18/09/11

" Estás en mí como un paisaje mío./ Me acompañan tuas olas y tus barcos. "

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 Hay hombres que parecen un paisaje "

Hay hombres que parecen un paisaje
cuando cierran la puerta
y se quedan delante de nosotros.

Recuerdo muchas veces pupilas amarillas
con rumor de hojas tristes
pisadas por el turbio zapato de la tarde.

Recuerdo las sonrisas cubiertas por la nieve
igual que la pureza,
ese valle que esconde la conjura del barro.

Y recuerdo desiertos en la piel,
el bosque vigilante con búhos en los hombros,
silencios que parecen una ciudad cansada,
escaleras y manos que sostienen
el licor tembloroso de la noche.

Hay hombres aeropuerto,
hombres de luna con tejado, hombres
que llegan de la selva y buscan rascacielos
y son como minutos en un reloj de arena.

Así que cuando vuelvo solitario a mi casa,
y me recibe el mar en mis ojos castaños,
el mar azul y libre
con espuma de agosto en el espejo,
agradezco a la vida
la ocasión que me ha dado de mirarte.

Estás en mí como un paisaje mío.
Me acompañan tus olas y tus barcos.
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Luis García Montero in " Un invierno propio ", Editorial Visor Libros, Madrid, 2011, pp 47 - 48.
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17/09/11

" Duele siempre un misterio en la complicidad./ Los recuerdos ayudan a olvidar. "

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 " Los recuerdos ayudan a olvidar "

Vuelvo a sentir la noche de su voz
y a caminar por ella.
La ventana encendida y un balcón
apagado en la casa.
Eso había en su voz, como había en el mundo
una calle sin luz,
de postigos cerrados, y una sola ventana
que ardía silenciosa.
Eso había en la calle, una luz encendida.
Eso había en la noche de su voz,
un balcón apagado.

Vuelvo a sentir la duda de su abrigo
doblar la esquina solitaria,
cuando yo la seguía. Vuelvo a oír
pasos que no hacen ruido y un deseo
de cruzar el invierno sin ser vista.
Eso había en su abrigo
cuando me descubrió y cerramos los ojos
para seguir viviendo
en donde no se sabe.
Eso había en su abrigo.
Eso había en la casa.

Ahora que vuelvo a penetrar a ciegas
en el amor antiguo, dejando que me lleve,
que me conduzca mi cuerpo con sus manos
al fondo de la piel y de la noche,
dentro de sí, no llego a comprender
si el balcón apagado y el abrigo de entonces
guardaban el secreto de esta cita futura
o si la voz de ahora esconde mi pasado.
Eso hay en la noche y en su cuerpo de hoy,
ventanas encendidas, un balcón
amadamente oscuro
y otro cuerpo de ayer.
Eso hay en la casa.

Duele siempre un misterio en la complicidad.
Los recuerdos ayudan a olvidar.
Los recuerdos envuelven
como unos brazos,
como unas piernas,
como un destino.

Hablo más de la cuenta, ya lo sé.
Nos unen mis recuerdos y sus ojos cerrados.

  Luis García Montero in " Un Invierno Propio ", Editorial Visor Libros, Madrid, 2011, pp 131 - 132.
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16/09/11

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Franz está seguro de que Jacinto vai endireitar os ombros e reerguer a cabeça. Irá, até, tornar-se num homem melhor e mais forte como a si próprio aconteceu - porque o sofrimento desfaz o egocentrismo redutor que existe em todos nós, e impulsiona a reinvenção de novos caminhos de vida. Talvez levemos demasiado tempo a perceber a mudança, a entender a nossa própria evolução, os novos desafios que a vida nos propõe. No seu caso pessoal, Franz Schonberg tinha somado alguns anos até aperceber-se do papel fulcral que a mãe desempenhara nesses dias sombrios da sua adolescência, pois tinha sido ela, com a sua lúcida e discreta inteligência, quem o acordara do torpor ( que agora lhe parecia sobretudo medo ), quem despertara o seu adormecido sentido do dever, quem lhe pedira o apoio de que precisava para continuarem ambos a cumprir a vida, por mais injusta que a vida tivesse sido, por mais enregelados e vazios que os tivesse deixado na ausência do pai. Mas era justamente em nome do pai e da sua total confiança neles dois, que teriam de continuar a viver com coragem e dignidade, como ele sempre fizera. Desafiando tradições e preconceitos, a mãe tinha reaberto a pequena loja e assumido, ela própria, as funções de alfarrabista, recusando o apoio do filho e exigindo-lhe o regresso ao liceu e ao estudo: "Cada um no seu lugar, a cumprir o seu dever, como o teu pai espera de nós dois."
Terá de partilhar com Jacinto essas memórias e lembrar-lhe que viver é a única maneira de honrar os mortos, sobretudo aqueles que mais se empenharam no nosso crescimento e na nossa formação. Só assim, vivendo e cumprindo cada dia, acabaremos por encontrar o que parecia impossível de alguma vez conseguir: a capacidade de cicatrização, a coragem de prosseguir caminho e por fim, até, as múltiplas alegrias que a vida sempre reserva a quem, apesar do sofrimento, as sabe identificar e recolher com gratidão.
Sai do consultório, no seu passo largo e tranquilo, Rua Carreira fora. Como quase todos os dias, detém-se por momentos no Bazar Alemão, em conversa com Miriam e Izaak Brusov, pergunta-lhes pelas crianças, pela saúde, pelo negócio, tornou-se uma rotina quase diária que cumpre por gosto mas, também, por uma espontânea solidariedade. Tem um grande apreço pela têmpera daquele casal que atravessou a Europa à procura de um lugar tranquilo para viver em paz, apenas para viver em paz e poder criar os seus filhos.
Incapaz de jantar ou de manter conversa de circuntância com quem quer que seja, Franz Schonberg decide não entrar no Café Kolb e vai acender o cachimbo, de que precisa com urgência, no pequeno miradouro sobranceiro à cidade e ao mar. O sol parece já muito baixo (...). Descobre-se, com algum espanto, confrontado não só com a sua própria e inesperada vulnerabilidade, mas também com a consciência de sentimentos e exigências que ainda não tinha sabido (ou ousado) reconhecer em si próprio.

Helena Marques in " O bazar alemão ", Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2010, pp 195 - 196.
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14/09/11

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Na verdade, poderia responder, a quem me perguntasse, que Combray compreendia outras coisas mais e existia em outras horas. Mas como o que eu então recordasse me seria fornecido unicamente pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela nos dá sobre o passado não conservam nada deste, nunca me teria lembrado de pensar no restante de Combray. Na verdade, tudo isso estava morto para mim.
Morto para sempre? Era possível.
Há muito de acaso em tudo isso, e um segundo acaso, o da nossa morte, não nos permite frequentemente esperar por muito tempo os favores do primeiro.
Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles que perdemos se acham cativas nalgum ser inferior, num animal, num vegetal, numa coisa inanimada, efectivamente perdidas para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos sucede passar perto da árvore, entrar na posse do objecto que lhe serve de prisão. Então elas palpitam, chamam-nos, e, logo que as reconhecemos, está quebrado o encanto. Libertadas por nós venceram a morte e voltam a viver connosco.
É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora do seu domínio e do seu alcance, nalgum objecto material ( na sensação que nos daria esse objecto material) que nós nem suspeitamos. Esse objecto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.
Muito anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar já não existia para mim, quando, por um dia de Inverno, ao voltar para casa, vendo a minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de S. Tiago. Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? Bebo um segundo gole em que não encontro nada de mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. A bebida despertou-a mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intacto à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para o meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar; criar. Está em fase de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar na sua luz.
E recomeço a perguntar a mim mesmo qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica, mas a evidência da sua felicidade, da sua realidade ante a qual as outras se desvaneciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao instante em que tomei a primeira colherada de chá. Encontro o mesmo estado, sem nenhuma luz nova. Peço a meu espírito um esforço mais, que me traga outra vez a sensação fugitiva. E para que nada quebre o impulso com que ele vai procurar captá-la, afasto todo o obstáculo, toda a ideia estranha, abrigo os meus ouvidos e a minha atenção contra os rumores da casa vizinha. Mas sentindo que o meu espírito se fatiga sem resultado, forço-o, pelo contrário, a aceitar essa distracção que eu lhe recusava, a pensar noutra coisa, a refazer-se antes de uma tentativa suprema. Depois, pela segunda vez, faço o vácuo diante dele, torno a apresentar-lhe o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas.
Por certo, o que assim palpita no fundo de mim, deve ser a imagem, a recordação visível que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar até mim. Mas debate-se demasiado longe, demasiado confusamente; mal e mal percebo o reflexo neutro em que se confunde o ininteligível turbilhão das cores agitadas; mas não posso distinguir a forma, pedir-lhe, como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho do seu contemporâneo, do seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me indique de que circunstância particular, de que época do passado é que se trata.
Chegará até à superfície da minha clara consciência essa recordação, esse instante antigo que a atracção de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, remover, levantar no mais profundo de mim mesmo? Não sei. Agora não sinto mais nada, parou, tornou a descer talvez; quem sabe se jamais voltará a subir do fundo da sua noite? Dez vezes tenho de recomeçar, inclinar-me em sua busca. E, de cada vez, a covardia que nos afasta de todo o trabalho difícil, de toda a obra importante, aconselhou-me a deixar aquilo, a tomar o meu chá pensando simplesmente nos meus cuidados de hoje, meus desejos de amanhã, que se deixam ruminar sem esforço.
E de súbito a lembrança apareceu-me. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Leónia me oferecia, depois de o ter mergulhado no seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la no seu quarto. O simples facto de ver a madalena não me havia evocado coisa alguma antes de que a provasse; talvez porque, como depois tinha visto muitas, sem as comer, nas confeitarias, a sua imagem deixara aqueles dias de Combray para se ligar a outros mais recentes; talvez porque, daquelas lembranças abandonadas por tanto tempo fora da memória, nada sobrevivia, tudo se desagregava; as formas (...) se haviam anulado ou então, adormecidas, tenham perdido a força de expansão que lhes permitiria alcançarem a consciência. Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis -, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.
E mal reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado em chá que minha tia me dava (embora não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão feliz), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava o meu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim e que fora construído para meus pais aos fundos da mesma (...) e, com a casa, a cidade toda, desde a manhã à noite, por qualquer tempo, a praça por onde me mandavam antes do almoço, as ruas por onde eu passava e as estradas que seguíamos quando fazia bom tempo. E, como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia de água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se enchem de cores, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque do Sr. Swann, e os nenúfares do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias e a igreja e toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha chávena de chá.

