11/05/12

" J'ai toujours le même âge que ceux que je rencontre. "

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Hier aprè-midi, en voyant mon père, j'avais quatre-vingt six ans. Un peu plus tard, en regardant un nouveau-né, j' avais deux mois et des poussières. J'ai toujours le même âge que ceux que je rencontre.

(...) La vérité vient de si loin pour nous atteindre que, lorsqu'elle arrive près de nous, elle est épuisée et n'a presque plus rien à nous dire. Ce presque rien est un trésor.

Je ramène de la maison de long séjour un besoin de toucher, ne serait-ce que furtivement, l' épaule de ceux que je rencontre, et une méfiance accrue des beaux discours.

  Bobin, Christian. La Présence pure et autres textes. Paris: Gallimard, 2008, 147.
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10/05/12

"Tout."

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L'arbre est devant la fenêtre du salon. Je l'interroge chaque matin: " Quoi de neuf aujourd'hui?" La réponse vient sans tarder, donnée par des centaines de feuilles: "Tout."

  Bobin, Christian. La Présence pure et autres textes. Paris: Gallimard, 2008, p 125.

"Votre coeur était comme le miroir. Maintenant il est comme vos montres. Il ne chante plus..."

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Chez nous pas de montre ni d'horloge.

Le temps qui passe a la beauté pour unique preuve - la beauté ou la douleur, tant il est vrai que nous n'avons jamais su démêler l'une de l'autre, tant il est vrai que beauté et douleur sont dans nos âmes comme les deux aiguilles de vos montres, quand elles se superposent.

Le temps chez nous est comme de l'eau. L'éternité chez nous est comme de l'eau. Le coeur chez nous est comme de l'eau. Le temps, le coeur et l'éternel mélangent leurs eaux partout dans le monde comme beauté, dans le monde comme douleur.

Vous avez d'abord cru que l'éternité était un miroir. Vous avez longtemps cherché à vous y reconnaître, en vain. Vous avez accusé le miroir, vous lui avez jeté une pierre, puis deux, puis trois, jusqu'à ce qu'il se brise en mille morceaux - mille secondes, mille minutes, mille heures.

Votre coeur était comme le miroir. Maintenant il est comme vos montres. Il ne chante plus la lumière. Il compte les ombres.

Vous êtes pressés. Vous êtes essoufflés. Vous vous agitez dans tout ce que vous faites comme le dormeur au fond du lit.

Chez vous le temps s'entasse - et puis se fane.

Chez nous le temps se perd - et puis fleurit.

Attendre, c'est ce que nous savons faire de mieux, l'art suprême auquel tous ici s'exercent, enfants comme vieillards, hommes comme femmes, pierres comme plantes.

Caravane de l'attente avec ses deux chameaux, solitude et silence.

Fier navire de l'attente avec ses deux grandes voiles, solitude et silence.

Celui qui attend est comme un arbre avec ses deux oiseaux, solitude et silence. Il ne commande pas à son attente. Il bouge au gré du vent, docile à ce qui s'approche, souriant à ce qui s'éloigne.

Celui qui attend, nous l'appelons le "tout comblé" - car dans l'attente le commencement est comme la fin, la fleur est comme le fruit, le temps comme l'éternel.

  Bobin, Christian. La Présence pure et autres textes. Paris: Éditions Gallimard, 2008, pp 31 - 33.
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09/05/12

Traduzindo...


.Nota - Chantal Mauduit foi uma importante alpinista francesa. A 13 de Maio de 1998 morre, nos Himalaias, soterrada por uma avalanche, enquanto dormia na sua tenda.. Pouco tempo depois André Velter dedica-lhe um dos mais pungentes livros de poesia que conheço: "L'amour extrême". Ontem, finalmente, consegui a coragem para traduzir um poema desta obra.
(Nota 2 - As traduções incluidas neste blogue encontram-se protegidas pela legislação relativa à propriedade intelectual das mesmas. Não é meu hábito levantar quaisquer obstáculos à republicação de trabalhos meus, agradecia, no entanto, e no que diz respeito às traduções, que ma comunicassem...)


