30/06/11

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 "Entretendo o canário"


Penas amarelas,
Será verdade
Que chilreias para o chui
Que bate?

Desiste. Vira o teu
Olhar nervoso
Para a porta aberta da casa de banho
Onde eu ensaboo

As costas da minha amada
E ponho o meu queixo no seu ombro
Para que possa fazer o mesmo
Às mamas e às coxas.

Canta. Agita as tuas asas
Como se aplaudisses,
Ou atiro as suas cuecas negras
Para cima da tua gaiola dourada.

  Charles Simic in "Previsão de Tempo para Utopia e Arredores", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2002, p 67 ( Tradução de José Alberto Oliveira).
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 "Le Beau Monde"


Um homem subiu para falar de Marcel Proust,
"O grande escritor francês",
Para um caixote que era famoso pelos discursos
Sobre patrões desonestos e trabalhadores pobres.

Eu juro (Tony Russo é minha testemunha).
Era já noite dentro, a multidão ia diminuindo,
Mas logo todos regressaram
Para ver sobre que era aquela lengalenga.

Ele parecia uma das máquinas de lavar louça
De uma das espeluncas da Avenida B.
Ele roía as unhas enquanto falava.
Dizia isto e aquilo, devia ser em francês.

Toda a gente se empertigou, até os bêbados.
Os valentões deixaram de exercitar os músculos.
Era como estar na igreja
Quando a Missa Cantada era dita em latim.

Ninguém entendia, mas todos ficavem alegres.
Quando acabou foi-se embora, de vez,
Com passadas largas numa grande pressa.
Os restantes atardaram-se a dispersar.

  Charles Simic in "Previsão de Tempo Para Utopia e Arredores", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2002, p 47 (Tradução de José Alberto Oliveira).
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26/06/11

" quantas vezes te sei aqui e não te vejo "

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 "Poema 10"

quantas vezes me despeço de ti
sem saber

onde vais

quantas vezes me despeço de ti
sem saber a razão
sem saber de tua mão
sem saber

quantas vezes sem saber
me levanto ao bater da porta
do soalho no passo breve  curto  certo

te procuro nas gavetas
em sombras atrás dos muros
em sombras que o vento traz
com ramos a bater nas vidraças

quantas vezes te sei aqui e não te vejo

me despeço de ti
e não o quero
me despeço de ti
e não te peço

fica

para acalentar meu desassossego

  Inez Andrade Paes in "Paredes Abertas ao Céu", Edição da Autora, s/c., 2010, p 34.
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24/06/11

" a mim que não sei senão perder-me/ nos labirintos do teu corpo, em aceso desejo."

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 "Meu amor, dá-me o mapa da tua alma"

Meu amor, dá-me o mapa da tua alma,
a mim que não sei senão perder-me
nos labirintos do teu corpo, em aceso desejo.

Percorro-te, de lés-a-lés, beijo-te
lambo-te, peço-te que me ames com fúria
e depois lentamente, baralho-te,
e avanço como uma amazona sobre ti,
mas é no teu olhar que a minha fúria se desvanece,
como se um gesto teu, apenas,
soubesse aplacar-me esta fome
que trago de ti, sempre, em mim.

Seguras-me o rosto, abraças-me
e eu estremeço. Às vezes não é do prazer,
é desse gesto antigo onde me revejo
nos teus olhos, onde pressinto que cheguei.

Ao centro do labirinto, onde vislumbro o teu verdadeiro rosto.

  Maria João Cantinho in "O Traço do Anjo", Edium Editores, Porto, 2011, p 45.
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" lembra-me tal, sempre que me esqueça."

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 "Há palavras que anseiam ser ditas"

há palavras que anseiam ser ditas
como pássaros que teimam nas brumas
avançando na busca de um deus,

palavras que se ocultam
sob o silêncio de um olhar,
nascidas do mais puro coração,

lembra-me tal, sempre que me esqueça.

  Maria João Cantinho in "O Traço do Anjo", Edium Editores, Porto, 2011, p 47.
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"(...) compreenderás/ que nada morre, nada desaparece,/ apenas deixa de ser em nós "

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 "Poema dos Elementos"

O tempo tudo transforma, essa é a lei
que nos cabe em sorte.
Mas se te sentares à sombra do velho carvalho
e fechares os olhos,
se ouvires o que o vento
te vem contar, compreenderás
que nada morre, nada desaparece,
apenas deixa de ser em nós
para passar a outras camadas deste mistério.

Gostava de te dar a mão e explicar-te
a ti, que possuis o terror da morte,
como tudo é sagrado e se renova,
tudo volta ao pó e depois ao ar,
tudo se transforma tão serenamente.

A água, a pedra, o tempo,
tudo são reflexos de tudo
o que nos precedeu,
das vozes dos nossos antepassados
que agora nos olham
de outros lados, sei-o,
sob a forma de árvores, pássaros,
tudo é tão incandescente, neste cosmos
como uma dança permanente entre os elementos.

Por isso, quando choras, é o rio
que entra em ti e lava a memória
da tua dor, o rio é já o tempo
que, em ti, leva ao esquecimento.

      Maria João Cantinho in "O Traço do Anjo", Edium Editores, Porto, 2011, p 53.
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23/06/11

" Como não afundasse, ficou vagando,/ Até se desfazer em partes, "

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 "Manhã"

Lentamente, foi se afastando da praia.
Estava amarrado, e depois oscilou livre,
Na maré vazante.
Terá demorado a fugir da vista.

No alto-mar, ao sabor das correntes que o arrastaram,
Deve ter recolhido a chuva e secado ao sol.
A água, penetrando pela borda,
Nos meios-dias deve ter deixado um rastro brilhante de sal sobre o banco
E nas dobras do fundo.

Depois, numa noite de chuva,
Primeiro uma onda o terá alagado até o meio.
Em seguida, balançando mais lento, terá sido aos poucos coberto pela água.

Como não afundasse, ficou vagando,
Até se desfazer em partes,
Uma das quais é esta, que agora
Está aqui, quase enterrada na areia.

  Paulo Franchetti in "Memória Futura", Cotia, São Paulo, 2010, p 18.
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" As lembranças, afinal, já não cavalgam as palavras "

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PONHO UMAS palavras num papel
E elas passeiam, intocadas,
Como peixes com fome num aquário.

Se alguém se debruçasse agora,
Em busca de outra imagem recurvada,
Veria apenas a sombra, como eu vejo,
Na folha de papel.

Nem mesmo sob a superfície paira
(As lembranças, afinal, já não cavalgam as palavras)
Alguma forma de alívio.

Apenas isto:
Estes gestos,
Pequenos pedaços flutuantes,
Farelos que os peixes,
De súbito surgindo do fundo
Da água lodosa,
Vêm devorar.

  Paulo Franchetti in "Memória Futura", Ateliê Editorial, Cotia, 2010, p 33.
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22/06/11

" Assim no dia a dia o amor,/ Cobra, inseto, ave de rapina, "

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O SANGUE insiste
Como um pensamento,
Uma ideia fixa que preenche um dia à toa.
Depois reflui, resolvido.
O sono condensa a vista,
Como a respiração no vidro do carro
Parado sob a chuva.
Os mangues ameaçam invadir a cidade,
Sobem e defluem íntimas marés,
Enxurradas de restos, caranguejos, garrafas.
Ou tudo escorre em paz,
Nos canos do tanque, de plástico liso,
Ou no correto sistema de águas do banheiro.
Assim no dia a dia o amor,
Cobra, inseto, ave de rapina,
Vai desdobrando a vida,
Que corrói.

    Paulo Franchetti in "Memória Futura", Ateliê Editorial, Cotia, 2010, p 45.
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21/06/11

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 "Oração"


Anjo da guarda, corta as tuas asas,
Esses galões de pano,
Se queres, humano,
Ajudar-me.
Minha mãe a gerar-me
Nu,
E o céu a mandar-me
Um cisne falso como tu!

Nesta terrena dor,
Desesperado,
Pedi um braço quente e pecador.
Não quero cá ninguém santificado!

Limpa o verniz da cara, tira o lenço
E enxuga-me estas lágrimas de lama.
Deus é imenso,
Mas nem eu lhe pertenço,
Nem é por ele que a minha angústia chama.

  Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, p 309.
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19/06/11

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" MARIA TERESA HORTA, UMA VOZ INSUBMISSA". A homenagem à escritora ocorreu no "Museu-biblioteca República e Resistência" (em Lisboa), a 6 de Junho de 2011.
Fotos retiradas do "Face" e delas foram removidas todas as identificações.
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" Às vezes quero dizer-te coisas importantes... "

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 Poema 10 do ciclo " Marlene"

Às vezes quero dizer-te coisas importantes, a cotação das acções na bol-
sa prateada e dócil da tua intimidade, a vibração involuntária dos meus
tecidos moles, durante um jantar num hotel de luxo, Marlene. Mas ficam-
-se as cinco estrelas por uma tasca no centro histórico, com carapaus
grelhados e molho à espanhola, e uma cerveja em vez de um daikiri que
me adormece e faz sonhar contigo e com os teus seios tensos que sei
que assim ficarão eternamente.

  António Ferra in "Marias Pardas", &etc., Lisboa, 2011, p 40.
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" Já a tinham fodido muito na vida e bebia até cicuta ao acordar, "

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 Poema 2 do ciclo "Maria Parda"

Já a tinham fodido muito na vida e bebia até cicuta ao acordar, a ver se
marchava para a câmara escura. Mas o raio de um instinto de sobrevi-
vência toldava-lhe os olhos e saltava pelas ruas fora, de pénis à cintura,
a dizer blasfémias para enrabar o futuro, a gritar que já tinha experimen-
tado tudo, tudo - roubo de galinhas nas quintas suburbanas, champanhe
bebido em mansardas, vacinas contra o tétano e o tifo, pastéis de cio em
recepções mundanas; que já tinha estado presa em alta segurança e apal-
pada por uma guarda a quem chamava mamã; que bebera este mundo e
o outro por garrafas diárias para esconder a podridão dos sonhos em
vinhos a martelo.

  António Ferra in "Marias Pardas", &etc., Lisboa, 2011, p 16.
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18/06/11

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Sem defesa - de um olhar-goraz - uivando à nossa mesa
Mes AMIS
Ferva um caldo de marcas e siglas ao lado da minha enxerga
Algumas queimam no vagarzinho e nem as consigo enxergar
Nem sempre o que ferve se purifica - na estreiteza do escaninho

BPP e BPN - sem dispêndio nas insónias - sem suar ao sol d'AMI

Em manobras de um agudo tilintar
Na quietação sem ciência de outro mar

OPTIMUS
Não as oiço... Nem enxergo estas encíclicas
Falta de destreza - numa côdea de pobreza
De quem rejeita o intuito de abreviar
Quando se perde na justa medida
A vida que de breve só se atreve
De alma lenta em tudo para durar

"Abençoados os pobres de espírito"
Pois deles não é o reino da terra

E o mundo - uma centopeia de olhares musculados
Eléctrica e sem fios - na corrente de todos os desafios
Rastejando na prontidão dos passos imaculados
Até no instante da extrema-unção
Competindo dentro e fora das feiras e dos mercados
- Não há sardinhas na grelha como as que compro e vendo
(De maxilares saciados na verdura das alfaces sem sabor
Até dizem que a alface faz enxergar melhor)

O mundo em travessas - girando na devoção ao labor
Uma centopeia sem miopia nem vista cansada
De patas grossas - gravando na eira do tecno-rafeiro
( Cão seja - Fiel por baptismo)
O território da sardinha que não quer perder o peso
Na comunhão sem azia de uma salada sem cheiro

E o futuro está na alfa-sardinha
TGV de todos os continentes
De rápida extensão em verdes-faces

( Pois - não é verdade que quem tem olho tudo enxerga?)

BPP e BPN
Siglas - varinas de espreitar entre saias os peixes miúdos
De atacar nos bês e nos pês e nos Nez os perfumes
E temperos - na caldeirada de intestinos façanhudos
Sobre as patas de engrossar a canastra dos milhões
Regateando sem cansaço essa queda de crescer
Entre sardinhas cruas e alfaces de olear os foliões

- Quem quer fundos - quem quer almoçar?
Olhe a sardinha fresquinha
Ó freguês! Olhe os fundos frescos de amadurecer
Não são figos nem sardinhas de alto-mar

Antes o banquete ilustrando a arte de naufragar

  Ana Maria Puga in "Quando as Palavras começam a escrever", Editora Labirinto,
Fafe, 2011, pp 75 - 76.
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17/06/11

(Clicar sobre a imagem)

" Morte em Veneza


No azul da inquietação"


Morrer entre os canais
De quanto imaginar
A elegância da ponte
Por alagar de amor
Que só quer - existindo
Na fixação do olhar
Uma réstia de horizonte

A música de um maestro
Na miopia do desejo
Misturando o azul das águas
Nas lentes de criar o beijo

E só depois

(Desfalecer sob as pontes)

Desesperando
Na tinta de escurecer
De negrejar os cabelos
Em desalinho
Na chuva em fio-corrente
Moldando o rosto da-dor
Deambulando
Entre o favor de S. Marcos
E os esconsos sem magia
Onde mijaram os gatos
No canto de um corre-dor
Ao luar da travessia

 Ana Maria Puga in "Quando as Palavras Começam a Escrever", Editora Labirinto,
Fafe, 2011, p 53.
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         "Civilização"


Ela quis pagar com cartão dourado
Ao balcão - um euro só e quarenta
Um café de pequenas iguarias
De olhar cambado
De gola e banda
Mesclando na viscose as pedrarias

 Ana Maria Puga in "Quando as Palavras começam a Escrever", Editora Labirinto,
Fafe, 2011, p 45.
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16/06/11

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 "Solo"


Vem outra lua
e vou

contra a imensa parede
que me derruba
e cega.
Atordoa mas não mata
a vontade
de insistir.
Remendo as asas
e espero
a cura: o próximo luar.

De tombo em tombro,
após mergulho
no vazio,
subo à superfície,
dura borda da noite,
e o vôo se levanta
para que eu
- sempre outra -
siga à procura
do existir

  Sônia Barros in "Mezzo Vôo", Nankin Editorial, São Paulo, 2007, p 49.
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15/06/11

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 "Sina"


Quem mais ouvirá,
nesta fria manhã,
a voz incessante do vento?
Quem mais,
além dos cães que uivam
entrecortando o canto,
e das palmeiras que, ao som do mesmo canto,
dançam?
Talvez o gato
que dorme na varanda,
se a voz do vento
alcançar os longes de seu sono
como me alcançou
neste sábado
em que pretendia dormir
a manhã inteira
( e não ser acordada pela voz
da ventania de um poema).

 Sônia Barros in "Mezzo Vôo", Nankin Editorial, São Paulo, 2007, 34.
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08/06/11

" É melhor assim.../ O peito aberto, sem condições e tratados, "

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 "Podia saber mais de tudo"

Podia saber mais de tudo,
Deixar-me enredar nesses enganos,
Confiar na incerteza de outros dias.
Podia renegar-me, talvez nunca como agora,
Podia saber quem eras tu e os demais,
Fintar o futuro e o passado,
Que o acaso fosse concreto e determinado.

Podia não estar aqui,
Ser material de outra estrutura,
Escolher a chuva que me ensopa,
Queimar-me ao vento, ao sul,
Onde o sal soubesse tanto a despedida como eu,
Para que me esqueça delas, enfim.

É melhor assim...
O peito aberto, sem condições e tratados,
Morder o presente, mutilado,
Querer o mais difícil dos prazeres,
Esquecer o amargo das canções,
Enfim.

  Daniel Costa-Lourenço in "Heróis (chamamento)", Chiado Editora, s/c., 2010, p 74.
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( Nota - este poema tem como epígrafe quatro versos de David Mourão-Ferreira, aliás, grande parte dos poemas desta obra têm epígrafes, mas todas colocadas no final da página. Preceito metodológico interessante! Dos não sei quantos livros que li nos últimos anos, este é o segundo em que constatei semelhante "instrução de leitura".)
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"(...) maldade fugidia/ Que tropeça,/ Em mim. "

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 "Gozo caprichoso"

És,
Caprichoso gozo, atormentado,
Prazer obsceno encoberto,
Palavra que não existe,
Segredo cansado, decifrado,
Inferno,
Sangue ardendo profundamente,
Eco do riso que arranha o relento,
No paraíso,
Veneno de bem-querer,
Sombra que esconde, finge, vicia,
Crua verdade, maldade fugidia
Que tropeça,
Em mim.

