20/03/12

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Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
e, se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
porque estes tão ligeiros que passais,
nem todos para um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
que quase é outra cousa; porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.

  Camões, Luís de. Lírica Completa, Vol. II. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1980, p 194.

Notas de Maria de Lurdes Saraiva:
Saudades antigas, eternas, luzem sob a cinza do tempo inexorável e acenam com ilusórias esperanças. Mas o passado passou. E, ainda que o tempo pudesse tornar atrás, os anos vividos não se podem esquecer. Aquilo que o Poeta amou mudou tanto que é agora outra coisa. O tempo amargurou o gosto da juventude. A Fortuna hostil, o Tempo errado não permitem já esperanças de novas alegrias.
Publicado pela 1ª vez em 1598.
V. 3-4 - Cf. redondilhas "Sobre os rios que vão", 86-95: "Acha a tenra mocidade/ prazeres acomodados,/ e logo a maior idade/ já sente por pouquidade/ aqueles gostos passados./ Um gosto que hoje se alcança/ amanhã já o não vejo./ Assi nos traz a mudança/ de esperança em esperança,/ e de desejo em desejo".
V. 5 - anos, - no sentido de passado.
V. 6 - ligeiros - rápidos.
V. 7 - O sentido é talvez: os anos que entretanto passaram foram diferentes ( para cada um dos amantes).
V. 10 - dias - tempo.
V. 11 - primeiro gosto - primeiro amor.
V. 14 - espias - amarras, seguranças, apoios.
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18/03/12

" Que vês em mim, Senhor? que vês em quem/ Em tuas mãos se mete tão segura? "

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 ( Cena que antecede a execução de Inês de Castro, acusada de conspirar contra a segurança do reino.)

CASTRO

Meu senhor,
Esta é a mãe de teus netos. Estes são
Filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Para eu segura, e livre t' esperar,
Em ti, e em minh' inocência confiada.
Escusaras, Senhor, todo este estrondo
D' armas, e Cavaleiros; que não foge,
Nem se teme a inocência da justiça.
E quando meus pecados me acusaram,
A ti fora buscar: a ti tomara
Por vida em minha morte: agora vejo
Que tu me vens buscar. Beijo estas mãos
Reais tão piedosas: pois quiseste
Por ti vir-te informar de minhas culpas.
Conhece-mas, Senhor, como bom rei,
Como clemente, e justo, e como pai
De teus vassalos todos, a quem nunca
Negaste piedade com justiça.
Que vês em mim, Senhor? que vês em quem
Em tuas mãos se mete tão segura?
Que fúria, que ira esta é, com que me buscas?
Mais contra imigos vens, que cruelmente
T' andassem tuas terras destruindo
A ferro, e fogo. Eu tremo, Senhor, tremo
De me ver ante ti, como me vejo.
Mulher, moça, inocente, serva tua,
Tão só, sem por mim ter quem me defenda.
Que a língua não s' atreve, o esprito treme
Ante tua presença, porém possam
Estes moços, teus netos, defender-me.
Eles falem por mim, eles sós ouve:
Mas não te falarão, Senhor, com língua,
Que inda não podem: falam-te co as almas,
Com suas idades tenras, com seu sangue,
Que é teu, te falarão: seu desamparo
T' está pedindo vida; não lha negues.
Teus netos são, que nunca téqui viste:
E vê-los em tal tempo, que lhes tolhes
A glória, e o prazer, qu' em seus espritos
Lhe está deus revelando de te verem.

REI

Tristes foram teus fados, Dona Inês,
Triste ventura a tua.

CASTRO

Antes ditosa,
Senhor, pois que me vejo ante teus olhos
Em tempo tão estreito: põe-nos ora,
Como nos outros sóis, nesta coitada.
Enche-os de piedade com justiça.
Vens-me, Senhor, matar? porque me matas?

REI

Teus pecados te matam: cuida deles.

CASTRO

Pecados meus! ao menos contra ti
Nenhum, meu Rei, me acusa. Contra Deus
Me podem acusar muitos: mas ele ouve
As vozes d' alma triste, em que lhe pede
Piedade. O Deus justo, Deus benigno,
Que não mata, podendo com justiça,
Mas dá tempo de vida, e  espera tempo
Só para perdoar: assi o fazes,
Assi o fizeste sempre: pois não mudes
Agora contra mim teu bom costume.

     Ferreira, António. Castro e Poemas Lusitanos. Lisboa: Verbo Clássicos, 2006, pp 298 - 301.
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16/03/12

" Não lhe apagou o amor a nova esposa; "

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 " Excerto de um diálogo entre Inês de Castro e sua ama "

CASTRO

(...)
Não lhe apagou o amor a nova esposa;
Não o tão festejado nascimento
Do desejado parto: antes mais vivo
Co tempo, e co desejo ardia o fogo.
Que fará? se o encobre, então mais queima.
Descobri-lo não quer, nem lhe é honesto.
Mas quem o fogo guardará no seio?
Quem esconderá amor, que em seus sinais
A pesar da vontade se descobre?
Nos olhos, e no rosto chamejava.
Nos meus olhos os seus o descobriam.
Suspira, e geme, e chora, a alma cativa
Forçada da brandura, e doce força,
Sujeita ao cruel jugo, que pesado
A seu desejo sacudir deseja.
Não pode, não convém: a fúria cresce.
Lavra a doce peçonha nas entranhas.
Os homens foge, foge a luz, e o dia.
Só passeia, só fala, triste cuida.
Castro na boca, Castro n' alma, Castro
Em toda parte tem ante si presente.
Ele à mulher cuidado, eu ódio, e ira.
Arde o peito a Costança em furor novo.
Nem me ousam descobrir, nem vedar nada.
D' antiga Casa Castro em toda Espanha,
Já dantes do Real ceptro deste Reino
Por grande conhecida, inda meu sangue
Do real sangue seu tinha grã parte.
Mas inda à natureza dobram força,
Arte ajuntando, e manha: el-Rei ao neto
Por madrinha me dá, comadre ao filho.

AMA

Cegos, que quanto mais vedam, mais chamam.
Cresce co a força Amor: e o que à vontade
Se faz mais impossível, mais deseja.

CASTRO

Em fim, fortuna, que me já chamava
Esta glória tão grande, quebra o nó
Daquele jugo a meu amor contrário.
Leva ante tempo a morte a Infanta triste.
Herdo eu mais livremente o amor constante,
Que a mim se entregou todo, e todo vive
Na minh' alma, onde está seguro, e firme,
Já com doces penhores confirmado.
(...)

   Ferreira, António. Castro e Poemas Lusitanos. Lisboa: Verbo Clássicos, 2006, pp 231 - 233.
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15/03/12

Acerca de...(XI)

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O que mais me impressionou nessa poesia é a tensão constante entre o discurso e a forma do verso. Se é que de verso se trata. Temos de fazer algum esforço, colocar a linha entre parêntesis, para ouvir mais próxima a cadência dos outros versos, que se escondem dentro e ao redor dos definidos pela tipografia. Ao mesmo tempo, os cortes trazem um princípio de medida. Muito além, entretanto, do limite das doze sílabas: bárbaros, como se dizia. Em alguns poemas, a persistência do número de sílabas (em extensões médias de catorze, por exemplo) cria como um discurso duplo. Há uma frase que se ergue pela força do sopro lírico - a direção entusiasta da frase, para aproveitar remotamente uma formulação de Mallarmé - e que se vaza num molde abstrato, que a rompe, sem a impedir de se afirmar no seu ritmo próprio. Lembrando versículos entranhados num corpo estranho, o fraseado impõe aos poucos os princípios da sua regularidade, de que resultam interessantes harmónicos de sentidos. Por qualquer ângulo que se olhe, o que este livro faz é expor uma percepção aguda de cambiantes e contrastes. Uma desproporção anima o embate dos opostos: interior e exterior, carência e posse, olhar para o outro e olhar do outro, sensação de partida e anseio pelo regresso. O discurso constitui os temas. A forma do verso os cristaliza, por meio do corte violento e aparentemente arbitrário, dos blocos regulares de linhas que se sucedem além dos requisitos ou emblemas da sintaxe, nos quais de repente brilha uma frase repetida, modulada agora pela nova posição em que se encontra. O motivo do retorno dá o título e tom dos poemas. O poeta retorna pela memória, pela celebração do momento efémero. Retorna a si mesmo, à história de si que repete à beira do momento do abismo. Mas as suas palavras recusam o retorno fundamental. Apenas como desenho abstrato e como injunção de leitura se define esse verso. A voz coletiva do pulsar antigo aparece como escolho, ponto de referência, tentação. Por isso talvez não sinta que há de fato um tu nesses versos. Ainda quando surja, é uma duplicação da voz, um espelho, um caminho ou uma fuga de si mesmo. Uma busca, afinal. Mas essa, apesar da intenção, nunca redunda em retorno, nem se resolve em reencontro, mas apenas em viagem cujo fim só poderá ser também o fim do viajante. O que senti quando li este livro é que, para um desígnio tal e uma tal concepção do tempo e dos limites da própria percepção, a vida é mesmo um milagre, o verso também e, maior que todos, seria o regresso, se pudesse acontecer.

