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" Pietá "
Eu sou a sua pietà, meu amor, agora, nesta ponta de
rua onde os ventos quebram. Eu entendo bem seu
espanto mudo de que a vida comece no sacrifício, o
abraço na morte, o amor na despedida. Eu o seguro
sobre os joelhos na luz azul desta noite, compreendo
a sua angústia. A força só além do hábito. Para a víti-
ma, é sempre o inimigo que escolhe as armas. Enten-
do o que quer dizer, e só tenho minhas mãos para um
longo afago. Quantas vezes não saiu do cinema co-
brindo o rosto, quantas vezes a cólera não foi maior
que a ofensa. E nada disso o poupou. Eu o entendo.
Como pode seu espanto só ter sentido aqui, sobre
esses joelhos dobrados, premidos pelo peso de seu lon-
go corpo, todo ele, transido de destino. Só posso di-
zer que entendo e você deve acreditar. Em quem mais
acreditaria? É por mim que aqui se deitou e eu assim
o recebi. Por aqui também passam rostos ressentidos.
Mas veja como o mal evaporou-se ao primeiro vapor
do dia. E as chagas expostas ao céu claro ganharam
cores de simplicidade, tapumes previsíveis, tornaram-
se gestos de defesa. Embora seja tarde, acredite em
mim. Eu continuarei a seu lado. Só não prometo a
escultura.
Marcos Siscar in " o roubo do silêncio ", 7Letras, Rio de Janeiro, 2006, p 41.
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01/12/11
Acerca dos Prémios...
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O que já vi, relativamente à questão dos Prémios Literários, acabou por me conduzir - na área da poesia - a duas posições bastante primárias: primeira, todos os Prémios (não as obras que os vencem!) que estimulem quem escreve poesia merecem ser dignificados, venham eles de Câmaras, de Empresas ou de Organismos Oficiais; segunda, o que conta verdadeiramente, nesse mecanismo, não é o rótulo mas a integridade e a verticalidade do júri. No que me diz respeito, confesso que não me foi fácil ler dezenas de originais e pensar sobre eles, mas foi agradável trabalhar com outros elementos de um júri que decidiu atribuir, por unanimidade, o 1º lugar de um Prémio Literário ao livro: "Desarrumação do Frio" de Luís Aguiar.
E relativamente (ainda) à integridade: não sei - nem quero saber - quem eram os outros concorrentes e só ontem, quando recebi o livro já impresso, dado que nem ao Google tinha ido, é que fiquei a conhecer o currículo literário do Luís Aguiar, que, afinal, já tinha vencido o Prémio Irene Lisboa, o Prémio Afonso Lopes Vieira, o Prémio Castello di Duino (Trieste), etc.
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30/11/11
.
(...)
Em frente,
a igreja parecia de uma brancura nova,
imaculada.
Os ciprestes eram como longos braços erguidos.
Numa única lápide, li um epitáfio com duas rosas.
Um cão ladrou e, como uma dor que se reabrisse,
lembrei-me de ti,
e deixei que voltassem a correr as lágrimas.
Estava só,
estaria sempre só.
O peso do mundo era irremediável.
Por mais que quisesse não podia esquecer-te,
não podia esquecer nada.
Matei o dragão, disseram-me, e ao matá-lo, matei as
minhas tardes de pólen.
Arrefeci tremendamente.
Uma corrente gélida varreu as serras.
As uvas eram amargas.
Não foi isto o que pedi, ao desembocar no túnel,
à entrada da aldeia.
Pedi,
com desmesurada fé,
que nunca partissem aqueles que em mim me
habitavam,
antes de o bolor revestir as paredes,
caíadas por fora.
Pedi que estivesses aqui,
sabendo que nunca mais te sentarias comigo,
junto ao limoeiro,
a ladrar aos frutos que caíam,
depois da geada.
... ... ... ... ... ...
José Agostinho Baptista in " Caminharei pelo Vale da Sombra ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2011, pp 110 - 112.
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(...)
Em frente,
a igreja parecia de uma brancura nova,
imaculada.
Os ciprestes eram como longos braços erguidos.
Numa única lápide, li um epitáfio com duas rosas.
Um cão ladrou e, como uma dor que se reabrisse,
lembrei-me de ti,
e deixei que voltassem a correr as lágrimas.
Estava só,
estaria sempre só.
O peso do mundo era irremediável.
Por mais que quisesse não podia esquecer-te,
não podia esquecer nada.
Matei o dragão, disseram-me, e ao matá-lo, matei as
minhas tardes de pólen.
Arrefeci tremendamente.
Uma corrente gélida varreu as serras.
As uvas eram amargas.
Não foi isto o que pedi, ao desembocar no túnel,
à entrada da aldeia.
Pedi,
com desmesurada fé,
que nunca partissem aqueles que em mim me
habitavam,
antes de o bolor revestir as paredes,
caíadas por fora.
Pedi que estivesses aqui,
sabendo que nunca mais te sentarias comigo,
junto ao limoeiro,
a ladrar aos frutos que caíam,
depois da geada.
... ... ... ... ... ...
José Agostinho Baptista in " Caminharei pelo Vale da Sombra ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2011, pp 110 - 112.
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28/11/11
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(...)
Escurece,
neste pequeno porto de onde não partirei,
para que a minha vida seja a tua âncora,
quando me procuras.
Quando me procuras, é como acender os candelabros
de prata,
é como dizer-te, sem receio,
embora vacilante,
eu farei o teu abrigo dos abrigos que não tive,
eu serei a árvore,
de cujos ramos, tão saudosos, partem as aves
migratórias.
E se emudecer,
serei como ela,
a que me embalava docemente,
numa paisagem inerte,
apta ao vislumbre das corolas decepadas por uma faca,
oculta nas rendas.
Se te vejo,
vénus estremece no seu terraço com lilases de seda,
convoca-te o oráculo,
enleia-te a serpente, prende-te o amor que renova a seiva
no entardecer da espiga.
Seara fui,
e fui grão e leveza e espessura.
Quem sou hoje, pergunto às estações sucessivas.
Contenho-me.
Conténs-me e guardas-me nos teus lábios semicerrados,
calados, receosos da palavra poderosa,
do poder das sombras que atravessam o vale e têm
pressa de chegar à cruz de onde descerei um dia,
sim,
porque eu sou a carruagem lunar das tuas idas e vindas.
... ... ... ... ... ...
José Agostinho Baptista in " Caminharei Pelo Vale da Sombra ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2011, pp 46 - 48.
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(...)
Escurece,
neste pequeno porto de onde não partirei,
para que a minha vida seja a tua âncora,
quando me procuras.
Quando me procuras, é como acender os candelabros
de prata,
é como dizer-te, sem receio,
embora vacilante,
eu farei o teu abrigo dos abrigos que não tive,
eu serei a árvore,
de cujos ramos, tão saudosos, partem as aves
migratórias.
E se emudecer,
serei como ela,
a que me embalava docemente,
numa paisagem inerte,
apta ao vislumbre das corolas decepadas por uma faca,
oculta nas rendas.
Se te vejo,
vénus estremece no seu terraço com lilases de seda,
convoca-te o oráculo,
enleia-te a serpente, prende-te o amor que renova a seiva
no entardecer da espiga.
Seara fui,
e fui grão e leveza e espessura.
Quem sou hoje, pergunto às estações sucessivas.
Contenho-me.
Conténs-me e guardas-me nos teus lábios semicerrados,
calados, receosos da palavra poderosa,
do poder das sombras que atravessam o vale e têm
pressa de chegar à cruz de onde descerei um dia,
sim,
porque eu sou a carruagem lunar das tuas idas e vindas.
... ... ... ... ... ...
José Agostinho Baptista in " Caminharei Pelo Vale da Sombra ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2011, pp 46 - 48.
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27/11/11
"(...) e louvando retenho o entardecer na lonjura exausta das marés... "
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" Poema I do Ciclo A Condição do Olhar "
Do que disse um dia me perco agora em redes
de espuma lisa, espera branda de sinal azul de
embaciadas finas recordações de maior dádiva,
esse uso directo. Recortas o aparato redondo da
noite inflexionada em puro reverter, branca aurora
marinha. E a senha. A notação da dor no imponde-
rável acontecer do risco, o traço carregado da pre-
sença, tutela abandonada. Ficada assim na textura
de uma longa toalha branca, suspenso palpitar da
insidiosa hesitação correcta, ó fontes do recurso
deplorável. Em aras deponho pois amável o dis-
curso em tom de fina aceitação e louvando retenho
o entardecer na lonjura exausta das marés, vibra-
ção quente. Se repartes o medo por essa incerteza
do limite, repousado rodeio do movimento, é teu o
verso na mágoa incandescente da manhã, eixo con-
taminado da planície à origem dos meios, ervas
doidas, no solto incandescer do tempo recuado.
Assim os metais se empolgam e impelem o lento
recorrer dos idos na lava dos caminhos. E só os
olhos, latentes, reconhecem.
Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 83.
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26/11/11
"(...) Renascem os cabelos/ que o mar noutras paragens destruiu. "
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" Poema VI - Nave do Ciclo A Catedral "
É cedo ainda. Renascem os cabelos
que o mar noutras paragens destruiu.
Desconheces o poder dos ventos do sul,
as lagoas brandas da meia-luz trémula, ó pescadores.
A ciência que temos é aliás prefixa.
Que sabes da tenra usura que desenvolve o tempo?
Rosa trémula
Os laços marginais, os escolhos pendentes,
a quebra interminável, doentes de minha mágoa.
Há um abismo no prolongamento das manhãs
que percorremos juntos. A falha é ainda
a simulação do berço,
lajes soltas.
Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 68.
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" Poema VI - Nave do Ciclo A Catedral "
É cedo ainda. Renascem os cabelos
que o mar noutras paragens destruiu.
Desconheces o poder dos ventos do sul,
as lagoas brandas da meia-luz trémula, ó pescadores.
A ciência que temos é aliás prefixa.
Que sabes da tenra usura que desenvolve o tempo?
Rosa trémula
Os laços marginais, os escolhos pendentes,
a quebra interminável, doentes de minha mágoa.
Há um abismo no prolongamento das manhãs
que percorremos juntos. A falha é ainda
a simulação do berço,
lajes soltas.
Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 68.
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25/11/11
" Do irremediável aprendi a tranquilidade. E que a pertença é rigorosamente a grande forma de separação. "
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" Despedidas de Verão "
Vou sem pensar na bruma fria, toque ansioso
dos momentos comuns, e de seus prolongamentos,
os sulcos mais fortes da imaginada cálida força.
Relembro as datas, essas longas noites de vigília
que bani. Os vestidos negros ou roxos, o lindo
rosto de voz tranquila. Sem tradução de palavra
gasta me aparece, solidão imposta da quieta
noite do outro. Não espero, porque estudei todas
as ficções e vejo em todo o processo narrativo
o momento poético do mais forte ódio ou daquele
encontro que sempre vem, beneplácito acontecer.
Assim te digo que nada é possível a não ser a
forte presença do olhar, que se foge me esqueço.
Do irremediável aprendi a tranquilidade. E que a
pertença é rigorosamente a grande forma de
separação. Aprendo então os signos da desgraça,
essa malévola intendência do bem-querer afixado.
E contemplo da janela os idos sem complacência
nem pena imerecida. Disto te dou conta para te
mostrar a forte eternidade de cada um.
Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 36.
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24/11/11
Inseguranças, vulnerabilidades e comportamentos obsessivos.
