08/08/11

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     "A Enguia"


A enguia, a sereia
dos mares  frios que deixa o Báltico
para chegar aos nossos mares,
aos nossos estuários, aos rios
que sobe em profundidade, sob a corrente adversa,
de ramo em ramo e depois
de cabelo em cabelo, adelgaçando-se,
cada vez mais dentro, cada vez mais no coração
da rocha, insinuando-se
nos sulcos do lodo até que um dia
a luz solta dos castanheiros
acende o seu vibrar deslizante em poças de água estagnada,
nas fossas que descem
das faldas dos Apeninos à Romagna;
a enguia, tocha, chicote,
flecha de Amor em terra
que só as nossas ravinas ou os secos
arroios pirenaicos reconduzem
a paraísos de fecundação;
a alma verde que procura
vida nesse lugar onde apenas
morde a canícula e a desolação,
a centenha que diz
tudo começa quando tudo parece
fossilizar-se, tronco sepultado;
a íris breve, gémea
daquela que engastam os teus cílios
e fazes brilhar intacta entre os filhos
dos homens, imersos no teu lodo, serás tu capaz
de não a achar tua irmã?
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 Eugenio Montale in " Poesia ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2004,
pp 215 - 271 ( Tradução de José Manuel de Vasconcelos).
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04/08/11

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LITORAIS


bastam alguns talos de piteira
pendurados de um rebordo
no delírio do mar;
ou duas camélias pálidas
nos jardins desertos,
e um alourado eucalipto que mergulha
entre batimentos de asa e loucos voos
na luz;
e eis que num instante
invisíveis fios em mim se enrolam como serpentes,
borboleta numa teia de aranha
frémitos de oliveiras, olhares de girassóis.

Doce cativeiro, agora, litorais
de quem se entrega um pouco
como que a reviver um antigo jogo
nunca olvidado.
Recordo o acre filtro que estendeste
ao confuso adolescente, oh margens:
nas claras manhãs fundiam-se
dorsos de colinas e céu; na areia
das praias era um amplo bater, um igual
fremir de vidas,
uma febre do mundo; e todas as coisas
pareciam consumir-se nelas próprias.

Oh então revolvidos
como o osso do choco pelas vagas
desaparecer a pouco e pouco;
tornar-se
uma árvore rugosa ou uma pedra
polida pelo mar; fundir-se nas cores
dos ocasos; desaparecer carne
para ressurgir nascente ébria de sol,
pelo sol devorada...
Eram estes,
litorais, os votos do menino de outrora
que junto a uma ferrugenta balaustrada
lentamente morria sorrindo.

Até que ponto, marinas, estas frias luzes
falam a quem destroçado vos fugia.
Lâminas de água caminhando
por entre os ramos que se movem; rochas escuras
entre a espuma; flechas de gaivões
vagabundos...
Sim, podia
acreditar um dia em vós ó terras,
belezas funerárias, áureas cornijas
na agonia de cada ser.
Hoje volto
até junto de vós mais forte, ou estarei enganado, se bem que o coração
pareça abrir-se em recordações ledas e atrozes.
Triste alma passada
e tu vontade nova que me chamas,
tempo é talvez de vos unir
num sereno porto de sabedoria.
E um dia virá ainda o convite
de vozes de ouro, de lisonjas audazes,
alma minha nunca mais dividida. Pensa:
mudar para hino a elegia; refazer-se;
não faltar mais.
Poder
tal como estes ramos
ontem descarnados e nus e hoje cheios
de frémitos e linfa,
sentir
amanhã também por entre os perfumes e os ventos
um refluir de sonhos, um louco urgir
de vozes rumo a um fim; e no sol
que vos inunda, litorais,
tornar a florir!

 Eugenio Montale in "Poesia", Assírio & Alvim, Lisboa, 2004,
pp 135 - 139 ( Tradução de José Manuel de Vasconcelos ).
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03/08/11

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"Two Loves"
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I dreamed I stood upon a little hill,
And at my feet there lay a ground, that seemed
Like a waste garden, flowering at its will
With buds and blossoms. There were pools that dreamed
Black and unruffied; there were white lilies
A few, and crocuses, and violets
Purple or pale, snake-like fritillaries
Scarce seen for the rank grass, and through green nets
Blue eyes of shy peryenche winked in the sun,
And there were curious flowers, before unknown,
Flowers that were stained with moonlight, or with shades
Of Nature's willful moods; and here a one
That had drunk in the transitory tone
Of one brief moment in a sunset; blades
Of grass that in an hundred springs had been
Slowly but exquisitely nurtured by the stars,
And watered with the scented dew long cupped
In lillies, that for rays of sun had seen
Only God's glory, for never a sunrise mars
The luminous air of Heaven. Beyond, abrupt,
A grey stone wall, o'ergrown with velvet moss
Uprose; and gazing I stood  long, all mazed
To see a place so strange , so sweet, so fair.
And as I stood and marvelled, lo! across
The garden came a youth; one hand he raised
To shield him from the sun, his win-tossed hair
Was twined with flowers, and his hand he bore
A purple bunch of bursting grapes, his eyes
Were clear as crystal, naked  all was he,
White as the snow on pathless mountains frore,
Red were his lips as red wine-spilith that dyes
A marble floor, his brown chalcedony.
And he came near me, with his lips  uncurled
And kind, and caught my hand and kissed my mouth,
And gave me grapes to eat, and said, "Sweet friend,
Come I will show thee shadows fo the world
And images of life. See from the South
Comes the pale pageant that hath never an end.
And Io! within the garden of my dream
I saw two walking on a shining plain
Of golden light. The one did joyous seem
And fair and blooming, and a sweet refrain
Came from his lips; he sang of pretty maids
And joyous love of comely girl and boy,
His eyes were bright, and 'mid the dancing blades
Of golden grass his feet did trip for joy;
And in his hand he held an ivory lute
with strings of gold that were as maidens'hair,
And sang with voice of tuneful as a flute,
And round his neck three chains of roses were,
But he that was his comrade walked aside;
He was full sad and sweet, and his large eyes
Were strange with wondrous brightness, staring wide
With gazing; and he sighed with many sighs
That moved me, and his cheeks were wan and white
Like pallid lillies, and his lips were red
Like poppies, and his hands he cienched tight,
And yet again unclenched, and his head
Was wreathed with moon-flowers pale as lips of death.
A purple robe he wore, o'erwrought in gold
With the device of a great snake, whose breath
Was fiery flame; which when I did behold
I feel a-weeping, and I cried , 'Sweet youth,
Tell me why, sad and sighing, thou dost rove
these pleasent realms? I pray thee speak me sooth
What is thy name?' He said, 'My name is Love'.
Then straight the first did turn himself to me
And cried, ' He lieth, for his name is Shame,
But I am Love, and I was wont to be
Alone in this fair garden, till he came
Unasked by night; I am true Love, I fill
The hearts of boy and girl with mutual flame.'
Then sighing, said the other, 'Have thy will,
I am the love that dare not speak its name.'

  Lord Alfred Douglas in "Two loves & other poems", Bennett & Kitchel, London, 1990.
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02/08/11

o primeiro olhar...


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Oscar Wilde (Stephen Fry) e Lord Alfred Douglas (Jude Law): o primeiro encontro.
In "Wilde" de Brian Gilbert (1997). Do elenco constam também: Vanessa Redgrave
e Orlando Bloom.
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01/08/11


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Enquanto trabalhava, os seus olhos exibiam um ar curiosamente penetrante. Estava a pensar na carta para o seu amigo Antonapoulos. Já passava da meia-noite quando terminou finalmente o trabalho. Pousou a salva e a sua testa estava transpirada de tanta concentração. Limpou a bancada e começou a escrever. Adorava formar as palavras no papel e fazia-o com tanto cuidado como se a folha fosse uma salva de prata.