Quando não estou a pensar em ti, é ainda em ti que penso.
Quando falo de qualquer outra coisa, é de ti que falo.
Quando caminho - por aí - ao acaso, é para ti que me dirijo.
Abandono todos os livros que não me falam de ti.
Deito fora os poemas que não seguem na direção dos teus lábios.
Rasgo desenhos e pinturas que não ousam seduzir o teu olhar.
E, por fim, destruo qualquer canção que não me traga de volta a tua voz.

  Velter, André. L'amour extrême et autres poèmes pour Chantal Mauduit. Paris: Gallimard,
2007, p 120 ( Tradução: Victor Oliveira Mateus).
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08/05/12

" Pássaro, pássaro de fogo!// Olhos que te viram cegaram/ para ver-te melhor!"

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 " Pássaro de Fogo "

A princípio o vôo
foi baixo,
acaso tímido.
Com grande silêncio em torno.
As asas batiam,
batiam e fechavam-se
rascantes
- tuas asas e garras! -
contra a espessura do vergel.

Já pela relva
tombavam
sob teu hálito - violentos,
os frutos primeiros.

Contra as altas paredes
nem sequer investiste.

De súbito,
pelos flancos,
incendiaste a montanha.

De súbito cavalgavas o espaço
equilibrando-te
- aura e domínio -
entre o horizonte e a abóboda.

Contra o verde e o azul,
de tua sombra vinha sangue.
(Sob teus auspícios,
contra o ferro, a madeira e a crosta endurecida
da terra,
multiplicavam-se enxadas, foices e malhos.)

Clima de estranho sortilégio
com címbalos, flâmulas e ouro líquido
de outros planetas.

Era um canto, uma dança, um vôo,
o exercício da liberdade,
era porventura a descoberta
do espírito?

Pássaro, pássaro de fogo!

Olhos que te viram cegaram
para ver-te melhor!

   Lisboa, Henriqueta. Melhores Poemas. São Paulo: Global Editora, 2000, pp 70 - 71.
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07/05/12

" Vende-se diabo não hemofílico: "

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 " crônica de bolso "

Vende-se favela a bom preço:
perfume de mognos,
tampos de pino,
rumores de pau-ferro,
moradia umedecida.

Vende-se diabo não hemofílico:
para almas de toque laminado.

  Frazon, Luiz. roçando água. Franca: Ribeirão Gráfica Editª, 2008, 54.
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" poema-lago/ anote-o "

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poema-lago
anote-o
de modo descuidado
para que
sobre o rascunho do corpo
dilatado
transbordem enigmas

  Frazon, Luiz. roçando água. Franca: Ribeirão Gráfica Editª, 2008, p 34.
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05/05/12

Contando...

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1. - O conto A Confirmação foi publicado no Suplemento h do Macau Hoje (no Território de Macau,
      República Popular da China) no dia 4 de Maio de 2012 ( a referência bibliográfica já foi atualizada
      neste blogue);


2. - Miguel Real escreve sobre a antologia Um rio de Contos na sua mais recente obra: " O Romance
      Português Contemporâneo, 1950 - 2010 ", Editorial Caminho, 2012, pp 188 - 189;

3. - O conto  Nem toda a cidade é triste surgirá dentro de dias no próximo número da Revista Letras
       com Vida.
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04/05/12


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  " Soneto das Luzes "


Uma palavra, outra palavra, e vai um verso,
eis doze sílabas dizendo coisa alguma.
Trabalho, teimo, limo, sofro e não impeço
que este quarteto seja inútil como a espuma.

Agora é hora de ter mais seriedade,
para essa rima não rumar até o inferno.
Convoco a musa, que me ri da imensidade,
mas não se cansa de acenar um não eterno.