  Marcel Proust in " Em busca do tempo perdido, Vol. 1 - no caminho de Swann", Edição Livros
do Brasil, Lisboa, s/d., pp 46 - 50 ( Tradução de Mário Quintana ).
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13/09/11


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  " Desespero "

 
É sempre inverno aqui,
nas páginas deste caderno com três folhas de
trevo.

O galo canta, nos meus baldios.
Despertam os sonhadores e os cães.

Um homem caminha,
com um fardo de erva e canas, na direcção das
montanhas.
Uma densa nuvem cresce,
pouco a pouco,
sobre as campas lavadas pela chuva, onde ele
se deita,
voltado para baixo.

E eu, que vejo tudo isto,
não encontro as palavras certas para o desespero.

  José Agostinho Baptista in " Filho Pródigo ", Assírio & Alvim, Lisboa, Lisboa, 2008, p 92.
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12/09/11

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  " Depoimento "


Não há céu que me queira depois disto,
Nem deus capaz de ouvir-me.
Um homem firme
É firme até no céu,
E até diante
Do Criador!
É o que eu diria se, ressuscitado,
Fosse chamado
A depor!

  Miguel Torga in " Poesia Completa ", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, p 501.
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08/09/11

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 " Tempo "


Talvez um bálsamo ignorado se derramasse
sobre a sua cicatriz.
Como um perfume,
como o toque subtil de dois dedos exangues.
Ao voltar à direita,
a caminho do guindaste,
sabia que o esperava uma barca sem remos,
e mais para cima havia um alpendre, com
trepadeiras que subiam.

Era isto o que o tempo fazia:
recomeçar, eternamente, um trabalho de oficinas
lentas.
Enredar no peito roseiras queimadas pela
estação das trevas.

E assim ia,
deambulando pelos campos,
com um archote inútil, que o vento, apagava.

 José Agostinho Baptista in " Filho Pródigo ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2008, 48.
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 " Cegueira "


Há muito que sabia o que o esperava quando,
surgindo do nada, olhou à volta,
cego pela claridade.
Subiu lentamente a ribeira e encontrou as grutas,
e aí bebeu,
enquanto esperava a senhora da escuridão.

E ela chegou, de repente, e disse:
abandona os remos, abandona o leme,
porque o teu destino é um barco parado na
montanha.
E ele levantou-se, como se já nada quisesse,
e ouviu a estranha ave que anuncia a morte.

Noa montanha, ardiam dois archotes.
As casas, do outro lado, pareciam de cera,
dementes e imóveis.
O mar fazia ouvir a sua canção eterna.
Há muito que sabia que o clamor das viagens
tinha chegado ao fim.

  José Agostinho Baptista in "Filho Pródigo ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2008, p 41.
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07/09/11

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O espaço, lâmpada acinzentada e chuvosa, neste final
de estação. Ou talvez um enigma, aquém das sereias
a vicejar no rio, que logo se mistura com a sonolência
dos táxis, com o correr apavorado e sem destino
de quantos ainda o teimam - ameaçado e sem remédio.
A estação, por seu lado, é mero ponto no final

do espaço. Um mapa em tons de azul conspurcado
com seus bancos de jardim ( a despropósito),
seus jogos de partidas e chegadas, seu ronronar
de carruagens, de altifalantes, da máquina vermelha
dos refrigerantes a reflectir-se na vacilante
imobilidade dos placares. E é por aqui que (sempre)
nos cruzamos - alegoria de cruz e ramos;

de turbilhão e medo nas mais ácidas vésperas
em que cedo - meu silêncio... e espanto, neste poema
( nem estação nem canto ), tão-só lembrança,
tão-só imagem de um aprendiz secreto a vislumbrar
o longe, o verde, a intacta ferida, que atentamente
vai decifrando nesse aberto terraço onde se recusa
o banal e onde o sol é todo o espaço.

    Victor Oliveira Mateus in Revista Letras Com Vida, Nº 4. Lisboa: CLEPUL da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2º semestre 2011, p 211.
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Do sítio onde estava não te podia ver. Isto é:
não eras mais do que pedaços de formas
que depois eu completava com a janela do fundo
e o teu cabelo a encenar desordem. Vinha depois

um murmúrio cavo bater-me no sofá, algo a fingir
jogo ou vontade, ou as duas coisas à mistura -
que da alma em desalinho pouco consegue
saber, quem, como eu, tem por hábito sentar-se

à contraluz. Do sítio onde estava não te podia
ouvir. Isto é: não eras mais do que passos
lá dentro, a porta que não voltou a fechar-se,
o decidido puxar da cama. Enfim, no sítio

onde eu estava coseu-me o desejo um cós
de imagens ( arrojadas e novas ) e a tua luz
costurou-me uma bainha no coração.

  Mateus, Victor Oliveira in A Tua Luz Costurou-me uma Bainha no Coração de daniel gonçalves. Fafe:
Editora Labirinto, 2012, p 54.
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06/09/11

" E o gato volta as costas dignamente/ desistindo do enigma fluvial. "

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 " Poema XVII do capítulo Paisagens, Apesar "

Alguém se lembrou um dia
de pôr uns peixes no tanque da rega.
A finalidade não era evidente
e podia temer-se irem os peixes
acabar no campo de milho.
De facto, deram-se bem, nadando
entre os limos do fundo, visíveis
apenas a espaços, no orgulho
solitário de grandes senhores
aquáticos, partilhando, displicentes,
a sua casa com as rãs.
Um gato, no muro de pedra, procura
por momentos compreendê-los.
Alguém lança uma pedra. A água
ondula, em preguiça circular.
E o gato voltas as costas dignamente
desistindo do enigma fluvial.

  Graça Videira Lopes in " Paisagens e outros lugares a discutir ", Arte Comum,
Lisboa, 2005, p 71.
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" (...) Enquanto isso,/ é sempre bom conhecer Amsterdão. "

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 " Memórias de família "

O famoso médico Davi Negro, morador
às Portas do Rosário, disse um dia
de manhã que mais valia um judeu
vivo que dois mortos, posto o que
viajou para Amsterdão - se não foi
ele foi o primo; de qualquer forma,
os tempos iam maus, na foz
do Tejo: terramotos, milagres,
espantosos sinais de apocalipse
comprovado. Davi Negro, cidadão
de Lisboa um pouco crédulo, pisgou-se
uma manhã; e com teres e haveres,
(bastos haveres) rumou a norte, num
navio flamengo. Pelo apocalipse, por
cá, ainda esperamos. Enquanto isso,
é sempre bom conhecer Amsterdão.

  Graça Videira Lopes in " Paisagens e outros lugares a discutir ", Arte Comum,
Lisboa, 2005, p 22.
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" Um rei que não regressa é um rei morto,/ mesmo que os seus olhos nos fitem na distância, "

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 " Neblina "

A melancolia é um barco encalhado
no meio do Tejo, numa manhã de nevoeiro.
Chora o Cais das Colunas, num filme
a preto e branco, a memória dos que partiram
para o deserto sem regresso do império:
gaivotas acenando em terra, voando
em círculo sobre os mastros, onde flutuam,
imóveis, os estandartes do tempo.
Um rei que não regressa é um rei morto,
mesmo que os seus olhos nos fitem na distância,
no espanto de um tesouro por encontrar.
Há dias em que, na espuma do Tejo, o que regressa
são os navios dos que o seguiram rumo ao sul.

  Graça Videira Lopes in " Paisagens e outros lugares a discutir ", Arte Comum, Lisboa, 2005, p 12.
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05/09/11

 
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 " Amo-te assim sem corpo "

 
amo-te assim sem corpo.
sem dias que sacodem lembranças.
sem últimas coisas.
sem ouvires de língua.
sem palavras que respiram pelo
nariz de outras.
sem compromissos abdominais.
sem o coração no bolso.
sem ruídos obscenos que
indiciam nudez.
sem borboletas vulgares
sobre o poema.
sem o conhecimento de toda a gente.
sem o teu conhecimento
ou existência.
amo-te assim sem corpo
com todo o meu corpo,
lembranças,
últimas coisas,
ouvires de língua,
palavras ardentes como
febres frias,
compromissos fundidos noutros,
o coração dobrado,
as braçadas da vida
nua e lenta como a borboleta
neste poema.
amo-te assim sem vida.
sem morte.
sem corpo.

Sylvia Beirute in " Uma prática para desconcerto ", 4 Águas, s/c., 2011, p 19.
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" Allen Ginsberg industries "


é um temperamento ser longínqua.
nunca tive um projecto.
completudes no osso. tive contradições
que me começaram a entender
e fui descoberta por uma geração
sem geração, quando eu só queria
escrever poesia. é óbvio que tive
as minhas preocupações,
mas todas se resumiam a letras.
as letras são partes de palavras
e ninguém parece saber.
é o mesmo que o órgão
em relação ao corpo. não é diferente.
por exemplo a palavra amor:
o poder da letra "o" é diferente
da letra "r". muito diferente.
a palavra poderia viver sem essa
última letra, mas não sem o "o".
alguns poetas parecem escrever
e fazer amor sem "o".