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" As técnicas do controlo, do corte dos pensamentos (negativos) e do confronto com a realidade "
Começámos a analisar os seus pensamentos. Sandra era uma máquina de fabricar pensamentos negativos e, como temíamos, há anos que o fazia: considerava-se a pior das filhas, a pessoa menos preparada no trabalho, a rapariga mais gorda e feia do seu meio, a menos simpática... e, claro, nada de isto era objectivo.
Quando parecia que avançávamos um pouco, voltava na semana seguinte com novas dúvidas e novos pensamentos negativos. Tivemos de fazer uma paragem no caminho, assinar uma "trégua" e chegar à conclusão de que, nesses momentos, era incapaz de racionalizar dez minutos sem começar a censurar-se por algo; nessas circuntâncias deixámos de trabalhar o "confronto" dos seus diálogos internos e pusemos toda a energia em "parar" e "cortar" os seus pensamentos negativos, que eram a maioria.
É um trabalho pesado e pouco gratificante ao princípio, mas Sandra começou a sentir-se livre quando viu que, ao menos, podia "cortar" com bastante rapidez esses pensamentos que tanto a angustiavam, e além disso, podia fazê-lo tantas vezes quantas eles lhe surgiam. Aprendeu a deixar de ter medo dos próprios pensamentos. Posteriormente, quando já era capaz de cortar esses diálogos internos que tanto a martirizavam, voltámos a tentar que começasse a "racionalizar" os seus pensamentos. Então tivemos mais êxito, ainda que Sandra continuasse a encontrar com muita facilidade argumentos contra ela. Era difícil sentir-se bem se estava sempre a dizer: "Não valho nada" (...) "Toda a minha vida tem sido um desastre", "Sou gorda e feia"... Sandra repetia frases deste estilo desde pequena; nunca gostara de si fisicamente, intelectualmente via-se inapta e lenta (...) Teve de trabalhar muito para poder ultrapassar estes pensamentos irracionais.
Passámos semanas a confrontar, uma a uma, cada frase que proferia interiormente (...).
Não é fácil que alguém tão vulnerável aprenda a deixar de sofrer inutilmente, mas pode-se conseguir, embora o seu cérebro resista, e é lógico que o faça, pois, passou anos a armazenar esses pensamentos contra si. A verdade é que Sandra será sempre um pouco "mais sensível" do que a maioria, mas agora é capaz de desfrutar das coisas positivas que lhe acontecem e, o mais importante, "corta" bastante bem os seus pensamentos irracionais e tem um conceito sobre si própria muito mais adaptado à realidade (...) Por fim, é capaz de ver-se com objectividade, embora seja demasiado "mole" nas suas apreciações sobre os outros, mas já aprendeu a não justificar o injustificável e, ainda que lhe custe, já exige responsabilidades e pede explicações (...).
A psicologia demonstra-nos que tudo o que se aprende se pode desaprender; tal como nos treinámos para nos sentir mal, podemos treinar-nos para sermos mais realistas e perspectivarmos a vida de forma objectiva.
María Jesús Álava Reyes in "A inutilidade do sofrimento", A Esfera dos Livros, Lisboa,
2006, pp 120 - 122.
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" Caçada "
A minha primeira caçada aos gambuzinos aconteceu pelos
tempos em que eu andava ainda na escola. Convidaram-me
e explicaram-me. Até me ofereceram o saco conveniente e
necessário.
Excitado, preparei-me em casa. Treinei devidamente, em-
boscado atrás da porta, a tentar caçar experimentalmente o
meu pai, que subia a escada. Pareceu-me que não gostou.
Os pais, não é... ?
Na noite da caçada, lá fomos. Eu entusiasmado, com a
lanterna e o saco apropriado. E também a moca que estava
atrás da porta, que há noite há ladrões, foi a justificação que
me veio à cabeça no momento. Todos concordaram.
Mas não me venham dizer que não há gambuzinos. Apa-
nhei três. Um deles parece-me que se chamava António André
e ficou coxo. Ainda está, creio. Uma fractura excelente, mesmo
pela rótula.
Tudo me leva a crer que a caça aos gambuzinos é realmente
importante. Temos que apanhá-los. Temos mesmo. Seja lá
como for.
Mário-Henrique Leiria in " Novos Contos do Gin ", Editorial Estampa, Lisboa, 1973, p 75.
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" Caçada "
A minha primeira caçada aos gambuzinos aconteceu pelos
tempos em que eu andava ainda na escola. Convidaram-me
e explicaram-me. Até me ofereceram o saco conveniente e
necessário.
Excitado, preparei-me em casa. Treinei devidamente, em-
boscado atrás da porta, a tentar caçar experimentalmente o
meu pai, que subia a escada. Pareceu-me que não gostou.
Os pais, não é... ?
Na noite da caçada, lá fomos. Eu entusiasmado, com a
lanterna e o saco apropriado. E também a moca que estava
atrás da porta, que há noite há ladrões, foi a justificação que
me veio à cabeça no momento. Todos concordaram.
Mas não me venham dizer que não há gambuzinos. Apa-
nhei três. Um deles parece-me que se chamava António André
e ficou coxo. Ainda está, creio. Uma fractura excelente, mesmo
pela rótula.
Tudo me leva a crer que a caça aos gambuzinos é realmente
importante. Temos que apanhá-los. Temos mesmo. Seja lá
como for.
Mário-Henrique Leiria in " Novos Contos do Gin ", Editorial Estampa, Lisboa, 1973, p 75.
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23/11/11
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" Rifão Quotidiano "
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Mário-Henrique Leiria in " Novos Contos do Gin ", Editorial Estampa, Lisboa, 1973, p 27.
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" Rifão Quotidiano "
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Mário-Henrique Leiria in " Novos Contos do Gin ", Editorial Estampa, Lisboa, 1973, p 27.
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" Nascerá de um Mestre "
para o peixe pouco importa o simbolismo das flautas
peixe negro dentro de um mestre
a árvore compreende o nome dentro da sombra o homem dentro
disse
não há caminho no meio do nome posso aventurar-me a perguntar as
flautas da terra as flautas do céu o que nada significa disso o grande
labrego explode no ar e seu nome é vento ainda não emergido da minha
fonte onde as oliveiras choram amanhã nos espinhos oram e não sabem
meus pés descalços os lírios sem a tristeza dos campos onde ninguém
compreenderá os cantos escritos nas quedas da paisagem desse corpo
dilacerado que estremece o silêncio contínuo
Felipe Stefani in " verso para outro sentido ", Escrituras Editora, São Paulo, 2010, p 54.
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22/11/11
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" Dança Primordial "
Quantas vezes vi a loucura me percorrer cegamente as entranhas?
Lavrando do fundo de um corpo sua flor brutal,
libertando
a dança desregrada que atravessa a voz,
recompondo
na noite o ouro intenso onde a luz faz ressaca.
Estou completo em minhas paisagens.
De uma vida inteira absorvo a marcha,
canto as estações abertamente,
tocando com o esquecimento as margens,
que se distanciam
e evocam
toda a pureza de uma arte.
Quantas vezes essa loucura corrompeu o último enlace
do medo que se abre ao fim de cada feixe de encanto
no alimento obscuro,
colhido do apuro
das visões imensas?
Toda a obra é terrível e sangra
na memória a sua imagem.
No auge insondável desse estrondo,
canto
em volta de uma dor,
o dorso se contorce,
no centro,
multiplicando o gesto,
um eco indefinido devora em travessia
centenas de mundos construídos
e sonhados.
Pois a música se apossa da ébria lentidão do meu engano.
Felipe Stefani in " verso para outro sentido ", Escrituras Editora, São Paulo, 2010, p 34.
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" Dança Primordial "
Quantas vezes vi a loucura me percorrer cegamente as entranhas?
Lavrando do fundo de um corpo sua flor brutal,
libertando
a dança desregrada que atravessa a voz,
recompondo
na noite o ouro intenso onde a luz faz ressaca.
Estou completo em minhas paisagens.
De uma vida inteira absorvo a marcha,
canto as estações abertamente,
tocando com o esquecimento as margens,
que se distanciam
e evocam
toda a pureza de uma arte.
Quantas vezes essa loucura corrompeu o último enlace
do medo que se abre ao fim de cada feixe de encanto
no alimento obscuro,
colhido do apuro
das visões imensas?
Toda a obra é terrível e sangra
na memória a sua imagem.
No auge insondável desse estrondo,
canto
em volta de uma dor,
o dorso se contorce,
no centro,
multiplicando o gesto,
um eco indefinido devora em travessia
centenas de mundos construídos
e sonhados.
Pois a música se apossa da ébria lentidão do meu engano.
Felipe Stefani in " verso para outro sentido ", Escrituras Editora, São Paulo, 2010, p 34.
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21/11/11
" tornou-se minúsculo./ sentou-se lá no fundo "
.
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à medida que envelheceu
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava para terminar.
Rui Tinoco in " O Segundo Aceno ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2011, p 58.
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20/11/11
"mas fica sabendo: os meus defeitos/ estão a ver televisão no sofá do escritório."
.
peço que as desculpas
me perdoem. mastigo o meu
pão. mastigo o meu pão
para somar gestos. sabes bem
que os gestos me servem
de escudo, que a pose
se tornou uma amiga
fiel. não é com ela
que queres falar? compreendo.
sabes bem que desde que partiste
recomecei a contar tudo
desde o zero, colecionei
monólogos como o mais
excêntrico magnata. sabes bem
que tenho ficado até de madrugada
preso ao não sei quê das
palavras... beijaste-me
e é claro que podes entrar,
mas fica sabendo: os meus defeitos
estão a ver televisão no sofá do escritório.
sentamo-nos a seu lado?
Rui Tinoco in " O Segundo Aceno ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2011, p 44.
.
peço que as desculpas
me perdoem. mastigo o meu
pão. mastigo o meu pão
para somar gestos. sabes bem
que os gestos me servem
de escudo, que a pose
se tornou uma amiga
fiel. não é com ela
que queres falar? compreendo.
sabes bem que desde que partiste
recomecei a contar tudo
desde o zero, colecionei
monólogos como o mais
excêntrico magnata. sabes bem
que tenho ficado até de madrugada
preso ao não sei quê das
palavras... beijaste-me
e é claro que podes entrar,
mas fica sabendo: os meus defeitos
estão a ver televisão no sofá do escritório.
sentamo-nos a seu lado?
Rui Tinoco in " O Segundo Aceno ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2011, p 44.
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19/11/11
" e não havia nada nas sombras/ que se conseguisse tocar. "
.
virei o aceno do avesso:
não existia o mais ténue
vestígio de esperança.
o adeus era somente adeus
e não havia nada nas sombras
que se conseguisse tocar.
resta o pequeno prazer da escrita
ao lado do café pousado
sobre a eternidade.
Rui Tinoco in " O Segundo Aceno ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2011, p 19.
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virei o aceno do avesso:
não existia o mais ténue
vestígio de esperança.
o adeus era somente adeus
e não havia nada nas sombras
que se conseguisse tocar.
resta o pequeno prazer da escrita
ao lado do café pousado
sobre a eternidade.
Rui Tinoco in " O Segundo Aceno ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2011, p 19.
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17/11/11
Acerca de...(VIII)
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Reseñas de libros: " Voces actuales de la poesía portuguesa... "
Reseñas de libros: " Voces actuales de la poesía portuguesa... "
En varias ocasiones, he comprobado que el mejor indicio de la repercusión que una literatura determinada tiene en la sociedad es la variedad de títulos que podemos encontrar en los estantes de una librería. Así de cotidiano y de fiable. En el caso de la poesía portuguesa, tan cercana geográficamente a nosotros, casi gemela, esta ecuación puede aplicarse y llegaremos a un resultado nada sorprendente: una presencia tímida y segura en sus títulos. La poesía portuguesa se encuentra en España amparada casi siempre por la perpetuidad exitosa de los clásicos: Camões, las obras completas de Pessoa, algunos hermosos vestigios de Eugénio de Andrade, mínimos latidos del saudosista Teixeira de Pascoaes y de la delicadeza herida de Florbela Espanca. Muy poco de Manuel Alegre, al igual que muy poco de Sophia de Mello y Jorge de Sena. Siempre existe alguma sorpresa, pero ese sentimiento siempre será una excepción.
