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e começou por ser sal. apenas. que se vai polindo no abraço como
estalos ou uivos. emudecido e túrgido. o mesmo sal que se deita à
terra para desfazer o gelo. o mesmo saber do branco sem mácula.
já não digo porcelana nem altar. não entenderias o excesso nem a
dança dos breves momentos em que a diferença é colheita e logo
lagar. não disse lago. de noite as casas são de cal e mudam de lugar.
digo agora mudam de lago. para unir o ofício de cerzir páginas e
janelas. portas e insónias. que o branco é enchente. e da ironia da
forma reflexiva digo que sou antes do profano. tu dirias do sagrado.
mas sou infecunda e múltipla. oculta e breve na instância das evi-
dências. __________________ arcanjo matinal moura e oceano.
e se fores vendaval faz-me maçã. ampara-me este sal. delito de ser
casa sem lugar.
Isabel Mendes Ferreira in "As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar",
Arcádia, Lisboa, 2010, p 392.
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16/04/11
14/04/11
e de entre todas as ilhas escolho a dos segredos. que é de todas a
mais indócil e porém mais amável de cuidar. amadureço ao norte o
vendaval e a sul vigio a casa branca onde o jasmim me é laço. dispo
as árvores e solto os animais. sou cativa da porta que dá para lugar
nenhum. desidealizo-nos. mais tarde virá quem nos seja perto.
já não tenho o que dizer. nem do ovo da serpente nem das asas nem
da terra muito menos do ouro nem da previsível doença do fogo.
fechei a narrativa. afinal curso e discurso feito a sós na prova do nu
e na sombra a pique. fui legente sem sinais nem folhas de pensar ou
exaltar. abri o vapor que era silêncio e timbre abismático. coração de
um dia apenas. rosário desfiado como dedos cruzados sobre uma
aresta fria. aranha sem teia e teia sem fios parto à procura dos meus
mortos. um a um que são muitos e muito devagar porque já não
tenho o que dizer.
Isabel Mendes Ferreira in "As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar", Arcádia,
Lisboa, 2010, p 387.
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12/04/11
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Nos proyectó a continuación unos frescos del Camposanto de Pisa atribuidos a Orcagna, un pintor del que yo no había oído hablar en mi vida. La proyección duró lo que quedaba de clase, y ella se limitaba a hacer breves comentarios, a medida que iba ampliando detalles significativos e insignificantes, como si explorase uno por uno los rincones de uma habitación. Todo con mucha lentitud, para que se nos quedara grabado en la retina, que en eso consistia - dijo - el placer de la contemplación.
Se ve en uno de los extremos a un grupo de damas y caballeros solazándose en un vergel ao son del clavicordio. Dos ángeles sostienen sobre ellos, desplegado como una colgadura, un letrero que dice: "Ni el mucho saber ni la riqueza, y menos vanidad o una rancia nobleza, los va a librar a éstos de la muerte", en italiano, claro, pero ella lo tradujo. Al otro lado, una cabalgata también de damas y caballeros que avanza descuidada por el monte se sobresalta al descubrir tres ataúdes abiertos con cadáveres en estado de decomposición. Todo el cielo está surcado por ángeles y demonios que, a manera de bandada de insectos surrealistas, se disputan la presa de los vivos. En el yermo, alejados de la colossal guadaña de la muerte, dos ermitaños, entregados a sus meditaciones, parecem ser los únicos en cuyo rostro se pinta la serenidad.
- El autor, si fue Orcagna, que no se sabe seguro - acabó Rosario Tena -, ha puesto el acento más en lo inexplicable y misterioso que en una pretensión de moraleja. Yo veo en este quadro sobre todo un himno a lo absurdo, tal vez por eso me parece tan moderno y tan intemporal por otra parte. Desde que el mundo es mundo, vivir y morir vienen siendo la cara y la cruz de una misma moneda echada al aire, pero si sale cara es todavía más absurdo. Para mí, se quieren que les diga la verdade, lo raro es vivir. Hasta el viernes.
Así concluyó su clase. Yo anoté en el cuaderno, como remate de mis apuntes: "Lo raro es vivir. (Posible título para una canción)".
Aquella misma tarde empecé a leer La divina comedia.
Carmen Martín Gaite in "Lo raro es vivir", Editorial Anagrama, Barcelona, 1996, pp 183 - 184.
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10/04/11
"Estes ventos adversos e tão ferozes/ que as ondas golpeiam contra as rochas,/ igualam de meu inimigo seu grande orgulho "
Questi venti contrari e così fieri
che sospingon qui l'onde in questi scogli
sembran de' miei nemici i grandi orgogli
contra a gl' alti miei stabili pensieri.
E quegl' orridi nembi e così neri
là' ve più' l tempo rio par che si accogli,
sembran li spesi miei gravi cordogli
contra ad ogni mia pace empi guerrieri;
e quella stanca e debol navicella
a cui si vede tronco arbore e sarte,
senza nocchiero, infra l'orribil' onde,
sembra l' alma mia afflita e di sua stella
priva e di tutte sue speranze sparte,
poi che l' alma sua luce il ciel gl' asconde.
Chiara Matraini in "Tres poetisas italianas del Renacimiento", Ediciones Hiperión,
Madrid, 1988, p 46.
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09/04/11
Em esta sesão vivia com el-rei um bom escudeiro, e para muito, mancebo, e homem de prole, e n'aquelle tempo estremado em assignadas bondades, grande justador e cavalgador, grande monteiro e caçador, luctador e travador de grandes ligeirices, e de todas as manhas que se a bons homens requerem, chamado por nome Affonso Madeira, por a qual rasão o el-rei amava muito e lhe fazia gradas mercês.
Este escudeiro se veiu a namorar de Catharina Tosse, e mal cuidados os perigos que lhe advir podiam de tal feito, tão ardentemente se lançou a lhe querer bem, que não podia perder d'ella vista e desejo: assim era traspassado do seu amor. Mas, porque lugar e tempo não concorriam para lhe fallar como elle queria, e por ter aso de a requerer ameude de seus deshonestos amores, firmou com o aposentador tão grande amisade que para onde quer que el-rei partia, ora fosse villa ou qualquer aldeia, sempre Affonso Madeira havia de ser aposentado junto, ou muito perto do corregor. E havia já tempo que durava este aposentamento, sempre cerca um do outro; tendo bom geito e conversação com seu marido, por carecer de toda a suspeita.
Affonso Madeira tangia e cantava, afóra suas apostura e manhas boas já recontadas, de guisa que por aso de tal achegamento, com longa affeição e falas ameude, se gerou entre elles tal fructo, que veiu elle a acabamento de seus prolongados desejos. E porque semelhante feito não é da geração das cousas que se muito encobram, houve el-rei de saber parte de toda sua fazenda, e não houve d'ello menos sentido que se ella fora sua mulher ou filha. E como quer que el-rei muito o amasse, mais do que se deve aqui dizer, posta de parte toda bemquerença, madou-o tomar dentro em sua camara, e mandou-lhe cortar aquelles membros que os homens em mór preço tem...
Fernão Lopes in "Chronica de el-rei D. Pedro I", Lisboa, s/d, capº VIII.
08/04/11
"Lamento por la maldición de Dios a Caín"
Toma para ti la tierra: es tu refugio.
Toda la tierra tuya, la que es tu cuerpo.
Terrenal cuerpo encizañado de semillas
que apenas sí germinan ya se pudren.
Refúgiate en las cuevas.
Ahonda bajo bosques tu guarida.
Allí donde te metas, verás mi Ojo perseguirte.
Implacable mi gran Ojo duro, sin pestañas:
ojo puro, ojo
que todo lo mirará viéndote siempre.
En pozos que te ocultes, los leones
con hambres que no calman mis ovejas,
querrán hallarte un día y acosarte
con ímpetu de arcángeles rebeldes.
Querrías que la sangre de tu hermano
no fluya de tus dedos? Qué gran viento
podrá llevarse el grito degollado?
Mi Ojo nunca duerme. Pupila sin sus párpados
te ve y te verá, anda que anda,
huyendo de mi ira irrestañable.
La tierra para ti!
Me verás en ojo inmenso; el mundo
para ti todo es mi Ojo.
Húyme, Caín!
Voy a mirarte
por los siglos de mi luz:
hasta que ciegues.
Yo sé que hablaste así. Tú a mi hijo.
Los dos perdí a la vez, los dos que hube.
Héteme ya sola con ele hombre.
Sufrí más que gocé. Qué es la ventura
sino lucha que descuaja mis entrañas?
Se ha hecho de mis frutos horas torvas;
infiernos de mi vientre; virus triste
para la tierra carne nueva...
Ya es vaho que revuelve mis piedades
el día fugitivo en que la gloria
cabía entre nosotros: yo y el hombre.
Derrámame simiente perdonada.
Déjanos, Señor, que te ofrezcamos
hijo que no duela de tu ira.
Quiero ya dormir. Dame tu sueño.
Tú tienes tanto sueño en tus mansiones!
Gimiendo las centellas curva el trueno
mi espalda y mi cintura...
Miedo de la tierra,
tengo miedo!
Carmen Conde in " Mujer sin Edén", Ediciones Torremozas, Madrid, 2007, pp 55 - 56.
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07/04/11
"Mary Renault a Julie Mullard"
Tantos anos passados,
e o meu olhar vagueando também
pelas cidades muradas.
Os meus olhos vagabundos,
as minhas cidades amuralhadas,
os teus olhos impenetráveis.
Lá, ao distante dos começos,
aqui tão perto de esplendorosas
manifestações de afecto,
mas separadas à mesa das refeições,
porque tu degustas o tempo
como a mim desgostam as horas,
porque tu intentas contra as horas
como a mim oprime o tempo.