Falar de amor, oh meu pastor, é o que eu queria,
porém os fados já perseguem teu poeta,
deixando apenas a promessa da poesia,

matéria bruta que não coube no terceto.
Se o deus flecheiro me lançasse a sua seta,
eu tinha a chave pra trancar este soneto.

   Secchin, Antonio Carlos. Todos os Ventos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2002, p 137.
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03/05/12

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 " Colóquio "


Em certo lugar do país
se reúne a Academia do Poeta Infeliz.

Severos juízes da lira alheia,
sabem falar vazio de boca cheia.

Este não vale. A obra não fica.
Faz soneto, e metrifica.

E esse aqui o que pretende?
Faz poesia, e o leitor entende!

Aquele jamais atingirá o paraíso.
Seu verso contém a blasfémia e o riso.

Mais de três linhas é grave heresia,
pois há de ser breve a tal poesia.

E o poema, casto e complexo,
não deve exibir cenas de nexo.

Em coro a turma toda rosna
contra a mistura de poesia e prosa.

Cachaça e chalaça, onde se viu?
Poesia é matéria de fino esmeril.

Poesia é coisa pura.
Com prosa ela emperra e não dura.

É como pimenta em doce de castanha.
Agride a vista e queima a entranha.

E em meio a gritos de gênio e de bis
cai no sono e do trono o Poeta Infeliz.

  Secchin, Antonio Carlos. Todos os Ventos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2002, pp 26 - 27.
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02/05/12


 " É Ele! "


No Catumbi, montado a cavalo,
lá vai o antigo poeta
visitar o namorado.
Não leva flores, que rapazes
raro gostam de tais mimos.
Leva canções de amor e medo.
Cachoeiras de metáforas,
oceanos de anáforas, virgens a quilo.
Ao sair, deixa ao sono cego do parceiro
dois poemas, um cachimbo e um estilo.

  Secchin, Antonio Carlos. Todos os Ventos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2002, p 17.
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01/05/12

" A não serem dissabores,/ Um também te houvera dado. "

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 " O 1º de Maio "

Entra hoje o mês das flores,
Lindo Maio, o perfumado,
Em que todo o namorado
Dá um ramo aos seus amores!
A não serem dissabores,
Um também te houvera dado.

Dera-te uma bela rosa
Só meia desabrochada;
Inda de pranto banhada
D'aurora pura e formosa!
Imagem da desditosa,
Com meia vida roubada!

Um jasmim também te dera...
É tão alvo e delicado!...
Em seu cálix apertado
Doce lágrima se gera,
Que á memória te trouxera
Um peito nunca manchado!

Mas eu só tinha amor,
Que encontrei murcho no chão!
Calcado sem compaixão,
Já não parecia uma flor!
Ah! quem não teria dor
De assim ver a perfeição?

O meu jardim acabou;
Já não tenho mais que dar:
Para dele me lembrar
Só uma silva ficou
Selvagem, que se criou
Para prender, e rasgar!

   in A Poesia Ultra-Romântica, Vol. I de Jacinto Prado Coelho.

Nota - Maria Browne ( 1800-1861 ) formou, juntamente com Soares de Passos, o díptico mais importante do nosso ultra-romantismo poético. Assinou com vários pseudónimos e teve um salão literário que, na época, era frequentado pelos mais importantes intelectuais como Camilo e Arnaldo Gama.
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29/04/12

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  " Não passarão "


Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

   Torga, Miguel. Poesia Completa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p 732.
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27/04/12

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 " Plateia "


Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

   Torga, Miguel. Poesia Completa. Lisboa: Publicações D. Quixote, 2000, p 626.
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26/04/12

" Biografia "


Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

  Torga, Miguel. Poesia Completa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p 561.

25/04/12

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Pena que as revoluções
não as façam os tiranos
se fariam bem em ordem
durariam menos anos

liberdade sairia
como verba de orçamento
e se houvesse qualquer saldo
se inventava suplemento

pagamento em dia certo
daria para isto aquilo
o que sobrasse guardado
de todo o assalto a silo

mas o que falta aos tiranos
é só imaginação
e o jeito na circunstância
é mesmo a revolução.

