19/08/11

Acerca de... ( VI )

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Estava fora do país quando o Victor, de quem tenho a honra e o privilégio
de ser amigo, me pediu para fazer a apresentação de "Regresso", tendo-me
enviado por e-mail os poemas e a eles juntado umas simpáticas linhas nas
quais indicava ser de sua vontade que eu estivesse hoje aqui a falar sobre
o referido livro.
Nem queria acreditar! Pensei que se tratasse de um engano.
O que levaria um poeta com a qualidade e o vigor do Victor a pedir-me que
falasse da sua poesia e dos seus poemas?
Geralmente a tarefa de apresentação de obras poéticas é indicada a quem
sabe e estuda poesia e não a quem vive e ama a poesia, aludindo-a como
livre e longe, epítetos capazes de compreender a existência humana:
Longe na distância que separa o poeta dos outros, de uma sociedade que
ajuda a construir, mas da qual se afasta por amor e, muitas vezes, por lágrimas;
Livre, porque há no poeta a certeza de tocar as consciências futuras, cons-
truir sedosos caminhos sem barreiras, permanecendo quieto, devolvendo o
movimento à ignorada beleza das palavras.
Aceitei o desafio! Aqui estou, agradecendo ao Victor este convite, felicitan-
do-o pelos poemas e a todos pedindo desculpa e compreensão para as
fracas e poucas palavras que posso e sei dizer sobre "Regresso".

A poesia, não é recordação, é uma presença feminina importante, o contrá-
rio do poeta, por isso ele próprio - o lado mais visível da saudade!
Com a poesia - e através do poema - aprende-se a Humanidade, o desejo
e a sua lei, a entrega, o abandono, o convívio com o abraço que nos não
quer, mas ao qual desejamos sempre regressar... Aprende-se a ser devol-
vido, constantemente, ao amor da infância, à posse dos lábios detidos na
memória e no medo. A vida passa a ser feita de ilusões, de actuais e an-
tigos sentimentos, de uma troca amorosa constante, de rios doces e ocea-
nos salgados, de permanecermos e de partirmos... sempre.
REGRESSEI a Lisboa, contactei o Victor que me confirmou a vontade
verdadeira que fosse eu a falar do seu livro de poemas. Infelizmente tive
de o ler em folhas de papel, soltas... o livro físico ainda não existia!
REGRESSO - esta é a primeira pessoa do Presente do Indicativo de ver-
bo "regressar"? Ou não será antes um substantivo? Encontraremos, neste
livro, substâncias psicológicas ou momentos de uma dada acção? Deixo
aqui estas interrogações como base de possíveis linhas de leitura!

A competência da poeticidade de "Regresso" declara o reflexo intelectual
na vivência dos dias. Os poemas afirmam-se num corpo, no mundo rece-
bido através dos sentidos.
A poesia de Victor Oliveira Mateus ensina-nos o poema como semente
aquecida no coração da memória, resgatada pela alma, oferecida e alimen-
tada pelo corpo. Comovem-me as palavras, as letras, a ética do poema
e o que me traz aqui também são as imagens de Turim, que tenho gravadas
na memória e que neste conjunto de poemas redescobri: no leito do rio Pó,
na Praça San Carlo, na Diagonal que corta a cidade ou na via Roma... Em
tempos vivi em Turim, onde leccionei, agora regressei-lhe pela voz de um
sujeito poético habitado pela cidade, pelos destinos de sombras imacula-
das, de noites perpétuas e artificiais, de paisagens inabitadas, de lugares
vazios de lembrança, de caminhos frios e ininteligíveis, de espaços de aban-
donos prometidos, de largos, praças esquecidas, palácios-museus, de es-
pectros estranhos, de uma lívida imagem presente, de mosteiros e conven-
tos, abadias de morrer, de silêncios no silêncio, de braços imateriais...
A memória persegue o sujeito do poema, nela, este procura a unicidade
na extravagância das diferenças, da mesma forma que essa Itália unida
e transformada em nação por Vitorio Emanuel e Garibaldi, se mantém
diversa nas suas culturas, línguas, modos de ser... O indivíduo busca a sua
singularidade, deparando-se com a multiplicidade, deparando-se com
esse ser muitos a regressar ao mesmo! Nesta condição, poema, poesia
e poeta transportam, nas mesmas águas, um não sei quê de estar ali
não estando, sendo o oposto também verdadeiro. Assim, creio que existe,
em "Regresso", um persistente fio condutor que é, afinal, a grande preocu-
pação do autor, latente em toda a obra - a questão da busca total do sen-
tido da Vida, e isto com uma visão intensamente envolvente, porque cor-
poral, espiritual e mental.
Regressar não é voltar a um local, nem mesmo a um estado de alma, ou
revisitar sensações (o sujeito da enunciação dá-se conta da completa im-
possibilidade de regresso a um tempo pretérito!), regressar é tornar futuro
o já passado, tentando que este se espelhe no presente! Regressar é o
movimento que tenta contrariar a insofismável verdade da inexistência do
tempo; esta tentativa de demonstrar a inexistência do tempo, que a língua
teima em marcar... : faz-nos voltar de novo onde o pretérito já foi e será
(também) futuro! O regresso é também um movimento filosófico cheio de
novidade, curiosidade, mobilidade psicológica - Vida! De tanto regressar-
mos construímos a nossa própria história, a consciência, a saudade. Assim,
se constantemente soubermos regressar, adiamos a morte! Pois voltarmos
aos braços, e lábios, de um amante pode ser a prova que vamos tentando
fixar na memória o futuro de um corpo desnudo que, com o tempo, se des-
vaneceu, e que agora se nos dá transformado numa realidade não tangível.
Um dia, a escritora Isabel da Nóbrega ensinou-me como avaliar uma obra
poética, dizendo: "se no final da leitura, por um impulso inexplicável, te pu-
seres em pé, então estás em face de um bom livro, de uma esplêndida obra
literária!" É por isso que, de pé, aplaudo o "regresso" de Victor Oliveira
Mateus a mais um livro de poemas.
Muito obrigado!

 Henrique Levy, texto de apresentação do livro "Regresso", Lisboa, 27 de Novembro de 2010.
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18/08/11

Acerca de ... ( V )

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Começo por felicitar a Editorial Labirinto pela iniciativa de publicar
este belo livro de poesia da autoria do poeta Victor Oliveira Mateus
trazendo até nós, deste modo, o irresistível canto de sereia de Angélica
Ionatos, consubstanciado nas palavras inspiradas do poeta.

Nesta obra damo-nos conta da feliz união da voz da cantora grega com
a palavra mágica do poeta Victor Oliveira Mateus, que parte em deman-
da da ilha encantada de Citera onde, supostamente, a dourada Afrodite
o aguardará com os seus mistérios. A voz é aqui a criatura e a escrita,
o mineral de que se faz o sonho e o pensamento. O poder e o estatuto
da voz é também propriedade do poeta, que sujeita o seu texto ao po-
der dessa mesma voz, o local de partida é incerto, mas o de chegada é
a outra margem do mar, é Citera; a intenção é clara: " um roteiro reve-
lando novos mares, outros países para que neles possa partir e não mais
voltar". É, portanto, uma viagem sem regresso.

O tema da viagem, do périplo e da ilha, glosado por poetas da grandeza
de Yeats e Cavafy, adquire na obra de Victor Oliveira Mateus contornos
que remetem para os níveis mais profundos do significado: a margem da
distância, do sono, do crepúsculo e da morte. Tal como nos antigos
immrama celtas, o poeta demanda uma ilha misteriosa e secreta, e rea-
liza, no seu périplo, um intenso percurso interior. O poeta sabe que esse
local procurado se encontra " para lá do vazio e da felicidade imitada",
mas quando arriba a Citera escreve: "finalmente alcançada com o teu
braço sobre os meus ombros" e, explodindo depois num delírio de sen-
timento: é em ti que me renovo, Citera.

Tal como acontece na viagem de Cavafy para Ítaca, Victor Oliveira Ma-
teus busca e encontra na sua ilha vivências e saberes. Sente o corpo e o
espírito permanentemente tomados por uma excitação rara, que contagia
quem lê a sua poesia. Chegar a Citera é um destino último. Sem Citera
nunca teria partido em busca dos segredos da vida e da morte. Compreen-
der o verdadeiro sentido de Citera é meta final da obra. A viagem é lon-
ga, aventurosa, cheia de perigos e enganos. Mas se monstros encontra-
mos é porque em nossa alma os transportamos. Serão essas "as ilhas
humanas" a que o poeta faz alusão?

Chegados a este ponto já estamos a caminho, e em peregrinação para
um não-lugar. Com o poeta vamos "esquecer o que a realidade foi e assim
construir o que ninguém alcançou". Mais adiante confessa-nos: " do que
mais gosto é do que nelas não há".

O poeta transmutou-se em veículo de Amor e de Poesia, ainda que sem-
pre sob o temor " de que possas não vir", porque ele sabe, ele já conhece
"o amor vivido e o amor buscado de que ele é cópia "; Platão também acre-
ditava que o verdadeiro Amor é afinal o amor à Sabedoria, sendo o desejo
cego um mero impulso, na infinda avidez de ser o outro.
A poesia de Victor Oliveira Mateus é portanto, ela mesma, uma irresistível
voz, prenhe de significados, até à eternização final de tudo o que fica: a obra
poética, na particular paisagem pessoal do poeta, em todas as suas modula-
ções e excentricidades ocasionais.

  Maria Lucília Meleiro, texto de apresentação do livro
" A Irresistível Voz de Ionatos", Lisboa, 31 de Março de 2009.
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17/08/11

José Agostinho Baptista dito por...


