14/01/12

" Mas a ´strela da tarde cumpre o curso -/ e elas recolhem lânguidas, serenas. "

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          " Jogo da Tarde
(Escola de Safo; ilha de Lesbos)"

" Arfam dançando à volta do altar,
as louras cabeleiras   pregueadas
túnicas, as donzelas - lançam flores
que voam pelos ares   feitas música:
e em tal beleza nada mais flutua
que desejos fulgidos em calor.

Erguem a bola: a erva estremecida
palpita sob os pés: pernas alçadas,
raios de sol moldando os movimentos
em discretos meneios ou corridas,
as mãos aladas a tocar o alto,
traçam glosas de sons fogosamente,
enquanto Safo   a dedilhar a lira
o jogo melodia em meigos carmes.
Éros volita pelas suas faces,
os seus corpos invocam Afrodite.
Súbito, o jogo pára. Com brandura
afogueadas pelo chão s'estendem:
braços cruzados afagando o púbis,
as bocas sequiosas que rescendem
a perfume de gozo   febilmente.
(...)
Foi jovial a devoção às musas.
Mas a 'strela da tarde cumpre o curso -
e elas recolhem lânguidas, serenas."

  António Salvado in " O Sol de Psara ", Editora Licorne, s/c., 2011, p 33.
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" Nem eu alcanço outro horizonte além,/ nem tu aqui outra maior distância - "

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 " O Olhar de Ver "

Em tudo o que tu vês   eu moro aí,
em tudo o meu olhar   a ti só vê -
conforto de presença tão contínuo
que não sabe onde surge   onde termina
dentro do modo   o tempo deste ver.

Nem eu alcanço outro horizonte além,
nem tu aqui outra maior distância -
e os olhos bem juntinhos não se lembram
de sentirem em si diverso alento
que não seja   - a tremerem -   a constância.

Por isso   como um lanço   os nossos corpos
ignoram qualquer 'spaço que os separe -
muito encostados   poros sobre poros
olham apenas o prazer que é nosso
com mais desejo encima    até fartarem.

    António Salvado in " O Sol de Psara ", Editora Licorne, s/c., 2011, p 12.
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13/01/12

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     " Mãos Dadas "

 
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

  Carlos Drummond de Andrade in " Sentimento do Mundo ", Editora Record,
Rio de Janeiro, 2005, p 59.
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  " Brinde no Juízo Final "


Poetas de camiseiro, chegou vossa hora,
poetas de elixir de inhame e de tonofosfã,
chegou vossa hora, poetas do bonde e do rádio,
poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil.

Em vão assassinaram a poesia nos livros,
em vão houve putschs, tropas de assalto, depurações.
Os sobreviventes aqui estão, poetas honrados,
poetas diretos de Rua Larga.
(As outras ruas são muito estreitas,
só nesta cabem a poeira,
o amor
e a Light.)

  Carlos Drummond de Andrade in " Sentimento do Mundo ", Editora Record,
Rio de Janeiro, 2005, p 39.
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 " Congresso Internacional do Medo "


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

 Carlos Drummond de Andrade in " Sentimento do Mundo ", Editora Record,
Rio de Janeiro, 2005, p 35.
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12/01/12


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                   A  TRAPEZISTA  DA  RUA  DÊ

               (Breve conto imoral muito edificante)

 


De dentro dos seus 70 anos a trapezista era a figura mais controversa do circo. Com a sua cinturinha-tonel, as suas sapatilhas 46 e o seu tufo piloso sobre o malar direito em todos despertava um misto de fascínio e rancor. Laurinda marreca, a mulher que fazia de tartaruga nos espetáculos das quintas-feiras, ajeitando a bossa do peito, costumava dizer: "parece uma caneca que a minha tia-avó tinha... quando eu não queria comer, traziam o raio da caneca e eu não deixava nem uma massa." Os outros riam. Serafim loiro, o anão, era o único que se mantinha em silêncio: olhar gélido, apreensivo. Mas a velha trapezista lá ia: altiva e hierática atravessava a turbamulta, executava o seu augusto número e logo recolhia à roulotte encostada à vedação da rua Dê, uma das várias ruas do acampamento. " E não há quem lhe dê um sopapo?", vociferava a marreca, cheia de ódio; " Ó mulher, deixa a velha, coitadinha!", vinha em socorro a equilibrista, " não vês que ela não tem os alqueires bem medidos!"; " Sim, sim!", voltava a marreca, " Ela sabe é muito!" E lá ficava rosnando para dentro. O anão registava: olhar penetrante.
A trapezista, de facto, alimentava um sonho, o seu único sonho: ser dona do circo! Argemiro, o real proprietário, já lhe tinha feito a radiografia e deixara bem claro para si próprio: " Antes casar com a marreca ou com os repugnantes ademanes do palhaço rico com suas sedas e chifons, antes isso do que aquela mostrenga", e atirava com as portas, furioso. Vendo que dali não levava nada, a trapezista, que não era mulher para se dar por vencida assim sem mais nem menos, virou o periscópio para o ilusionista, o meio-irmão de Argemiro, mas também aqui - a infeliz - viu a sua estratégia gorada, sobretudo depois de ter assistido ao espectáculo do dia 13, quando o desastrado ilusionista baralhou as caixas e, após ter serrado uma mulher ao meio, o serrote e o chão ficaram ensopados de vermelho, enquanto Ildebranda, a arrumadora, brandamente levou sumiço. Só que a trapezista não parava de olhar para as alturas: queria para sempre aqueles lugares que tão episodicamente visitava. Argemiro, já farto da velha, e temendo que a traição assumisse proporções incontroláveis, propôs ao meio-irmão: " E se a pusessemos no número dos pinguins? Com aqueles pés 46 passava despercebida." Mas tudo se revelava impraticável, condenado ao fracasso, pois as piruetas da velha - qual mestra de equitação - acabavam sempre contornando vielas e cotovelos. E foi por esta altura que o anão loiro, há muito fazendo-lhe uma marcação cerrada, apanhou a estratégia macabra: sentado atrás dos montes de feno dos póneis, ouviu a trapezista conspirando. Ela queria um levantamento geral! " Aliás", ronronava ela com seu ar de falsete, " um golpe de estado num estado que é um circo, até parece coisa bem normal". Serafim teve um baque - finalmente! E dali confessou tudo à surda-muda da bilheteira, que sempre fora a sua mais atenta ouvinte e leal conselheira. A surda-muda, depois de lhe ler as maiores nos lábios, foi peremptória: " ÓÓÓ-MMMÁÁÁ  TÓÓÓ-CÁÁ ", o anão, feliz com a anuência, e ainda nesse dia, subiu (ele) ao ponto mais alto do circo, onde passou a noite escondido num dos refegos laterais da lona do teto e ali se deixou ficar, sem adormecer, esperando, esperando, esperando.
No dia seguinte, por coincidência dia de finados, já no fim da matiné, lá vinha a trapezista velha para a sua extraordinária exibição. Os seus pézinhos 46 eram música no lajedo: CHAP-CHAP-CHAP. Serena, oh, tão deliciosamente serena! CHAP-CHAP-CHAP! Reluzente passou por entre a ignorante assistência, tangenciou os ínfimos colegas, e foi também reluzente que subiu aos píncaros. " Agora só com uma mão!", berrava o altifalante. Voltas e reviravoltas, piruetas e negaças - tudo especialidade da casa! " Agora só com um pé!", voltava o altifalante à carga. E foi quando os tambores começaram a rufar para o ousado momento final, que o desastre aconteceu: " E agora, senhoras e senhores, pede-se o máximo silêncio, vamos assistir a um arriscado salto mortal de um trapézio para outro ainda mais acima!" A velha, confiante, sorriu, olhou sobranceiramente para baixo, ajeitou-se, voltou a olhar, voltou a sorrir e... iniciou o salto. E foi exactamente aqui que Serafim, o anão, saltou da enrugada lona, estendeu a mão com uma enorme tesoura cintilante e... ZÁS!... cortou as cordas do segundo trapézio. Terror geral. Ouviu-se da boca dos espectadores um enorme OHOHOHOH, da boca da surda-muda um perverso IHIHIH e um TCCHOP no fosso da orquestra, que até acordou o primeiro violino. O salto mortal da trapezista da rua Dê fora mesmo mortal! As lantejoulas do rasgado maiô choviam agora como copiosa neve de presépio, enquanto a cabeça, que se desatarraxara, assomava debaixo da poltrona P34 de primeira plateia. " Não olhem pra mim, não olhem pra mim, eu não estou metido nisto", cacarejava o timorato ilusionista. " Pobrezinha, tanto subiu, tanto subiu, que perdeu a cabeça!... Ficou foi agora aqui um grande cheiro a merda", afagou a marreca a bossa do peito. " Sempre foste muito invejosa!", respondeu-lhe a equilibrista. " Meus senhores, vamos mas é voltar ao trabalho!", ordenou Argemiro, pouco à-vontade. IHIHIHIH, insistiu a surda-muda que, sem os outros verem, e debaixo dos seus longos cabelos, recolocou nos ouvidos a sofisticada prótese auditiva.