Tan lejos y tan cerca, a la vez. Y esa lejanía entristece, porque Portugal posee voces que embellecen la poesía, su existencia. Más allá del magnífico y enigmático Fernando Pessoa, más allá de su fantasma múltiple y perfecto, hay poetas que siguen dignificando la poesía en portugués.
En mis numerosas viajes a Lisboa he tenido la oportunidad de acercarme al latido tranquilo y rítmico de la poesía portuguesa contemporánea. Durante mis paseos por librerías lisboetas como la hermosa y culturalmente activa "Fabula Urbis" de la rua Augusto Rosa - regentada por un hombre sabio y agradable como es João Pimentel -, la lebrería "Portugal" del Chiado o las más comerciales - pero no peores - como "Bulhosa" de Campo Grande, he podido encontrar poetas de peso, de verso redondo, poéticamente habitables: la silenciosa voz de Cristovam Pavia, la cristalina presencia de Albano Martins, el sobrecogedor abandono trascendente y melancólico de Ruy Belo o el ritmo hilado de Manuel Gusmão, entre otros. Esta lista podría alargar-se infinitamente. Por ello, me centraré en dos libros que vieron la luz en Portugal en la editorial Labirinto en 2010 y 2011: Regresso (2010), de Victor Oliveira Mateus y A incidência da luz, de Graça Pires.
El libro de Oliveira Mateus ya dice mucho en su título. En él acontece un regresso, un regresso a sí mismo. Pero no debemos quedarnos ahí. Late en él ese regreso de Novalis hacia el alma como quien regresa al origen: " Volver atrás/ para encontrar el principio: y a mí través de él." dice en su poema "Alucinación". Este poemario tiene la belleza de los viajes, pero los verdaderos viajes son los parten de la soledad, desde la otredad de quien contempla el mundo como si la memoria ungiera con sus aguas la pureza de la primera existencia. Es un libro puro en cuanto desposesión asume la voz poética: "Cuando partí estaban/ todos atareados viajando, pero de otro modo". La pérdida llega desde esa diferencia del que se contempla en la distancia para regresar, para fundirse con su origen, como místicamente lo hizo Plotino.
Oliveira Mateus se reconstruye a través de la poesía, se encuentra en ella como en diversas fotografias de sí mismo. Creo que no hay maior nostalgia que aquella que surge de contemplar a quien se fue en una fotografia. Mirar-se a los ojos, a través del velo del tiempo, es recortar una ausencia. Oliveira Mateus se recorta en imágenes de Turin o del río Po desembocando en Venecia, aunque quién sabe si también recuerda a Virgilio su desembocadura en el Hades.
Todo en este libro es una presencia dashabitada enmarcada en una ciudad. En esa misma cuidad donde se dan encuentros que pudieron ser y no fueron. Nadie como la memoria tiene la habilidad de llevar al acontecimiento aquello que nunca fue. Quizá por eso el recuerdo salve. Quizá por eso hiera también: "Grito dentro del paisage. Grito y la convulsión/ del verde arrasa las colinas enfrente (...)". La voz poética sabe que de ninguna reconstrucción se sale indemne. Siempre asusta ese pequeño desplazamiento del color, esa variante tímida de la tonalidad que hace que no reconozcamos el lugar. Quién o qué ha provocado ese cambio? Tal vez el triste vacío que siempre queda al regresar, el envejecimiento que emana de las cosas perdidas: "Y está también tu rostro, casi sin contornos:/ sombra disolviéndose en la sombra". La sombra, ese camino que nos hace regresar, siempre hace el recuerdo más inhóspito, a veces fingido: "Donde ese Parque de memoria y fingimiento?". Lo que se enmascara siempre produce inquietud, pero también busca proteger una verdad, el recuerdo puro, perdido, de sí mismo.
Marta López Vilar in "Ojos de Papel", Madrid, Julio 2011.
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13/11/11
Acerca de...(VII)
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" Pelo deserto as minhas mãos: a poesia de Victor Oliveira Mateus"
Na literatura do Ocidente, tornou-se um verdadeiro leitmotiv a figura emblemática do estrangeiro. André Gide revelará, em seu "O Imoralista", uma personagem em constante errância, em permanente busca por um lugar indefinido, sempre distante. Em "A montanha mágica", Hans Castorp encontrará nos Alpes um recanto onde aprofundará suas reflexões sobre o existir humano. Aliás, Thomas Mann será o exímio autor das personagens exiladas. Também em "Morte em Veneza", a sua personagem central, Gustav Von Aschenbach, torna-se, na famosa cidade italiana, o estrangeiro por excelência. Outros autores, como Paul Bowles, farão do deserto o refúgio dos outsiders, dos excluídos. Esse leitmotiv se tornará, para os escritores, símbolo de uma resistência ao mundo reificado, consumista, universo no qual o objecto toma o espaço do ser.
Indo ao encontro dessa tendência, o poeta português Victor Oliveira Mateus, em seu "Pelo deserto as minhas mãos", plasma todo um cenário estranho, distante do mundo das metrópoles. No deserto de Mateus, o assombro aflora, com intensidade, perante os encontros e despedidas amorosos, marcando, dessa forma, o destino de um eu lírico em errância, em peregrinação não pelos espaços físicos, mas pelos desvãos dos seus sentimentos.
Em sua escrita, o deserto torna-se região das especulações filosóficas, dos encontros e desencontros com o outro. Aliás, o deserto de Victor possui uma ambiguidade importante. É nesse espaço que o eu lírico vivenciará tanto a solidão quanto a total entrega ao outro-amado. Para Victor, somente o mergulho no exílio do mundo e do outro, poderia gestar o arrebatamento dos encontros fecundos. Nessa ascese, é preciso, antes, ouvir a verdade da própria existência, para, a partir daí tramar, com harmonia, os amores.Anti-baudelairiano, o poeta de "Pelo deserto as minhas mãos" rejeita os paraísos artificiais, a fim de buscar, na aridez desértica, uma forma de existência mais plena. Essa recusa ao mundo capitalizado pode ser encontrada, por exemplo, no seguinte texto:
Nas cidades de onde venho
secam as árvores ao som das sirenes
e os pássaros, alucinados, buscam direções
nas pupilas das crianças.
Nessas cidades tudo é pressa e desassossego,
enquanto os homens, improvidentes, desaprendem
a sublime auscultação da terra;
nem sequer o coração dos outros podem ler
ou o rumor inconsolável das águas
- para eles aquilo que apenas vêem!
E com um nó no peito desatado
pintam de harmonia um novo Caos.
Ao auscultar essa terra árida, o seu silêncio, o homem torna-se capaz de ler o coração do outro. Ou seja, é preciso isolar-se, de forma serena, para ter a sabedoria de oferendar-se, em plenitude, ao amor. A solidão, nesse caso, é salutar, ela representa a busca de uma sabedoria, de uma compreensão do existir. Perambular pelas rotas do deserto é palmilhar o próprio âmago, o íntimo da subjectividade. Há qualquer coisa de sacrifício espiritual nessa poesia, de aprendizado da alma, capazes de levar o eu lírico à agudeza da vida e das relações amorosas. Assim, a voz do deserto é, na verdade, o clamor de um outro perdido, quase esquecido:
Que voz chora por mim
no outro lado das grandes pedras? Que lamento? Que murmúrio
por entre a sombra rala dos arbustos? Talvez seja o vento: o zurzir
de um estranho vento oceânico no meu rosto enquanto durmo. Ou
talvez seja o sol, que esgarçando as longas nuvens, cai depois
a pique sobre o meu corpo. Ou ainda - quem sabe? - talvez nenhuma
dessas coisas seja, mas apenas o esquivo sibilar de um réptil no
seu ardil para me tentar
Mas não, nada disso poderá por mim chorar no outro lado
das grandes pedras. Nada, a não ser o eco dos teus olhos; o azul
desmaiado desses olhos, onde o meu sonho era um barco impossível
e as palavras soçobravam na raíz do meu desejo
Todo o deserto, toda a infinita secura das planícies de areia, são transmutadas, nesse poema, no corpo amado, nesses olhos em estado de alumbramento. A entrega acontece como uma descoberta mágica, encantada, da pulsação e da vida do outro. Tal amor precisa ser palmilhado, como se palmilha as areias do deserto. É preciso descer às profundezas do corpo amado, para alcançar a ascese final, a revelação absoluta do gozo:
Descer-te o corpo palmo a palmo
Descer-to como quem sobe ao cume do mais alto monte, como
quem encontra a firmeza de um espaço, para o qual nenhuma língua tem nome
Descê-lo ou moldá-lo, nem eu sei bem: o rosto jovem, o sedoso
peito, as coxas; descê-lo e construir o murmúrio sibilante do vento,
ou de uma boca entreaberta no rumor ofegante da tarde
Descer-te o corpo palmo a palmo
Não o corpo fardo, prisão, informe desejo que a si se basta
numa infindável corrosão de tudo, mas um corpo luz, amigo,
que, sorrindo, aquilo que o excede a mim entrega
Nesse poema, o autor consegue transformar o corpo em um terreno acidentado, no qual o eu lírico terá de descer, percorrer, caminhar, a fim de ascender às matrizes do seu próprio espírito. Dar-se ao outro é entregar-se à serenidade de si. O poeta, nesse texto, de forma sublime, traça, com uma fome de escultor, cada traço físico desse ser mágico, talhando-o com leveza e ardor: "rosto jovem", "peito sedoso", "coxas"... Uma metonímia fecha esse poema com esmerada beleza: todo o riso é o corpo amado; toda a pele, todos os poros, são um rir calmo, repleto de alumbramento. O mistério desse outro é um adentrar na noite, na falta de compreensão do mundo e do milagre de amar:
À noite as tuas palavras
não são as tuas palavras, aquelas que de dia usas, quando nem
nos conhecemos e o disfarce é um regato de água fétida por entre
os refugiados
À noite as tuas palavras são tão diferentes:
trazem-me o silêncio das coisas raras
ensinam-me a sedução dos horizontes ávidos de luz
desvelam-me o teu corpo, tão esplendorosamente branco,
no cadenciado ritmo das antigas deserções
O mesmo com os teus olhos também à noite tão diferentes:
ardem como ilhas num vasto oceano de ondas paradas,
nossa imensidão que nem nostraga nem nos salva
Enfim, à noite nada de ti coincide contigo
mas isso ninguém sabe, nem sequer tu... apenas eu que aqui
o escrevo, enquanto espero um outro anoitecer
O texto, como um pêndulo, risca o dia, delimita as luzes e as trevas e revela, no ser amado, a existência de dois seres distintos. Durante o dia, o outro amante é previsível, sereno. Somente a tormenta das trevas é capaz de acender nesse outro o mistério, a sedução fatalizante, a sina dos naufrágios e perigos. Estamos no domínio da paixão, daquele sentir terrível capaz de arrebatar nossa vida por completo, de nos levar ao estado de possessão febril, de loucura delirante, de gozo supremo. As metáforas e as comparações, tão bem talhadas, revelam a hábil artesania do poeta. Aliás, essa é uma grande virtude de Victor, a de tramar metáforas e comparações de forte poder encantatório. Dessa forma, os olhos são como ilhas de imenso oceano, águas profundas a tragar por completo o eu lírico. Os horizontes são tomados pela fome de arrebatamento, eles têm sede de luz. Essas imagens, assim como muitas outras (todo o livro é um pontilhado de metáforas vivas, repletas de uma imagética de pura inventividade), tornam o livro uma raridade preciosa.