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" Poema 29" do livro "Jeremias o Louco" de José Agostinho Baptista.
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Acerca de ... ( IV )

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Há um lugar principal na poesia de A Irresistível Voz de Ionatos, de
Victor Oliveira Mateus: o do amor, ou seja, o da "(...) terra finalmente
alcançada com o teu/ braço sobre os meus ombros." O do amor sobre-
tudo como sujeito da procura interior, viagem em cada poema renova-
da num "(...) percurso onde sempre me busco/ e busco do ser sua ní-
tida fonte."
Ao centrarem-se na ilha de Cítera, as imagens poéticas incorporam
com delicadeza a representação do alegórico, do mítico e o que neste
existe de onírico e de dimensão filosófica mas empreendem, também,
luminosas aproximações ao concreto: à inquietude, às perdas, ao de-
sejo.
A celebração do amor e seus paradoxos, Victor Oliveira Mateus fá-la
de verso para verso intensificando a dramaticidade do eu entre "essa
infinda avidez de ser o outro" e o despojamento perante " a morte pres-
sentida", em Lefteris cativo "(...) ante a imensidão do mar e o esmore-
cer do sol ", suspenso da "irresistível" voz de Angelique Ionatos. A ten-
são lírica é, no entanto, sempre vigiada, nada de excessos. Exemplo
disso, o poema 22, um dos mais belos do livro: " Nunca te pedi que
ficasses. Nem que uma qualquer/ dádiva fingisses na irremediável
mobilidade dos afectos. "
Conjugando "a beleza clássica e moderna", conforme diz Olga Savary
na contracapa, A Irresistível Voz de Ionatos reforça uma estética do
sensível, um "estilo fluido", sublinhado por Cláudio Neves no posfácio.
Trata-se de uma escrita na qual as palavras são a mágica tranquilidade
( sábia viagem) com que o poeta tem vindo a trabalhar a consciência
do texto.
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  Maria Augusta Silva in " NS - notícias, sábado 176"
suplemento do "Diário de Notícias" de 23 a 29 de Maio de 2009.
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Acerca de ... ( III )

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Como um espia ou um detetive de afetos, abandonando-se num
tufo de metáforas, eis a periculosidade do poeta, especialmente
do poeta português Victor Oliveira Mateus. Nas asas da poesia,
Victor solta os pássaros e canta - e voa. De tudo se ocupa sua
poiesis: da pátria, sua terra e chão, o de hoje e o primitivo, do azul
do Tejo e outros azuis, mas fundamental são as pulsações da vida
e da morte, da memória, da infância (já não dizia Baudelaire que
poesia é a infância reencontrada?). Poesia deve ter carne, suor,
sangue, agonia e perplexidade, reflexão e prazer. Em seu novo
livro, Victor nos dá tudo isso, na medida certa. Aqui nada é ex-
cesso. Tudo é sóbrio, porém transborda emoção. Na batalhas
das raízes, buscando-se e buscando-nos nos abismos, esta mis-
teriosa poesia, rubro dragão a rutilar na escuridão, é toda luz, in-
trépido fulgor. Como tantos outros esplêndidos poetas portugue-
ses, Victor Oliveira Mateus atua em nós, seus leitores, com a
beleza clássica e moderna de sua lúcida poesia.
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   Olga Savary In contracapa de "A Irresistível Voz de Ionatos", Edª Labirinto, Fafe, 2009.
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15/08/11

Um pequeno contributo para...