    Paulo Franchetti in Mateus, Victor Oliveira. Regresso. Fafe: Editora Labirinto, 2010, pp 43 - 44.
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Acerca de...(X)

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Difícil a tarefa de apresentar Regresso, de Victor Oliveira Mateus, que o leitor tem ora em mãos. E difícil por dois motivos, em especial: primeiro, porque o seu autor, poeta que é, é sempre e em tudo avesso a definições; depois, porque, levando ao paroxismo certa tendência da poesia portuguesa, o livro é todo ele uma aposta, incondicional e sem reservas, na atualidade dessa tendência, a qual, esta sim, pode definir-se como "um não sei quê, que nasce não sei onde,/ vem não sei como, e dói não sei por quê", segundo o insuperável dístico de Camões.
Trata-se, pois, aqui, de amor e memória: e entre eles a poesia, a fazer de ponte, a mediar entre o que foi e o que está sendo. É um dos "grandes temas" de sempre, caro leitor, a que assim chamamos, de resto, não por outro motivo, senão apenas porque não passam. Como Ulisses, Ítaca e o tema do regresso.
O regresso de Victor, porém, tem mais de Santo Agostinho que de Homero: é antes um retorno a si mesmo, in te ipsum redi. E a poesia, para ele, é exatamente esse caminho de volta, de um presente precário a um passado diáfano, cujo resultado, ou efeito, no fim de contas, não é nem remissão, nem negação de si: mas a algo mais modesta, e sempre mais difícil, aceitação da precariedade de vida, e, nela, da diafaneidade do sujeito: "átomo de mim na mais aérea vastidão", diz o poema-título.
"E quem pode, com um dedo, apontar um aroma?", pergunta Rainer Maria Rilke, um dos poetas-filósofos por excelência, num dos mais belos versos dos Sonetos a Orfeu. É precisamente esse, não outro, o impasse que nutre, ou mais do que isso, que organiza, de um ponto de vista formal, Regresso, do poeta-filósofo Victor Oliveira Mateus. E já então o leitor informado poderá seguir a sutileza desse aroma, ora pelas ruas, ora no parque, ora num café de Turim. Não daquela, porém, senão de outra: uma cidade aérea e musical, onde as nossas certezas se desmancham, e onde as paixões, quando pulsam, estão "viradas para dentro".

   Érico Nogueira in Mateus, Victor Oliveira. Regresso. Fafe: Editora Labirinto, 2010, pp 9 - 10.
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14/03/12

Acerca de...(IX)

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A forte aptidão metafórica da poesia de Victor Oliveira Mateus, pelo inesperado de certas associações lexicais e pelo fulgor de imagens extremamente certeiras e originais, consubstancia-se numa fala subtil que se move em torno do movimento em direcção ao Outro e da noção de Ausência; nela joga-se a inquietação do sujeito num mundo polarizado entre o Absurdo e a Graça, o Efémero e a Luz.
Esta voz feita de palavras ancoradas num ritmo discursivo não nomeia, antes, faz escutar o rumor quase inaudível das pequenas coisas (muitas vezes até no Silêncio e pelo Silêncio no interior dos versos); sobretudo nos primeiros poemas da sequência de "A Noite e a Voz", o "tu" surge frequentemente como contraponto ao real, por vezes como uma espécie de oásis no Absurdo, representado por uma imagética sensorial de cores, luz, sons e odores - em que são recorrentes o "brilho", a "luz", a "estrela", a "cintilação", o "cristal", o ´"murmúrio", a "música", a "voz", o "cheiro". Presença evocada, por vezes partilhada (1.,2), presença metonímica e constante - o "olhar", os "olhos", a "boca" (4.,6.,11.) - associada ao "rigor dos afectos", ao "cataclismo dos desejos" (12.), mas inevitavelmente sob o signo da ausência, quer pelo movimento de chegada/ partida ou desencontro - sinal do efémero e paradoxal dos sentimentos (1.,2.,5.,7., 18.,20.,27.), de "assalto" (3.,4.) quer pela antecipação da mesma, pelo saber que "nada fica para sempre" (4., 11.). Mesmo quando há comunhão, partilha, esta é sempre marcada pela antecipação da disforia pelo "eu", suspenso "entre o eterno e o sabor inadiável da morte" (7.,8.,11.,21).
Ausência é ainda morte e Absurdo: morre-se "de ausência" (19.) e ausência dos "amigos mortos", o luto da perda primordial, arrasta consigo o Absurdo e o despojamento (24.,26).
Este movimento em direcção ao outro, embora simultâneo do sofrer do Absurdo e do Efémero, é também muitas vezes, uma busca do Sentido, de "outra coisa" (2.,6.) e a evocação dele, uma "subtil fresta/ aberta numa montanha de alcatrão e corvos secos" (3) ou um lampejo da Graça (6.). Assim, afectos/ fantasia/ interioridade opõem-se à "vastidão fria do labirinto" (10.) e à "voraz negritude da cidade" (5.), à exterioridade, sempre sinalizada negativamente: "efémero/ gotejando filamentos de absurdo" (2), "céu de bruma e desespero" (6.).
Mas as formas de aceder ao Outro são também solidárias, há no poema a integração da consciência crítica, a combinação de uma dimensão ética e poética na abordagem do quotidiano (15.,23.,24.,28.).
Consiste muitas vezes no silêncio o mais perfeito abrigo para a alma, sobretudo quando o Absurdo atinge com a força de uma realidade opaca e cega, mas a poesia pode não limitar-se ao dizer - e por isso, cenários como a guerra, o "bombardeamento sobre a Sérvia/ que deixou todos aqueles mortos na estrada" e a doença, o insidioso cancro mudo do "adolescente do gorro de lã" e dos "três velhos da sueca" sublinham, expõem cruamente esse binómio ausência/ absurdo, chaves para a leitura da rede de sinais do horizonte poético de Victor Oliveira Mateus, igualmente presentes nestes textos em que o Outro assume tais contornos colectivos e sociais: o absurdo na ausência de sentido da guerra (15) e da doença (16.,17.).
Não obstante, Absurdo e Graça coexistem na deslumbrante leveza dos sinais que a beleza do mundo nos oferece e que esta poesia assinala, como se aquilo que verdadeiramente é nunca possa ficar preso nas teias do primeiro: a inocência da joaninha (25.) e do esquilo, "pequena roda de maravilha na maquinaria desdentada do mundo" (28.), a ilha onde "apesar de tudo" há "uma lucerna/ pequenina, um pássaro nunca visto no halo fresco da madrugada" (23.), "a alegria das coisas simples" (29). Aliás, abandonada a incessante busca do Outro, superados a Ausência e o Absurdo, chega-se ao despojamento, à iluminção do Grande Despertar, já entrevisto nos poemas sobre a morte.
Perpassa por toda esta escrita uma espécie de sabedoria que integra ainda na sua voz os elementos da natureza: "água", "fogo", "sol", "lua", "rio", "planta", "ave", e sabe transmitir a vibração de cada um dos seus mais ínfimos átomos às palavras dos versos: passado o caminho dos "longos ribeiros quase secos", das "velhas estradas de pedra", no final de um percurso no qual o Outro, as paixões, o Absurdo e o Efémero marcaram as vivências do sujeito, faz-se a superação - "Passado está, enfim, todo o caminho: ponte, provação necessária" (31.) e opera-se a passagem para a Iluminação, para o Grande Despertar - a sós e ao som da música.
E assim, na "continuação da Noite,/ interminável " (30.) se chega à síntese, pela superação dialéctica - a Poesia é a Voz e a Voz a Poesia, lugar da serenidade, da aceitação e do apaziguamento possíveis no mundo da ausência.