 Daniel Costa-Lourenço in "Heróis (chamamento)", Chiado Editora, s/c., p 18.
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07/06/11

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 "Provérbio"


O que vier com alma nova, fique.
Deite a sua raiz,
Cresça, floresça, frutifique,
E morra se outra seiva o contradiz.

Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações D. Quixote, Lisboa, 2000, p 212.
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06/06/11

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Ave maluca que pousou sozinha
Na praia triste, e debicava a espuma
Que uma onda deixou,
O bando olhou-a lá do céu que tinha,
Viu-a perder as horas uma a uma,
E voou.

Era um trigal inteiro que acenava
À prática avidez do seu destino!
Ficasse quem comia solidão.
Ficasse singular quem desejava,
Peregrino,
Na flor das vagas encontrar o pão.

 Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote", Lisboa, 2000, p 175.
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04/06/11

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" O Lázaro"


O Lázaro sou eu, não foi o Outro,
o das migalhas e das chagas podres.
O Lázaro sou eu, aqui sentado
à mesa do Vice-Rei
a mastigar com nojo estes faisões!...
Sou eu, vestido de holanda,
a pregar a nudez que sempre usei
nas grandes ocasiões!...

Sou eu, nado e criado para amar,
e que não sei amar!
Sou eu, que disse não e me perdi!
Que vi Deus e nunca acreditei!
Que vi a estrada impedida
e passei!...

Sou eu, que não sou feliz no Céu nem no Inferno,
porque no Céu há paz, e no Inferno há guerra,
e a minha Paz é outra, e a minha Guerra é outra...
Sou eu, tão Grande e Pequeno
que nem sirvo para grão
da parábola da mostarda!
Sou eu, que há vinte e sete anos
vivo sem Anjo da Guarda!

Sou eu, que ou tudo ou nada, ou Vida ou Morte,
e acerto sempre na Morte!
Que espeto sempre o punhal
onde não quero ferir!...
Que sou assim, às cegas e às golfadas,
como as dores abençoadas
de parir!

Sou eu, que me disse adeus
e fiquei à minha espera!...
E que naquela manhã de ano bissexto
- que podia ter sol e teve chuva -
recebi nestes meus braços
o esqueleto verdadeiro
da saudade amargurada
de quem não tem ausentes nem distâncias!

Sou eu, o louco sem asas
que se lança dos abismos a cantar
a Canção do Inocente...
E que do fundo desse sonho novo
atira a praga
que o traga
àquela redentora incompreensão
do seu povo!...

Sou eu, o Alfa e o Ómega
e os sentidos singulares
que o Anjo-Satanás me prometeu!...
Sou este Nobre-Vilão descalço e de gravata,
sou este jornal sem data
que traz a infausta notícia
que ninguém leu!...

Sou eu - e mostro-me todo!
Quem puder, arranque os olhos
e venha cheio de Fé
ver o Lázaro real
que não vem nos Evangelhos
mas é!...

  Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pp 69 - 70.
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02/06/11


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  (Fragmentos do Ciclo " Escritos da Admiração" )
.
Poesia e filosofia não principiam pela indagação; nem
pela dúvida. Mas pela exclamação das palavras que in-
sistem em transbordar com o admirável, a ponto de não
se distinguirem dele. Os escritos não são instrumentos
de comunicação do que lhes é exterior. Eles mesmos,
já espantosos, realizam seu limite, chegando ao que, des-
de sempre, são: palavras, criações de novos destinos.
.
(...)
.
A exclamação do poeta (do pensador, do filósofo) é
feita de dentro do enigma. Ele não é aquele que decifra
a esfinge, sob pena de morte caso fracasse. Ele não é
aquele que consulta o oráculo para descobrir o futuro
vindouro. Ele é a própria esfinge, produtora de enigmas.
Ele é o próprio oráculo, criador de palavras ambíguas.
No princípio, era o enigma, que se bastava por si pró-
prio, e o oracular era uma ambiência a ser frequenta-
da, uma morada a ser habitada. Nenhuma resposta o
precedia, nem era requisitada nenhuma explicação. A
necessidade de sua decifração se constitui como tare-
fa tardia do pensamento. Antes de ser revelação de
um sentido oculto, a palavra poética, pensante, dedi-
ca-se a nos envolver com o oculto que há em todo
sentido; ao invés da dúvida, a exclamação; ao invés
da pergunta e da resposta, o enigma.

  Alberto Pucheu in "Escritos da Indiscernibilidade", azougue editorial, Rio de Janeiro,
2003, pp 8 - 11.
.
.
(Fragmentos do Ciclo "Escritos da Íntima Estranheza")

Deixo aparecer a voz que quer fazer sua diferença falar
por mim. Favoreço-a. À minha revelia, ela me impõe
suas próprias surpresas, minhas próprias perplexida-
des.
.
(...)
.
A experiência da escrita me deixa exposto pelo real
que me transpõe; desconhecendo a separação entre
linguagem, pessoa, vazio e todas as coisas, ela se dá
justamente na respectiva encruzilhada: morada de
todo espanto.
.
(...)
.
Os arranjos das palavras trazem em seu bojo uma
dose de indeterminação prévia, uma abertura para
o imprevisível, para o casual; tanto inesgotáveis,
quanto incansáveis, acionam a fixidez que gostaria
de descansar satisfeita de si.

  Alberto Pucheu in "Escritos da Indiscernibilidade", azougue editorial, Rio de Janeiro,
2003, pp 20 - 25.
.

01/06/11


(...)
Esta é a juventude perene,
a que nenhuma neve cede às prerrogativas do tempo
e que eu, em menino, quis entrever para sempre,
a crença firme deveria poder reduzir-se
a outro teor, exaurindo-se do que avulta em injustiça no embaraço
de pregar aos peixes, como se a abutres fosse,
em vez de a homens,
com rostos semelhantes ao nosso semelhante,
nas intransponíveis perguntas para que não há resposta

Daí que todas as perguntas tenham sentido e não façam sentido
nenhum, unem-se os raros e os ternos, a luz solidifica,
todos os confrontos explodem em outras recriminações,
as cidades passam, passam as acareações,
passa a desolação para quem outra desolação se apreste
na cidade,
mas ninguém, morto que esteja, lê Herberto Helder,
como há muito sabemos,
enquanto a fulminação da infância é uma desventura
e é uma desvantagem escrever versos que ninguém há-de ler,
ou só mesmo pensar em escrevê-los

Adianta pouco esta roda de comprazimento,
caímos uma primeira vez e uma segunda vez iremos cair,
e logo uma terceira vez caímos,
mas morreremos, como sempre, na praia,
como sempre morreremos ao percorrer a passadeira devagar,
entre uma loja chinesa e outra loja chinesa,
entre um e outro descaminho,
um descaminho de atropelamento,
e fuga
e nada mais,
nada mais no horizonte da menina nua da avenida dos Aliados

Tudo é avulso, tudo é repulsivo,
calha-nos ensandecer cedo demais,
(...)