            Victor  Oliveira  Mateus
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11/01/12

" Je ne saurais pas vous dire pourquoi, mais je l'ai cru. Est-ce que vous comprenez ça? "


( O inspetor Tonello interroga o jovem prostituto Leo Bertina acerca da morte de Luca. No final da obra descobrir-se-á que Luca, carregado de álcool e soníferos, se havia posto a fazer equilibrismo no parapeito de uma das pontes do Arno... Os capítulos que narram o encontro entre Anna e Leo são páginas de Antologia.)
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"Quelle était la nature exacte de tes relations avec Luca Salieri?" La question est nette, pas emberlificotée, elle vise à l'essentiel, elle est formulée de manière ouverte, à la fois por ne braquer et dans le but de recueillir le maximum d'informations. Tonello, à sa façon, est un professionnel.
"Il venait me rejoindre de temps en temps à l'hôtel Solferino, là où j'habite." Ne pas se livrer d'un coup, s'en tenir au basique pour le moment, aux faits vérifiables, ne pas l'amener là où il s'égarerait.
"C'était un client? Un client régulier?" Nous sommes dans des cases. Nous avons des emplois. Pour Tonello, je fais la pute, rien d'autre. Je n'ai pas d'autre utilité, d'autre fonction. Ceux qui me côtoient le font obligatoirement pour des raisons professionnelles. Du reste, si je me trouve face à lui aujoud'hui, c'est uniquement parce qu'il est policier (...).
"Non." Voilà. C'est ça, le grain de sable dans cette mécanique parfaitement huilée, la tache sur cette page blanche où l'histoire ne demandait qu'à s'écrire en lettres rondes et simples et prévisibles, l'incongruité dans notre monde qui tourne tellement rond. La surprise se lit sur la face triste de mon interlocuteur (..). Il est désappointé, presque déçu. Tonello ne peut pas concevoir que je dis la vérité. Ce malentendu fondamental nous sépare absolument (...)
"Je ne suis pas sûr de saisir. Luca Salieri venait te rejoindre dans ta chambre d'hôtel et tu soutiens qu'il ne payait pas tes services?" (...) L'inspecteur Tonello a besoin que mes explications entrent dans ses cases.
"C'est ça. Vous avez bien saisi." Utiliser son vocabulaire. Et le renvoyer dans ses buts. Prendre le risque de l'énerver.
"Tu peux me raconter alors ce qu'il venait fabriquer dans ta chambre?" Pouvoir, peut-être, mais vouloir? mais devoir?
"Un jour, il s'est présenté devant moi, à Santa Maria Novella, à la gare. Il a dit qu'il s'appelait Luca Salieri. Je ne l'avais jamais vu avant. J'ai supposé qu'il voulait coucher avec moi. Ce n'était pas mon bon jour: je l'ai presque insulté. Lui, n'a pas bronché. À la fin, il a prétendu que nous pourrions être frères. Je l'ai cru. Je ne saurais pas vous dire pourquoi, mais je l'ai cru. Est-ce que vous comprenez ça?
- Non. Pour moi, c'est du charabia. (...) Vous couchiez ensemble, oui ou non?" Être binaire. Fermer le jeu. Tonello a du métier.
"Si la question se pose seulement comme ça, alors la réponse est oui." Sur son visage, soudain, le soulagement du policier qui vient de recueillir un aveu (...).
"Tu vois: on progresse. Et donc la nuit de sa mort, vous l'avez passée ensemble?
- La nuit du vendredi, on l'a passée ensemble. Je ne sais pas si c'est la nuit de sa mort. Je ne sais pas quand il est mort.
- Cette nuit-là, justement.
- Vous me l'apprenez.
- Ça n'a pas l'air de te surprendre.
- C'est sa mort qui m'a surpris. Le reste, c'est accessoire.

  Philippe Besson in " Un garçon d'Italie ", Éditions Julliard, Paris, 2003, pp 145 - 156.
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10/01/12

"Aquilo que conta é sabermos. Pouco importa se ficamos devastados com o que nos dizem. "

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( Monólogo de Anna após a estranha morte de Luca, seu amante )

Je ne réussis pas à eloigner le doute, à empêcher le questionnement. Je le voudrais, juste pour tenir bon encore, mais rien n'y fait. Les interrogations les plus diverses, et les plus farfelues, m'assaillent, comme une armée qui accumulerait les coups de boutoir contre les murs d'une citadelle.
Les questions sont une gêne, presque toujours. Seules les réponses, et de préférence les plus tranchées, assurent la tranquilité.
Ce qui compte, c'est de savoir. Peu importe que nous soyons dévasté par ce que nous allons apprendre. Tout vaut mieux qu'une ambiguité, une obscurité.
Je suis même disposée à accueillir des mensonges, porvu que je puisse les croire. Du reste, entre les vérités accablantes et les fables parfaites, je ne choisis pas: les deux me vont car aucune ne me plonge dans les affres de l'incertitude. L'insupportable, toujours, c'est l'entre-deus, la zone grise.(...) Pouquoi n'y a-t-il pas seulement des innocents et des coupables, seulement des héros et des salauds? Pourquoi faut-il qu'on nous inflige des nuances, des dégradés?
Il me semble qu'on m'envoie une épreuve et qu'elle pourrait rapidement tourner au supplice, au cauchemar.
Cette torture me prive du sommeil. (...) Aux premières heures de la matinée, je me rends au commissariat afin d'obtenir une entrevue avec les policiers chargés de l'enquête (...)
À neuf heures trente, un homme se présente à moi: l'inspecteur Tonello me prie de le suivre. (...) Lorsque je lui précise le but de ma visite, il se referme. Les résultats de l'autopsie sont communiqués exclusivement à la famille. Et il revient à la famille de décider comment elle entend en disposer. Lui n'est pas habilité à delivrer ce genre d'informations.

 Philippe Besson in " Un garçon d'Italie ", Éditions Julliard, Paris, 2003, pp 83 - 86.
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04/01/12

"(...) mas pelo menos conserva o cérebro em atividade, é melhor do que o golfe... "

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Quando somos novos, toda a gente com mais de trinta anos parece de meia-idade, toda a gente com mais de cinquenta é antiga. E o tempo, à medida que passa, confirma que não estávamos assim tão enganados. Esses pequenos diferenciais etários, tão cruciais e flagrantes quando somos novos, desfazem-se. Acabamos por pertencer todos à mesma categoria, a dos não jovens. Nunca me importei muito com isso.
Mas há exceções à regra. Para algumas pessoas, os diferenciais de tempo irrefutáveis na juventude nunca desaparecem realmente: o idoso permanece idoso, mesmo quando são os dois velhotes e se babam. Para algumas pessoas um intervalo de, digamos, cinco meses significa que, perversamente, se verão sempre como mais sábios e mais bem informados do que o outro, por mais que o contrário seja evidente. Ou talvez porque o contrário é evidente. Porque é perfeitamente claro para qualquer observador imparcial que o equilíbrio se deslocou para a pessoa ligeiramente mais nova, a outra mantém a pretensão da superioridade ainda com mais rigor. Ainda mais neuroticamente.
Ah, é verdade, continuo a tocar muito Dvorak. Não tanto as sinfonias; hoje em dia prefiro os quartetos de cordas. Mas Tchaikovsky seguiu o caminho daqueles génios que fascinam na juventude e conservam uma força residual na meia-idade, mas mais tarde parecem, se não confrangedores, pelo menos irrelevantes. Não quero dizer com isto que ela tivesse razão. Não há mal nenhum em ser um génio que consegue fascinar os jovens. Mas há qualquer coisa de mal nos jovens que não se deixam fascinar por um génio. E, aliás, não acho que a banda sonora de Um Homem e Uma Mulher seja uma obra de génio. Já naquele tempo não achava. Por outro lado, lembro ocasionalmente Ted Hughes e sorrio pelo facto de, na verdade, ele nunca ter ficado sem animais.
Dou-me bem com Susie. Quer dizer, o suficiente. Mas a geração mais nova já não sente necessidade, nem sequer obrigação de manter o contacto. Pelo menos "manter contecto" que implique "ver". Para o pai, um email chega - pena ele não tenha aprendido a mandar mensagens pelo telemóvel. Sim, já está reformado, sempre às voltas com pesquisas e aquele "projetos" misteriosos dele, duvido que alguma vez chegue a terminar alguma coisa, mas pelo menos conserva o cérebro em atividade, é melhor do que o golfe, e sim, contávamos passar por lá na semana passada, mas surgiu um imprevisto.