"Meu único Amigo:
Li na nossa revista que a Associação se vai reunir este ano, numa convenção a realizar em Macon. Haverá oradores e um banquete composto por quatro pratos. Já o estou a imaginar. Lembraste de que sempre quisemos ir a uma dessas convenções, mas nunca o fizemos? Quem me dera que o tivéssemos feito. Quem me dera que fossemos à convenção deste ano, acredita que até já o imaginei na minha cabeça. Mas é claro que nunca poderia ir sem ti (...) Escrevo que imagino todas essas coisas. Escrevo e não escrevo. As minhas mãos estão paradas há tanto tempo que tenho alguma dificuldade em me lembrar como é que se faz. E, quando penso na convenção, imagino todos os convidados parecidos contigo, meu Amigo.
No outro dia, estive em frente à nossa casa. Agora moram lá outras pessoas, Lembras-te do carvalho enorme que havia mesmo em frente? Cortaram-lhe os ramos mais altos, para não se emaranharem nos fios dos telefones, e a árvore acabou por morrer. O resto dos ramos apodreceu e o tronco está todo oco. E o gato aqui da loja (aquele que tu costumavas pegar ao colo) comeu qualquer coisa venenosa e morreu. Foi muito triste."

A caneta parou no ar, por cima da folha de papel. Singer deixou-se ficar quieto durante algum tempo, muito tenso, sem escrever uma única palavra. Depois, pôs-se de pé e acendeu um cigarro. A loja estava fria e havia um odor desagradável no ar, uma mistura de petróleo, de líquido para polir pratas e de tabaco. Singer vestiu o sobretudo, enrolou o cachecol à volta do pescoço e recomeçou a escrever com uma determinação vagarosa.

"Lembras-te das quatro pessoas de que te falei quando estive aí? Fiz um desenho para ti: o negro, a miúda, o homem do bigode e o dono do New York Café. Gostava de te contar umas coisas sobre eles, mas ainda não sei como as pôr sob a forma de palavras.
Estão todos muito absorvidos. Aliás, estão tão absorvidos que é difícil conseguires visualizá-los. Quando digo "absorvidos", quero dizer que a mente deles não lhes dá descanso. Aparecem no meu quarto e falam tanto, mas tanto, que não percebo como é que uma pessoa consegue abrir e fechar tantas vezes a boca, sem ficar completamente esgotada.
(...) É assim que eles falam quando vêm ao meu quarto. As palavras que têm no coração não lhes dão descanso, por isso estão sempre tão absorvidos (...) Inclusivamente, chegaram a ser mal-educados uns com os outros. Sabes bem que eu sempre disse que é uma grande falta de educação ignorar os sentimentos dos outros. Mas foi mesmo isso que aconteceu. Não compreendo, por isso te escrevo, porque sinto que tu vais compreender. Estou com uma sensação estranha. Mas já escrevi imenso sobre esse assunto e calculo que já estejas saturado. Eu também estou.
Já se passaram cinco meses e vinte e um dias. Estou sozinho, sem ti, há todo esse tempo. Só penso no dia em que estaremos novamente juntos. Não sei o que será de mim se não te puder ver em breve."

Singer pousou a cabeça na bancada e descansou um bocado. O cheiro e o toque da madeira lisa no seu rosto recordou-o dos tempos de escola. Fechou os olhos e sentiu-se agoniado. Só via o rosto da Antonapoulos e as saudades que sentia do amigo eram tão fortes que lhe cortavam a respiração. Pouco depois, Singer endireitou-se e pegou na caneta.

"O presente que encomendei para ti não chegou a tempo de ir na caixa que te enviei no Natal. (...) Tenho saudades dos teus cozinhados. No New York Café, as coisas estão muito mal. Aqui há uns tempos, encontrei uma mosca cozida dentro da sopa. Estava misturada com os vegetais. Mas isso não é importante. Sinto tanto a tua falta, estou tão sozinho... Em breve irei visitar-te. Só tenho férias daqui  a seis meses, mas acho que consigo tirar uns dias até lá. Tem mesmo de ser. Não consigo estar sem ti, entendes?

Do teu,
John Singer"

Eram duas da manhã quando Singer regressou a casa. O edifício enorme e cheio de gente estava mergulhado na escuridão, mas ele subiu cuidadosamente os três lanços de escadas, sem nunca tropeçar. Retirou dos bolsos os cartões que costumava guardar, o relógio e a caneta de tinta permanente. Em seguida, pendurou a roupa nas costas da cadeira, com cuidado. O pijama de flanela cinzento era quente e macio. Puxou o cobertor até ao pescoço e adormeceu de imediato.

  Carson McCullers in " O coração é um caçador solitário ", Editorial Presença,
Lisboa, 2010, pp 213 - 216.
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31/07/11

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Tudo estava tranquilo. Enquanto Bifff secava o rosto e as mãos, uma brisa fez tilintar os pendentes de vidro do pagode japonês em miniatura, que estava em cima da mesa. Acordara da sua sesta e fumara o seu charuto da noite. Pensou em Blount e interrogou-se se ele já estaria muito longe. Havia um frasco de Agua Florida na prateleira da casa de banho e ele levou a tampa às têmporas. Estava a assobiar uma canção antiga e, ao descer as escadas estreitas, a melodia ia deixando um eco atrás de si. (...) O relógio da parede marcava 12h17. O rádio estava ligado e ouvia-se um debate sobre a situação que Hitler havia criado por causa de Danzing (...).
Biff atravessou a cozinha em bicos dos pés e foi à prateleira onde havia um cesto com jasmineiros-do-imperador e duas jarras cheias de zínias. (...) Começou a decorar a montra com imenso zelo. No meio do ramo encontrou uma flor esquisita: uma zínia com seis pétalas cor de bronze e duas pétalas vermelhas. A montra ficou pronta e ele saiu para o passeio, para contemplar o resultado final (...).
O céu, negro e repleto de estrelas, parecia bastante próximo do chão. Biff caminhou ao longo do passeio, parando uma vez para empurrar uma casca de laranja para a sarjeta, com o pé. No fundo da rua, dois homens estavam de braço dado. Não se via mais ninguém. O seu restaurante era a única loja aberta.
Para quê? Por que motivo tinha o restaurante aberto durante a noite, se todos os outros cafés da cidade estavam fechados? Faziam-lhe essa pergunta imensas vezes, mas nunca soubera responder. Não era por causa do dinheiro (...).
Mas ele jamais fecharia a porta à noite enquanto estivesse naquele negócio. A noite era maravilhosa. Havia pessoas que, de outro modo, ele jamais reconheceria (...).
Examinou a zínia que tinha posto de lado. Ao segurá-la na palma da mão, na claridade da luz, apercebeu-se de que a flor não era tão rara como ele supusera. Não valia a pena guardá-la. Arrancou as pétalas macias e brilhantes e, quando chegou à última, calhou-lhe "bem-me-quer". Mas quem? Quem é que ele iria amar agora? Ninguém em especial. A primeira pessoa decente que entrasse no restaurante e se sentasse durante uma hora, a tomar um copo. Mas não havia ninguém. Todos os seus amores havia desaparecido. Alice. Madeline e Gyp. Findos. Deixando-o numa situação melhor ou pior. Qual seria? Dependia da forma como se olhasse para a situação.
E Mick. Aquela que, nos últimos meses, vivera estranhamente no seu coração. Teria este amor chegado ao fim também? Sim. Findara. Agora, Mick aparecia no princípio da noite, para tomar uma bebida fria ou para comer um sundae. Tinha crescido. Perdera por completo o jeito infantil. Agora, tinha um porte elegante e delicado. (...) Ele olhava-a e já só sentia ternura. O sentimento antigo desaparecera. Durante um ano, esse amor florescera invulgarmente. Ele questionara-o inúmeras vezes, sem nunca obter esposta. E agora, como uma flor de Verão que murcha em Setembro, esse amor desaparecera. De vez.
(...) Biff estava absolutamente imóvel, absorto nos seus pensamentos. Depois, subitamente, sentiu qualquer coisa despertar dentro de si. O seu coração deu um salto e ele encostou-se ao balcão, para evitar cair. Viu a interminável passagem da humanidade através dos tempos. E viu os que trabalhavam e os que, numa só palavra, amavam. Depois, sentiu uma espécie de advertência, um poço de horror. Encontrava-se suspenso entre os dois mundos. Contemplou o seu próprio rosto reflectido no vidro do balcão à sua frente. A transpiração cintilava-lhe na testa e Biff tinha o rosto contorcido (...) fitava, incrédulo, um futuro de escuridão, de erros e ruína. Encontrava-se suspenso entre a Luz e a Escuridão. Entre a ironia e a fé. Desviou o olhar.
(...) Mas, santo Deus, ele era um homem inteligente ou não? Como é que o terror o conseguia esmagar daquela forma, quando ele nem sequer sabia o que o provocava? Iria deixar-se ficar ali parado, como um palerma completamente apavorado, ou encher-se de coragem e de juízo? Biff molhou o lenço na torneira e levou-o ao rosto tenso e cansado. Lembrou-se de que ainda não tinha recolhido o toldo. Encaminhou-se para a porta, com um passo firme. Quando voltou para dentro, já se encontrava suficientemente recobrado para esperar o romper do sol.