  Amadeu Baptista in " O Ano da Morte de José Saramago", &etc., Lisboa, 2010, pp 23 - 24.
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31/05/11


" O Brinquedo do Céu"


o tecto azul sob si tem vários brinquedos intocáveis
imagens que o olhar concentra no seu poço de admiração
todo um quadro de paletas esbatidas e carregadas de ar em movimento
o vento que conduz as nuvens e agita os braços das ventoinhas do parque eólico

as nuvens de um azul imposto de cinzento
colocam-se entre feixes de outras que são rastos de aviões que não passaram
mas poderiam

debate-se agora a perspectiva com a evolução do quadro
tudo passa e só a lembrança pode reformular a passagem do tempo
só importa fixar o momento em que tudo passa
pois tudo passa e não adianta agarrar o instante
fica a memória do real avião que feliz atravessa seguro o centro da perspectiva
aérea praia completa do momento ido
onde todo o movimento se espraia ao sabor do vento
e nada nunca é como foi há instantes

 António José Borges in Revista "O Escritor" Nº 24/25, A.P.E., Lisboa, Dezembro 2009.
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29/05/11

Soneto CXXX de William Shakespeare dito por Daniel Radcliffe



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Minha amante nos olhos sol não tem,
mais rubro é o coral que sua boca,
se a neve é branca, o peito é escuro e bem,
se há toucas de oiro, negro fio a touca.
Vi rosas brancas, rubras, damascadas,
não tem rosas na face, ao contemplá-la,
e há essências que são mais delicadas
do que o bafo que aminha amante exala.
Gosto de ouvir-lhe a voz, contudo sei
da música mais doce a afinação,
e uma deusa a passar jamais olhei,
a minha amante a andar põe pés no chão.
Creio no entanto o meu amor tão raro
quão falsas ilusões a que o comparo.

  William Shakespeare, in " Os Sonetos de... ", Bertrand Editora, Lisboa, 2002,
p 271 ( Tradução de Vasco Graça Moura)
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28/05/11

" Ella da pan o láudano para/ las heridas o sal para la sed ... "


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 ( Primeiro poema do ciclo "Mi pluma" )

Igual que el lecho, es la pluma
ámbito diverso y amplio donde
junto al amor, cabe el desamparo
y la aflicción.
Allí se extiende
la desazón y la alegría: igual al
romo que llora la gacela, que al
tembloroso y solo que gime empezonado,
que lo mismo al galán que al viejo
desprovisto: pluma diversa, siempre la
misma: continua en sí, punta y cabida.

Ella da pan o laúdano para
las heridas o sal para la
sed y vinagre al que agua
quiere.

"Ven a salvarnos",
dice el mancebillo. Y en el
espanto tiene su tinta. "Ven",
dice la tríntina "pon la gloria
en mis manos", y en la íntima
nube tiene pan y manteca: el
alimento inicuo. "Dame la plenitude",
dice el languidomundo, " de Aladino
la luz" y recibe la parca materia
de acarreo.

Ay, de aquel que ruega
y llora: reciba el todo, ya recibe
parte. Aquel que gime  qué le pide
al mundo, a la sonanta, sino
el resíduo, la gransa, la solfa,
el desafino?
Aúnque recta e
inmutable, solícita al servicio
y prístina al mandato, qué indócil,
qué casquimanta, qué madre de sí, qué
adusta, cuánto no donante, qué perpleja
en su frío!

Te poseo de toda guisa:
morada como la chinche
sangrosa, verde como el
retamar, negra como la corazón
de les centolles, dorada del
salto de gacela, plata argenta
como el Cuzco y las andinas nieves,
marrón avieso que es color de muerte:
iguala siempre, dando la misma calofrío.
Idéntica y temporal.
Todas de madre y de padre,
amante, esposa, prima, circuncisa, napolitana
alba: Todas la misma: ciega de mi corazón,
imparpable amor, mármol de mi vida, amante
no divisa, fría, desposeída, alcuza y branquia.

Así la amo: material
y diversa: introversa
y secreta: enteca y
rutilante. Mísera y
magnífica.
Como a nuestro
más profundo la amo: el
pensamiento que fluye, como
una garza por entre las aguas,
la golondrina por entre las ciénagas.

Ay, la sorda reclámale a la muda:
no hables, corazón, cualquier muro
es oído!

  Rafael Ballesteros in "Testamenta", Visor Libros, Madrid, 1991, pp 81 - 83.
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Cidade intemporal
é lá que existes
no nocturno vazio
um homem está de pé
tem nas asas   na língua
uma chama inviolada
uma causa que varre
as sementes   a febre

devagar sobre o orvalho
o suor corre à tona
algas azuis nos cílios

e um vestido de penas

 Madalena Férin in "Viola Delta" Vol. XXV, Edições Mic, Estoril, 1998, 36.
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Seis lâminas de navalha
o altar portátil
os dragões perfilados
gravada a cruz na pele
brancas perversas   mudas
dançando sempre em roda
do vestido fizemos as paredes

Madalena Férin in "Viola Delta", Vol. XXV, Edições Mic, Estoril, 1998, p 38.
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24/05/11

Apresentação do livro "reflexões à boca de cena"

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 REALIDADE E REPRESENTAÇÃO NA POESIA DE JOÃO RICARDO LOPES

"reflexões à boca de cena" de João Ricardo Lopes, quer pelo título quer por alguns dos seus elementos constitutivos, poder-nos-ia levar a considerar, segundo um olhar apressado e desatento, que estamos perante um livro de poesia tomando a dramaturgia como seu nó central e aglutinador. Contudo, na minha leitura, este aceno interpretativo é marca de uma ambiguidade procurada que irá funcionar como chave da real preocupação da obra, isto é, o território da teatralidade não é mais do que um pré-texto daquilo que ao poeta se impõe de modo insofismável - o ser humano enquanto actor social... com os seus desencantos, os seus rasgos de lucidez, as suas paixões.
Ao carácter abrupto do início da obra: abre-se o pano e eles existem (p 8), segue-se um desfilar de figurantes - qual corso atribulado e premonitório - que atravessa todo o palco-cidade onde somos chamados a estar: os que vociferam de calças na arregaçadas (p 8), bobos e anões, cuspidores de fogo/ a meretriz das sardas... ( p 12), um borrachão com a língua de fora, assim como os cães vasculham a noite (p 28). De imediato me agradou esta concepção do labor poético que tão bem articula o esquadrinhar contínuo do mundo interior, que tem um dos seus pontos altos no poema O actor olha-se ao espelho (p 70):

não esperes tanto por mim
não tenho futuro
como passado não tive.
belo talvez seja
porém cru
não menos que estátua
nem melhor do que areia.
como toda a criatura
o que sou não sou.
as mãos ardem-me de frio
e talvez esteja já morto
ou longe de mais.
não esperes tanto por mim
não sabes quem esperas

(este belíssimo solilóquio traz para o proscénio um dos mais interessantes temas de reflexão sobre poesia: a relação do eu com o seu duplo) com um olhar atento e perscrutador do mundo exterior - veja-se, por exemplo, um excerto do poema No centro do palco ( p 56):

no centro do palco as lâmpadas e os adereços
descascam amorosamente batatas
limpam o ranho à filhota das tranças
a plateia está absoluta no encalço da cena
só respiração e alguma tosse medindo
a qualidade de representação.
(...)
uma diversão a vida, um estaleiro de pequenos poemas
( e quem precisa dos enormes?), uma pantomina.
e no fim as palmas, as palmas abundantes
o aceno imprescindível da multidão (sê-lo-á?)
bravos, euforia, teatro delicado
é isto a vida, isto sim, a poesia

Este equilíbrio, este subtil - e arguto - doseamento do interno e do externo, este relacionar que adquire mesmo foros de miscigenação, é, no meu entender, um dos pontos altos da voz poética de João Ricardo Lopes: viver é estar num palco de múltiplos cenários, viver é representar dados papéis repletos de conflitos (não só inter-papeis, mas também intrapapel!), viver é esta incessante procura de um Equilíbrio Instável ( tomando agora de empréstimo - assumidamente - o título da peça de Edward Albee, que Tony Richardson passaria exemplarmente para o cinema com a mítica Katharine Hepburn), equilíbrio entre o dentro e o fora de nós, mas viver é, acima de tudo, a lucidez e a fidelidade: a nós próprios, aos que nos amam ( porque no esboroado palco do hoje já só esses contam!), ao indizível milagre de estarmos vivos neste espaço que nos foi concedido e de que urge cuidar. Quanto ao exterior, ele irrompe em vários poemas deste livro:

(...)
este circo engraçado, colorido, oco por dentro
tanto como por fora - frágil sim, como na moleirinha
dos teus sonhos

  ( p 10)

(...)
há entre nós esta cidade inteira
esta lâmina de silêncio que nos
atravessa ao meio...