Tudo o que te peço neste Outono
grávido de geometrias cintilantes
é que quebres o anonimato do teu nome,
que me tragas aos lábios
o teu nome mais secreto,
que me abrases pelo caminho
agourado das sugestões.
Espero.
Espero sempre pelos teus olhos
esplendorosamente impenetráveis.
Não que afastes desta confissão
as geometrias cintilantes,
não que distes os adereços.
Apenas que ponhas a voz nos adereços,
apenas que ponhas a voz na voz dos adereços,
para que desse modo sejas toda tu
na ilusão com que te espero.
Henrique Manuel Bento Fialho in "A Dança das Feridas", Edição do autor, s/c., 2011, pp 44 - 45.
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06/04/11
"... respondeu com a sua voz melodiosa e suave... "
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Desejava agora concentrar-me nos campos da Alta Silésia, a "Ruhr do Leste": o KL Auschwitz e as suas numerosas dependências (...). Trinta quilómetros antes de Auschwitz, já havia postos de controle SS que verificavam cuidadosamente os nossos papéis. Chegávamos depois ao Vístula, largo e turvo. Avistava-se ao longe a linha branca dos Beskides, pálida, tremulando na bruma do Verão (..). Um posto de controle barrava a entrada da Kasernestrasse; a seguir, erguia-se uma torre de vigia de madeira junto ao muro de betão cinzento do campo, coberto de arame farpado, por detrás do qual se perfilavam os telhados vermelhos dos barracões. A kommandantur ocupava o primeiro dos três edifícios entre a rua e o muro, uma construção atarracada com a fachada de estuque, e um alpendre subido flanqueado por lampiões de ferro forjado. Fui prontamente conduzido à presença do kommandant do campo, o Obersturmbannfuhrer Hoss. Este oficial, depois da guerra, adquiriu uma certa notoriedade, em razão do número colossal de pessoas a quem foi dada a morte sob a sua responsabilidade e também das memórias francas e lúcidas que redigiu na prisão, por ocasião do seu processo. Todavia era um oficial absolutamente típico do IKL, trabalhador, obstinado e limitado, sem fantasia nem imaginação (...). "O campo está à sua disposição." Ou melhor, os campos, porque Hoss geria toda uma rede de KL: o Stammlager, o campo principal que se estendia por detrás da Kommandantur, mas também Auschwitz II, um campo para prisioneiros de guerra transformado em campo de concentração, e situado alguns quilómetros a seguir à gare, na planície, nas imediações da antiga aldeia polaca de Birkenau (...). Hoss propunha-me que começássemos por Auschwitz II: um transporte RSHA chegava de França, ele queria mostrar-me o processo da selecção. Esta tinha lugar na plataforma da gare de mercadorias, a meio caminho entre os dois campos, dirigida por um médico da guarnição, o Dr. Thilo. O médico, quando chegámos, estava à espera no extremo do cais, com guardas Waffen-SS e cães, além de equipas de detidos com a roupa listada que arrancavam, quando nos viam, os gorros das cabeças rapadas. (...) Depois o comboio aproximou-se e abriram-se as portas do vagões de mercadorias. Contava com uma irrupção caótica: mas apesar dos gritos e do ladrar dos cães, as coisas passaram-se de maneira relativamente ordenada. Os recém-vindos, visivelmente desorientados e exaustos, surgiam dos vagões por entre um abominável fedor a excrementos (...) tinham de abandonar as suas bagagens e alinhar em duas fileiras, os homens para um lado, as mulheres e as crianças para outro; e enquanto as duas alas avançavam arrastando-se na direcção de Thilo, e Thilo separava os aptos para o trabalho dos inaptos, enviando as mães para o mesmo lado que os seus filhos a caminho dos camiões que esperavam um pouco mais longe (...). A maior parte daquelas pessoas falava, em voz baixa, em francês; outras, sem dúvida judeus naturalizados ou estrangeiros, em diversas línguas; escutava aquelas palavras que compreendia, as perguntas, os comentários; esta gente não fazia a mínima ideia do sítio onde estava, nem daquilo que a esperava.(...) A selecção estava a chegar ao fim: no total durara menos de uma hora.(...) Virei-me para Hoss: -" Recebe muitos comboios do Ocidente?" - "De França, este era o quinquagésimo sétimo. Tivemos vinte da Bélgica. Da Holanda, já não me lembro. Mas estes últimos meses, temos tido sobretudo transportes da Grécia.(...) Desde Fevereiro, tenho também um campo familiar para os ciganos." -" Um campo familiar?" - "Sim. É uma ordem do Reichfuhrer. Quando decidiu a deportação dos ciganos do Reich, quis que não fossem seleccionados, que pudessem permanecer juntos, em família, e que não trabalhassem. Mas muitos deles morrem de doença. Não resistem." (...) Hoss estacionou junto ao edifício da direita, no meio de uma mata de pinheiros esparsos. Em frente, num relvado bem cuidado, mulheres e crianças judias acabavam de se despir, vigiadas por guardas e prisioneiros de roupa listada. As roupas iam-se empilhando um pouco por toda a parte, devidamente separadas (...). Um dos detidos gritava: "Vamos, depressa, depressa, para o duche!" (...) "É como em Treblinka e Sobibor", comentou Hoss. "Até ao último minuto são levados a crer que vão ser desparasitados. Na maior parte dos casos, tudo se passa muito calmamente." Começou a explicar-me como se dispunham as coisas: "Ali adiante, temos mais dois crematórios, mas muito maiores: as câmaras de gás são subterrâneas e podem receber até duas mil pessoas. Aqui as câmaras são mais pequenas e há duas por Krema: é muito mais prático para os transportes pequenos." -" Qual é a capacidade máxima?" - "Em termos de gaseamento, praticamente ilimitada; a limitação maior é a da capacidade dos fornos. Foram concebidos especialmente para nós pela firma Topf. Estes têm oficialmente uma capacidade de 768 corpos por instação para um período de vinte e quatro horas. Mas podemos lotá-los até mil ou até mil e quinhemtos se necessário." (...) perguntei, por cortesia: "Quanto tempo leva isto, ao todo?" Mengele respondeu com a sua voz melodiosa e suave: "A Sonderkommando abre as portas ao fim de meia hora. Mas deixa-se passar tempo suficiente para que o gás se disperse. Em princípio, a morte chega em menos de dez minutos. Quinze, quando está mais húmido,"
Jonathan Littell in "As Benevolentes", Publicações Dom Quixote, Lisboa,
2007, pp 550 - 556 (Tradução: Miguel Serras Pereira).
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03/04/11
" De tudo quanto cresce te baptizo,/ e dos espinhos nasce o dia aceso. "
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Poema 2. de "Venus Felix"
De tudo quanto cresce te baptizo,
e dos espinhos nasce o dia aceso.
Talvez de pés no chão os gamos, sabes,
invadam teu sentir folhas queimadas,
ou só no chão dos gamos corra a água,
de rastos contra o peito das colinas.
Por trás de cortinados, e de portas,
ó nua e debruçada sobre o verão.
Mário Cláudio in "Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga", Arcádia, Lisboa, 2010, p 40.
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Poema 2. de "Venus Felix"
De tudo quanto cresce te baptizo,
e dos espinhos nasce o dia aceso.
Talvez de pés no chão os gamos, sabes,
invadam teu sentir folhas queimadas,
ou só no chão dos gamos corra a água,
de rastos contra o peito das colinas.
Por trás de cortinados, e de portas,
ó nua e debruçada sobre o verão.
Mário Cláudio in "Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga", Arcádia, Lisboa, 2010, p 40.
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"Aqui te dou as horas mais doídas/ mais cavadas a fogo, a terra crua, "
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Poema 14. de "Venus Victrix"
Aqui te dou as horas mais doídas,
mais cavadas a fogo, a terra crua,
mais certas, incidentes sobre a tarde
que em si resume as horas consumadas.
O dorso que se dobra sobre o mundo,
se extrai do mundo, e o mundo em nós se extrai.
Aí nos corta o fio dos relâmpagos.
........................................................................
Mário Cláudio in "Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga", Arcádia, Lisboa, 2010, p 74.
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Poema 14. de "Venus Victrix"
Aqui te dou as horas mais doídas,
mais cavadas a fogo, a terra crua,
mais certas, incidentes sobre a tarde
que em si resume as horas consumadas.
O dorso que se dobra sobre o mundo,
se extrai do mundo, e o mundo em nós se extrai.
Aí nos corta o fio dos relâmpagos.
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Mário Cláudio in "Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga", Arcádia, Lisboa, 2010, p 74.
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" partindo a descrever adonde voltam."
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Poema 26. de "Venus Genitrix"
...........................................
...........................................
...........................................
...........................................
Pois sempre as naves ficam, e se espantam,
se voltam sobre o lado, e aí se esquecem,
perdendo quanto sabem de onde vêm,
partindo a descrever adonde voltam.
Mário Cláudio in "Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga", Arcádia, Lisboa, 2010, p 114.
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Poema 26. de "Venus Genitrix"
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Pois sempre as naves ficam, e se espantam,
se voltam sobre o lado, e aí se esquecem,
perdendo quanto sabem de onde vêm,
partindo a descrever adonde voltam.
Mário Cláudio in "Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga", Arcádia, Lisboa, 2010, p 114.
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02/04/11
Na "REVISTA (online) TEXTUALINO" poderá ler...
.
... as minhas "BREVES NOTAS SOBRE":
.
.
- "Paredes Abertas ao Céu" de INEZ ANDRADE PAES, Edição de Autor, 2010.
.
- "Antre Monas I Sbolácios" de ADELAIDE MONTEIRO, Zéfiro Edições, 2010.
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... as minhas "BREVES NOTAS SOBRE":
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- "Paredes Abertas ao Céu" de INEZ ANDRADE PAES, Edição de Autor, 2010.
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- "Antre Monas I Sbolácios" de ADELAIDE MONTEIRO, Zéfiro Edições, 2010.