 Sylvia Beirute in " Uma prática para desconcerto ", 4 Águas, s/c., 2011, p 50.
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 " O beijo de Rodin "


não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de autopertença e
leves contradições sem alarme e gafanhotos.

não é em vão
que o beijo de rodin é de pedra.

  Sylvia Beirute in " Uma prática para desconcerto " , 4 Águas, s/c., 2011, p 60.
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 " Poema 26 do capítulo Caligraphias "


hoje seremos outros ao acordar:
da janela aberta, orquestrando nevoeiros,
escutaremos o sibilar insuspeito da penumbra
a inquietude do acorde menor
escreverá a letras de fogo a solidão das asas.

dormes um pouco mais:
um gotejar de vazio convence-te a ficar
mas nada explica esta demora
o corpo terno hibernando de mansinho
dando um indefeso descanso à sombra diligente

lá fora o dia acossado pelo medo à mercê das
luzes estridentes
e aqui a tua pele espreguiça quente, beijando os
lençóis descartáveis
enquanto os músculos se rendem a este crime
perfeito perpetrado
a bandeira a meia-haste no palácio do sono
protege o casulo transparente em que habitas
por agora

sem arrependimentos,
perdemos a tinta fresca do café,
as fotografias anónimas no túnel do marquês
e o paciente virar dos placares publicitários
amanhã vou entregar-me à deriva

deixarei de ser bicho-de-conta sem pressa
e procurarei abrigo nas paragens de autocarro

Ricardo Gil Soeiro in " Caligraphia do Espanto ", Edições Húmus, Ribeirão, 2010, p 40.
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04/09/11


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" Poema 42 do capítulo Caligraphias "


a conta gotas,
sou eu quem ama a suave melancolia ( sforzando ).

é possível que nos possamos encontrar uma nova
vez,
as palavras têm uma paciência infinita.

 Ricardo Gil Soeiro in " Caligraphia do Espanto ", Edições Húmus, Ribeirão, 2010, p 56.
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02/09/11

" olha, portugal/ começo a ficar deveras ressentida! "


 "Portugal"

portugal
eu tenho vinte e quatro anos e tu fazes-me sentir
como se fosse nova demais para ti, embora me lem-
bres que estou a caminhos dos trinta.
que culpa tenho eu
que as únicas mulheres da história portuguesa em
fascículos
eram uma padeira que nunca existiu e umas quantas
rainhas loucas, mães e megeras
só porque escolheste um treçolho na ponta do dedo
indicador?

não imaginas como nem sequer fico húmida quando
ouço o hino nacional
não estou virada p'ra te levantar o esplendor
( decerto as minhas egrégias avós me compreendem )

ontem fui às compras com a Maga Patalógika
- a vida está cara
a cara com o mal
é o que dá dar
a outra face -
e ela em vez de me dar uma poção, a querer conven-
cer-me que com um ben-u-ron tudo passa
até esta hemorragia de lágrimas e pétalas em salga
esta mucosidade lusa a escorrer pelo atlântico e a
acender lusos

portugal
um dia fechei-me no parlamento a ver se te
compreendia
mas a única coisa que apanhei
foi uma otite

olha, portugal
eu quero lá saber da nação! - mas levo-te sem-
pre no bolso para ver as horas a transformar-
me no Coelho Branco
olha, portugal
eu quero lá saber da nação! - mas pelo sim
pelo não
vou votando quando não faço aviões de papel

portugal, estás a ouvir-me?
eu sei que não. as mulheres falam de mais,
não é? olha só este poema que já vai em duas
páginas

portugal
eu nasci em mil novecentos e oitenta e quatro
cheguei tarde de mais para a festa dos cravos
mas ainda assim
puseram-me um prato na mesa
- estou agora a almoçar
faltam talheres, copo, guardanapo e compa-
nhia - nada de ressentimentos
ainda tenho a mão que me sobrou de escrever
uma guerra nunca contada
faltam as barrigas de freira para a sobremesa
que não devem tardar
- eles dizem que este banquete será sempre bom
demais para mim
esquecem-se que somos nós que levantamos a
mesa e lavamos a louça e tentamos aquecer
os restos
no micro-ondas

eu nasci em mil novecentos e oitenta e quatro
a venezuelana Astrid Carolina Herrera Irrazábal
é eleita Miss Mundo - nada de ressentimentos

eu nasci em mil novecentos e oitenta e quatro
mário soares estava no poder e segue-se-lhe
cavaco silva - nada de ressentimentos
à parte o facto de em dois mil e seis voltarem os
bonecos bolorentos de uma colecção antiga às
vitrinas presidenciais

olha, portugal
começo a ficar deveras ressentida!

portugal,
vou propor-te dois projectos eminentemente na-
cionais - porque está visto que um só não chega
que bebas um litro e meio d'água por dia, andes
meia hora a pé e durmas as oito horas
e que vamos todos e todas
aprender renda de bilros

portugal
gostava de vestir-me de ti
se numa noite de inverno

Rita Grácio in " Três Poetas Portugueses ", RG Editores, São Paulo, 2011,
pp 24 - 26 ( Organização de Álvaro Alves de Faria ).
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01/09/11


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 " Galo preto "

Convém ignorar o canto
de quem se julga
o senhor do sol e da lua.
Ele empina o corpo rijo
para anunciar fatos
que são puro veneno.
Melhor um despertador
para informar as horas.

Olhe para o pescoço,
a vibração da língua,
as faíscas das esporas.
Todas as veias pulsam
com desejo de morte.
Quer as cristas dilaceradas,
o inimigo com má sorte
e a rinha tinta de sangue.

Crédulos o imolam
para que seja o arauto
da entrada da alma
em um mundo de luz.
Porém, antes da degola,
o último canto conduz
mais um condenado
às portas do purgatório.

  Donizete Galvão in " O homem inacabado ", Portal Editora, São Paulo, 2010, p 44.
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(Nota - a palavra "fatos", do 5º verso da primeira estrofe, engloba-se na categoria das palavras de dupla grafia...).
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31/08/11

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          " A cidade "


Por mais que insistas em recusar,
esta é, sim, a tua cidade concreta
onde tantos te ofereceram amizade
e o amigo partiu pela porta secreta.

Andaste cabisbaixo pelas calçadas
remoendo as humilhações do trabalho.
Marcaste este chão com teus passos,
dores recolhidas como um restolho.

Aqui nasceram os filhos, a epifania
das infâncias que sumiram passageiras.
Abriste envelopes com muito medo,
receoso daquelas notícias derradeiras.

Tu que amas a simetria permanente
viste a barriga da cidade arregaçada.
Como nas telas de Anselm Kiefer,
tens nela tuas perplexidades retratadas.

  Donizete Galvão in " O homem inacabado ", Portal Editora, São Paulo, 2010, p 59.
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30/08/11



 " Dans les veines "

Dans les veines tombes déjà presque vides,
Le désir encore effréné,
Dans mes os qui se glacent le caillou,
Dans l'âme le regret sourd,
L' irrésistible noirceur: dissous-les.

Du remords aboyant sans fin
Dans l'innombrable ténèbre,
Terrible séquestration,
Rachète-moi, et la pitié de tes paupières,
De sur ton long sommeil, soulève-la.

Que ton signe brusque et rose,
Àme féconde, remonte
Et me revienne surprendre;
Inespérée, ressuscite,
Mesure incroyable, paix;

Fais que je puisse, en l'espace calmé,
Réépeler les paroles naives.

  Giuseppe Ungaretti in " Vie d'un homme, Poésie 1914 - 1970 ", Éditions de Minuit-Gallimard,
Paris, 1973, p 225 ( Traduit de l'italien par Philippe Jaccottet ).
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29/08/11

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 " Combe Nocturne "


La face
de cette nuit
est desséchée
comme un
parchemin

Ce nomade
crochu
soyeux de neige
se laisse aller
comme une feuille
roulée

L'interminable
temps
se sert de moi
comme d'un
bruissement

 Giuseppe Ungaretti in " Vie d'un homme, Poésie 1914 - 1970 ", Éditions de Minuit-Gallimard,
Paris, 1973, p. 78 ( Traduit de l'italien par Jean Lescure ).
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28/08/11

"Les petits mouchoirs" (pequenas intrigas entre amigos).


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Ludo (Jean Dujardin), carregado de snifadelas e ácidos tem um violento acidente de moto, Vincent (Benoît Magimel) apercebe-se que se apaixonou pelas mãos de Max, o padrinho do filho (François Cluzet), Marie,
(Marion Cotillard) apesar de manter uma relação aberta com um jovem músico de Paris, traz no ventre um filho de Ludo, etc., etc. Este é um grupo de amigos que, ano após ano, se mantém coeso apesar de tanta tanta coisa negativa: ciúmes, invejas, omissões... Não concordo, como alguns escreveram, que as pequenas mentiras entre os vários elementos do grupo se devam ao facto de eles, muitas das vezes, não confiarem uns nos outros, quanto a mim elas relevam antes da preocupação de manter a coesão desse mesmo grupo retirando-lhe o que poderia vir a assumir a forma de enormes cascatas de violência. Aliás, a acusação de Louis Philipe, já perto do final da película, de que eles passam a vida mentindo-se uns aos outros, e, sobretudo, a si próprios... essa acusação só pode ser feita, porque vem de alguém que não demonstra o mínimo interesse em sair do seu isolamento.
Um soberbo filme com uma cuidada caracterização das personagens: o obsessivo (François Cluzet), a naturalista Zen ( Valérie Bonneton), a melancólica com grandes esferas de silêncio (Marion Cotillard), o hetero que por desejar tanta saia acaba perdendo a que mais queria ( Gilles Lellouche)...
Um minucioso e atento olhar sobre as relações humanas e os afectos numa realização de Guillaume Canet.
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25/08/11

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 " La Pitié"

1

Je suis un homme blessé.

Et je voudrais m'en aller,
Je voudrais enfin arriver,
Pitié, lá où l'on écoute
L'homme seul avec lui-même.

Je n'ai que superbe et bonté.