  (p 30)

Este estado de alma do sujeito-poético, que é simultanemanente desorientação e vontade de resistir, perpassa toda a obra unindo-se a uma dicotomia que o autor expressa nas mais diversas situações - a escuridão e a luminosidade:

com a boca às escuras, a minha saudade
ela apenas, escuta-a, escuta-a só

  ( p 20)

A noite é para não dizer nada.

  ( p 42)

é na sombra a mais possível das germinações
na penumbra, no poema
na esquina obscura de todo o palco

  ( p 74)

Interessante é também o facto de João Ricardo Lopes não conceder à referida luminosidade nenhum estatuto redentor, antes pelo contrário: todo a emergência do possível encontra-se constante e ininterruptamente  ameaçada:

  "Ruído"

tudo o que disse não disse.
luzes negrentas cevando os olhos
como se cedo fosse já tão tarde.
uma janela declina sobre nós
a pálpebra rude e silenciosa.
que tenha valido a pena. Tudo

  ( p 46)

Frente à lucidez com que se observa o palco e cujas variáveis nos têm sido mostradas, e fundamentadas, nas últimas décadas; frente a esta representação fétida e de mau gosto esventrada à saciedade por vários autores: o vazio e o consumismo (por Baudrillard, Lipovetsky, etc.), a ganância e a perversa manipulação do outro, apenas para que a gratuita exibição de poder conste ( por Singer, Hirigoyen, etc.), enfim, frente a uma cidade esfacelada e à deriva, o eu-poético resgata a ousadia da espera e da reinvenção:

" Alquimicamente"

também eu possuo uma retorta enganadora.
transformar em ouro o teu coração de pedra
nunca foi fácil e o fracasso sacode-me o sono em
estremeções desalmados, sou eu quem te
chama e há um caminho de árvores entre nós.
és longínqua e ris de cada vez que me explode
a decepção e eu juro acabar assim, esfarrapado
vencido e sem ti. mas o poema renasce e eu
renasço devagar. um coração de ouro é coisa de
que não se desiste. Nem até à loucura, nem até ela

   ( p 60)

João Ricardo Lopes coloca a sua escrita no seio desse paradigma que é o do sentir e ser do homem contemporâneo e acerca do qual tanto se tem escrito também nos últimos anos, veja-se. por exemplo, "Les uns avec les autres - Quand l'individualisme crée du lien" de François de Singly. Nesta poesia estamos perante um lirismo que respira e traduz, não só temas que são de todos os tempos, mas também inquietações bem delineadas no hoje, aliás, e já que falei da obra de Singly, poderei acrescentar que a situação de desacerto com o mundo em que se encontra o eu-poético é atenuada fortemente, mas jamais resolvida, pela presença da amada. Contudo - e pormenor interessante - esta amada, tal como a peça do primeiro verso do livro, surge abruptamente; as suas aparições são sempre da ordem do contingente e do ameaçado ( cf. p 14, o poema que dá o nome ao livro); a amada traz consigo algo de salvífico, todavia é sempre de uma salvação possível de que se fala, jamais de uma salvação necessária: o poema "Ligústia" ( p 40) traduz de forma magistral esta carência, já que, apesar da amada ser tão bela, a noite não cessa de vigiar o poeta, de o procurar. Há, pois, uma falha essencial na alma desta voz, um espaço impreenchido - e impreenchível -, uma clareira onde todo o mundo poderia caber, mas de onde a sua poesia e a sua busca extravasam. Dizem os grandes estudiosos destes temas ( e estou a lembrar-me dessa figura enorme que foi Martine Broda) que esta busca fundamental (da Coisa) é a marca dos grandes poetas, pois eu - qual eterno aprendiz como Sérgio! - encontrei-a nesta obra de João Ricardo Lopes. E não apenas isso: a extrema poeticidade deste livro e a pertinente acuidade com que se olha temas e subtemas acabam desembocando numa apurada estrutura concebida para enfatizar os intentos originários do autor: à permanência do palco, à sucessão dos actos, às intermináveis reflexões mesmo ali à boca de cena, terá corresponder a figura óbvia, e desalentadamente rotineira, da continuidade da peça. Por tudo isto, à medida que o livro de vai aproximando do seu fim, ele aproxima-se igualmente de um princípio - veja-se este excerto do penúltimo poema:

 "Regressar"

regressar regressa-se de muita maneira
a casa, à noite, às vezes, nunca mais, para sempre.
mas igualmente a depois da casa, a nós próprios
ao toque da mobília, ao cheiro do sabonete
a outros tempos, à altura em que, a de novo agora
...
porque é assim a vida, porque inifinita graça é a de
emendar a réplica, porque sim, porque assim é o
teatro do coração, porque redondo é o olhar
porque no fim é o princípio, porque, porque sim

   ( p 104)

Neste vivenciar, simultaneamente usual e novo, de um quotidiano que, sendo de tantos, é também de todos, o contra-regra endereça-nos o derradeiro poema deste itinerário poético: Prólogo - é o último título da representação. Que prossiga, então, a realidade, essa miríade de cenas que vamos atravessando... e que inexoravelmente nos atravessam também.

                                 Victor Oliveira Mateus
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  João Ricardo Lopes,
                                                                           Bernarda Esteves
                                                                                     e Victor Oliveira Mateus

(Clicar em cima da imagem)

23/05/11

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" Oscar Wilde a Lorde Alfred Douglas"


Basta-nos sentir as portas
a baterem contra o vento,
o ferro a rachar o fogo
das soleiras, a sombra erguendo-se
da camilha para trazer o corpo
aos ombros. A fímbria
de um gesto criminoso.

Basta-nos aumentar o volume
até ao silêncio, estoirar os tímpanos
com o bafo sêfrego das bestas,
cumprimentar o desejo
até uma próxima e paradoxal
despedida. Basta-nos sentir

que sentimos o tom profético
da cada aceno, quando pela
secura dos dias um de nós
se chega ao outro e diz: vem-te
para cá, para dentro desta cela,
deixa-me sentir o teu perfume
mais deseducado, condenável.

  Henrique Manuel Bento Fialho in "A Dança das Feridas", Edição do Autor, s/c., 2011, p 87.
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22/05/11

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"Louis Malle a Candice Bergen"


Da última vez que me visitaste,
lembro-me bem, trouxeste-me
rebuçados e limonada.
Ficámos sentados a assistir
ao meu trabalho mais recente,
à espera que a forma nos capturasse
para dentro do poema.

Acabados os rebuçados e a limonada,
olhámo-nos descorçoados.
Afinal, o que parecia ser
um importante atalho
para a imortalidade revelou-se,
entre rebuçados e limonada,
apenas mais um degrau para a morte.

Pouco mais nos ligava
que um mero apego afectivo.
Talvez porque tal não nos bastasse
perante a evidência da fugacidade,
resolvemos unir-nos pela carne.

Desde então, somos um só corpo
que jamais trocará um copo de limonada
e um pacote de rebuçados
por uma qualquer forma de imortalidade.

  Henrique Manuel Bento Fialho in " A Dança das Feridas", Edição do Autor, s/c., 2011, p 40.
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21/05/11

Acerca da Poesia de Vera Lúcia de Oliveira

      Vera Lúcia de Oliveira,
                                                                                     Victor Oliveira Mateus
                                                                         e Filipa Barata.
                                                                                                     Livraria "Pó dos Livros" (20/5/2011).

