os caminhos, nunca percorridos...

Só eu fui devagar...

(Lisboa, 1948)

Alda Lara In "Poemas", Vertente, Porto, s/d, p 69.
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12/01/10

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"Mors"-Amor


Esse negro corcel, cujas passadas,
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
De noite nas fantásticas estradas.

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a Morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

Antero de Quental In "Sonetos Completos", Publicações
Europa-América, Mem Martins, s/d., 108.
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"O Palácio da Ventura"


Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Antero de Quental In "Sonetos Completos", Publicações
Europa-América, Mem Martins, s/d., p 70.
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11/01/10

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"Taciturno"


Há oiro marchetado em mim, a pedras raras,
Oiro sinistro em sons de bronzes medievais -
Jóia profunda a minha alma a luzes caras,
Cibório triangular de ritos infernais.

No meu mundo interior cerraram-se armaduras,
Capacetes de ferro esmagaram Princesas.
Toda uma estirpe real de heróis d'Outras bravuras
Em Mim se despojou dos seus brasões e presas.

Heráldicas-luar sobre ímpetos de rubro,
Humilhações a lis, desforços de brocado;
Basílicas de tédio, arneses de crispado,
Insígnias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro...

A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido
Enferrujou - embalde a tentarão descer...
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer -
Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido...

Percorro-me em salões sem janelas nem portas,
Longas salas de trono a espessas densidades,
Onde os panos de Arrás são esgarçadas saudades,
E os divans, em redor, ânsias lassas, absortas...

Há roxos fins d'Império em meu renunciar -
Caprichos de cetim do meu desdém Astral...
Há exéquias de heróis na minha dor feudal -
E os meus remorsos são terraços sobre o Mar ...

Mário de Sá-Carneiro In "Poemas Completos", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2005, pp 80 - 81.
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