  Carson McCullers in " O coração é um caçador solitário". Editorial Presença,
Lisboa, 2010, pp 351 - 355.
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29/07/11

" o que el verano adquiera relevancia/ en un vi llover y no estás, "


 "La estrella que anuncia cambio de tiempo"

YO no sé qué es más cruel,
ese yérguete que ya es la hora
o que el verano adquiera relevancia
en un vi llover y no estás,
o acaso durante dos horas
esperar que te reflejes
en la iluminación de los letreros,
o que salgas de aquí
de donde no estoy, entonces la torpeza
convertida en la frágil osamenta
donde me convierto en otra.

  Concha García in "Acontecimiento", Tusquets Editores, Barcelona, 2008, p 33.
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" El goce y la satisfacción no son equivalentes. "

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 "Divagación en la almohada"


 UN día de libros en esa casa
cuyos muebles no me dicen nada.
Si idealizo la jornada
se convierte en instante este momento
y subrayo que cualquier frase da sentido
a la velada. Pero no.
El goce y la satisfacción no son equivalentes.
Tengo que verlo. Abrir la cortina,
separarla. Verlos caminar. Quién camina.
Verlos detenerse. Quién hace pausas.
Verme reclinada. Quién se ladea
ante un horizonte tan desdibujado.
Maneras de estar medio sola
ante un mar de otro mundo, si el agua
fuese líquida, si se pudiera una
meter en ese fluir, organizarse.

  Concha García in " Acontecimiento ", Tusquets Editores, Barcelona, 2008, p 79.
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28/07/11

"(...) Mis brazos/ equilibran un anhelo antiguo, "

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 "Otro soplo de vida"

DUERMO a intervalos.
Cuando el don se instala
elijo escogerte. Mis brazos
equilibran un anhelo antiguo,
carecem de foco,
forman un hundimiento preciso
que alegra lo profundo del cambio
y revivo ajena, reconociéndome
en tardes con bancos verdes sin nadie
como un hermoso castigo.

  Concha García in "Acontecimiento", Tusquets Editores, Barcelona, 208, p 109.
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27/07/11

" No a los seres que ofrecen/ su porvenir en un rato. "

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 " Como un Decálogo "

NO hacer lo mismo.
No avanzar en el círculo
para la causa repetida.
No centrarse en el punto
de onde partir siempre.
No al dilema irresuelto
que se derrite en el cuerpo.
No al horario que avanza
en un universo cerrado.
No a los seres que ofrecen
su porvenir en un rato.
No a la mujer repetida,
no al merodeo en espiral,
no a la bocanada de aire
que te vuelca hacia un lado
y deja una tristeza risueña
de recuerdos desangelados.

  Concha García in "Acontecimiento", Tusquets Editores, Barcelona, 2008, p 115.
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   " À espera"


Coleciono perdidos. Tudo serve
aos meus achaques. O uniforme azul,
o beijo partido, a luxúria sem asas,
a menininha de tranças,
o amor/ suspiro na fonte, o punhal turco,
os pombos degolados no fundo do sono,
o tempo repartido em dois:
ontem, Chimène a caminho do pranto,
agora, os netos de Chimène,
a não apagada
pelo mata-borrão (havia lágrimas).
Tudo serve.

A esfinge na febre,
quero decifrá-la; tenho dois corações
num saco de plástico, à discrição do amor,
para o nosso próximo encontro.
Espero-vos, Senhora, de preto,
numa rua de Fez.

  Guilhermino Cesar in "Sistema do Imperfeito & Outros Poemas", Editora Globo,
Porto Alegre, 1977, p 70.
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26/07/11

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 " Retrato fingido "


Esse poeta é um fingidor
finge tão safadamente
que chega a ser furta-cor
para ficar coerente.

E como a roda da vida
não desenrola ninguém
o poeta continua ausente
da vida que ele não tem.

  Guilhermino Cesar in "Sistema do Imperfeito & Outros Poemas", Editora Globo,
Porto Alegre, 1977, p 147.
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25/07/11

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"Seiscentos urubus e uma asa branca"



Seiscentos urubus, ora essa, um espetáculo
real. Os reis amam a tragédia.
Seiscentos urubus e uma asa branca,
corrijo a tempo. Asa branca é contraste
num tamanho cortejo de negrume ideal. Os reis
gostam de brincar nas alturas;
o difícil, naturalmente, não é para nós outros,
peões, salário-mínimo, lixo, estrume dos edifícios.
Seiscentos urubus, uma carga de horrores
a exigir um panfleto.
Mas aparece uma asa, apenas uma
asa branca, e o negrume acabou-se.

  Guilhermino Cesar in "Sistema do Imperfeito & Outros Poemas", Editora Globo,
Porto Alegre, 1977, p 161.
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24/07/11

Maria Lúcia Lepecki (1940 - 2011)


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Morreu hoje, vítima de cancro, a escritora e ensaísta Maria Lúcia Lepecki. Assisti a muitas das suas confe-
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rências, li muitos dos seus trabalhos... Via-a com frequência descendo a rua, acompanhada do marido,
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para a sua caminhada habitual; via-a igualmente num dos cafés onde ambos parávamos. Conversámos duas
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ou três vezes, onde ela me revelou um humor que lhe desconhecia.Certa noite, entravamos nós no café,
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saía ela com o marido...voltámos a falar do Prefácio do "Prisma", ela, então, virou-se para a legítima:
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"(...) não imagina como ele estava, tive de lhe dizer para se sentar... pensei que lhe fosse dar uma coisa.",
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e olhava para mim sorrindo. Rimos os quatro... Morreu hoje Maria Lúcia Lepecki e eu estou triste, muito
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triste mesmo.
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30/06/11

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 "Entretendo o canário"


Penas amarelas,
Será verdade
Que chilreias para o chui
Que bate?

Desiste. Vira o teu
Olhar nervoso
Para a porta aberta da casa de banho
Onde eu ensaboo

As costas da minha amada
E ponho o meu queixo no seu ombro
Para que possa fazer o mesmo
Às mamas e às coxas.

Canta. Agita as tuas asas
Como se aplaudisses,
Ou atiro as suas cuecas negras
Para cima da tua gaiola dourada.