  Julian Barnes in " O Sentido do Fim ", Quetzal Editores, Lisboa, 2011, pp 66 - 68.
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03/01/12

" Sem dúvida, mas agora eu já estava habituado às minhas rotinas... "

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Nessa altura eu já tinha saído de casa e começado a trabalhar como estagiário em administração. Depois conheci Margaret; casámos e três anos depois nasceu Susie. Comprámos uma casa pequena com uma hipoteca grande; eu ia e voltava de londres todos os dias. O meu estágio transformou-se numa carreira longa. A vida foi passando. Um inglês qualquer disse uma vez que o casamento é uma refeição longa e sem sabor com o pudim servido como entrada. Acho que é excessivamente cáustico. Gostei do meu casamento, mas era talvez demasiado parado - demasiado pacífico - para me ser benéfico. Ao fim de doze anos, Margaret começou a andar com um tipo que geria um restaurante. Eu não gostava muito dele - nem da comida dele, por sinal - mas também não podia, não é? A custódia de Susie foi partilhada. Felizmente, não pareceu muito afetada com a separação; e vejo agora que a ela eu nunca apliquei a minha teoria sobre danos.
Após o divórcio tive alguns casos, mas nada sério. Contava sempre a Margaret quando tinha uma namorada nova. Nessa altura parecia uma coisa natural. Agora às vezes penso se seria uma tentativa de lhe causar ciúmes; ou talvez um gesto de autodefesa, um modo de evitar que a relação se tornasse séria demais. Também, na minha vida então mais vazia, arranjava várias ideias a que chamava "projetos", talvez para as fazer parecer exequíveis. Nenhuma delas deu nada. Também não interessa; nem faz parte da minha história.
Susie cresceu, e as pessoas começaram a chamar-lhe Susan. Quando fez vinte e quatro anos casou-se e acompanhei-a a uma conservatória do registo civil. Ken é médico; já têm dois filhos, um rapaz e uma rapariga. As fotografias deles que trago na carteira mostram-nos sempre mais novos do que são. É normal, eu acho, para não dizer "filosoficamente evidente". Mas damos connosco a repetir: "Crescem tão depressa, não crescem?", quando o que queremos dizer é: o tempo passa mais depressa para mim, hoje em dia.
O segundo marido de Margaret revelou não ser suficientemente pacífico: foi-se embora com alguém que se parecia muito com ela, mas tinha os cruciais dez anos a menos. Ela e eu mantemos uma boa relação; encontramo-nos em eventos familiares e almoçamos às vezes. Uma vez, depois de um copo ou dois, ficou sentimental e sugeriu que podíamos reatar. Já aconteceram coisas mais estranhas, foi o que ela disse. Sem dúvida, mas agora eu já estava habituado às minha rotinas e apegado à minha solidão. Ou se calhar não sou suficientemente extravagante para fazer uma coisa dessas. Falámos uma ou duas vezes em ir de férias juntos, mas acho que cada um esperava que o outro planeasse a reservasse viagens e hotéis. Por isso nunca aconteceu.

  Julian Barnes in " O Sentido do Fim ", Quetzal Editores, Lisboa, 2011, pp 60 - 61.
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02/01/12


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Recordo-me de um derradeiro presente de John. Foi no meu aniversário, 5 de Dezembro de 2003. Começara a nevar em Nova Iorque cerca das dez da manhã, à tarde já havia vinte centímetros de neve acumulada e esperava-se quase outro tanto. Lembro-me de que a neve tombara em avalanche do telhado de ardósia de Igreja Episcopal de São Tiago para a rua. O plano para nos encontrarmos com Quintana e Gerry no restaurante foi cancelado. Antes do jantar, John sentou-se junto da lareira na sala de estar e pôs-se a ler em voz alta para eu ouvir. O livro que estava a ler era um romance meu, A Book of Common Prayer, que por acaso ele tinha na sala porque estava a reler a fim de ver como é que algo resultava tecnicamente. A sequência que ele estava a ler em voz alta era uma em que Leonard, marido de Charlotte Douglas, visita a narradora, Grace Strasser-Mendana, e lhe dá a saber que o que está a acontecer no país que a família dela governa não vai acabar bem. A sequência é complicada ( era de facto a sequência que John tencionara reler para ver como é que funcionava tecnicamente), é interrompida por outra acção e exige que o leitor apanhe o subtexto do que Leornard Douglas e Grace Strasser-Mendana dizem um ao outro. "Caramba", disse-me John ao fechar o livro. "Não me voltes a dizer que não sabes escrever. O meu presente de aniversário é isto."
Recordo-me de que as lágrimas me vieram aos olhos.
Estou a senti-las agora.
Em retrospectiva, fora este o meu pressentimento, a minha mensagem, o nevão precoce, o presente de aniversário que ninguém mais poderia dar-me.
Restavam a John vinte e cinco noites de vida.

  Joan Didion in " O Ano do Pensamento Mágico ", Gótica, Lisboa, 2006, pp 171 - 172.
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01/01/12

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Pareceu-me, naquele dia, no quarto de Quintana no Presbyterian, quando li as últimas provas do Nothing Lost, que talvez houvesse um erro gramatical na última frase da passagem sobre J. J. McClure, Teresa Kean e o tornado. Na verdade, nunca soube as regras da gramática, e em vez disso sempre confiei no que me soava bem, mas havia ali qualquer coisa que me parecia que não soava bem. A frase nessas últimas provas rezava assim: " Era o mais próximo uma declaração de amor que J. J. era capaz de fazer." Por mim, teria acrescentado uma preposição: " Era o mais próximo de uma declaração de amor que J. J. era capaz de fazer."
Sentei-me à janela e fiquei a ver os blocos de gelo no Hudson, pensando na frase. Era o mais próximo uma declaração de amor que J. J. era capaz de fazer. Não era o género de frase que, caso a tivéssemos escrito, gostássemos que estivesse errada, mas também não era o género de frase, se fosse assim que a tivéssemos escrito, que gostássemos de modificar. Como é que ele a teria escrito? Que tinha em mente? Como a queria? A decisão ficou para mim. Qualquer escolha minha acarretaria um potencial abandono, se não traição. Foi uma das razões por que estava a chorar no quarto de Quintana, no hospital. Nessa noite, quando voltei para o meu quarto, comparei com as provas anteriores e com os originais. O erro, se é que havia um erro, estava ali desde o princípio. Deixei ficar como estava.
Porque é que hás-de ter sempre razão.
Porque é que hás-de ter sempre a última palavra.
Ao menos uma vez na vida, deixa andar.
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  Joan Didion in " O Ano do Pensamento Mágico ", Gótica, Lisboa, 2006, pp 146 - 147.
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30/12/11

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Uma das coisas em que reparei durante aquelas semanas na UCLA foi que muita gente conhecida, quer de Nova Iorque, quer da Califórnia e de outros sítios, partilhava de um hábito mental geralmente atribuído aos que se deram muito bem na vida. Acreditavam piamente na sua própria capacidade de resolução de problemas. Acreditavam piamente no poder dos números de telefone que sabiam na ponta da língua, o médico certo, o principal doador, a pessoa que podia facilitar um favor junto do Estado ou da Justiça. A capacidade de resolução dos problemas daquela gente era de facto prodigiosa. O poder dos seus números de telefone era de facto ímpar. Eu própria, durante a maior parte da minha vida, partilhava da mesma fé enraizada na minha capacidade de controlar os acontecimentos. Se a minha mãe fosse hospitalizada inesperadamente em Tunes, eu conseguiria que o cônsul americano lhe levasse jornais em língua inglesa e a metesse num voo da Air France para ela se encontrar com o meu irmão, que estava em Paris. Se Quintana ficasse subitamente apeada no aeroporto de Nice, eu conseguiria arranjar alguém da British Airways para a meter num voo da BA para ela ir ter com o primo a Londres. No entanto, a um determinado nível, porque sou medrosa de nascença, tivera sempre a percepção de que certos acontecimentos da vida estão para além da minha capacidade de os controlar ou resolver. Certos acontecimentos limitam-se a suceder. Este era um desses acontecimentos. Sentamo-nos para jantar e a vida, tal como a conhecemos, acaba.