Et je me sens en exil entre les hommes.

Mais je suis en peine pour eux.
Serais-je indigne de rentrer en moi?

J'ai peuplé de noms le silence.

Ai-je dépecé tête et coeur
Pour être asservi à des mots?

Je règne sur des fantômes.

O feuilles sèches,
Âme emportée cà et là.

Mais je hais le vent, et sa voix
De fauve sans mémoire.

Dieu, ne te connaissent-ils plus,
Ceux qui t'implorent, que de nom?

Tu m'as chassé de la vie.

Me chasseras-tu de la mort?

L'homme est peut-être indigne même d'espérer.

Même la source du remords est-elle à sec?

Q'importe le péché
S'il n'est plus voie de pureté?

La chair à peine se rapelle
Qu'elle fut un jour si forte.

L'âme est folle, et vermoulue.

Dieu, regarde notre faiblesse.

Nous rêvons d'une certitude.

Tu ne nous railles même plus?

Compatis donc, cruauté.

Je n'en peux plus d'être muré
Dans le désir sans amour. 

Montre-nous quelque trace de justice.

Qu'est-ce que c'est, ta loi?

Foudroie nos pauvres émois,
Délivre-moi de l'angoisse.

Je suis las de hurler sans voix.

2

Chair de mélancolie
Où foisonnait jadis la joie,
OEil demi-clos du réveil harassé,
Âme trop mûre, vois-tu
Celui que je serai sous terre?

Le chemin des morts passe en nous.

Nous sommes le fleuve des ombres,

Elles sont le grain qui éclate dans nos rêves,

Elles sont la distance qui nous reste,

L'ombre qui donne poids aux noms.

Notre sort ne serait-il rien
Que l'espoir d'un ramas d'ombres?

Toi, Dieu, ne serais qu'un songe?

Ce songe, au moins, téméraires,
Nous voulons qu'il te ressemble.
Il est le fruit de la plus claire folie.
Il ne tremble pas au fil des paupières
Comme aux branches nuageuses
Les moineaux du matin.

Il est en nous qui pleure, mystérieuse plaie.

3

La lumière qui nous meurtrit
Est un fil toujours plus ténu.

N'éblouis-tu plus sans tuer?

Donne-moi cette joie suprême.

4

L'homme, monotone monde,
Croit agrandir son empire
Et de ses fiévreuses mains
Ne sortent jamais que des bornes.

Suspendu sur le vide
A un fil d'araignée,
Il ne craint et ne séduit
Jamais que son propre cri.

Il répare la ruine en dressant des tombeaux,
Et por te penser, Éternel,
Il n'a rien que blasphèmes.

 Giuseppe Ungaretti in "Vie d'un homme - Poésie 1914-1970 ", Éditions de Minuit-Gallimard,
Paris, 1973, pp 177 - 180 (Traduit de l'italien par Philippe Jaccottet ).
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23/08/11


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perdi-me em funduras de juntas
perdi bichos nas moitas, rastros no escuro
perdi mormaços, brisas
fui gerando meu pisado vagaroso
nas fracturas das coisas

  Vera Lúcia de Oliveira In "Entre as junturas dos ossos", Ministério da Educação,
Brasília, 2006, p 18.
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Ler é viajar, é viver mais intensamente, viver em dobro. Porque além da vida que está dentro de nós, há a vida que estamos seguindo nas páginas de um livro. Vamos ficando mais conscientes pela leitura, acho que até mais intensos e belos. Ler significa ver, abrir-se ao mundo, ter curiosidade e interesse por tudo. (...) A leitura torna mais vasto o mundo de quem lê. Também desperta a sua imaginação e você ganha condições de aprender e desenvolver seu senso crítico e cultural. Quanto mais livros você ler, mais aumenta o prazer de ler, mais alegrias você terá com a leitura. Com isso, todos ganham, você, a sua família, a sua comunidade e a sociedade em que você vive.

 Vera Lúcia de Oliveira (excerto de uma entrevista) in "Entre as junturas dos ossos", Ministério
da Educação, Brasília, 2006, pp 63 - 64.
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21/08/11

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A casa dos avós, com dois pisos superiores e varandas de ferro fundido rasgadas sobre a rua, tinha um grande quintal nas traseiras, um quintal onde cresciam flores sob as copas das árvores e onde Mike encontrava uma liberdade de movimentos e um manancial de descobertas que nada, então, poderia substituir. Quando deixou de trepar às árvores e investigar caves e arrecadações, encontrou outros prazeres na casa de São Francisco: primeiro, nos livros que enchiam as estantes da ampla sala de estar; e mais tarde, já adolescente, depois da morte do avô, em longos diálogos com a avó Rafaela. Os pais diziam-lhe: "Quando saíres do liceu, vai a São Francisco fazer um pouco de companhia à avó." E ele ia, obediente e cumpridor, mas também seguro de que, aos doze ou treze anos, tinha efectiva capacidade para distrair a avó Rafaela do seu desgosto e confortá-la com a sua presença.
Mais tarde, quando já estudava em Londres e tivera a primeira experiência directa da solidão, descobrindo o preço a pagar pela euforia da liberdade, da posse do tempo e da autonomia nas escolhas, Mike começou a entender melhor a extensão do sofrimento da avó: para ela, não tinha havido contrapartida de nenhuma espécie em troca da solidão, ela não precisava de de mais liberdade nem sonhava com aventuras, precisava apenas da presença do homem com quem partilhara mais de quarenta anos de vida. Pela primeira vez, Mike avaliou a dor de quem fica, como a avó ficara, condenada a enfrentar a sobrevivência e a querer fazê-lo com dignidade e respeito por si própria - e compreendeu que essa dor só poderia ser comparável à de quem parte, à de quem reconhece a aproximação da morte e sofre pela irremediável solidão em que deixará a companheira de toda uma vida. Encontrou algum alívio na certeza de que não compete a nenhum ser humano proceder à terrível decisão de escolher quem parte e quem fica, nem tão-pouco à penosa descoberta de qual dos dois sofrerá a dor maior que cada um gostaria de poupar ao outro.
(...) Na previsão do desagrado da mãe perante o seu envolvimento com Katherine, Mike precisa de falar com a avó que, neste caso específico, dispõe da vantagem de não ser inglesa e de conseguir manter um distanciamento muito maior perante o novo conflito a acontecer. Na sua própria casa, só se fala de guerra, as cartas que a mãe recebe de Inglaterra fazem eco de um clima de tensões e incertezas, mas também da convicção generalizada de que urge travar os planos expansionistas de Hitler. Num contexto tão ameaçador, poderá a mãe aceitar o seu envolvimento com uma alemã?(...) E a avó? Poderá a avó entender uma situação sentimental tão diferente daquela que ela própria viveu, numa sociedade em tão rápida e radical mudança e, sobretudo, no provável limiar de uma nova guerra? Valerá a pena falar-lhe de Katherine? Mas se não falar com a avó, com quem será então?
(...) Rafaela tem umas mãos fortes. São longas e esguias, mas fortes. "Umas mãos bonitas", dizia-lhe o marido, " e umas mãos capazes. As tuas mãos são o teu retrato, o retrato de uma mulher que não se intimida com nada, nem se deixa intimidar por ninguém." Foi com essas mãos fortes e a sua alma lutadora que Rafaela reorganizou a sua vida quando João Miguel morreu. Não queria viver sozinha, mas também não queria sobverter a sua casa e a sua vida (...). Olhou à sua volta, à procura de gente como ela, não necessariamente velhas amigas mas mulheres sozinhas como ela própria, compatíveis nos hábitos (...) mulheres que gostassem de ler, que soubessem conversar mas que não se sentissem incomodadas pelo silêncio, que cultivassem o companheirismo mas que não hesitassem em sair sozinhas quando lhes apetecesse - não estaria a pedir demasiado à vida?
(...) Começaram a visitar-se, a sair juntas, a trocar livros e a discuti-los, num entendimento sereno que foram cultivando com prudência, como se todas partilhassem a noção de que já não tinham idade para ser ingénuas, ou que mais valia prevenir do que remediar, ou qualquer outra pérola equivalente da sabedoria tradicional...
(...) "Miguel... Miguel!"
"Avó? Desculpe, estava distraído..."
"Andas muito distraído...", comenta Rafaela, sarcástica.
"Quem é a beldadezinha que tanto te distrai?"
" Oh, avó, acabo de contar-lhe que ando cheio de trabalho, deito-me muito tarde, oh, avó, por favor..."
Célia e Bela riem e apoiam-no, não por acreditarem nos seus protestos, mas exactamente por não acreditarem - e gostarem de ser cúmplices, ainda que de longe, ainda que de leve, numa eventual história de amor.
Mike sorri-lhes, grato pelo apoio. E Rafaela, com falsa severidade, declara-se traída por todos.

 Helena Marques in " O bazar alemão", Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2010, pp 77 - 86.
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19/08/11

Acerca de... ( VI )

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Estava fora do país quando o Victor, de quem tenho a honra e o privilégio
de ser amigo, me pediu para fazer a apresentação de "Regresso", tendo-me
enviado por e-mail os poemas e a eles juntado umas simpáticas linhas nas
quais indicava ser de sua vontade que eu estivesse hoje aqui a falar sobre
o referido livro.
Nem queria acreditar! Pensei que se tratasse de um engano.
O que levaria um poeta com a qualidade e o vigor do Victor a pedir-me que
falasse da sua poesia e dos seus poemas?
Geralmente a tarefa de apresentação de obras poéticas é indicada a quem
sabe e estuda poesia e não a quem vive e ama a poesia, aludindo-a como
livre e longe, epítetos capazes de compreender a existência humana:
Longe na distância que separa o poeta dos outros, de uma sociedade que
ajuda a construir, mas da qual se afasta por amor e, muitas vezes, por lágrimas;
Livre, porque há no poeta a certeza de tocar as consciências futuras, cons-
truir sedosos caminhos sem barreiras, permanecendo quieto, devolvendo o
movimento à ignorada beleza das palavras.
Aceitei o desafio! Aqui estou, agradecendo ao Victor este convite, felicitan-
do-o pelos poemas e a todos pedindo desculpa e compreensão para as
fracas e poucas palavras que posso e sei dizer sobre "Regresso".