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01/04/11
"As rendas" ( 1º poema do ciclo Dom São Sebastião)
Todo o meu apelo vai nas ondas
E pelas ondas vem a tua voz chamar-me
À praia do Tamariz
Se quebram leves rendas à roda do pescoço
Beijam-te o rosto de flor de lis.
É tão grande o desejo como o mar.
O Atlântico atrai para o deserto
Onde sem lápide hás de jazer reinando
Per saecula saeculorum
Sem Amen na prece a rematar.
Santo, eu, per saecula saeculorum
Ficarei rezando. Amo-te, Sebastião,
Ó flor imarcescível!
Meu cavaleiro da noite, meu lençol de esperma
Coalhado, em que estrelas choram por seres tão casto.
Olha que mais rebelde à morte, mais que tu, rei herói,
Sou eu, Sebastião, que não fui rei nem casto
Mas que sou soldado, gay e corajoso mártir.
Maria Estela Guedes in "Geisers", incomunidade, s/c., 2009, p 15.
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" 20 de Janeiro " ( 3º poema do ciclo Dom São Sebastião )
O ronco da neblina é um aviso
De que está perto o legendário império
E que o espírito se veste de realidade
Em um futuro que é presente agora.
Porque tu és o mito lindo
O mito de que há impérios que se cumprem
Vencida a batalha de Alcácer-Quibir
Pelo meu Sebastião que é virgem.
Na penugem secreta do teu pénis
Crepitam dedos desejosos
De comer o tamariz selvagem.
Ó meu amor quieto como um ninho
Ó meu Sebastião que somos aves
Ó meu Desejado que és passarinho
Dos sonhos ateados na primavera!
Deixa-te vir louro como as brasas
Deixa-te vir moreno como abrunhos
Deixa-te vir, Graal misterioso,
Correndo como vinho no meu cálice!
Rasam as ondas procelárias
Paínhos, gaivotas, cagarras e andorinhas
E o albatroz que é rei nos ares
Se os versos sulcam água nos teus olhos
Como jóias muito raras e perdidas
Como os três reis finados no areal
Para viverem para sempre em livro!
Ó meu Sebastião dos dias 20 de janeiro,
Ó meu rei de beicinho como um Cupido,
Ó meu país que te comprazes em rezar deitado
Na ânsia de um rei da morte ressurgido
Em strip tease às portas do sacrário.
Maria Estela Guedes in " Geisers", incomunidade, s/c., 2009, pp 16 - 18.
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29/03/11
Investidura de Carmen Conde na "Real Academia Española de la Lengua",
onde foi a primeira mulher a ter assento.
"Primera noche en la tierra"
Desoladamente
nos ha dejado solos...
No vemos el Jardín de nuestro ocio.
Apagóse del fuego la gran rama,
o Dios se la llevó fuera del aire?
Habrá luna. Él creaba estrellas,
las que en el agua florecían veloces
buscándome los dedos vegetales.
Habrá su sol.
La líquida corola derramándose
encima de las selvas inholladas
que yo caminaré descalza siempre.
Junto al árbol que lleva doce frutos,
dando uno cada mes, nunca hubo noche.
Ni urgencia de la antorcha ni la brasa.
Dios lo alumbra todo! Hizo astros
para nosotros en destierro de sus síes.
Tibias sombras apaciguan las memorias.
Frior de soledad. Ven a mi pecho,
que yo seré tu tierno prado tibio,
y seguro soñaras en mi corteza.
Allá no ululan lobos. Allí lamian dulces
mis pies sobre tomillos aceitosos.
Aquí se encienden ojos y dientes amenazan
modernos calcañares desgarrados.
Ladran los chacales. Oh las hienas
que lúgubres husmean nuestro sueño!
Toma el paraíso de mi cuerpo:
mis labios son de ascua, mis hogeras
serán lo unico vivo de la noche.
Más fuerte que el amor no será el cierzo.
Más dura que tu pecho no es la sombra.
Defiéndete de mí, estoy buscando
olvido de las selvas que no huelo.
Noche, cueva negra de la tierra!
Vamos a bebérnosla de un trago
que deje descubiertas las auroras.
Carmen Conde in "Mujer sin Edén", Ediciones Torremozas, Madrid, 2007, pp 37 - 38.
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onde foi a primeira mulher a ter assento.
"Primera noche en la tierra"
Desoladamente
nos ha dejado solos...
No vemos el Jardín de nuestro ocio.
Apagóse del fuego la gran rama,
o Dios se la llevó fuera del aire?
Habrá luna. Él creaba estrellas,
las que en el agua florecían veloces
buscándome los dedos vegetales.
Habrá su sol.
La líquida corola derramándose
encima de las selvas inholladas
que yo caminaré descalza siempre.
Junto al árbol que lleva doce frutos,
dando uno cada mes, nunca hubo noche.
Ni urgencia de la antorcha ni la brasa.
Dios lo alumbra todo! Hizo astros
para nosotros en destierro de sus síes.
Tibias sombras apaciguan las memorias.
Frior de soledad. Ven a mi pecho,
que yo seré tu tierno prado tibio,
y seguro soñaras en mi corteza.
Allá no ululan lobos. Allí lamian dulces
mis pies sobre tomillos aceitosos.
Aquí se encienden ojos y dientes amenazan
modernos calcañares desgarrados.
Ladran los chacales. Oh las hienas
que lúgubres husmean nuestro sueño!
Toma el paraíso de mi cuerpo:
mis labios son de ascua, mis hogeras
serán lo unico vivo de la noche.
Más fuerte que el amor no será el cierzo.
Más dura que tu pecho no es la sombra.
Defiéndete de mí, estoy buscando
olvido de las selvas que no huelo.
Noche, cueva negra de la tierra!
Vamos a bebérnosla de un trago
que deje descubiertas las auroras.
Carmen Conde in "Mujer sin Edén", Ediciones Torremozas, Madrid, 2007, pp 37 - 38.
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26/03/11
" aos poucos/ rasgo o espelho da memória. "
.aos poucos
rasgo o espelho da memória.
redesenhando novos traços
esculpidos em voo livre
sob a estrela que roubei
num olhar moribundo.
aos poucos
enterro o coração de papel.
esmagando na poeira do vento
as palavras negadas.
Ana Barros ( Inédito)
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24/03/11
" sem qualquer palavra/ não recordaremos/ o que nos pesava, "
."Flautim "
Guardaremos juntos
os acertos, breves,
os enganos, fundos,
e aquele remoto
amparar de parcos,
altivos escolhos.
Cairão o signo
e a secreta cinza
desse ardente enigma.
Não lamentaremos
mais que o desencontro
dos humanos termos,
a rápida marca
que o passado imprime
na face, na máscara,
e os puros despojos
que às vezes são versos
e sempre são ossos.
Não diremos nada
dos velhos desejos
que a memória abraça,
sem qualquer palavra
não recordaremos
o que nos pesava,
mas apenas isso
que nos pese ainda:
ter vindo, ter sido.
Bruno Tolentino in " anulação & outros reparos", Topbooks Editora,
Rio de Janeiro, 1998, pp 48 - 49.
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."La mie rue"
Na rue adonde camino,
ls passos son debagarosos, cçumpassados, témbran ls caiatos.
Na rue adonde camino,
sóbran ls sentalhos adonde las andorinas póusan i cáien
sous cagados.
Na mie rue hai ua fuonte
que cuorre andefrente, quaije an silenço, solo para eillha;
las barrilas scachórun-se i eilha, cun sues scaleiras de piedra,
cuntina a cumprir sue funçon, mas bai morrendo de solidon.
Na mie rue las piedras scáldan,
ten-te nun caias, son a pies.
La rue adonde you joguei al chete, a las palombas,
i me ampuntaba al toque de las Trindades, stá marimunda,
xorda de giente.
l you
camino cun pies firmes na mie rue,
acenhando als sentalhos muita beç scundidos atrás la
parreira de uba rei,
rebelando retratos de an tiempos.
Camino, pie firme anté un die
an que las piedras de la rue nun me dígan adonde stan
i you,
ten-te nun caias, caminarei para outra rue que nun la mie...
Adelaide Monteiro in " Antre Monas l Sbolácios", Zéfiro, Sintra, 2010, p 33.
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23/03/11
" Compraste o meu amor/ Com o vinho dos antigos "
na Universidade Clássica de Lisboa no dia 21 de Março de 2011.
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Compraste o meu amor
Com o vinho dos antigos
Sedas da Índia
anéis de vidro
Sou tua, meu senhor
À segunda, terça, quarta, quinta, sexta-feira
E também preparo funje aos sábados
Não não me peças o domingo
Todos os deuses descansam
E sei também das concubinas
O horário de serviço
Paula Tavares in "Como veias finas na terra", Editorial Caminho, Alfragide, 2010, p 35.
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22/03/11

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Amor, lo stato tuo è proprio quale
è una ruota, che mai sempre gira,
e chi v'è suso or canta ed or sospira,
e senza mai fermarsi or scende or sale.
.
Or ti chiama fedele, or disleale;
or fa pace con teco, ed or s'adira;
ora ti si dà in prenda, or si ritira;
or nel ben teme, ed or spera nel male;
.
or s'alza al cielo, or cade ne l'inferno;
or è lunge dal lido, or giunge in porto;
or trema a mezza state, or suda il verno.
.
Oi, lassa me, nel mio maggior conforto
sono assalita d'un sospetto interno,
che mi tien sempre il cor fra vivo e morto.
.
.
Gaspara Stampa in "Tres poetisas italianas del Renacimiento", Ediciones Hiperión,
Madrid, 1988, p 86.
,
21/03/11
" (...) O teu delito/ não é grave: é teres-me um pouco olvidado."