   Ana Paula Dias in Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, pp 5 - 7.
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13/03/12

(Um) Prefácio.

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 " Tempo e Transcendência na poesia de Tiago Nené "

O novo livro de Tiago Nené, logo no primeiro poema, e em jeito de nos transmitir o verdadeiro método de interpretar, firma o que irá ser o princípio estruturante de toda a obra: por um lado, os obstáculos do real na sua dualidade de acidentes na superfície da terra e de coisa a realçar: o relevo ( a vontade do editor ) - mas atente-se, contudo, que este relevo, apesar de algumas vezes aparecer como estático e imutável, é ele que desempenha sempre a função de móbil da acção -; por outro lado, o modo de apreensão desse mesmo real, que não é a razão nem nenhum dos sentidos exteriores, mas sim o coração (... foram os únicos/ que leram o poema que escrevi;) e, finalmente, o tempo, que nos surgirá numa multiplicidade de formas. Esta a tríade que atravessará todo o texto. Aliás, neste primeiro poema constata-se que o plano da coincidência com o real, da apreensão do em-si da coisa, não se faz pela eliminação do sujeito, mas tão-só que este feche os olhos e, suspendendo o tempo, conceba um azul ( o do céu ) emanação de um outro primordial ( a folha azul ), que o criador não pode dar a ver.
Esta errância do eu-poético no tempo, muitas vezes geradora de nostalgia e angústia, conduz-nos à necessidade de entender os vários territórios da temporalidade em que ocorre o périplo poético, e Tiago Nené é minucioso e exaustivo quanto a esse aspecto: o tempo cronológico ( in Jardins Hamarikyu ), o tempo pensado ( in Mulher inexorável ), o tempo meteorológico ( in Azul, segunda estrofe ), o tempo vivenciado ( in De certo Modo ), o tempo actualidade sociocultural ( in Europa ) etc. Mas o poeta não se fica por uma mera enumeração, toda a obra é trespassada pelo digladiar das três determinações essenciais da temporalidade: o passado - " ficamos a respirar o ar um do outro, o ar de um passado/ que nos construiu..." ( in Mapa-Múndi ); o presente - " é que para essas pessoas, estas que agora sobem semi-ausentes/ de si mesmas para um eléctrico " ( in Estação de Outono ); o futuro - " e quando regressares do presente interrompido/ não saberás se és magnólia ou violeta;" ( in Evaporação ). Mas Tiago Nené não se limita ao manipular dos fios de uma já tão conseguida urdidura, vai mais longe: concomitante com este ser no tempo é todo um conjunto de memórias, de observações e de inquietações que vão sendo desfiadas e que desembocam no desencanto do eu-poético, numa sensação de falha impreenchível com constantes alusões à perda e à morte. Se não se vislumbram quaisquer influências de autores como Antero, Florbela ou Nobre, o que é um facto é que se percebe estarmos aqui frente a uma escrita de uma extrema melancolia.

nunca quis ser só distância
sempre houve cavalos
seguindo a minha inutilidade prosperante,
palavras comprometidas com toda a imitação
de sentimento e bicho.
sempre me esvaziei da responsabilidade
de semear o meu tempo,
cresci ajoelhado, em constante
importância assintomática.
depois soube que o tempo castiga
um silêncio em silêncio
e então comecei a guardar as palavras.

   ( in O Guardador de Palavras )

o tempo é o eco da primeira palavra
esquiando sobre o gelo fino;
eternamente repito a ignorância
permanecente nos seus cabelos longos
e eléctricos;
estou de novo no começo da falha
apesar de o tempo ter os pés em chamas
e correr como sangue não reconhecido
...

   ( in Subgluttiare )

Este último excerto traz para a boca de cena aquilo que é o nó górdio que continuará marcando indelevelmente o coração de tempo ( o eco da primeira fala; ), pois a eternidade é a única intemporalidade possível ( in Carta a um jovem poeta ). Como entender um coração de tempo agindo, e sentindo, nesse mesmo tempo, já que sempre acicatado por todo um relevo móbil, que constantemente se afirma num modo peremptório e de relevo? Esta é a pergunta a que o poeta tenta responder; esta é também uma das questões fundamentais que tem marcado a cultura ocidental. Stephen Hawking, contestando a teoria aristotélica do lugar natural, bem como a concepção de tempo absoluto que vigorou até Newton, é bastante claro quando se refere ao Bing Bang: " Se houve acontecimentos antes desse tempo, não podem afectar o que acontece no tempo presente. A sua existência pode ser ignorada, por não ter consequências observáveis." (1) Numa outra passagem desta obra Hawking cita, com pouco rigor, o gracejo referido por Santo Agostinho de que Deus preparava o inferno para quem perguntasse o que fazia ele antes da criação; é evidente que essa alusão pretende afirmar que, numa perspectiva religiosa, só faz sentido falar de tempo após o Big Bang, mas Santo Agostinho, numa invocação a Deus, - e para o que aqui nos interessa - reitera, na sua abordagem, a existência de um plano imutável e eterno: "(...) e o vosso dia não é um mero acontecimento quotidiano, é um perpétuo hoje, já que esse vosso hoje não cede lugar a um amanhã e o amanhã não sucede a um ontem. O vosso hoje é a Eternidade..." (2). Esta dicotomia entre um tempo onde somos chamados a ser, e a agir, de acordo com todos os relevos móbiles, e uma eternidade com a qual o nosso coração de tempo se mede e se confronta, não é exclusiva dos autores cristãos: século e meio antes de Agostinho de Hipona, Plotino tinha discorrido já sobre o mesmo tema, numa perspectiva radicalmente distinta. Plotino, no seu quadragésimo quinto tratado, Da Eternidade e do Tempo, estabelece, logo no início, que este só pode ser medido a partir da eternidade, depois, ao longo de toda a obra, vai inventariando o que essa eternidade não é, por fim - e recusando a ideia de Criação!- , este neoplatónico é peremptório ao defender que a temporalidade não depende já da vontade de um qualquer deus, mas da natureza curiosa da acção, isto é, da alma que, recusando a sua permanência no suprasensível, se encaminha depois para o sensível, inaugurando assim o tempo: "(...) a alma recusa que todo o ser inteligível lhe seja presente de imediato. Ela actua como a razão espermática que sai de um germe imóvel, desenvolvendo-se evoluindo a pouco e pouco, parece, na direcção da pluralidade, e manifesta essa mesma pluralidade cindindo-se (...) ela perde a força que lhe é própria durante este caminhar." (3) Depois deste perambular por temas fundamentais da cultura do ocidente, poder-se-á estabelecer a ponte com a poesia de Tiago Nené, através de alguns dos sesu versos, para assim dar a ver o quanto esta mesma poesia se encontra enraizada no que de mais arguto e inquietador uma dada cultura tem pensado: " lêem-nos nos olhos um intemporal esquisito e uma/ omnipresença pecadora, um dia à luz da vela" ( in  Jardins Hamarikyu ), "corrompidas até ao osso efémero;/ e é tudo um material de luxúria(...)/ o emprenhar do infinito nas cores da boca;" ( in O Fim Vai Dentro do Corpo do Começo ). Convém acrescentar, no entanto, que este almejado "para lá" de um sensível turbilhonar é alcançado, não por uma evasão desse mesmo sensível, mas por um acto transmutativo operado por um coração de tempo após a evidência de todos os relevos móbiles; Tiago Nené, como Plotino e Agostinho de Hipona, aceita a existência dos já referidos dois planos, mas, ao contrário deles, escreve que o seu "além" só pode abrir-se no "aqui", e através de uma nova tríade: o Amor, a Poesia e a Autenticidade:

é possível que viver signifique contrafazer-me,
sim, é possível, desmontar o inato toda a vida,
as crenças, as igualdades e impossibilidades inatas,
os sorrisos que parecem astros de culto;
tudo é possível, mas requer um convencimento,

     ( in Um Círculo Hermético )

um tempo nunca se explica a si mesmo,
um tempo é explicado por outro tempo,

o meu problema é amar-te sem saber
qual o tempo que o explica

     ( in (...) )

poesia é a arte metafísica de escavar as palavras
e encontrar outras palavras;
e escavar estas palavras e encontrar outras
palavras;
foi assim que escrevi o teu corpo
e, escavando as suas palavras; encontrei
outras palavras
que diziam ser a outra metade da solidão a esperança
e os nossos corpos
o princípio da distância;