   Joan Didion in " O Ano do Pensamento Mágico ", Gótica, Lisboa, 2006, pp 104 - 105.
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29/12/11

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As divisões Lobisomem foram uma das ideias mais desesperadas de Himmler, forjada perante a derrota iminente. Rumores da sua existência tinham-se espalhado pela Alemanha e fora dela. Os serviços secretos aliados estavam convencidos de que pelotões especiais de insurgentes, fanáticos incapazes de aceitar a derrota, estavam de facto a ser criados para continuarem a luta depois da capitulação da Alemanha.
(...) Esta foi a marca da guerra de Bruno: oferecer-se como voluntário para ser um Lobisomem e lutar até ao fim, se não para além do fim. Parecia tudo muito adequado. O homem que tinha aderido ao movimento na primeira oportunidade, ainda adolescente, há mais de 20 anos, alistara-se no última tentativa desesperada do Terceiro Reich para sair do túmulo do colapso militar total. A sua carreira nazi ia acabar, como começara, com um compromisso ideológico inabalável, absolutamente nada perturbado com o facto de que, em termos militares, ele estava completamente fora do seu elemento. A ideia de que bandos minúsculos de guerrilheiros alemães poderiam ter algum impacto numa força aliada que ascendia a milhões, com rádios que nem sequer ele, o homem que devia ministrar o treino, sabia bem como funcionavam, era ridícula. Mas é uma imagem profundamente reveladora do tipo de homem que Bruno sempre tinha sido. Se havia algum sinal de uma luta na sua mente entre as prioridades concorrentes de manter a família em segurança e prolongar a existência do regime nazi, mesmo que apenas durante algumas semanas, foi óbvio o que pareceu levar a melhor. Mas até Bruno e os seus colegas do SD/ Gestapo devem ter sentido a onda de ódio e vingança que se aproximava.
Enquanto Bruno e os seus colegas do SD/ Gestapo maquinaram os seus planos de contrainsurgência, o resto da cidade de Praga também estava ocupada a construir valas antitanques e a pensar na melhor forma de lutar contra o que até eles sabiam que seria batalha final da guerra (...)
Em meados de Abril, Frank distribuiu planos de avacuação a todo o seu pessoal alemão essencial, parecendo dessa forma colocar a ideia do Lobisomem em espera. Foi uma mudança de estratégia que parece também ter tido um impacto em Bruno. Guardado nos arquivos de Praga, encontrámos um documento bizarro datado de 24 de abril de 1945. Era um formulário de pedido de carta de condução. Muito bem preenchido, ali estava ele, a irradiar normalidade em todos os aspectos exceto na data - pouco mais de 15 dias antes da capitulação formal do exército alemão. Quanto mais olhava para ele, mais absurdo me parecia, a prova de um mundo voltado de pernas para o ar. Como podia alguém dar-se ao trabalho de seguir os trâmites burocráticos necessários para validar uma carta de condução neste ponto final e fatal da guerra, com todo o exército vermelho a alguns quilómetros de distância? E, no entanto, tudo está presente e correto, a rubrica, os carimbos de borracha, as categorias dactilografadas de veículos que Bruno podia conduzir, até o nome da escola de condução que o tinha aprovado. (...) Penso que, nos dias seguintes, um alemão na estrada teria necessitado de carta de condução para evitar ser acusado de deserção. Nunca saberei. No entanto, quando olhei para a assinatura no verso não pude deixar de perguntar a mim mesmo em que estaria ele a pensar num momento como aquele.
(...) No dia 30 de Abril, Adolf Hitler refletiu sobre o seu encontro iminente com exército vermelho e escolheu uma rota de fuga alternativa: cerca das 15 horas, na segurança do seu abrigo subterrâneo por baixo da Chancelaria do Reich, suicidou-se com um tiro. Incrivelmente, nesta fase tardia ainda havia bastante "normalidade" em Praga, para que o acontecimento fosse assinalado nas primeiras páginas dos jornais em língua checa com faixas pretas de luto. Mas a compostura alemã estava a desmoronar rapidamente.
No dia seguinte, 1 de maio de 1945, a Primeira Frente Ucraniana do marechal Koniev que estava nos arredores de Berlim recebeu ordens para se dirigir para oeste de Dresden, seguindo o rio Vltava até Praga. No dia 2 de maio, a Segunda Frente Ucraniana do marechal Malinovski, que acabara de ocupar Brno, recebeu ordens para avançar para Praga a partir do sudeste. A ofensiva soviética começaria a 7 de maio e ocuparia a capital checa dentro de seis dias (...)
Protegidos pelos soviéticos, cujos tanques estavam agora nos arredores da cidade, os checos puderam por fim revoltar-se contra os seus opressores nazis.

  Martin Davidson in " O Perfeito Nazi ", Texto Editores, Alfragide, 2011, pp 284 - 288.
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27/12/11

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Hitler pode ter respeitado profundamente as capacidades de organização de Rohm, mas desconfiava dos seus motivos. Agora, diziam a Hitler que as SA estavam não apenas a fomentar uma "segunda revolução", mas também a conspirar ativamente com potências estrangeiras (nomeadamente a França) para o derrubar. No final da primavera de 1934, a sua paranoia estava a transformar-se em verdadeiro pânico. Nem sequer Bruno, que estava tão bem relacionado como qualquer apparatchik do partido, fazia ideia das forças que estavam a ser alinhadas contra Rohm e a liderança das SA. A verdade é que todas as SA foram apanhadas desprevenidas, o preço a pagar por não terem um sistema de informações eficaz e por se deixarem vencer em estratégia de uma forma tão inequívoca pelos seus muitos rivais.
Ignorando o problema em que estava metido, Rohm ordenou despreocupadamente que todas as SA tivessem uma licença alargada no verão, que teria início no dia 1 de julho. Himmler, Goring e os outros que conspiravam ativamente para a queda de Rohm tinham agora um calendário urgente para agir. (...) Provas forjadas de "listas de morte" das SA foram apresentadas a Hitler. Com apenas um ou dois dias antes de as SA iniciarem as férias de verão, Hitler atacou subitamente.
Rohm tinha iniciado as suas férias na cidade termal de Bad Wiesse, na Bavária, para tratar de uma série de achaques. Tinha um problema cardíaco e sofria os efeitos nefastos de ferimentos do tempo da Primeira Guerra Mundial. Ele e o seu séquito (incluindo o seu harém de consortes do sexo masculino) estavam agora hospedados num hotel, completamente alheios à armadilha que estava prestes a apanhá-los. Hitler e um pequeno grupo de oficiais superiores das SS chegaram de carro ao incício da manhã de domingo, 30 de junho. Arrombaram as portas do quarto e prenderam um grupo espantado e embasbacado de homens das SA, entre os quais Rohm. Repreendidos, empurrados e vigorasamente acusados de traição, foram levados para a Prisão de Stadelheim, em Munique. (...) Detenções semelhantes foram efectuadas em Berlim e Breslau.
O fim foi rápido e implacável. Cerca de 85 pessoas foram mortas durante a chamada Noite das Facas Longas, quer onde se encontravam quando foram detidas - em suas casas, sentadas às secretárias - quer diante de pelotões de fuzilamento organizados em Munique, Berlim, Breslau e Dachau. As SS usaram o caos para marcar pontos com os importantes críticos do movimento, incluindo o homem que tinha escrito recentemente um discurso hostil proferido pelo vice-chanceler Von Papen.
Por fim, chegou a vez de Rohm. O homem que tinha sido o mentor de Hitler e o seu aliado mais próximo recebeu um revólver carregado com o qual poderia suicidar-se, mas recusou-se a ser conivente com a charada da sua culpa, preferindo desnudar o peito e olhar para os dois oficiais das SS, que entraram prontamente na sua cela e o alvejaram à queima-roupa. "Todas as revoluções comem os seus próprios filhos", terá dito. Foi ordenado que a matança terminaria antes de 2 de julho e as certidões de óbito de todos os que caíram depois dessa data foram devidamente alteradas.
As SA estavam acabadas enquanto força por direito próprio, e durante o resto da sua história nunca escaparam à trela do partido. Continuaram a existir, mas de uma forma extremamente reduzida. A maioria das suas armas foi confiscada e entregue ao exército.(...) Depois da guerra, esta perda de poder de decisão salvou-a de ser declarada uma organização criminosa pelas autoridades aliadas. Bruno não foi o único soldado de assalto que teve de aceitar o facto de a liderança das SA ter apostado mal e perdido.
(...) No dia 2 de Agosto, o idoso presidente Hindenburg faleceu finalmente. Hitler apropriou-se sem demora do cargo dele, que por fim lhe conferiu poder em todo o país, não apenas no Reichstag. Duas semanas mais tarde, obteve uma ratificação retrospetiva para o seu passo num plebiscito que decorreu no dia 19 de agosto. Oitenta e nove por cento das pessoas que puderam votar apoiaram a medida; quatro milhões e meio de alemães, mesmo nesta fase tardia, tiveram a coragem de dizer que não, mas não adiantou nada. Foi uma vitória esmagadora.