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"Carta"
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Mando-te, amigo, dois poemas que são
as últimas palavras de alguém sobre a terra,
ligadas a um fio que a guerra romper
não pode, nem juvenil o teu delito.
.
Se te agradou, para nós dactiloscrito
sonho mediterrânico, aquele azulado
folheto que como dom
te deixava partindo, hoje tu, que és bom,
junta-os aos que são para Telémaco. Em breve,
espero, de novo nos veremos. O teu delito
não é grave: é teres-me um pouco olvidado.
.
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Umberto Saba in "Poesia", Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p 371
(selecção, tradução e introdução de José Manuel de Vasconcelos).
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20/03/11
19/03/11
.Refazemos o tempo nocturno no mais escondido olhar
para que ninguém veja os passos em falso
com que trilhamos o destino.
Olhamos o carvão apagado, como se fosse possível
encontrar a noite debaixo da trempe
onde, no tempo antigo, se poisavam as panelas
e se procurava a promessa de um lugar à mesa.
Contra o silêncio lemos a meia voz: ponham laços
de crepe nos pescoços das pombas da cidade.
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas
de algodão. Voltamos a ler e as palavras de Auden
ecoam como um requiem pelos sonhos
profanados em mãos funestas.
Depois não sabemos como evitar o luto,
ou a culpa, ou a solidão.
Graça Pires in "A incidência da luz", Editora Labirinto, Fafe, 2011, p 13.
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Presa às marés, outras margens me circundam.
Procuro os teus braços.
Esgota-se em cada dia, lentamente,
a viagem do tempo que expõe a rigorosa
proa no vértice dos dias.
A densidade do sal partiu-me os remos
e entranhou-se-me nas veias como um tormento.
Tenho um barco parado a obstruir-me os lábios
colados à rugosidade dos mastros.
Procuro o teu rosto.
Graça Pires in " A incidência da luz, Editora Labirinto, Fafe, 2011, p 33.
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Presa às marés, outras margens me circundam.
Procuro os teus braços.
Esgota-se em cada dia, lentamente,
a viagem do tempo que expõe a rigorosa
proa no vértice dos dias.
A densidade do sal partiu-me os remos
e entranhou-se-me nas veias como um tormento.
Tenho um barco parado a obstruir-me os lábios
colados à rugosidade dos mastros.
Procuro o teu rosto.
Graça Pires in " A incidência da luz, Editora Labirinto, Fafe, 2011, p 33.
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18/03/11
Postado hoje...
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ACABOU DE SER POSTADO NA "REVISTA (ONLINE) TEXTUALINO"
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UM ARTIGO MEU SOBRE O ÚLTIMO LIVRO DE INEZ ANDRADE PAES.
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( Para aceder à Revista clicar sobre o seu nome no lado direito deste sítio)
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ACABOU DE SER POSTADO NA "REVISTA (ONLINE) TEXTUALINO"
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UM ARTIGO MEU SOBRE O ÚLTIMO LIVRO DE INEZ ANDRADE PAES.
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( Para aceder à Revista clicar sobre o seu nome no lado direito deste sítio)
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11/03/11
DIA MUNDIAL DA POESIA NA UNIVERSIDADE CLÁSSICA DE LISBOA
Clicar em cima da imagem!.
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DIA 21 DE MARÇO DE 2011, 18h30, NO ÁTRIO DA BIBLIOTECA DA FACULDADE
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DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA, TRÊS AUTORES FALARÃO DA
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SUA OBRA E LERÃO ALGUNS POEMAS SEUS:
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PAULA TAVARES ( ANGOLA )
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SYLVIA MONTARROYOS ( BRASIL )
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VICTOR OLIVEIRA MATEUS ( PORTUGAL )
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( Entrada Livre !!!)
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10/03/11
" P'ra ti guardei/ Coisas simples como estar à espera "

Flor de farinha/ fêmea de gado miúdo/
/oferta queimada/ no altar do mundo
(palavras de Juliana enquanto amassava o pão)
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Quantas coisas do amor
P'ra ti guardei
Coisas simples como estar à espera
Manter o pão quente
Deixar o vinho abrir-se
Em mil sabores
Guardei-me das tentações
das sombras do desejo
das vozes
dos segredos
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seria muito pedir-te
que me veles o sono
só mais uma vez.
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Paula Tavares in "Como Veias Finas na Terra", Editorial Caminho,
Alfragide, 2010, p 18.
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09/03/11
"... um andar de quem não toca no chão. "
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" DO SILÊNCIO E DO OLHAR "
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" DO SILÊNCIO E DO OLHAR "
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Vincava os passos nas lajes com a precisão de um tambor antes da batalha. A ansiedade dos tacões ecoava corredor afora, batia nas paredes, nas janelas, nos quadros. Por vezes, lá ao fundo, a porta de um dos quartos abria-se e saía a criada velha com uma bacia, com toalhas ou qualquer outra coisa cujo significado ela bem conhecia. Ao fim de algum tempo os gritos tornaram-se mais estridentes e ouviu-se um chorar de recém-nascido. Minha avó precipitou-se para o quarto mas a criada velha interceptou-a a meio caminho: "Minha senhora, é um menino, é um menino!" Gritava feliz. Minha avó estacou: o corpo fremente, a raiva a apoderar-se dela, o rosto vermelho, muito vermelho: "Um rapaz?!... Raios! E parece que vem mal disposto, só agora chegou e já está aos berros." Deu meia-volta e começou a subir para o primeiro piso, mas, a meio da escadaria, ainda se voltou para trás tornando a coisa mais clara, não só para as duas criadas, como para a parteira que, entretanto, tinha surgido na ombreira: " E fiquem sabendo nesta capoeira nunca nenhum galo há-de cantar!". Fechou-se no seu quarto de onde não desceu durante dois dias.
Alguns meses andou ela contornando a minha transparência. Macho naquela casa nunca teria a vida facilitada. O marido da minha tia mais velha raramente emitia uma palavra e, por razões de maior eficácia, decidira mesmo começar a ensurdecer. O meu tio Licínio, irmão de minha mãe, fazia aparições meteóricas: o seu Morris preto, CE- qualquer coisa - qualquer coisa, o fato impecavelmente engomado, gravata a condizer, o cheiro gorduroso da brilhantina, os sapatos de verniz. Licínio dormia lá algumas vezes, mas noutras só Deus sabia - sabia Deus e a minha avó, que o mandara espiar até apanhar o busílis. Quanto ao meu pai, deve ter sido o caso mais complicado: apareceu, certo dia, no salão grande, para o pedido formal de noivado: " Sra. Dna. Lucinda - gaguejou ele - venho pedir-lhe a mão de sua filha. " Ela fulminou-o com o olhar, e, com toda a gente perfilada atrás dela, perguntou: " Qual filha? Tenho três!". "Desculpe, Sra. Dna. Lucinda, mas uma já está casada.", ela pigarreou: " Eu sei que uma está casada, por isso é que disse três... Uma mãe sabe estas coisas. Fareja-as." O meu pai corou. O meu tio Licínio, envergonhado, escondeu-se imediatamente atrás da minha mãe e da irmã mais nova. " É da Leonor, minha senhora... é com ela que eu gostava de namorar", "Ora muito bem, assim é que as coisas são claras, só espero que seja para ir avante, pois, como deve saber, eu não gosto de si. Pode, sim senhor, começar a namorar! Nada de falar à porta nem à janela, o senhor namora cá em casa, às quartas e sextas-feiras, das quatro às cinco da tarde". E foi assim que apareci eu, o indesejado.
No entanto, um volte-face ocorreria deveria eu ter uns quatro meses. A minha mãe, entrando no quarto, deu com a minha avó frente à minha camita a persignar-se: "Que foi, mãe?", perguntou assustada. " Ai, rapariga, já viste bem os olhos do teu filho?", " Que têm os olhos do meu filho?", " Ai, Leonor Maria, são os olhos do teu pai!", " Ó, mãe, deixe-se dessas coisas eu já tinha visto que o Pedro é parecido com o avô, mas isso é normal, as crianças parecem-se sempre com alguém da família. " A minha avó ficou muito tempo em silêncio. Pegou-me ao colo pela primeira vez: " Não, Leonor Maria, eu sei o que estou a dizer, este menino tem qualquer coisa no olhar." A minha avó beijou-me o pescoço, apossou-se de mim e eu passei a dormir no piso de cima.
Nas primeiras recordações que conservo ela usava já uma bengala, com um belíssimo castão em prata, usava também uma mantilha de seda preta, que depois cruzava debaixo do queixo atirando as pontas para as costas. Mantinha ainda uma pose altiva apesar da indisfarçável ruína em que a família havia caído. Minha avó retirara-se para o sótão, mas sem nunca me largar. Naquele espaço os meus olhos alargaram-se ainda mais, bebiam tudo o que ela me contava: a sua amizade com a condessa de T., as suas disputas com o Dr. Aquiles, primeiro por causa do olival, depois por causa do outro terreno, aquele lá do fundo, onde estivera um poço e um moinho. Mostrava-me revistas muito antigas, fotos desirmanadas; tecia loas aos dois últimos reis, enquanto cuspinhava na Primeira República: " Uns bárbaros, tudo maçons, tudo maçons... uma pessoa saía de casa, mas já não sabia se entrava e o teu avô... houve um dia em que não voltou, foi apanhado por uma bala, no Rossio. Era um homem tão bonito... tinha os teus olhos, o teu modo de falar... um andar de quem não toca no chão. Ah, quando se conhece um homem assim, nunca mais se pode ver outro! Mas tu... tu também olhas para nós, mas o que vês é outra coisa " Eu ouvi-a, quase religiosamente, até aos meus dezasseis anos, arregalava os olhos, via o que ela me contava como se tudo se estivesse desenrolando à minha frente. " Tu achas que a avó está a ficar louca?", " Não vó, acho que é a sua alma que está a ficar cansada!" Ela fixou o tecto para esconder qualquer coisa, ajeitou a mantilha, com as mãos trémulas alisou também o amarrotado da saia sempre a arrojar o chão, e, num sussurro antes de adormecer, ainda deixou sair: " Vieste em altura má. Gastou-se tudo. Vão ser precisas décadas para voltar a subir e eu já não tenho freio nesta gente... Protege-te dos teus tios, dos teus primos, eles nunca te irão perdoar o teres-me mudado, nunca te irão perdoar teres sido o preferido... mas... tu já és um homem... e depois tens esses olhos... têm um dom, mas esse segredo é só nosso... "
- Sabe, doutora, ela viria a morrer dois anos depois?
