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" O Guardador de Palavras "
nunca fui só distância e entretanto
transmiti todos os meus lugares,
desde que o mundo é só água e palavras
e morro na iluminura dos olhos.
sempre cresci com pretensões
avulsas, vícios,
e as qualidades das metáforas.
um dia disseram-me que a morte
era um ciclo prévio, que os dons cristalizam
perfeitamente na memória
com auréola e senhora e a dor da confirmação.
nunca quis ser só distância,
sempre houve cavalos
seguindo em minha inutilidade prosperante,
palavras comprometidas com toda a imitação
de sentimento e bicho.
sempre me esvaziei da responsabilidade
de semear o meu tempo,
cresci ajoelhado, em constante
transmissão efémera, em constante
importância assintomática.
depois soube que o tempo castiga
um silêncio em silêncio,
e então comecei a guardar as palavras.
Nené, Tiago. Relevo Móbil Num Coração de Tempo. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora,
2011, p 19.
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09/03/12
"(...) reflexos/ Do sol de agora/ A criar memória. "
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" Poema 23. "
As variantes de um riso descontraído
À mesa do café. A chávena
Segura pelos dedos
Acompanha a distracção.
E tudo o resto
É movimento
De lentas pausas com brilho.
Nada se aproxima ou afasta
Sem que a dança
De braços firmes, delicados,
Sustenha o olhar.
Sobre as mesas reflexos
Do sol de agora
A criar memória.
Almeida, Rui. Caderno de Milfontes. S/c.: volta d' mar, 2011, p 32.
.
" Que habita sem transformar "
.
" Poema 11. "
A paciência conhece o tempo da espera,
Arruma-o
Junto aos destroços de velhas torres de vigia
Que habita sem transformar.
Almeida, Rui. Caderno de Milfontes. S/c.: volta d' mar, 2011, p 19.
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" Poema 11. "
A paciência conhece o tempo da espera,
Arruma-o
Junto aos destroços de velhas torres de vigia
Que habita sem transformar.
Almeida, Rui. Caderno de Milfontes. S/c.: volta d' mar, 2011, p 19.
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08/03/12
" Pudéssemos nós compreender,/ assim como se faz um filho,/ tão ao gosto popular. "
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" Tão ao gosto popular "
Pudéssemos nós compreender
porque é que o outro raramente
é uma preocupação sincera
em nossas vidas
mas que são raras as vezes
em que não o queremos foder,
então alcançaríamos o significado
da existência que levamos,
seríamos o próprio deus
que nos fez à sua imagem.
Passado e futuro seriam o mesmo
e o presente ninguém.
E o vinho que um homem bebe
( enquanto observa o seu filho
a brincar às existências,
como uma garrafa que nunca vaza)
haveria de ser tão vão
quanto uma oportunidade
perdida em que a memória não sabe onde.
O filho seria o seu
próprio cadáver rejuvenescido.
Pudéssemos nós compreender,
assim como se faz um filho,
tão ao gosto popular.
Miranda, Paulo José. O Tabaco de Deus. Lisboa: Edições Cotovia, 2002, p 23.
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" Sentados no sofá/ já só pensam em amanhã. "
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" Os casais amigos "
Quinzenalmente os amigos
entravam-nos pela janela e pousavam
junto aos pratos e às canções.
Uma faca abre a carne,
um copo abre a palavra.
Distraidamente os amigos
roçam as asas pela solidão,
uma ou outra fêmea alimentava as crias.
Durante catorze dias prospera-se
e neste dia seguinte olha-se o passado.
Pobremente os amigos
bêbados fumam charutos,
não sabem usar as palavras
senão para rirem.
Ainda assim é preferível
à solidão de uma esposa.
Agitadamente os amigos
esvoaçam de regresso às suas árvores,
o filho atravessa a sala
tem sono, agarra-se à mãe.
Sentados no sofá
já só pensam em amanhã.
Distantemente os amigos
adormecem na incómoda almofada
desse dia seguinte,
de costas virados uns para os outros.
Miranda, Paulo José. O Tabaco de Deus. Lisboa: Edições Cotovia, 2002, pp 14 - 15.
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" Os casais amigos "
Quinzenalmente os amigos
entravam-nos pela janela e pousavam
junto aos pratos e às canções.
Uma faca abre a carne,
um copo abre a palavra.
Distraidamente os amigos
roçam as asas pela solidão,
uma ou outra fêmea alimentava as crias.
Durante catorze dias prospera-se
e neste dia seguinte olha-se o passado.
Pobremente os amigos
bêbados fumam charutos,
não sabem usar as palavras
senão para rirem.
Ainda assim é preferível
à solidão de uma esposa.
Agitadamente os amigos
esvoaçam de regresso às suas árvores,
o filho atravessa a sala
tem sono, agarra-se à mãe.
Sentados no sofá
já só pensam em amanhã.
Distantemente os amigos
adormecem na incómoda almofada
desse dia seguinte,
de costas virados uns para os outros.
Miranda, Paulo José. O Tabaco de Deus. Lisboa: Edições Cotovia, 2002, pp 14 - 15.
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07/03/12
" Y volverán de nuevo/ los nombres que no olvidan, "

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" Agua "
Porque el agua carece de memoria
reparte sus sentidos,
busca tras los espejos
discretos minerales
como la plata antigua de los peces.
Y todo para qué
si el iris,
presencia última,
ya descubre en el ámbar de las gotas
el aliento sin fondo de la lluvia.
Los ojos tan abiertos en este jardín líquido
son labios sin pasado.
Y volverán de nuevo
los nombres que no olvidan,
porque en el agua
desconocen lo frágil,
sólo cubren las cosas, erosionan
con la transparencia nueva
lo inútilmente frío.
Correcher, Rafael. El Azul de los Lápices. Valencia: Editorial Denes, 2009, p 21.
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" Seguramente pensaron lo mismo. "
.
" Coincidencia "
Seguramente pensaron lo mismo.
Juntos
desnudaron
los relojes
de su voz
metálica
y todo
se volvió
rumor de abejas.
Correcher, Rafael. El Azul de los Lápices. Valencia: Editorial Denes, 2009, p 46.
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" Coincidencia "
Seguramente pensaron lo mismo.
Juntos
desnudaron
los relojes
de su voz
metálica
y todo
se volvió
rumor de abejas.
Correcher, Rafael. El Azul de los Lápices. Valencia: Editorial Denes, 2009, p 46.
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06/03/12
Lançamento...
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DIA 10 DE MARÇO, PELAS 16H30, NA LIVRARIA "PÓ DOS LIVROS" EM LISBOA
DECORRERÁ O LANÇAMENTO DO LIVRO: " RELEVO MÓBIL NUM CORAÇÃO DE TEMPO ".
AUTOR DA OBRA: TIAGO NENÉ
PREFACIADOR: Victor Oliveira Mateus
APRESENTAÇÃO A CARGO DE: ANTÓNIO CARLOS CORTEZ
OS POEMAS SERÃO DITOS POR: GISELA RAMOS ROSA
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" Vírus "
Há uma tristeza inerme nos feriados,
uma entrega do pulso das cidades
a um vírus insidioso
habitante das janelas onde
nada está para chegar
ou para partir. Lá dentro cumpre-se o decálogo
dos cansaços. Cá fora perdemo-nos
no planetário do asfalto, na vã arritmia
dos semáforos acesos. As fachadas
transbordam de umbrais vazios
e as frontarias bancárias da Baixa
semelham basílicas fechadas ao culto. À beira-mar
grupos de catalépticos auditores da Bola
oriundos de algum centro comercial
passeiam filhos, esposas e animais de companhia
até às esplanadas da outra margem,
para regressos na fila de escapes do crepúsculo.
Lourenço, Inês. Câmara Escura, Uma Antologia. S/c.: Língua Morta, 2012, p 16.
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" Arte Poética III "
O poeta disse: a inspiração
não existe. De há muito, as musas
ficaram desempregadas. E desvendou
algum método de trabalho
à parca assistência, altivo e contemporâneo,
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras
resistindo ao tráfego do fim de tarde,
pouco se interessavam
pela carpintaria dos versos.
Lourenço, Inês. Câmara Escura, Uma Antologia. s/c.: Língua Morta, 2012, p 21.
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" Arte Poética III "
O poeta disse: a inspiração
não existe. De há muito, as musas
ficaram desempregadas. E desvendou
algum método de trabalho
à parca assistência, altivo e contemporâneo,
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras
resistindo ao tráfego do fim de tarde,
pouco se interessavam
pela carpintaria dos versos.
Lourenço, Inês. Câmara Escura, Uma Antologia. s/c.: Língua Morta, 2012, p 21.
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05/03/12
A problemática da avaliação da personalidade: os diferentes métodos.
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Um dos maiores problemas da avaliação da personalidade reside, sem sombra de dúvida, no facto de, mesmo na actualidade, não existir um método único adoptado por todos os psicólogos. Por outras palavras, quando o psicólogo tem de avaliar a personalidade, pode basear-se em diferentes instrumentos, sendo que as suas escolhas orientarão as conclusões de modo significativo. Este ponto semeia de forma preponderante a confusão, não se prestando à harmonização. Convém dizer, como veremos mais tarde, que o erro radica no facto de não existir um modelo da personalidade unânime entre os psicólogos da personalidade, para além de cada modelo preconizar a utilização de determinado teste, em detrimento de outro: cada teoria recorre a um teste específico.