  Martin Davidon in " O Perfeito Nazi ", Texto Editores, Alfragide, 2011, pp 168 - 170.
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26/12/11

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Todavia, a verdadeira medida da aptidão de Bruno para pertencer às SS prendia-se com o que podia oferecer-lhes. Ele teve pouca dificuldade em convencê-los de que era um candidato mais forte do que a média. As suas opiniões políticas são louvadas vezes sem conta por serem uberzeugt - convincentes, um nazi convicto. No entanto, a palavra que surge inesperadamente não é ideologia, nem sequer política. É a muito maior Weltanschauung, ou visão do mundo, algo mais lato e profundo que um simples manifesto político específico. Isto vai muito para além de uma mera preocupação, ou até de um conjunto de opiniões; o nacional-socialismo era uma ideologia que procurava abarcar todos os aspectos da vida alemã, desde as suas opiniões sobre a Humanidade até à justificação do seu futuro império. Os seus avaliadores nazis não estavam apenas a investigá-lo à procura de provas de fiabilidade política; estavam a testá-lo para saber até que ponto ele contribuiria para o principal objetivo do SD, que era pegar nessa visão do mundo e usá-la como um modelo a partir do qual se construiria uma nova Alemanha.
(...) A geração seguinte, a da minha mãe e das suas irmãs, desempenhou o seu papel neste processo de dissimulação e negação. Sabiam que não deviam fazer perguntas impertinentes e foi-lhes incutido que nunca conseguiriam compreender o que tinha estado em causa. De uma maneira geral, aceitaram isso. Acima de tudo, por vergonha. Não apenas pelo que ele pode ou não ter feito. Foi mais profundo do que isso. Foi uma reação contra o facto mais óbvio sobre o passado de Bruno, repulsa pelo facto de ele e milhares como ele terem aparentemente adorado ser nazis e terem parecido apreciar cada parte da ideologia, incluindo o antissemitismo que a alimentou. Uma vez, perguntei à minha mãe:
- Sentiu que estava a viver numa família importante?
- Oh, sim - respondeu ela. - O papá era um homem importante.
O nacional-socialismo foi uma política destinada a gratificar aspirações e frustrações íntimas, e tinha formado, aperfeiçoado e justificado claramente todas as opiniões mais importantes de Bruno. A sua integração no nazismo tinha sido um processo longo e complicado, começando como uma reação à catástrofe da Primeira Guerra Mundial e continuando a evoluir até 1945. Lutar por ele tinha sido o maior privilégio da sua carreira. Foi isso que a família tanto quis evitar que fosse lembrado. Tinham razão. Tinham passado anos a desmantelar, e a ignorar, a vida ativa de Bruno enquanto nazi. Agora eu ia nazificá-lo de novo, e não seria uma experiência fácil.
A única coisa que eu tinha para continuar era uma maço de papéis, datas e formulários que juntos, constituíam a espinha dorsal de uma carreira nazi. (...) Ele tinha sido um soldado de assalto, um lutador de rua, um ideólogo, um político intelectual, um guerreiro biológico, um acólito, um soldado, um delator, um fantasma, um burocrata, um árbitro de política social - em suma, o perfeito nazi.
(...) Comecei a perceber que descobrir mais acerca do meu avô significaria descobrir mais acerca do Terceiro Reich.

  Martin Davidson in " O Perfeito Nazi ", Texto Editores, Alfragide, 2011, pp 61 - 64.
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25/12/11

A prenda de Natal.

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Há feriados que deixam a cidade deserta. Nem vivalma nas ruas. Claro que, em termos ecológicos, até talvez seja uma vantagem, o problema é se queremos tomar uma bica - nem um café aberto, com o enorme serão que foi feito, noite adentro, na prática dos sentimentozinhos mais positivos. Mesmo assim costumo sempre ousar: meto-me no carro e acabo encontrando qualquer coisa, nem que seja uma gasolineira... Desta vez também consegui: um pequeno café numa das zonas luxuosas da cidade. Bebi a costumeira bica e, lembrando-me de algo, perguntei ao rapaz:
- Por acaso não têm uma embalagem onde possa levar duas bicas?
- Levar duas bicas?!
- Sim, é que tenho gente lá em casa e assim escusávamos de cá voltar. Às vezes há aqueles copos de plástico...
- Não, não temos!- Depois de olhar todas as prateleiras, rematou: - Só se levar nas duas chávenas!
- Nas duas chávenas?! - Exclamei eu com o ar de um imbecil que é apanhado de surpresa. Mas espere, espere... E já ele enchia as chávenas:
- Pode levar estas duas. Estavam para aqui... nós já nem as usamos.
Eh, ca ganda baile qu'este me está a dar - despertei eu - e atirei-lhe a farpa:
- Ah, já percebi, se hão de ir pró lixo, assim levo-as eu. - O rapaz fez-se desentendido. Pela surpresa dos dois empregados, e conversa entre todos, percebi que ele era o filho do dono. Depois das bicas tiradas, enroscou uma chávena na outra, colocou um guardanapo por cima e sorriu com ar de sacana:
- Como vê é fácil! Leva assim as duas bicas.
- Mas espere lá... e se eu comprar uma garrafa pequena de água e deitarmos lá o café.
- Não, não vale a pena! Olhe, entenda isto como a minha prenda de Natal! - E voltou a sorrir.
Eh, ca granda cabrão - pensei eu, imaginando-me já a fazer equilibrismo, rua afora, com as duas chávenas na mão: - eu não estou a levar um baile, isto é mas é um sarau com orquestra sinfónica e tudo, mas não perdes pela demora... e pus o meu ar de querubim recém purificado:
- Ah, se é a sua prenda de Natal, já é outra coisa... então, sendo assim, levo as chávenas.
E lá vim, rua afora mesmo, até ao carro, qual acrobata de circo... Depois atravessei a cidade, " a vinte à hora", com as duas chávenas "sentadas" no tablier.
Enfim... amanhã, ou depois, será o segundo acto, pois as chávenas já ali estão embrulhadinhas, só me resta encontrar uma loja aberta onde possa comprar um laçarote ostensivamente garrido, já que uma prenda de Natal - dada ou retribuida - tem de ter sempre um significado preciso.
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23/12/11

Acabou de sair...