A poesia, não é recordação, é uma presença feminina importante, o contrá-
rio do poeta, por isso ele próprio - o lado mais visível da saudade!
Com a poesia - e através do poema - aprende-se a Humanidade, o desejo
e a sua lei, a entrega, o abandono, o convívio com o abraço que nos não
quer, mas ao qual desejamos sempre regressar... Aprende-se a ser devol-
vido, constantemente, ao amor da infância, à posse dos lábios detidos na
memória e no medo. A vida passa a ser feita de ilusões, de actuais e an-
tigos sentimentos, de uma troca amorosa constante, de rios doces e ocea-
nos salgados, de permanecermos e de partirmos... sempre.
REGRESSEI a Lisboa, contactei o Victor que me confirmou a vontade
verdadeira que fosse eu a falar do seu livro de poemas. Infelizmente tive
de o ler em folhas de papel, soltas... o livro físico ainda não existia!
REGRESSO - esta é a primeira pessoa do Presente do Indicativo de ver-
bo "regressar"? Ou não será antes um substantivo? Encontraremos, neste
livro, substâncias psicológicas ou momentos de uma dada acção? Deixo
aqui estas interrogações como base de possíveis linhas de leitura!

A competência da poeticidade de "Regresso" declara o reflexo intelectual
na vivência dos dias. Os poemas afirmam-se num corpo, no mundo rece-
bido através dos sentidos.
A poesia de Victor Oliveira Mateus ensina-nos o poema como semente
aquecida no coração da memória, resgatada pela alma, oferecida e alimen-
tada pelo corpo. Comovem-me as palavras, as letras, a ética do poema
e o que me traz aqui também são as imagens de Turim, que tenho gravadas
na memória e que neste conjunto de poemas redescobri: no leito do rio Pó,
na Praça San Carlo, na Diagonal que corta a cidade ou na via Roma... Em
tempos vivi em Turim, onde leccionei, agora regressei-lhe pela voz de um
sujeito poético habitado pela cidade, pelos destinos de sombras imacula-
das, de noites perpétuas e artificiais, de paisagens inabitadas, de lugares
vazios de lembrança, de caminhos frios e ininteligíveis, de espaços de aban-
donos prometidos, de largos, praças esquecidas, palácios-museus, de es-
pectros estranhos, de uma lívida imagem presente, de mosteiros e conven-
tos, abadias de morrer, de silêncios no silêncio, de braços imateriais...
A memória persegue o sujeito do poema, nela, este procura a unicidade
na extravagância das diferenças, da mesma forma que essa Itália unida
e transformada em nação por Vitorio Emanuel e Garibaldi, se mantém
diversa nas suas culturas, línguas, modos de ser... O indivíduo busca a sua
singularidade, deparando-se com a multiplicidade, deparando-se com
esse ser muitos a regressar ao mesmo! Nesta condição, poema, poesia
e poeta transportam, nas mesmas águas, um não sei quê de estar ali
não estando, sendo o oposto também verdadeiro. Assim, creio que existe,
em "Regresso", um persistente fio condutor que é, afinal, a grande preocu-
pação do autor, latente em toda a obra - a questão da busca total do sen-
tido da Vida, e isto com uma visão intensamente envolvente, porque cor-
poral, espiritual e mental.
Regressar não é voltar a um local, nem mesmo a um estado de alma, ou
revisitar sensações (o sujeito da enunciação dá-se conta da completa im-
possibilidade de regresso a um tempo pretérito!), regressar é tornar futuro
o já passado, tentando que este se espelhe no presente! Regressar é o
movimento que tenta contrariar a insofismável verdade da inexistência do
tempo; esta tentativa de demonstrar a inexistência do tempo, que a língua
teima em marcar... : faz-nos voltar de novo onde o pretérito já foi e será
(também) futuro! O regresso é também um movimento filosófico cheio de
novidade, curiosidade, mobilidade psicológica - Vida! De tanto regressar-
mos construímos a nossa própria história, a consciência, a saudade. Assim,
se constantemente soubermos regressar, adiamos a morte! Pois voltarmos
aos braços, e lábios, de um amante pode ser a prova que vamos tentando
fixar na memória o futuro de um corpo desnudo que, com o tempo, se des-
vaneceu, e que agora se nos dá transformado numa realidade não tangível.
Um dia, a escritora Isabel da Nóbrega ensinou-me como avaliar uma obra
poética, dizendo: "se no final da leitura, por um impulso inexplicável, te pu-
seres em pé, então estás em face de um bom livro, de uma esplêndida obra
literária!" É por isso que, de pé, aplaudo o "regresso" de Victor Oliveira
Mateus a mais um livro de poemas.
Muito obrigado!

 Henrique Levy, texto de apresentação do livro "Regresso", Lisboa, 27 de Novembro de 2010.
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18/08/11

Acerca de ... ( V )

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Começo por felicitar a Editorial Labirinto pela iniciativa de publicar
este belo livro de poesia da autoria do poeta Victor Oliveira Mateus
trazendo até nós, deste modo, o irresistível canto de sereia de Angélica
Ionatos, consubstanciado nas palavras inspiradas do poeta.

Nesta obra damo-nos conta da feliz união da voz da cantora grega com
a palavra mágica do poeta Victor Oliveira Mateus, que parte em deman-
da da ilha encantada de Citera onde, supostamente, a dourada Afrodite
o aguardará com os seus mistérios. A voz é aqui a criatura e a escrita,
o mineral de que se faz o sonho e o pensamento. O poder e o estatuto
da voz é também propriedade do poeta, que sujeita o seu texto ao po-
der dessa mesma voz, o local de partida é incerto, mas o de chegada é
a outra margem do mar, é Citera; a intenção é clara: " um roteiro reve-
lando novos mares, outros países para que neles possa partir e não mais
voltar". É, portanto, uma viagem sem regresso.

O tema da viagem, do périplo e da ilha, glosado por poetas da grandeza
de Yeats e Cavafy, adquire na obra de Victor Oliveira Mateus contornos
que remetem para os níveis mais profundos do significado: a margem da
distância, do sono, do crepúsculo e da morte. Tal como nos antigos
immrama celtas, o poeta demanda uma ilha misteriosa e secreta, e rea-
liza, no seu périplo, um intenso percurso interior. O poeta sabe que esse
local procurado se encontra " para lá do vazio e da felicidade imitada",
mas quando arriba a Citera escreve: "finalmente alcançada com o teu
braço sobre os meus ombros" e, explodindo depois num delírio de sen-
timento: é em ti que me renovo, Citera.

Tal como acontece na viagem de Cavafy para Ítaca, Victor Oliveira Ma-
teus busca e encontra na sua ilha vivências e saberes. Sente o corpo e o
espírito permanentemente tomados por uma excitação rara, que contagia
quem lê a sua poesia. Chegar a Citera é um destino último. Sem Citera
nunca teria partido em busca dos segredos da vida e da morte. Compreen-
der o verdadeiro sentido de Citera é meta final da obra. A viagem é lon-
ga, aventurosa, cheia de perigos e enganos. Mas se monstros encontra-
mos é porque em nossa alma os transportamos. Serão essas "as ilhas
humanas" a que o poeta faz alusão?

Chegados a este ponto já estamos a caminho, e em peregrinação para
um não-lugar. Com o poeta vamos "esquecer o que a realidade foi e assim
construir o que ninguém alcançou". Mais adiante confessa-nos: " do que
mais gosto é do que nelas não há".

O poeta transmutou-se em veículo de Amor e de Poesia, ainda que sem-
pre sob o temor " de que possas não vir", porque ele sabe, ele já conhece
"o amor vivido e o amor buscado de que ele é cópia "; Platão também acre-
ditava que o verdadeiro Amor é afinal o amor à Sabedoria, sendo o desejo
cego um mero impulso, na infinda avidez de ser o outro.
A poesia de Victor Oliveira Mateus é portanto, ela mesma, uma irresistível
voz, prenhe de significados, até à eternização final de tudo o que fica: a obra
poética, na particular paisagem pessoal do poeta, em todas as suas modula-
ções e excentricidades ocasionais.

  Maria Lucília Meleiro, texto de apresentação do livro
" A Irresistível Voz de Ionatos", Lisboa, 31 de Março de 2009.
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17/08/11

José Agostinho Baptista dito por...