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" IMAGENS DA SEXUALIDADE NA OBRA DE FERZAN OZPETEK"
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( A problemática da orientação sexual na filmografia do século XX)
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Um primeiro olhar sobre a obra de Ozpetek remete-nos de imediato para uma das pedras-de-toque da nossa cultura: a relação dos fenómenos com a linguagem e o consequente processo de universalização que desemboca na clarificação dos conceitos. Esboçada já na Antiguidade - lembremo-nos das críticas dos Cínicos ao Platonismo -, a questão dos Universais dá o seu primeiro grande passo na Idade Média - é Roscelino, século XI, quem peremptoriamente afirma: as ideias abstractas não passam de flatus vocis (sopro de voz): instaurando-se assim definitivamente o Nominalismo que Guilherme de Occam, no século XIV, viria a desenvolver e a aprofundar. Sem nos determos na relação que Occam estabelece entre o conhecimento intuitivo e a experiência, digamos tão-só que é baseando-se nesta última que este filósofo afirma a individualidade do real enquanto tal, criticando assim com acerbidade todas as teorias que concedem ao universal um qualquer grau de realidade (cf. In Sent I, d. 2, q. 7 S). Para o que nos interessa neste artigo acrescentemos que Occam não nega a realidade do conceito, mas vê-o apenas como algo mental, tendo, por conseguinte, uma consistência exclusivamente subjectiva, determinada e... singular, com uma função puramente significante; o conceito é um signo das coisas, algo que está em lugar delas e é deste modo que o usamos nos juízos e nos raciocínios. À luz destas posições ( e sem desenvolvermos como muitas destas teses nominalistas irão depois reaparecer em Russell e Wittgenstein) percebemos como, apesar do termo sexualidade do nosso título, se possa dizer que na obra de Ozpetek - e, aliás, na linha do que muitos sexólogos vêm actualmente defendendo - não existe um padrão unívoco da heterossexualidade, mas sim heterossexualidades, nem tão-pouco um arquétipo da homossexualidade, mas antes homossexualidades. Uma posição deste tipo não nega as derivações interpretativas centradas no primado do genótipo e/ou do hipotálamo, antes as integra, mas recusa-se a ver o comportamento sexual dos humanos determinado exclusivamente por uma orientação originária, mecanicista e inamovível.
A tendência para abrir o leque, ao nível da observação e da análise, dos vários comportamentos humanos de tipo sexual - desembocando muitas vezes no âmbito da bissexualidade - aparece, de forma nítida, mas ainda num pequeno número de filmes da cinematografia europeia da segunda metade do século XX, são disso exemplos três dos maiores realizadores desse período: Pasolini com o seu Teorema (1968), Fellini com a sua adaptação do Satyricon de Petrónio (1969), Visconti adaptando também a novela de Mann, Morte em Veneza (1971), e, no seu penúltimo filme, Violência e Paixão (1974), entregando a Burt Lancaster o papel do velho professor que, retirado e rodeado de livros e obras de arte, se vê subitamente envolvido com um grupo de novos vizinhos, vindo a desenvolver um relacionamento ambíguo com um deles. É evidente que a função primordial de qualquer destes filmes não é aquela que aqui estamos a referir - por exemplo, em Teorema e em Violência e Paixão o objectivo é antes a desmontagem de alguns valores intrínsecos à burguesia bem comportada, bem como a algumas instituições nomeadamente a família. Aliás, e como mero parêntesis, digamos que é nesta preocupação de dissecar o quotidiano dos bem comportados que entroncam também alguns filmes já do século XXI, como por exemplo o Tudo pode dar certo de Woody Allen (2009), onde o pai de Melodie corre para Nova Iorque na busca da mulher e da filha e acaba envolvido com alguém que não é filha nem sequer mulher, ou ainda o radical Transamerica onde a actriz Felicity Huffman é soberba na interpretação daquela transexual a quem a sua compreensiva psiquiatra não concede a autorização final para a mudança de sexo, enquanto este ele  não disser toda a verdade ao filho (Kevin Zegers) que havia feito a uma colega de faculdade e que a vida acabara de colocar no seu caminho. Parecendo ser apenas um filme sobre a mudança de género, Transamérica (2006) é também uma grande aula de psicanálise, sobretudo se nos pusermos a dissecar a relação das agora duas irmãs com a mãe. Mas, e recuando às duas últimas décadas do século XX, a História do Cinema conheceu um verdadeiro boom com autênticos estudos de caso que irão entrecruzar: orientação sexual/ valores dominantes e contingência, e esse boom invadirá quer o drama quer a comédia; relativamente a esta última não nos podemos esquecer da lésbica de Belle Époque (filme de Fernando Trueba, 1992), exemplarmente interpretada por Ariadna Gil, que, a certa altura, se sente atraída pela personagem de Jorge Sanz, sobretudo quando o descobre fantasiado de criada. É fazendo rir que Trueba demonstra que a imaginação e a fantasia desorientam o que até então era tido como A orientação sexual, assim como altera um percurso que se julgava de pendor fiixista e fá-lo através de outras variáveis ligadas à aprendizagem e ao social. Até a violência, sobretudo a física, pode desencadear essas mudanças comportamentais, essa desorientação da orientação, como na cena de pugilato no Oito mulheres, de Ozon, quando Catherine Deneuve e Fanny Ardant se amarfanham pelo chão de uma enorme sala. A prostituição masculina, que Andy Warhol já tinha exibido na sua célebre trilogia ( Flesh, Trash e Heat), mas de que se fala hoje muito mais do que há algumas décadas, traz para a luz do dia outro tipo de variáveis ligadas agora ao socio-económico, ao estatutário e ao desejo do novo e do fantasiado; todavia, se um acompanhante heterossexual se pode colocar ao serviço de mulheres, como Josiane Balasko muito bem retratou no seu filme Cliente com uma esplendorosa interpretação de Nathalie Baye (não nos esqueçamos do papel de lésbica que Balasko tão bem levara a cabo no filme Gazon Maudit , chegando ao ponto de seduzir a heterossexualíssima personagem desempenhada por Victoria Abril, que, na película, acabará dividida entre o marido e a inesperada amante), o que é um facto é que esse mesmo indivíduo poderá também colocar a sua orientação sexual à disposição de homens (cf. devassos no paraíso de João Silvério Trevisan, sobretudo as páginas 410-414, onde se referem entrevistas de alguns desses acompanhantes casados e que contam com o apoio das próprias mulheres, ávidas de um qualquer suplemento remuneratório que lhes suavize o quotidiano, aliás, esta derivação de tipo económico é também enfatizada no filme realizado por Balasko; todavia este território está ainda pouco estudado, principalmente na parte que leva a que esses indivíduos, muitas vezes, se apaixonem pelas suas (ou pelos seus) clientes e, fenómeno igualmente já constatado neste meio, que leva ao estabelecimento de um elo preferencial de tipo afectivo-sexual entre dois elementos dessa mesma profissão). Seja de que maneira for parece-nos que algum do cinema feito nas últimas décadas, bem como muito do ensaísmo e da investigação científica parece apontar para a ideia de que a orientação sexual não é coisa de enjaular em espartilho de laboratório ou de compêndio, nem de funcionar, ao modo de uma qualquer implicação lógica, como tabela de branco e preto.
Herdeira de toda esta tradição, a obra cinematográfica de Ferzan Ozpetek chama-nos a atenção para o papel que o quotidiano e o adquirido têm sobre o desejo que sentimos pelo outro, pela outra ou por ambos. Oiçamos a filósofa Martha C. Nussbaum: " Desire, in short, is in good part "in the head". Here, of course, is where culture and cultural variation play a major role. Society shapes a great deal, if not all, of what is found erotically desirable and social forms are themselves eroticized. We see this quickly in the tremendous variety of what is found erotically appealling in differente societies and, of course, by different individuals in different societies: different attributes of bodily shape, of demeanor and gesture, of clothing, of sexual behavior itself. Social constructions of an attractive sexual object vary enormously, and with these, the social meaning of sexual arousal and interation themselves. " ( In Sex, preference, and family - essays on law and natures, p 26). Mas a sociedade e a cultura não modelam somente o desejo e o objecto deste, elas actuam do mesmo modo relativamente a outros sentimentos e emoções decorrentes da concretização, ou não, desse mesmo desejo, nomeadamente a vergonha e a culpa, como bem defende Jesús Ferrero: " La verguenza y la culpa son las pasiones más determinadas por la cultura en la que vive el sujeto que las padece y por sus normas sociales y morales.
Básicamente se podria decir que sentimos verguenza y culpa cuando nos descubren haciendo algo prohibido, o cuando descubrem que lo hemos hecho. La violencia que proyecta la mirada de los otros ante nuestro delito penetra en nosotros como la púa de una cerbatana, y nos odiamos a nosotros mismos y quisiéramos desaparecer bajo tierra: enterrarnos. Pero solo sentimos culpa como un efecto de la mirada acusadora de los otros? Desde luego que no. Todos llevamos una conciencia llena de normas morales. La mirada interior puede proyectar-se sobre nuestros actos con más severidade y más rigor que la mirada de los otros." ( In Las experiencias del deseo, Eros y misos, p 133). É impossível lermos este texto de Ferrero sem nos lembrarmos de um capítulo de "L'étre et le néant" de Sartre - "Le regard", e, por outro, sem concluirmos que se o olhar do outro nos rotula, no torna en-soi como diria o filósofo francês, de um modo directo, também é verdade que a minha auto-imagem é mediatizada por esse mesmo olhar que me é alheio. Assim, a sociedade e a cultura em que me encontro inserido tendem a orientar-me o desejo, o objecto que esse desejo visa e ao périplo de paixões e emoções inerentes a todo o processo, encontrando-me assim eu no seio de uma aporia fundamental: a minha orientação sexual, que, por sua vez, subjaz às minhas atitudes e aos meus comportamentos também de tipo sexual, é ela própria - apesar da inscrição genética - orientada por condicionantes que lhe são externas.
Como corolário das posições defendidas poder-se-á dizer que elas desembocam necessariamente na forma como os parceiros sexuais se procuram uns aos outros e entre si estabelecem todo um universo convivencial. Hoje, na nossa sociedade, os modelos vigentes, e os únicos legalmente aceites, são a monogamia heterossexual e a monogamia homossexual, contudo, uma observação minuciosa do reino animal, concretamente no caso dos mamíferos, poder-nos-á elucidar se essas formas convivência derivam de potencialidades inscritas no património genético, ou se, pelo contrário, ela nos mostra outras evidências onde, uma vez mais, uma orientação exterior (ética, moral, religiosa, jurídica...) ao que somos nos tende a orientar noutros sentidos. Acerca disso atentemos às investigações de David P. Barah e Judith Eve Lipton: "Quando se trata de mamíferos, sabe-se há muito tempo que a monogamia é uma raridade. De 4 mil espécies de mamíferos, não mais do que algumas dezenas formam ligações de par confiáveis, embora em muitos casos seja difícil caracterizá-los com certeza porque a vida social e sexual dos mamíferos tende a ser mais furtiva do que a das aves." ( In O mito da monogamia, Fidelidade e Infidelidade entre pessoas e animais, p 26).
Eis-nos, então, chegados a um ponto crucial desta proposta de leitura da obra cinematográfica de Ferzan Ozpetek: os factores genéticos e biológicos não são condicionantes exclusivos, nem prioritários, da orientação sexual (e seria interessante até discutir a pouca cientificidade deste último conceito, adoptado pela comunidade científica para substituir a balbúrdia teórica que o antecedeu: preferência sexual, opção sexual e outras enormidades deste estilo!) nem do modo como os comportamentos sexuais ocorrem; as diferenças - a vários níveis - dentro da heterossexualidade e da homossexualidade são abissais; os modelos de convivência e/ou de acasalamento monogâmicos podem funcionar para alguns seres humanos, mas as "ligações verdadeiramente confiáveis" são raras: os sentimentos, as emoções, os fracassos e os sucessos de uma vida afectivo-sexual podem ser gravados em nós, mais pelo olhar do outro do que por aquilo que, nos nossos momentos de solidão e de autoquestionamento, apreendemos no mais fundo de nós. E, como cúpula desta visão, a subtil mecânica do jogo: umas vezes alienante e turbilhonar, como no caso dos gays loucos de Mine Vagante; outras, lúcido e desgastante como na avó da mesma película.
Sabemos, todavia, que algumas tendências dentro da psicologia e da psiquiatria têm vindo a substituit o conceito de orientação pelo de identidade sexual, parecendo-nos até com a finalidade de salvaguardar o território da imutabilidade e do genético. Tais posições, varrem assim de cena a bissexualidade, eliminam  de imediato do ser e do idêntico toda a veleidade de um qualquer ir-sendo e, por fim, ver-se-ão na necessidade de defender que essa identidade do ser humano foi o que, nalguns casos, nunca apareceu, tendo assim o eu vivido aquilo que não era em-si, enquanto que a sua verdadeira identidade sexual (?) acabou por nunca despertar, isto é, segundo esta linha teórica é perfeitamente possível, o indivíduo, ao nível sexual, ir sendo aquilo que não é, enquanto que o que ele é verdadeiramente continuará não sendo até ao fim. Esta posição que reduz orientação e comportamento sexuais ao quadriculado de um qualquer balancete genético não é a adoptada por Ferzan Ozpetek, daí a atracção de Michele Mariani por Antónia em Le Fate Ignoranti e, em Mine Vaganti, Tomaso (Ricardo Scamarcio), apesar da relação fortemente apaixonada que vive com Marco, não consegue esconder o fascínio que sente frente a Alba (Nicole Grimaudo). Dito de outro modo: nos filmes de Ozpetek muitos são os casos contemplados pela objectiva do realizador, mas no seu todo predominam as influências do quotiano, da aprendizagem entre grupos, dos esquemas de género sexual aberto e do jogo; jogo esse que, nesta obra, jamais tem uma função oportunista ou de destruição do outro, antes se identifica com o cativar de Exupéry e com o platónico desejo de complementaridade: busco no outro aquilo que me falta, para que ele colha em mim o que lhe aprouver e achar por bem.
Partamos, então, desse conceito de jogo. No início de Le Fate Ignoranti (2001) Ferzan Ozpetek mostra-nos uma mulher vendo uma exposição. Ela está frente a um busto de Antínoo. Um homem aproxima-se e tenta seduzi-la, critica aquele que a deixou ali sozinha, já que menosprezou a sua beleza. Pela indimentária, pelo discurso e pelo ritual de sedução o espectador percebe que está frente a um par da burguesia média-alta. A perseverança do homem não cessa. Ela continua sorrindo. E é só quando ele a abraça pela cintura que nós percebemos que aquela etapa do jogo terminou - estamos frente a marido e mulher; e mais: estamos frente a dois seres cúmplices e que conseguem partilhar coisas importantes. Antónia, a mulher, é médica, e dias depois, quando sentenciava um dos seus doentes de uma situação de seropositividade, recebe o fatídico telefonema comunicando o atropelamento, e morte, desse tal homem com quem vivera em harmonia perfeita. A partir daqui a acção adquire um outro ritmo: Antónia (Margherita Buy), mexendo nas coisas do marido, encontra um quadro que tem uma dedicatória por trás: " A Massimo, pelos sete anos passados juntos. Pela parte de ti que me falta e que eu jamais terei. Por todos os momentos em que me disseste "não posso" e por todos os outros em que me disseste "voltarei". Poderei chamar à minha paciência amor? Mariani." Toda a consistência do universo de Antónia se estatela nessa casa onde ela vivera, a dois, aquilo que não entendia já. Procurando Mariani, a outra, Antónia vai ter a um apartamento onde coabitam os mais diversificados tipos de pessoas: uma gentil e doce cinquentona que vive com um negro, uma transexual, uma empregada de um super que nunca acerta nos namorados, um casal de homessexuais masculinos... Mas Antónia insiste. Quer conhecer a Sra. Mariani. Volta e volta àquele apartamento e... acaba encontrando um rapaz: Michele Mariani (Stefano Accorsi). A relação que se vai estabelecendo entre Antónia e Michele não cabe nos canhenhos dos inventariadores de orientações  sexuais que se baseiam apenas no genético para determinação destas, contudo - algo obsessivamente - ela tenta saber se o marido ainda tivera mais alguém: "nem homem, nem mulher - diz-lhe Michele-  Ele só nos teve a nós dois." E assim ficam presos um ao outro pela perda, pela memória, pela poesia de Hikmet e talvez por algo mais, como se percebe no final do filme, pois, se havia entre eles a crença de que sempre que se partia um copo era alguém que também partia, após a tentativa de fuga de Antónia, Michele atira um copo ao chão, mas... este não se parte.
Em 2003, com La finestra di fronte, Ferzan Ozpetek parece-nos querer homenagear Hitchcock pela semelhança adoptada com um título de 1954 deste último realizador: também aqui a janela indiscreta é o elemento primeiro e coadjuvante de todos os mistérios que se irão tecendo. Ozpetek constrói uma narrativa entrecruzada: a) uma acção passada em Roma, nos inícios dos anos 40, quando nazis e colaboracionistas decidem caçar os judeus da cidade; b) uma outra, que se desenrola com um casal da pequena burguesia vivendo pacatamente com os seus empregos, os seus filhos, as suas domésticas desavenças e aspirações. Todavia, e mais uma vez, o meio vem jogar aqui a sua cartada quando a mulher começa a espiar o vizinho da janela em frente, é então que se percebe que a linearidade das vidas ritualizadas tem muito mais no seu fundo do que à primeira vista se julgava ver, até porque o observado já vinha sendo também observador. Os dois níveis da narração acabam confluindo a partir de certa altura: o jovem que, em 1943, tivera de matar o patrão delator, que o mantinha vigiado, para ir a correr salvar todos os outros judeus, é hoje um velho demenciado que vai parar a casa de Giovanna (Giovanna Mezzogiorno) e Filippo (Filippo Nigro) que, por sua vez, tentam entregá-lo à polícia, embora sem sucesso. Lorenzo (Raoul Boya), o vizinho da janela em frente, é também sugado para dentro da estória deste velho cujos passado e presente passam a invadir todas as personagens, descobrindo-se, finalmente, a sua identidade: Davide Veroli (Massimo Girotti), aquele que em 1943 salvara tantos dos que o apontaram e, por essa necessidade de demonstrar a sua dignidade a quem o marginalizara, já não fora a tempo de salvar Simone, o seu amigo e companheiro. Este é um dos filmes de Ozpetek onde as preocupações sociais e políticas são mais vincadas, mas não descurando nunca a abordagem das questões psicológicas, afectivas e relacionais, por vezes até com alguma ironia, como quando uma das colegas de Giovanna a espicaça para uma aventura extraconjugal, dizendo-lhe que o casamento dela, com quinze anos, era quase incesto. É aqui que o golpe de mestre de Ozpetek atinge um dos seus pontos mais altos, cruzando a estória homossexual de Davide e Simone com a estória heterossexual de Giovanna e Lorenzo através de uma cena emblemática: Lorenzo, d' a janela em frente, narra a Giovanna uma crise demencial de Davide a que acabara de assistir: "Amar-te-ei sempre... Temos de nos amar em segredo..." Dissera Davide a Simone e diz também agora Lorenzo, pelo telefone, de janela para janela, a uma giovanna que ele não deixa de fitar e que também o olha entre o êxtase e o pânico, pois sabe que pode ser surpreendida pelo marido a qualquer instante. Esta sobreposição dos planos remete-nos para o início deste artigo: o que é universal (a frustração ante a perda, as concretizações subreptícias, a mágoa de jamais se poder ser em absoluto, etc.) é transversal a todos os seres humanos, assim, é sendo englobante que tem a importância que tem, e que - eventualmente - até poderá ser muita, no entanto, o que dói verdadeiramente é o processo de singularização, é ao nível do concreto, é o modo como cada um vive essas experiências, e aí cada qual é o seu mundo, não dependendo da cor, do credo religioso, do género, da etnia, da orientação sexual ou ideológica. Há inúmeras cenas nos filmes de Ozpetek (ligações inter-raciais, operárias chinesas, domésticas budistas, burguesas caucasianas com amantes ocultos, etc.) que fundamentam esta ideia do primado do particular, território verdadeiramente real e objectivo, espaço a respeitar porque único, irrepetível e não sujeito a permuta.
Com Mine Vaganti (2010) a intriga torna-se muito mais complexa e o tipo de personagens mais diversificado, no entanto, manter-se-á a fluidez narrativa bem como a clareza dos propósitos, o que nos leva a continuar à distância do rocambolesco precipitado de Almodovar, e talvez mais próximos da técnica, da verosimilhança e do bom gosto de realizadores como Téchiné e Chéreau. O palco deste filme é a burguesia industrial e financeira de Lecce com os seus valores, as suas normas morais e, sobretudo, com o seu temor ao olhar do outro. A película circula sempre entre o rigor da análise e a, aparentemente anódina, desmontagem do grotesco. Tudo começa quando Tomaso (Riccardo Scamarcio) diz a António, o irmão, que durante o grande jantar dessa noite irá revelar à família a sua homossexualidade, ali, sem anestesia, percebe-se de imediato que o que está em causa não é bem o problema das orientações sexuais, mas a despótica figura paterna. E isso é confirmado durante a refeição, pois quando Tomaso pretende tomar a palavra, aquele mesmo António decide antecipar-se, e faz ele a confissão da sua sexualidade, afinal tão idêntica à do irmão. Tomaso recua e a violência verbal que se segue desemboca na expulsão de António, pelo pai, do seio familiar. Este jantar, com visitas - Alba e a família -. disseca toda uma panóplia de personalidades, trabalho esse que será continuado durante um outro jantar, já após a vinda de Marco e de alguns amigos de Tomaso. Naquela casa cruzar-se-ão as mais diversificadas formas de cada um vivenciar a sua orientação sexual, por conseguinte, poder-se-á perguntar: o que há de comum entre a heterossexualidade de uma mãe apagada e submissa e a da sua cunhada ávida de experiências e desajustada em relação àquela ordem repressiva? Nada! O que há de comum entre a homossexualidade viril de Tomaso e Marco e as superficiais tontas vindas de Roma? Nada! Ozpetek usa esta família como em Sociologia, ou em Psicologia Social, se usam as amostras, para a verificação de uma qualquer hipótese, e a observação, aqui nitidamente provocada, tem por função dissecar algo dinâmico e multidireccional: os efeitos do processo de normalização. Ozpetek, durante uma entrevista que concedeu, tem mesmo o cuidado de substituir, corrigindo, o conceito de normalidade pelo de normalização.
Quais as plataformas de estabilidade possíveis durante um processo de normalização que é ele acidentado e aberto ao imprevisto? Apenas dois exemplos: uma das loucas de Roma não caça o tio de Tomaso porque a mulher deste está sempre atenta; Tomaso não investe mais em Alba porque a sua relação com Marco funciona plenamente, contudo aqui mantém-se sempre uma certa ambiguidade, ilustrada pela cena da praia quando Marco e Alba cabriolam na rebentação das ondas, e Tomaso, do alto da duna, olha ambos como ar de um homem que tem ante si tudo e nada mais pode desejar, aliás, o ele decidir juntar-se às brincadeiras dos dois tem uma simbologia bastante clara.
É evidente que Salvatore, o tio de Tomaso, se mantém com a mulher; é evidente que Alba não destrona Marco, mas o que aparece claro no cinema de Ferzan Ozpetek é que são várias as formas de cada um vivenciar a sua orientação sexual e não parece que os mecanismos de índole genética sejam os únicos responsáveis pela orientação da orientação, ou da identidade sexual se se preferir este caminho. Claude Aron, na sua função de académico mas também de fisiologista da reprodução, fala assim das experiências de Hammer com gémeos homossexuais: "(...) mais Hammer reconnut lui-même que d'autres facteurs sont nécessairement impliqués dans le déterminisme de l'homosexualité puisque certains sujets expriment cette orientation sexuelle en l'absence du gene qui d'autres en serait responsable. Ce gene restera d'ailleurs hypothétique jusqu'à ce qu'il soit cloné et donc identifié; et surtout retrouvé dans d'autres enquêtes familiales. Je conçois mal les mécanismes d'action d'un gene de l'homosexualité. S' éxprime-t-il dans l' INAH3? Qu'elle vision simplificatrice à l'égard de la complexitè des mécanismes de la bisexualité chez l'animal! Je raisonne en physiologiste et non pas en psychanalyste. Pourtant je me refuse à un reductionisme biologique qui ferait une part moins belle chez l'Homme que chez l'animal aux facteurs de l'environnement dans les conduites sexueles." ( In La bisexualité et l'ordre de la natures, pp 271-272. Ao longo de toda esta obra Aron chama a atenção para inúmeros factores bio-fisiológicos que estão na base da orientação sexual, ironizando mesmo - nas páginas 281/2 sobre o gene da heterossexualidade - e na página 282 é irredutível: "Le concept de bisexualité de la gonade a été le fruit de longues et patientes recherches embryologiques. Celui de bisexualité comportamentale a des racines mythologiques." Numa perspectiva sociológica é importante também a leitura de "Dupla Atracção" de Martin S. Weinberg, Colin J. Williams e Douglas W. Pryor, sobretudo, na edição portuguesa, das páginas 183-186. Se se pretender - nesta tentativa de se recusar a exclusividade do genético na determinação mecânica da orientação sexual - encetar uma abordagem a partir da História, são importantes as obras de autores como John Boswell e William Naphy. Pesquisar também, na net, o artigo "Heteroinquisidores" de Debora Diniz - antropóloga, investigadora e professora na Universidade de Brasília -, é um texto muito interessante sobre a interdição do corpo do pai ao filho - fenómeno que não acontece na relação mãe/filha - e que orientará o modo como a maioria dos homens passará a ver/sentir o corpo dos outros homens, aqui seria importante comparar depois o modo como o afável Lorenzo de La finestra di fronte abraça/acolhe o velho Davide e como, por oposição, em Mine Vaganti, o tirânico pai se refere ao corpo masculino, sobretudo no monólogo da confeitaria).
Á tese de Tomás de Aquino, depois retomada por certos movimentos estéticos nomeadamente o neorrealismo, de que a arte tinha por função a imitação da natureza - no segundo caso da natureza humanizada na sua vertente social, económica e política - acrescentou-se hoje a noção de que a realidade imita ela o cinema, sendo assim, e um pouco na linha da Claude Aron, cabe-nos a estupefacção de que um comportamento tão complexo como é o sexual, de que uma função tão determinante como é a orientação sexual possam, para alguns, ser submetidos a um processo explicativo afinal tão simples e primário, como aquele que tem sido defendido por certos investigadores mais ligados ao campo da biologia e da genética. Talvez não fosse despiciente um olhar para os trabalhos de outras ciências, para as reflexões de tipo filosófi co e - porque não? - para o que acontece mesmo ao nosso lado, nas ruas e... no cinema.
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  Victor Oliveira Mateus in " Revista TriploV - De Arte, Religiões e Ciências ", Nova Série, 2011, Número 19 - 20.
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Uma das refeições da família Cantone do filme "Mine Vaganti".
"Io non so parlare" é uma das mais belas cenas desta película: Tommaso
explica a sua necessidade da literatura... Repare-se na questão da direcção
de actores, sobretudo o ar agressivo do pai contrapondo-se à serenidade
(e cumplicidade) da avó.
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O célebre monólogo de Tommaso de "Mine Vaganti".
Tommaso (Riccardo Scamarcio) conta a Alba (Nicole Grimaudo)
tudo o que acontece em si quando observa Marco.
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14/08/11