   Silva, Agostinho da. Uns poemas de Agostinho. Lisboa: Ulmeiro, 1997, p 86.
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23/04/12

"foi na rua das Musas/onde ainda hoje as lágrimas fabricam lama"

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( Como desde rapazinho só convivia com os meninos
finos da Foz, de vez em quando metia-me no eléctrico
e ia visitar o sítio onde nasci de pais pobres e límpidos.)

Na rua das Musas
onde nasci já aos gritos
(que nunca acordaram ninguém);

foi na rua das Musas
onde ainda hoje as lágrimas fabricam lama
nas lajes de granito
que jurei por ti, mãe,
tornar o sol menos imundo
com este grito

"Poeta,
arranca a Chama
( isto é: o Frio)
que existe no fel
das raivas sujas
- e com ele
incendeia
o mundo."

 Ferreira, José Gomes. Obras de José Gomes Ferreira, Poeta Militante - 3º Vol. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1998, pp 202 - 203.
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"enquanto se colam nos lábios dos ditadores/ mecanismos com espelhos para darem a ilusão do diálogo,"

( Vejo passar gente monstruosa através
da montra do café. Pesadelo.)

 

Alguns destes monstros
já nasceram como os vejo de mordaças de pano cru,
açames de gelo,
simulacro de dentes com fome a sorrir (chora-se melhor assim),
silêncio por fora das palavras
de que ninguém já sabe o sentido
sem desterro.

Outros entraram nas escolas
de bocas ainda livres
- mas logo corriam os senhores professores com agulhas enfiadas de treva
a coserem-lhes os lábios
com teias de aranha.
E ai de quem não desaprendesse
que os números têm a cor misteriosa dos dedos
- e fechem por favor as crianças nos quartos às escuras,
ensinem-nas a sonhar
a instrução primária dos cárceres
(contanto que não sonhem alto).
Os mais velhos,
esses operam-se,
substituem-se-lhes as cordas vocais por guitarras de açúcar ardente,
enquanto se colam nos lábios dos ditadores
mecanismos com espelhos para darem a ilusão do diálogo,
e pequenos aparelhos transparentes de repetir ecos.

Outras vezes encosto-me
à porta do café
à espera do Carlos ou do Fafe
contente de haver raparigas luminosas nos intervalos,
todas tão ágeis nas suas mordaças de cetim implácido,
tules de voos mentais,
filtros de véus de mel
a cheirarem tão bem a palavras lúcidas
atravessadas de risos e saliva.

De vez em quando
apetece-me quebrar os vidros do café
e perguntar aos monstros
(por gestos, visto as próprias palavras já serem mordaças):
como conseguem comer
com dentes de algodão em rama?
E onde aprenderam a sorrir assim
com as gengivas forradas de sedas de punhal
e arame farpado nos bocejos?
- como se as mordaças tornassem o mundo mais azul
e as línguas beijassem melhor
fechadas em redomas de cristal.
Agora só falta amordaçar o resto,
o vento, os pássaros, as fontes, os vulcões, o fogo,
as maçãs, os oboés, os tufões,
a desordem do sonho.

A desordem, sim. Porque a desordem já começou - informam os jornais
com alarde de tinta inquieta.
A desordem que vai destruir os tijolos do sono
nesta cidade
edificada com perfumes mortos
e materiais de luz
por arquitectos que usam principalmente a argamassa do sol
traçada de céu vivo
na construção de cofres subterrâneos dos Bancos Loucos
onde os poetas guardam o ouro das nuvens dos poentes
para as reformas na velhice.

Sim. Garantem-me e eu confirmo,
graças aos sinais secretos que aprendi para furar as mordaças
( ai dos poetas que não rasgam mordaças nem pedras!)
que já começou a desordem.