  Charles Simic in "Previsão de Tempo para Utopia e Arredores", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2002, p 67 ( Tradução de José Alberto Oliveira).
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 "Le Beau Monde"


Um homem subiu para falar de Marcel Proust,
"O grande escritor francês",
Para um caixote que era famoso pelos discursos
Sobre patrões desonestos e trabalhadores pobres.

Eu juro (Tony Russo é minha testemunha).
Era já noite dentro, a multidão ia diminuindo,
Mas logo todos regressaram
Para ver sobre que era aquela lengalenga.

Ele parecia uma das máquinas de lavar louça
De uma das espeluncas da Avenida B.
Ele roía as unhas enquanto falava.
Dizia isto e aquilo, devia ser em francês.

Toda a gente se empertigou, até os bêbados.
Os valentões deixaram de exercitar os músculos.
Era como estar na igreja
Quando a Missa Cantada era dita em latim.

Ninguém entendia, mas todos ficavem alegres.
Quando acabou foi-se embora, de vez,
Com passadas largas numa grande pressa.
Os restantes atardaram-se a dispersar.

  Charles Simic in "Previsão de Tempo Para Utopia e Arredores", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2002, p 47 (Tradução de José Alberto Oliveira).
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26/06/11

" quantas vezes te sei aqui e não te vejo "

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 "Poema 10"

quantas vezes me despeço de ti
sem saber

onde vais

quantas vezes me despeço de ti
sem saber a razão
sem saber de tua mão
sem saber

quantas vezes sem saber
me levanto ao bater da porta
do soalho no passo breve  curto  certo

te procuro nas gavetas
em sombras atrás dos muros
em sombras que o vento traz
com ramos a bater nas vidraças

quantas vezes te sei aqui e não te vejo

me despeço de ti
e não o quero
me despeço de ti
e não te peço

fica

para acalentar meu desassossego

  Inez Andrade Paes in "Paredes Abertas ao Céu", Edição da Autora, s/c., 2010, p 34.
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24/06/11

" a mim que não sei senão perder-me/ nos labirintos do teu corpo, em aceso desejo."

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 "Meu amor, dá-me o mapa da tua alma"

Meu amor, dá-me o mapa da tua alma,
a mim que não sei senão perder-me
nos labirintos do teu corpo, em aceso desejo.

Percorro-te, de lés-a-lés, beijo-te
lambo-te, peço-te que me ames com fúria
e depois lentamente, baralho-te,
e avanço como uma amazona sobre ti,
mas é no teu olhar que a minha fúria se desvanece,
como se um gesto teu, apenas,
soubesse aplacar-me esta fome
que trago de ti, sempre, em mim.

Seguras-me o rosto, abraças-me
e eu estremeço. Às vezes não é do prazer,
é desse gesto antigo onde me revejo
nos teus olhos, onde pressinto que cheguei.

Ao centro do labirinto, onde vislumbro o teu verdadeiro rosto.

  Maria João Cantinho in "O Traço do Anjo", Edium Editores, Porto, 2011, p 45.
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" lembra-me tal, sempre que me esqueça."

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 "Há palavras que anseiam ser ditas"

há palavras que anseiam ser ditas
como pássaros que teimam nas brumas
avançando na busca de um deus,

palavras que se ocultam
sob o silêncio de um olhar,
nascidas do mais puro coração,

lembra-me tal, sempre que me esqueça.

  Maria João Cantinho in "O Traço do Anjo", Edium Editores, Porto, 2011, p 47.
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"(...) compreenderás/ que nada morre, nada desaparece,/ apenas deixa de ser em nós "

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 "Poema dos Elementos"

O tempo tudo transforma, essa é a lei
que nos cabe em sorte.
Mas se te sentares à sombra do velho carvalho
e fechares os olhos,
se ouvires o que o vento
te vem contar, compreenderás
que nada morre, nada desaparece,
apenas deixa de ser em nós
para passar a outras camadas deste mistério.

Gostava de te dar a mão e explicar-te
a ti, que possuis o terror da morte,
como tudo é sagrado e se renova,
tudo volta ao pó e depois ao ar,
tudo se transforma tão serenamente.

A água, a pedra, o tempo,
tudo são reflexos de tudo
o que nos precedeu,
das vozes dos nossos antepassados
que agora nos olham
de outros lados, sei-o,
sob a forma de árvores, pássaros,
tudo é tão incandescente, neste cosmos
como uma dança permanente entre os elementos.

Por isso, quando choras, é o rio
que entra em ti e lava a memória
da tua dor, o rio é já o tempo
que, em ti, leva ao esquecimento.

      Maria João Cantinho in "O Traço do Anjo", Edium Editores, Porto, 2011, p 53.
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23/06/11

" Como não afundasse, ficou vagando,/ Até se desfazer em partes, "

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 "Manhã"

Lentamente, foi se afastando da praia.
Estava amarrado, e depois oscilou livre,
Na maré vazante.
Terá demorado a fugir da vista.

No alto-mar, ao sabor das correntes que o arrastaram,
Deve ter recolhido a chuva e secado ao sol.
A água, penetrando pela borda,
Nos meios-dias deve ter deixado um rastro brilhante de sal sobre o banco
E nas dobras do fundo.

Depois, numa noite de chuva,
Primeiro uma onda o terá alagado até o meio.
Em seguida, balançando mais lento, terá sido aos poucos coberto pela água.

Como não afundasse, ficou vagando,
Até se desfazer em partes,
Uma das quais é esta, que agora
Está aqui, quase enterrada na areia.

  Paulo Franchetti in "Memória Futura", Cotia, São Paulo, 2010, p 18.
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" As lembranças, afinal, já não cavalgam as palavras "

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PONHO UMAS palavras num papel
E elas passeiam, intocadas,
Como peixes com fome num aquário.

Se alguém se debruçasse agora,
Em busca de outra imagem recurvada,
Veria apenas a sombra, como eu vejo,
Na folha de papel.

Nem mesmo sob a superfície paira
(As lembranças, afinal, já não cavalgam as palavras)
Alguma forma de alívio.

Apenas isto:
Estes gestos,
Pequenos pedaços flutuantes,
Farelos que os peixes,
De súbito surgindo do fundo
Da água lodosa,
Vêm devorar.

  Paulo Franchetti in "Memória Futura", Ateliê Editorial, Cotia, 2010, p 33.
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22/06/11

" Assim no dia a dia o amor,/ Cobra, inseto, ave de rapina, "

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O SANGUE insiste
Como um pensamento,
Uma ideia fixa que preenche um dia à toa.
Depois reflui, resolvido.
O sono condensa a vista,
Como a respiração no vidro do carro
Parado sob a chuva.
Os mangues ameaçam invadir a cidade,
Sobem e defluem íntimas marés,
Enxurradas de restos, caranguejos, garrafas.
Ou tudo escorre em paz,
Nos canos do tanque, de plástico liso,
Ou no correto sistema de águas do banheiro.
Assim no dia a dia o amor,
Cobra, inseto, ave de rapina,
Vai desdobrando a vida,
Que corrói.

    Paulo Franchetti in "Memória Futura", Ateliê Editorial, Cotia, 2010, p 45.
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21/06/11

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 "Oração"


Anjo da guarda, corta as tuas asas,
Esses galões de pano,
Se queres, humano,
Ajudar-me.
Minha mãe a gerar-me
Nu,
E o céu a mandar-me
Um cisne falso como tu!

Nesta terrena dor,
Desesperado,
Pedi um braço quente e pecador.
Não quero cá ninguém santificado!

Limpa o verniz da cara, tira o lenço
E enxuga-me estas lágrimas de lama.
Deus é imenso,
Mas nem eu lhe pertenço,
Nem é por ele que a minha angústia chama.

  Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, p 309.
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19/06/11

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" MARIA TERESA HORTA, UMA VOZ INSUBMISSA". A homenagem à escritora ocorreu no "Museu-biblioteca República e Resistência" (em Lisboa), a 6 de Junho de 2011.
Fotos retiradas do "Face" e delas foram removidas todas as identificações.
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" Às vezes quero dizer-te coisas importantes... "

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 Poema 10 do ciclo " Marlene"

Às vezes quero dizer-te coisas importantes, a cotação das acções na bol-
sa prateada e dócil da tua intimidade, a vibração involuntária dos meus
tecidos moles, durante um jantar num hotel de luxo, Marlene. Mas ficam-
-se as cinco estrelas por uma tasca no centro histórico, com carapaus
grelhados e molho à espanhola, e uma cerveja em vez de um daikiri que
me adormece e faz sonhar contigo e com os teus seios tensos que sei
que assim ficarão eternamente.

  António Ferra in "Marias Pardas", &etc., Lisboa, 2011, p 40.
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" Já a tinham fodido muito na vida e bebia até cicuta ao acordar, "

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 Poema 2 do ciclo "Maria Parda"

Já a tinham fodido muito na vida e bebia até cicuta ao acordar, a ver se
marchava para a câmara escura. Mas o raio de um instinto de sobrevi-
vência toldava-lhe os olhos e saltava pelas ruas fora, de pénis à cintura,
a dizer blasfémias para enrabar o futuro, a gritar que já tinha experimen-
tado tudo, tudo - roubo de galinhas nas quintas suburbanas, champanhe
bebido em mansardas, vacinas contra o tétano e o tifo, pastéis de cio em
recepções mundanas; que já tinha estado presa em alta segurança e apal-
pada por uma guarda a quem chamava mamã; que bebera este mundo e
o outro por garrafas diárias para esconder a podridão dos sonhos em
vinhos a martelo.

  António Ferra in "Marias Pardas", &etc., Lisboa, 2011, p 16.
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18/06/11

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Sem defesa - de um olhar-goraz - uivando à nossa mesa
Mes AMIS
Ferva um caldo de marcas e siglas ao lado da minha enxerga
Algumas queimam no vagarzinho e nem as consigo enxergar
Nem sempre o que ferve se purifica - na estreiteza do escaninho

BPP e BPN - sem dispêndio nas insónias - sem suar ao sol d'AMI

Em manobras de um agudo tilintar
Na quietação sem ciência de outro mar

OPTIMUS
Não as oiço... Nem enxergo estas encíclicas
Falta de destreza - numa côdea de pobreza
De quem rejeita o intuito de abreviar
Quando se perde na justa medida
A vida que de breve só se atreve
De alma lenta em tudo para durar

"Abençoados os pobres de espírito"
Pois deles não é o reino da terra

E o mundo - uma centopeia de olhares musculados
Eléctrica e sem fios - na corrente de todos os desafios
Rastejando na prontidão dos passos imaculados
Até no instante da extrema-unção
Competindo dentro e fora das feiras e dos mercados
- Não há sardinhas na grelha como as que compro e vendo
(De maxilares saciados na verdura das alfaces sem sabor
Até dizem que a alface faz enxergar melhor)

O mundo em travessas - girando na devoção ao labor
Uma centopeia sem miopia nem vista cansada
De patas grossas - gravando na eira do tecno-rafeiro
( Cão seja - Fiel por baptismo)
O território da sardinha que não quer perder o peso
Na comunhão sem azia de uma salada sem cheiro

E o futuro está na alfa-sardinha
TGV de todos os continentes
De rápida extensão em verdes-faces

( Pois - não é verdade que quem tem olho tudo enxerga?)

BPP e BPN
Siglas - varinas de espreitar entre saias os peixes miúdos
De atacar nos bês e nos pês e nos Nez os perfumes
E temperos - na caldeirada de intestinos façanhudos
Sobre as patas de engrossar a canastra dos milhões
Regateando sem cansaço essa queda de crescer
Entre sardinhas cruas e alfaces de olear os foliões

- Quem quer fundos - quem quer almoçar?
Olhe a sardinha fresquinha
Ó freguês! Olhe os fundos frescos de amadurecer
Não são figos nem sardinhas de alto-mar

Antes o banquete ilustrando a arte de naufragar

  Ana Maria Puga in "Quando as Palavras começam a escrever", Editora Labirinto,
Fafe, 2011, pp 75 - 76.
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17/06/11

(Clicar sobre a imagem)

" Morte em Veneza


No azul da inquietação"


Morrer entre os canais
De quanto imaginar
A elegância da ponte
Por alagar de amor
Que só quer - existindo
Na fixação do olhar
Uma réstia de horizonte

A música de um maestro
Na miopia do desejo
Misturando o azul das águas
Nas lentes de criar o beijo

E só depois

(Desfalecer sob as pontes)

Desesperando
Na tinta de escurecer
De negrejar os cabelos
Em desalinho
Na chuva em fio-corrente
Moldando o rosto da-dor
Deambulando
Entre o favor de S. Marcos
E os esconsos sem magia
Onde mijaram os gatos
No canto de um corre-dor
Ao luar da travessia

 Ana Maria Puga in "Quando as Palavras Começam a Escrever", Editora Labirinto,
Fafe, 2011, p 53.
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         "Civilização"


Ela quis pagar com cartão dourado
Ao balcão - um euro só e quarenta
Um café de pequenas iguarias
De olhar cambado
De gola e banda
Mesclando na viscose as pedrarias

 Ana Maria Puga in "Quando as Palavras começam a Escrever", Editora Labirinto,
Fafe, 2011, p 45.
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16/06/11

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 "Solo"


Vem outra lua
e vou

contra a imensa parede
que me derruba
e cega.
Atordoa mas não mata
a vontade
de insistir.
Remendo as asas
e espero
a cura: o próximo luar.

De tombo em tombro,
após mergulho
no vazio,
subo à superfície,
dura borda da noite,
e o vôo se levanta
para que eu
- sempre outra -
siga à procura
do existir

  Sônia Barros in "Mezzo Vôo", Nankin Editorial, São Paulo, 2007, p 49.
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15/06/11

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 "Sina"


Quem mais ouvirá,
nesta fria manhã,
a voz incessante do vento?
Quem mais,
além dos cães que uivam
entrecortando o canto,
e das palmeiras que, ao som do mesmo canto,
dançam?
Talvez o gato
que dorme na varanda,
se a voz do vento
alcançar os longes de seu sono
como me alcançou
neste sábado
em que pretendia dormir
a manhã inteira
( e não ser acordada pela voz
da ventania de um poema).

 Sônia Barros in "Mezzo Vôo", Nankin Editorial, São Paulo, 2007, 34.
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08/06/11

" É melhor assim.../ O peito aberto, sem condições e tratados, "

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 "Podia saber mais de tudo"

Podia saber mais de tudo,
Deixar-me enredar nesses enganos,
Confiar na incerteza de outros dias.
Podia renegar-me, talvez nunca como agora,
Podia saber quem eras tu e os demais,
Fintar o futuro e o passado,
Que o acaso fosse concreto e determinado.

Podia não estar aqui,
Ser material de outra estrutura,
Escolher a chuva que me ensopa,
Queimar-me ao vento, ao sul,
Onde o sal soubesse tanto a despedida como eu,
Para que me esqueça delas, enfim.

É melhor assim...
O peito aberto, sem condições e tratados,
Morder o presente, mutilado,
Querer o mais difícil dos prazeres,
Esquecer o amargo das canções,
Enfim.