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Acabou de ser colocada em linha a "REVISTA TRIPLOV - DE ARTES, RELIGIÕES E CIÊNCIAS"
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Nova Série, 2011, Número 19 - 20.
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Ver artigo " Imagens da sexualidade na obra de Ferzan Ozpetek
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aqui:  www.triplov.com/novaserie.revista/numero_19
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11/12/11

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Nunca tomes decisões, ó Cirno, fiado num homem mau,
quando quiseres executar uma acção de valor.
Aconselha-te, sim, com um bom, depois de muito te esforçares
e por teu pé teres percorrido, ó Cirno, um longo caminho.
Não confies a todos os amigos os teus actos por inteiro:
pois raros são aqueles que têm ânimo fiel.
Intenta grandes obras, fiado em poucos homens;
se não, terás aborrecimentos intoleráveis.
O homem fiel e digno na dura incerteza, estima-o,
ó Cirno, como o ouro e a prata.
Poucos amigos encontrarás que sejam fiéis
nas dificuldades, ó Polipaides,
amigos que ousem, de ânimo concorde,
partilhar igualmente ventura e desgraça.
Desses não encontrarias, nem que procurasses
por todo o mundo, tantos que uma nau sozinha não os levasse;
desses, dotados de vergonha na língua e nos olhos,
que a riqueza não induz ao mal.
Não me estimes só em palavras, se outro é o pensar da tua mente,
se és meu amigo e tens um ânimo fiel.
Estima-me de coração puro, ou despede-me
e odeia-me abertamente, suscitando uma contenda.
Quem tem um coração separado da língua, é companhia
temível; melhor é que seja inimigo do que amigo.

  Teógnis ( I, 69-92) in " Helade, Antologia da Cultura Grega "  Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra, Coimbra, 1971, pp, 137 - 138 ( Organização e Tradução de
Maria Helena da Rocha Pereira ).
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10/12/11

" dedico más espacio al corazón ajeno/ que a la suerte. "

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  " Chance "

Llevo toda la vida mirando las estrellas
y ahora que puedo disponer de tiempo
dedico más espacio al corazón ajeno
que a la suerte.

Y nunca amo por fe, puede entender-se:
la pasión es una verdad tan grande
como una estrella.

Toda una vida para conocerme
y ya ves:
estoy aquí,
cansado del destino
y de la muerte.

  Javier Sánchez Menéndez in " Faltan palabras en el diccionario, Poemas Escogidos 1983 - 2011 ",
Libros del Aire, Madrid, 2011, p 111.
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" por roubar-te um semblante,/ uma paixão ou um pouco do teu tempo. "

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Daría cualquier cosa del mundo
por estar contigo algunos ratos,
por llenarme de mar o de alegria,
por robarte un semblante,
una pasión, un poco de tu tiempo.
Nos morimos llamándonos
y nos llamamos tarde,
siempre dispuestos nunca consumiendo
ese poco de ansia que nos dejó el destino.
Y esta sonrisa que recorre mis labios
no es más que una lágrima
tan grande como un beso;
y esta nostalgia al aire,
y este vivir que encela,
y este calor ambiguo, adolescente,
y esta distancia.

Daría ahora lo que poseo, que es nada,
triste aproximación.

  Javier Sánchez Menéndez in " Faltan palabras en el diccionario, Poemas Escogidos 1983 - 2011 ",
Libros del Aire, Madrid, 2011, p 33.
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08/12/11

" aquele que conversando pôde apenas/ aprender uma forma de ver... "

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  " Alexandria "

  I

onde se perderam aqueles cadernos a que
teimosamente tornavas para escrever
de novo e de novo as mesmas frases
descalços pés apoiados na arcada da varanda
o sol dando-te no rosto cadernos onde
teimosamente ensaiaste alguns
gestos um verão inteiro atrasando-te
onde estão esses cadernos que não
chegaste a rasgar e a costurar de novo
onde com ténues fios brancos e estreitas
agulhas apenas alinhavaste frases
esses comprados em estações
de autocarro furtivamente guardados
em gavetas de armários com chave

 II

rapariga pintando caixilhos de janelas mãos de
tinta manchadas rápida ela emerge à flor
da voz com o vagar do gato mas numa
prudência tão ensaiada que em nada poderia
persuadir outra palavra dita mergulharia
entre as imagens cujas cores rápido se esquece

 III

aquele que conversando pôde apenas
aprender uma forma de ver esse nunca
falou contigo inteligente e cínico calculou
a projecção do próprio eco a conversa
entrou em areia pela noite alastrou
às lanternas ténues fios brancos e estreitas
femininas mãos por engano a luz feriu-te
um pouco acertando-te no rosto tu reclamado
em cor de sépia se a memória fosse um resgate
uma coisa sem fala e sem pena uma memória
calorosamente guardada e esquecida
coisas que podemos suportar perder
porque nos foram totalmente concedidas

 IV

as pequenas nostalgias como fios se prendem
em encaixes de mãos e ombros aquele
que falou contigo junto às vinhas podadas
nesse dia deixou-te para uma conversa mutilada na mesa
de outono o cheiro de uvas nas mãos
como terias tu provado desse vinho
com que timidez reclamar o que sempre
foi nosso um regresso por hábito à exígua e pobre
divisão da casa às paredes nuas solenidade
de mesa em sala vazia tecla de piano onde
se esconde uma nota em que nunca se acerta

  V

tu na mesa de outono te sentaste o rigor
do corpo direito as mãos nos joelhos
pousadas fazes lembrar aqueles soldados
que muito tempo longe regressam
quando já ninguém os esperava
com altivez olham o que é deles
e já só podem sentir desdém
assim percorres de novo e de novo
a estreiteza das mesmas ruas

  VI

continuarás a voltar a estes quartos junto
aos portos de alexandria como fez kavafis
nos seus poemas o encontro e diálogo com
as coisas será por fim uma pequena variação
de cor na luz do dia será esta forma de
silêncio o ajeitar da última flor no vaso
em que a aprisionaste

  Tatiana Faia in " Lugano ", Artefacto, Lisboa, 2011, pp 47 - 49.
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07/12/11

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  " Seu a seu dono "

 
A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entrabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do copo.
Porque tocar ( pensa ela )
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

  Rosa Alice Branco in " Gado do Senhor ", &etc., Lisboa, 2011, p 38.
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06/12/11

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  " Prova de existência da alma "


Deixaste a ressurreição a meio.
Não me lembro de nada tão incompleto como ela.
O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.
Nas palavras de São Paulo a criação teve parto e dores
em relação. Um prelúdio, sabemos hoje, prelúdio
sem mais nada. Os animais não aspiram à eternidade.
Nisto devia consistir a alma que lhes foi negada.
Por menos despediria eu um empregado.
O meu cão brinca a que eu sou o cão dele.
Atira-me um osso e corro atrás, todos corremos atrás.
Mas é assim que se sobe na vida porque aspiramos.
Prova provada de que temos alma.

  Rosa Alice Branco in " Gado do Senhor ", &etc, Lisboa, 2011, p 33.
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05/12/11

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  " Antínoo & Adriano "

 
Esta é a zona batida pelos afogados
Esta é a velocidade máxima de quem submerge
aqui as romãs romanas não crescerão mais
& duas águias de névoa orvalhando sandálias
adolescentes na grama de primavera escrevem
a palavra remember
o doce Antínoo com seu arco carregando
corações maduros na aljava na fenda-essência
da história
os semáforos do tempo acendem seu sinal
verde por cima de sua
longa cabeleira
este doce garoto
partiu o coração do imperador
o Império adorando um deus adolescente afogado no Nilo
sem esperar a Manhã egípcia chegar
Adriano chorou o resto de sua
vida na villa ao sul de Roma
as paredes rachavam pelas tardes
deixando entrar as lembranças
houve um tempo nas montanhas da
Bitínia quando as caçadas se prolongavam
até a hora do amor
o vinho Falerno aderindo aos estômagos
vazios enquanto os olhares se
cruzavam sobre o javali assado rodeado
de frutas
este amor construiu seu império na
memória & as escamas de
meu cérebro caem ao contato de
seus dedos
os poetas latinos ouviram provaram
entenderam este tesouro afundado
nas tripas do tempo
resta o vento de verão nos caminhos
onde eles andaram

  Roberto Piva  in " obras reunidas, volume 2 - Mala na mão & asas pretas ", Editora Globo,
São Paulo, 2006, pp 84 - 85.
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  " A Coréia é na esquina  "


Assim não dá meu tesão
eu começo a sonhar com você todas as tardes
& você lá em Santos
comendo amendoim
vendo anjos nas cebolas do mercado
navios entram & saem do porto polidos
eu corto as veias & rego meu queijo-minas
você me ama eu sei & me envaideço
amoras jorram a beleza anarquista de suas
coxas molhadas
o peixe-espada pode lhe declarar amor
eu penso nestas ilhas perfumadas
mas o caminho de volta eu só conto
a este urubu em carne viva
que grasna na sacada.