Mas uma desordem tão compassada e grave
que, pela primeira vez, não me apetece gritar
com os outros,
os que só agoram reparam nas mordaças
e deixaram de ouvir
os violinos de viverem mortos,
como quem pede desculpa de haver relâmpagos e trovões
- a falsa linguagem dos gigantes das alturas
que faz tremer o mundo
quando se torna humana.

Mas não assim, nas bocas cerradas à força com adesivos
destes pobres anões montados em sombras de burros espectrais
que apodrecem amordaçadamente dos cascos às crinas
e mesmo quando zurram não arreganham os dentes
para acordar o marasmo do pântano
onde os combates continuam e continuarão até à última caveira do Sol,
- só com furor de ecos
em busca de lâminas
nas manhãs desistentes.

  Ferreira, José Gomes. Obras de José Gomes Ferreira - Poeta Militante, 3º Vol. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1998, pp 52 - 55.
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20/04/12

17/04/12

"(...) jantar e baile anuais do clube de golfe, que muitos consideravam o acontecimento social mais elevado..."

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  Não muito tempo depois da sua chegada ao Grand-Hôtel de Cabourg, em Agosto de 1912, Proust aceitou um convite de Charles d'Alton para estar presente no jantar e baile anuais do clube de golfe, que muitos consideravam o acontecimento social mais elevado da época estival da Normandia. No dia do baile, Proust vestiu-se e saiu para o passeio da marginal onde, entre as seis e as sete, se deveria encontrar com Nahmias, que regressava de Deauville. Proust esperou durante bastante tempo, mas o jovem nunca apareceu.
  Furioso com Nahmias por o ter deixado à espera, Proust regressa ao hotel. Quando o ciúme despontava, Proust mostrava muitas vezes uma possessividade tão dominadora e irracional como a de Swann e a do Narrador nos seus piores momentos. O escritor dirigiu a sua fúria ao jovem inconsciente, começando a escrever uma carta longa e altamente crítica, dizendo-lhe que um pequeno acontecimento como a sua falha em comparecer ao encontro podia assumir uma grande importância para alguém de fraca saúde (...)
  Proust tinha feito a pior escolha possível de palavras. Nahmias, que nessa altura já conhecia bem Proust, tinha de facto, voltado a toda a pressa de Deauville, uma decisão que se viria a revelar desastrosa. Durante o caminho para chegar a tempo ao encontro com o romancista, o carro de Nahmias atropelou uma rapariguinha, matando-a. Desconhecedor destes trágicos acontecimentos, Proust pôs a carta de lado para comparecer no jantar de gala. Depois da festa, ainda enraivecido por causa da ausência de Nahmias, Proust retomou a escrita da carta e terminou a sua acusação contra o jovem irresponsável (...).
  Ao admoestar Nahmias, Proust usou uma linguagem semelhante àquela utilizada por Swann e Charlus quando enfurecidos. Os "muito profundos e genuínos sentimentos de amizade" que ele tinha por Nahmias obrigavam-no a observar que o seu jovem amigo "não era perfeito. Nem sequer és feito de uma pedra que possa ser esculpida quando tem a sorte de aparecer a um escultor (e podes perfeitamente encontrar melhores escultores do que eu, embora eu o tivesse feito com ternura); és feito de água, vulgar, impalpável, sem cor, fluída, eternamente insubstancial, correndo infinitamente para longe". Swann utiliza imagens semelhantes e igualmente diminutivas para punir Odette numa situação análoga: "Tu és uma água sem forma que correrá por qualquer inclinação que se lhe ofereça, um peixe desprovido de memória, incapaz de pensar, que toda a sua vida no aquário continuará a colidir cem vezes por dia com a parede do vidro, confundindo-a sempre com a água." Uma observação feita no final da carta sugere que Proust já tinha concebido a famosa cena em que a mais velha amiga de Swann, a duquesa de Guermantes, estando atrasada para um jantar, não tem tempo para o escutar, embora ele tenha, por insistência dela, acabado de lhe revelar que tem uma doença terminal e que morrerá em breve. "Um dia", escreveu Proust a Nahmias, "descreverei essas personagens que, mesmo de um ponto de vista vulgar, nunca compreenderão a elegância, quando uma pessoa está vestida e pronta para um baile, de desistirem dele de forma a fazerem companhia a um amigo."(in No Caminho de Swann 1:412. Cf. O lado de Guermantes 3: 816-19)
  Reconhecemos ecos do mesmo veneno de Proust numa outra passagem, quando Charlus repreende o Narrador por ter falhado um teste anterior para corresponder às expectativas da favorável opinião inicial que o barão tinha dele: "Podes dizer que encontraste inesperadamente uma amizade de primeira categoria, e que a estragaste." ( Cf. Corr. 8: 208). Tais explosões eram muitas vezes baseadas no próprio mau feitio de Proust: a sua destruição do chapéu de Bertrand de Fénelon foi transformada no estrago provocado pelo Narrador a um chapéu de Charlus, que havia feito uma proposta semelhante à que Proust fizera a Nahmias de o esculpir numa pessoa melhor ( Cf. O lado de Guermantes 3: 758-69 ). Em Deauville, naquela noite em que Nahmias não apareceu, estava muito mais em jogo do que um chapéu novo. Quando Proust soube que o carro de Nahmias, na pressa de chegar a tempo, tinha matado uma criança, sentiu-se envergonhado.