- Voltaram a conversar?
- Não. A família desmembrou-se e...
- Como define, então, o que todos esses familiares sentiam por si? Sempre se sentiu inseguro com eles, não foi? - Fez-se um clique dentro de mim. Lá fora os plátanos ondulavam mansamente. O ruído dos carros, apesar de logo abaixo, apareciam-me como coisa longínqua, as vozes da sala de espera chegavam-me como ressonâncias num túnel que, aos poucos, se me ia abrindo. E de novo a voz da Cidália:
- Os seus pais nunca foram suficientemente fortes para o proteger contra esse exército de ódio, não é Pedro? - Sorri. Olhei de novo os plátanos, agora acalmados. A estátua com uma ponta de baioneta e a águia a querer voar.
- Já percebi para onde a doutora me está a querer empurrar, aliás, comigo o amor sempre começou pelos olhos, com uns começas pelos seios, com outros pelas coxas, com outros ainda pelas nádegas, comigo é pelos olhos. Sim, acho que já percebi! Do olhar receoso e vigilante à sua sedução...
- Eu sei que percebeu, o Pedro é um homem inteligente. Só lhe peço uma coisa.
- O quê?
- Essa capacidade que ambos descobrimos que tem, nunca a use sozinho consigo.
- Qual capacidade?
- De hipnotizar. Até mesmo de se auto-hipnotizar... Se fizer isso sozinho pode ser perigoso.
Despedimo-nos. Uma vez cá fora olhei a tarde, o turbilhão da cidade, o mundo. No café da esquina uma bica retemperou-me o ânimo, enquanto o espelho em frente, como de costume, me ia devolvendo tudo o que nunca fora, tudo o que nunca fora mas com um vasto leque de possíveis no seu centro, apesar de tudo.
- Que tens? estiveste a chorar? - Perguntou-me a imagem do espelho.
- Não. Porquê?
- Não sei! Estás com uns olhos estranhos.
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Victor Oliveira Mateus (Pré-publicação. Conto para uma Antologia cuja temática é a infância)
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07/03/11
Foi notícia...

A ANTOLOGIA "O PRISMA DAS MUITAS CORES" JÁ PUBLICITADA, ATRAVÉS DA CAPA
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E/OU DE POEMAS, EM BLOGUES MUITO VISITADOS COMO OS DE: SILVYA BEIRUTE,
.
MANUEL A. DOMINGOS, RICARDO DOMENECK, HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO,
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ANTÓNIO MIRANDA, QUE DELA FEZ UMA CRÍTICA FAVORÁVEL ( E SEGURAMENTE DE
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OUTROS A QUEM PEÇO DESCULPA POR NÃO TER VISTO), APARECE TAMBÉM AGORA
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NOTICIADA NA REVISTA "OS MEUS LIVROS", Nº 96 MARÇO 2011, ATRAVÉS DE UM
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TEXTO DE JOÃO MORALES, DIRECTOR DESTA MESMA PUBLICAÇÃO.
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(Clicar sobre a imagem!)
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06/03/11
Está já online ...

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ESTÁ ONLINE A "REVISTA TEXTUALINO "! INICIA-SE, PARA JÁ, COM OS SEGUINTES
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COLABORADORES ( POR ORDEM ALFABÉTICA):
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CARLOS VAZ
.
CATARINA NUNES E VAZ
.
DINIS MOTA
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MARIA AUGUSTA SILVA
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MÁRIO BRUNO CRUZ
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MARIA DO SAMEIRO BARROSO
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PEDRO COSTA
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PEDRO FOYOS
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REGINA GOUVEIA
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VICTOR OLIVEIRA MATEUS
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( Nota - no que me diz respeito penso escrever sobretudo acerca dos livros que vou lendo e do
cinema que vou vendo.)
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05/03/11
"desço para encontrar nos escombros/ uma faixa de terra/ para alimentar o segredo."

a luz atravessa o sangue, a memória.
mastiga este canto na cidade.
o incêndio devasta o interior da porta.
fragmenta estes olhos, entre o friso e a fogueira.
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a melodia prende a angústia e o mistério.
prendo no olhar as mãos que apagam
a melodia desta chuva.
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devagar, leio o sangue e a saliva
correndo ao canto da boca.
o livro rasga a língua, a garganta -
o canto (dos lábios) nos intervalos do silêncio.
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o frio, dizes, transmite à nascente
um pouco de morte, a nascente
deixa cair sobre nós esse incêndio.
o lume avança. enruga a pele,
queima os cabelos, os ossos - a alma.
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escrevo sobre o areal.
desço para encontrar nos escombros
uma faixa de terra
para alimentar o segredo.
nada vislumbro.
desfaço o teu corpo
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em ruínas
a noite prevalece.
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Ruy Ventura in "Chave de ignição", Editora Labirinto, Fafe, 2009, p 20.
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04/03/11
" Devir e Mesmidade na Poesia de Dora Ferreira da Silva "
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Por que te esquivas
de contemplar o mesmo no diverso
e saltas o decisivo verso
que nos une?
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Dora Ferreira da Silva, A um poeta
.
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Por que te esquivas
de contemplar o mesmo no diverso
e saltas o decisivo verso
que nos une?
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Dora Ferreira da Silva, A um poeta
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Instalada num território de exuberantes metáforas, num lirismo intimamente articulado com uma assumida visão do Ser e numa abrangente posição relativa ao sagrado, a poesia de Dora Ferreira da Silva escapa aos tradicionais, e espartilhadores, processos de rotulagem: multipolar e policêntrica esta obra assemelha-se antes a um enorme retábulo cuja inteligibilidade dinâmica nos envia incessantemente do Todo para as Partes e destas para aquele. Assim, não é de estranhar que este primeiro tópico seja logo detectável na recorrência com que a poeta utiliza todo um léxico bastante específico: fiandeira (PR 45 e 269), tecelã, tear, tecer, novelo, urdidura (PR 51 - 59), tranças (PR 68), cordame (PR 87), tranças desnastradas (Hd 35), Liames atando desatando (Hd 57), nó (CI 50), renda (CI 28)... Este é apenas um dos possíveis pontos de partida para o universo sincrético e mágico a partir do qual Dora Ferreira da Silva insiste a sua Voz Poética. Intimamente ligado a este devir formal e conceptual encontramos igualmente o modo como a autora se relaciona com toda uma Lógica da Identidade - ora a infringe ostensivamente: "(...) É palavra meu açoite/ minha dor minha alegria/ com ordem sem ordem se alinha/ pouco sóbria algo ébria" (CI 9); ora clarifica com expressões e adjectivos opositivos: "próximas-distantes," (CI 37), "fala da alma que me desabita" (PR 41); ora ainda introduzindo disjunções de tipo hipotético: "Sei que me escutas/ (ou és tu quem me falas?)" (CI 88). Mas o movimento, dentro deste universo poemático, possui igualmente feições bem mais ortodoxas - a brandura: "Esse tempo que passa como um vento brando" (PR 41); a nostalgia: "O que passou, passou. Fiquei testemunhando/ esse caminho sem ti... " (PR 79); o fascínio: "Espio as garças minuciosamente:/ sua escrita me fascina" (PR 279), etc. Este devir que atravessa de um lado ao outro a poesia de Dora Ferreira da Silva, não é o gratuito movimento pelo movimento, uma fibrilação arbitrária que a si se basta, é antes a expressão de uma visão animista do cosmos onde a reflexão e a emoção se conjugam para dizer o que à palavra vem: "(...) As estátuas e as fontes/ te acenam. Em vão/ chamam-te as flores..." (PR 70), "sermos dois e isolados/ flutuando na alma do mundo" (CI 16). A todas estas características do devir, outras se poderiam ainda acrescentar - transfigurações, metamorfoses: "As formas primeiras por belas e dementes/ esperam seu resgate (...)/ essas duras crisálidas do sono" (PR 61), contudo, o que nos importa por fim assinalar é que toda esta actividade se encontra subsumida numa figuração englobante - a do ciclo, tantas vezes identificado como círculo: "Tudo que foi luz/ e hoje desmaia em treva// renasce deste silêncio de orfandade" (PR 40), "deslocam-se os ponteiros/ cerrando o cerco do tempo." (PR 82), "dançam pétalas/ dança a vida (...)/ não termina a partitura/ que se repete/ sempre." (PR 270).