      ( in O Princípio da Distância )

Esta poesia vinca a ideia de que a transcendência se afirma como um trancender no "aqui", lugar onde Poesia, Amor e Autenticidade se deverão interligar para imprimir num coração de tempo  não só momentos de plenitude, mas sobretudo a mais lúcida angústia (4) motivada por tão ingente projecto poético-existencial.
Convém acrecentar que esse Outro passível de uma vivência amorosa, de uma partilha autêntica e de poetificação não se restringe à figura de um ente específico (humano ou não), ele possui, em vez disso, um carácter universal e abrangente, isto é, o que o eu-poético persegue acima de tudo - embora nunca o diga de forma directa!- é essa comunhão amorosa, autêntica e poética com tudo aquilo que é: "(...) mas aqui estás tu, dormindo/ na minha revista científica, sobre a qual os/ pulmões dos meus dedos te escutam" (in A Criança de Neandertal ), "(...) e só quando/ a sua bondade se exercitou na sede de outrem,/ na lama, e depois no mais inalcançável," ( in Instinto ), " dos que sofrem impossivelmente/ sobre os detritos das palavras, sobre/ o humor aleatório do tempo;" ( in Europa ).
A um intento complexo do sentido, correspondem, nesta poesia, preocupações estilístico-formais igualmente abrangentes: não se demarcam fronteiras nítidas entre o metafórico, mesmo que as metáforas tenham o sabor do mercúrio ( in Criaturário, sobretudo os dois primeiros versos deste poema), as comparações de grande riqueza imagética e um quotidiano de referencial imediatista; utilizam-se aspectos de todo um aparelho pertencente às ciências exactas, quer através de títulos ( O Princípio da Distância, Definição por Comparação ), quer na estrutura do próprio texto, como é o caso do irrepreensível poema "Um excerto de experiência", que me fez lembrar a Teoria da Relatividade; já na linha do seu livro anterior, o poeta dialoga com outros autores quer através de epígrafes quer de poemas ( in O Bom Poeta, Carta a um Jovem Poeta - a fazer lembrar Rilke -, Canção Para Matsuo Bashô) e neste livro o diálogo alarga-se à música ( in Subluttiare ) e ao cinema ( in A Idade da Inocência ), finalmente urge também não esquecer um discorrer de cariz metapoético que poreja em muitos dos poemas.
Por tudo o que já referi, penso estarmos ante um livro de poesia que alia, de forma admirável, um excelente domínio da escrita e de estruturação das diversas unidades poemáticas na sua conjugação com a obra enquanto todo, com preocupações de grande riqueza de sentido; talvez porque - quem sabe?- para Tiago Nené aquilo que existe e/ou é não se resuma à mera possibilidade de se autofrequentar ( in A Dimensão do Ser, 11º - 13º versos).

(1) Stephen W. Hawking, Breve História do Tempo, Gradiva, Lisboa, 1988, p 27 ( Relativamente a este tópico ver igualmente: Les lois du chaos de Prigogine, Flammarion, e O Nascimento do Tempo de Ilya Prigogine, Edições 70; Lisboa, 1988, pp 51 - 60).
(2) Saint Augustin, Les Confessions (Livre onzième, chapitre XIII ), Garnier-Flammarion, Paris, 1964, p 263 (tradução de minha autoria).
(3) Plotin, Troisième Ennéade (III, De L'Éternité et du Temps), Les Belle Lettres, 2002, p 241 (tradução de minha autoria)
(4) Cf. paragº 15 ( El ser de los entes que hacen frente en el mundo circundante) e paragº 40 ( El fundamental encontrar-se de la angustia, señalando "estado de abierto" del "ser ahí) in El Ser u el Tiempo, Martin Heidegger, Ediciones F.C.E., Madrid, 1980 ( Traductión de José Gaos.)

  Victor Oliveira Mateus in Nené, Tiago. Relevo Móbil Num Coração de Tempo. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2011, pp 7 - 14.
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11/03/12

" No trates de hacer tu cama sobre el frío."

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  " Poema 1. do Ciclo La Morada "

No trates de hacer tu cama sobre el frío, que los gorriones dolerán:
yo tengo en mi casa unas jaulas con gorriones y se morirán todos
si es que tienes frío: y las jaulas torcerán sus barrotes sobre mi cara
si es que no te prevengo, si es que yo no te tapo con un trozo de pan.
Sobre un gorrión dormido en la estrella polar, yo no haré mi cama,
y no me haces caso. Tú no me sigues y caes sobre el viento,
y le mendigo a la noche un pedazo de cobija. Y te vuelves morado.
Le mendigo a los perros untrozo de piel para no ver tus dientes.
No trates de hacer tu cama sobre el frío. No estaré para lavarte!
No estaré para darte el vapor en la frente, leyéndote las aguas.
No estaré para contarte la saga de mis padres que un día partieron
a la aurora boreal - más allá de estos pastos - con zapatos de hielo.
Yo tiengo en mi casa unas jaulas con gorriones y se morirán todos
si es que yo me olvido y no fundo los zapatos que tú te pusiste.

    Montealegre, Pedro. La palabra rabia. Valencia: Editorial Denes
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"(...) yo quería también que tocaras la medusa/ que me late acá dentro... "

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 " Poema 2 do Ciclo La Morada "

Yo tengo en mi casa una estrella de mar. Yo mismo la busqué:
puse aire en la alforja y fui a lo abisal a encontrar esa estrella,
porque la quería en tu barba, para que me vieras la albura
por debajo de la ola: yo quería también que tocaras la medusa
que me late acá adentro. Y si era dado de que a ti te gustara,
si es que te araba esa estrella y te la guardabas al fondo,
no tendríamos frío y cantaríamos la espuma igual que delfines.
Me dirías lo mucho que sabe una sal en los ojos: el mar,
ese ojo que espera tragarnos como yo. Tan igual. Otro ojo:
y espero tragarte. Y espero que sientas la estrella marina,
porque mi casa es la estrella, porque mi casa es el mar.
Y espero que haya un mar que te extienda hacia adentro.

     Montealegre, Pedro. La palabra rabia. Valencia: Editorial Denes

NOTA: As referências bibliográficas referentes ao poeta chileno Pedro Montealegre estão incompletas por não ter tido ainda aceso aos seus livros, facto que em breve solucionarei, contudo, através da correspondência que trocámos, tenho a sua autorização para estas postagens.
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10/03/12

"(...) e o/ resultado/ de tudo isto, se assim tiver de ser, é a palavra/ mais vulgar do mundo;"

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  " Mapa-Múndi "
( os dois hemisférios)

ficamos a respirar o ar um do outro, o ar de um passado
que nos construiu, que mais
do que nos fazer sobreviver, sobreviveu ele mesmo em
nós:

é um ar que continuamos a respirar, que mal se distingue
do ar comum, e eu sinto o teu, sabe
a laranja sepultada em chocolate negro,
como um pequeno abraço
no busto de um lagarto feliz:

respiro-o como se o sugasse, com uma palhinha
de sombra esquiva
que se ajusta aos contornos das imagens
que me arrombam os olhos:

e fazemo-lo mutuamente, e algum desse ar choca
no ar comum; outro
muda de cor ou de fruto ou cega um feitiço ou colhe
uma dália numa memória futura; quando
terminarmos por hoje, passaremos às lágrimas, e o
resultado
de tudo isto, se assim tiver de ser, é a palavra
mais vulgar do mundo;

  Nené, Tiago. Relevo Móbil Num Coração de Tempo. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora,
2011, p 51.
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" depois soube que o tempo castiga/ um silêncio em silêncio, "

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  " O Guardador de Palavras "

nunca fui só distância e entretanto
transmiti todos os meus lugares,
desde que o mundo é só água e palavras
e morro na iluminura dos olhos.
sempre cresci com pretensões
avulsas, vícios,
e as qualidades das metáforas.
um dia disseram-me que a morte
era um ciclo prévio, que os dons cristalizam
perfeitamente na memória
com auréola e senhora e a dor da confirmação.
nunca quis ser só distância,
sempre houve cavalos
seguindo em minha inutilidade prosperante,
palavras comprometidas com toda a imitação
de sentimento e bicho.
sempre me esvaziei da responsabilidade
de semear o meu tempo,
cresci ajoelhado, em constante
transmissão efémera, em constante
importância assintomática.
depois soube que o tempo castiga
um silêncio em silêncio,
e então comecei a guardar as palavras.