Apesar da diversidade dos instrumentos escolhidos, pode dizer-se que a avaliação da personalidade se faz, principalmente, segundo dois modelos. O primeiro baseia-se na observação, podendo assumir diferentes formas. Por vezes, um observador pode emitir um juízo sobre alguém, mesmo sem se ter cruzado com a pessoa. Efectivamente, acontece-nos a todos emitirmos uma opinião sobre alguém, apenas com base em informações recolhidas através de outrem. Em determinadas situações, os juízos baseiam-se em rigorosas observações do comportamento, como, por exemplo, no número de vezes que o indivíduo tamborila com os dedos numa mesa, ou ainda no seu batimento cardíaco, para se inferir sobre o respectivo estado de nervosismo. Nestes casos a observação é real e baseada em parâmetros previamente definidos. Noutras situações, o observador deduz, por intermédio de uma série de sinais subjectivos, se o sujeito observado se encontra relaxado ou, pelo contrário, nervoso. Os observadores podem ainda avaliar a personalidade de um indivíduo que conheçam bem, preenchendo diferentes itens de uma escala de avaliação, como se verifica no caso de crianças ou de doentes psiquiátricos graves. Com frequência, pede-se aos pais para preencherem questionários destinados a avaliar a personalidade ou o temperamento dos seus filhos, em virtude de estes serem ainda demasiado jovens para se avaliarem a si próprios. Graças a estas observações pudemos afirmar que os temperamentos observados em crianças de tenra idade estavam correlacionados com a sua personalidade, na idade adulta. Por fim, existem instrumentos designados por entrevistas semiestruturadas, nas quais o observador coloca questões padronizadas aos indivíduos; a forma como estes lhes respondem determina o modo como a entrevista se desenrolará, bem como a informação que daí se retira.
A segunda forma de avaliar a personalidade, e de longe a mais corrente, consiste nos testes de personalidade. Existem duas categorias diferentes: os testes projectivos e os testes objectivos. Os primeiros consistem na apresentação aos sujeitos de um material ambíguo e pouco estruturado, que dá livre curso à imaginação e que, consequentemente, origina inúmeras respostas. O princípio geral é o seguinte: como o material é ambíguo, o indivíduo projecta-se nele, abandonando uma parte do seu inconsciente.
O teste mais célebre desta categoria é(...): o teste de Rorschach.
(...) Os segundos testes utilizados para avaliar a personalidade - os testes objectivos - consistem em pedir aos sujeitos que preencham eles próprios questionários de personalidade. Nestes questionários, os sujeitos devem indicar de que modo pensam, como se comportam em determinadas situações, de que forma julgam certas acções e de que modo reagem habitualmente a diferentes coisas.
Hansenne, Michel. Psicologia da Personalidade. Lisboa: CLIMEPSI Editores, 2004, pp 61 - 64.
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04/03/12
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O psicopata (...) O que o caracteriza é a passagem ao acto impulsiva, que não seguida de sentimento de falta, frequentemente como resposta a uma insatisfação mal tolerada. O seu domínio preferido é a acção em detrimento do afecto e do pensamento, que estão empobrecidos. De cada vez, o acto reproduz as mesmas características: é súbito, brutal, acompanhado de gritos e de outras violências. É pouca a distância entre a pulsão e a sua expressão comportamental, na ausência de verbalização e simbolização suficientes para permitir a sua elaboração. Com efeito, o psicopata procura livrar-se de uma tensão interna que o persegue desde a infância, e encontra na motricidade uma descarga imediata possível(...) Se se sente rejeitado, pode encontrar aí o meio de suscitar uma reacção social e fazer com que se ocupem dele (...)
Não é raro a infância precoce dos psicopatas ter sido marcada por abandonos e carências graves. A criança foi levada a exprimir-se com violência para se fazer ouvir por aqueles que cuidaram dela.
(...) Todavia, a avidez afectiva do psicopata só se traduz em pedido de amor de forma inadequada. Ele não procura aproximar-se dos outros para tirar prazer de um contacto caloroso. As suas relações sociais permanecem superficiais, e ele pouco se implica. Tem o hábito de abandonar facilmente as suas relações sem pena aparente.
(...) No psicopata, a sociabilidade sincrética e a sociabilidade por interacção são muito limitadas. A adesão às relações íntimas é por isso difícil (...) O seu espírito é animado por sentimentos de inveja e um forte rancor. Tem com frequência a impressão de que o privaram de qualquer coisa, o que coincide com a realidade. Esta reivindicação é tanto mais profunda quanto ela é não consolável. Nenhuma "reparação" surgida depois poderá compensar os estragos sofridos durante a primeira infância. É a privação de base, sublinhada por Winnicott.
Se o psicopata não consegue sentir-se culpado das suas exacções, é porque nunca se sentiu implicado numa ligação "responsável" face a um outro ou a si mesmo. A ausência de uma ligação materna fiável e durável acabou por fazer diluir nele, e depois desaparecer, a "pulsão primária de amor", observa Winnicott. "Para ser alguém é preciso ser amado", acrescenta ele.
(...) Estas observações aplicam-se igualmente aos psicopatas que vivem e agem como comandados por um relógio. Estes delinquentes organizam o seu delito de forma muito precisa e com sangue-frio como se estivessem debaixo de intensa coacção interna. A sua moral é formal e não é marcada pela reflexão, mas apenas por imperativos de obediência e de tranquilização destinados à sua salvaguarda (...) teme o aborrecimento, a monotonia, que o confrontam talvez com uma angústia insustentável. Por outro lado, o tédio abre o acesso patológico e fecha-o ao mesmo tempo. Porquê? A frustração e a impossibilidade de experimentar tristeza, sentidas como um verdadeiro estrago, conduzem o sujeito à busca de aventuras, para se sacudir...
O tratamento recebeu um novo alento a partir da altura em que a Justiça começou a colaborar com os psicólogos e os psiquiatras (...) Foram levadas a cabo terapias individuais e familiares destinadas a adolescentes com dificuldades, a delinquentes potenciais ou condenados (...) o paciente aceita o tratamento unicamente porque este foi prescrito por um juiz e ele espera assim obter uma comutação da pena. Mas mesmo assim é possível encarar um verdadeiro trabalho dirigido ao inconsciente, e vir a instalar-se uma confiança autêntica entre psicopata e terapeuta (...) Um longo período de provas precede o verdadeiro trabalho. Estes pacientes são sensíveis às ambiguidades, ao excesso de sedução, às aitudes esperadas. É pois necessário evitar entrar em considerações pedagógicas, já que o paciente se considera vítima duma injustiça que espera uma "reparação".
Daí que tenhamos de nos prevenir, na terapia, contra atitudes demasiado reparadoras, que não fariam mais do que ferir o paciente(...) É muito mais importante escutar o paciente, aprender a sua angústia, do que "pretender corrigir" um passado de carâncias. O que, de resto, é válido em relação a qualquer paciente.
Eiguer, Alberto. Pequeno Tratados das Perversões Morais. Lisboa: CLIMEPSI Editores, 1999, PP 79-95.
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02/03/12
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Durante muito tempo, opus-me à eutanásia, por imaginar que existia a possibilidade de os filhos matarem os pais, não só por deles esperarem uma herança, mas por considerarem que o seu tratamento lhes exigia um trabalho demasiado pesado. Mas quando comecei a pensar na minha morte, a atitude mudou. Se alguma tragédia me acontecer - se ficar paralisada ou demente -, suponho que existem pessoas que me amam o suficiente para fazerem o que sabem constituir o meu desejo. Mas quem me garante que isto será verdade ad seculum saeculorum? E por que motivo terão de ser consideradas criminosas? E quem me garante que haverá um médico que ajude a concretizar o meu desejo? Comecei a vacilar nas minhas certezas.
Embora consciente de que o documento não tinha base legal, a 23 de Março de 2005, redigi um "testamento vital". Eis, ipsis verbis, o que escrevi: "Se ficar paralisada totalmente, se ocorrer uma situação em que os médicos só me possam manter viva através de alimentação por via gastro-nasal ou do estômago, se sofrer de uma doença incurável e estiver em sofrimento, se a minha vida se tornar vegetativa, isto é, sem possibilidade de voltar a recuperar o meu estatuto de ser humano, racional e detentor de memória, não quero que a prolonguem." Algumas decisões que se tinham revelado necessárias aquando da doença da minha mãe, e o caso, muito notificado na época, de Terri Schiavo, uma americana cujo marido, embora ela nada tivesse deixado escrito, optara por a deixar morrer, levaram-me a não adiar o projecto.
(...) Mais cedo ou mais tarde, o Estado vai ter de tomar uma posição, esperando que não seja assaltado de pânico diante do erroneamente designado lobby "pró-vida". Em Espanha, que tem uma História não muito diferente da nossa, o testamento vital, a sedação terminal e a recusa de tratamento são legais. A Lei da Autonomia do Paciente, de 2002, que, note-se, recebeu a aprovação da direita, permite a qualquer doente tomar decisões que, até então, eram deixadas nas mãos dos médicos(...)