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" Poema 29" do livro "Jeremias o Louco" de José Agostinho Baptista.
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Acerca de ... ( IV )

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Há um lugar principal na poesia de A Irresistível Voz de Ionatos, de
Victor Oliveira Mateus: o do amor, ou seja, o da "(...) terra finalmente
alcançada com o teu/ braço sobre os meus ombros." O do amor sobre-
tudo como sujeito da procura interior, viagem em cada poema renova-
da num "(...) percurso onde sempre me busco/ e busco do ser sua ní-
tida fonte."
Ao centrarem-se na ilha de Cítera, as imagens poéticas incorporam
com delicadeza a representação do alegórico, do mítico e o que neste
existe de onírico e de dimensão filosófica mas empreendem, também,
luminosas aproximações ao concreto: à inquietude, às perdas, ao de-
sejo.
A celebração do amor e seus paradoxos, Victor Oliveira Mateus fá-la
de verso para verso intensificando a dramaticidade do eu entre "essa
infinda avidez de ser o outro" e o despojamento perante " a morte pres-
sentida", em Lefteris cativo "(...) ante a imensidão do mar e o esmore-
cer do sol ", suspenso da "irresistível" voz de Angelique Ionatos. A ten-
são lírica é, no entanto, sempre vigiada, nada de excessos. Exemplo
disso, o poema 22, um dos mais belos do livro: " Nunca te pedi que
ficasses. Nem que uma qualquer/ dádiva fingisses na irremediável
mobilidade dos afectos. "
Conjugando "a beleza clássica e moderna", conforme diz Olga Savary
na contracapa, A Irresistível Voz de Ionatos reforça uma estética do
sensível, um "estilo fluido", sublinhado por Cláudio Neves no posfácio.
Trata-se de uma escrita na qual as palavras são a mágica tranquilidade
( sábia viagem) com que o poeta tem vindo a trabalhar a consciência
do texto.
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  Maria Augusta Silva in " NS - notícias, sábado 176"
suplemento do "Diário de Notícias" de 23 a 29 de Maio de 2009.
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Acerca de ... ( III )

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Como um espia ou um detetive de afetos, abandonando-se num
tufo de metáforas, eis a periculosidade do poeta, especialmente
do poeta português Victor Oliveira Mateus. Nas asas da poesia,
Victor solta os pássaros e canta - e voa. De tudo se ocupa sua
poiesis: da pátria, sua terra e chão, o de hoje e o primitivo, do azul
do Tejo e outros azuis, mas fundamental são as pulsações da vida
e da morte, da memória, da infância (já não dizia Baudelaire que
poesia é a infância reencontrada?). Poesia deve ter carne, suor,
sangue, agonia e perplexidade, reflexão e prazer. Em seu novo
livro, Victor nos dá tudo isso, na medida certa. Aqui nada é ex-
cesso. Tudo é sóbrio, porém transborda emoção. Na batalhas
das raízes, buscando-se e buscando-nos nos abismos, esta mis-
teriosa poesia, rubro dragão a rutilar na escuridão, é toda luz, in-
trépido fulgor. Como tantos outros esplêndidos poetas portugue-
ses, Victor Oliveira Mateus atua em nós, seus leitores, com a
beleza clássica e moderna de sua lúcida poesia.
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   Olga Savary In contracapa de "A Irresistível Voz de Ionatos", Edª Labirinto, Fafe, 2009.
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15/08/11

Um pequeno contributo para...