(Clicar sobre a imagem.)
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O primeiro tópico que me ocorreu quando pensei falar da poesia de Vera Lúcia de Oliveira, prende-se com o modo límpido como esta autora se relaciona com a Linguagem, um modo desprovido de quaisquer prestidigitações estilísticas ou efeitos que poderiam correr o risco de empobrecer os seus poemas. Contudo, a autora conhece bem o terreno onde se move... Muitos de nós lemos, em tempos, uma célebre obra do Prof. Cerqueira Gonçalves, onde ele, traçando identificações entre os textos literário e filosófico, dizia que um dos motivos dessas aproximações se ficava a dever ao facto de ambos usarem a Linguagem natural. Não pretendendo ir por aí agora, gostaria apenas de dizer que a poesia, no seu discorrer, não é, nunca foi, nem conseguirá ser, até pelo facto de não poder recorrer à eficácia das Linguagens artificiais e dos  procedimentos lógicos, um discurso que apreenda rigorosamente as múltiplas vertentes da experiência humana, quer quanto à sua totalidade quer naquilo que elas são em si mesmas. Aliás, e relacionado com isto, poder-se-á até fazer, ao nível de uma sabedoria espontânea, a seguinte experiência: se eu disser branco - e partindo de hipótese que o receptor não tem qualquer lesão na área cerebral  que irá receber este estímulo auditivo nem na área secundária que o irá interpretar e coordenar -, no cérebro desse mesmo receptor formar-se-á a representação, não do azul nem do vermelho, mas do branco, o problema colocar-se-á ao nível da gradação das coincidências, do mesmo modo se entrarmos numa loja para comprar tinta branca imediatamente o empregado nos mostrará um catálogo com uma ou duas dezenas de brancos. Não me parece que fique mal a seguir a Cerqueira Gonçalves citar um ensaio de Antonio Brasileiro (A Estética da Sinceridade, p 14), onde o autor, com uma certa ironia nos diz: "Há pouco tempo um desses tipos que está sempre em dia com a última moda do intelecto tentou me convencer de que a diferença entre um bom poema e uma bula de remédio, por exemplo, era nenhuma. Produtos culturais ambos. E só". Ora este é, para mim, o primeiro segredo da arte de Vera Lúcia de Oliveira: movendo-se numa Linguagem despojada, num poema curto e num estilo que recusa todo o tipo de ornado, a poeta insiste em escrever poesia... e não bula de remédio; ela sabe que falar de algo, na prática, será sempre do campo do aproximativo e do incompleto::

"Teoria e prática"

não tinha termo não tinha jeito
de falar do que era uma perda
vivera e aprendera em todos
os livros que dentro da vida
há morte mas uma coisa é a teoria
outra a prática

  ( in A Poesia é um Estado de Transe, p 14)

Ou ainda:

"Por trás"

por trás do olho
sustar é perigoso

por trás do olho
respira sempre um outro
olho suspeitoso
palpar por dentro é vão
por onde um novo olho sobreposto
espreita o mesmo vão

 (in op. cit. p 24)

A autora, em certos poemas, fala-nos mesmo da contaminação (ou do desdobramento) que a Pragmática acaba introduzindo no seio de Linguagem:

" Tem palavras"

tem palavras que têm cicatrizes
a palavra apego, a palavra parto
a palavra tempo
dentro elas são de madeira
dentro elas se impregnam
quando a chuva bate na janela
penetra os poros

( in op. cit. p 13)

Finalmente, e relativamente a este tópico, posso ainda acrescentar que Vera Lúcia de Oliveira articulando a concisão do seu dizer poético com um subtil manejo do código linguístico e do cânone literário entra pelo universo da narratividade adentro, fugindo às armadilhas da microficção e tecendo antes poemas que adquirem uma certa função de alegoria dentro de um universo socio-cultural específico. Veja-se, por exemplo, o seguinte:

"A igreja"

a igreja brilhava em silêncio as pombas
do espírito santo voavam de vez em quando
as andorinhas tinham seus ninhos o padre
que mandara trocar o pavimento por mármore
da mais fina proveniência vivia em eterna luta
com os pássaros amaldiçoados que evacuavam
por toda a parte

( in No Coração da Boca, p 45)

Fugindo à tese que a poesia retrata fielmente o real ( numa época em que até a Fotografia, bem como o Cinema, afastaram já de si tal pretensão anacrónica de se deixarem restringir a uma única função da Arte) apercebemo-nos, neste último poema, de uma série de remissões e abrangentes sentidos (as pombas do espírito santo a fazerem-nos lembrar Alberto Caeiro; a luta do padre solitário contra os pássaros, inclusivé contra os de natureza divina, que enchiam de esterco a igreja, etc.) que nos dão a ver o modo arguto - e apetece-me mesmo dizer: sibilino! - com que a poeta tece os seus textos, assim como todo um universo poemático.
Neste segundo tópico ocorre-me dizer que não foi por acaso que acabei de utilizar o verbo tecer. A imagem da poeta, ao longo da leitura dos seus livros, foi-me surgindo sempre geminada com uma outra - a da tecedeira. Assim, foi com alegria que encontrei, dias depois do início das minhas leituras, através da mão do grande poeta e ensaísta que é Lêdo Ivo, a confirmação do que em mim temia ser mais do que pura conjectura: diz-nos, pois, o referido académico no seu Prefácio ao No coração da boca, que a autora "(...) recusa o fulgor e o esplendor, preferindo o caminho dos monólogos desolados que registram o desamparo e a colisão de seres miúdos, de pequenas vidas aflitas (...) O tecido poético de Vera Lúcia de Oliveira não é uma tapeçaria, antes um estopa (...) A poesia é construção, desconstrução, reconstrução. Vera Lúcia de Oliveira constrói, desconstrói e reconstrói: tece, destece e retece o tecido da vida." Suspeitando que o vocábulo estopa foi escolhido, aqui, como modo de clarificar um dado quotidiano socio-económico, continuarei a usar, fugindo agora delibaradamente ao rigor, o de tapeçaria. Pois nesta poesia, paralelamente à tentativa de apreensão de uma dada ordem, quer no corpo do mundo natural e do mundo humano, quer no corpo do próprio texto, há também um vincado intuito de com este nosso Todo entrar em comunicação directa - o transe deste seu último livro. Mas - e uma vez mais Vera Lúcia parece pretender baralhar incautos - através de um conceito que julgávamos que a tradição tinha clarificado, a poeta acaba falando-nos de outra coisa: o transe a que ela se refere não é o que podemos encontrar em vários autores, como por exemplo os místicos do século XVI espanhol, nestes estamos perante um movimento ascensional do sujeito visando uma transcendência que o supera ontologicamente e à qual se encontra subordinado, é esta a concepção de transe que encontramos em S. João da Cruz e Sta. Teresa de Ávila, por exemplo. Mas o transe de que nos fala Vera Lúcia tem o vector em sentido contrário, e, perdoem-me a heresia religioso-interpretativa: agora não é o indivíduo que se desprende do sensível para tentar chegar a Deus, é precisamente o contrário, ou seja, é o divino que, se quiser comunicar com alguém, ou entrar em contacto com quem escreve os seus versos e sente o real, terá de descer a um plano outro - veja-se por exemplo:

"Acordou de noite"

acordou de noite e disse que sufocava
que não conseguia respirar que uma angústia
dentro rasgava o pulmão as vértebras
não adiantava aquele remédio aquele leito
ela sabia
que na hora chegada
do dia que Deus tinha determinado
dentro da grande língua da terra
ela teria de entrar

  ( in A Poesia é um Estado de Transe, p 8 )

Atente-se ainda a um outro poema onde esse acto de ser tocado aparece agora com mais nitidez:

 "Há uns que são engenheiros"

há uns que são engenheiros
e calculam tempo e dimensão
do arcabouço
há uns que são carpinteiros
e medem ângulos exatos
interjeições da matéria
há uns que vagam no arcano
são medidos e tocados
até perceberem a proporção
correta de cada signo
que revela o mistério

 ( in op. cit. p 14)

É este, na minha leitura, o transe de que nos fala Vera Lúcia de Oliveira na sua elaborada e paciente tapeçaria poética: não uma subida para se juntar, num outro plano, à divindade, mas um vivenciar, no aqui, tudo aquilo que, nas coisas e nos seres, é extra-ordinário e divino, pois não nos enganemos, o mistério de que ela nos fala, e como escreve no poema com  o mesmo nome, não carrega vozes, ele está antes na aragem, na cozinha, nas panelas limpas/ nas tampas penduradas nas hastes/ na goteira incessante da pia. Dito de outro modo: o mistério está por todo o lado e resulta desse contacto directo com o divino destas mesmas coisas e destes mesmos seres, através dessa apreensão, que, como a poeta também nos diz, dá-nos a proporção correcta. Para finalizar, regresso ao ensaio de Antonio Brasileiro, volto de novo à questão da Linguagem e do fazer poético. Refere este autor, após algumas citações de Valéry, que a poesia é resistência, resistência e sobrevivência, e que " numa época de simplificação da linguagem, e de insensibilidade em relação às formas, há que pensar mesmo na poesia como uma coisa preservada", ou, posso eu acrescentar, como coisa a preservar. É isto exactamente o que faz Vera Lúcia de Oliveira: numa Linguagem, que, optando pela clareza, mas nada tendo de simplificação, como acabámos de ver, resgata o divino que existe em tudo aquilo que -para usar aqui um termo tão caro à mundividência llansolinana -; nos mais banais, e muitas vezes sofridos, gestos do quotidiano, a poeta recupera (e preserva) o que neles é essencial, e com eles consegue esse transe que é motor e matéria prima da sua poesia.