   Carter, William C. As paixões de Proust. Lisboa: Nova Vega, 2009, pp 129 - 131.
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16/04/12

" C'est un jeu dangereux parce que quelqu'un perd obligatoirement. "

( A segunda parte deste romance de Besson, que foi, aliás, a sua primeira obra obtendo de imediato o Prémio da Academia Goncourt, é toda ela epistolar. No final da presente carta Proust fala a Vincent do seu amigo Alfred Agostinelli, cuja morte prematura num acidente de aviação traria ao romancista um dos seus maiores desgostos, que o levaria mesmo a amparar até ao fim a viúva desse seu preferido.
 Besson é hoje um dos grandes romancistas da sua geração, traduzido para cerca de duas dezenas de línguas, adaptado ao cinema, publica também nalgumas das melhores Editoras europeias.)

  Je crois en effet - pardonnez-moi - que l'amour est nécessairement la cause de souffrances.
  Apprenez que l'autre est, avant tout, celui qui nous fait ou fera souffrir car il se dérobe toujours à nous, tôt ou tard, franchement ou par des voies détournées, consciemment ou inconsciemment, totalement ou partiellement. Oui, toujours il se dérobe et nous nous trouvons dans l'impossibilité de le posséder intièrement. Posséder: le vilain mot, n'est-ce pas? Je vous entend d'ici. Et, pourtant, l'amour est, qu'on le souhaite ou non, une affaire de possession à la fin des fins. M'aimes-tu? En aimes-tu un autre que moi?
  Pis: c'est précisément parce que l'autre se dérobe qu'on l'aime davantage. C'est l'obstacle qui nourrit la passion, qui la cristallise. C'est la difficulté. C'est cette nécessité permanente de séduire, de convaincre, de garder près de soi, d'empêcher de partir qui est l'aliment de l'amour. Ainsi, nous sommes dans un cercle vicieux, perdant forcément alors que nous croyions l'emporter, vaincu au final parce que nous ne pouvions pas gagner. L'amour génère sa propre destruction.
  Je veux vous dire également que, lorsque je déclare que ceux qui aiment et ceux qui ont du plaisir ne sont pas les mêmes, je signale simplement que, dans une relation amoureuse, souvent, il en est un qui donne et l'autre qui prend, un qui s'offre et l'autre qui choisit, un qui s'expose et l'autre qui se protège, un qui souffrira et l'autre qui s'en sortira. C'est un jeu cruel parce qu'il est pipé. C'est un jeu dangereux parce que quelqu'un perd obligatoirement.
  (...) Vincent, vous avez seize ans et j'en ai quarante-cinq. De nous deux, je suis celui qui sait. De nous deux, vous êtes celui qui a raison. On a toujours raison quand on a seize ans. Ce qu'on croit à l'âge de seize ans, peu importe que cela soit ou non la vérité. Ce que l'on croit à l'âge de seize ans est plus fort que toute vérité.
  (...) Et ce n'est pas assez de dire que je l'aimais, je l'adorais. Et pourtant, je ne pourrais vous affirmer avec certitude que l'affection dont j'étais l'objet était réellement sincère car il s'y mêlait une part non négligeable d'intérêt et il m'a fallu, en bien des occasions, supporter les affres d'une jalousie épuisante alimentée par sa frivolité, son inconstance, sa cruauté parfois. Voilà bien une pauvre histoire, n'est-ce pas? C'est celle de ma vie.
  (...) Écrivez-moi, mon cher petit.