   Nené, Tiago. Relevo Móbil Num Coração de Tempo. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora,
 2011, p 19.
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09/03/12

"(...) reflexos/ Do sol de agora/ A criar memória. "

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  " Poema  23. "

As variantes de um riso descontraído
À mesa do café. A chávena
Segura pelos dedos
Acompanha a distracção.

E tudo o resto
É movimento
De lentas pausas com brilho.

Nada se aproxima ou afasta
Sem que a dança
De braços firmes, delicados,
Sustenha o olhar.

Sobre as mesas reflexos
Do sol de agora
A criar memória.

  Almeida, Rui. Caderno de Milfontes. S/c.: volta d' mar, 2011, p 32.
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" Que habita sem transformar "

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 " Poema 11. "


A paciência conhece o tempo da espera,
Arruma-o
Junto aos destroços de velhas torres de vigia
Que habita sem transformar.

  Almeida, Rui. Caderno de Milfontes. S/c.: volta d' mar, 2011, p 19.
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08/03/12

" Pudéssemos nós compreender,/ assim como se faz um filho,/ tão ao gosto popular. "

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  " Tão ao gosto popular "

Pudéssemos nós compreender
porque é que o outro raramente
é uma preocupação sincera
em nossas vidas

mas que são raras as vezes
em que não o queremos foder,
então alcançaríamos o significado
da existência que levamos,

seríamos o próprio deus
que nos fez à sua imagem.
Passado e futuro seriam o mesmo
e o presente ninguém.

E o vinho que um homem bebe
( enquanto observa o seu filho
a brincar às existências,
como uma garrafa que nunca vaza)

haveria de ser tão vão
quanto uma oportunidade
perdida em que a memória não sabe onde.
O filho seria o seu

próprio cadáver rejuvenescido.
Pudéssemos nós compreender,
assim como se faz um filho,
tão ao gosto popular.

  Miranda, Paulo José. O Tabaco de Deus. Lisboa: Edições Cotovia, 2002, p 23.
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" Sentados no sofá/ já só pensam em amanhã. "

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  " Os casais amigos "

Quinzenalmente os amigos
entravam-nos pela janela e pousavam
junto aos pratos e às canções.
Uma faca abre a carne,
um copo abre a palavra.

Distraidamente os amigos
roçam as asas pela solidão,
uma ou outra fêmea alimentava as crias.
Durante catorze dias prospera-se
e neste dia seguinte olha-se o passado.

Pobremente os amigos
bêbados fumam charutos,
não sabem usar as palavras
senão para rirem.
Ainda assim é preferível
à solidão de uma esposa.

Agitadamente os amigos
esvoaçam de regresso às suas árvores,
o filho atravessa a sala
tem sono, agarra-se à mãe.
Sentados no sofá
já só pensam em amanhã.

Distantemente os amigos
adormecem na incómoda almofada
desse dia seguinte,
de costas virados uns para os outros.

  Miranda, Paulo José. O Tabaco de Deus. Lisboa: Edições Cotovia, 2002, pp 14 - 15.
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07/03/12

" Y volverán de nuevo/ los nombres que no olvidan, "

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 " Agua "

Porque el agua carece de memoria
reparte sus sentidos,
busca tras los espejos
discretos minerales
como la plata antigua de los peces.

Y todo para qué
si el iris,
presencia última,
ya descubre en el ámbar de las gotas
el aliento sin fondo de la lluvia.

Los ojos tan abiertos en este jardín líquido
son labios sin pasado.

Y volverán de nuevo
los nombres que no olvidan,
porque en el agua
desconocen lo frágil,
sólo cubren las cosas, erosionan
con la transparencia nueva
lo inútilmente frío.

   Correcher, Rafael. El Azul de los Lápices. Valencia: Editorial Denes, 2009, p 21.
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" Seguramente pensaron lo mismo. "

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 " Coincidencia "

Seguramente pensaron lo mismo.

Juntos
desnudaron
los relojes
de su voz
metálica
y todo
se volvió
rumor de abejas.

 Correcher, Rafael. El Azul de los Lápices. Valencia: Editorial Denes, 2009, p 46.
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06/03/12

Lançamento...

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 DIA  10  DE  MARÇO, PELAS 16H30, NA LIVRARIA "PÓ DOS LIVROS" EM LISBOA

DECORRERÁ O LANÇAMENTO DO LIVRO: " RELEVO MÓBIL NUM CORAÇÃO DE TEMPO ".

AUTOR DA OBRA:  TIAGO NENÉ

PREFACIADOR:  Victor Oliveira Mateus

APRESENTAÇÃO A CARGO DE:  ANTÓNIO CARLOS CORTEZ

OS POEMAS SERÃO DITOS POR:  GISELA RAMOS ROSA
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  " Vírus "

 
Há uma tristeza inerme nos feriados,
uma entrega do pulso das cidades
a um vírus insidioso
habitante das janelas onde
nada está para chegar
ou para partir. Lá dentro cumpre-se o decálogo
dos cansaços. Cá fora perdemo-nos
no planetário do asfalto, na vã arritmia
dos semáforos acesos. As fachadas
transbordam de umbrais vazios
e as frontarias bancárias da Baixa
semelham basílicas fechadas ao culto. À beira-mar
grupos de catalépticos auditores da Bola
oriundos de algum centro comercial
passeiam filhos, esposas e animais de companhia
até às esplanadas da outra margem,
para regressos na fila de escapes do crepúsculo.

  Lourenço, Inês. Câmara Escura, Uma Antologia. S/c.: Língua Morta, 2012, p 16.
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 " Arte Poética III "


O poeta disse: a inspiração
não existe. De há muito, as musas
ficaram desempregadas. E desvendou
algum método de trabalho
à parca assistência, altivo e contemporâneo,
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras
resistindo ao tráfego do fim de tarde,
pouco se interessavam
pela carpintaria dos versos.

  Lourenço, Inês. Câmara Escura, Uma Antologia. s/c.: Língua Morta, 2012, p 21.
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05/03/12

A problemática da avaliação da personalidade: os diferentes métodos.

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Um dos maiores problemas da avaliação da personalidade reside, sem sombra de dúvida, no facto de, mesmo na actualidade, não existir um método único adoptado por todos os psicólogos. Por outras palavras, quando o psicólogo tem de avaliar a personalidade, pode basear-se em diferentes instrumentos, sendo que as suas escolhas orientarão as conclusões de modo significativo. Este ponto semeia de forma preponderante a confusão, não se prestando à harmonização. Convém dizer, como veremos mais tarde, que o erro radica no facto de não existir um modelo da personalidade unânime entre os psicólogos da personalidade, para além de cada modelo preconizar a utilização de determinado teste, em detrimento de outro: cada teoria recorre a um teste específico.
Apesar da diversidade dos instrumentos escolhidos, pode dizer-se que a avaliação da personalidade se faz, principalmente, segundo dois modelos. O primeiro baseia-se na observação, podendo assumir diferentes formas. Por vezes, um observador pode emitir um juízo sobre alguém, mesmo sem se ter cruzado com a pessoa. Efectivamente, acontece-nos a todos emitirmos uma opinião sobre alguém, apenas com base em informações recolhidas através de outrem. Em determinadas situações, os juízos baseiam-se em rigorosas observações do comportamento, como, por exemplo, no número de vezes que o indivíduo tamborila com os dedos numa mesa, ou ainda no seu batimento cardíaco, para se inferir sobre o respectivo estado de nervosismo. Nestes casos a observação é real e baseada em parâmetros previamente definidos. Noutras situações, o observador deduz, por intermédio de uma série de sinais subjectivos, se o sujeito observado se encontra relaxado ou, pelo contrário, nervoso. Os observadores podem ainda avaliar a personalidade de um indivíduo que conheçam bem, preenchendo diferentes itens de uma escala de avaliação, como se verifica no caso de crianças ou de doentes psiquiátricos graves. Com frequência, pede-se aos pais para preencherem questionários destinados a avaliar a personalidade ou o temperamento dos seus filhos, em virtude de estes serem ainda demasiado jovens para se avaliarem a si próprios. Graças a estas observações pudemos afirmar que os temperamentos observados em crianças de tenra idade estavam correlacionados com a sua personalidade, na idade adulta. Por fim, existem instrumentos designados por entrevistas semiestruturadas, nas quais o observador coloca questões padronizadas aos indivíduos; a forma como estes lhes respondem determina o modo como a entrevista se desenrolará, bem como a informação que daí se retira.
A segunda forma de avaliar a personalidade, e de longe a mais corrente, consiste nos testes de personalidade. Existem duas categorias diferentes: os testes projectivos e os testes objectivos. Os primeiros consistem na apresentação aos sujeitos de um material ambíguo e pouco estruturado, que dá livre curso à imaginação e que, consequentemente, origina inúmeras respostas. O princípio geral é o seguinte: como o material é ambíguo, o indivíduo projecta-se nele, abandonando uma parte do seu inconsciente.
O teste mais célebre desta categoria é(...): o teste de Rorschach.
(...) Os segundos testes utilizados para avaliar a personalidade - os testes objectivos - consistem em pedir aos sujeitos que preencham eles próprios questionários de personalidade. Nestes questionários, os sujeitos devem indicar de que modo pensam, como se comportam em determinadas situações, de que forma julgam certas acções e de que modo reagem habitualmente a diferentes coisas.