Simultaneamente Estrangeira e integrada no mundo sensível (vários são os seus poemas versando aspectos do quotidiano, alguns até com minuciosas descrições) Dora Ferreira da Silva atende ao que ocorre, não só naquilo que a cerca, mas também no si-própria, e assim, sob os auspícios da Beleza e do Amor para sempre insiste nesse seu Jardim que vai construindo e de que nunca desarma, ou melhor, nessa realidade estruturalmente hierofânica onde o sagrado irrompe a cada passo do seu olhar e da sua escrita, aliás, ao falarmos de sincretismo, de uma certa transgressão da Lógica da Identidade, de devir cíclico e de hierofânias estávamos de facto já a apontar para a circunstância de nos encontrarmos ante uma poesia alicerçada num solo eminentemente mítico. Se o Mito se actualiza sempre através de Ritos que trazem para o presente os seus deuses e/ou os seus heróis, também na poesia de Dora o ciclo se perfaz, quer entrando na própria estrutura da estória sagrada: "(...) Bebia Narciso sobre a onda/ quando uma face viu de tal beleza" (Hd 39), quer falando do quotidiano à lupa do Mito: "Osíris - Menino brincando na calçada/ e Osíris se chamava. Amei o nome" (CI 42), quer ainda cismando nas suas inquietações e desejos através de imagens míticas: "Partiram-se as finas cascas de ovos/ e o Sol resplandeceu." (PR 63), estes dois últimos versos fazem-nos mesmo pensar que a poeta conhecia alguns Mitos do norte da Europa, nomeadamente da Mitologia ugro-finlandesa. Assim como as vivências de carácter animistico-mágico e todo o tipo de ritualismo, nas sociedades ditas primitivas, jamais punham em causa a História Sagrada Originária ou os Mitos secundários, nem tão pouco a normatividade decorrente de todos eles, também em Dora Ferreira da Silva a Mesmidade dos planetas e da natureza ( cf. Hd 48), bem como do real enquanto Todo, jamais vacila apesar do constante devir a que está sujeita: "A Vida, sem marcos divisórios./ Um território geral além do provisório aqui ali,/ o mais e o menos, o entornado Amor brindando o espaço, taça cheia." (PR 106), "Já não sou eu quem diz, nem ouve e escreve,/ nem nossa é a dança alada/ subindo o teto da manhã:/ no alto vértice/ o Único a colhe/ e dá sentido à ação" (PR 106), "Quando a plenitude do/ UNO?/ simples inefável resumo." (CI 16). Pela ideia (ou conceito?) de Uno, que em Dora aparece por vezes com outras formulações, e que se lhe apresenta - apesar da sua Mesmidade - ao olhar e à escrita sob as formas mais diversas, a poeta escapa definitivamente a um ecletismo heteróclito, onde também assomam as marcas do cristianismo e de autores como Plotino, e instala-se definitivamente no território consagrado da Grécia Antiga, na quietude desse seu Jardim pejado de hierofânias onde "O muito transforma-se em unidade" (CI 121).
O apelo da Hélade fez-se também sentir na poesia portuguesa do século XX. Tomemos como exemplo apenas duas das grandes mulheres-poetas desse século. Na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen se o ponto de partida aparece como semelhante ao de Dora: "Mas dar a minha voz à veemência das coisas/ E fazer do mundo exterior substância da minha da minha mente" (BC 8), se no poeta nada deve separar "o homem do vivido" (BC 14) e se aparecem mesmo, nalguns casos, temas comuns (Os pássaros, Penélope, os deuses, Delphos, etc.), o que é um facto é que o límpido solo grego de que Sophia nos fala não é um solo visto através de um qualquer paradigma sincrético-mítico, estamos ante uma observadora envolvida com o objecto da observação mas jamais integrada, ou fundida, no mesmo: os deuses de Sophia não estão ali à beira-mão, eles "Nasceram como um fruto da paisagem" (A 46) e "Extasiados estão na sua imagem" (Idem), "A respiração dos deuses é visível" (G 66), pode ser vista no Golfo de Corinto ou em qualquer outro local da Grécia, mas há sempre um hiato entre eles e a poeta, quando muito poder-se-á falar de uma união (e batalha) entre sangues divino e humano (cf. G 66), mas isso não passa de uma alegoria de uma viajante "Em redor das montanhas e das ilhas" (Idem). Há até momentos em que a poeta é mesmo mais peremptória: "Exilámos os deuses e fomos/ Exilados da nossa inteireza" (OP 220), dito por outras palavras, a filiação desta poesia à Grécia enquadra-se no seio de um pensamento estritamente racional, embora nalguns poemas, por exemplo em "O Búzio de Cós", se utilize mais o verbo cismar. Atinge-se, por conseguinte, uma consequência paradoxal: a Beleza que Dora Ferreira da Silva alcança com o seu entrançado poético consegue-a igualmente Sophia de Mello Breyner pelo caminho inverso: o seu deslizar brando pelas águas, as suas praias fulvas e solares, o seu olhar minucioso e sereno, (olhar esse que faz dela uma das maiores poetas portuguesas), ou seja, mais uma vez o Mesmo a dizer-se nas suas múltiplas formas.
Ao deslizar brando e luminoso das poéticas anteriores opõe-se o entusiasmo - por vezes mesmo: o arrebatamento -, a amplidão e o cheio da poesia de Natália Correia. Não tendo feito da Grécia Antiga um dos seus temas dominantes a ela recorreu inúmeras vezes na sua escrita, e com Dora Ferreira da Silva partilha mesmo alguns títulos: a alusão à cidade de Patmos, as Estátuas, etc. Mas o que nos parece aqui fundamental é a contraposição existente entre Dora e Natália quanto ao postulado de que partem as suas escritas: a primeira instala-se no paradigma mítico, para, através dele elevar (e consagrar) esses aspectos do real circundante que do Uno foram emanando; a segunda, que com Sophia partilha o olhar da ocidental assumidamente estabelecida nas concepções epistemológicas e ônticas do seu século, parte para a Hélade para a colocar ao serviço das vivências e inquietações da contemporaneidade: "Para que no alarme dos sinos/ um pouco de Grécia repique/ no poço mais europeu do meu crânio/ procuro Atenas e sai Munique" (SN 33), "Ó Pítia adrede nascida/ nessa ilha que é tripeça,/ porque sendo Margarida/ teu nome no mar começa." (SN 134). Alguns poemas de Natália Correia parecem, contudo, inseridos em plena Antiguidade nomeadamente "Afrodite Ressurrecta" e "Invocação", mas tal se deve apenas ao saber poético - e até a uma certa ironia - da autora, veja-se, por exemplo, alguns versos do primeiro texto: "A de leite colmada. De amor, a mama cheia./(...)/ troca luas malignas por honestos lavores." (SN 172).
A originalidade da poesia de Dora Ferreira da Silva se, por um lado, apresenta acidentais similitudes com outras poetas, por outro, não lhe outorgou epígonos nem um generalizado reconhecimento no espaço lusófono. No entanto, convém estar atento a algumas convergências com vários poetas brasileiros, como é o caso de Mariana Ianelli no seu último livro: Treva Alvorada. Observe-se o carácter antitético do título, descubra-se igualmente na obra a constante inquietude (e maravilha) com o sagrado e com o mítico, sobretudo nas figuras de Narciso e Hércules. Mariana Ianelli, uma das mais significativas vozes poéticas da sua geração, compartilha também com Dora Ferreira da Silva o desinteresse em afinar a Voz poética pela batuta de circunstancialismos modais - a autenticidade da Palavra que se abre à escuta do poeta não faz cedências aos turvos resplendores das épocas. Acrescente-se que o ciclo doriano não está só presente no título da obra de Mariana, ele percorre todo este seu livro sob a forma de vida/morte/renascimento: "E se te chamam,/ Se te chamam ainda,/ Que seja maior o teu longe,/ Mais largo o teu giro.// (...) No parto do teu espírito." (TA 82). Talvez Dora Ferreira da Silva não tenha deixado seguidores directos - no sentido escolástico do termo -, para que, na inapreensível estratégia do Devir, a Mesmidade do seu dizer encontrasse outros veios, outras portas, outros modos de ressurgir.
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(Nota - às citações seguem-se, em maiúsculas, as iniciais dos títulos das obras com o número da respectiva página.)
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Bibliografia
-Andresen, Sophia de Mello Breyner, O Búzio de Cós e outros poemas, Editorial Caminho, Lisboa, 1977.
-Andresen, Sophia de Mello Breyner, Geografia, Edições Ática, Lisboa, 2ª edição.
-Andresen, Sophia de Mello Breyner, Antologia, Moraes Editores, Lisboa, 1975.
-Andresen, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética - Vol. III, Editorial Caminho, s/c, 1999.
-Correia, Natália, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II, Projornal, s/c, 1993.
-Ianelli, Mariana, Treva Alvorada, Editora Iluminuras, São Paulo, 2010.
-Silva, Dora Ferreira da, Cartografia do Imaginário, T.A. Queiroz Editor, São Paulo, 2003.
-Silva, Dora Ferreira da, Hídrias, Odysseus Editora Lda., São Paulo, 2004.
-Silva, Dora Ferreira da, Poesia Reunida, Topbooks Editora, Rio de Janeiro, 1999.
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Victor Oliveira Mateus in "Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências",
Nova Série, 2011, Número 14.
Nova Série, 2011, Número 14.
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03/03/11
a regra e as excepções...

Nota - A minha posição em relação ao palavrão vem sendo a mesma há já alguns anos, assim, sou contra o seu uso como forma de exibição gratuita, mas defendo-o como necessário se traduz um dado contexto socio-cultural e/ou dados estados emocionais. O conto que se segue publiquei-o em 2006... já nem me lembrava dele. Não deve ser lido por quem não gosta de palavrões em literatura!!! Pessoalmente deu-me muito prazer escreve-lo, imaginava-me sempre dentro de um filme do neo-realismo italiano... Se virmos bem, também faz pensar, aliás, nessa altura alguém me escreveu: "agora já ele é um senhor respeitável em Genebra". Juro que essa pessoa escreveu Genebra (ainda tenho aí o mail) e não Cabo Verde!