Os poemas, conduzidos por um ritmo muito semelhante ao do poema em prosa, possui versos longos, extensos. Tal ritmo imprime lentidão ao discurso. Esse efeito é de suma importância, pois ele funciona como uma espécie de câmara lenta, com a qual o leitor vai captando as minúcias desse mundo repleto de areias, de beduínos, de cavaleiros, de pedras preciosas. O ritmo casa-se perfeitamente com o forte apelo pictórico do livro:
Às vezes também os homens
espreitam na margem do oásis, vageiam com desespero no tosco
emaranhado das dunas. Às vezes também eles, por entre os cedros,
em mim desenham um estranho mistério: falam alto, gesticulam...
São suas vozes uma ave inusitada no azulado entardecer do deserto.
Mas eu finjo nem perceber
É no longe o que procuro
bem no centro dessa paisagem, no macio regaço dos povos nómadas,
onde as caravanas se balanceiam sem nunca se deterem
O meu lugar é um minúsculo e límpido poço, todo rodeado
de seixos, para lá do ocre de tantos palácios antigos - é o lugar onde
não sou, um estilhaçado vitral que ninguém vê, mas que liberta
O não ser, no livro de Victor, tangencia a totalidade das paixões. É preciso, portanto, ao modo de Pessoa, perder-se para encontrar-se, fugir para cair no próprio ser. Roteiro pontilhado de oásis, repleto de paixões e mistérios, "Pelo deserto as minhas mãos" é uma aventura pelos escaninhos da própria palavra, pela poesia, enfim, feita de magnitude e sublime encontro com o outro, esse ser a fervilhar nossos desejos.
Alexandre Bonafim in " O Silêncio de Orfeu ", Biblioteca 24 Horas, São Paulo, 2011, pp 94 - 99.
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11/11/11
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"Máximas de Francisco VI, Duque de La Rochefoucauld"
.(...)
68. Il est difficile de définir l'amour. Ce qu'on en peu dire est que dans l'âme c'est une passion de régner, dans les esprits c'est une sympathie, et dans le corps ce n'est qu'une envie cachée et délicate de posséder ce que l'on aime après beaucoup de mystères.
69. S'il y a un amour pur et exempt du mélange de nos autres passions, c'est celui qui est caché au fond du coeur, et que nous ignorons nous-mêmes.
70. Il n'y a point de déguisement qui puisse longtemps cacher l'amour où il est, ni le feindre où il n'est pas.
71. Il n'y a guère de gens qui ne soient honteux de s'être aimés quand ils ne s'aiment plus.
72. Si on juge de l'amour par la plupart de ses effets, il ressemble plus à la haine qu'à l'amitié.
(...)
74. Il n'y a que d'une sorte d'amour, mais il y a mille différentes copies.
75. L'amour aussi bien que le feu ne peut subsister sans un mouvement continuel; et il cesse de vivre dès qu'il cesse d'espérer ou de caindre.
76. Il est du véritable amour comme de l'apparition des esprits: tout le monde en parle, mais peu de gens en ont vu.
La Rochefoucauld in "Maximes, Réflexions, Lettres, précédées de L'Homme Mis en Scène par
Tzvetan Todorov", Hachette, Paris, 1999, pp 96 - 97.
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09/11/11
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" Em ti "
Em ti o chão exausto de meu desejo. A flor aberta
dos sentidos. A calidez do lume. A água. O vinho.
O sangue a estuar em fúria. O grito do sol
que em transe de labareda fulge e irradia.
A extensão de tantos vales
e colinas. Fragrantes. Infinitas.
Os pomos saborosos, repartidos.
Os gomos. Os sumos ardorosos.
Os bosques impregnados de maresia.
A placidez molhada das ervas.
O luzir loiro das searas pelo vento devastadas.
O estio. O seu zénite. A sua vertigem.
Em ti a inclinação dos ramos. A tranlucidez do verde.
O derrame da seiva. O estremecer das raízes.
O musgo despontando. O aveludado dos troncos.
Os álamos. Os plátanos. E outras núbeis melodias.
O espreguiçar incandescente dos rios.
O êxtase das aves altas anunciando o fervor
de um beijo. De um afago. De uma carícia.
O hálito das corolas. As sépalas. Os estames.
O brilho e o odor silvestre da resina. A relva sedosa.
A primavera inebriada com sua própria brisa.
Em ti o menear da terra. As eiras. O feno flamante.
O irromper dos brotos. O despertar dos cálices.
A embriaguez do nardo. E da acácia, festiva.
O matiz das cores na várzea repercutido.
O som dos mananciais posto a descoberto.
O manar das fontes em euforia.
Os céus azuis a derramarem hinos.
O trinado agudo da andorinha.
O acenar obstinado dos choupos.
As centelhas rubras do crepúsculo.
O perfume juvenil das vinhas.
Em ti o delírio das ondas. Das espumas.
As fogueiras ateadas. Os aromas fulvos.
O sopro das chamas. O pão aceso. As espigas.
Os campos de lilases que se estendem
numa queimadura de aurora.
As pétalas humedecidas.
O incêndio azul do orvalho.
A alvura da açucena na manhã florida.
Em ti, amada, celebro a memória de todas as coisas vivas.
Gonçalo Salvado in " Ardentia ", Editorial Tágide, Lisboa, 2011, pp 97 - 100.
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08/11/11
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" Fulgidez "
Como aves extraviadas
sob o torpor de tanta luz
nossas bocas
unem-se ansiosas,
ardem juntas
num delírio rubro,
ébrias de gemidos,
nuas, alucinadas,
seduzem-se,
perturbam-se,
embriagam-se,
entregam-se ferventes
e enfeitiçadas,
em êxtase bebem
o fragor do lume,
sorvem o ardor
e a cupidez do vinho,
mordem-se
como polpas tenras, sumarentas,
inebriadas,
queimam-se,
ferem-se,
húmidas de tantos beijos,
de fogo tão sequiosas,
chamas convulsas
bruxuleando claras.
E quase morrem calcinadas,
exaustas, loucas, desvairadas,
num frémito de labaredas,
em fogueiras acesas, altas,
transfiguradas -
Serão centelhas vivas, alvoroçadas?
Fúlgidas quimeras abrasadas?
Gonçalo Salvado in " Ardentia ", Editorial Tágide, 2011, p 15.
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" Fulgidez "
Como aves extraviadas
sob o torpor de tanta luz
nossas bocas
unem-se ansiosas,
ardem juntas
num delírio rubro,
ébrias de gemidos,
nuas, alucinadas,
seduzem-se,
perturbam-se,
embriagam-se,
entregam-se ferventes
e enfeitiçadas,
em êxtase bebem
o fragor do lume,
sorvem o ardor
e a cupidez do vinho,
mordem-se
como polpas tenras, sumarentas,
inebriadas,
queimam-se,
ferem-se,
húmidas de tantos beijos,
de fogo tão sequiosas,
chamas convulsas
bruxuleando claras.
E quase morrem calcinadas,
exaustas, loucas, desvairadas,
num frémito de labaredas,
em fogueiras acesas, altas,
transfiguradas -
Serão centelhas vivas, alvoroçadas?
Fúlgidas quimeras abrasadas?
Gonçalo Salvado in " Ardentia ", Editorial Tágide, 2011, p 15.
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05/11/11
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Vem ver-me numa noite onde não haja luar, escura, escura,
como breu.
Não quero olhar para ti.
Apenas sentir a tua entrada.
Sentir-te sair para saber que te foste.
E tudo ficar tão escuro que não saiba que a noite jamais se apaga.
Com medo que apareças.
Depois, quero que fales nesse escuro das coisas impensáveis
O que guardaste de mim que me faz falta.
E num instante volver a um tempo outro
Que nunca encontro.
E que não chega para anunciar a tua entrada.
Vem ver-me na curva dos sonhos transfigurados
E verás como sou nada.
E de tudo ser capaz para te pedir
Não faltes!
As ledas pálpebras têm estranhos caminhos.
E eu ceguei ao olhar o dentro.
É tudo tão o mesmo breu...!
Que não me vês
Tal qual um deus.
Morto, na espera das viagens.
Amélia Vieira in " Gabriel ", Cavalo de Ferro Editores, s/c., 2011, p 95.
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04/11/11
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Vamos por vezes andando e descobrindo nos rostos pedaços de
Homo sapiens.
Os troncos são partes frouxas trazendo agarrados as cavernas
ledas e os olhos mochos.
Se olharmos bem, bem, vemos o tio paleolítico, agarrando
mamute à mão, e as asas de um silfo que segreda; venham da
caverna, irmãos!
Está lá dentro a deusa-mãe, gorda, enrolada, ri da noite ter
chegado, para que o troglodítico esposo lhe dê a carne e o osso
agarrado ao seu pescoço, e malhe na noite, eles, que são antes
do pecado.
São caras, são pescoços, são os dentes poliformes, as narinas
gordas dos olhos, a bruta matéria informe. Que aquela massa
esboça quase um sorriso, parecendo contorcionismo, será que
pensam, tem siso, nascem-lhes apêndices maiores?
Vou para Oeste, para as Beiras, e não vejo "bolhas"
verdadeiras de pré-histórica gente? Não andam, arranham
chãos, zurzem, são informes, microcósmicos, como se caíssem
de um céu, cujo refinamento ainda não se deu.
Peludos, abatanados, maçudos, muito parados, presuntados,
cheiram às caças das carnes, fedem como as feras, mas de tão
feios espantam, não gostam da civilização, pontas limadas com
laser e tudo o que se lhes afigure ser brilhante e nunca ter
conclusão.
Os "regimes" portugueses são organizações pré-históricas, por
mais que se faça, por mais que se ande, a caverna é grande
e farta, a serra, uiva atávica à sua espécie que não pode, não
consegue, dela se dissociar.
Dispa-se; vê, lá está... pêlo, tudo disforme.
Ria; olhe esses dentes são de rasgar carnes...
Respire; tanta cartilagem...
Ande; vê, tem os dois pés no chão na mesma posição!
Mas o que é a Civilização?
É sentir isto tudo e ficar mudo.
É estar eu para aqui, limada, enxuta, a falar destes labregos
Muito pífios, muito ledos, engodam como os godos,
Dão ordens como na caça, matam um veado,
Ficam heróis, matam-nos a todos e foi tudo de graça.
Este o encanto da Pré-História, o homem defende-se, come
quando tem fome, fode quando tem tesão, nascem pré-históricos
aos magotes sem precisar de regras de salão.
Ah! Desculpem, preferia morrer de fome, desmonhecar,
a ter de levar com um osso, ou não me fazerem vibrar com a
vénia dada aos naturais. Uma boa genuflexão levou milhares
de anos a ser executada... E eu sei que herdei esse joelho, e
no meio, fui ficando, depois... veio a dança, o traje, a graça...
Quanto trabalho para meter de pé as estátuas!
Os labirintos são coisas pré-históricas, a gente anda e fica tonta,
por vezes no mesmo sítio, mas como de lá sair? Olhem, eu passei
por cima do Touro, ele correu atrás de mim, partiu um pé e
foi-se logo sentar outra vez no trono... Quero lá saber daquela
porcaria!
Encaracolam-se-lhes as formas e ficam paleoprotásicos...
Depois, os sons são de avatares antes do verbo...
Muita vogal, a u ooooo, é tudo informe, eu sinto-me mal.
Não goste da Ode. E também desta espécie demasiado natural.