  Roberto Piva in " obras reunidas, volume 2 - Mala na mão & asas pretas ", Editora Globo,
São Paulo, 2006, p 133.
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04/12/11

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Pólen costumava organizar sua vida às quintas-feiras mas
estávamos numa quarta & sua loucura era da pesada sem
distinção de raça credo ou cor & uivava pelas ruas com
duas panteras pintadas em seu peito falando com os amigos
sobre as poesias de Maquiavel, César Bórgia, Castruccio
Castracani o herói das galáxias medievais no início da era
burguesa dos chinelos & pincenê agora devidamente
catalogada na Ruína Absoluta sem permeios kennedianos
na mexerica & suas pompas fúnebres.
O trombadinha quis saber se Pólen acreditava no lúmpen.
O trombadinha tinha sido descabaçado por um esquimó
bolsista da PUC. Polén declamou doze poemas escritos
contra a CIA. O trombadinha queria dar.
Pólen o comeu ali mesmo, depois de roubar sua camisa.
O trombadinha queria mais.
Pólen então chamou seu amigo economista sádico &
classicista & fez ele comer o trombadinha que suspirava
dizia palavrões inflamados pedia para ser cintado & chamado de
Arlete & toda a imaginação delirante de Eros irrompeu no
cérebro do economista que queria ver a vertigem de perto
antes de se converter para sempre ao ateísmo militante
soltando suas farpas contra a figura de Nonô o Curandeiro
padroeiro do trombadinha.

  Roberto Piva in " obras reunidas, volume 2 - Mala na mão & asas pretas ", Editora Globo,
São Paulo, 2006, p 59.
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02/12/11

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 " Provisão Poética para Dias Difíceis "

 
Simplicidade é artifício recolhido, dobrado, alisado a
ferro. Leveza aérea daquilo que foi corrigido e passa-
do a limpo. Estratégia embrulhada para fins libidino-
sos. É também a fome que ensaliva perto do prato,
movimento de um corpo que acompanha o ritmo.
Simplicidade é aquilo que se quer. É a górgona do
sentido. Desejo de dados já jogados, de versos esten-
didos com as faces para cima. Eu queria a maçã de
Bandeira, mas não seu quarto de hotel. Eu queria a
sesta de Montale, e depois pisar nos espinhos do seu
horto. Eu queria o mar de Kavafis, mas não para nau-
fragar num canto de terra. Eu queria as lentes de
cummings, sem os limites da tipografia. Queria as asas
de Eliot, mas não sua velhice. Eu queria, é simples,
mas bem aqui, longe de Starnbergersee.

 Marcos Siscar in " O roubo do silêncio ", 7Letras, Rio de Janeiro, 2006, p 66.
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01/12/11

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           " Pietá "


Eu sou a sua pietà, meu amor, agora, nesta ponta de
rua onde os ventos quebram. Eu entendo bem seu
espanto mudo de que a vida comece no sacrifício, o
abraço na morte, o amor na despedida. Eu o seguro
sobre os joelhos na luz azul desta noite, compreendo
a sua angústia. A força só além do hábito. Para a víti-
ma, é sempre o inimigo que escolhe as armas. Enten-
do o que quer dizer, e só tenho minhas mãos para um
longo afago. Quantas vezes não saiu do cinema co-
brindo o rosto, quantas vezes a cólera não foi maior
que a ofensa. E nada disso o poupou. Eu o entendo.
Como pode seu espanto só ter sentido aqui, sobre
esses joelhos dobrados, premidos pelo peso de seu lon-
go corpo, todo ele, transido de destino. Só posso di-
zer que entendo e você deve acreditar. Em quem mais
acreditaria? É por mim que aqui se deitou e eu assim
o recebi. Por aqui também passam rostos ressentidos.
Mas veja como o mal evaporou-se ao primeiro vapor
do dia. E as chagas expostas ao céu claro ganharam
cores de simplicidade, tapumes previsíveis, tornaram-
se gestos de defesa. Embora seja tarde, acredite em
mim. Eu continuarei a seu lado. Só não prometo a
escultura.

 Marcos Siscar in " o roubo do silêncio ", 7Letras, Rio de Janeiro, 2006, p 41.
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Acerca dos Prémios...

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O que já vi, relativamente à questão dos Prémios Literários, acabou por me conduzir - na área da poesia - a duas posições bastante primárias: primeira, todos os Prémios (não as obras que os vencem!) que estimulem quem escreve poesia merecem ser dignificados, venham eles de Câmaras, de Empresas ou de Organismos Oficiais; segunda, o que conta verdadeiramente, nesse mecanismo, não é o rótulo mas a integridade e a verticalidade do júri. No que me diz respeito, confesso que não me foi fácil ler dezenas de originais e pensar sobre eles, mas foi agradável trabalhar com outros elementos de um júri que decidiu atribuir, por unanimidade, o 1º lugar de um Prémio Literário ao livro: "Desarrumação do Frio" de Luís Aguiar.
E relativamente (ainda) à integridade: não sei - nem quero saber - quem eram os outros concorrentes e só ontem, quando recebi o livro já impresso, dado que nem ao Google tinha ido, é que fiquei a conhecer o currículo literário do Luís Aguiar, que, afinal, já tinha vencido o Prémio Irene Lisboa, o Prémio Afonso Lopes Vieira, o Prémio Castello di Duino (Trieste), etc.
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30/11/11

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(...)
Em frente,
a igreja parecia de uma brancura nova,
imaculada.
Os ciprestes eram como longos braços erguidos.
Numa única lápide, li um epitáfio com duas rosas.
Um cão ladrou e, como uma dor que se reabrisse,
lembrei-me de ti,
e deixei que voltassem a correr as lágrimas.
Estava só,
estaria sempre só.
O peso do mundo era irremediável.
Por mais que quisesse não podia esquecer-te,
não podia esquecer nada.
Matei o dragão, disseram-me, e ao matá-lo, matei as
minhas tardes de pólen.
Arrefeci tremendamente.
Uma corrente gélida varreu as serras.
As uvas eram amargas.
Não foi isto o que pedi, ao desembocar no túnel,
à entrada da aldeia.
Pedi,
com desmesurada fé,
que nunca partissem aqueles que em mim me
habitavam,
antes de o bolor revestir as paredes,
caíadas por fora.
Pedi que estivesses aqui,
sabendo que nunca mais te sentarias comigo,
junto ao limoeiro,
a ladrar aos frutos que caíam,
depois da geada.
...  ...  ...  ...  ...  ...

 José Agostinho Baptista in " Caminharei pelo Vale da Sombra ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2011, pp 110 - 112.
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28/11/11

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(...)
Escurece,
neste pequeno porto de onde não partirei,
para que a minha vida seja a tua âncora,
quando me procuras.
Quando me procuras, é como acender os candelabros
de prata,
é como dizer-te, sem receio,
embora vacilante,
eu farei o teu abrigo dos abrigos que não tive,
eu serei a árvore,
de cujos ramos, tão saudosos, partem as aves
migratórias.
E se emudecer,
serei como ela,
a que me embalava docemente,
numa paisagem inerte,
apta ao vislumbre das corolas decepadas por uma faca,
oculta nas rendas.
Se te vejo,
vénus estremece no seu terraço com lilases de seda,
convoca-te o oráculo,
enleia-te a serpente, prende-te o amor que renova a seiva
no entardecer da espiga.
Seara fui,
e fui grão e leveza e espessura.
Quem sou hoje, pergunto às estações sucessivas.
Contenho-me.
Conténs-me e guardas-me nos teus lábios semicerrados,
calados, receosos da palavra poderosa,
do poder das sombras que atravessam o vale e têm
pressa de chegar à cruz de onde descerei um dia,
sim,
porque eu sou a carruagem lunar das tuas idas e vindas.
...  ...  ...  ...  ...  ...