A eutanásia ficou desacreditada, na década de 1930, pelo uso que do termo fizeram os darwinistas sociais e pelo que, depois, se passou sob o nazismo. Convencidos de que as sociedades avançadas e os indivíduos com mais êxito tinham aptidões genéticas superiores, enquanto os improdutivos haviam herdado traços de carácter que os conduziriam à degenerescência, alguns intelectuais do período mutilaram o pensamento de Darwin, defendendo a esterilização ou a morte dos "desviantes". Pior havia de chegar, com a liquidação, pelos nazis, não só de milhões de judeus, mas de idosos e de deficientes (calcula-se que assim morreram cerca de 200 mil).
Mónica, Maria Filomena. A Morte. Lisboa: Fundação Francisco Manuel do Santos. 2011, pp 44 - 46.
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É provável que morra nos próximos dez, quinze anos. Tenho filhos e netos, amei e fui amada, escrevi livros, ouvi música e viajei. Em princípio, poderia dar-me por satisfeita, o que infelizmente não me faz encarar a morte com placidez. Como Montaigne afirmou, com o tempo, o dilema Vida versus Morte vai-se transformando, num outro, Velhice versus Morte. Sei que as minhas células foram morrendo, as minhas articulações se tornaram rígidas e até o meu crânio diminuiu, mas nada disso conta quando se trata de pensar no fim. Se amanhã um médico me disser que sofro de uma doença incurável, terei um ataque de coração, o que, convenhamos, resolveria o problema. Mas, se isso não acontecer, quero ter a lei do meu lado.
Mónica, Maria Filomena. A Morte. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2011, p 80.
01/03/12
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" O FALSO-SELF ou como passar ao lado da vida "
O falso-self seria uma estrutura aparentada aos estados-limite, entre a neurose e a psicose, a menos grave de todas e a mais próxima da neurose, que se refere, aliás, à relação com o mundo, de maneira geral. Para ser amado, será necessário "vender" a alma?
A dificuldade em tratar estes casos coloca questões específicas. São pacientes que parecem estar bem e que respondem à expectativa do analista, ao parecerem flexíveis e adaptáveis; aceitam as interpretações, fazem-nas funcionar neles e fazem associações articuladas que parecem confirmar as interpretações. No entanto, em profundidade, nada se modifica. Não há aprendizagem autêntica.
O problema complica-se porque o analista, habituado às resistências que os outros pacientes oferecem à tomada de consciência, arrisca-se a acrediar que tal paciente vai bem. Pode mesmo chegar a considerar a cura terminada e a separar-se dele (...)
Embora possamos encontrar falsos-self em todos os meios, entre os intelectuais e os artistas são mais numerosos. Com efeito, estes possuem rudimentos culturais que sabem fazer valer. Podemos, todavia, perguntarmo-nos se a nossa "sociedade espectáculo", que valoriza a mediatização, o reconhecimento e a avaliação públicos, não favorece este tipo de desvio psicológico (...). Não será que, nos nossos dias, a verdade é aquilo que a maioria pensa?
(...) O mundano, o dândi, o snob, assim como o frívolo, ou mesmo a star são semelhantes no sentido de manterem uma ligação especular: os olhos dos outros reflectem-lhes, como um espelho, aquilo que desejariam ser. A imagem no espelho parece mesmo mais importante do que a maneira como o indivíduo se considera. Narciso reconhece-se numa nascente de água pura, que foi procurar para acalmar a sua sede. Ora, o amor por si, que faz nascer esse instante de autocontemplação, condu-lo à inanição. Não querendo turvar a sua imagem, não consegue decidir-se a beber daquela água.
Personagem garrida, o mundano apercebe-se perfeitamente do que os outros pensam, fazem e dizem. Admira as pessoas célebres e de condição superior; um pouco como o fetichista, é atraído pelo à-vontade social, por todos aqueles que parecem não ter sofrido castração. As suas maneiras são civilizadas(...) De facto, os mundanos são, ao mesmo tempo, exibicionistas - gostam de se mostrar em todo o lado - e voyeuristas - não participam do mundo, vigiam-no. Isto traduz um combate entre uma angústia existencial e um insuportável sentimento de solidão. Ao mesmo tempo, conservam uma admiração sem mácula pelas mães, mulheres "maravilhosas", "dignas", "eficazes", e dissimulam no seu discurso o lado desagradável ou trágico das coisas.
(...) O mundano perscruta o seu mundo para saber se este o olha. Idolatra-o, na condição de, em troca, ser também, idolatrado. Porém, se o mundo lhe vira as costas, o mundano gritará de dor e a mascará cairá, para deixar aparecer o vazio..
O dândi veste-se de forma estudada, enquanto o snob imita, sem discernimento, os gostos e as maneiras das pessoas "distintas". De origem modesta, deixa por vezes transparecer maneiras simples, até mesmo vulgares. Em resumo, o lado exibicionista, sobranceiro e inadaptado, encontra-se presente tanto no mundano como no dândi (...).
Para concluir, sublinhemos o parentesco entre mundanidade e perversão moral. Os aspectos exibicionista, voyeurista e fetichista confirmá-lo-iam (...) E talvez também na grande solidão: embora desejando ardentemente uma inserção social confirmada, o falso-self, o mundano e o dândi nem por isso deixam de ser grandes solitários.
Alberto Eiguer in " Pequeno Tratado das Perversões Morais ", CLIMEPSI Editores, Lisboa, 1999, pp 23 - 33.
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29/02/12
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Ao contrário dos perversos sexuais, nos quais o desvio é limitado à esfera sexual, os perversos morais são perturbados em múltiplos aspectos da sua vida psíquica, quer relacional quer afectiva quer mesmo intelectual. Caracterizam-se pela maldade, pela ausência de sentido moral, pela aptidão para as relações sociais - que ajuda à manipulação e mesmo à subordinação dos outros -, pela tendência e facilidade em mascarar as suas intenções, em guardar segredo. Embora pareçam, muitas vezes, frios e calculistas, não estão menos à mercê de tormentos, e é precisamente para se libertarem deles que se entregam a excessos. Portanto, as suas proezas proporcionam-lhes uma intensa satisfação e, por vezes, um sentimento de triunfo que chega a ir até à exaltação e ao júbilo (...).
Outro traço característico dos perversos morais é a sua capacidade de argumentar, de encontrar uma boa razão para justificar os seus delitos. Se o jogador arrisca somas avultadas, é porque quer "saldar as suas numerosas dívidas". Se o perverso-narcísico utiliza o outro, é porque teria "teria muito a ensinar-lhe"... A defesa: racionalizar, justificar-se. A ofensiva: o desejo de convencer, de arregimentar.
Nas relações sociais do perverso de carácter, a dominação e a influência ocupam um lugar privilegiado. Ele manobra habilmente para submeter o outro a pouco e pouco. Animada pelo ódio, a sua vontade procura apagar aquilo que o outro tem de singular. (...) Quanto ao perverso-narcísico, ao jogar com a necessidade de afirmação de si, deseja alterar o valor do amor-próprio do outro. Daí que estabelecer relações íntimas com um perverso e ligar-se a ele é pura perda. Quem o faz nunca sai incólume...
A caminho, pois. A visita à minha pequena "galeria de monstos" começa ...
Alberto Eiguer in "Pequeno Tratado das Perversões Morias", CLIMEPSI Editores, Lisboa, 1999, pp X - XI.
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28/02/12
" nesta tão pobre criação/ que é a nossa condição "
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" 3. Mater Mor Angustiosa " ( Este terceiro pranto é o da Virgem dirigindo-se a Cristo ausente)
(...)
uma verdade
que te toca até a ti,
se é verdade
que lá, no jardim,
como me contaram
os que te seguiam nesse ápice,
alguns de súbito escutaram
o teu grito:
Afasta de mim
este cálice...
Ai, sacrifício!
Ó sacrifício!
Não entender nada
e sentir tudo,
eis que por tudo vulnerada!
Entendeste tu
quando na cruz
pela derradeira espada
a carne que o coração te agasalhava
toda te foi, e para sempre,
destalhada?
Tamanha de sangue
foi então
essa grande cascata,
que tive a impressão,
eu,
de aos pés do teu madeiro
um verdadeiro
massacre se ter dado;
e tu,
(...)
filho desse verbo
que no universal vácuo
e em seu buraco
negro como o dos monstros
do inferno lá em baixo,
ao nada
disse um dia:
Caguemos,
vamos cagar a gente...
E a gente
ó espectadores,
nós, está visto, seríamos,
mas um de cada vez,
e todos também ao mesmo tempo,
nesta tão pobre criação
que é a nossa condição
- esta barrela,
uma barrela
que ao fim e ao cabo
esparrela
se revela,
e uma foda, é vê-la,
de alto lá com ela,
mas foda enamorada...
De quem?
- pergunta-me porém,
pelo seu lado,
o meu Jesus
morto e ali deitado.
Giovanni Testori in " Três Prantos ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, pp 169 - 172.