Amélia Vieira in " Gabriel ", Cavalo de Ferro Editores, s/c., 2011, pp 27 - 29.
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Vamos por vezes andando e descobrindo nos rostos pedaços de
Homo sapiens.
Os troncos são partes frouxas trazendo agarrados as cavernas
ledas e os olhos mochos.
Se olharmos bem, bem, vemos o tio paleolítico, agarrando
mamute à mão, e as asas de um silfo que segreda; venham da
caverna, irmãos!
Está lá dentro a deusa-mãe, gorda, enrolada, ri da noite ter
chegado, para que o troglodítico esposo lhe dê a carne e o osso
agarrado ao seu pescoço, e malhe na noite, eles, que são antes
do pecado.
São caras, são pescoços, são os dentes poliformes, as narinas
gordas dos olhos, a bruta matéria informe. Que aquela massa
esboça quase um sorriso, parecendo contorcionismo, será que
pensam, tem siso, nascem-lhes apêndices maiores?
Vou para Oeste, para as Beiras, e não vejo "bolhas"
verdadeiras de pré-histórica gente? Não andam, arranham
chãos, zurzem, são informes, microcósmicos, como se caíssem
de um céu, cujo refinamento ainda não se deu.
Peludos, abatanados, maçudos, muito parados, presuntados,
cheiram às caças das carnes, fedem como as feras, mas de tão
feios espantam, não gostam da civilização, pontas limadas com
laser e tudo o que se lhes afigure ser brilhante e nunca ter
conclusão.
Os "regimes" portugueses são organizações pré-históricas, por
mais que se faça, por mais que se ande, a caverna é grande
e farta, a serra, uiva atávica à sua espécie que não pode, não
consegue, dela se dissociar.
Dispa-se; vê, lá está... pêlo, tudo disforme.
Ria; olhe esses dentes são de rasgar carnes...
Respire; tanta cartilagem...
Ande; vê, tem os dois pés no chão na mesma posição!
Mas o que é a Civilização?
É sentir isto tudo e ficar mudo.
É estar eu para aqui, limada, enxuta, a falar destes labregos
Muito pífios, muito ledos, engodam como os godos,
Dão ordens como na caça, matam um veado,
Ficam heróis, matam-nos a todos e foi tudo de graça.
Este o encanto da Pré-História, o homem defende-se, come
quando tem fome, fode quando tem tesão, nascem pré-históricos
aos magotes sem precisar de regras de salão.
Ah! Desculpem, preferia morrer de fome, desmonhecar,
a ter de levar com um osso, ou não me fazerem vibrar com a
vénia dada aos naturais. Uma boa genuflexão levou milhares
de anos a ser executada... E eu sei que herdei esse joelho, e
no meio, fui ficando, depois... veio a dança, o traje, a graça...
Quanto trabalho para meter de pé as estátuas!
Os labirintos são coisas pré-históricas, a gente anda e fica tonta,
por vezes no mesmo sítio, mas como de lá sair? Olhem, eu passei
por cima do Touro, ele correu atrás de mim, partiu um pé e
foi-se logo sentar outra vez no trono... Quero lá saber daquela
porcaria!
Encaracolam-se-lhes as formas e ficam paleoprotásicos...
Depois, os sons são de avatares antes do verbo...
Muita vogal, a u ooooo, é tudo informe, eu sinto-me mal.
Não goste da Ode. E também desta espécie demasiado natural.
Amélia Vieira in " Gabriel ", Cavalo de Ferro Editores, s/c., 2011, pp 27 - 29.
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03/11/11
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No seu posto, um Poeta é ainda aquele que vela, que está atento, que ausculta o coração das coisas em redor e se disponibiliza para interpretá-las, daí, por vezes, o seu não encontro no tempo marcado com muitos dos seus contemporâneos. Para que servem poetas em tempo de indigência? Uma pergunta de Holderlin tão válida hoje como o foi há duzentos anos, como o será porventura no futuro, enquanto o Homem for esta Humanidade. Talvez evitem o despenhar nas costas, os naufrágios abruptos, talvez desviem as rotas das tormentas - Faroleiros Vigilantes - e, se evitarem um que seja, a sua participação já é válida.
(...) Na medida em que a religião existe na ordem etimológica do religar, é necessário saber fazer estas pontes comunicantes que serão bem-vindas para que todos se sentem à mesa da concórdia e do debate fraterno.
(...) O século que aí está pede-nos que o Poeta se ocupe desta memória sob pena de ver destituída a sua função em prol de um divertimento linguístico, que, pese embora a utilíssima maneira de trabalhar a palavra, jamais pode, sob risco de aniquilamento, desligar-se. Metamos mãos nem que seja aos antigos mantras, esconjuremos as chacinas, a indiferença e o desastre. Façamos outras cabanas, convoquemos outros pastores (...).
E, com tudo isto, talvez não tivesse sabido explicar o mais simples: ser original equivale a voltar secretamente à origem. Daí emana o futuro e, o futuro, a sê-lo - porque haverá sempre futuro -, só pode ser, terá de ser, Absolutamente Redentor.
Amélia Vieira in " Gabriel ", Cavalo de Ferro Editores, s/c., 2011, pp 8 - 9.
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02/11/11
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Dêem-me a cor de uma grande noite e eu
aprenderei a mover-me em equinócio. Já não
te sei, por isso sigo a meio dos dias e de
costas voltadas para os fenos e as margens.
Ao fundo, quando reclamo a espessura de
uma outra inquietação, durmo nos sinais de
uma orla sem corpo, campo aberto e
obscuro. Bato a todas as portas, mas de
súbito, recolho-me na invenção de mapas.
Absurda e doce memória esta aragem que
me cobre.
Cecília Barreira in " a sul da memória ", Europress Editores, Odivelas, 2001, p 55.
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Contemplo-me na infância. Não sei para
onde aguardar a medida das nuvens, nem
em que sinal partir fundo. Surges frágil na
tua felina imprecisão. Janeiro em desalinho.
Dá-me a coloração das luzes que divergem e
redistribui-me em ti.
Cecília Barreira in " a sul da memória ", Europress Editores, Odivelas, 2001, p 25.
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Contemplo-me na infância. Não sei para
onde aguardar a medida das nuvens, nem
em que sinal partir fundo. Surges frágil na
tua felina imprecisão. Janeiro em desalinho.
Dá-me a coloração das luzes que divergem e
redistribui-me em ti.
Cecília Barreira in " a sul da memória ", Europress Editores, Odivelas, 2001, p 25.
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Agradável surpresa!
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Alguns dos meus poemas, traduzidos para espanhol por Marta López Vilar, passaram a integrar a seguinte Antologia do século XXI:
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www.poetassigloveintiuno.blogspot.com/2011/09/4791-victor-oliveira-mateus.html
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Alguns dos meus poemas, traduzidos para espanhol por Marta López Vilar, passaram a integrar a seguinte Antologia do século XXI:
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www.poetassigloveintiuno.blogspot.com/2011/09/4791-victor-oliveira-mateus.html
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01/11/11
Ronaldo Cagiano e sua mulher, em Lisboa ( Janeiro 2011).
" Dia sem nome "
Na estação de trabalho
os colegas cumprimentam-se
com a mesma frieza burocrática
de todos os dias.
Uns respondem
gestos automáticos
fugacidade nos olhares
legitimam a mesmice ritualizada
e endêmica.
Alguns
alimentando o espetáculo
das tarefas desestimulantes
não se espantam
com o mundo besta e sem sal
pesando-lhe as mãos.
Outros, em suas baias,
detidos numa rotineira cumplicidade
com a busca infrene dos resultados
reproduzem acenos
sem nenhuma convicção.
Ah, como dói vê-los tão mecânicos
tão protocolares
tão passivos e sem ênfase
homens de gesso
ferozes parteiros do nada.
A imensa e patagônica sala
um curral de vidro povoado
de marionetes
é mais fria
que a mais glacial das necrópoles.
Papéis e-mails expedientes
processos demandas análises
se encordilheiram nas mesas
como culpas
Carimbos repetitivos e vorazes
soquetes no vazio
apelos que chancelam a existência inútil
A saída para o almoço
é apenas um detalhe
nesse galope das horas e seu inventário de necessidades
o ontem minguado de esperanças
com seu arsenal de ordens que se acomodam
como poeira na mobília
precisamos estar focados
ser pró-activos
verificar a expertise
startar novas ideias
evitar retrabalho
eliminar os gaps e gargalos
racionalizar procedimentos
diminuir custos
otimizar resultados aumentar a produtividade
o envolvimento do grupo é fundamental
a coesão da equipe é salutar para a performance
o feedback é indispensável
Tempo é dinheiro
e na selva da concorrência
e das metas insaciáveis e compulsórias
quem não tem competência, está perdido
Todos os dias ouço
a semântica do lucro
a sintaxe do mercado
discurso plastificado e vazio
a reproduzir os
fetiches de um século tão novo e
já enfermo
dirigindo a vida que já não é mais nossa
Porém, no fundo da seção,
imperceptível como as faxineiras
que todos os dias higienizam o ambiente
com seu macacão de zuarte azul
alguém abre um livro de Kafka
e já não se sente entre paredes.
Em silenciosa perplexidade,
rumina sua dor diante do
tédio e da banalização
de mais uma semana consumida a esmo.
Como uma centrífuga vertical
o elevador nos salva no fim de cada fim de expediente.
A solidão mais torpe é estar cercado de imbecis.
Ronaldo Cagiano in " O sol nas feridas ", Dobra Editorial, São Paulo, 2011, pp 101 - 104.
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" Dia sem nome "
Na estação de trabalho
os colegas cumprimentam-se
com a mesma frieza burocrática
de todos os dias.
Uns respondem
gestos automáticos
fugacidade nos olhares
legitimam a mesmice ritualizada
e endêmica.
Alguns
alimentando o espetáculo
das tarefas desestimulantes
não se espantam
com o mundo besta e sem sal
pesando-lhe as mãos.
Outros, em suas baias,
detidos numa rotineira cumplicidade
com a busca infrene dos resultados
reproduzem acenos
sem nenhuma convicção.
Ah, como dói vê-los tão mecânicos
tão protocolares
tão passivos e sem ênfase
homens de gesso
ferozes parteiros do nada.
A imensa e patagônica sala
um curral de vidro povoado
de marionetes
é mais fria
que a mais glacial das necrópoles.
Papéis e-mails expedientes
processos demandas análises
se encordilheiram nas mesas
como culpas
Carimbos repetitivos e vorazes
soquetes no vazio
apelos que chancelam a existência inútil
A saída para o almoço
é apenas um detalhe
nesse galope das horas e seu inventário de necessidades
o ontem minguado de esperanças
com seu arsenal de ordens que se acomodam
como poeira na mobília
precisamos estar focados
ser pró-activos
verificar a expertise
startar novas ideias
evitar retrabalho
eliminar os gaps e gargalos
racionalizar procedimentos
diminuir custos
otimizar resultados aumentar a produtividade
o envolvimento do grupo é fundamental
a coesão da equipe é salutar para a performance
o feedback é indispensável
Tempo é dinheiro
e na selva da concorrência
e das metas insaciáveis e compulsórias
quem não tem competência, está perdido
Todos os dias ouço
a semântica do lucro
a sintaxe do mercado
discurso plastificado e vazio
a reproduzir os
fetiches de um século tão novo e
já enfermo
dirigindo a vida que já não é mais nossa
Porém, no fundo da seção,
imperceptível como as faxineiras
que todos os dias higienizam o ambiente
com seu macacão de zuarte azul
alguém abre um livro de Kafka
e já não se sente entre paredes.