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" IMAGENS DA SEXUALIDADE NA OBRA DE FERZAN OZPETEK"
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( A problemática da orientação sexual na filmografia do século XX)
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Um primeiro olhar sobre a obra de Ozpetek remete-nos de imediato para uma das pedras-de-toque da nossa cultura: a relação dos fenómenos com a linguagem e o consequente processo de universalização que desemboca na clarificação dos conceitos. Esboçada já na Antiguidade - lembremo-nos das críticas dos Cínicos ao Platonismo -, a questão dos Universais dá o seu primeiro grande passo na Idade Média - é Roscelino, século XI, quem peremptoriamente afirma: as ideias abstractas não passam de flatus vocis (sopro de voz): instaurando-se assim definitivamente o Nominalismo que Guilherme de Occam, no século XIV, viria a desenvolver e a aprofundar. Sem nos determos na relação que Occam estabelece entre o conhecimento intuitivo e a experiência, digamos tão-só que é baseando-se nesta última que este filósofo afirma a individualidade do real enquanto tal, criticando assim com acerbidade todas as teorias que concedem ao universal um qualquer grau de realidade (cf. In Sent I, d. 2, q. 7 S). Para o que nos interessa neste artigo acrescentemos que Occam não nega a realidade do conceito, mas vê-o apenas como algo mental, tendo, por conseguinte, uma consistência exclusivamente subjectiva, determinada e... singular, com uma função puramente significante; o conceito é um signo das coisas, algo que está em lugar delas e é deste modo que o usamos nos juízos e nos raciocínios. À luz destas posições ( e sem desenvolvermos como muitas destas teses nominalistas irão depois reaparecer em Russell e Wittgenstein) percebemos como, apesar do termo sexualidade do nosso título, se possa dizer que na obra de Ozpetek - e, aliás, na linha do que muitos sexólogos vêm actualmente defendendo - não existe um padrão unívoco da heterossexualidade, mas sim heterossexualidades, nem tão-pouco um arquétipo da homossexualidade, mas antes homossexualidades. Uma posição deste tipo não nega as derivações interpretativas centradas no primado do genótipo e/ou do hipotálamo, antes as integra, mas recusa-se a ver o comportamento sexual dos humanos determinado exclusivamente por uma orientação originária, mecanicista e inamovível.
A tendência para abrir o leque, ao nível da observação e da análise, dos vários comportamentos humanos de tipo sexual - desembocando muitas vezes no âmbito da bissexualidade - aparece, de forma nítida, mas ainda num pequeno número de filmes da cinematografia europeia da segunda metade do século XX, são disso exemplos três dos maiores realizadores desse período: Pasolini com o seu Teorema (1968), Fellini com a sua adaptação do Satyricon de Petrónio (1969), Visconti adaptando também a novela de Mann, Morte em Veneza (1971), e, no seu penúltimo filme, Violência e Paixão (1974), entregando a Burt Lancaster o papel do velho professor que, retirado e rodeado de livros e obras de arte, se vê subitamente envolvido com um grupo de novos vizinhos, vindo a desenvolver um relacionamento ambíguo com um deles. É evidente que a função primordial de qualquer destes filmes não é aquela que aqui estamos a referir - por exemplo, em Teorema e em Violência e Paixão o objectivo é antes a desmontagem de alguns valores intrínsecos à burguesia bem comportada, bem como a algumas instituições nomeadamente a família. Aliás, e como mero parêntesis, digamos que é nesta preocupação de dissecar o quotidiano dos bem comportados que entroncam também alguns filmes já do século XXI, como por exemplo o Tudo pode dar certo de Woody Allen (2009), onde o pai de Melodie corre para Nova Iorque na busca da mulher e da filha e acaba envolvido com alguém que não é filha nem sequer mulher, ou ainda o radical Transamerica onde a actriz Felicity Huffman é soberba na interpretação daquela transexual a quem a sua compreensiva psiquiatra não concede a autorização final para a mudança de sexo, enquanto este ele  não disser toda a verdade ao filho (Kevin Zegers) que havia feito a uma colega de faculdade e que a vida acabara de colocar no seu caminho. Parecendo ser apenas um filme sobre a mudança de género, Transamérica (2006) é também uma grande aula de psicanálise, sobretudo se nos pusermos a dissecar a relação das agora duas irmãs com a mãe. Mas, e recuando às duas últimas décadas do século XX, a História do Cinema conheceu um verdadeiro boom com autênticos estudos de caso que irão entrecruzar: orientação sexual/ valores dominantes e contingência, e esse boom invadirá quer o drama quer a comédia; relativamente a esta última não nos podemos esquecer da lésbica de Belle Époque (filme de Fernando Trueba, 1992), exemplarmente interpretada por Ariadna Gil, que, a certa altura, se sente atraída pela personagem de Jorge Sanz, sobretudo quando o descobre fantasiado de criada. É fazendo rir que Trueba demonstra que a imaginação e a fantasia desorientam o que até então era tido como A orientação sexual, assim como altera um percurso que se julgava de pendor fiixista e fá-lo através de outras variáveis ligadas à aprendizagem e ao social. Até a violência, sobretudo a física, pode desencadear essas mudanças comportamentais, essa desorientação da orientação, como na cena de pugilato no Oito mulheres, de Ozon, quando Catherine Deneuve e Fanny Ardant se amarfanham pelo chão de uma enorme sala. A prostituição masculina, que Andy Warhol já tinha exibido na sua célebre trilogia ( Flesh, Trash e Heat), mas de que se fala hoje muito mais do que há algumas décadas, traz para a luz do dia outro tipo de variáveis ligadas agora ao socio-económico, ao estatutário e ao desejo do novo e do fantasiado; todavia, se um acompanhante heterossexual se pode colocar ao serviço de mulheres, como Josiane Balasko muito bem retratou no seu filme Cliente com uma esplendorosa interpretação de Nathalie Baye (não nos esqueçamos do papel de lésbica que Balasko tão bem levara a cabo no filme Gazon Maudit , chegando ao ponto de seduzir a heterossexualíssima personagem desempenhada por Victoria Abril, que, na película, acabará dividida entre o marido e a inesperada amante), o que é um facto é que esse mesmo indivíduo poderá também colocar a sua orientação sexual à disposição de homens (cf. devassos no paraíso de João Silvério Trevisan, sobretudo as páginas 410-414, onde se referem entrevistas de alguns desses acompanhantes casados e que contam com o apoio das próprias mulheres, ávidas de um qualquer suplemento remuneratório que lhes suavize o quotidiano, aliás, esta derivação de tipo económico é também enfatizada no filme realizado por Balasko; todavia este território está ainda pouco estudado, principalmente na parte que leva a que esses indivíduos, muitas vezes, se apaixonem pelas suas (ou pelos seus) clientes e, fenómeno igualmente já constatado neste meio, que leva ao estabelecimento de um elo preferencial de tipo afectivo-sexual entre dois elementos dessa mesma profissão). Seja de que maneira for parece-nos que algum do cinema feito nas últimas décadas, bem como muito do ensaísmo e da investigação científica parece apontar para a ideia de que a orientação sexual não é coisa de enjaular em espartilho de laboratório ou de compêndio, nem de funcionar, ao modo de uma qualquer implicação lógica, como tabela de branco e preto.
Herdeira de toda esta tradição, a obra cinematográfica de Ferzan Ozpetek chama-nos a atenção para o papel que o quotidiano e o adquirido têm sobre o desejo que sentimos pelo outro, pela outra ou por ambos. Oiçamos a filósofa Martha C. Nussbaum: " Desire, in short, is in good part "in the head". Here, of course, is where culture and cultural variation play a major role. Society shapes a great deal, if not all, of what is found erotically desirable and social forms are themselves eroticized. We see this quickly in the tremendous variety of what is found erotically appealling in differente societies and, of course, by different individuals in different societies: different attributes of bodily shape, of demeanor and gesture, of clothing, of sexual behavior itself. Social constructions of an attractive sexual object vary enormously, and with these, the social meaning of sexual arousal and interation themselves. " ( In Sex, preference, and family - essays on law and natures, p 26). Mas a sociedade e a cultura não modelam somente o desejo e o objecto deste, elas actuam do mesmo modo relativamente a outros sentimentos e emoções decorrentes da concretização, ou não, desse mesmo desejo, nomeadamente a vergonha e a culpa, como bem defende Jesús Ferrero: " La verguenza y la culpa son las pasiones más determinadas por la cultura en la que vive el sujeto que las padece y por sus normas sociales y morales.
Básicamente se podria decir que sentimos verguenza y culpa cuando nos descubren haciendo algo prohibido, o cuando descubrem que lo hemos hecho. La violencia que proyecta la mirada de los otros ante nuestro delito penetra en nosotros como la púa de una cerbatana, y nos odiamos a nosotros mismos y quisiéramos desaparecer bajo tierra: enterrarnos. Pero solo sentimos culpa como un efecto de la mirada acusadora de los otros? Desde luego que no. Todos llevamos una conciencia llena de normas morales. La mirada interior puede proyectar-se sobre nuestros actos con más severidade y más rigor que la mirada de los otros." ( In Las experiencias del deseo, Eros y misos, p 133). É impossível lermos este texto de Ferrero sem nos lembrarmos de um capítulo de "L'étre et le néant" de Sartre - "Le regard", e, por outro, sem concluirmos que se o olhar do outro nos rotula, no torna en-soi como diria o filósofo francês, de um modo directo, também é verdade que a minha auto-imagem é mediatizada por esse mesmo olhar que me é alheio. Assim, a sociedade e a cultura em que me encontro inserido tendem a orientar-me o desejo, o objecto que esse desejo visa e ao périplo de paixões e emoções inerentes a todo o processo, encontrando-me assim eu no seio de uma aporia fundamental: a minha orientação sexual, que, por sua vez, subjaz às minhas atitudes e aos meus comportamentos também de tipo sexual, é ela própria - apesar da inscrição genética - orientada por condicionantes que lhe são externas.
Como corolário das posições defendidas poder-se-á dizer que elas desembocam necessariamente na forma como os parceiros sexuais se procuram uns aos outros e entre si estabelecem todo um universo convivencial. Hoje, na nossa sociedade, os modelos vigentes, e os únicos legalmente aceites, são a monogamia heterossexual e a monogamia homossexual, contudo, uma observação minuciosa do reino animal, concretamente no caso dos mamíferos, poder-nos-á elucidar se essas formas convivência derivam de potencialidades inscritas no património genético, ou se, pelo contrário, ela nos mostra outras evidências onde, uma vez mais, uma orientação exterior (ética, moral, religiosa, jurídica...) ao que somos nos tende a orientar noutros sentidos. Acerca disso atentemos às investigações de David P. Barah e Judith Eve Lipton: "Quando se trata de mamíferos, sabe-se há muito tempo que a monogamia é uma raridade. De 4 mil espécies de mamíferos, não mais do que algumas dezenas formam ligações de par confiáveis, embora em muitos casos seja difícil caracterizá-los com certeza porque a vida social e sexual dos mamíferos tende a ser mais furtiva do que a das aves." ( In O mito da monogamia, Fidelidade e Infidelidade entre pessoas e animais, p 26).
Eis-nos, então, chegados a um ponto crucial desta proposta de leitura da obra cinematográfica de Ferzan Ozpetek: os factores genéticos e biológicos não são condicionantes exclusivos, nem prioritários, da orientação sexual (e seria interessante até discutir a pouca cientificidade deste último conceito, adoptado pela comunidade científica para substituir a balbúrdia teórica que o antecedeu: preferência sexual, opção sexual e outras enormidades deste estilo!) nem do modo como os comportamentos sexuais ocorrem; as diferenças - a vários níveis - dentro da heterossexualidade e da homossexualidade são abissais; os modelos de convivência e/ou de acasalamento monogâmicos podem funcionar para alguns seres humanos, mas as "ligações verdadeiramente confiáveis" são raras: os sentimentos, as emoções, os fracassos e os sucessos de uma vida afectivo-sexual podem ser gravados em nós, mais pelo olhar do outro do que por aquilo que, nos nossos momentos de solidão e de autoquestionamento, apreendemos no mais fundo de nós. E, como cúpula desta visão, a subtil mecânica do jogo: umas vezes alienante e turbilhonar, como no caso dos gays loucos de Mine Vagante; outras, lúcido e desgastante como na avó da mesma película.
Sabemos, todavia, que algumas tendências dentro da psicologia e da psiquiatria têm vindo a substituit o conceito de orientação pelo de identidade sexual, parecendo-nos até com a finalidade de salvaguardar o território da imutabilidade e do genético. Tais posições, varrem assim de cena a bissexualidade, eliminam  de imediato do ser e do idêntico toda a veleidade de um qualquer ir-sendo e, por fim, ver-se-ão na necessidade de defender que essa identidade do ser humano foi o que, nalguns casos, nunca apareceu, tendo assim o eu vivido aquilo que não era em-si, enquanto que a sua verdadeira identidade sexual (?) acabou por nunca despertar, isto é, segundo esta linha teórica é perfeitamente possível, o indivíduo, ao nível sexual, ir sendo aquilo que não é, enquanto que o que ele é verdadeiramente continuará não sendo até ao fim. Esta posição que reduz orientação e comportamento sexuais ao quadriculado de um qualquer balancete genético não é a adoptada por Ferzan Ozpetek, daí a atracção de Michele Mariani por Antónia em Le Fate Ignoranti e, em Mine Vaganti, Tomaso (Ricardo Scamarcio), apesar da relação fortemente apaixonada que vive com Marco, não consegue esconder o fascínio que sente frente a Alba (Nicole Grimaudo). Dito de outro modo: nos filmes de Ozpetek muitos são os casos contemplados pela objectiva do realizador, mas no seu todo predominam as influências do quotiano, da aprendizagem entre grupos, dos esquemas de género sexual aberto e do jogo; jogo esse que, nesta obra, jamais tem uma função oportunista ou de destruição do outro, antes se identifica com o cativar de Exupéry e com o platónico desejo de complementaridade: busco no outro aquilo que me falta, para que ele colha em mim o que lhe aprouver e achar por bem.