" Poderemos, meus senhores, estar a cometer um estranho erro... "

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Súbito, ia em maio o ano seiscentos, começaram de soprar outros ventos. Frei Estêvão, acompanhado do cónego Rodrigues da Costa, chegava a Veneza. Era ver-lhe nos olhos a alegria ao mostrar aos companheiros a lista dos sinais:
- ... com a firma de todos os declarantes e autenticada pelo notário Tomé da Cruz.
Liam-na, reliam-na, já ela citavam de memória partes. Correm à Senhoria, para procederem ao reconheciemento do preso. O juiz Marco Quirini é porta que se não pode transpor e o eco das preocupações e receios do doge.
- Quê! - irritava-se Frei Estêvão. - Para me entreterdes, madaste a Portugal buscar os sinais do corpo de el-rei. sem mo terdes deixado ver...
- É que vós, os Portugueses, para vos libertardes dos Castelhanos, não hesitaríeis em dizer de um negro que seria o rei Dom Sebastião - respondia o juiz rindo.
-Não riais, senhor, que isto é negócio muito sério...
- Desculpai. Não vos queria ofender.
- Agora que trouxe o rol dos sinais, confirmados por instrumentos autênticos de um notário apostólico, e vos peço me permitais ver Sua Alteza, negais-mo?
- A Senhoria...
- Asseguro-vos que honestamente vos demonstrarei a verdade ou a falsidade. Não quereis também vós conhecer uma ou outra?
- Temos tido sobre isso muitas disputas no senado e...
- Tomai - disse Frei Estêvão estendendo um papel ao juiz.
- Que é?
- Tendes aqui a cópia da lista dos sinais de el-rei. Faço tanto empenho como vós em verificar se a pessoa aqui detida é el-rei ou não (...).
- A Senhoria é de parecer que não é conveniente saber se o preso é o rei ou não, sem primeiro ser solicitado por príncipes e reis.
Frei Estêvão retirava-se desolado:
- O doge receia indispor-se com Filipe terceiro, não é?
Marco Quirini encolhia os ombros:
- Quereis príncipes e reis? - voltava-se para trás o frade, já de saída. - Pois tereis príncipes e reis. (...) Isabel de Inglaterra não nos há-de negar valimento e Henrique quarto, que tem sido informado do que se passa por seu embaixador, mostra-se interessado no caso. Concitarei os bons ofícios de príncipe Maurício de Nassau...
(...) Marco Quirini, como o papel na mão, absorto. Depois, caminhou até à porta e, atrás do reposteiro, puxou o laço da campainha. Um mordomo apareceu.
- Os senhores juízes que se reunam comigo.
Vieram os juízes. Deu-lhes conta do rol dos sinais deixado por Frei Estêvão.
- Poderemos, meus senhores, estar a cometer um estranho erro, por minha fé. Julgo prudente verificarmos nós os quatro se estes sinais conferem com o prisioneiro.
- E se conferirem?
- Que Deus nos perdoe! Teremos de expor imediatamente o assunto ao sereníssimo doge.
Caminharam então até à cela onde se encontrava o prisioneiro e, cerrada a porta, ordenaram ao carcereiro que o despisse...