Em silenciosa perplexidade,
rumina sua dor diante do
tédio e da banalização
de mais uma semana consumida a esmo.
Como uma centrífuga vertical
o elevador nos salva no fim de cada fim de expediente.
A solidão mais torpe é estar cercado de imbecis.
Ronaldo Cagiano in " O sol nas feridas ", Dobra Editorial, São Paulo, 2011, pp 101 - 104.
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31/10/11
.
" Naufrágios "
( para Victor Oliveira Mateus )
Às margens do Tejo
naufrago o tédio de existir
À beira do meu tédio
um Tejo que me recolhe
Caos à deriva,
dissidente embarcação apascentando delírios,
meu olhar medieval navega numa solidão atlântica
Nau sem bússola
desconhecendo a legenda dos mares
desembarco numa infância pagã
ancorada num cais sem metafísica
No dorso veloz do passado
não posso mais cavalgar
Ronaldo Cagiano in " O sol nas feridas ", Dobra Editorial, São Paulo, 2011, p 135.
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" Naufrágios "
( para Victor Oliveira Mateus )
Às margens do Tejo
naufrago o tédio de existir
À beira do meu tédio
um Tejo que me recolhe
Caos à deriva,
dissidente embarcação apascentando delírios,
meu olhar medieval navega numa solidão atlântica
Nau sem bússola
desconhecendo a legenda dos mares
desembarco numa infância pagã
ancorada num cais sem metafísica
No dorso veloz do passado
não posso mais cavalgar
Ronaldo Cagiano in " O sol nas feridas ", Dobra Editorial, São Paulo, 2011, p 135.
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30/10/11
.
"Génese "
Busco na palavra sua unção,
labirinto de paradoxos
onde mergulho
feito escafandrista num garimpo de im
possibilidades
Território de invenções,
ela me estende a ponte entre o sagrado
e o profano
Em cada manhã
rompe com sua insistência de rio
e sua pontualidade solar.
Meticuloso engenho do verbo
que se faz silêncio
ou boato
Rumino sua nudez
ou desvelo suas rugas.
Entre a fuga
e os deslizes
o poema vinga
rosa intimorata perfurando o asfalto
Nutre-me do que é míngua
recicla-me do que é sangue.
Ronaldo Cagiano in " O sol nas feridas ", Dobra Editorial, São Paulo, 2011, p 15.
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"Génese "
Busco na palavra sua unção,
labirinto de paradoxos
onde mergulho
feito escafandrista num garimpo de im
possibilidades
Território de invenções,
ela me estende a ponte entre o sagrado
e o profano
Em cada manhã
rompe com sua insistência de rio
e sua pontualidade solar.
Meticuloso engenho do verbo
que se faz silêncio
ou boato
Rumino sua nudez
ou desvelo suas rugas.
Entre a fuga
e os deslizes
o poema vinga
rosa intimorata perfurando o asfalto
Nutre-me do que é míngua
recicla-me do que é sangue.
Ronaldo Cagiano in " O sol nas feridas ", Dobra Editorial, São Paulo, 2011, p 15.
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28/10/11
" São todos já os mesmos clones Dolly, "
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As barracas do Dia da Leitura
invadiram a praça e a banda estoura,
vomita decibéis e, quanto mais
potentes as colunas, mais se orgulham
aqueles fabricantes de ruído
que o alcaide iliterato de Alcobaça
contratou para a frente do mosteiro.
São todos já os mesmos clones Dolly,
e um grupo de turistas, com a guia
mais a sua agitada bandeirinha,
parece estar feliz com o barulho
que ressoa e suprime as naves góticas.
Pedro e Inês agonizam sem remédio.
Não sei como escrevi que ambos fugiam
em dois cavalos brancos. Disparate.
Isso não é real. Real hoje é
os livros nas barracas
e a banda que profana, retumbante.
Há dois séculos foram os franceses,
e amanhã nem os nomes Pedro e Inês
os filhos desta gente hão-de saber.
Nuno Dempster in "Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo", Edições Sempre-Em-Pé,
Águas Santas, 2011, p 61.
.
27/10/11
" Pedro e Inês estão vivos e caminham/ pelas ruas urbanas, são a imagem/ que salva da tristeza quem não vive "
.
Daqueles que chegaram de Alcobaça
no autocarro que os trouxe, emudecidos,
de regresso à cidade e ao dia-a-dia,
em quantos se projectam Pedro e Inês?
Não é lenda, é um mito antigo, deuses
substitutos do amor que, humanos, se
foram mudando em deuses, lado a lado
com o Cristo da igreja, que também,
dizem, terá amado, e hoje é a cruz
do nosso tempo, casta e melancólica.
Nada é o que parece. Não se sabe
a vida dos divinos, a mais íntima,
a mais real, que foi e já não é,
quando uniam os corpos com furor.
Dos deuses tão-só isto atrai. Assim,
Pedro e Inês estão vivos e caminham
pelas ruas urbanas, são a imagem
que salva da tristeza quem não vive
como eles se entregaram: doidamente.
Nuno Dempster in "Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo ", Edições Sempre-Em-Pé,
Águas Santas, 2011, p 30 "
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Daqueles que chegaram de Alcobaça
no autocarro que os trouxe, emudecidos,
de regresso à cidade e ao dia-a-dia,
em quantos se projectam Pedro e Inês?
Não é lenda, é um mito antigo, deuses
substitutos do amor que, humanos, se
foram mudando em deuses, lado a lado
com o Cristo da igreja, que também,
dizem, terá amado, e hoje é a cruz
do nosso tempo, casta e melancólica.
Nada é o que parece. Não se sabe
a vida dos divinos, a mais íntima,
a mais real, que foi e já não é,
quando uniam os corpos com furor.
Dos deuses tão-só isto atrai. Assim,
Pedro e Inês estão vivos e caminham
pelas ruas urbanas, são a imagem
que salva da tristeza quem não vive
como eles se entregaram: doidamente.
Nuno Dempster in "Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo ", Edições Sempre-Em-Pé,
Águas Santas, 2011, p 30 "
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26/10/11
" Inês sempre doada e Pedro, que foi/ príncipe e rei, com gestos obscuros "
.
Seiscentos e cinquenta anos passados,
tudo pode mudar-se, se pensarmos
que Inês, mais do que Pedro, foi filtrada
por tanta gente, tantos corações
e tão ocultamente que o mito abre
fissuras nas estátuas do mosteiro,
Inês sempre doada e Pedro, que foi
príncipe e rei, com gestos obscuros
que somente o cronista testemunha
em datas e entrelinhas, cauteloso.
Nuno Dempster in " Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas,
2011, p 25.
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Seiscentos e cinquenta anos passados,
tudo pode mudar-se, se pensarmos
que Inês, mais do que Pedro, foi filtrada
por tanta gente, tantos corações
e tão ocultamente que o mito abre
fissuras nas estátuas do mosteiro,
Inês sempre doada e Pedro, que foi
príncipe e rei, com gestos obscuros
que somente o cronista testemunha
em datas e entrelinhas, cauteloso.
Nuno Dempster in " Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas,
2011, p 25.
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25/10/11
24/10/11
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" Canários "
Eles são verdes, amarelos, castanhos,
vermelhos: de todas as cores do arco-íris.
Eles são um arco-íris com asas. E eu, que amo
a liberdade a qualquer preço, apaixonei-me
por um, certa vez, e meti-o numa gaiola.
Desse acto perverso me havia de arrepender
depois. Tratei-o com desvelo, dei-lhe um
lugar arejado e luminoso (conspícuo, como
diria Garrett) e assim me fez companhia por
algum tempo. Morreu semanas depois, de
saudades ou de solidão, ninguém sabe, ou
foi guilhotinado pelo descuido da empregada
doméstica, durante a minha ausência no
Brasil. Tinha morrido, ou fora morto, ou
suicidara-se. Quando voltei, encontrei a
gaiola vazia, sem o mínimo sinal ou aviso -
um bilhete sequer, de despedida.
E nunca mais houve pássaros engaiolados
cá em casa. Minto. Que os houve, sim,
mas em trânsito para o Brasil, onde tenho
um amigo que a essa profissão - não única
ou exclusiva, todavia - se dedica. Tenho-me
esforçado por convencê-lo de que também
os pássaros têm direito à liberdade. Responde-me
que os canários são aves de cativeiro, como se
alguém (e alguém são, naturalmente, as aves)
já nascesse prisioneiro. (Reconsidero: todos
nascemos prisioneiros, sim, mas de outras
prisões, de outras gaiolas mais sofisticadas,
de grades metafísicas, embora dessas e de
outras filosofias não cuide aqui.) E com ele
insisto, sem sofismas (...): mas quem nasceu
com as asas recebeu-as para voar, e não
como adorno ou instrumento de eventual
serventia (...).
Não. Se os canários são aves de cativeiro
e objecto de duvidosas experiências de
laboratório e ourivesarias ornitológicas,
para gáudio de coleccionadores e ladrões
da liberdade alheia, foram os homens que
as tornaram cativas. A eles compete, pois,
devolver-lhes a liberdade roubada. Porque
de multiplos cativeiros está cheia a história
dos homens. Todos injustos. Todos afectando
inocentes. O homem é assim: usa a fragilida-
de alheia para afirmar a sua força e impor
o seu poder. Mas todas as masmoras um dia
se abrem e nelas encontram guarida os seus
construtores. O despotismo, a que alguns
chamaram iluminado, é próprio do reino das
sombras, não da luz. E a luz não pode ser encar-
cerada. Melhor: a luz não se deixa encarcerar.
Por mais submissa que se mostre ou ordeira
que se apresente.
Albano Martins in "Assim são as algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto, 2000, pp 319 - 321.
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" Canários "
Eles são verdes, amarelos, castanhos,
vermelhos: de todas as cores do arco-íris.
Eles são um arco-íris com asas. E eu, que amo
a liberdade a qualquer preço, apaixonei-me
por um, certa vez, e meti-o numa gaiola.
Desse acto perverso me havia de arrepender
depois. Tratei-o com desvelo, dei-lhe um
lugar arejado e luminoso (conspícuo, como
diria Garrett) e assim me fez companhia por
algum tempo. Morreu semanas depois, de
saudades ou de solidão, ninguém sabe, ou
foi guilhotinado pelo descuido da empregada
doméstica, durante a minha ausência no
Brasil. Tinha morrido, ou fora morto, ou
suicidara-se. Quando voltei, encontrei a
gaiola vazia, sem o mínimo sinal ou aviso -
um bilhete sequer, de despedida.
E nunca mais houve pássaros engaiolados
cá em casa. Minto. Que os houve, sim,
mas em trânsito para o Brasil, onde tenho
um amigo que a essa profissão - não única
ou exclusiva, todavia - se dedica. Tenho-me
esforçado por convencê-lo de que também
os pássaros têm direito à liberdade. Responde-me
que os canários são aves de cativeiro, como se
alguém (e alguém são, naturalmente, as aves)
já nascesse prisioneiro. (Reconsidero: todos
nascemos prisioneiros, sim, mas de outras
prisões, de outras gaiolas mais sofisticadas,
de grades metafísicas, embora dessas e de
outras filosofias não cuide aqui.) E com ele
insisto, sem sofismas (...): mas quem nasceu
com as asas recebeu-as para voar, e não
como adorno ou instrumento de eventual
serventia (...).