  Daniel Costa-Lourenço in "Heróis (chamamento)", Chiado Editora, s/c., 2010, p 74.
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( Nota - este poema tem como epígrafe quatro versos de David Mourão-Ferreira, aliás, grande parte dos poemas desta obra têm epígrafes, mas todas colocadas no final da página. Preceito metodológico interessante! Dos não sei quantos livros que li nos últimos anos, este é o segundo em que constatei semelhante "instrução de leitura".)
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"(...) maldade fugidia/ Que tropeça,/ Em mim. "

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 "Gozo caprichoso"

És,
Caprichoso gozo, atormentado,
Prazer obsceno encoberto,
Palavra que não existe,
Segredo cansado, decifrado,
Inferno,
Sangue ardendo profundamente,
Eco do riso que arranha o relento,
No paraíso,
Veneno de bem-querer,
Sombra que esconde, finge, vicia,
Crua verdade, maldade fugidia
Que tropeça,
Em mim.

 Daniel Costa-Lourenço in "Heróis (chamamento)", Chiado Editora, s/c., p 18.
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07/06/11

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 "Provérbio"


O que vier com alma nova, fique.
Deite a sua raiz,
Cresça, floresça, frutifique,
E morra se outra seiva o contradiz.

Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações D. Quixote, Lisboa, 2000, p 212.
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06/06/11

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Ave maluca que pousou sozinha
Na praia triste, e debicava a espuma
Que uma onda deixou,
O bando olhou-a lá do céu que tinha,
Viu-a perder as horas uma a uma,
E voou.

Era um trigal inteiro que acenava
À prática avidez do seu destino!
Ficasse quem comia solidão.
Ficasse singular quem desejava,
Peregrino,
Na flor das vagas encontrar o pão.

 Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote", Lisboa, 2000, p 175.
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04/06/11

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" O Lázaro"


O Lázaro sou eu, não foi o Outro,
o das migalhas e das chagas podres.
O Lázaro sou eu, aqui sentado
à mesa do Vice-Rei
a mastigar com nojo estes faisões!...
Sou eu, vestido de holanda,
a pregar a nudez que sempre usei
nas grandes ocasiões!...

Sou eu, nado e criado para amar,
e que não sei amar!
Sou eu, que disse não e me perdi!
Que vi Deus e nunca acreditei!
Que vi a estrada impedida
e passei!...

Sou eu, que não sou feliz no Céu nem no Inferno,
porque no Céu há paz, e no Inferno há guerra,
e a minha Paz é outra, e a minha Guerra é outra...
Sou eu, tão Grande e Pequeno
que nem sirvo para grão
da parábola da mostarda!
Sou eu, que há vinte e sete anos
vivo sem Anjo da Guarda!

Sou eu, que ou tudo ou nada, ou Vida ou Morte,
e acerto sempre na Morte!
Que espeto sempre o punhal
onde não quero ferir!...
Que sou assim, às cegas e às golfadas,
como as dores abençoadas
de parir!

Sou eu, que me disse adeus
e fiquei à minha espera!...
E que naquela manhã de ano bissexto
- que podia ter sol e teve chuva -
recebi nestes meus braços
o esqueleto verdadeiro
da saudade amargurada
de quem não tem ausentes nem distâncias!

Sou eu, o louco sem asas
que se lança dos abismos a cantar
a Canção do Inocente...
E que do fundo desse sonho novo
atira a praga
que o traga
àquela redentora incompreensão
do seu povo!...

Sou eu, o Alfa e o Ómega
e os sentidos singulares
que o Anjo-Satanás me prometeu!...
Sou este Nobre-Vilão descalço e de gravata,
sou este jornal sem data
que traz a infausta notícia
que ninguém leu!...

Sou eu - e mostro-me todo!
Quem puder, arranque os olhos
e venha cheio de Fé
ver o Lázaro real
que não vem nos Evangelhos
mas é!...

  Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pp 69 - 70.
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02/06/11


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  (Fragmentos do Ciclo " Escritos da Admiração" )
.
Poesia e filosofia não principiam pela indagação; nem
pela dúvida. Mas pela exclamação das palavras que in-
sistem em transbordar com o admirável, a ponto de não
se distinguirem dele. Os escritos não são instrumentos
de comunicação do que lhes é exterior. Eles mesmos,
já espantosos, realizam seu limite, chegando ao que, des-
de sempre, são: palavras, criações de novos destinos.
.
(...)
.
A exclamação do poeta (do pensador, do filósofo) é
feita de dentro do enigma. Ele não é aquele que decifra
a esfinge, sob pena de morte caso fracasse. Ele não é
aquele que consulta o oráculo para descobrir o futuro
vindouro. Ele é a própria esfinge, produtora de enigmas.
Ele é o próprio oráculo, criador de palavras ambíguas.
No princípio, era o enigma, que se bastava por si pró-
prio, e o oracular era uma ambiência a ser frequenta-
da, uma morada a ser habitada. Nenhuma resposta o
precedia, nem era requisitada nenhuma explicação. A
necessidade de sua decifração se constitui como tare-
fa tardia do pensamento. Antes de ser revelação de
um sentido oculto, a palavra poética, pensante, dedi-
ca-se a nos envolver com o oculto que há em todo
sentido; ao invés da dúvida, a exclamação; ao invés
da pergunta e da resposta, o enigma.

  Alberto Pucheu in "Escritos da Indiscernibilidade", azougue editorial, Rio de Janeiro,
2003, pp 8 - 11.
.
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(Fragmentos do Ciclo "Escritos da Íntima Estranheza")

Deixo aparecer a voz que quer fazer sua diferença falar
por mim. Favoreço-a. À minha revelia, ela me impõe
suas próprias surpresas, minhas próprias perplexida-
des.
.
(...)
.
A experiência da escrita me deixa exposto pelo real
que me transpõe; desconhecendo a separação entre
linguagem, pessoa, vazio e todas as coisas, ela se dá
justamente na respectiva encruzilhada: morada de
todo espanto.
.
(...)
.
Os arranjos das palavras trazem em seu bojo uma
dose de indeterminação prévia, uma abertura para
o imprevisível, para o casual; tanto inesgotáveis,
quanto incansáveis, acionam a fixidez que gostaria
de descansar satisfeita de si.

  Alberto Pucheu in "Escritos da Indiscernibilidade", azougue editorial, Rio de Janeiro,
2003, pp 20 - 25.
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01/06/11


(...)
Esta é a juventude perene,
a que nenhuma neve cede às prerrogativas do tempo
e que eu, em menino, quis entrever para sempre,
a crença firme deveria poder reduzir-se
a outro teor, exaurindo-se do que avulta em injustiça no embaraço
de pregar aos peixes, como se a abutres fosse,
em vez de a homens,
com rostos semelhantes ao nosso semelhante,
nas intransponíveis perguntas para que não há resposta

Daí que todas as perguntas tenham sentido e não façam sentido
nenhum, unem-se os raros e os ternos, a luz solidifica,
todos os confrontos explodem em outras recriminações,
as cidades passam, passam as acareações,
passa a desolação para quem outra desolação se apreste
na cidade,
mas ninguém, morto que esteja, lê Herberto Helder,
como há muito sabemos,
enquanto a fulminação da infância é uma desventura
e é uma desvantagem escrever versos que ninguém há-de ler,
ou só mesmo pensar em escrevê-los

Adianta pouco esta roda de comprazimento,
caímos uma primeira vez e uma segunda vez iremos cair,
e logo uma terceira vez caímos,
mas morreremos, como sempre, na praia,
como sempre morreremos ao percorrer a passadeira devagar,
entre uma loja chinesa e outra loja chinesa,
entre um e outro descaminho,
um descaminho de atropelamento,
e fuga
e nada mais,
nada mais no horizonte da menina nua da avenida dos Aliados

Tudo é avulso, tudo é repulsivo,
calha-nos ensandecer cedo demais,
(...)