  Fernando Campos in " A Ponte dos Suspiros ", Difel, Algés, 2000, pp 116 - 119.
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" São como revelações/ são textos prometidos/ com a marca da renovação "


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  " O gato e a casa"

Nas casas onde morou gente
há sempre um gato abandonado
de cabeça forte e um corpo lento
espalhado pela desolação do lugar

Mantém a temperatura na cozinha
arranha as paredes e os seus pensamentos
são habitantes subalternos dos quartos
e das horas de sol à volta do jardim

Mas as casas debaixo das árvores
anseiam ainda por outros homens
nos joelhos feridos e nos quartos interiores
homens que as ocupem e lhes levantem a mão
como garfos cheios de uma fome terrível

E que depois perguntem onde estender os braços
até o espaço ganhar a forma de uma família
de uma redoma confusa, com um crucifixo
e uma finalidade latente de procriação

E os gatos assustam-se com as casas transtornadas
e bufam até que chegam os primeiros carros
que ocupam todos os lugares marcados
e fica apenas o espaço fulminante da culpa

Depois morrem longe dessas casas
e das inquietações, de garras recolhidas
Mas quando nascem outra vez
são belos como relâmpagos
e demoram dias a afagar uma ideia

Abrem os olhos sobre crianças
e homens dóceis como alimento
e aparecem quando querem
em muitos lugares ao mesmo tempo

São como revelações
são textos prometidos
com a marca da renovação
e nos olhos a serpente que embala
o corpo do arrependido
e depois dormem
como se fossem criados
numa casa enroscada ao Inverno

  Tiago Patrício in "Cartas de Praga", Clube Português de Artes e Ideias, s/c., 2010, pp 9 - 11.
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12/08/11

" E o rio estropiado de profundidade obscura/ deitado no esquife ainda a tentar escorrer "

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 "Rio Moravé"

Depois da montanha o rio desce das turbinas
começa a entender o ar que respira
e a fugir do sufoco, a libertar um vapor
e a transformar-se na paisagem escura

O rio moribundo cede à inclinação
de vários anos ao relento
reclama árvores nas margens
e fósseis de peixes oxigenados

Os pássaros nos ramos mais afastados
imitam canções de outros pássaros
sobre rios e mensagens esplêndidas
a desaguar numa melopeia occipital

E o rio estropiado de profundidade obscura
deitado no esquife ainda a tentar escorrer
a fingir uma pulsação quando assalta o açude
e a fazer uma espuma azul na rebentação

A destilação do rio é um vapor cáustico
que reaparece como um cadáver espesso de três dias
e imita uma descida como se tivesse nos planos a juventude
de refazer-se nas nuvens e regressar às montanhas

Tiago Patrício in "Cartas de Praga", Clube Português de Artes e Ideias, s/c., 2010, p 57.
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11/08/11

" A salvação é uma ruína temerária, uma praia sem pegadas (...) "


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  "Há uma lâmina reduzindo o mundo"

Neste lugar, para me salvar, basta olhar o céu.
O sono solitário da água queima-me as mãos, adormeço rodeado de árvores e pássaros.
Agora engano melhor o silêncio dos dias, as suas casas frágeis, alcanço o náufrago
iluminado, as velas da piedade amarram-me à escuridão da infância,
às sedas nocturnas do medo, à mortalha mais límpida dos relâmpagos
da névoa cortada pelos rápidos remos dos remadores.

A salvação é uma ruína temerária, uma praia sem pegadas, um furtivo
sorriso à escassez das pétalas esmagadas do quintal.
Há uma pureza no sol encantado que desenhavas com os seus raios muito firmes
e quentes, há uma lâmina reduzindo o mundo, manchando os cães com sangue,
expulsando as estrelas, a dardejante beleza das mulheres,
a formosa pele que à transparência da luz se expunha.

Agora, neste lugar, se eu pudesse, para me salvar, bastava olhar o céu.

  Jorge Velhote in "Saudade - Revista de Poesia " Nº 1,
 Dezembro, 2001, Direção de António José Queirós.
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10/08/11

" Dessa espécie de som, dessa perdida água, "

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 "Calculada melancolia "

De um e do outro tudo sabíamos. O mar,
o rio, se cruzando pelas nossas largas calças,
os brinquedos de lata golpeando a curiosidade,
o primeiro sabor do sangue.
Alguns antecedentes, limalhas de sol, silenciosas ferrugens
que, entre mesas e chávenas de café,
se permutam.

Dessa espécie de som, dessa perdida água,
viviamos os dias, lendo livros, olhando montras,
as belíssimas mulheres que nos cotejavam o olhar, manobrando
ancas, os metálicos lábios como relógios,
detalhes.

Sem um única palavra, calculada melancolia,
comovidos, os corações cambiávamos,
triunfantes.

  Jorge Velhote in "HÍFEN - Cadernos Semestrais de Poesia", Nº 2,
Abril/Setembro, 1988, Direcção: Inês Lourenço.
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" Que poderei comprar para o vazio/ deste anoitecer? um pouco do meu sol? "

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 "Piazza S. Marco"

A sabedoria é para os barcos
sob as pontes da noite,
a alma, o oiro.
Aqui dormiria, à distância singular
de um beijo, um lençol de água,
um travesseiro de cuidada pedra.
Outras coisas da infância, mas devagar, outros corpos a penumbra
percorrendo,
a poeira da luz espiando os sapatos, a navalha chamuscada.

Também eu herdei a perigosa ilusão
da bicicleta, um silêncio
danado por mulheres, pelo ardor cristalino do álccol,
no limbo mais rasgado do mundo;
o segredo tão natural da pintura
na profecia azul dos mosaicos,
no carvão amargo da noite;
certos vestígios pelo tráfico outrora florescente:
sedas, frutos, tabaco, pequenos tesouros,
caixinhas de laque, sandálias
gastando, dia após dia, a mágoa.

Que posso fazer pelas pedras desta praça senão
cobri-las de aves, trapos, moedas
e pela poalha do crepúsculo seduzir os vitrais,
os óleos santos, o sândalo, o bolor intenso das paredes?
Cambiar a chuva pelos claustros do vento, o vidro
de oficiante fogo, como
em Murano a família Barelli?

Que poderei comprar para o vazio
deste anoitecer? um pouco do meu sol?
daquele mar, um punhado de areia?

  Jorge Velhote in "Colóquio Letras" Nº 90, Março 1986.
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08/08/11


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      " A Minha Musa "


A minha Musa está longe: dir-se-ia
(é o pensamento dos mais) que nunca existiu.
Se houver porém uma, veste-se com os trapos de um espantalho
posto a custo num xadrez de vinhas.

Abana como pode: resistiu a monções
ficando de pé, só um pouco encurvada.
Se o vento cessa sabe agitar-se ainda
como que a dizer-me caminha sem receio,
logo que te possa ver dar-te-ei vida.

A minha Musa deixou há algum tempo um guarda-roupa
de teatro; e quem com ele se vestia
era da alta sociedade. Um dia foi preenchida
por mim e muito se ufanou. Agora resta-lhe ainda uma manga
e com ela dirige o seu quarteto
de flautas de cana, é a única música que suporto.

  Eugenio Montale in " Poesia ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2004,
p 279 ( Tradução de José Manuel de Vasconcelos )
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" La belle dame sans merci "


Claro que as gaivotas cantonais esperaram em vão
as migalhas de pão que eu deitava
para a tua varanda para que ouvisses
os seus gritos mesmo fechada no teu sono.

Hoje faltámos ambos ao encontro
e o nosso breakfast gela entre pilhas
para mim de livros inúteis e para ti de não sei
que relíquias: calendários, estojos, frasquinhos e cremes.

Assombroso o teu rosto obstina-se ainda, recortado
nas telas de cal da manhã;
mas uma vida sem asas não o alcança e o seu fogo
sufocado é fulgência de isqueiro.
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  Eugenio Montale in " Poesia ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2004,
p 257 ( Tradução de José Manuel de Vasconcelos ).
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     "A Enguia"


A enguia, a sereia
dos mares  frios que deixa o Báltico
para chegar aos nossos mares,
aos nossos estuários, aos rios
que sobe em profundidade, sob a corrente adversa,
de ramo em ramo e depois
de cabelo em cabelo, adelgaçando-se,
cada vez mais dentro, cada vez mais no coração
da rocha, insinuando-se
nos sulcos do lodo até que um dia
a luz solta dos castanheiros
acende o seu vibrar deslizante em poças de água estagnada,
nas fossas que descem
das faldas dos Apeninos à Romagna;
a enguia, tocha, chicote,
flecha de Amor em terra
que só as nossas ravinas ou os secos
arroios pirenaicos reconduzem
a paraísos de fecundação;
a alma verde que procura
vida nesse lugar onde apenas
morde a canícula e a desolação,
a centenha que diz
tudo começa quando tudo parece
fossilizar-se, tronco sepultado;
a íris breve, gémea
daquela que engastam os teus cílios
e fazes brilhar intacta entre os filhos
dos homens, imersos no teu lodo, serás tu capaz
de não a achar tua irmã?
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 Eugenio Montale in " Poesia ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2004,
pp 215 - 271 ( Tradução de José Manuel de Vasconcelos).
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04/08/11

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LITORAIS


bastam alguns talos de piteira
pendurados de um rebordo
no delírio do mar;
ou duas camélias pálidas
nos jardins desertos,
e um alourado eucalipto que mergulha
entre batimentos de asa e loucos voos
na luz;
e eis que num instante
invisíveis fios em mim se enrolam como serpentes,
borboleta numa teia de aranha
frémitos de oliveiras, olhares de girassóis.

Doce cativeiro, agora, litorais
de quem se entrega um pouco
como que a reviver um antigo jogo
nunca olvidado.
Recordo o acre filtro que estendeste
ao confuso adolescente, oh margens:
nas claras manhãs fundiam-se
dorsos de colinas e céu; na areia
das praias era um amplo bater, um igual
fremir de vidas,
uma febre do mundo; e todas as coisas
pareciam consumir-se nelas próprias.

Oh então revolvidos
como o osso do choco pelas vagas
desaparecer a pouco e pouco;
tornar-se
uma árvore rugosa ou uma pedra
polida pelo mar; fundir-se nas cores
dos ocasos; desaparecer carne
para ressurgir nascente ébria de sol,
pelo sol devorada...
Eram estes,
litorais, os votos do menino de outrora
que junto a uma ferrugenta balaustrada
lentamente morria sorrindo.

Até que ponto, marinas, estas frias luzes
falam a quem destroçado vos fugia.
Lâminas de água caminhando
por entre os ramos que se movem; rochas escuras
entre a espuma; flechas de gaivões
vagabundos...
Sim, podia
acreditar um dia em vós ó terras,
belezas funerárias, áureas cornijas
na agonia de cada ser.
Hoje volto
até junto de vós mais forte, ou estarei enganado, se bem que o coração
pareça abrir-se em recordações ledas e atrozes.
Triste alma passada
e tu vontade nova que me chamas,
tempo é talvez de vos unir
num sereno porto de sabedoria.
E um dia virá ainda o convite
de vozes de ouro, de lisonjas audazes,
alma minha nunca mais dividida. Pensa:
mudar para hino a elegia; refazer-se;
não faltar mais.
Poder
tal como estes ramos
ontem descarnados e nus e hoje cheios
de frémitos e linfa,
sentir
amanhã também por entre os perfumes e os ventos
um refluir de sonhos, um louco urgir
de vozes rumo a um fim; e no sol
que vos inunda, litorais,
tornar a florir!