    Besson, Philippe. En l'absence des hommes. Paris: Éditions Julliard, 2001, pp 164 - 166.
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15/04/12

" Bien sûr, je sais qu'il ne faut pas forcer l'écriture... "

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( Diálogo entre Marcel Proust e o adolescente Vincent )

 Écrire exige un engagement exclusif. On ne peut rien faire d'autre que cela: écrire. On ne doit être distrait par rien. On doit se consacrer entièrement au livre, lui sacrifier tout le reste. C'est un sacerdoce, une entrée en religion. Savez-vous que même lorsque je n'écris pas, j'écris tout de même? Le temps de la contemplation, celui de l'observation, celui de la mondanité, celui de l'oisiveté sont des temps qui servent l'écriture. (...) La vie dans son entièreté est dédiée à l'écriture. Je ne vis que pour l'écriture. C'est impossible de faire autrement. Et cette nécessité devient encore plus aigue quand on sent, comme moi, le terme de sa vie se rapprocher à grands pas. Il me faut finir ces livres auxquels je me consacre. Comprenez qu'il n'y a rien de plus important que de finir ces livres. J'espère qu'il me sera laissé suffisamment de temps. J'écris dans l'urgence, dans la fébrilité, dans la terreur (...)
 Écrire est le sens que je donne à mon existence. Mon existence disparaît derrière l'écriture. Ou encore je pourrais vous dire: si je n'écrivais pas, je crois bien que je serais mort.

 Il y a vos mots qui réssonnent dans l'air vicié de cette chambre d'asthmatique, dans cette atmosphère confinée, étouffante, écrasée d'étroitesse: si je n'écrivais pas, je crois bien que je serais mort. Et, alors, je vous crois. Dans cet espace improbable, dans cette furie de l'écriture, vous cherchez à survivre, à sauver votre peau. Je trouve cela tout à la fois misérable et flamboyant, pathétique et magnifique. Je ressens pour vous une tendre pitié et une intense admiration.

  Vous reprenez: écrire est un travail. Le talent, sans doute, a un peu à voir dans toute cette affaire mais, avant tout, il faut travailler, travailler d'arrache-pied, se donner une discipline de l'effort, des règles. Ainsi moi, vous l'avez compris, quand la nuit vient, je me mets à mon bureau et je fais mes pages d'écriture. J'écris jusqu'à l'épuisement, jusqu'à la victoire sur l'insomnie, ou jusqu'à la défaillance de la main (...).
  Bien sûr, je sais qu'il ne faut pas forcer l'écriture, ne pas se forcer à écrire quand on ne se trouve pas dans des dispositions à le faire. Il faut attendre que cela vienne, que cela soit là. De même, il faudrait ne pas prolonger le moment de l'écriture. Quand on sent que c'est fini, alors c'est fini. Il ne faudrait pas s'entêter. Et, pourtant, je m'entête. Je violente l'écriture. Je la fais venir. Je la pousse à se manifester. Et je repousse sans cesse l'instant où je devrais reposer la plume. Je vous l'ai dit: seul l'épuisement peut stopper mon élan.
(..) Je bâtis une église. C'est cela que je fais. J'élève un monument. (...) Et, dans cette église, on raconte l'histoire d'hommes et de femmes, on communie dans une même ferveur, on s'approche d'une forme d'universalité.