    Hansenne, Michel. Psicologia da Personalidade. Lisboa: CLIMEPSI Editores, 2004, pp 61 - 64.
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04/03/12

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O psicopata (...) O que o caracteriza é a passagem ao acto impulsiva, que não seguida de sentimento de falta, frequentemente como resposta a uma insatisfação mal tolerada. O seu domínio preferido é a acção em detrimento do afecto e do pensamento, que estão empobrecidos. De cada vez, o acto reproduz as mesmas características: é súbito, brutal, acompanhado de gritos e de outras violências. É pouca a distância entre a pulsão e a sua expressão comportamental, na ausência de verbalização e simbolização suficientes para permitir a sua elaboração. Com efeito, o psicopata procura livrar-se de uma tensão interna que o persegue desde a infância, e encontra na motricidade uma descarga imediata possível(...) Se se sente rejeitado, pode encontrar aí o meio de suscitar uma reacção social e fazer com que se ocupem dele (...)
Não é raro a infância precoce dos psicopatas ter sido marcada por abandonos e carências graves. A criança foi levada a exprimir-se com violência para se fazer ouvir por aqueles que cuidaram dela.
(...) Todavia, a avidez afectiva do psicopata só se traduz em pedido de amor de forma inadequada. Ele não procura aproximar-se dos outros para tirar prazer de um contacto caloroso. As suas relações sociais permanecem superficiais, e ele pouco se implica. Tem o hábito de abandonar facilmente as suas relações sem pena aparente.
(...) No psicopata, a sociabilidade sincrética e a sociabilidade por interacção são muito limitadas. A adesão às relações íntimas é por isso difícil (...) O seu espírito é animado por sentimentos de inveja e um forte rancor. Tem com frequência a impressão de que o privaram de qualquer coisa, o que coincide com a realidade. Esta reivindicação é tanto mais profunda quanto ela é não consolável. Nenhuma "reparação" surgida depois poderá compensar os estragos sofridos durante a primeira infância. É a privação de base, sublinhada por Winnicott.
Se o psicopata não consegue sentir-se culpado das suas exacções, é porque nunca se sentiu implicado numa ligação "responsável" face a um outro ou a si mesmo. A ausência de uma ligação materna fiável e durável acabou por fazer diluir nele, e depois desaparecer, a "pulsão primária de amor", observa Winnicott. "Para ser alguém é preciso ser amado", acrescenta ele.
(...) Estas observações aplicam-se igualmente aos psicopatas que vivem e agem como comandados por um relógio. Estes delinquentes organizam o seu delito de forma muito precisa e com sangue-frio como se estivessem debaixo de intensa coacção interna. A sua moral é formal e não é marcada pela reflexão, mas apenas por imperativos de obediência e de tranquilização destinados à sua salvaguarda (...) teme o aborrecimento, a monotonia, que o confrontam talvez com uma angústia insustentável. Por outro lado, o tédio abre o acesso patológico e fecha-o ao mesmo tempo. Porquê? A frustração e a impossibilidade de experimentar tristeza, sentidas como um verdadeiro estrago, conduzem o sujeito à busca de aventuras, para se sacudir...
O tratamento recebeu um novo alento a partir da altura em que a Justiça começou a colaborar com os psicólogos e os psiquiatras (...) Foram levadas a cabo terapias individuais e familiares destinadas a adolescentes com dificuldades, a delinquentes potenciais ou condenados (...) o paciente aceita o tratamento unicamente porque este foi prescrito por um juiz e ele espera assim obter uma comutação da pena. Mas mesmo assim é possível encarar um verdadeiro trabalho dirigido ao inconsciente, e vir a instalar-se uma confiança autêntica entre psicopata e terapeuta (...) Um longo período de provas precede o verdadeiro trabalho. Estes pacientes são sensíveis às ambiguidades, ao excesso de sedução, às aitudes esperadas. É pois necessário evitar entrar em considerações pedagógicas, já que o paciente se considera vítima duma injustiça que espera uma "reparação".
Daí que tenhamos de nos prevenir, na terapia, contra atitudes demasiado reparadoras, que não fariam mais do que ferir o paciente(...) É muito mais importante escutar o paciente, aprender a sua angústia, do que "pretender corrigir" um passado de carâncias. O que, de resto, é válido em relação a qualquer paciente.

 Eiguer, Alberto. Pequeno Tratados das Perversões Morais. Lisboa: CLIMEPSI Editores, 1999, PP 79-95.
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02/03/12

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Durante muito tempo, opus-me à eutanásia, por imaginar que existia a possibilidade de os filhos matarem os pais, não só por deles esperarem uma herança, mas por considerarem que o seu tratamento lhes exigia um trabalho demasiado pesado. Mas quando comecei a pensar na minha morte, a atitude mudou. Se alguma tragédia me acontecer - se ficar paralisada ou demente -, suponho que existem pessoas que me amam o suficiente para fazerem o que sabem constituir o meu desejo. Mas quem me garante que isto será verdade ad seculum saeculorum? E por que motivo terão de ser consideradas criminosas? E quem me garante que haverá um médico que ajude a concretizar o meu desejo? Comecei a vacilar nas minhas certezas.
Embora consciente de que o documento não tinha base legal, a 23 de Março de 2005, redigi um "testamento vital". Eis, ipsis verbis, o que escrevi: "Se ficar paralisada totalmente, se ocorrer uma situação em que os médicos só me possam manter viva através de alimentação por via gastro-nasal ou do estômago, se sofrer de uma doença incurável e estiver em sofrimento, se a minha vida se tornar vegetativa, isto é, sem possibilidade de voltar a recuperar o meu estatuto de ser humano, racional e detentor de memória, não quero que a prolonguem." Algumas decisões que se tinham revelado necessárias aquando da doença da minha mãe, e o caso, muito notificado na época, de Terri Schiavo, uma americana cujo marido, embora ela nada tivesse deixado escrito, optara por a deixar morrer, levaram-me a não adiar o projecto.
(...) Mais cedo ou mais tarde, o Estado vai ter de tomar uma posição, esperando que não seja assaltado de pânico diante do erroneamente designado lobby "pró-vida". Em Espanha, que tem uma História não muito diferente da nossa, o testamento vital, a sedação terminal e a recusa de tratamento são legais. A Lei da Autonomia do Paciente, de 2002, que, note-se, recebeu a aprovação da direita, permite a qualquer doente tomar decisões que, até então, eram deixadas nas mãos dos médicos(...)
 A eutanásia ficou desacreditada, na década de 1930, pelo uso que do termo fizeram os darwinistas sociais e pelo que, depois, se passou sob o nazismo. Convencidos de que as sociedades avançadas e os indivíduos com mais êxito tinham aptidões genéticas superiores, enquanto os improdutivos haviam herdado traços de carácter que os conduziriam à degenerescência, alguns intelectuais do período mutilaram o pensamento de Darwin, defendendo a esterilização ou a morte dos "desviantes". Pior havia de chegar, com a liquidação, pelos nazis, não só de milhões de judeus, mas de idosos e de  deficientes (calcula-se que assim morreram cerca de 200 mil).