 Eugenio Montale in "Poesia", Assírio & Alvim, Lisboa, 2004,
pp 135 - 139 ( Tradução de José Manuel de Vasconcelos ).
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03/08/11

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"Two Loves"
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I dreamed I stood upon a little hill,
And at my feet there lay a ground, that seemed
Like a waste garden, flowering at its will
With buds and blossoms. There were pools that dreamed
Black and unruffied; there were white lilies
A few, and crocuses, and violets
Purple or pale, snake-like fritillaries
Scarce seen for the rank grass, and through green nets
Blue eyes of shy peryenche winked in the sun,
And there were curious flowers, before unknown,
Flowers that were stained with moonlight, or with shades
Of Nature's willful moods; and here a one
That had drunk in the transitory tone
Of one brief moment in a sunset; blades
Of grass that in an hundred springs had been
Slowly but exquisitely nurtured by the stars,
And watered with the scented dew long cupped
In lillies, that for rays of sun had seen
Only God's glory, for never a sunrise mars
The luminous air of Heaven. Beyond, abrupt,
A grey stone wall, o'ergrown with velvet moss
Uprose; and gazing I stood  long, all mazed
To see a place so strange , so sweet, so fair.
And as I stood and marvelled, lo! across
The garden came a youth; one hand he raised
To shield him from the sun, his win-tossed hair
Was twined with flowers, and his hand he bore
A purple bunch of bursting grapes, his eyes
Were clear as crystal, naked  all was he,
White as the snow on pathless mountains frore,
Red were his lips as red wine-spilith that dyes
A marble floor, his brown chalcedony.
And he came near me, with his lips  uncurled
And kind, and caught my hand and kissed my mouth,
And gave me grapes to eat, and said, "Sweet friend,
Come I will show thee shadows fo the world
And images of life. See from the South
Comes the pale pageant that hath never an end.
And Io! within the garden of my dream
I saw two walking on a shining plain
Of golden light. The one did joyous seem
And fair and blooming, and a sweet refrain
Came from his lips; he sang of pretty maids
And joyous love of comely girl and boy,
His eyes were bright, and 'mid the dancing blades
Of golden grass his feet did trip for joy;
And in his hand he held an ivory lute
with strings of gold that were as maidens'hair,
And sang with voice of tuneful as a flute,
And round his neck three chains of roses were,
But he that was his comrade walked aside;
He was full sad and sweet, and his large eyes
Were strange with wondrous brightness, staring wide
With gazing; and he sighed with many sighs
That moved me, and his cheeks were wan and white
Like pallid lillies, and his lips were red
Like poppies, and his hands he cienched tight,
And yet again unclenched, and his head
Was wreathed with moon-flowers pale as lips of death.
A purple robe he wore, o'erwrought in gold
With the device of a great snake, whose breath
Was fiery flame; which when I did behold
I feel a-weeping, and I cried , 'Sweet youth,
Tell me why, sad and sighing, thou dost rove
these pleasent realms? I pray thee speak me sooth
What is thy name?' He said, 'My name is Love'.
Then straight the first did turn himself to me
And cried, ' He lieth, for his name is Shame,
But I am Love, and I was wont to be
Alone in this fair garden, till he came
Unasked by night; I am true Love, I fill
The hearts of boy and girl with mutual flame.'
Then sighing, said the other, 'Have thy will,
I am the love that dare not speak its name.'

  Lord Alfred Douglas in "Two loves & other poems", Bennett & Kitchel, London, 1990.
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02/08/11

o primeiro olhar...


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Oscar Wilde (Stephen Fry) e Lord Alfred Douglas (Jude Law): o primeiro encontro.
In "Wilde" de Brian Gilbert (1997). Do elenco constam também: Vanessa Redgrave
e Orlando Bloom.
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01/08/11


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Enquanto trabalhava, os seus olhos exibiam um ar curiosamente penetrante. Estava a pensar na carta para o seu amigo Antonapoulos. Já passava da meia-noite quando terminou finalmente o trabalho. Pousou a salva e a sua testa estava transpirada de tanta concentração. Limpou a bancada e começou a escrever. Adorava formar as palavras no papel e fazia-o com tanto cuidado como se a folha fosse uma salva de prata.

"Meu único Amigo:
Li na nossa revista que a Associação se vai reunir este ano, numa convenção a realizar em Macon. Haverá oradores e um banquete composto por quatro pratos. Já o estou a imaginar. Lembraste de que sempre quisemos ir a uma dessas convenções, mas nunca o fizemos? Quem me dera que o tivéssemos feito. Quem me dera que fossemos à convenção deste ano, acredita que até já o imaginei na minha cabeça. Mas é claro que nunca poderia ir sem ti (...) Escrevo que imagino todas essas coisas. Escrevo e não escrevo. As minhas mãos estão paradas há tanto tempo que tenho alguma dificuldade em me lembrar como é que se faz. E, quando penso na convenção, imagino todos os convidados parecidos contigo, meu Amigo.
No outro dia, estive em frente à nossa casa. Agora moram lá outras pessoas, Lembras-te do carvalho enorme que havia mesmo em frente? Cortaram-lhe os ramos mais altos, para não se emaranharem nos fios dos telefones, e a árvore acabou por morrer. O resto dos ramos apodreceu e o tronco está todo oco. E o gato aqui da loja (aquele que tu costumavas pegar ao colo) comeu qualquer coisa venenosa e morreu. Foi muito triste."

A caneta parou no ar, por cima da folha de papel. Singer deixou-se ficar quieto durante algum tempo, muito tenso, sem escrever uma única palavra. Depois, pôs-se de pé e acendeu um cigarro. A loja estava fria e havia um odor desagradável no ar, uma mistura de petróleo, de líquido para polir pratas e de tabaco. Singer vestiu o sobretudo, enrolou o cachecol à volta do pescoço e recomeçou a escrever com uma determinação vagarosa.

"Lembras-te das quatro pessoas de que te falei quando estive aí? Fiz um desenho para ti: o negro, a miúda, o homem do bigode e o dono do New York Café. Gostava de te contar umas coisas sobre eles, mas ainda não sei como as pôr sob a forma de palavras.
Estão todos muito absorvidos. Aliás, estão tão absorvidos que é difícil conseguires visualizá-los. Quando digo "absorvidos", quero dizer que a mente deles não lhes dá descanso. Aparecem no meu quarto e falam tanto, mas tanto, que não percebo como é que uma pessoa consegue abrir e fechar tantas vezes a boca, sem ficar completamente esgotada.
(...) É assim que eles falam quando vêm ao meu quarto. As palavras que têm no coração não lhes dão descanso, por isso estão sempre tão absorvidos (...) Inclusivamente, chegaram a ser mal-educados uns com os outros. Sabes bem que eu sempre disse que é uma grande falta de educação ignorar os sentimentos dos outros. Mas foi mesmo isso que aconteceu. Não compreendo, por isso te escrevo, porque sinto que tu vais compreender. Estou com uma sensação estranha. Mas já escrevi imenso sobre esse assunto e calculo que já estejas saturado. Eu também estou.
Já se passaram cinco meses e vinte e um dias. Estou sozinho, sem ti, há todo esse tempo. Só penso no dia em que estaremos novamente juntos. Não sei o que será de mim se não te puder ver em breve."

Singer pousou a cabeça na bancada e descansou um bocado. O cheiro e o toque da madeira lisa no seu rosto recordou-o dos tempos de escola. Fechou os olhos e sentiu-se agoniado. Só via o rosto da Antonapoulos e as saudades que sentia do amigo eram tão fortes que lhe cortavam a respiração. Pouco depois, Singer endireitou-se e pegou na caneta.

"O presente que encomendei para ti não chegou a tempo de ir na caixa que te enviei no Natal. (...) Tenho saudades dos teus cozinhados. No New York Café, as coisas estão muito mal. Aqui há uns tempos, encontrei uma mosca cozida dentro da sopa. Estava misturada com os vegetais. Mas isso não é importante. Sinto tanto a tua falta, estou tão sozinho... Em breve irei visitar-te. Só tenho férias daqui  a seis meses, mas acho que consigo tirar uns dias até lá. Tem mesmo de ser. Não consigo estar sem ti, entendes?

Do teu,
John Singer"

Eram duas da manhã quando Singer regressou a casa. O edifício enorme e cheio de gente estava mergulhado na escuridão, mas ele subiu cuidadosamente os três lanços de escadas, sem nunca tropeçar. Retirou dos bolsos os cartões que costumava guardar, o relógio e a caneta de tinta permanente. Em seguida, pendurou a roupa nas costas da cadeira, com cuidado. O pijama de flanela cinzento era quente e macio. Puxou o cobertor até ao pescoço e adormeceu de imediato.

  Carson McCullers in " O coração é um caçador solitário ", Editorial Presença,
Lisboa, 2010, pp 213 - 216.
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31/07/11