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"O Atrasadinho"
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Tudo por causa do raio dos olhos, parados, quase mortos. E eu ainda os abro mais, como se não visse. Autismo, disseram os médicos. O gajo é mas é atrasado! Decretaram os meus irmãos do alto da sua experiência. E assim fiquei: quase inexistente. O meu pai aproveitou-se: punha tudo em meu nome e olhava de soslaio para os meus irmãos. Malandros!, rosnava. Olha, filho, está tudo aqui! E apontava para uma caixa azul enterrada no quintal: os extractos, as aplicações. O pai assim fica descansado, acrescentava, como és atrasadinho. O meu irmão mais velho pirou-se cedo: comeu a filha do Hermenegildo e este apareceu aí com uma de canos serrados... Foi uma tourada aqui na rua! Pronto, casou! O mais novo atirou-se ao marido da Isilda do 2º Dto., um que era polícia, daqueles que dão porrada na malta. O maricão ainda apareceu aí com um olho negro. Mas a coisa deve ter mudado, porque depois encontrei-lhe uma coleira na cama. É do cão, disse o sacana. Qual cão?! Pensa que sou atrasadinho ou quê? Nós nem temos cão. E as algemas de que o polícia se esqueceu cá? Se calhar também são do cão. Quando o meu pai marou apareceram todos. Olha lá, perguntava-me o mais velho, sabes onde está a papelada? Eu abria os meus olhos azuis e babava-me. Não vês que é atrasadinho? Impunha-se a minha cunhada. O cabrão do mais novo é mais vivaço: como não me pôde roubar a mim, roubou o marido à Isilda. Essa puta agora não me larga: sabes p'ra onde é que eles foram? Eu abro os meus olhos azuis e deito a língua de fora. Ele é atrasadinho! Insiste a minha cunhada. Qual atrasadinho, qual merda, ele sabe é mais do que nós todos juntos!... Saíram agora as duas. Foram ao Super. Bem, também vou! As transferências já estão feitas e a casa de Genebra à espera. O avião é às oito. Não me posso atrasar! É que isto de ser sempre atrasadinho também cansa.
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Victor Oliveira Mateus in "Revista (online) Minguante", Nº 2 Outubro 2006, subordinada ao tema: "o azul".
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02/03/11
.Se per serbar la notte il vivo ardore
dei carboni da noi la sera accensi
nel legno incenerito, arso, conviensi
coprirgli sì che non si mostrin fuore;
quanto più si conviene a tutte l'ore
chiudere in modo d'ogn' intorno i sensi,
che sian ministri a serbar vivi e intensi
i bei spirti divini entro del core?
Se s' apre in questa fredda notte oscura
per noi la porta all' inimico vento,
le scintille del cor dureran poco.
Ordinar ne convien con sottil cura
il senso, onde non sia dell' alma spento
per le insidie di fuor l' interno foco.
Vittoria Colonna in "Tres poetisas del Renacimiento", Ediciones Hiperión, Madrid,
1988, p 34.
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01/03/11
" E qual ombro, & qual arte,/ Pode os tendões do cor vergar-te?"
."O Tigre"
.
Tigre Tigre, brilho em brasa,
Que a floresta à noite abrasa:
Que olho eterno ou mão podia,
Traçar-te a fera simetria?
.
Em que longe lerna ou céus,
Arde o fogo de olhos teus?
Em que asas ousa ele ir?
Que mão ousa o fogo asir?
.
E qual ombro, & qual arte,
Pode os tendões do cor vergar-te?
Quando a bater teu cor se pôs,
Que atroz mão? que pé atroz?
.
Qual martelo? qual o grilho,
Foi teu cér'bro em que fornilho?
Que bigorna? que atra garra,
Teu mortal terror amarra!
.
Quando estrelas dardejam
E com seu pranto os céus molharam:
Sorriu vendo o feito o obreiro?
Quem fez a ti fez o Cordeiro?
.
Tigre Tigre brilho em brasa,
Que a floresta à noite abrasa:
Que olho eterno ou mão podia,
Ousar-te a fera simetria?
.
William Blake in "Canções de Inocência e de Experiência", Assírio & Alvim, Lisboa,
2009, p 88 ( Tradução: Jorge Vaz de Carvalho).
.
"Já não era hostil com o Demónio ou o Barril "
.
"O Pequeno Vagabundo"
Mãezinha, Mãezinha, a Igreja é fria,
Mas é sã & jovial & quente a Cerv'jaria;
Dizer sei também onde me acho bem,
Tal uso no céu nunca é proceder bem.
Se nos regalassem as almas na Igreja.
Com fagueiro fogo, alguma Cerveja,
A orar cantaria, todo o santo dia,
Ninguém da Igreja escapar queria.
Então o Pastor prega & bebe & canta.
E nós como as aves que maio encanta
E a dona Tereja, que é sempre na Igreja,
Não dava aos moços ralhos clausura ou peleja.
E Deus como um pai exultante por ver,
Seus filhos como ele em gozo e prazer,
Já não era hostil com o Demónio ou o Barril,
Mas dava-lhe pinga e veste & beijos mil.
William Blake in "Canções de Inocência e de Experiência", Assírio & Alvim, Lisboa,
2009, p p 94 ( Tradução: Jorge Vaz de Carvalho).
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"O Pequeno Vagabundo"
Mãezinha, Mãezinha, a Igreja é fria,
Mas é sã & jovial & quente a Cerv'jaria;
Dizer sei também onde me acho bem,
Tal uso no céu nunca é proceder bem.
Se nos regalassem as almas na Igreja.
Com fagueiro fogo, alguma Cerveja,
A orar cantaria, todo o santo dia,
Ninguém da Igreja escapar queria.
Então o Pastor prega & bebe & canta.
E nós como as aves que maio encanta
E a dona Tereja, que é sempre na Igreja,
Não dava aos moços ralhos clausura ou peleja.
E Deus como um pai exultante por ver,
Seus filhos como ele em gozo e prazer,
Já não era hostil com o Demónio ou o Barril,
Mas dava-lhe pinga e veste & beijos mil.
William Blake in "Canções de Inocência e de Experiência", Assírio & Alvim, Lisboa,
2009, p p 94 ( Tradução: Jorge Vaz de Carvalho).
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27/02/11
."Avesso Bíblico"
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No início,
já havia tudo.
.
Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.
.
Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.
.
Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.
.
E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.
.
Estava criado o Homem.
.
Mia Couto in "idades cidades divindades", Editorial Caminho, Lisboa, 2007, p 105.
.
.
"Doença"
.
O médico serenou Juca Poeira.
Que ele já não padecia da doença
que ali o trouxera em tempos.
.
E o doutor disse o nome
da falecida enfermidade:
"Arritmia paroxística supra-ventricular"
.
Juca escutou, em silêncio,
com pesar de quem recebe condenação.
.
As mãos cruzadas no colo
diziam da resignada aceitação.
.
Por fim, venceu o pudor
e pediu ao médico
que lhe devolvesse a doença.
.
Que ele jamais tivera
nada tão belo em toda a sua vida.
.
Mia Couto in "idades cidades divindades" Editorial Caminho, Lisboa, 2007, p 48.
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"Doença"
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O médico serenou Juca Poeira.
Que ele já não padecia da doença
que ali o trouxera em tempos.
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E o doutor disse o nome
da falecida enfermidade:
"Arritmia paroxística supra-ventricular"
.
Juca escutou, em silêncio,
com pesar de quem recebe condenação.
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As mãos cruzadas no colo
diziam da resignada aceitação.
.
Por fim, venceu o pudor
e pediu ao médico
que lhe devolvesse a doença.
.
Que ele jamais tivera
nada tão belo em toda a sua vida.
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Mia Couto in "idades cidades divindades" Editorial Caminho, Lisboa, 2007, p 48.
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.
"Ourogulho"
.
Nunca pedi.
Sempre me perdi.
Na eminência do triunfo
eu me esqueci de vencer.
.
Onde havia escada
eu me furtei ao degrau
preferi o nada
a subir de grau.
.
Outros são donos,
donos de nomes, títulos
brilhos, proezas e luzes.
.
Eu, quando sou eu,
é apenas por distracção.
.
E apenas
para ser ninguém
me sobeja a vocação.
.
Mia Couto in "idades cidades divindades", Editorial Caminho, Lisboa, 2007, p 36.
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"Ourogulho"
.
Nunca pedi.
Sempre me perdi.
Na eminência do triunfo
eu me esqueci de vencer.
.
Onde havia escada
eu me furtei ao degrau
preferi o nada
a subir de grau.
.
Outros são donos,
donos de nomes, títulos
brilhos, proezas e luzes.
.
Eu, quando sou eu,
é apenas por distracção.
.
E apenas
para ser ninguém
me sobeja a vocação.
.
Mia Couto in "idades cidades divindades", Editorial Caminho, Lisboa, 2007, p 36.
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24/02/11
"O milagre não é uma suspensão das leis da natureza, mas o seu cumprimento."
.Os grandes supermercados e shoppings tornaram-se os nossos templos, com a liturgia do consumo e do desperdício. E afastam, por estratégias de construção e segurança, a mão do pedinte, o estorvo do outro. E eu faço parte, mesmo a contrapelo, desse coro concentrado no umbigo e na ambição. Para nós caberia a pergunta do Criador feita a Adão, com a perda do paraíso: "onde estás?" Onde estamos que não vemos ou atrofiamos os olhos e a epiderme? Paul Ricoeur observa muito bem quando afirma que a essa pergunta endereçada a Adão, "apenas Abraão pode responder: Eis-me aqui." O mesmo autor, se bem me lembro, disse que o amor protege a justiça do cálculo interessado do Do ut des, dar para que me seja devolvido.