  José Agostinho Baptista in " Caminharei Pelo Vale da Sombra ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2011, pp 46 - 48.
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27/11/11

"(...) e louvando retenho o entardecer na lonjura exausta das marés... "

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 " Poema I do Ciclo A Condição do Olhar "

Do que disse um dia me perco agora em redes
de espuma lisa, espera branda de sinal azul de
embaciadas finas recordações de maior dádiva,
esse uso directo. Recortas o aparato redondo da
noite inflexionada em puro reverter, branca aurora
marinha. E a senha. A notação da dor no imponde-
rável acontecer do risco, o traço carregado da pre-
sença, tutela abandonada. Ficada assim na textura
de uma longa toalha branca, suspenso palpitar da
insidiosa hesitação correcta, ó fontes do recurso
deplorável. Em aras deponho pois amável o dis-
curso em tom de fina aceitação e louvando retenho
o entardecer na lonjura exausta das marés, vibra-
ção quente. Se repartes o medo por essa incerteza
do limite, repousado rodeio do movimento, é teu o
verso na mágoa incandescente da manhã, eixo con-
taminado da planície à origem dos meios, ervas
doidas, no solto incandescer do tempo recuado.
Assim os metais se empolgam e impelem o lento
recorrer dos idos na lava dos caminhos. E só os
olhos, latentes, reconhecem.

  Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 83.
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26/11/11

"(...) Renascem os cabelos/ que o mar noutras paragens destruiu. "

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 " Poema VI - Nave do Ciclo A Catedral "

É cedo ainda. Renascem os cabelos
que o mar noutras paragens destruiu.
Desconheces o poder dos ventos do sul,
as lagoas brandas da meia-luz trémula, ó pescadores.
A ciência que temos é aliás prefixa.
Que sabes da tenra usura que desenvolve o tempo?
Rosa trémula
Os laços marginais, os escolhos pendentes,
a quebra interminável, doentes de minha mágoa.
Há um abismo no prolongamento das manhãs
que percorremos juntos. A falha é ainda
a simulação do berço,
lajes soltas.

 Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 68.
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25/11/11

" Do irremediável aprendi a tranquilidade. E que a pertença é rigorosamente a grande forma de separação. "

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 " Despedidas de Verão "

Vou sem pensar na bruma fria, toque ansioso
dos momentos comuns, e de seus prolongamentos,
os sulcos mais fortes da imaginada cálida força.
Relembro as datas, essas longas noites de vigília
que bani. Os vestidos negros ou roxos, o lindo
rosto de voz tranquila. Sem tradução de palavra
gasta me aparece, solidão imposta da quieta
noite do outro. Não espero, porque estudei todas
as ficções e vejo em todo o processo narrativo
o momento poético do mais forte ódio ou daquele
encontro que sempre vem, beneplácito acontecer.
Assim te digo que nada é possível a não ser a
forte presença do olhar, que se foge me esqueço.
Do irremediável aprendi a tranquilidade. E que a
pertença é rigorosamente a grande forma de
separação. Aprendo então os signos da desgraça,
essa malévola intendência do bem-querer afixado.
E contemplo da janela os idos sem complacência
nem pena imerecida. Disto te dou conta para te
mostrar a forte eternidade de cada um.

 Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 36.
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24/11/11

Inseguranças, vulnerabilidades e comportamentos obsessivos.

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" As técnicas do controlo do corte dos pensamentos (negativos) e do confronto com a realidade "

Começámos a analisar os seus pensamentos. Sandra era uma máquina de fabricar pensamentos negativos e, como temíamos, há anos que o fazia: considerava-se a pior das filhas, a pessoa menos preparada no trabalho, a rapariga mais gorda e feia do seu meio, a menos simpática... e, claro, nada de isto era objectivo.
Quando parecia que avançávamos um pouco, voltava na semana seguinte com novas dúvidas e novos pensamentos negativos. Tivemos de fazer uma paragem no caminho, assinar uma "trégua" e chegar à conclusão de que, nesses momentos, era incapaz de racionalizar dez minutos sem começar a censurar-se por algo; nessas circuntâncias deixámos de trabalhar o "confronto" dos seus diálogos internos e pusemos toda a energia em "parar" e "cortar" os seus pensamentos negativos, que eram a maioria.
É um trabalho pesado e pouco gratificante ao princípio, mas Sandra começou a sentir-se livre quando viu que, ao menos, podia "cortar" com bastante rapidez esses pensamentos que tanto a angustiavam, e além disso, podia fazê-lo tantas vezes quantas eles lhe surgiam. Aprendeu a deixar de ter medo dos próprios pensamentos. Posteriormente, quando já era capaz de cortar esses diálogos internos que tanto a martirizavam, voltámos a tentar que começasse a "racionalizar" os seus pensamentos. Então tivemos mais êxito, ainda que Sandra continuasse a encontrar com muita facilidade argumentos contra ela. Era difícil sentir-se bem se estava sempre a dizer: "Não valho nada" (...) "Toda a minha vida tem sido um desastre", "Sou gorda e feia"... Sandra repetia frases deste estilo desde pequena; nunca gostara de si fisicamente, intelectualmente via-se inapta e lenta (...) Teve de trabalhar muito para poder ultrapassar estes pensamentos irracionais.
Passámos semanas a confrontar, uma a uma, cada frase que proferia interiormente (...).
Não é fácil que alguém tão vulnerável aprenda a deixar de sofrer inutilmente, mas pode-se conseguir, embora o seu cérebro resista, e é lógico que o faça, pois, passou anos a armazenar esses pensamentos contra si. A verdade é que Sandra será sempre um pouco "mais sensível" do que a maioria, mas agora é capaz de desfrutar das coisas positivas que lhe acontecem e, o mais importante, "corta" bastante bem os seus pensamentos irracionais e tem um conceito sobre si própria muito mais adaptado à realidade (...) Por fim, é capaz  de ver-se com objectividade, embora seja demasiado "mole" nas suas apreciações sobre os outros, mas já aprendeu a não justificar o injustificável e, ainda que lhe custe, já exige responsabilidades e pede explicações (...).
A psicologia demonstra-nos que tudo o que se aprende se pode desaprender; tal como nos treinámos para nos sentir mal, podemos treinar-nos para sermos mais realistas e perspectivarmos a vida de forma objectiva.

  María Jesús Álava Reyes in "A inutilidade do sofrimento", A Esfera dos Livros, Lisboa,
2006, pp 120 - 122.
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             " Caçada "


A minha primeira caçada aos gambuzinos aconteceu pelos
tempos em que eu andava ainda na escola. Convidaram-me
e explicaram-me. Até me ofereceram o saco conveniente e
necessário.
Excitado, preparei-me em casa. Treinei devidamente, em-
boscado atrás da porta, a tentar caçar experimentalmente o
meu pai, que subia a escada. Pareceu-me que não gostou.
Os pais, não é... ?
Na noite da caçada, lá fomos. Eu entusiasmado, com a
lanterna e o saco apropriado. E também a moca que estava
atrás da porta, que há noite há ladrões, foi a justificação que
me veio à cabeça no momento. Todos concordaram.
Mas não me venham dizer que não há gambuzinos. Apa-
nhei três. Um deles parece-me que se chamava António André
e ficou coxo. Ainda está, creio. Uma fractura excelente, mesmo
pela rótula.
Tudo me leva a crer que a caça aos gambuzinos é realmente
importante. Temos que apanhá-los. Temos mesmo. Seja lá
como for.

   Mário-Henrique Leiria in " Novos Contos do Gin ", Editorial Estampa, Lisboa, 1973, p 75.
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23/11/11

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 " Rifão Quotidiano "


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

  Mário-Henrique Leiria in " Novos Contos do Gin ", Editorial Estampa, Lisboa, 1973, p 27.
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 " Nascerá de um Mestre "

 
para o peixe pouco importa o simbolismo das flautas

peixe negro dentro de um mestre

a árvore compreende o nome dentro da sombra o homem dentro

disse

não há caminho no meio do nome posso aventurar-me a perguntar as
flautas da terra as flautas do céu o que nada significa disso o grande
labrego explode no ar e seu nome é vento ainda não emergido da minha
fonte onde as oliveiras choram amanhã nos espinhos oram e não sabem
meus pés descalços os lírios sem a tristeza dos campos onde ninguém
compreenderá os cantos escritos nas quedas da paisagem desse corpo
dilacerado que estremece o silêncio contínuo

  Felipe Stefani in " verso para outro sentido ", Escrituras Editora, São Paulo, 2010, p 54.
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