                                                                    Victor Oliveira Mateus
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18/05/11

Lançamento...

(Clicar sobre a imagem)
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LANÇAMENTO DO LIVRO "REFLEXÕES À BOCA DE CENA" DE JOÃO RICARDO LOPES
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DIA 21 DE MAIO (SÁBADO), PELAS 16H, NA LIVRARIA PÓ DOS LIVROS, AVª MARQUÊS
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DE TOMAR, 89 - LISBOA.
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A APRESENTAÇÃO DA OBRA ESTARÁ A CARGO DE VICTOR OLIVEIRA MATEUS
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E A SESSÃO CONTARÁ COM A PRESENÇA DO AUTOR E DA PROFª BERNARDA ESTEVES
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DA UNIVERSIDADE DO MINHO, RESPONSÁVEL PELA VERSÃO INGLESA DESTE LIVRO.
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16/05/11


A própria estrutura conceptual da fidelidade mostra que ela é um sentimento sociológico ou, se se quiser, um sentimento sociologicamente orientado. Outros sentimentos, independentemente da maneira como possam ligar as pessoas umas às outras, têm, todavia, algo de mais solipsista. Afinal, até o amor, a amizade, o patriotismo ou o sentido do dever social ocorrem e perduram essencialmente no próprio indivíduo, de forma imanente - com também se revela da maneira mais estrita na pergunta de Filipo: "Se eu te amar, a ti que te importa?" Apesar do seu extraordinário significado sociológico, estes sentimentos continuam a ser, acima de tudo, estados subjectivos. De facto, são produzidos apenas pela intervenção de outros indivíduos ou grupos, mas isso acontece mesmo antes de a intervenção ter passado a ser intervenção. Mesmo quando são dirigidos a outros indivíduos, a relação para com estes indivíduos é ( pelo menos não necessariamente) o seu verdadeiro pressuposto ou conteúdo.
Mas é este precisamente o significado da fidelidade (pelo menos como aqui é discutido, embora o uso linguístico também lhe atribua outros significados). A fidelidade refere-se ao sentimento particular que não é dirigido para a posse do outro como o bem eudemonístico de quem a sente, nem para o bem-estar do outro como um valor extrínseco e objectivo, mas para a preservação da relação com o outro. A fidelidade não produz esta relação; portanto, e contrariamente a estes outros afectos, não pode ser pré-sociológica; atravessa a relação a partir do momento em que ela começa a existir e, como a sua autopreservação interna, faz com que os indivíduos-em-relação se mantenham fortemente unidos um ao outro. Este carácter sociológico específico talvez esteja ligado ao facto de a fidelidade, mais do que outros sentimentos, ser acessível às nossas intenções morais. Outros sentimentos dominam-nos, como a chuva e o sol, e as suas idas e vindas não podem ser controladas pela nossa vontade e não são acessíveis às nossas exigências morais. Mas a ausência de fidelidade impõe uma reprovação mais severa do que a ausência do amor ou da responsabilidade social, para além das suas manifestações meramente obrigatórias.
Para além disso, o seu particular significado sociológico faz com que a fidelidade desempenhe um papel unificador em relação a um dualismo básico que atravessa a forma fundamental de toda a sociação. Este dualismo consiste no facto de que uma relação, que é um processo vital flutuante, em constante desenvolvimento, recebe, no entanto, uma forma externa relativamente estável.

  Georg Simmel in " Fidelidade e Gratidão e Outros Textos", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2004, pp 38 - 39 (Tradução de Maria João Costa Pereira).
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15/05/11


      " O osso"


tinha uma delicadeza feminina
amava com seu jeito silencioso
de cão que fica aguardando um osso
depois deu para morder a sombra
da memória, deu para sofrer
por alguma coisa que lhe faltava
não sabia bem quando a perdera
mas foi por isso que desandou
a rosnar para o mundo

  Vera Lúcia de Oliveira in "A poesia é um estado de transe", Portal Editora,
São Paulo, 2010, p 21.
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   " O pedido "


chamou a família
vocês nunca me entenderam
vocês nunca ouviram o moinho dentro
ralando um milho sem piedade que era
a minha alma, a minha espera, a minha
vontade de ser amado, vocês não souberam
ver o que atrás da minha fala mansa eu pedia
o que vocês acham que eu estava pedindo?
o que vocês acham que eu vivi pedindo?

  Vera Lúcia de Oliveira in "A poesia é um estado de transe", Portal Editora, São Paulo,
2010, p 47.
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     "O caminho"


disse que precisava fazer o caminho de novo
entrar no útero crescer lá dentro
que precisava rasgar a carne de novo
gemer a fome cuspir a raiva
de ter sido gerado não do jeito
que ele tinha sonhado mas do jeito
que o tinham feito

 Vera Lúcia de Oliveira in "A poesia é um estado de transe", Portal Editora,
São Paulo, 2010, p 48.
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14/05/11


        "Nota de rodapé"


lâmpada baça por onde vem o silêncio
segregado e resfolegam os olhos.
faço-o de novo até muito tarde
e tu reclamas-me docemente, por entre
capítulos obscuros de papel pardo
e destroços de carvão.
às vezes distrai-me a asa de um queixume
o teu corpo sai a terreiro, como que a
defender o quinhão de lume que lhe pertence.
é tarde e tu respiras convulsionando
as minhas palavras, adormecida.
não cheguei a dizer-to, nunca chego
a dizê-lo. o amor é sempre tão de repente

 João Ricardo Lopes in " reflexões à boca de cena", Editora Labirinto, Fafe, 2011,
p 44 (Edição bilingue: versão inglesa de Bernarda Esteves. Posfácio de daniel gonçalves).
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        " Se ao menos a vida"


se ao menos a vida fosse tão simples de limpar.
no final de cada noite era sobre o tablado
um correr de vassouras e de esfregonas
e depois tudo fresco, tudo pronto para sermos a velha vida
quer dizer, a folha mal escrita, o garatujo promissor
quer dizer, o antes de ser tarde, os olhos habituados
às estrelas, ao esplendor de cósmicas explosões no
alabastro das madrugadas proto-históricas.
mas a vida é uma versão só, sem duas vezes
um coro definitivo de ervas tenras que
devagar se despedem, cena após cena, e no fim
o desenlace do costume, as palmas, os rostos sombrios
que entram, o público que roda, tudo estranho
tudo devagar - que a vida é um teatro sem comiseração

 João Ricardo Lopes in " reflexões à boca de cena", Editora Labirinto, Fafe, 2011,
p 94 (Edição bilingue: versão inglesa de Bernarda Esteves. Posfácio de daniel gonçalves).
 
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  "A Porta"


Alguma coisa fora de mim
está escondida em mim
como um coração exterior

Às vezes canta mesmo a meu lado
com a minha voz
como se tivesse eu cantado

Talvez estas lágrimas
não me pertençam nem este momento
nem este sentimento de este sentimento

Que rosto real
me olha e se vê?
Que porta física
tenho que passar?