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26/02/12
" porque deixastes vós/ que um tipo tão bonito,/ ou bonitão,/ viesse na minha direcção "
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"Parte 2. Herodiaça " (Fragmento da fala de Herodíades para o ausente João Baptista )
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Ai deuses,
deuses da minha só,
eterna,
fodida para sempre religião,
porque deixastes vós
que um tipo tão bonito,
ou bonitão,
viesse na minha direcção
nem de roupa coberto,
ou pelo menos,
para radicalmente
ser sincera,
coberto e descoberto ao mesmo tempo,
ali mesmo, onde o slip aperta?
Logo, de resto,
bem pude imaginar
- e tactilmente, por assim dizer, provar -
que nem slip havia por baixo desse pouco
que lhe disfarçasse o coiso,
digamos, do caroço.
A ti aludo,
sórdido santão,
ou, sobretudo,
sórdido porco ou macho porcalhão!
Trazeres todo destapado
e pronto para a acção
um tal cajado,
ou um tal bastão!
E dizeres depois disto
que em Cristo
eras meu irmão!
Por favor um pouco mais de coerência,
pois que incapaz
foste de reverência!
Nunca,
nunca ninguém,
e um profeta de deus
ainda muito menos,
se apresentou a uma senhora
nesse estado,
sobretudo estando bem informado
de que tipo de fêmea
por dentro como por fora
se tratava.
E além disso, porque não pensaria eu
que esse deus teu
aqui te quisesse enviar
para se inteirar
por meio da tua erótica atracção
dos secretos serviços
do meu estado e nação?
Giovanni Testori in " Três Prantos ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, pp 89 - 90.
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"Parte 2. Herodiaça " (Fragmento da fala de Herodíades para o ausente João Baptista )
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Ai deuses,
deuses da minha só,
eterna,
fodida para sempre religião,
porque deixastes vós
que um tipo tão bonito,
ou bonitão,
viesse na minha direcção
nem de roupa coberto,
ou pelo menos,
para radicalmente
ser sincera,
coberto e descoberto ao mesmo tempo,
ali mesmo, onde o slip aperta?
Logo, de resto,
bem pude imaginar
- e tactilmente, por assim dizer, provar -
que nem slip havia por baixo desse pouco
que lhe disfarçasse o coiso,
digamos, do caroço.
A ti aludo,
sórdido santão,
ou, sobretudo,
sórdido porco ou macho porcalhão!
Trazeres todo destapado
e pronto para a acção
um tal cajado,
ou um tal bastão!
E dizeres depois disto
que em Cristo
eras meu irmão!
Por favor um pouco mais de coerência,
pois que incapaz
foste de reverência!
Nunca,
nunca ninguém,
e um profeta de deus
ainda muito menos,
se apresentou a uma senhora
nesse estado,
sobretudo estando bem informado
de que tipo de fêmea
por dentro como por fora
se tratava.
E além disso, porque não pensaria eu
que esse deus teu
aqui te quisesse enviar
para se inteirar
por meio da tua erótica atracção
dos secretos serviços
do meu estado e nação?
Giovanni Testori in " Três Prantos ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, pp 89 - 90.
.
24/02/12
" Já te contei de mais/ para quem está de luto/ e já de mais escutaste; "
.
Excerto da fala de "Cleopatrás "
.
Foges?
E porquê?
Porque fugirás?
Achas que eu seria bem capaz?
Mas eu só,
qual grande rainha
que sou
da arte e da oratória teatral,
com gestos aos presentes
queria demonstrar
que a Cleopatraça,
em jovem mulheraça,
irresistivelmente
sabia fascinar
corações, fígados, bofes
E outros dotes,
E até o desfeito baço cativar.
Aliás,
meu caro servidor,
que sem eu lhe tocar admitirás
se te pôs o pau
para aí a entesar?
Ai que grande tesão!
Ai que grande,
nas cuecas e nas calças
tão sob pressão!
Ai que grande
essa divina musculação!
Tesos por mim
os imperadores todos
e todos os reis;
tesos os mais célebres
e condecorados capitães;
tesos os banqueiros,
Os financeiros, os gestores;
tesas para acabar
Umas lésbicas,
tão velhas, as devassas,
que já nem sabiam ao certo
o que fazer com as rachas.
Tesos pela frente
e logo também por trás,
porque
como o António
ainda anteontem dizia:
O amor não é completo,
não,
nem se diga que o seria,
se não fizer entesar-se e depois vir-se
toda a humana anatomia.
Tesos os soldados
e tesos os soldadinhos;
tesos enfim
os famintos
aos quais,
para que a tesão lhes durasse mais,
eu dava antes pedaços de queijo
a comer
(...)
Mas vai, agora,
Vai
Já te contei de mais
para quem está de luto
e já de mais escutaste;
contei-te tudo
o que, certamente,
é suficiente,
para que até ao fundo,
e com felicidade,
o coiso que aí tens
possas fazer dançar
para cima e para baixo
E te fartes de gozar.
Mas, entretanto,
Porque terei eu
uns momentos antes,
à porta doirada
mandado que parasses?
.
Giovanni Testori in "Três Prantos ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, pp 25 - 28.
.
Excerto da fala de "Cleopatrás "
.
Foges?
E porquê?
Porque fugirás?
Achas que eu seria bem capaz?
Mas eu só,
qual grande rainha
que sou
da arte e da oratória teatral,
com gestos aos presentes
queria demonstrar
que a Cleopatraça,
em jovem mulheraça,
irresistivelmente
sabia fascinar
corações, fígados, bofes
E outros dotes,
E até o desfeito baço cativar.
Aliás,
meu caro servidor,
que sem eu lhe tocar admitirás
se te pôs o pau
para aí a entesar?
Ai que grande tesão!
Ai que grande,
nas cuecas e nas calças
tão sob pressão!
Ai que grande
essa divina musculação!
Tesos por mim
os imperadores todos
e todos os reis;
tesos os mais célebres
e condecorados capitães;
tesos os banqueiros,
Os financeiros, os gestores;
tesas para acabar
Umas lésbicas,
tão velhas, as devassas,
que já nem sabiam ao certo
o que fazer com as rachas.
Tesos pela frente
e logo também por trás,
porque
como o António
ainda anteontem dizia:
O amor não é completo,
não,
nem se diga que o seria,
se não fizer entesar-se e depois vir-se
toda a humana anatomia.
Tesos os soldados
e tesos os soldadinhos;
tesos enfim
os famintos
aos quais,
para que a tesão lhes durasse mais,
eu dava antes pedaços de queijo
a comer
(...)
Mas vai, agora,
Vai
Já te contei de mais
para quem está de luto
e já de mais escutaste;
contei-te tudo
o que, certamente,
é suficiente,
para que até ao fundo,
e com felicidade,
o coiso que aí tens
possas fazer dançar
para cima e para baixo
E te fartes de gozar.
Mas, entretanto,
Porque terei eu
uns momentos antes,
à porta doirada
mandado que parasses?
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Giovanni Testori in "Três Prantos ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, pp 25 - 28.
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23/02/12
Quando há velhos que ficam sempre novos acontecem estas coisas: PARA TODOS OS QUE NÃO ESQUECERAM...
.
... como os que vieram depois também não esquecem!!!
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22/02/12
" se calhar a ausência/ da tua presença/ é a ausência de tudo "
.
tenho saudades de ti
e de tudo o que está ausente
embora não consiga
claramente perceber
que coisas ausentes
me fazem falta
para além da tua presença.
se calhar a ausência
da tua presença
é a ausência de tudo
o que me faz falta.
Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2012, p 87.
.
tenho saudades de ti
e de tudo o que está ausente
embora não consiga
claramente perceber
que coisas ausentes
me fazem falta
para além da tua presença.
se calhar a ausência
da tua presença
é a ausência de tudo
o que me faz falta.
Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2012, p 87.
.
" escrevi o teu nome/ tantas vezes sobre o mar... "
.
escrevi o teu nome
tantas vezes sobre o mar que,
exausto de tanto azul, ali ficou
deitado nas areias da praia
onde ainda repousa ao sol
Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2012, p 80.
.
escrevi o teu nome
tantas vezes sobre o mar que,
exausto de tanto azul, ali ficou
deitado nas areias da praia
onde ainda repousa ao sol
Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2012, p 80.
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19/02/12
" na noite clara "
.
na noite clara
apenas a lua cheia
e o teu silêncio
caminham comigo
Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, 2012, p 67.
.
na noite clara
apenas a lua cheia
e o teu silêncio
caminham comigo
Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, 2012, p 67.
.
" a tua ausência/ em todos os recantos do dia "
.
a tua imagem
na minha sombra
o teu nome
nas minhas palavras
a tua ausência
em todos os recantos do dia.
Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2012, p 27.
.
a tua imagem
na minha sombra
o teu nome
nas minhas palavras
a tua ausência
em todos os recantos do dia.
Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2012, p 27.
.
18/02/12
" Me aferro a su angustia/ Su peso es doble "
.
Poemas 1 e 2 da sequência poética "El Verbo Estéril "
1.
Cómo ha llegado hasta mí
Esta pregunta
Halada desde sí misma
Por grietas ilusiones.