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Tudo estava tranquilo. Enquanto Bifff secava o rosto e as mãos, uma brisa fez tilintar os pendentes de vidro do pagode japonês em miniatura, que estava em cima da mesa. Acordara da sua sesta e fumara o seu charuto da noite. Pensou em Blount e interrogou-se se ele já estaria muito longe. Havia um frasco de Agua Florida na prateleira da casa de banho e ele levou a tampa às têmporas. Estava a assobiar uma canção antiga e, ao descer as escadas estreitas, a melodia ia deixando um eco atrás de si. (...) O relógio da parede marcava 12h17. O rádio estava ligado e ouvia-se um debate sobre a situação que Hitler havia criado por causa de Danzing (...).
Biff atravessou a cozinha em bicos dos pés e foi à prateleira onde havia um cesto com jasmineiros-do-imperador e duas jarras cheias de zínias. (...) Começou a decorar a montra com imenso zelo. No meio do ramo encontrou uma flor esquisita: uma zínia com seis pétalas cor de bronze e duas pétalas vermelhas. A montra ficou pronta e ele saiu para o passeio, para contemplar o resultado final (...).
O céu, negro e repleto de estrelas, parecia bastante próximo do chão. Biff caminhou ao longo do passeio, parando uma vez para empurrar uma casca de laranja para a sarjeta, com o pé. No fundo da rua, dois homens estavam de braço dado. Não se via mais ninguém. O seu restaurante era a única loja aberta.
Para quê? Por que motivo tinha o restaurante aberto durante a noite, se todos os outros cafés da cidade estavam fechados? Faziam-lhe essa pergunta imensas vezes, mas nunca soubera responder. Não era por causa do dinheiro (...).
Mas ele jamais fecharia a porta à noite enquanto estivesse naquele negócio. A noite era maravilhosa. Havia pessoas que, de outro modo, ele jamais reconheceria (...).
Examinou a zínia que tinha posto de lado. Ao segurá-la na palma da mão, na claridade da luz, apercebeu-se de que a flor não era tão rara como ele supusera. Não valia a pena guardá-la. Arrancou as pétalas macias e brilhantes e, quando chegou à última, calhou-lhe "bem-me-quer". Mas quem? Quem é que ele iria amar agora? Ninguém em especial. A primeira pessoa decente que entrasse no restaurante e se sentasse durante uma hora, a tomar um copo. Mas não havia ninguém. Todos os seus amores havia desaparecido. Alice. Madeline e Gyp. Findos. Deixando-o numa situação melhor ou pior. Qual seria? Dependia da forma como se olhasse para a situação.
E Mick. Aquela que, nos últimos meses, vivera estranhamente no seu coração. Teria este amor chegado ao fim também? Sim. Findara. Agora, Mick aparecia no princípio da noite, para tomar uma bebida fria ou para comer um sundae. Tinha crescido. Perdera por completo o jeito infantil. Agora, tinha um porte elegante e delicado. (...) Ele olhava-a e já só sentia ternura. O sentimento antigo desaparecera. Durante um ano, esse amor florescera invulgarmente. Ele questionara-o inúmeras vezes, sem nunca obter esposta. E agora, como uma flor de Verão que murcha em Setembro, esse amor desaparecera. De vez.
(...) Biff estava absolutamente imóvel, absorto nos seus pensamentos. Depois, subitamente, sentiu qualquer coisa despertar dentro de si. O seu coração deu um salto e ele encostou-se ao balcão, para evitar cair. Viu a interminável passagem da humanidade através dos tempos. E viu os que trabalhavam e os que, numa só palavra, amavam. Depois, sentiu uma espécie de advertência, um poço de horror. Encontrava-se suspenso entre os dois mundos. Contemplou o seu próprio rosto reflectido no vidro do balcão à sua frente. A transpiração cintilava-lhe na testa e Biff tinha o rosto contorcido (...) fitava, incrédulo, um futuro de escuridão, de erros e ruína. Encontrava-se suspenso entre a Luz e a Escuridão. Entre a ironia e a fé. Desviou o olhar.
(...) Mas, santo Deus, ele era um homem inteligente ou não? Como é que o terror o conseguia esmagar daquela forma, quando ele nem sequer sabia o que o provocava? Iria deixar-se ficar ali parado, como um palerma completamente apavorado, ou encher-se de coragem e de juízo? Biff molhou o lenço na torneira e levou-o ao rosto tenso e cansado. Lembrou-se de que ainda não tinha recolhido o toldo. Encaminhou-se para a porta, com um passo firme. Quando voltou para dentro, já se encontrava suficientemente recobrado para esperar o romper do sol.

  Carson McCullers in " O coração é um caçador solitário". Editorial Presença,
Lisboa, 2010, pp 351 - 355.
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29/07/11

" o que el verano adquiera relevancia/ en un vi llover y no estás, "


 "La estrella que anuncia cambio de tiempo"

YO no sé qué es más cruel,
ese yérguete que ya es la hora
o que el verano adquiera relevancia
en un vi llover y no estás,
o acaso durante dos horas
esperar que te reflejes
en la iluminación de los letreros,
o que salgas de aquí
de donde no estoy, entonces la torpeza
convertida en la frágil osamenta
donde me convierto en otra.

  Concha García in "Acontecimiento", Tusquets Editores, Barcelona, 2008, p 33.
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" El goce y la satisfacción no son equivalentes. "

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 "Divagación en la almohada"


 UN día de libros en esa casa
cuyos muebles no me dicen nada.
Si idealizo la jornada
se convierte en instante este momento
y subrayo que cualquier frase da sentido
a la velada. Pero no.
El goce y la satisfacción no son equivalentes.
Tengo que verlo. Abrir la cortina,
separarla. Verlos caminar. Quién camina.
Verlos detenerse. Quién hace pausas.
Verme reclinada. Quién se ladea
ante un horizonte tan desdibujado.
Maneras de estar medio sola
ante un mar de otro mundo, si el agua
fuese líquida, si se pudiera una
meter en ese fluir, organizarse.

  Concha García in " Acontecimiento ", Tusquets Editores, Barcelona, 2008, p 79.
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28/07/11

"(...) Mis brazos/ equilibran un anhelo antiguo, "

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 "Otro soplo de vida"

DUERMO a intervalos.
Cuando el don se instala
elijo escogerte. Mis brazos
equilibran un anhelo antiguo,
carecem de foco,
forman un hundimiento preciso
que alegra lo profundo del cambio
y revivo ajena, reconociéndome
en tardes con bancos verdes sin nadie
como un hermoso castigo.

  Concha García in "Acontecimiento", Tusquets Editores, Barcelona, 208, p 109.
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27/07/11

" No a los seres que ofrecen/ su porvenir en un rato. "

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 " Como un Decálogo "

NO hacer lo mismo.
No avanzar en el círculo
para la causa repetida.
No centrarse en el punto
de onde partir siempre.
No al dilema irresuelto
que se derrite en el cuerpo.
No al horario que avanza
en un universo cerrado.
No a los seres que ofrecen
su porvenir en un rato.
No a la mujer repetida,
no al merodeo en espiral,
no a la bocanada de aire
que te vuelca hacia un lado
y deja una tristeza risueña
de recuerdos desangelados.

  Concha García in "Acontecimiento", Tusquets Editores, Barcelona, 2008, p 115.
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   " À espera"


Coleciono perdidos. Tudo serve
aos meus achaques. O uniforme azul,
o beijo partido, a luxúria sem asas,
a menininha de tranças,
o amor/ suspiro na fonte, o punhal turco,
os pombos degolados no fundo do sono,
o tempo repartido em dois:
ontem, Chimène a caminho do pranto,
agora, os netos de Chimène,
a não apagada
pelo mata-borrão (havia lágrimas).
Tudo serve.

A esfinge na febre,
quero decifrá-la; tenho dois corações
num saco de plástico, à discrição do amor,
para o nosso próximo encontro.
Espero-vos, Senhora, de preto,
numa rua de Fez.

  Guilhermino Cesar in "Sistema do Imperfeito & Outros Poemas", Editora Globo,
Porto Alegre, 1977, p 70.
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26/07/11

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 " Retrato fingido "


Esse poeta é um fingidor
finge tão safadamente
que chega a ser furta-cor
para ficar coerente.

E como a roda da vida
não desenrola ninguém
o poeta continua ausente
da vida que ele não tem.

  Guilhermino Cesar in "Sistema do Imperfeito & Outros Poemas", Editora Globo,
Porto Alegre, 1977, p 147.
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25/07/11

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"Seiscentos urubus e uma asa branca"



Seiscentos urubus, ora essa, um espetáculo
real. Os reis amam a tragédia.
Seiscentos urubus e uma asa branca,
corrijo a tempo. Asa branca é contraste
num tamanho cortejo de negrume ideal. Os reis
gostam de brincar nas alturas;
o difícil, naturalmente, não é para nós outros,
peões, salário-mínimo, lixo, estrume dos edifícios.
Seiscentos urubus, uma carga de horrores
a exigir um panfleto.
Mas aparece uma asa, apenas uma
asa branca, e o negrume acabou-se.

  Guilhermino Cesar in "Sistema do Imperfeito & Outros Poemas", Editora Globo,
Porto Alegre, 1977, p 161.
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24/07/11

Maria Lúcia Lepecki (1940 - 2011)


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Morreu hoje, vítima de cancro, a escritora e ensaísta Maria Lúcia Lepecki. Assisti a muitas das suas confe-
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rências, li muitos dos seus trabalhos... Via-a com frequência descendo a rua, acompanhada do marido,
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para a sua caminhada habitual; via-a igualmente num dos cafés onde ambos parávamos. Conversámos duas
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ou três vezes, onde ela me revelou um humor que lhe desconhecia.Certa noite, entravamos nós no café,
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saía ela com o marido...voltámos a falar do Prefácio do "Prisma", ela, então, virou-se para a legítima:
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"(...) não imagina como ele estava, tive de lhe dizer para se sentar... pensei que lhe fosse dar uma coisa.",
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e olhava para mim sorrindo. Rimos os quatro... Morreu hoje Maria Lúcia Lepecki e eu estou triste, muito
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triste mesmo.
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30/06/11

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 "Entretendo o canário"


Penas amarelas,
Será verdade
Que chilreias para o chui
Que bate?

Desiste. Vira o teu
Olhar nervoso
Para a porta aberta da casa de banho
Onde eu ensaboo

As costas da minha amada
E ponho o meu queixo no seu ombro
Para que possa fazer o mesmo
Às mamas e às coxas.

Canta. Agita as tuas asas
Como se aplaudisses,
Ou atiro as suas cuecas negras
Para cima da tua gaiola dourada.

  Charles Simic in "Previsão de Tempo para Utopia e Arredores", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2002, p 67 ( Tradução de José Alberto Oliveira).
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 "Le Beau Monde"


Um homem subiu para falar de Marcel Proust,
"O grande escritor francês",
Para um caixote que era famoso pelos discursos
Sobre patrões desonestos e trabalhadores pobres.

Eu juro (Tony Russo é minha testemunha).
Era já noite dentro, a multidão ia diminuindo,
Mas logo todos regressaram
Para ver sobre que era aquela lengalenga.

Ele parecia uma das máquinas de lavar louça
De uma das espeluncas da Avenida B.
Ele roía as unhas enquanto falava.
Dizia isto e aquilo, devia ser em francês.

Toda a gente se empertigou, até os bêbados.
Os valentões deixaram de exercitar os músculos.
Era como estar na igreja
Quando a Missa Cantada era dita em latim.

Ninguém entendia, mas todos ficavem alegres.
Quando acabou foi-se embora, de vez,
Com passadas largas numa grande pressa.
Os restantes atardaram-se a dispersar.

  Charles Simic in "Previsão de Tempo Para Utopia e Arredores", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2002, p 47 (Tradução de José Alberto Oliveira).
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26/06/11

" quantas vezes te sei aqui e não te vejo "

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 "Poema 10"

quantas vezes me despeço de ti
sem saber

onde vais

quantas vezes me despeço de ti
sem saber a razão
sem saber de tua mão
sem saber

quantas vezes sem saber
me levanto ao bater da porta
do soalho no passo breve  curto  certo

te procuro nas gavetas
em sombras atrás dos muros
em sombras que o vento traz
com ramos a bater nas vidraças

quantas vezes te sei aqui e não te vejo

me despeço de ti
e não o quero
me despeço de ti
e não te peço

fica

para acalentar meu desassossego

  Inez Andrade Paes in "Paredes Abertas ao Céu", Edição da Autora, s/c., 2010, p 34.
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24/06/11

" a mim que não sei senão perder-me/ nos labirintos do teu corpo, em aceso desejo."

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 "Meu amor, dá-me o mapa da tua alma"

Meu amor, dá-me o mapa da tua alma,
a mim que não sei senão perder-me
nos labirintos do teu corpo, em aceso desejo.