  Manuel António Pina in "Poesia Reunida", Assírio & Alvim, Lisboa, 2001, p 112.
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13/05/11

" (...) De tudo isto,/ durante dois, três anos, nada te disse./ Entretanto,"

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" O Hóspede"

As batatas cresciam no canto do cercado
naquele Setembro. Foram a comissão de boas vindas!
Os primeiros frutos da nossa própria terra. E o seu sabor
foi a primeira lenda. Pioneiro
na nossa própria vida, nessas manhãs -
comprei as enxadas, os ancinhos, os fatos de macaco, as botas.
E os livros. Os livros! Eu era estudante
ávido de saber tudo sobre horticultura,
a cornucópia inteira. Comecei a cavar.
Tinha de começar bem - cavei por duas vezes
todo o jardim. E o meu coração,
e tudo o que dentro dele se escondia, cavou comigo.
Convenci-me de que estava condenado - uma questão de tempo
até o coração saltar para fora do meu corpo,
ou simplesmente entrar em colapso. Depois de ter cavado durante algumas horas
subitamente alguma coisa deu de si, suava em abundância,
e tremia. O coração. Já estava acostumado.
Só podia ser o coração. As palpitações. As batidas.
À noite na almofada o ritmo incerto
do pulso no meu ouvido. Roleta russa:
cada batida do coração é como um novo lance de dados -
um estalido de roleta russa. Que estranho
ter estado deitado na minha cama
a observar o meu coração enquanto este me desfazia em pedaços
como se eu estivesse a tratar de uma simples dor de dentes.
E, no entanto, o meu coração era eu. Eu era o meu coração.
O meu coração, aquele que sempre me acompanhou cantando
no frenesi dos meus esforços. Como podia ele falhar-me?
Levei-o comigo para todo o lado, criança moribunda,
a pesar no meu peito. A súbita pontada
sob a omoplata esquerda.
Ou uma espada - imagem horrível de lâmina fina
cravada na vertical junto ao pescoço
até ao interior da clavícula. Ou algo a roer
por dentro, as costelas. Pior ainda
o desmaio imprevisto - engrenagem instantânea de deslize
de uma energia infinita para um nada fantasmal.
O ânimo em ponto morto, e o meu motor
acelerando inutilmente. Quantas vezes por dia?
A hipocondria caminhava, dando-me o braço
como uma enfermeira, com os seus dedos no meu pulso.
Bom, ia morrer.
Comecei a escrever um diário - umas observações
acerca da errata do meu coração.
Acordava com as mãos sem força. Ia para a cama
com os dedos a latejar tanto
que até sacudiam o livro que segurava e para o qual olhava.
Era nesse momento que eu sentia o soco duplo
entre as omoplatas
"suave mas atordoador como o coice de um camelo."
Na garganta, o súbito afluxo de sangue à solta,
como um pássaro de asa quebrada, que se escapou
momentaneamente
do gato. Esforços para fazer do meu corpo
uma conduta para a música de Beethoven,
e reconduzi-la através da aorta
de modo a que ele me percorresse, deixando-me limpo e sem mal-estar,
e me libertasse. Não consegui alcançar a música.
Tudo o que a música me disse
foi que eu era um rejeitado, já não pertencia
ao reino intacto ressoante e criativo
de onde a música brotava. Eu já podia ser deitado fora,
o meu ímpeto era apenas inércia
do que eu já tinha sido, enquanto me desintegrava.
Eu já era póstumo.
Tudo o que olhasse, fosse gato ou cão, via-me já morto, cambaleando
alguns passos, uma visão mecânica
ainda na minha retina.
O meu novo estudo
consistia em saber todos os modos como o coração pode matar o seu dono
e como o meu me tinha morto. De tudo isto,
durante dois, três anos nada te disse.
Entretanto,
quem usava o meu coração,
quem instalou a nossa colmeia e plantou,
com mãos inconscientes, só para se divertir,
nove filas de feijoeiros? Quem era esse trocista de um outro mundo
que tinha vindo para nos desalojar,
partilhando a minha pele, como partilhava a tua,
vendo-me a cavar, tão tranquilamente? E olhando
por cima do teu ombro, para os poemas que esmeravas,
como se olhasse para este ou aquele ou outro espelho
que tentasse ignorá-lo?

Ted Hughes in "Cartas de Aniversário", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2000, pp 265 - 269 (Tradução de Manuel Dias).
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11/05/11

"(...) O autocarro que vinha do Norte/ chegou e toda a gente saiu, eu não vinha lá dentro. "

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" O Jogo do Destino"

Porque a mensagem por qualquer razão encontrou um gnomo,
porque os antecedentes iludiram as tuas expectativas,
porque a tua Londres era ainda um caleidoscópio
de nomes e lugares que um qualquer abanão podia baralhar,
esperaste, enganada. O autocarro que vinha do Norte
chegou e toda a gente saiu, eu não vinha lá dentro.
Não interessa saber o quanto insististe
pedindo ao condutor, se calhar a chorar,
para me fazer aparecer ou se lembrar de me ter visto
perder o autocarro. Eu não estava lá.
Oito da noite e eu perdido
num qualquer lugar de Inglaterra. Contiveste
a tua ousada inspiração
e não te meteste no meio do trânsito
que andava à volta da Estação Vitória, tendo a certeza absoluta
de que me ias encontrar onde quer que eu estivesse.
Mas eu não caminhava em lado nenhum. Estava sentado no comboio,
imperturbável, no meu lugar,
balançando a caminho de King's Cross. Alguém,
mais calmo do que tu, fez-te uma sugestão. Por isso,
quando eu desci do comboio à espera de te encontrar
algures, em baixo, no cais,
vi a agitação e o nervosismo de uma figura
lutando contra o fluxo dos passageiros que queriam sair,
e logo a seguir o teu rosto comovido, os teus olhos comovidos
e as tuas exclamações, os teus braços agitando-se,
as lágrimas espalhadas no teu rosto
como se eu tivesse regressado de entre os mortos
contra todas as possibilidades, contra
toda a negativa que não fosse a tua prece
dirigida aos teus próprios deuses. Soube ali o que era
ser um milagre. E atrás de ti
o teu simpático motorista de táxi, rindo-se, como um pequeno deus,
por ver uma rapariga americana tão americana,
e por ver que toda aquela tua frenética e guerreira corrida -
Em que a soluçar o incitavas e lhe suplicavas
para fazer acontecer aquilo que precisavas que acontecesse -
tinha resultado em cheio, graças a ele.
Bem, foi uma maravilha
o meu comboio não ter chegado uns momentos antes ou até muito antes,
que entrasse na estação, atrasado, no preciso momento
em que surgiste no cais. Foi
uma coisa natural e milagrosa, um presságio
confirmando tudo
o que querias ver confirmado. Por isso o teu enorme desespero,
a tua corrida em pânico através de Londres
e agora o teu sucesso, salpicou-me
de um amor aumentado em quarenta e nove vezes,
com um primeiro trovão da torrencial chuva que vai tragar
a seca de Agosto
na altura em que a terra gretada parece estremecer
e todas as folhas tremem
e todas as coisas erguem os braços e choram.

 Ted Hughes in "Cartas de Aniversário", Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2000,
pp 71 - 73 (Tradução de Manuel Dias).
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" salvo o que se repete,/ um desfiado enredo na fragilidade da voz "

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Nada em especial
salvo o que se repete,
um desfiado enredo na fragilidade da voz
e que passa ao longe
como estória fugindo de qualquer moralidade.

O que do braço se projecta é, em si mesmo,
uma mera questão de física,
um corpo, que, grave, procura a sua rota.

O que resta assemelha-se a uns olhos de menina
interrompendo o passo, ou a um cartaz
com a data rasurada na direcção contrária
e a bares que nunca fecham nos dias de trabalho.

Nem dentro, nem desterro.
E no meio de tudo - a literatura.


O poema de José Ángel Garcia Caballero publicado em Catálogos de Valverde 32, Septiembre 2010,
está aqui numa tradução minha.
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10/05/11

08/05/11

"FILI D'AQUILONE, rivista d'immagini, idee e Poesia", Numero 22, aprile/giugno 2011.

Acabou de sair a prestigiada Revista italiana "FILI D'AQUILONE" no seu Numero 22 de aprile/giugno.
PARA ACEDER AO SUMÁRIO E À NOTA EDITORIAL BASTA CLICAR SOBRE A IMAGEM...
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... e para ler o excelente artigo da PROFª DRª VERA LÚCIA DE OLIVEIRA da UNIVERSIDADE
DE PERUGGIA sobre o meu último livro, clicar igualmente em:

www.filidaquilone.it/num022.html
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