En el último escalón le veo cansarse
Sin saber si desciende o llega arriba
Me aferro a su angustia
Su peso es doble
La respuesta se hunde a nuestro paso.
.
Ricardo Canizales in " Poetas Siglo XXI, Antologia Mundial ", Madrid, Editor Fernando Sabido Sánchez.
.
" Espérame ahi donde no conoces el modo de verme "
.
2.
Déjame estar en ningún lado advertido por el ánimo
Espérame ahí donde no conoces el modo de verme
Haciendo
Quietamente
Vacío de los ojos: epitafio de las ganas.
Han debido sugerirme. Tal vez el sueño
Y la noche de los que no he conocido
O el susurro, más allá de lo que supones
Y tu misma sensatez tantas veces conjugada
O la mía, estática al borde de mí mismo.
Y en esa invocación de certeza y verdades
De nombres y requisiciones
No lo supe
De repente
Más acá de mí mismo:
Súbita inanición de piedra congelada:
Exilio del vilo y la repeteción
No ser da la memória.
Ricardo Canizales in " Poetas Siglo XXI, Antologia Mundial ", Madrid, Editor Fernando Sabido Sánchez, 2011.
.
2.
Déjame estar en ningún lado advertido por el ánimo
Espérame ahí donde no conoces el modo de verme
Haciendo
Quietamente
Vacío de los ojos: epitafio de las ganas.
Han debido sugerirme. Tal vez el sueño
Y la noche de los que no he conocido
O el susurro, más allá de lo que supones
Y tu misma sensatez tantas veces conjugada
O la mía, estática al borde de mí mismo.
Y en esa invocación de certeza y verdades
De nombres y requisiciones
No lo supe
De repente
Más acá de mí mismo:
Súbita inanición de piedra congelada:
Exilio del vilo y la repeteción
No ser da la memória.
Ricardo Canizales in " Poetas Siglo XXI, Antologia Mundial ", Madrid, Editor Fernando Sabido Sánchez, 2011.
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Nota - Descobri a poesia de Ricardo Canizales nesta mesma Antologia em que ambos participamos. Mais tarde o Ricardo dar-me-ia autorização para postar dois poemas seus...esperemos que um dia tenha a ousadia de os traduzir.
.
" é preciso continuar a meter o coração/ pelos atalhos. "
.
" Esplanada "
Já sabemos quantas vezes a realidade
se torna imprestável para ti
e vice-versa.
O sol aquece até ao futuro,
é preciso continuar a meter o coração
pelos atalhos.
Rui Pires Cabral in " A Super-Realidade ", Língua Morta, s/c., 2011, p 38.
.
" (...) Por tua causa eu andava contente/ nas ruínas, fazia as pazes com o tempo perdido. "
. " No Terreno "
Foi por altura das ervas altas e dos arraiais.
Eu via-te outra vez ao fim da tarde e tudo se apagava
à tua volta, os acidentes terrenos, as montanhas do passado
e do futuro. Por tua causa eu andava contente
nas ruínas, fazia as pazes com o tempo perdido.
Na estrada à meia-noite o asfalto era morno, os grilos
estavam todos a cantar dentro do céu. Já não sei dizer
o muito que esperei de ti, os serões eram pródigos
e tinham os braços imprevistos de um fractal.
Fumavas dos meus cigarros, falavas da vida que tinhas
a milhares de quilómetros dali. Na minha própria
e exclusiva escuridão, eu já só existia para ti.
Rui Pires Cabral in " A Super-Realidade ", Língua Morta, s/c., 2011, p 17.
.
Foi por altura das ervas altas e dos arraiais.
Eu via-te outra vez ao fim da tarde e tudo se apagava
à tua volta, os acidentes terrenos, as montanhas do passado
e do futuro. Por tua causa eu andava contente
nas ruínas, fazia as pazes com o tempo perdido.
Na estrada à meia-noite o asfalto era morno, os grilos
estavam todos a cantar dentro do céu. Já não sei dizer
o muito que esperei de ti, os serões eram pródigos
e tinham os braços imprevistos de um fractal.
Fumavas dos meus cigarros, falavas da vida que tinhas
a milhares de quilómetros dali. Na minha própria
e exclusiva escuridão, eu já só existia para ti.
Rui Pires Cabral in " A Super-Realidade ", Língua Morta, s/c., 2011, p 17.
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16/02/12
Apareçam!!!
.
Todas as quintas feiras do mês (exceptuando a 3ª quinta!), Rui Paulino David e Carlos Araújo no
.
" Olimpo (Bar Café)" na Rua da Alegria, 26, 4000-032 Porto...
.
15/02/12
.
A verdade
é que nunca gostaste
de viajar
Preferes ao aeroporto
o sofá da casa
que até aos 70
será tua
em suaves
prestações
Para aventuras
tens 125 canais
dois a quatro
comandos à distância
E aquela queca
(com segurança)
uma vez por mês
manuel a. domingos in " Teorias ", Edição de Autor, s/c., 2011, p 30.
.
A verdade
é que nunca gostaste
de viajar
Preferes ao aeroporto
o sofá da casa
que até aos 70
será tua
em suaves
prestações
Para aventuras
tens 125 canais
dois a quatro
comandos à distância
E aquela queca
(com segurança)
uma vez por mês
manuel a. domingos in " Teorias ", Edição de Autor, s/c., 2011, p 30.
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11/02/12
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Estranha, mas verdadeiramente, o pensamento de Agostinho da Silva, homem austero, reservado e humilde, possui fortes afinidades com o de Natália Correia, uma poetisa do erótico, do privilégio civilizacional atribuído à mulher, da exuberância fáustica dos sentidos e dos sentimentos, autora extrovertida, noctívaga de bares e botequins, recolhendo-se de madrugada e levantando-se com o esmorecer da tarde.
De facto, a publicação de uma centena de páginas inéditas, recolhidas do espólio de Natália Correia por José Eduardo Franco e José Augusto Mourão, veio tornar mais saliente um conjunto de afinidades intelectuais e espirituais entre ambos os autores. Relendo estas páginas, constatamos a existência de três teses transversalmente presentes na obra dos dois autores:
1) Uma nítida postura militante contra o racionalismo dominante nas sociedades actuais, causa, não de progresso, mas de decadência;
2) A exigência de uma urgente e radical alteração na actual sociedade através da presença do sagrado no homem;
3) O resgate do modelo arquetipal da cultura portuguesa em torno do culto do Espírito Santo, cuja última Terceira Idade é por ambos identificada com o Quinto Império.
Com efeito, para além da comum pulsão de infinita liberdade, que a ambos forçou uma postura social e intelectual contra o regime do Estado Novo, constata-se nos dois pensadores a existência de uma pulsão revolucionária que continuamente lhes altera a existência, em Natália concretizada nos seus diversos casamentos (situação escandalosa para a sociedade puritana das décadas de 50 a 70) e em Agostinho no modo contestatário que, ao longo da sua vida, presidiu às suas relações com as intituições cristianizadas do Estado Novo (Escola, Igreja, Universidade, Estado). Assim, este triplo conjunto de teses desenha uma comunidade de pensamento, insuspeito até 2005, entre a autora de Mátria e o autor de Vida Conversável.
Entre todas as escritoras portuguesas da segunda metade do século XX, Natália Correia constitui-se como a que mais afirma a sua obra literária numa atitude nitidamente contestária da racionalidade lógica e tecnológica do actual estado da civilização ocidental. Toda a sua obra no campo da poesia e do ensaio se constitui como um forte libelo contra o domínio da razão sobre a sensibilidade, bem como, do ponto de vista social, contra o domínio da lógica do interesse da razão de Estado contra a justiça presente no sentimento espontâneo da população (...) Natália Correia crê em tudo o que a Igreja Católica recalcou ao longo da sua história: a Grande Deusa, ou Deusa-Mãe, pudicamente transfigurada pela Igreja Católica em Virgem Santa ou Imaculada Conceição, os atlantes, as fadas, a vidência maravilhosa, a carne que enfeitiça o Além; crê na fusão quotidiana entre tempo e eternidade, na força do Amor profano, num futuro neo-pagão que já houve antes, no politeísmo dos deuses. Dito de outro modo, Natália Correia crê na existência de uma alternativa ao actual estado da Civilização Ocidental, não fundada em projectos contemporâneos de futuro, como o marxismo ou o ecologismo radical, mas na ressurreição com novas qualidades de momentos civilizacionais e culturais arcaicos onde fora possível "harmonizar as partes dissonantes" através de um "empenho... mais fecundo". (...)
Assim, desde a década de 1960, com a publicação de Mátria, de Madona, da peça de teatro O Encoberto, e da organização da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, bam como das meditações nascidas a partir do ensaio Descobri que era Europeia, Natália Correia peregrina poética, ficcional e ensaisticamente em torno dos limites e das margens da nossa sociedade, desvinculando-se totalmente da atracção das duas alternativas ideológicas oferecidas - o capitalismo e o comunismo, como confessa tanto em Poesia de Arte e Realismo Poético como em Descobri que era Europeia, explorando correntes estéticas e temas recalcados ou marginalizados pelas estéticas dominantes, como o evidencia o apego ao surrrealismo e ao romantismo, a investigação sobre a condição da mulher e a inquirição sobre as origens da poesia portuguesa.