  Mónica, Maria Filomena. A Morte. Lisboa: Fundação Francisco Manuel do Santos. 2011, pp 44 - 46.
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É provável que morra nos próximos dez, quinze anos. Tenho filhos e netos, amei e fui amada, escrevi livros, ouvi música e viajei. Em princípio, poderia dar-me por satisfeita, o que infelizmente não me faz encarar a morte com placidez. Como Montaigne afirmou, com o tempo, o dilema Vida versus Morte vai-se transformando, num outro, Velhice versus Morte. Sei que as minhas células foram morrendo, as minhas articulações se tornaram rígidas e até o meu crânio diminuiu, mas nada disso conta quando se trata de pensar no fim. Se amanhã um médico me disser que sofro de uma doença incurável, terei um ataque de coração, o que, convenhamos, resolveria o problema. Mas, se isso não acontecer, quero ter a lei do meu lado.

 Mónica, Maria Filomena. A Morte. Lisboa: Fundação  Francisco Manuel dos Santos, 2011, p 80.

01/03/12

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  " O FALSO-SELF ou como passar ao lado da vida "

O falso-self seria uma estrutura aparentada aos estados-limite, entre a neurose e a psicose, a menos grave de todas e a mais próxima da neurose, que se refere, aliás, à relação com o mundo, de maneira geral. Para ser amado, será necessário "vender" a alma?
A dificuldade em tratar estes casos coloca questões específicas. São pacientes que parecem estar bem e que respondem à expectativa do analista, ao parecerem flexíveis e adaptáveis; aceitam as interpretações, fazem-nas funcionar neles e fazem associações articuladas que parecem confirmar as interpretações. No entanto, em profundidade, nada se modifica. Não há aprendizagem autêntica.
O problema complica-se porque o analista, habituado às resistências que os outros pacientes oferecem à tomada de consciência, arrisca-se a acrediar que tal paciente vai bem. Pode mesmo chegar a considerar a cura terminada e a separar-se dele (...)
Embora possamos encontrar falsos-self em todos os meios, entre os intelectuais e os artistas são mais numerosos. Com efeito, estes possuem rudimentos culturais que sabem fazer valer. Podemos, todavia, perguntarmo-nos se a nossa "sociedade espectáculo", que valoriza a mediatização, o reconhecimento e a avaliação públicos, não favorece este tipo de desvio psicológico (...). Não será que, nos nossos dias, a verdade é aquilo que a maioria pensa?
(...) O mundano, o dândi, o snob, assim como o frívolo, ou mesmo a star são semelhantes no sentido de manterem uma ligação especular: os olhos dos outros reflectem-lhes, como um espelho, aquilo que desejariam ser. A imagem no espelho parece mesmo mais importante do que a maneira como o indivíduo se considera. Narciso reconhece-se numa nascente de água pura, que foi procurar para acalmar a sua sede. Ora, o amor por si, que faz nascer esse instante de autocontemplação, condu-lo à inanição. Não querendo turvar a sua imagem, não consegue decidir-se a beber daquela água.
Personagem garrida, o mundano apercebe-se perfeitamente do que os outros pensam, fazem e dizem. Admira as pessoas célebres e de condição superior; um pouco como o fetichista, é atraído pelo à-vontade social, por todos aqueles que parecem não ter sofrido castração. As suas maneiras são civilizadas(...) De facto, os mundanos são, ao mesmo tempo, exibicionistas - gostam de se mostrar em todo o lado - e voyeuristas - não participam do mundo, vigiam-no. Isto traduz um combate entre uma angústia existencial e um insuportável sentimento de solidão. Ao mesmo tempo, conservam uma admiração sem mácula pelas mães, mulheres "maravilhosas", "dignas", "eficazes", e dissimulam no seu discurso o lado desagradável ou trágico das coisas.
(...) O mundano perscruta o seu mundo para saber se este o olha. Idolatra-o, na condição de, em troca, ser também, idolatrado. Porém, se o mundo lhe vira as costas, o mundano gritará de dor e a mascará cairá, para deixar aparecer o vazio..
O dândi veste-se de forma estudada, enquanto o snob imita, sem discernimento, os gostos e as maneiras das pessoas "distintas". De origem modesta, deixa por vezes transparecer maneiras simples, até mesmo vulgares. Em resumo, o lado exibicionista, sobranceiro e inadaptado, encontra-se presente tanto no mundano como no dândi (...).
Para concluir, sublinhemos o parentesco entre mundanidade e perversão moral. Os aspectos exibicionista, voyeurista e fetichista confirmá-lo-iam (...) E talvez também na grande solidão: embora desejando ardentemente uma inserção social confirmada, o falso-self, o mundano e o dândi nem por isso deixam de ser grandes solitários.

  Alberto Eiguer in " Pequeno Tratado das Perversões Morais ", CLIMEPSI Editores, Lisboa, 1999, pp 23 - 33.
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29/02/12

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Ao contrário dos perversos sexuais, nos quais o desvio é limitado à esfera sexual, os perversos morais são perturbados em múltiplos aspectos da sua vida psíquica, quer relacional quer afectiva quer mesmo intelectual. Caracterizam-se pela maldade, pela ausência de sentido moral, pela aptidão para as relações sociais - que ajuda à manipulação e mesmo à subordinação dos outros -, pela tendência e facilidade em mascarar as suas intenções, em guardar segredo. Embora pareçam, muitas vezes, frios e calculistas, não estão menos à mercê de tormentos, e é precisamente para se libertarem deles que se entregam a excessos. Portanto, as suas proezas proporcionam-lhes uma intensa satisfação e, por vezes, um sentimento de triunfo que chega a ir até à exaltação e ao júbilo (...).
Outro traço característico dos perversos morais é a sua capacidade de argumentar, de encontrar uma boa razão para justificar os seus delitos. Se o jogador arrisca somas avultadas, é porque quer "saldar as suas numerosas dívidas". Se o perverso-narcísico utiliza o outro, é porque teria "teria muito a ensinar-lhe"... A defesa: racionalizar, justificar-se. A ofensiva: o desejo de convencer, de arregimentar.
Nas relações sociais do perverso de carácter, a dominação e a influência ocupam um lugar privilegiado. Ele manobra habilmente para submeter o outro a pouco e pouco. Animada pelo ódio, a sua vontade procura apagar aquilo que o outro tem de singular. (...) Quanto ao perverso-narcísico, ao jogar com a necessidade de afirmação de si, deseja alterar o valor do amor-próprio do outro. Daí que estabelecer relações íntimas com um perverso e ligar-se a ele é pura perda. Quem o faz nunca sai incólume...
A caminho, pois. A visita à minha pequena "galeria de monstos" começa ...

  Alberto Eiguer in "Pequeno Tratado das Perversões Morias", CLIMEPSI Editores, Lisboa, 1999, pp X - XI.
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28/02/12

" nesta tão pobre criação/ que é a nossa condição "

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 " 3. Mater Mor Angustiosa " ( Este terceiro pranto é o da Virgem dirigindo-se a Cristo ausente)

(...)
uma verdade
que te toca até a ti,
se é verdade
que lá, no jardim,
como me contaram
os que te seguiam nesse ápice,
alguns de súbito escutaram
o teu grito:
Afasta de mim
este cálice...
Ai, sacrifício!
Ó sacrifício!
Não entender nada
e sentir tudo,
eis que por tudo vulnerada!
Entendeste tu
quando na cruz
pela derradeira espada
a carne que o coração te agasalhava
toda te foi, e para sempre,
destalhada?
Tamanha de sangue
foi então
essa grande cascata,
que tive a impressão,
eu,
de aos pés do teu madeiro
um verdadeiro
massacre se ter dado;
e tu,
(...)
filho desse verbo
que no universal vácuo
e em seu buraco
negro como o dos monstros
do inferno lá em baixo,
ao nada
disse um dia:
Caguemos,
vamos cagar a gente...
E a gente
ó espectadores,
nós, está visto, seríamos,
mas um de cada vez,
e todos também ao mesmo tempo,
nesta tão pobre criação
que é a nossa condição
- esta barrela,
uma barrela
que ao fim e ao cabo
esparrela
se revela,
e uma foda, é vê-la,
de alto lá com ela,
mas foda enamorada...
De quem?
- pergunta-me porém,
pelo seu lado,
o meu Jesus
morto e ali deitado.