Percorro-te, de lés-a-lés, beijo-te
lambo-te, peço-te que me ames com fúria
e depois lentamente, baralho-te,
e avanço como uma amazona sobre ti,
mas é no teu olhar que a minha fúria se desvanece,
como se um gesto teu, apenas,
soubesse aplacar-me esta fome
que trago de ti, sempre, em mim.

Seguras-me o rosto, abraças-me
e eu estremeço. Às vezes não é do prazer,
é desse gesto antigo onde me revejo
nos teus olhos, onde pressinto que cheguei.

Ao centro do labirinto, onde vislumbro o teu verdadeiro rosto.

  Maria João Cantinho in "O Traço do Anjo", Edium Editores, Porto, 2011, p 45.
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" lembra-me tal, sempre que me esqueça."

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 "Há palavras que anseiam ser ditas"

há palavras que anseiam ser ditas
como pássaros que teimam nas brumas
avançando na busca de um deus,

palavras que se ocultam
sob o silêncio de um olhar,
nascidas do mais puro coração,

lembra-me tal, sempre que me esqueça.

  Maria João Cantinho in "O Traço do Anjo", Edium Editores, Porto, 2011, p 47.
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"(...) compreenderás/ que nada morre, nada desaparece,/ apenas deixa de ser em nós "

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 "Poema dos Elementos"

O tempo tudo transforma, essa é a lei
que nos cabe em sorte.
Mas se te sentares à sombra do velho carvalho
e fechares os olhos,
se ouvires o que o vento
te vem contar, compreenderás
que nada morre, nada desaparece,
apenas deixa de ser em nós
para passar a outras camadas deste mistério.

Gostava de te dar a mão e explicar-te
a ti, que possuis o terror da morte,
como tudo é sagrado e se renova,
tudo volta ao pó e depois ao ar,
tudo se transforma tão serenamente.

A água, a pedra, o tempo,
tudo são reflexos de tudo
o que nos precedeu,
das vozes dos nossos antepassados
que agora nos olham
de outros lados, sei-o,
sob a forma de árvores, pássaros,
tudo é tão incandescente, neste cosmos
como uma dança permanente entre os elementos.

Por isso, quando choras, é o rio
que entra em ti e lava a memória
da tua dor, o rio é já o tempo
que, em ti, leva ao esquecimento.

      Maria João Cantinho in "O Traço do Anjo", Edium Editores, Porto, 2011, p 53.
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23/06/11

" Como não afundasse, ficou vagando,/ Até se desfazer em partes, "

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 "Manhã"

Lentamente, foi se afastando da praia.
Estava amarrado, e depois oscilou livre,
Na maré vazante.
Terá demorado a fugir da vista.

No alto-mar, ao sabor das correntes que o arrastaram,
Deve ter recolhido a chuva e secado ao sol.
A água, penetrando pela borda,
Nos meios-dias deve ter deixado um rastro brilhante de sal sobre o banco
E nas dobras do fundo.

Depois, numa noite de chuva,
Primeiro uma onda o terá alagado até o meio.
Em seguida, balançando mais lento, terá sido aos poucos coberto pela água.

Como não afundasse, ficou vagando,
Até se desfazer em partes,
Uma das quais é esta, que agora
Está aqui, quase enterrada na areia.

  Paulo Franchetti in "Memória Futura", Cotia, São Paulo, 2010, p 18.
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" As lembranças, afinal, já não cavalgam as palavras "

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PONHO UMAS palavras num papel
E elas passeiam, intocadas,
Como peixes com fome num aquário.

Se alguém se debruçasse agora,
Em busca de outra imagem recurvada,
Veria apenas a sombra, como eu vejo,
Na folha de papel.

Nem mesmo sob a superfície paira
(As lembranças, afinal, já não cavalgam as palavras)
Alguma forma de alívio.

Apenas isto:
Estes gestos,
Pequenos pedaços flutuantes,
Farelos que os peixes,
De súbito surgindo do fundo
Da água lodosa,
Vêm devorar.

  Paulo Franchetti in "Memória Futura", Ateliê Editorial, Cotia, 2010, p 33.
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22/06/11

" Assim no dia a dia o amor,/ Cobra, inseto, ave de rapina, "

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O SANGUE insiste
Como um pensamento,
Uma ideia fixa que preenche um dia à toa.
Depois reflui, resolvido.
O sono condensa a vista,
Como a respiração no vidro do carro
Parado sob a chuva.
Os mangues ameaçam invadir a cidade,
Sobem e defluem íntimas marés,
Enxurradas de restos, caranguejos, garrafas.
Ou tudo escorre em paz,
Nos canos do tanque, de plástico liso,
Ou no correto sistema de águas do banheiro.
Assim no dia a dia o amor,
Cobra, inseto, ave de rapina,
Vai desdobrando a vida,
Que corrói.

    Paulo Franchetti in "Memória Futura", Ateliê Editorial, Cotia, 2010, p 45.
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21/06/11

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 "Oração"


Anjo da guarda, corta as tuas asas,
Esses galões de pano,
Se queres, humano,
Ajudar-me.
Minha mãe a gerar-me
Nu,
E o céu a mandar-me
Um cisne falso como tu!

Nesta terrena dor,
Desesperado,
Pedi um braço quente e pecador.
Não quero cá ninguém santificado!

Limpa o verniz da cara, tira o lenço
E enxuga-me estas lágrimas de lama.
Deus é imenso,
Mas nem eu lhe pertenço,
Nem é por ele que a minha angústia chama.

  Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, p 309.
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19/06/11

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" MARIA TERESA HORTA, UMA VOZ INSUBMISSA". A homenagem à escritora ocorreu no "Museu-biblioteca República e Resistência" (em Lisboa), a 6 de Junho de 2011.
Fotos retiradas do "Face" e delas foram removidas todas as identificações.
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" Às vezes quero dizer-te coisas importantes... "

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 Poema 10 do ciclo " Marlene"

Às vezes quero dizer-te coisas importantes, a cotação das acções na bol-
sa prateada e dócil da tua intimidade, a vibração involuntária dos meus
tecidos moles, durante um jantar num hotel de luxo, Marlene. Mas ficam-
-se as cinco estrelas por uma tasca no centro histórico, com carapaus
grelhados e molho à espanhola, e uma cerveja em vez de um daikiri que
me adormece e faz sonhar contigo e com os teus seios tensos que sei
que assim ficarão eternamente.

  António Ferra in "Marias Pardas", &etc., Lisboa, 2011, p 40.
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" Já a tinham fodido muito na vida e bebia até cicuta ao acordar, "

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 Poema 2 do ciclo "Maria Parda"

Já a tinham fodido muito na vida e bebia até cicuta ao acordar, a ver se
marchava para a câmara escura. Mas o raio de um instinto de sobrevi-
vência toldava-lhe os olhos e saltava pelas ruas fora, de pénis à cintura,
a dizer blasfémias para enrabar o futuro, a gritar que já tinha experimen-
tado tudo, tudo - roubo de galinhas nas quintas suburbanas, champanhe
bebido em mansardas, vacinas contra o tétano e o tifo, pastéis de cio em
recepções mundanas; que já tinha estado presa em alta segurança e apal-
pada por uma guarda a quem chamava mamã; que bebera este mundo e
o outro por garrafas diárias para esconder a podridão dos sonhos em
vinhos a martelo.

  António Ferra in "Marias Pardas", &etc., Lisboa, 2011, p 16.
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18/06/11

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Sem defesa - de um olhar-goraz - uivando à nossa mesa
Mes AMIS
Ferva um caldo de marcas e siglas ao lado da minha enxerga
Algumas queimam no vagarzinho e nem as consigo enxergar
Nem sempre o que ferve se purifica - na estreiteza do escaninho

BPP e BPN - sem dispêndio nas insónias - sem suar ao sol d'AMI

Em manobras de um agudo tilintar
Na quietação sem ciência de outro mar

OPTIMUS
Não as oiço... Nem enxergo estas encíclicas
Falta de destreza - numa côdea de pobreza
De quem rejeita o intuito de abreviar
Quando se perde na justa medida
A vida que de breve só se atreve
De alma lenta em tudo para durar

"Abençoados os pobres de espírito"
Pois deles não é o reino da terra

E o mundo - uma centopeia de olhares musculados
Eléctrica e sem fios - na corrente de todos os desafios
Rastejando na prontidão dos passos imaculados
Até no instante da extrema-unção
Competindo dentro e fora das feiras e dos mercados
- Não há sardinhas na grelha como as que compro e vendo
(De maxilares saciados na verdura das alfaces sem sabor
Até dizem que a alface faz enxergar melhor)

O mundo em travessas - girando na devoção ao labor
Uma centopeia sem miopia nem vista cansada
De patas grossas - gravando na eira do tecno-rafeiro
( Cão seja - Fiel por baptismo)
O território da sardinha que não quer perder o peso
Na comunhão sem azia de uma salada sem cheiro

E o futuro está na alfa-sardinha
TGV de todos os continentes
De rápida extensão em verdes-faces

( Pois - não é verdade que quem tem olho tudo enxerga?)

BPP e BPN
Siglas - varinas de espreitar entre saias os peixes miúdos
De atacar nos bês e nos pês e nos Nez os perfumes
E temperos - na caldeirada de intestinos façanhudos
Sobre as patas de engrossar a canastra dos milhões
Regateando sem cansaço essa queda de crescer
Entre sardinhas cruas e alfaces de olear os foliões

- Quem quer fundos - quem quer almoçar?
Olhe a sardinha fresquinha
Ó freguês! Olhe os fundos frescos de amadurecer
Não são figos nem sardinhas de alto-mar

Antes o banquete ilustrando a arte de naufragar

  Ana Maria Puga in "Quando as Palavras começam a escrever", Editora Labirinto,
Fafe, 2011, pp 75 - 76.
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17/06/11

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" Morte em Veneza


No azul da inquietação"


Morrer entre os canais
De quanto imaginar
A elegância da ponte
Por alagar de amor
Que só quer - existindo
Na fixação do olhar
Uma réstia de horizonte

A música de um maestro
Na miopia do desejo
Misturando o azul das águas
Nas lentes de criar o beijo

E só depois

(Desfalecer sob as pontes)

Desesperando
Na tinta de escurecer
De negrejar os cabelos
Em desalinho
Na chuva em fio-corrente
Moldando o rosto da-dor
Deambulando
Entre o favor de S. Marcos
E os esconsos sem magia
Onde mijaram os gatos
No canto de um corre-dor
Ao luar da travessia

 Ana Maria Puga in "Quando as Palavras Começam a Escrever", Editora Labirinto,
Fafe, 2011, p 53.
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         "Civilização"


Ela quis pagar com cartão dourado
Ao balcão - um euro só e quarenta
Um café de pequenas iguarias
De olhar cambado
De gola e banda
Mesclando na viscose as pedrarias

 Ana Maria Puga in "Quando as Palavras começam a Escrever", Editora Labirinto,
Fafe, 2011, p 45.
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