Como se constata, coexiste nas obras de Natália Correia, ao longo das décadas de 50 e 60, um apertado e agressivo cerco envolvente da essência racional da sociedade europeia contemporânea, um fundo desprezo pelo novo sentido civilizacional estabelecido pelos estados Unidos da América relativamente aos valores humanistas europeus, e a busca de uma alternativa civilizacional, redentoramente apresentada em Mátria e em Madona, para de modo ficcional explodir posteriormente nos contos de A Ilha de Circe, sobretudo no conto "Mãe, Mãe, porque me abandonaste?". Constituía-se assim o seu pensamento maduro, ou, se se quiser, o tema central e irradiante por que se entende tanto cada parte como a totalidade da sua obra: a crença na existência de um complexo de valores femininos civilizacionalmente recalcados e culturalmente violentados pela nossa civilização, simbolizados arcaicamente pelo culto da "Grande Deusa" ou "Deusa Mãe", expressão de um paganismo imanentista e naturalista assente na simbiose entre a sensibilidade do corpo e a espiritualidade da alma, que o judaísmo moisaico, o platonismo grego e o cristianismo romano e medieval decapitaram em nome da razão lógica e do poder do Estado, subjugando simultaneamente, de um ponto de vista social e político, a fonte física e mental desta primitiva sociedade pagã, orgiástica e naturalista - o universo da mulher. Neste sentido, tornar-se-ia necessário, hoje, para a autora, subverter o sentido global da civilização, resgatando-a do domínio do homem para a acomodar a um "futuro que houve dantes", isto é, aos valores femininos - eis o propósito filosófico de Natália Correia e eis o sentido da sua obra no seio da cultura portuguesa da segunda metade do século XX, praticamente só compreendido após a sua morte devido às peripécias políticas e ao ambiente de vadiagem nocturna por que superficialmente se tem aureolado a última vintena de anos da vida da autora (...).
Nos documentos publicados do espólio, Natália Correia registou a sua crença em "uma nova fé que o homem moderno possa aceitar", prenunciada através de alguns "sinais de retorno ao sagrado", libertado das cinzas do racionalismo expresso nos domínios avassaladores da tecnologia e da massificação das sociedades, que "des-significam a existência". Por outro lado, Natália Correia denuncia a sociedade actual como expressão da "androcracia mosaica", evidenciando um longo trilénio de pressão cultural e civilizacional sob o domínio de valores racionalistas vinculados à visão masculina do mundo. Neste sentido, Natália Correia considera o complexo social tecnocrático e científico actual expressão de uma razão lógica, contabilista e fria, resultado de um estado de decadência europeia que progressivamente tem vindo a desumanizar o homem, isto é, a desdignificar a existência humana no seu todo(...).
Para Natália Correia, o sagrado evidencia-se como uma força imanente ao homem e à natureza, força e pulsão que a ambos envolve, conduz e orienta, força celebrada sem mediações litúrgicas e sacerdotais, como se cada homem, na multiplicidade da sua existência, vivesse imediata, directa, sensível e sentimentalmente a unidade-pluralidade divina. O mesmo defende Agostinho da Silva com uma radical diferença: se em Natália Correia, o sagrado se estatui como força (ou energia) e pulsão imanente na pluralidade da natureza e na unidade humana, na teoria de Agostinho da Silva seriam abolidas, no futuro, todas as distinções ontológicas dicotómicas (belo/feio, bem/mal, justiça/injustiça, uno/múltiplo, essência/aparência, ser/devir, tudo/nada, Deus/criatura...), sendo, portanto, abolida a distinção imanente/transcendente, vivendo cada homem em estado de plenitude, extinguindo-se deste modo os antigos valores vinculados à propriedade, ao trabalho, ao casamento, ao Estado, renascendo a humanidade numa nova e feliz existência paradisíaca..
Se para Natália Corrreia este novo estado de existência humana consagrará a assunção de múltiplos estados dionisíacos, dando origem a uma certa forma de "politeísmo pentecostal", para Agostinho da Silva este novo estado reproduzirá a existência humana da "Idade de Ouro" ou do "Paraíso", consagrando a vivência do homem com, melhor, no seio do espírito de Deus, ou seja, do Espírito Santo. Tal como para Agostinho da Silva, para Natália Correia este mesmo espírito divino constitui-se como essência do homem, mas, para esta autora, de acordo com o privilégio atribuído na sua teoria à Grande Deusa, o Espírito de Deus ou Espírito Santo é de essência feminina. Neste sentido, não se deveria escrever "Espírito Santo", mas "Espírita Santa", correspondente à verdadeira - segundo Natália Correia, mas abundantemente contestada por José Augusto Mourão - tradução para português das expressões judaica e aramaica "Shekinah" e " "Ruah Kadesh". A civilização ocidental, desde logo na sua raiz judaica, teria subvertido a essência feminina do sagrado, correspondendo historicamente ao total abandono do estado de matriarcado e consequente passagem ao de patriarcado, e imposto o total domínio androcêntrico, recalcando a era histórica anterior - época de grande felicidade, na visão de Natália Correia. Neste sentido, o esgotamento desta nova sociedade antropocêntrica conduziria inevitavelmente tanto à re-emergência dos antigos valores femininos quanto à re-irrupção do sagrado no meio da sociedade. Assim o fora no passado, assim o será no futuro (...).
Tanto em Agostinho da Silva como em Natália Correia, o medelo arquetipal da cultura portuguesa reside na celebração do culto do Espírito Santo tal como fora praticado na Idade Média, desde o século XII, fortemente incrementado, mesmo generalizado e popularizado, pelo fervor religioso da rainha Santa Isabel. Para Natália Correia, porém - como salientámos -, o termo "Espírito Santo" conteria semanticamente um valor feminino, constituindo-se para o povo judaico a expressão religiosa da Deusa mediterrânica(...) o culto do Espírito Santo (...) surge, assim, para ambos os autores, como a matriz fundadora da cultura portuguesa e o espelho perfeito do conjunto de valores comunitários e igualitários que nortearam o Portugal medieval, fundando-lhe o arquétipo da sua cultura. A descentralização do poder por via da independência dos municípios face aos nobres, a igualitarização de todos com todos dentro dos concelhos, gerando as assembleias dos mais velhos e dos homens-bons, encontraria fundamento cultural na atitude religiosa do culto, não do Pai, símbolo do poder, não do filho, símbolo do amor e do sofrimento que resgata, mas do Espírito de Deus, símbolo da unidade de todos com todos, base do actual ecumenismo proclamado pela crença no advento da Terceira Idade do Mundo ou Idade do Espírito Santo. Do mesmo modo, fundado na crença do advento de uma futura idade paradisíaca, ganham sentido o espírito peninsular de cruzado e o espírito monástico, ambos totalmente submetidos, para a vida ou para a morte, à vontade de Deus, base filosófica da atitude ousada empreendedora dos Descobrimentos (...)
Em função das três afinidades conceptuais salientadas entre as teorias de Agostinho da Silva e Natália Correia, podemos sintetizá-las sublinhando que ambos os autores defendem idêntica postulação da cultura portuguesa como mediadora universal do anúncio de uma nova era mundial, assente na divinização do homem (...). Porém, Natália Correia enfatiza a vertente imanentista do sagrado e Agostinho a superação das antinomias imanente/transcendente pela assunção de uma vida humana plena, total e una.
.
Miguel Real in " O Pensamento Português Contemporâneo 1890 - 2010 ", Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2011, pp 806 - 815.
Nos documentos publicados do espólio, Natália Correia registou a sua crença em "uma nova fé que o homem moderno possa aceitar", prenunciada através de alguns "sinais de retorno ao sagrado", libertado das cinzas do racionalismo expresso nos domínios avassaladores da tecnologia e da massificação das sociedades, que "des-significam a existência". Por outro lado, Natália Correia denuncia a sociedade actual como expressão da "androcracia mosaica", evidenciando um longo trilénio de pressão cultural e civilizacional sob o domínio de valores racionalistas vinculados à visão masculina do mundo. Neste sentido, Natália Correia considera o complexo social tecnocrático e científico actual expressão de uma razão lógica, contabilista e fria, resultado de um estado de decadência europeia que progressivamente tem vindo a desumanizar o homem, isto é, a desdignificar a existência humana no seu todo(...).
Para Natália Correia, o sagrado evidencia-se como uma força imanente ao homem e à natureza, força e pulsão que a ambos envolve, conduz e orienta, força celebrada sem mediações litúrgicas e sacerdotais, como se cada homem, na multiplicidade da sua existência, vivesse imediata, directa, sensível e sentimentalmente a unidade-pluralidade divina. O mesmo defende Agostinho da Silva com uma radical diferença: se em Natália Correia, o sagrado se estatui como força (ou energia) e pulsão imanente na pluralidade da natureza e na unidade humana, na teoria de Agostinho da Silva seriam abolidas, no futuro, todas as distinções ontológicas dicotómicas (belo/feio, bem/mal, justiça/injustiça, uno/múltiplo, essência/aparência, ser/devir, tudo/nada, Deus/criatura...), sendo, portanto, abolida a distinção imanente/transcendente, vivendo cada homem em estado de plenitude, extinguindo-se deste modo os antigos valores vinculados à propriedade, ao trabalho, ao casamento, ao Estado, renascendo a humanidade numa nova e feliz existência paradisíaca..