  Giovanni Testori in " Três Prantos ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, pp 169 - 172.
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26/02/12

" porque deixastes vós/ que um tipo tão bonito,/ ou bonitão,/ viesse na minha direcção "

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 "Parte 2. Herodiaça " (Fragmento da fala de Herodíades para o ausente João Baptista )
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Ai deuses,
deuses da minha só,
eterna,
fodida para sempre religião,
porque deixastes vós
que um tipo tão bonito,
ou bonitão,
viesse na minha direcção
nem de roupa coberto,
ou pelo menos,
para radicalmente
ser sincera,
coberto e descoberto ao mesmo tempo,
ali mesmo, onde o slip aperta?
Logo, de resto,
bem pude imaginar
- e tactilmente, por assim dizer, provar -
que nem slip havia por baixo desse pouco
que lhe disfarçasse o coiso,
digamos, do caroço.
A ti aludo,
sórdido santão,
ou, sobretudo,
sórdido porco ou macho porcalhão!
Trazeres todo destapado
e pronto para a acção
um tal cajado,
ou um tal bastão!
E dizeres depois disto
que em Cristo
eras meu irmão!
Por favor um pouco mais de coerência,
pois que incapaz
foste de reverência!
Nunca,
nunca ninguém,
e um profeta de deus
ainda muito menos,
se apresentou a uma senhora
nesse estado,
sobretudo estando bem informado
de que tipo de fêmea
por dentro como por fora
se tratava.
E além disso, porque não pensaria eu
que esse deus teu
aqui te quisesse enviar
para se inteirar
por meio da tua erótica atracção
dos secretos serviços
do meu estado e nação?

 Giovanni Testori in " Três Prantos ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, pp 89 - 90.
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24/02/12

" Já te contei de mais/ para quem está de luto/ e já de mais escutaste; "

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 Excerto da fala de "Cleopatrás "
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Foges?
E porquê?
Porque fugirás?
Achas que eu seria bem capaz?
Mas eu só,
qual grande rainha
que sou
da arte e da oratória teatral,
com gestos aos presentes
queria demonstrar
que a Cleopatraça,
em jovem mulheraça,
irresistivelmente
sabia fascinar
corações, fígados, bofes
E outros dotes,
E até o desfeito baço cativar.
Aliás,
meu caro servidor,
que sem eu lhe tocar admitirás
se te pôs o pau
para aí a entesar?
Ai que grande tesão!
Ai que grande,
nas cuecas e nas calças
tão sob pressão!
Ai que grande
essa divina musculação!
Tesos por mim
os imperadores todos
e todos os reis;
tesos os mais célebres
e condecorados capitães;
tesos os banqueiros,
Os financeiros, os gestores;
tesas para acabar
Umas lésbicas,
tão velhas, as devassas,
que já nem sabiam ao certo
o que fazer com as rachas.
Tesos pela frente
e logo também por trás,
porque
como o António
ainda anteontem dizia:
O amor não é completo,
não,
nem se diga que o seria,
se não fizer entesar-se e depois vir-se
toda a humana anatomia.
Tesos os soldados
e tesos os soldadinhos;
tesos enfim
os famintos
aos quais,
para que a tesão lhes durasse mais,
eu dava antes pedaços de queijo
a comer
(...)
Mas vai, agora,
Vai
Já te contei de mais
para quem está de luto
e já de mais escutaste;
contei-te tudo
o que, certamente,
é suficiente,
para que até ao fundo,
e com felicidade,
o coiso que aí tens
possas fazer dançar
para cima e para baixo
E te fartes de gozar.
Mas, entretanto,
Porque terei eu
uns momentos antes,
à porta doirada
mandado que parasses?
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  Giovanni Testori in "Três Prantos ", Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, pp 25 - 28.
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22/02/12

" se calhar a ausência/ da tua presença/ é a ausência de tudo "

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tenho saudades de ti
e de tudo o que está ausente
embora não consiga
claramente perceber
que coisas ausentes
me fazem falta
para além da tua presença.

se calhar a ausência
da tua presença
é a ausência de tudo
o que me faz falta.

 Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2012, p 87.
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" escrevi o teu nome/ tantas vezes sobre o mar... "

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escrevi o teu nome
tantas vezes sobre o mar que,
exausto de tanto azul, ali ficou
deitado nas areias da praia
onde ainda repousa ao sol

 Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2012, p 80.
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19/02/12

" na noite clara "

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na noite clara
apenas a lua cheia
e o teu silêncio
caminham comigo

 Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, 2012, p 67.
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" a tua ausência/ em todos os recantos do dia "

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a tua imagem
na minha sombra
o teu nome
nas minhas palavras
a tua ausência
em todos os recantos do dia.

 Rui Rocha in " A Oriente do Silêncio ", Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2012, p 27.
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18/02/12

" Me aferro a su angustia/ Su peso es doble "

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   Poemas 1 e 2 da sequência poética "El Verbo Estéril "

   1.

Cómo ha llegado hasta mí
Esta pregunta
Halada desde sí misma
Por grietas ilusiones.
En el último escalón le veo cansarse
Sin saber si desciende o llega arriba
Me aferro a su angustia
Su peso es doble
La respuesta se hunde a nuestro paso.
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 Ricardo Canizales in " Poetas Siglo XXI, Antologia Mundial ", Madrid, Editor Fernando Sabido Sánchez.
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" Espérame ahi donde no conoces el modo de verme "

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 2.

Déjame estar en ningún lado advertido por el ánimo
Espérame ahí donde no conoces el modo de verme
Haciendo
Quietamente
Vacío de los ojos: epitafio de las ganas.

Han debido sugerirme. Tal vez el sueño
Y la noche de los que no he conocido
O el susurro, más allá de lo que supones
Y tu misma sensatez tantas veces conjugada
O la mía, estática al borde de mí mismo.

Y en esa invocación de certeza y verdades
De nombres y requisiciones
No lo supe
De repente
Más acá de mí mismo:
Súbita inanición de piedra congelada:
Exilio del vilo y la repeteción
No ser da la memória.

  Ricardo Canizales in " Poetas Siglo XXI, Antologia Mundial ", Madrid, Editor Fernando Sabido Sánchez, 2011.
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Nota - Descobri a poesia de Ricardo Canizales nesta mesma Antologia em que ambos participamos. Mais tarde o Ricardo dar-me-ia autorização para postar dois poemas seus...esperemos que um dia tenha a ousadia de os traduzir.
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" é preciso continuar a meter o coração/ pelos atalhos. "

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  " Esplanada "

Já sabemos quantas vezes a realidade
se torna imprestável para ti
e vice-versa.

O sol aquece até ao futuro,
é preciso continuar a meter o coração
pelos atalhos.

  Rui Pires Cabral in " A Super-Realidade ", Língua Morta, s/c., 2011, p 38.
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" (...) Por tua causa eu andava contente/ nas ruínas, fazia as pazes com o tempo perdido. "

.  " No Terreno "

Foi por altura das ervas altas e dos arraiais.
Eu via-te outra vez ao fim da tarde e tudo se apagava
à tua volta, os acidentes terrenos, as montanhas do passado
e do futuro. Por tua causa eu andava contente
nas ruínas, fazia as pazes com o tempo perdido.

Na estrada à meia-noite o asfalto era morno, os grilos
estavam todos a cantar dentro do céu. Já não sei dizer
o muito que esperei de ti, os serões eram pródigos
e tinham os braços imprevistos de um fractal.

Fumavas dos meus cigarros, falavas da vida que tinhas
a milhares de quilómetros dali. Na minha própria
e exclusiva escuridão, eu já só existia para ti.

  Rui Pires Cabral in " A Super-Realidade ", Língua Morta, s/c., 2011, p 17.
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16/02/12

Apareçam!!!


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Todas as quintas feiras do mês (exceptuando a 3ª quinta!), Rui Paulino David e Carlos Araújo no
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" Olimpo (Bar Café)" na Rua da Alegria, 26, 4000-032 Porto...
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15/02/12


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Para evitares ser
paraliterário

procuraste a ajuda
dos amigos
que trabalham
nos jornais

Louvaram a pessoa

a obra

elevando-te
ao mais alto
patamar

das letras nacionais

  manuel a. domingos in " Teorias ", Edição de Autor, s/c., 2011, p 46.
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