Não. Se os canários são aves de cativeiro
e objecto de duvidosas experiências de
laboratório e ourivesarias ornitológicas,
para gáudio de coleccionadores e ladrões
da liberdade alheia, foram os homens que
as tornaram cativas. A eles compete, pois,
devolver-lhes a liberdade roubada. Porque
de multiplos cativeiros está cheia a história
dos homens. Todos injustos. Todos afectando
inocentes. O homem é assim: usa a fragilida-
de alheia para afirmar a sua força e impor
o seu poder. Mas todas as masmoras um dia
se abrem e nelas encontram guarida os seus
construtores. O despotismo, a que alguns
chamaram iluminado, é próprio do reino das
sombras, não da luz. E a luz não pode ser encar-
cerada. Melhor: a luz não se deixa encarcerar.
Por mais submissa que se mostre ou ordeira
que se apresente.
Albano Martins in "Assim são as algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto, 2000, pp 319 - 321.
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23/10/11
.
Vamos na órbita dos ciclos que geram
a inocência. Ciclopes amarrados à visão
desprendida, nítida, das origens. Como
quando, outra vez descalços, colhíamos as
amoras e os morangos silvestres nas
tapadas onde o vento era azul, azul o
sangue. Quando eram verdes os lençóis e a
noite crescia dentro da manhã. Como cres-
cem as crianças.
E olhas em redor. Este é o círculo
perfeito onde o olhar dorido se demora e
descansa. A planície contornada por uma
vegetação rasteira e incólume. Distante
mora o fósforo dos incêndios. Em sua
cabeça exangue ardem ameaças e terrores
que adivinhas somente. Sê vigilante e subtil.
Não durmas. Ou dorme sobre o lado direito,
sem pisar o coração, que vela de olhos
fechados, mas acesos. Como um clarão, uma
medalha de ouro iluminada, um punho
inflamado erguido sem revolta. Ou dorme,
sim, como dormem os aloendros, vertical e
secreto, em teus rizomas de aço e de ternura.
E desciam então dos eucaliptos as
rolas atreladas ao carro do canto. E suplan-
tavas em agilidade, na corrida desordenada,
os galgos e as lebres. E bebias a água do
açude com teu bico de cegonha, o coração
de azevinho. Pastor de ovelhas tresma-
lhadas, dum rebanho de cabras silvestres.
Essa a tua escola verdadeira. Na cartilha
maternal das borboletas aprendeste a voar,
e ali escreveste, nas ardósia do vento, os
primeiros poemas.
Albano Martins in "Assim são algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto,
2000, pp 199 - 201.
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Vamos na órbita dos ciclos que geram
a inocência. Ciclopes amarrados à visão
desprendida, nítida, das origens. Como
quando, outra vez descalços, colhíamos as
amoras e os morangos silvestres nas
tapadas onde o vento era azul, azul o
sangue. Quando eram verdes os lençóis e a
noite crescia dentro da manhã. Como cres-
cem as crianças.
E olhas em redor. Este é o círculo
perfeito onde o olhar dorido se demora e
descansa. A planície contornada por uma
vegetação rasteira e incólume. Distante
mora o fósforo dos incêndios. Em sua
cabeça exangue ardem ameaças e terrores
que adivinhas somente. Sê vigilante e subtil.
Não durmas. Ou dorme sobre o lado direito,
sem pisar o coração, que vela de olhos
fechados, mas acesos. Como um clarão, uma
medalha de ouro iluminada, um punho
inflamado erguido sem revolta. Ou dorme,
sim, como dormem os aloendros, vertical e
secreto, em teus rizomas de aço e de ternura.
E desciam então dos eucaliptos as
rolas atreladas ao carro do canto. E suplan-
tavas em agilidade, na corrida desordenada,
os galgos e as lebres. E bebias a água do
açude com teu bico de cegonha, o coração
de azevinho. Pastor de ovelhas tresma-
lhadas, dum rebanho de cabras silvestres.
Essa a tua escola verdadeira. Na cartilha
maternal das borboletas aprendeste a voar,
e ali escreveste, nas ardósia do vento, os
primeiros poemas.
Albano Martins in "Assim são algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto,
2000, pp 199 - 201.
.
21/10/11
.
*
De meu e teu que resta
entre os ramos e o voo
das andorinhas?
Podes
convocar as palavras, adicionar
à voz o espanto, a ira, esgrimir
com as mais ásperas
vogais. Da morte
e seus juízos imutáveis
não há reccurso.
*
Pondero a têmpera, a feição
dos novos, ingénuos
utensílios, avalio
a transparência mineral dos gestos
mais antigos e das lágrimas
defuntas, agora calcinadas.
Cedo
ao mármore a insalubre vocação do silêncio.
*
Outros
foram os dados, outra
a mesa. O jogo,
não. A mesma
lâmina esgrime
entre a sutura
e o álcool.
*
Dêem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as águas.
Dêem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
*
Levo comigo as árvores,
os lagos,
o vento - as suas cestas
de merenda e volúpia.
À beira
dos relâmpagos planto
uma araucária, uma raiz
de espadas flutuantes ou adagas
floridas - o crepúsculo,
talvez, cinzenta
espuma volátil
de beijos e de lágrimas.
(...)
*
De novo disporás
a lenha
sobre a pedra. Seco
e rente, nela
repousarás.
Ou no discurso
irredutível ao
som das moles
águas crepusculares.
*
Devolvo
à nascente o fluxo, ao mar a indomável
surpresa da corrente.
Posso
agora olhar
ileso os poros, repousar
a cabeça entre os líquenes - substância
minha austera, meu
chão de larvas e fadiga.
*
Chegam no dorso do verão, como asas
mortas de estorninhos lentamente desfolhadas.
Um marco geodésico de sombras e desen-
contros.
A maresia da noite.
Albano Martins in "Assim são as algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto,
2000, pp 165 - 169.
.
*
De meu e teu que resta
entre os ramos e o voo
das andorinhas?
Podes
convocar as palavras, adicionar
à voz o espanto, a ira, esgrimir
com as mais ásperas
vogais. Da morte
e seus juízos imutáveis
não há reccurso.
*
Pondero a têmpera, a feição
dos novos, ingénuos
utensílios, avalio
a transparência mineral dos gestos
mais antigos e das lágrimas
defuntas, agora calcinadas.
Cedo
ao mármore a insalubre vocação do silêncio.
*
Outros
foram os dados, outra
a mesa. O jogo,
não. A mesma
lâmina esgrime
entre a sutura
e o álcool.
*
Dêem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as águas.
Dêem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
*
Levo comigo as árvores,
os lagos,
o vento - as suas cestas
de merenda e volúpia.
À beira
dos relâmpagos planto
uma araucária, uma raiz
de espadas flutuantes ou adagas
floridas - o crepúsculo,
talvez, cinzenta
espuma volátil
de beijos e de lágrimas.
(...)
*
De novo disporás
a lenha
sobre a pedra. Seco
e rente, nela
repousarás.
Ou no discurso
irredutível ao
som das moles
águas crepusculares.
*
Devolvo
à nascente o fluxo, ao mar a indomável
surpresa da corrente.
Posso
agora olhar
ileso os poros, repousar
a cabeça entre os líquenes - substância
minha austera, meu
chão de larvas e fadiga.
*
Chegam no dorso do verão, como asas
mortas de estorninhos lentamente desfolhadas.
Um marco geodésico de sombras e desen-
contros.
A maresia da noite.
Albano Martins in "Assim são as algas, Poesia 1950 - 2000", Campo das Letras, Porto,
2000, pp 165 - 169.
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19/10/11
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No DSM IV, manual internacional de classificação das doenças mentais, não encontramos a perversão narcísica entre as doenças da personalidade. Considera-se apenas aí as perversões sexuais, na rubrica das perturbações sexuais, ou nas perturbações da personalidade.
A personalidade narcísica é descrita do seguinte modo ( e tem de apresentar pelo menos cinco das manifestações que se seguem):
- o indivíduo tem uma convicção grandiosa da sua importância própria,
- está absorvido por fantasias de sucesso ilimitado, de poder,
- pensa ser "especial" e único,
- tem uma excessiva necessidade de ser admirado,
- pensa que tudo lhe é devido,
- explora o outro ao nível das relações interpessoais,
- falta de empatia,
- inveja com frequência os outros,
- assume atitudes e comportamentos arrogantes.
A descrição feita por Otto Kernberg, em 1975, da patologia narcísica está muito próxima daquela que actualmente se toma como perversão narcísica: " As principais características destas personalidades narcísicas são um sentimento de grandeza, um egocentrismo extremo, uma ausência total de empatia pelos outros, apesar de serem ávidos de obter a admiração e aprovação deles. Estes pacientes sentem uma inveja muito intensa relativamente àqueles que eles julgam possuir coisas que eles não têm ou que, simplesmente, parecem tirar prazer das suas vidas. A estes indivíduos não só falta profundidade afectiva como não chegam nunca a compreender as emoções complexas dos outros, e os seus sentimentos, não sendo modelados, conhecem rápidas erupções logo seguidas de dispersão. Eles ignoram, especificamente, os verdadeiros sentimentos de tristeza e de pesar; esta incapacidade para experienciar reações depressivas é um traço fundamental da sua personalidade. Quando se sentem abandonados ou decepcionados, podem mostrar-se aparentemente deprimidos, mas ante uma análise atenta, percebemos tratar-se de cólera ou de ressentimento com desejos de vingança e não de uma verdadeira tristeza pela perda de uma pessoa que eles apreciavam."
Um Narciso, no sentido do Narciso de Ovídio, é alguém que acredita encontrar-se olhando-se ao espelho. A sua vida consiste na procura do seu reflexo no olhar dos outros. O outro não existe enquanto sujeito mas apenas enquanto espelho. Um Narciso é uma casca vazia que não tem existência própria; é um "pseudo", que procura provocar ilusões para mascarar o seu vazio. O seu destino é uma tentativa para evitar a morte. É alguém que jamais foi reconhecido como ser humano e que foi forçado a construir um jogo de espelhos para conceder a si próprio a ilusão de existir. Como um caleidoscópio, esse jogo de espelhos tende a repetir-se e a multiplicar-se: este indivíduo permanece edificado sobre o vazio.
O Narciso, não tendo substância, vai-se "debruçar" sobre o outro e, como uma sanguessuga, tenta aspirar a vida deste. Sendo incapaz de uma verdadeira relação, ele apenas a pode levar a cabo num registo "perverso", de malignidade destrutiva. Incontestavelmente, os perversos sentem um gozo extremo, vital, ante o sofrimento e as dúvidas do outro, assim como sentem um prazer intenso em subjugar e humilhar.
Tudo se inicia e se explica pelo Narciso vazio, construção em reflexo, no lugar de si-próprio e nada no interior, tal como um robot foi feito para imitar a vida, ter todas as aparências e sucessos da vida, mas sem essa mesma vida. O seu desregramento sexual e a sua maldade não são mais do que consequências inelutáveis desta estrutura vazia. Como os vampiros, o Narciso vazio tem necessidade de se alimentar da substância do outro. Como não tem vida, ele tem de a sugar onde ela existe ou, se isso for impossível, de a destruir para que não haja vida em lugar algum.
Tudo se inicia e se explica pelo Narciso vazio, construção em reflexo, no lugar de si-próprio e nada no interior, tal como um robot foi feito para imitar a vida, ter todas as aparências e sucessos da vida, mas sem essa mesma vida. O seu desregramento sexual e a sua maldade não são mais do que consequências inelutáveis desta estrutura vazia. Como os vampiros, o Narciso vazio tem necessidade de se alimentar da substância do outro. Como não tem vida, ele tem de a sugar onde ela existe ou, se isso for impossível, de a destruir para que não haja vida em lugar algum.
(...) Daí a sensação que têm as vítimas de lhes ter sido negada a sua individualidade. A vítima não é um sujeito-outro, mas apenas um reflexo. Tudo o que possa colocar em questão este sistema de espelhos que mascaram o vazio, apenas pode desencadear uma reação em cadeia de furor destrutivo. Os perversos narcísicos não passam de máquinas de reflexos que buscam em vão a sua própria imagem no espelho que é os outros.