Se para Natália Corrreia este novo estado de existência humana consagrará a assunção de múltiplos estados dionisíacos, dando origem a uma certa forma de "politeísmo pentecostal", para Agostinho da Silva este novo estado reproduzirá a existência humana da "Idade de Ouro" ou do "Paraíso", consagrando a vivência do homem com, melhor, no seio do espírito de Deus, ou seja, do Espírito Santo. Tal como para Agostinho da Silva, para Natália Correia este mesmo espírito divino constitui-se como essência do homem, mas, para esta autora, de acordo com o privilégio atribuído na sua teoria à Grande Deusa, o Espírito de Deus ou Espírito Santo é de essência feminina. Neste sentido, não se deveria escrever "Espírito Santo", mas "Espírita Santa", correspondente à verdadeira - segundo Natália Correia, mas abundantemente contestada por José Augusto Mourão - tradução para português das expressões judaica e aramaica "Shekinah" e " "Ruah Kadesh". A civilização ocidental, desde logo na sua raiz judaica, teria subvertido a essência feminina do sagrado, correspondendo historicamente ao total abandono do estado de matriarcado e consequente passagem ao de patriarcado, e imposto o total domínio androcêntrico, recalcando a era histórica anterior - época de grande felicidade, na visão de Natália Correia. Neste sentido, o esgotamento desta nova sociedade antropocêntrica conduziria inevitavelmente tanto à re-emergência dos antigos valores femininos quanto à re-irrupção do sagrado no meio da sociedade. Assim o fora no passado, assim o será no futuro (...).
Tanto em Agostinho da Silva como em Natália Correia, o medelo arquetipal da cultura portuguesa reside na celebração do culto do Espírito Santo tal como fora praticado na Idade Média, desde o século XII, fortemente incrementado, mesmo generalizado e popularizado, pelo fervor religioso da rainha Santa Isabel. Para Natália Correia, porém - como salientámos -, o termo "Espírito Santo" conteria semanticamente um valor feminino, constituindo-se para o povo judaico a expressão religiosa da Deusa mediterrânica(...) o culto do Espírito Santo (...) surge, assim, para ambos os autores, como a matriz fundadora da cultura portuguesa e o espelho perfeito do conjunto de valores comunitários e igualitários que nortearam o Portugal medieval, fundando-lhe o arquétipo da sua cultura. A descentralização do poder por via da independência dos municípios face aos nobres, a igualitarização de todos com todos dentro dos concelhos, gerando as assembleias dos mais velhos e dos homens-bons, encontraria fundamento cultural na atitude religiosa do culto, não do Pai, símbolo do poder, não do filho, símbolo do amor e do sofrimento que resgata, mas do Espírito de Deus, símbolo da unidade de todos com todos, base do actual ecumenismo proclamado pela crença no advento da Terceira Idade do Mundo ou Idade do Espírito Santo. Do mesmo modo, fundado na crença do advento de uma futura idade paradisíaca, ganham sentido o espírito peninsular de cruzado e o espírito monástico, ambos totalmente submetidos, para a vida ou para a morte, à vontade de Deus, base filosófica da atitude ousada empreendedora dos Descobrimentos (...)
Em função das três afinidades conceptuais salientadas entre as teorias de Agostinho da Silva e Natália Correia, podemos sintetizá-las sublinhando que ambos os autores defendem idêntica postulação da cultura portuguesa como mediadora universal do anúncio de uma nova era mundial, assente na divinização do homem (...). Porém, Natália Correia enfatiza a vertente imanentista do sagrado e Agostinho a superação das antinomias imanente/transcendente pela assunção de uma vida humana plena, total e una.
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Miguel Real in " O Pensamento Português Contemporâneo 1890 - 2010 ", Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2011, pp 806 - 815.
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07/02/12
BREVEMENTE NAS LIVRARIAS!
.
A JOVEM EDITORA "HARIEMUJ " FARÁ, EM BREVE, CHEGAR ÀS LIVRARIAS
.
A ANTOLOGIA DE POESIA: "MEDITAÇÕES SOBRE O FIM - OS ÚLTIMOS POEMAS ", OBRA
.
ORGANIZADA POR MARIA QUINTANS E VÍTOR MARQUES DA CRUZ.
.
ALGUNS DOS AUTORES QUE INTEGRAM ESTA ANTOLOGIA:
.
ANA PAULA INÁCIO, ANTÓNIO GREGÓRIO, ALICE MACEDO CAMPOS, RUI ALMEIDA,
.
SYLVIA BEIRUTE, HUGO MILHANAS MACHADO, JOAQUIM CARDOSO DIAS,
.
INÊS FONSECA SANTOS, BRUNO BÉU, LEILA ANDRADE, INÊS RAMOS, CASIMIRO DE
.
BRITO, JOÃO BARRENTO, FILIPA LEAL, RAQUEL NOBRE GUERRA, ANA HATHERLY,
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CATARINA NUNES DE ALMEIDA, TIAGO NENÉ, BÉNÉDICT HOUART, PEDRO S. MARTINS,
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RODRIGO MIRAGAIA, CLÁUDIA LUCAS CHÉU, VICTOR OLIVEIRA MATEUS...
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03/02/12
"(...) De mis dias de errancia y de conocimiento,/ un solo día he salvado: el que me salvaba... "
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" VII "
He navegado como Ulises por el noble mar que separa,
con una titánica sonrisa de obediencia al azul,
la isla del último adiós, donde cayó mi mediodía
y el poniente necesario, dulce, de una gloria sangrante.
Sobre la rosa de los astros, siete vientos, atónitos, dejaban
que tan sólo uno se alegrara: el designado para el retorno.
Si el magnánimo héroe durmió en la segura popa
más profundamente que por el vino o la muerte,
es contado tal y como los ojos de los reales marineros lo vieron:
el esfuerzo interior, él lo supo con los dioses,
por lo que yo sé de mí. Oh desnuda,
abandonada la fe a mi favor unió
los dos mundos que me querían de un lado a otro de la sombra!
No atraída por el fin: sino virginal a un impulso
que me atravesaba desde más allá de mi innombrable aventura
y de mis proprias raíces; como dentro del vientre que vive
y el ser que se acaba es todo él florecimiento con las puras
fuerzas primeras, y no es suyo el destino
que lo impregna y lo empuja, como una ascensión de antiguas
aguas, hasta que ha nacido, ha llorado y visto;
y es entonces que tan sólo le convienen nuestras
palabras despierto y dormido. Entre nosotros los humanos,
dioses! las palabras solamente son para entendernos y no para entenderlas:
son el comienzo, tan sólo una señal del destino.
Camino del misterio parecen precedernos y nos dejan
oscurecidos frente a un brocado, tristes ante un eco que huye.
Tan sólo la secreta llave: un recuerdo que viene de vosotros,
dioses! y que no nos alcanza hasta que ya hemos llegado;
esta comparación tal vez, que nos caía súbitamente como una
brillante piedra en las manos, dura en su fría virtud,
y que protegíamos con otras banalidades, hasta que estamos en la viva
arena del fin del mar - repatriados o llegados?
Cómo lo diria, hermanos, si no sé si hablo con vosotros?
Ni si tan sólo podría hablaros? Estoy esperando un dios.
Entre el silencio y el breve suspiro de una ola tranquila
- una señal en el tiempo, para mí solo en el tiempo
anterior a la noche - me traerá de golpe a la orilla,
juvenil y simple, conocedor sin brillo
por la mano, conocida e invisible sobre mi espalda:
mi dios parcial, que me ha elegido por orgullo
hasta la injusticia - digo yo. Para los demás me dará
el aire de un mendigo que espera en los portales.
Tan sólo él y yo sabremos qué guardar del tesoro que yo traía:
no los diamantes del grito, lo apresado y el fuego
(tú los tienes, negra espuma). De mis días de errancia y de conocimiento,
un solo día he salvado: el que me salvaba; y dentro de él,
como las figuras por gracia escogidas que llenan un sueño,
el diferente amor de los que por mí, a mi paso,
por todo lo que me daban han llegado a ser
más aquello que eran; y todo lo que en el estrecho he comprendido.
Oh tesoro, tan real que podría contarlo y elegirlo!
Mientras, sin embargo, no seré rey de mi última paz,
me la guardarán las gentiles Ninfas que tejían con lenta
trama de púrpura y cristal las obstinadas urdimbres
de las corrientes invisibles, dentro del sombrío obrador subterráneo
donde la abeja del páramo va, escurridiza, a fabricar la colmena.
Ítaca, pequeño reino, conozco la profunda cueva!
Olivar arriba, fuera del camino, en la rocalla;
cerrada y sutil como la hora de un pensamiento solitario, para entrar
son necesarios una frente humilde bajo el umbral y un salto.
Carles Riba in " Elegías de Bierville " (Edición bilingue), Libros del Aire, Madrid,
2011, pp 49 - 51 ( Tradução do catalão e prefácio de Marta López Vilar ).