  Amadeu Baptista in " O Ano da Morte de José Saramago", &etc., Lisboa, 2010, pp 23 - 24.
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31/05/11


" O Brinquedo do Céu"


o tecto azul sob si tem vários brinquedos intocáveis
imagens que o olhar concentra no seu poço de admiração
todo um quadro de paletas esbatidas e carregadas de ar em movimento
o vento que conduz as nuvens e agita os braços das ventoinhas do parque eólico

as nuvens de um azul imposto de cinzento
colocam-se entre feixes de outras que são rastos de aviões que não passaram
mas poderiam

debate-se agora a perspectiva com a evolução do quadro
tudo passa e só a lembrança pode reformular a passagem do tempo
só importa fixar o momento em que tudo passa
pois tudo passa e não adianta agarrar o instante
fica a memória do real avião que feliz atravessa seguro o centro da perspectiva
aérea praia completa do momento ido
onde todo o movimento se espraia ao sabor do vento
e nada nunca é como foi há instantes

 António José Borges in Revista "O Escritor" Nº 24/25, A.P.E., Lisboa, Dezembro 2009.
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29/05/11

Soneto CXXX de William Shakespeare dito por Daniel Radcliffe



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Minha amante nos olhos sol não tem,
mais rubro é o coral que sua boca,
se a neve é branca, o peito é escuro e bem,
se há toucas de oiro, negro fio a touca.
Vi rosas brancas, rubras, damascadas,
não tem rosas na face, ao contemplá-la,
e há essências que são mais delicadas
do que o bafo que aminha amante exala.
Gosto de ouvir-lhe a voz, contudo sei
da música mais doce a afinação,
e uma deusa a passar jamais olhei,
a minha amante a andar põe pés no chão.
Creio no entanto o meu amor tão raro
quão falsas ilusões a que o comparo.

  William Shakespeare, in " Os Sonetos de... ", Bertrand Editora, Lisboa, 2002,
p 271 ( Tradução de Vasco Graça Moura)
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28/05/11

" Ella da pan o láudano para/ las heridas o sal para la sed ... "


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 ( Primeiro poema do ciclo "Mi pluma" )

Igual que el lecho, es la pluma
ámbito diverso y amplio donde
junto al amor, cabe el desamparo
y la aflicción.
Allí se extiende
la desazón y la alegría: igual al
romo que llora la gacela, que al
tembloroso y solo que gime empezonado,
que lo mismo al galán que al viejo
desprovisto: pluma diversa, siempre la
misma: continua en sí, punta y cabida.

Ella da pan o laúdano para
las heridas o sal para la
sed y vinagre al que agua
quiere.

"Ven a salvarnos",
dice el mancebillo. Y en el
espanto tiene su tinta. "Ven",
dice la tríntina "pon la gloria
en mis manos", y en la íntima
nube tiene pan y manteca: el
alimento inicuo. "Dame la plenitude",
dice el languidomundo, " de Aladino
la luz" y recibe la parca materia
de acarreo.

Ay, de aquel que ruega
y llora: reciba el todo, ya recibe
parte. Aquel que gime  qué le pide
al mundo, a la sonanta, sino
el resíduo, la gransa, la solfa,
el desafino?
Aúnque recta e
inmutable, solícita al servicio
y prístina al mandato, qué indócil,
qué casquimanta, qué madre de sí, qué
adusta, cuánto no donante, qué perpleja
en su frío!

Te poseo de toda guisa:
morada como la chinche
sangrosa, verde como el
retamar, negra como la corazón
de les centolles, dorada del
salto de gacela, plata argenta
como el Cuzco y las andinas nieves,
marrón avieso que es color de muerte:
iguala siempre, dando la misma calofrío.
Idéntica y temporal.
Todas de madre y de padre,
amante, esposa, prima, circuncisa, napolitana
alba: Todas la misma: ciega de mi corazón,
imparpable amor, mármol de mi vida, amante
no divisa, fría, desposeída, alcuza y branquia.

Así la amo: material
y diversa: introversa
y secreta: enteca y
rutilante. Mísera y
magnífica.
Como a nuestro
más profundo la amo: el
pensamiento que fluye, como
una garza por entre las aguas,
la golondrina por entre las ciénagas.

Ay, la sorda reclámale a la muda:
no hables, corazón, cualquier muro
es oído!

  Rafael Ballesteros in "Testamenta", Visor Libros, Madrid, 1991, pp 81 - 83.
.

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Cidade intemporal
é lá que existes
no nocturno vazio
um homem está de pé
tem nas asas   na língua
uma chama inviolada
uma causa que varre
as sementes   a febre

devagar sobre o orvalho
o suor corre à tona
algas azuis nos cílios

e um vestido de penas

 Madalena Férin in "Viola Delta" Vol. XXV, Edições Mic, Estoril, 1998, 36.
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Seis lâminas de navalha
o altar portátil
os dragões perfilados
gravada a cruz na pele
brancas perversas   mudas
dançando sempre em roda
do vestido fizemos as paredes

Madalena Férin in "Viola Delta", Vol. XXV, Edições Mic, Estoril, 1998, p 38.
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24/05/11

Apresentação do livro "reflexões à boca de cena"

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 REALIDADE E REPRESENTAÇÃO NA POESIA DE JOÃO RICARDO LOPES

"reflexões à boca de cena" de João Ricardo Lopes, quer pelo título quer por alguns dos seus elementos constitutivos, poder-nos-ia levar a considerar, segundo um olhar apressado e desatento, que estamos perante um livro de poesia tomando a dramaturgia como seu nó central e aglutinador. Contudo, na minha leitura, este aceno interpretativo é marca de uma ambiguidade procurada que irá funcionar como chave da real preocupação da obra, isto é, o território da teatralidade não é mais do que um pré-texto daquilo que ao poeta se impõe de modo insofismável - o ser humano enquanto actor social... com os seus desencantos, os seus rasgos de lucidez, as suas paixões.
Ao carácter abrupto do início da obra: abre-se o pano e eles existem (p 8), segue-se um desfilar de figurantes - qual corso atribulado e premonitório - que atravessa todo o palco-cidade onde somos chamados a estar: os que vociferam de calças na arregaçadas (p 8), bobos e anões, cuspidores de fogo/ a meretriz das sardas... ( p 12), um borrachão com a língua de fora, assim como os cães vasculham a noite (p 28). De imediato me agradou esta concepção do labor poético que tão bem articula o esquadrinhar contínuo do mundo interior, que tem um dos seus pontos altos no poema O actor olha-se ao espelho (p 70):

não esperes tanto por mim
não tenho futuro
como passado não tive.
belo talvez seja
porém cru
não menos que estátua
nem melhor do que areia.
como toda a criatura
o que sou não sou.
as mãos ardem-me de frio
e talvez esteja já morto
ou longe de mais.
não esperes tanto por mim
não sabes quem esperas

(este belíssimo solilóquio traz para o proscénio um dos mais interessantes temas de reflexão sobre poesia: a relação do eu com o seu duplo) com um olhar atento e perscrutador do mundo exterior - veja-se, por exemplo, um excerto do poema No centro do palco ( p 56):

no centro do palco as lâmpadas e os adereços
descascam amorosamente batatas
limpam o ranho à filhota das tranças
a plateia está absoluta no encalço da cena
só respiração e alguma tosse medindo
a qualidade de representação.
(...)
uma diversão a vida, um estaleiro de pequenos poemas
( e quem precisa dos enormes?), uma pantomina.
e no fim as palmas, as palmas abundantes
o aceno imprescindível da multidão (sê-lo-á?)
bravos, euforia, teatro delicado
é isto a vida, isto sim, a poesia

Este equilíbrio, este subtil - e arguto - doseamento do interno e do externo, este relacionar que adquire mesmo foros de miscigenação, é, no meu entender, um dos pontos altos da voz poética de João Ricardo Lopes: viver é estar num palco de múltiplos cenários, viver é representar dados papéis repletos de conflitos (não só inter-papeis, mas também intrapapel!), viver é esta incessante procura de um Equilíbrio Instável ( tomando agora de empréstimo - assumidamente - o título da peça de Edward Albee, que Tony Richardson passaria exemplarmente para o cinema com a mítica Katharine Hepburn), equilíbrio entre o dentro e o fora de nós, mas viver é, acima de tudo, a lucidez e a fidelidade: a nós próprios, aos que nos amam ( porque no esboroado palco do hoje já só esses contam!), ao indizível milagre de estarmos vivos neste espaço que nos foi concedido e de que urge cuidar. Quanto ao exterior, ele irrompe em vários poemas deste livro:

(...)
este circo engraçado, colorido, oco por dentro
tanto como por fora - frágil sim, como na moleirinha
dos teus sonhos

  ( p 10)

(...)
há entre nós esta cidade inteira
esta lâmina de silêncio que nos
atravessa ao meio...