Eles são insensíveis, sem afecto. Como poderia uma máquina de reflexos ser sensível? Por conseguinte, são incapazes de sofrimento. Sofrer pressupõe ser de carne e osso, ter uma existência. Eles não têm história já que são coisas ausentes e apenas os seres presentes no mundo podem possuir uma história (...).
Os perversos narcísicos são indivíduos megalómanos que se colocam como referentes, como medida do bem e do mal, da verdade. Encenam, frequentemente, um ar moralizador, superior, distante. Mesmo quando não dizem nada (...) eles traduzem a malevolência humana.
Apresentam uma ausência total de interesse e empatia pelos outros, contudo desejam que esses outros se interessem por eles. Tudo lhes é devido! Criticam toda a gente e não admitem nenhuma reprovação nem nenhum pôr em causa. (...) Apontar as falhas dos outros é um modo de não ver as suas, de se defender contra uma angústia da ordem do psicótico.
Os perversos estabelecem uma relação com os outros para os seduzir. São descritos, geralmente, como pessoas sedutoras e brilhantes. Uma vez apanhado o peixe, basta apenas mantê-lo na distância necessária (...).
A sedução perversa não comporta nenhuma afectividade, pois o próprio princípio do funcionamento perverso é de evitar todo e qualquer afecto (...) A força dos perverso vem-lhe da sua insensibilidade. Eles não conhecem nenhum escrúpulo de ordem moral. Jamais sofrem. Atacam com toda a impunidade (...)
Os perversos podem apaixonar-se por uma pessoa, uma actividade ou ideia, mas esse flamejar é sempre superficial, já que ignoram os verdadeiros sentimentos (...) A eficácia dos seus ataques deve-se ao facto que tanto a vítima como um observador exterior jamais imaginar que se possa ser a tal ponto desprovido de solicitude ou de compaixão frente ao sofrimento do outro.
(...) Os perversos alimentam-se da energia daqueles que sofrem o seu charme (...). Sendo incapazes de amar, eles tentam destruir, através do seu cinismo, a simplicidade de uma relação natural.
Para se aceitarem, os perversos narcísicos têm de triunfar e destruir qualquer um que julguem superior. Alegram-se com o sofrimento alheio. Para se afirmarem, precisam de destruir.
Há neles uma exacerbaçao da função crítica que faz com que passem a vida criticar tudo e todos. Assim, eles conservam a sua omnipotência: " Se os outros são nulos, eu sou forçosamente melhor do que eles!"
(...) A inveja é neles um sentimento de cobiça, de irritação odienta frente à felicidade ou às vantagens do outro. Trata-se de uma mentalidade, de conjunto, agressiva que se fundamenta na percepção daquilo que o outro possui e de que ele é desprovido. Esta percepção é subjectiva e pode mesmo ser delirante.
(...) Eles impõem aos outros a sua visão pejorativa do mundo e a sua insatisfação crónica relativamente à vida. Destroiem todo o entusiasmo à volta deles, procuram sobretudo demonstrar que o mundo não presta, que os outros são maus e que o parceiro(a) é igualmente mau.(...) É por isso que procuram, com frequência, as sua vítimas no seio dos que possuem bastante energia e/ou que têm gosto pela vida(...)
Os perversos agridem o outro para sairem da condição de vítima que experienciaram na infância. (...) Aquando das rupturas, os perversos colocam-se na situação de vítimas abandonadas, o que lhes concede um belo papel e lhes permite seduzir um outro parceiro, consolador.
(...) Atirar com a falha para cima do outro, difamá-lo fazendo-o passar por mau, permite-lhe não só fazer a catarse, mas também autobranquear-se: se não são responsáveis, não são culpados, logo, tudo o que corre mal é culpa do outro! Defendem-se assim através de mecanismos de projecção: atirar para cima do outro todas as dificuldades e todos os fracassos sem se colocarem a si próprios em causa. Defendem-se igualmente pelo princípio de negação da realidade. Escamoteiam a dor psíquica que transformam em negatividade (...) O sofrimento é excluído, a dúvida igualmente. Devem, portanto, ser suportados pelos outros e agredi-los é assim o meio de evitar a dor, o pesar, a depressão.
(...) Os perversos narcísicos tendem a apresentar-se como moralizadores: dão lições de rectidão aos outros, e nisto aproximam-se das personalidades paranóicas.
A personalidade paranóica caracteriza-se por:
- hipertrofia do eu: orgulho, sentimento de superioridade;
- psicorrigidez: obstinação, intolerância, racionalidade fria, dificuldade em demonstrar as emoções positivas, desprezo pelo outro;
- desconfiança: temor exagerado da agressividade do outro, sentimento de ser vítima da malevolência do outro, ciúme, suspeição;
- inexactidão do juízo: interpreta os acontecimentos neutros como sendo dirigidos a ela.
Contudo, diferentemente do paranóico, o perverso, quando conhece bem as leis e as regras da vida em sociedade, joga-as bem para melhor as contornar, e com júbilo. O específico do perverso é a desconfiança dessas mesmas regras, o seu objectivo é derrotar o interlocutor (...).
O alcançar do poder dos paranóicos é feito através da força ao passo que o dos perversos faz-se pela sedução - mas quando a sedução não funciona mais, eles podem recorrer à força. A fase da violência é ela própria um processo de descompensação paranóico: o outro deve ser destruido porque é perigoso, portanto, urge atacar antes de ser ele mesmo atacado.
(...) O mundo deles está dividido em bom e mau. Projectar tudo o que é mau sobre qualquer um permite-lhes estar melhor na vida e assegura-lhes uma relativa estabilidade. Porque no fundo se sentem impotentes, os perversos temem a omnipotência que imaginam nos outros. Neste registo quase delirante, desconfiam desses outros, atribuem-lhes uma maldade que não é mais do uma projecção da sua própria maldade.
(...) não é raro que os perversos tentem recolher a aprovação tácita de testemunhas que eles, antes, tinham já desestabilizado e mais ou menos convencido.
O próprio de um ataque perverso é de visar as partes vulneráveis do outro, no local onde exista uma falha ou uma patologia. Cada um de nós apresenta um ponto fraco que se transforma para o perverso num ponto de atrelagem (...). Eles têm uma intuição enorme para os pontos fracos dos outros, já que é exactamente aí que estes podem ser magoados e destruidos.
Marie-France Hirigoyen in " Le harcèlement moral, la violence perverse au quotidien ",
Éditions La Découverte et Syros, Paris, 1998, pp 152 - 167 (1).
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(1) Tradução minha feita em simultâneo e que se preocupou apenas com o rigor científico, não com a literariedade do texto!!!
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18/10/11
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tão só
tão só
não diga isso, mãe, se é que percebi que nesta casa se sente só. Mas que poderia eu fazer, senão pô-la aqui, onde há todo o conforto de que precisa, onde há enfermeiras e uma cama apropriada ao seu estado? Mãe, não me queira mal, não fique assim, de boca fechada, numa obstinação, essa boca, pressinto-a cheia de palavras que a sua teimosia, o seu rancor não deixam que eu as ouça, Mãe, apetece-me abrir-lhe a boca, à força, com os dedos, enfiá-los por baixo dos lábios e depois com as unhas forçar uma brecha nos dentes, senti-los a abanar, arrancar algum, esses dentes tortos como os de uma caveira, que foram tão lindos, tão lindos, o esmalte tão branco e tão alinhados que pareciam artificiais, parecer artificial era para ti o cúmulo da beleza, o sorriso de uma dentadura postiça. Quando alguém te perguntava: são verdadeiros? Tu ficavas toda contente e dizias: sim, são verdadeiros, e batias com a unha nos incisivos, o som tão saudável desses teus dentes, sim, são verdadeiros: repetias, toda eu sou verdadeira, não só os dentes mas também o corpo. Só te faltava pedir-lhes: toquem-me aqui, nos braços, nas ancas, nas pernas, vejam como é rija a minha carne, intensa, cheia dos olhares dos homens, vejam como esta carne seduz
vejo-te, minha filha, a inventar-me, e nessa invenção te inventas, e quanto mais me inventas, mais me desconheces. Somos sempre a invenção dos outros e ficamos estranhos na imagem que fazem de nós. Cada um que chegava a mim, inventava-me com o pouco que eu deixava transparecer, pouco da minha alma, que o corpo, esse, era coisa exposta, mas o desejo dos homens afastava-me deles sem eles o saberem, e apagava-me a alma. Há muito não dizia esta palavra, alma, ou melhor, não a pensava. Há assim palavras que ressurgem na nossa pobreza, vêm de longe, com o fascínio de um reencontro, e estremecem os lábios como se as soletrássemos pela primeira vez.
inventamos João, que inventa Maria, que inventa Pedro, que inventa Manuel que inventa, até o círculo se fechar e não sermos mais do que invenções, até a realidade desaparecer, a minha, a tua, a daquele, a nossa tristeza, a dor, o riso, o desejo. São sempre os outros que nos inventam e por isso estamos sempre sós, não podemos estar de outro modo, na clausura dessa invenção, percebi-o muito cedo, quando me queixava: dói-me o estômago, e me respondiam: isso não é nada, mas o pior não é inventarem-nos, é agarrerem-nos no braço e dizerem: faz isto, e acrescentarem: quero que faças isto; o pior é passarem por nós e perguntarem: querida, a que horas é o almoço? ou: volte-se, e sentirmos nas costas a camisola de flanela, o bafo húmido no pescoço
(...) Estou exausta e vou deitar-me no meu lado da cama, à esquerda, desamparada pelo espaço vazio à minha direita. Tenho medo de adormecer. Tenho medo de acordar, perto do homem, sentado no colchão, a descalçar os sapatos. Vejo-lhe os ombros, o cocuruto da cabeça em desalinho, a alça direita dos suspensórios a escorregar-lhe para o braço e a camisa arrepanhada nas costas. Fala, fala, fala. Um sussurro ininterrupto. Fala para ninguém, curvado sobre os joelhos. Parece muito pobre, no abandono de um qualquer futuro. Tanto lhe faz o futuro. Ou o presente. Está para ali, a tentar desfazer o nó dos atacadores, a língua entre os dentes, numa aplicação de criança infeliz, ouço-o respirar, todo o quarto respira, e eu respiro também ao mesmo ritmo, muito quieta, como se nunca mais me fosse mexer (...). Gemo. E ele cala-se, volta-se para mim e pergunta: você está a dormir? Apetece-me responder-lhe: estou e começar a rir. Você está a dormir?: repete. E encolhe os ombros (...). E as mãos voltam às calças, empurram-nas para baixo, vencem a resistência, e deixam-nas numa trouxa sobre os pés. Vai assim de futuro em futuro. Pequeninos e opacos, os seus futuros. Dá um passo, tenta dar um passo: diz a mulher. E o homem dá um passo minúsculo, peado pelas calças. Vá, outro passo: diz a mulher: um passo maiorzinho. E o homem quer dar um passo maiorzinho. E tropeça nos pés. Desequilibra-se. Leva a mão esquerda à fotografia sobre a cómoda. A do seu casamento. (...) mas ela sabe que homem é este, há tantos anos: é um estranho, ou melhor, um desconhecido: é o meu desconhecido, como sua avó dizia de alguns pobres: são os meus pobres. E a mulher riu-se,
e o homem perguntou-lhe: de que se está a rir?
E a mulher disse-lhe, a rir: de ti,
Rui Nunes in " Os Olhos de Himmler ", Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2009, pp 50 - 53.
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