Nesta prontidão somos poucos. E quando respondemos, guardamos uma reserva de tudo o que temos e somos. "Não há maior milagre do que repartir o pão." Todo repartir do pão é consagração, efetua a presença do senhor da messe. Nesse claro instante o homem reconhece o seu irmão, cidadão de Jerusalém, filho de Abraão, abrindo-lhe as portas do coração e da morada. "Um só é o testamento." Não há ruptura entre os textos. O novo é tão antigo como o primeiro e o antigo sempre será novíssimo. Todos os livros em torno ao sagrado, na busca da beleza e verdade, na conciliação entre vida e caminho, se agregam a esse testamento. Eles também falam em milagres, sinais a serem interpretados. O milagre não é uma suspensão das leis da natureza, mas o seu cumprimento. A verdade não nega a lei, mas dá-lhe o endereço. O devido cumprimento da lei instaura a justiça: dar a cada um o que é seu. Ir além, o amor ao próximo realiza. "Um só é o preceito: ama o próximo como a ti mesmo." Então é preciso um amor a si mesmo desprovido de egoísmo, de falsos ídolos, de barganhas e subterfúgios. Um amor que não nos tolha o crescimento como pessoa de valores. Se te vendes por nada, assim amarás. (...) O amor, segundo Platão, faz com que tudo viva em conexão..
" O homem não foi feito para o sábado, mas o sábado para o homem". Kafka, o profeta tardio, descreveu tão bem os labirintos irracionais da lógica da burocracia! Tanto no Castelo, no esforço infrutífero de chegar ao agrimensor, como no Processo, ao desabafo do personagem, como corolário do livro: " a lógica não pode impedir um homem que quer viver." Queremos um Deus adequado à razão ou acomodado a nossas vantagens. Esvaziamos as palavras sagradas a nosso bel-prazer. Aquele que devemos amar no próximo desarticula todos os esquemas.
.
Maria Carpi in "Abraão e a encarnação do verbo", Editora Age, Porto Alegre,
2009, pp 25 - 26.
.
23/02/11
"(...) contra el muro del deseo que espantó/ a Leopardi ..."

.
"Un Blanco Miedo"
.
He ido donde la belleza pareció ser toda nueva
para siempre, y en el último día hallé
el primero. Aquel que cae al fulvo ardor de luz
desnudo y leve, con su juvenil sonido
por el aire. Hermoso aunque se emboce
en la primera sombra derramada sobre la página
en blanco. He retrocedido a ninguna parte
como el salto de un cuerpo en el abismo,
que busca su signo para copiarlo en la página
esfumada de aquel día inaugural. Así nos miente
el alba en la escritura oculta que jamás cancela
los passos de la noche en su primera sombra.
Momento exacto en que la belleza se estrella
en vano contra el muro del deseo que espantó
a Leopardi - cuando nuestros pechos se amotinan
frente al poder de la Naturaleza que impera
solo para el mal, y la infinita vanidad del Todo.
.
Miguel Veyrat in "La puerta mágica, Antología 2001 - 2011 ", Libros del Aire,
Madrid, 2011, p 144.
.
21/02/11
"(...) Pero/ la mente olvida/ que solo puede poseer/ la lejanía ..."
.
"Gran Angular"
Ya me he visto muerto
muchas veces
pasando por encima
de mí mismo. Pero muerto
qué esperaba? Acaso
un ángulo mejor
para observar lo abierto?
Una lengua nueva - pan
tera perfumada, para amar
de nuevo? Resucitar
entonces? Se llamam
unas o otras las palabras
ligadas por el aura: Buscan
un nombre que nombrar
que se desprenda
y abandone al fin la sombra
transportando la herida
a la lengua del deseo. Pero
la mente olvida
que solo puede poseer
la lejanía - como hoguera
alumbrada por quien ama,
sin la esperanza
de seguir escribiendo
en el viento de su carne
una y otra vez el mismo nombre.
Miguel Veyrat in " La puerta mágica, Antología 2001 - 2011", Libros del Aire,
Madrid, 2011, pp 103 - 104.
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"Gran Angular"
Ya me he visto muerto
muchas veces
pasando por encima
de mí mismo. Pero muerto
qué esperaba? Acaso
un ángulo mejor
para observar lo abierto?
Una lengua nueva - pan
tera perfumada, para amar
de nuevo? Resucitar
entonces? Se llamam
unas o otras las palabras
ligadas por el aura: Buscan
un nombre que nombrar
que se desprenda
y abandone al fin la sombra
transportando la herida
a la lengua del deseo. Pero
la mente olvida
que solo puede poseer
la lejanía - como hoguera
alumbrada por quien ama,
sin la esperanza
de seguir escribiendo
en el viento de su carne
una y otra vez el mismo nombre.
Miguel Veyrat in " La puerta mágica, Antología 2001 - 2011", Libros del Aire,
Madrid, 2011, pp 103 - 104.
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20/02/11
"nacía una voz/ quebrada/ en busca de mi nombre."
.
"El Nombre Perdido"
De la aurora
fugitiva
en que la muerte
hundió sus ojos,
nacía una voz
quebrada
en busca de mi nombre.
Origen de mi ser,
memoria
de infinito:
Para hallar los tuyos
arderá por siempre
mi voz
sobre los rios.
Miguel Veyrat in "La puerta mágica, Antología 2001 - 2011", Libros del Aire,
Madrid, 2011, p 39.
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"El Nombre Perdido"
De la aurora
fugitiva
en que la muerte
hundió sus ojos,
nacía una voz
quebrada
en busca de mi nombre.
Origen de mi ser,
memoria
de infinito:
Para hallar los tuyos
arderá por siempre
mi voz
sobre los rios.
Miguel Veyrat in "La puerta mágica, Antología 2001 - 2011", Libros del Aire,
Madrid, 2011, p 39.
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18/02/11
.
" Dias e Noites"
.
Sujo de guerra
Eu voltei
Com meu domínio rendido
E uma fé que não é minha,
Roubada de torres caídas,
Enquanto os outros
Levavam a prata
De transportáveis relíquias.
.
Ninguém me fez retornar,
Eu retornei sem razão,
Um demente -
Sabor de ferro na boca
Disparando o metabolismo
Do êxtase.
.
Menos me aturdia
O punho dos violentos
Do que um Deus contrafeito.
.
Trançados o linho e a urtiga,
Eu me deitei sobre eles
Onde o silêncio é espesso
E braços e pernas se abrem
Sem sinônimo de desejo.
.
Cheirando a medo
Disputei
A palavra amor
A palavra semente
Manhã, alma, deslumbre,
Todas perdi para o frio.
Viscoso olho
De onde falava a angústia.
.
No consentimento do espelho
Que faz consentir o rosto,
Volto a mim e não me acuso.
Contemplo imagem e semelhança
Nas águas enganadoras
E isso é tudo.
.
Mariana Ianelli in "Treva Alvorada", Editora Iluminuras, São Paulo, 2010, pp 59 - 60.
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" Dias e Noites"
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Sujo de guerra
Eu voltei
Com meu domínio rendido
E uma fé que não é minha,
Roubada de torres caídas,
Enquanto os outros
Levavam a prata
De transportáveis relíquias.
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Ninguém me fez retornar,
Eu retornei sem razão,
Um demente -
Sabor de ferro na boca
Disparando o metabolismo
Do êxtase.
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Menos me aturdia
O punho dos violentos
Do que um Deus contrafeito.
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Trançados o linho e a urtiga,
Eu me deitei sobre eles
Onde o silêncio é espesso
E braços e pernas se abrem
Sem sinônimo de desejo.
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Cheirando a medo
Disputei
A palavra amor
A palavra semente
Manhã, alma, deslumbre,
Todas perdi para o frio.
Viscoso olho
De onde falava a angústia.
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No consentimento do espelho
Que faz consentir o rosto,
Volto a mim e não me acuso.
Contemplo imagem e semelhança
Nas águas enganadoras
E isso é tudo.
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Mariana Ianelli in "Treva Alvorada", Editora Iluminuras, São Paulo, 2010, pp 59 - 60.
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17/02/11
16/02/11
.
"Quadrante Vazio"
.
Silêncio no campo do soldado.
A noite vazada por um balaço,
Mas ele não pede água.
.
Em riste como lápide, pensa:
Perco-me eu dos azares que temo
Ou perdem-se de velhos
Os meus sapatos.
.
Portanto, caminha.
.
Sente o chão
Sem olhar para baixo,
Olha adiante, fareja adiante,
Um amigo invisível
Vai plantando coragem.
.
Em algum lugar
Uma língua de fogo
Arremete seu alvo
E ele continua,
A gargalhada espuma:
.
- Que eu seja honesto,
Se já não posso ser justo.
.
Recalcitrar
De fogo em fogo
No passo canhestro
De repente lhe dá
Uma impressão de leveza
Mais atroz que qualquer futuro.
.
- Samiel,
Toma minha pele couraça,
Minhas canastras,
Meu patético orgulho,
Tudo por quanto te venci
Num átimo, aquela noite,
Naquele escuro.
Faz-me ser como tu,
Rajada escaldante nos desertos.
.
Agora sim, pedindo água.
.
Mariana Ianelli in "Treva Alvorada", Editora Iluminuras, São Paulo, 2010, pp 55 - 56.
.
"Quadrante Vazio"
.
Silêncio no campo do soldado.
A noite vazada por um balaço,
Mas ele não pede água.
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Em riste como lápide, pensa:
Perco-me eu dos azares que temo
Ou perdem-se de velhos
Os meus sapatos.
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Portanto, caminha.
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Sente o chão
Sem olhar para baixo,
Olha adiante, fareja adiante,
Um amigo invisível
Vai plantando coragem.
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Em algum lugar
Uma língua de fogo
Arremete seu alvo
E ele continua,
A gargalhada espuma:
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- Que eu seja honesto,
Se já não posso ser justo.
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Recalcitrar
De fogo em fogo
No passo canhestro
De repente lhe dá
Uma impressão de leveza
Mais atroz que qualquer futuro.
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- Samiel,
Toma minha pele couraça,
Minhas canastras,
Meu patético orgulho,
Tudo por quanto te venci
Num átimo, aquela noite,
Naquele escuro.
Faz-me ser como tu,
Rajada escaldante nos desertos.
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Agora sim, pedindo água.
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Mariana Ianelli in "Treva Alvorada", Editora Iluminuras, São Paulo, 2010, pp 55 - 56.
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