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02/02/12
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" Ceifador de Sobreiros "
rapazes sentados em cima
de muros
uma perna para cada lado
as mãos unidas ao musgo
dos muros
o olhar perturbado
crescido no ar
mentem
falam de mulheres de lábios carnudos
seios selvagens pontiagudos
as mãos dos rapazes
unidas ao muro
aquecem o musgo
as pernas baloiçam
os joelhos tocam-se
raspando dos muros
o musgo mais quente
num instante pálido
encontram-se os olhos
e são rios o desejo das bocas
e é um oceano o peito a respirar
marés revoltas...
um é do mar pescador, sabe de redes
outro dos soutos ceifa a cortiça
alarga-se a madrugada
a aurora
leva os corpos do muro para o chão
os rapazes no húmus mordem o musgo
um de coração para baixo
outro de coração para cima
Não sei como viver sem muito amor.
- diz o rapaz navegador
em cada onda voa o gemido do ceifador de sobreiros
sobem de novo o muro
os rapazes
uma perna para cada lado
fumam o musgo enrolado nos lábios
o sabor da maré na boca
do ceifador de sobreiros
chama-se
água devorada
Henrique Levy, 24/09/2011 ( Inédito )
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01/02/12
VI FEIRA DO LIVRO DE POESIA ( CIDADE DA PRAIA )
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VI FEIRA DO LIVRO DE POESIA
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DIA 4 DE FEVEREIRO (SÁBADO), DAS 10H00 ÀS 18H00, NO PÁTIO DO "CAFÉ PALKUS DO PALÁCIO DA CULTURA ILDO LOBO", PLATEAU - CIDADE DA PRAIA, CABO VERDE.
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ESTARÃO À VENDA LIVROS DE:
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ABRAÃO VICENTE, AMÉRICO TEIXEIRA MOREIRA, CASIMIRO DE BRITO, FERNANDO CABRITA, FERNANDO SAIOTE, GABRIELA ROCHA MARTINS, GRAÇA MAGALHÃES, GRAÇA PIRES, JOÃO SILVEIRA, JOÃO TOMAZ PARREIRA, JORGE BICHO, LÍDIA BORGES, MARIA AZENHA, MIKE SILVES, PAULO AFONSO RAMOS, PAULO EDUARDO CAMPOS, PEDRO S. MARTINS, PEDRO TIAGO, RAYMOND FARINA, TATIANA FAIA, TINUDU E VICTOR OLIVEIRA MATEUS.
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Ils ont été por moi et pour mes petits camarades de puissantes machines affectives et imaginatives, non pas arbres seulement, troncs et branches, mais aussi chevaux pour sauter l'obstacle, bateaux pour franchir le flot, avions à leur plus haut pour contempler, si l'on pouvait grimper jusque-là, ce qui se passait dans la rue traversée de gens affairés, d'autos colorées, de fillettes brunes comme du chocolat ou bien, à la façon des brioches du goûter, croustillantes et sucrées, dorées, adorées. D'être enracinés pour l'éternité dans leur sol autorisait ces arbres à s'en aller le plus loin possible, et nous avec eux. Cela, je m'en souviens, se passait il y a longtemps à Beyrouth, - à Beyrouth où j'ai été enfant. Et c'est cet enfant-là, inguérissable, qui pleure aujourd'hui, en France, dans un petit village des Yvelines, devant d'autres arbres qu'il aime et qui l'aiment, les derniers de sa vie.
Mais laissons là ces choses qui ne tiennent plus à rien qu'à simplement ce fil rouge de la mémoire, ce lacet qui étrangle. Respirons. Car s'il est musique et violon - et piano aussi, et clavecin, et le reste -, l'arbre est pour l'essentiel respiration. (...) Tant d'oiseaux dans les arbres, l'été ou l'automne, et qui chantent! (...) Pour chanter, il convient d'abord d'être enchanté: ce qu'ils sont. Et l'arbre tout content, et tout ému, se couvre, se recouvre de plus de feuilles encore, et se met, politesse contre politesse, au langage des fleurs. Certains appellent ça le printemps: en fait, c'est un prêté pour un rendu. Respirons.
Salah Stétié in " Dans le miroir des arbres ", Fata Morgana, s/c., 2011, pp 23 - 24.
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31/01/12
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L'homme et l'arbre sont unis dans l'imagination de l'homme, peut-être même le sont-ils dans quelque imaginaire de l'arbre. Ne parle-t-on pas du corps de l'arbre, de son tronc, de son pied? Et, de l'homme, ne parle-t-on pas de sa fourche pour définir le lieu de sa division, ne parle-t-on pas de ses racines pour circonscrire l'endroit de son implantation essentielle et vitale, - justement: son implantation? Il y a plus: il y a que le contact de l'homme avec le sol, avec la terre, se fait par la plante de ses pieds. Il y a que l'arbre et l'homme tous deux respirent et je les entends même tous deux qui chantent: l'homme chante, l'arbre chante, et parfois de concert. En outre, de par la sève et le sang, ils partagent une même lettre initiale, symbole peut-être du serpent susurreur qui s'est mélangé une seule fois, mais plus que suffisamment, à l'histoire d'une origine partagée sise au point de l'éternité et du temps, à une époque qui leur fut à tous les deux semi-réveil après le grand sommeil fondateur. Et puis, si l'homme marche et s'il voyage, le plus souvent accompagné du fracas des machines, l'arbre aussi voyage à sa façon, - discrète. Les arbres qui ne voyagent que par leur bruit, dit, joliment, Georges Schehadé.
Tout cela fait de l'arbre - au même titre que l'animal - notre voisin, notre cousin.
Salah Stétié in " Dans le miroir des arbres ", Fata Morgana, s/c., 2011, pp 11 - 12.
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30/01/12
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" smile "
dia de inverno baixa temperatura
treme tudo até aquela dentadura
que o mendigo banguela encontrou na rua
" que eme! "
no lixão um mesquinho minidicionário
mostra ao mendigo que a miséria
infelizmente vem antes da misericórdia
" pergunte ao pó "
cinzas: cemitério cheio de gente
o mendigo se pergunta: há vida antes
e depois da morte? e durante?
Paulo de Toledo in " 51 Mendicantos ", editora éblis, Porto Alegre, 2007, p 21.
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" todos levam a roma "
a placa de pizza delivery
deu água na boca do mendigo
mas não pelo que tinha de inglês, è vero!
" ah! "
prova de história do brasil rasgada
escrito em azul um grande e belo A
o mendigo caga e proclama: aprovada
" single "
sem mulher nem filhos nem cachorro
pensa quase feliz o mendigo
menos gente pra pedir socorro
Paulo de Toledo in " 51 Mendicantos ", editora éblis, Porto Alegre, 2007, p 18.
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" todos levam a roma "
a placa de pizza delivery
deu água na boca do mendigo
mas não pelo que tinha de inglês, è vero!
" ah! "
prova de história do brasil rasgada
escrito em azul um grande e belo A
o mendigo caga e proclama: aprovada
" single "
sem mulher nem filhos nem cachorro
pensa quase feliz o mendigo
menos gente pra pedir socorro
Paulo de Toledo in " 51 Mendicantos ", editora éblis, Porto Alegre, 2007, p 18.
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29/01/12
" - Vem, cabrito, que eu ardo à tua espera! "
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Ai, como trepas, cabritinho esperto:
De uma pedra já saltas noutra pedra,
E pouco a pouco assim chegas mais perto
Do cume e d'erva que no cume medra!
- Já chego, estou chegando, espere um pouco!
De cargo em cargo vede: sei galgar
( Ai, que poder! Estou ficando louco!),
Montar depressa até no cume dar!
- Vem, cabrito, que eu ardo à tua espera!
E, ao chegares aqui, ergue o rabito:
Mais alto fiques tu no cume farto!
- Mas, meu amor... eu quero a estratosfera!
Trepar mais alto! É só no que cogito!
Chegando a aurora, já do cume parto!
Paulo Franchetti in " Mal D' Orror ", Sereia Ca(n)tadora, Santos, 2011, p 3.
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28/01/12
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" Lasciami sanguinare "
Lasciami sanguinare sulla strada
sulla polvere sull' antipolvere sull'erba,
il cuore palpitando nel suo ritmo feriale
maschere verdi sulle case i rami
di castagno, i freschi rami, due uccelli
il maschio e la femmina volati via,
la pupilla duole se tenta
di seguirne la fuga l'amore
per le solitudini aria acqua del Bràtica,
non soccorrermi quando nel muovere
il braccio riapro la ferita il liquido
liquoroso m'inorridisce la vista,
attendi paziente oltre la curva via
l'alzarsi del vento nel mezzogiorno, fingi
soltanto allora d'avermi udito chiamare,
entre nella mia visuale da un gorno
quieto di settembre, la tavola apparecchiata
i figli stanchi d'attendere, i figli
giovani col colore della gioventù
esaltato da una luce che quei rami inverdiscono.
Attilio Bertolucci in " Poeti Italiani del Secondo Novecento ", A cura di Maurizio Cucchi e Stefano Giovanardi, volume primo, Oscar Mondadori, Milano, 2004, pp 17 - 18.
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