  (p 30)

Este estado de alma do sujeito-poético, que é simultanemanente desorientação e vontade de resistir, perpassa toda a obra unindo-se a uma dicotomia que o autor expressa nas mais diversas situações - a escuridão e a luminosidade:

com a boca às escuras, a minha saudade
ela apenas, escuta-a, escuta-a só

  ( p 20)

A noite é para não dizer nada.

  ( p 42)

é na sombra a mais possível das germinações
na penumbra, no poema
na esquina obscura de todo o palco

  ( p 74)

Interessante é também o facto de João Ricardo Lopes não conceder à referida luminosidade nenhum estatuto redentor, antes pelo contrário: todo a emergência do possível encontra-se constante e ininterruptamente  ameaçada:

  "Ruído"

tudo o que disse não disse.
luzes negrentas cevando os olhos
como se cedo fosse já tão tarde.
uma janela declina sobre nós
a pálpebra rude e silenciosa.
que tenha valido a pena. Tudo

  ( p 46)

Frente à lucidez com que se observa o palco e cujas variáveis nos têm sido mostradas, e fundamentadas, nas últimas décadas; frente a esta representação fétida e de mau gosto esventrada à saciedade por vários autores: o vazio e o consumismo (por Baudrillard, Lipovetsky, etc.), a ganância e a perversa manipulação do outro, apenas para que a gratuita exibição de poder conste ( por Singer, Hirigoyen, etc.), enfim, frente a uma cidade esfacelada e à deriva, o eu-poético resgata a ousadia da espera e da reinvenção:

" Alquimicamente"

também eu possuo uma retorta enganadora.
transformar em ouro o teu coração de pedra
nunca foi fácil e o fracasso sacode-me o sono em
estremeções desalmados, sou eu quem te
chama e há um caminho de árvores entre nós.
és longínqua e ris de cada vez que me explode
a decepção e eu juro acabar assim, esfarrapado
vencido e sem ti. mas o poema renasce e eu
renasço devagar. um coração de ouro é coisa de
que não se desiste. Nem até à loucura, nem até ela

   ( p 60)

João Ricardo Lopes coloca a sua escrita no seio desse paradigma que é o do sentir e ser do homem contemporâneo e acerca do qual tanto se tem escrito também nos últimos anos, veja-se. por exemplo, "Les uns avec les autres - Quand l'individualisme crée du lien" de François de Singly. Nesta poesia estamos perante um lirismo que respira e traduz, não só temas que são de todos os tempos, mas também inquietações bem delineadas no hoje, aliás, e já que falei da obra de Singly, poderei acrescentar que a situação de desacerto com o mundo em que se encontra o eu-poético é atenuada fortemente, mas jamais resolvida, pela presença da amada. Contudo - e pormenor interessante - esta amada, tal como a peça do primeiro verso do livro, surge abruptamente; as suas aparições são sempre da ordem do contingente e do ameaçado ( cf. p 14, o poema que dá o nome ao livro); a amada traz consigo algo de salvífico, todavia é sempre de uma salvação possível de que se fala, jamais de uma salvação necessária: o poema "Ligústia" ( p 40) traduz de forma magistral esta carência, já que, apesar da amada ser tão bela, a noite não cessa de vigiar o poeta, de o procurar. Há, pois, uma falha essencial na alma desta voz, um espaço impreenchido - e impreenchível -, uma clareira onde todo o mundo poderia caber, mas de onde a sua poesia e a sua busca extravasam. Dizem os grandes estudiosos destes temas ( e estou a lembrar-me dessa figura enorme que foi Martine Broda) que esta busca fundamental (da Coisa) é a marca dos grandes poetas, pois eu - qual eterno aprendiz como Sérgio! - encontrei-a nesta obra de João Ricardo Lopes. E não apenas isso: a extrema poeticidade deste livro e a pertinente acuidade com que se olha temas e subtemas acabam desembocando numa apurada estrutura concebida para enfatizar os intentos originários do autor: à permanência do palco, à sucessão dos actos, às intermináveis reflexões mesmo ali à boca de cena, terá corresponder a figura óbvia, e desalentadamente rotineira, da continuidade da peça. Por tudo isto, à medida que o livro de vai aproximando do seu fim, ele aproxima-se igualmente de um princípio - veja-se este excerto do penúltimo poema:

 "Regressar"

regressar regressa-se de muita maneira
a casa, à noite, às vezes, nunca mais, para sempre.
mas igualmente a depois da casa, a nós próprios
ao toque da mobília, ao cheiro do sabonete
a outros tempos, à altura em que, a de novo agora
...
porque é assim a vida, porque inifinita graça é a de
emendar a réplica, porque sim, porque assim é o
teatro do coração, porque redondo é o olhar
porque no fim é o princípio, porque, porque sim

   ( p 104)

Neste vivenciar, simultaneamente usual e novo, de um quotidiano que, sendo de tantos, é também de todos, o contra-regra endereça-nos o derradeiro poema deste itinerário poético: Prólogo - é o último título da representação. Que prossiga, então, a realidade, essa miríade de cenas que vamos atravessando... e que inexoravelmente nos atravessam também.

                                 Victor Oliveira Mateus
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  João Ricardo Lopes,
                                                                           Bernarda Esteves
                                                                                     e Victor Oliveira Mateus

(Clicar em cima da imagem)

23/05/11

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" Oscar Wilde a Lorde Alfred Douglas"


Basta-nos sentir as portas
a baterem contra o vento,
o ferro a rachar o fogo
das soleiras, a sombra erguendo-se
da camilha para trazer o corpo
aos ombros. A fímbria
de um gesto criminoso.

Basta-nos aumentar o volume
até ao silêncio, estoirar os tímpanos
com o bafo sêfrego das bestas,
cumprimentar o desejo
até uma próxima e paradoxal
despedida. Basta-nos sentir

que sentimos o tom profético
da cada aceno, quando pela
secura dos dias um de nós
se chega ao outro e diz: vem-te
para cá, para dentro desta cela,
deixa-me sentir o teu perfume
mais deseducado, condenável.

  Henrique Manuel Bento Fialho in "A Dança das Feridas", Edição do Autor, s/c., 2011, p 87.
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22/05/11

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"Louis Malle a Candice Bergen"


Da última vez que me visitaste,
lembro-me bem, trouxeste-me
rebuçados e limonada.
Ficámos sentados a assistir
ao meu trabalho mais recente,
à espera que a forma nos capturasse
para dentro do poema.

Acabados os rebuçados e a limonada,
olhámo-nos descorçoados.
Afinal, o que parecia ser
um importante atalho
para a imortalidade revelou-se,
entre rebuçados e limonada,
apenas mais um degrau para a morte.

Pouco mais nos ligava
que um mero apego afectivo.
Talvez porque tal não nos bastasse
perante a evidência da fugacidade,
resolvemos unir-nos pela carne.

Desde então, somos um só corpo
que jamais trocará um copo de limonada
e um pacote de rebuçados
por uma qualquer forma de imortalidade.

  Henrique Manuel Bento Fialho in " A Dança das Feridas", Edição do Autor, s/c., 2011, p 40.
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