Partamos, então, desse conceito de jogo. No início de Le Fate Ignoranti (2001) Ferzan Ozpetek mostra-nos uma mulher vendo uma exposição. Ela está frente a um busto de Antínoo. Um homem aproxima-se e tenta seduzi-la, critica aquele que a deixou ali sozinha, já que menosprezou a sua beleza. Pela indimentária, pelo discurso e pelo ritual de sedução o espectador percebe que está frente a um par da burguesia média-alta. A perseverança do homem não cessa. Ela continua sorrindo. E é só quando ele a abraça pela cintura que nós percebemos que aquela etapa do jogo terminou - estamos frente a marido e mulher; e mais: estamos frente a dois seres cúmplices e que conseguem partilhar coisas importantes. Antónia, a mulher, é médica, e dias depois, quando sentenciava um dos seus doentes de uma situação de seropositividade, recebe o fatídico telefonema comunicando o atropelamento, e morte, desse tal homem com quem vivera em harmonia perfeita. A partir daqui a acção adquire um outro ritmo: Antónia (Margherita Buy), mexendo nas coisas do marido, encontra um quadro que tem uma dedicatória por trás: " A Massimo, pelos sete anos passados juntos. Pela parte de ti que me falta e que eu jamais terei. Por todos os momentos em que me disseste "não posso" e por todos os outros em que me disseste "voltarei". Poderei chamar à minha paciência amor? Mariani." Toda a consistência do universo de Antónia se estatela nessa casa onde ela vivera, a dois, aquilo que não entendia já. Procurando Mariani, a outra, Antónia vai ter a um apartamento onde coabitam os mais diversificados tipos de pessoas: uma gentil e doce cinquentona que vive com um negro, uma transexual, uma empregada de um super que nunca acerta nos namorados, um casal de homessexuais masculinos... Mas Antónia insiste. Quer conhecer a Sra. Mariani. Volta e volta àquele apartamento e... acaba encontrando um rapaz: Michele Mariani (Stefano Accorsi). A relação que se vai estabelecendo entre Antónia e Michele não cabe nos canhenhos dos inventariadores de orientações  sexuais que se baseiam apenas no genético para determinação destas, contudo - algo obsessivamente - ela tenta saber se o marido ainda tivera mais alguém: "nem homem, nem mulher - diz-lhe Michele-  Ele só nos teve a nós dois." E assim ficam presos um ao outro pela perda, pela memória, pela poesia de Hikmet e talvez por algo mais, como se percebe no final do filme, pois, se havia entre eles a crença de que sempre que se partia um copo era alguém que também partia, após a tentativa de fuga de Antónia, Michele atira um copo ao chão, mas... este não se parte.
Em 2003, com La finestra di fronte, Ferzan Ozpetek parece-nos querer homenagear Hitchcock pela semelhança adoptada com um título de 1954 deste último realizador: também aqui a janela indiscreta é o elemento primeiro e coadjuvante de todos os mistérios que se irão tecendo. Ozpetek constrói uma narrativa entrecruzada: a) uma acção passada em Roma, nos inícios dos anos 40, quando nazis e colaboracionistas decidem caçar os judeus da cidade; b) uma outra, que se desenrola com um casal da pequena burguesia vivendo pacatamente com os seus empregos, os seus filhos, as suas domésticas desavenças e aspirações. Todavia, e mais uma vez, o meio vem jogar aqui a sua cartada quando a mulher começa a espiar o vizinho da janela em frente, é então que se percebe que a linearidade das vidas ritualizadas tem muito mais no seu fundo do que à primeira vista se julgava ver, até porque o observado já vinha sendo também observador. Os dois níveis da narração acabam confluindo a partir de certa altura: o jovem que, em 1943, tivera de matar o patrão delator, que o mantinha vigiado, para ir a correr salvar todos os outros judeus, é hoje um velho demenciado que vai parar a casa de Giovanna (Giovanna Mezzogiorno) e Filippo (Filippo Nigro) que, por sua vez, tentam entregá-lo à polícia, embora sem sucesso. Lorenzo (Raoul Boya), o vizinho da janela em frente, é também sugado para dentro da estória deste velho cujos passado e presente passam a invadir todas as personagens, descobrindo-se, finalmente, a sua identidade: Davide Veroli (Massimo Girotti), aquele que em 1943 salvara tantos dos que o apontaram e, por essa necessidade de demonstrar a sua dignidade a quem o marginalizara, já não fora a tempo de salvar Simone, o seu amigo e companheiro. Este é um dos filmes de Ozpetek onde as preocupações sociais e políticas são mais vincadas, mas não descurando nunca a abordagem das questões psicológicas, afectivas e relacionais, por vezes até com alguma ironia, como quando uma das colegas de Giovanna a espicaça para uma aventura extraconjugal, dizendo-lhe que o casamento dela, com quinze anos, era quase incesto. É aqui que o golpe de mestre de Ozpetek atinge um dos seus pontos mais altos, cruzando a estória homossexual de Davide e Simone com a estória heterossexual de Giovanna e Lorenzo através de uma cena emblemática: Lorenzo, d' a janela em frente, narra a Giovanna uma crise demencial de Davide a que acabara de assistir: "Amar-te-ei sempre... Temos de nos amar em segredo..." Dissera Davide a Simone e diz também agora Lorenzo, pelo telefone, de janela para janela, a uma giovanna que ele não deixa de fitar e que também o olha entre o êxtase e o pânico, pois sabe que pode ser surpreendida pelo marido a qualquer instante. Esta sobreposição dos planos remete-nos para o início deste artigo: o que é universal (a frustração ante a perda, as concretizações subreptícias, a mágoa de jamais se poder ser em absoluto, etc.) é transversal a todos os seres humanos, assim, é sendo englobante que tem a importância que tem, e que - eventualmente - até poderá ser muita, no entanto, o que dói verdadeiramente é o processo de singularização, é ao nível do concreto, é o modo como cada um vive essas experiências, e aí cada qual é o seu mundo, não dependendo da cor, do credo religioso, do género, da etnia, da orientação sexual ou ideológica. Há inúmeras cenas nos filmes de Ozpetek (ligações inter-raciais, operárias chinesas, domésticas budistas, burguesas caucasianas com amantes ocultos, etc.) que fundamentam esta ideia do primado do particular, território verdadeiramente real e objectivo, espaço a respeitar porque único, irrepetível e não sujeito a permuta.
Com Mine Vaganti (2010) a intriga torna-se muito mais complexa e o tipo de personagens mais diversificado, no entanto, manter-se-á a fluidez narrativa bem como a clareza dos propósitos, o que nos leva a continuar à distância do rocambolesco precipitado de Almodovar, e talvez mais próximos da técnica, da verosimilhança e do bom gosto de realizadores como Téchiné e Chéreau. O palco deste filme é a burguesia industrial e financeira de Lecce com os seus valores, as suas normas morais e, sobretudo, com o seu temor ao olhar do outro. A película circula sempre entre o rigor da análise e a, aparentemente anódina, desmontagem do grotesco. Tudo começa quando Tomaso (Riccardo Scamarcio) diz a António, o irmão, que durante o grande jantar dessa noite irá revelar à família a sua homossexualidade, ali, sem anestesia, percebe-se de imediato que o que está em causa não é bem o problema das orientações sexuais, mas a despótica figura paterna. E isso é confirmado durante a refeição, pois quando Tomaso pretende tomar a palavra, aquele mesmo António decide antecipar-se, e faz ele a confissão da sua sexualidade, afinal tão idêntica à do irmão. Tomaso recua e a violência verbal que se segue desemboca na expulsão de António, pelo pai, do seio familiar. Este jantar, com visitas - Alba e a família -. disseca toda uma panóplia de personalidades, trabalho esse que será continuado durante um outro jantar, já após a vinda de Marco e de alguns amigos de Tomaso. Naquela casa cruzar-se-ão as mais diversificadas formas de cada um vivenciar a sua orientação sexual, por conseguinte, poder-se-á perguntar: o que há de comum entre a heterossexualidade de uma mãe apagada e submissa e a da sua cunhada ávida de experiências e desajustada em relação àquela ordem repressiva? Nada! O que há de comum entre a homossexualidade viril de Tomaso e Marco e as superficiais tontas vindas de Roma? Nada! Ozpetek usa esta família como em Sociologia, ou em Psicologia Social, se usam as amostras, para a verificação de uma qualquer hipótese, e a observação, aqui nitidamente provocada, tem por função dissecar algo dinâmico e multidireccional: os efeitos do processo de normalização. Ozpetek, durante uma entrevista que concedeu, tem mesmo o cuidado de substituir, corrigindo, o conceito de normalidade pelo de normalização.
Quais as plataformas de estabilidade possíveis durante um processo de normalização que é ele acidentado e aberto ao imprevisto? Apenas dois exemplos: uma das loucas de Roma não caça o tio de Tomaso porque a mulher deste está sempre atenta; Tomaso não investe mais em Alba porque a sua relação com Marco funciona plenamente, contudo aqui mantém-se sempre uma certa ambiguidade, ilustrada pela cena da praia quando Marco e Alba cabriolam na rebentação das ondas, e Tomaso, do alto da duna, olha ambos como ar de um homem que tem ante si tudo e nada mais pode desejar, aliás, o ele decidir juntar-se às brincadeiras dos dois tem uma simbologia bastante clara.
É evidente que Salvatore, o tio de Tomaso, se mantém com a mulher; é evidente que Alba não destrona Marco, mas o que aparece claro no cinema de Ferzan Ozpetek é que são várias as formas de cada um vivenciar a sua orientação sexual e não parece que os mecanismos de índole genética sejam os únicos responsáveis pela orientação da orientação, ou da identidade sexual se se preferir este caminho. Claude Aron, na sua função de académico mas também de fisiologista da reprodução, fala assim das experiências de Hammer com gémeos homossexuais: "(...) mais Hammer reconnut lui-même que d'autres facteurs sont nécessairement impliqués dans le déterminisme de l'homosexualité puisque certains sujets expriment cette orientation sexuelle en l'absence du gene qui d'autres en serait responsable. Ce gene restera d'ailleurs hypothétique jusqu'à ce qu'il soit cloné et donc identifié; et surtout retrouvé dans d'autres enquêtes familiales. Je conçois mal les mécanismes d'action d'un gene de l'homosexualité. S' éxprime-t-il dans l' INAH3? Qu'elle vision simplificatrice à l'égard de la complexitè des mécanismes de la bisexualité chez l'animal! Je raisonne en physiologiste et non pas en psychanalyste. Pourtant je me refuse à un reductionisme biologique qui ferait une part moins belle chez l'Homme que chez l'animal aux facteurs de l'environnement dans les conduites sexueles." ( In La bisexualité et l'ordre de la natures, pp 271-272. Ao longo de toda esta obra Aron chama a atenção para inúmeros factores bio-fisiológicos que estão na base da orientação sexual, ironizando mesmo - nas páginas 281/2 sobre o gene da heterossexualidade - e na página 282 é irredutível: "Le concept de bisexualité de la gonade a été le fruit de longues et patientes recherches embryologiques. Celui de bisexualité comportamentale a des racines mythologiques." Numa perspectiva sociológica é importante também a leitura de "Dupla Atracção" de Martin S. Weinberg, Colin J. Williams e Douglas W. Pryor, sobretudo, na edição portuguesa, das páginas 183-186. Se se pretender - nesta tentativa de se recusar a exclusividade do genético na determinação mecânica da orientação sexual - encetar uma abordagem a partir da História, são importantes as obras de autores como John Boswell e William Naphy. Pesquisar também, na net, o artigo "Heteroinquisidores" de Debora Diniz - antropóloga, investigadora e professora na Universidade de Brasília -, é um texto muito interessante sobre a interdição do corpo do pai ao filho - fenómeno que não acontece na relação mãe/filha - e que orientará o modo como a maioria dos homens passará a ver/sentir o corpo dos outros homens, aqui seria importante comparar depois o modo como o afável Lorenzo de La finestra di fronte abraça/acolhe o velho Davide e como, por oposição, em Mine Vaganti, o tirânico pai se refere ao corpo masculino, sobretudo no monólogo da confeitaria).
Á tese de Tomás de Aquino, depois retomada por certos movimentos estéticos nomeadamente o neorrealismo, de que a arte tinha por função a imitação da natureza - no segundo caso da natureza humanizada na sua vertente social, económica e política - acrescentou-se hoje a noção de que a realidade imita ela o cinema, sendo assim, e um pouco na linha da Claude Aron, cabe-nos a estupefacção de que um comportamento tão complexo como é o sexual, de que uma função tão determinante como é a orientação sexual possam, para alguns, ser submetidos a um processo explicativo afinal tão simples e primário, como aquele que tem sido defendido por certos investigadores mais ligados ao campo da biologia e da genética. Talvez não fosse despiciente um olhar para os trabalhos de outras ciências, para as reflexões de tipo filosófi co e - porque não? - para o que acontece mesmo ao nosso lado, nas ruas e... no cinema.
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  Victor Oliveira Mateus in " Revista TriploV - De Arte, Religiões e Ciências ", Nova Série, 2011, Número 19 - 20.
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Uma das refeições da família Cantone do filme "Mine Vaganti".
"Io non so parlare" é uma das mais belas cenas desta película: Tommaso
explica a sua necessidade da literatura... Repare-se na questão da direcção
de actores, sobretudo o ar agressivo do pai contrapondo-se à serenidade
(e cumplicidade) da avó.
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