  Besson, Philippe. En l'absence des hommes. Paris: Éditions Julliard, 2001, pp 107 - 109.
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13/04/12

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  Não sofremos com os nossos vícios, sofremos tão-só por não nos podermos conformar com eles. Conheci todos os sofismas da paixão, conheci também todos os sofismas da consciência. As pessoas imaginam que reprovam certos actos porque a moral se lhes opõe; na realidade, obedecem (têm a felicidade de obedecer) a repulsas instintivas. Ficava surpreendido, contra a minha vontade, pela extraordinária insignificância das nossas faltas mais graves, pelo escasso lugar que ocupariam na nossa vida, se o remorso não as prolongasse no tempo. O nosso corpo esquece como a nossa alma; talvez isso explique, nalguns de nós, renovadas inocências (...).
  Venci. À custa de recaídas miseráveis e de mais miseráveis vitórias, consegui viver um ano inteiro como teria desejado viver toda a minha vida. Minha amiga, não haveis de sorrir. Não pretendo exagerar o meu mérito: ter o mérito de se abster de uma falta é uma maneira de ser culpado. Dirigimos por vezes os nossos actos; não tanto os nossos pensamentos; não dirigimos os nossos sonhos. Tive alguns sonhos. Conheci o perigo das águas estagnadas. Como se agir nos absolvesse. Existe qualquer coisa de puro, mesmo numa acção culposa, em comparação com os pensamentos que dela fazemos. (...) Esse ano, em que não cometi, garanto-vos, nada de repreensível, foi turvado por mais fantasmas do que nenhum outro, e por fantasmas mais baixos. Dir-se-ia que essa chaga, que sarara demasiado depressa, voltara a abrir a alma e acabara por envenená-la. Ser-me-ia fácil fazer um relato dramático, mas nem vós nem eu nos interessamos por dramas - e há muitas coisas que se exprimem melhor não as dizendo. Assim, eu amara a vida. Era em nome da vida, quero dizer, do meu futuro, que me esforçara por me reconquistar a mim próprio. (...) instalei uma fechadura entre a minha demência e mim próprio.
  Tornei-me duro. Abstivera-me, até então, de julgar os outros; acabaria por tornar-me, se tivesse poder para tanto, tão impiedoso para com eles como para comigo. Não perdoava ao próximo as mais pequenas transgressões; receava que a minha indulgência para com os outros me conduzisse, frente à minha consciência, a desculpar as minhas próprias faltas. (...) Receava o imprevisto dos encontros mundanos, o perigo dos rostos humanos. Encontrei-me só. Depois a solidão meteu-me medo. Nunca se está completamente só: para nossa desgraça, estamos sempre com nós mesmos.

   Yourcenar, Marguerite. Alexis ou Tratado do Vão Combate. Lisboa: Difel Editorial, 1988, pp 65 - 67.
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12/04/12

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  E agora, digo-vos adeus.(...) Éreis a única criatura frente à qual eu me considerava culpado, mas escrever a minha vida confirma-me em mim próprio; acabo por vos lamentar sem me condenar severamente. Atraiçoei-vos; não vos quis enganar..(...) Tendo sido incapaz de viver segundo a moral comum, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha: é no momento em que se rejeitam todos os princípios que convém munirmo-nos de escrúpulos. Havia tomado convosco compromissos imprudentes que a vida viria a contestar: peço-vos perdão, o mais humildemente possível, não por vos deixar, mas por ter ficado tanto tempo.

  Yourcenar, Marguerite. Alexis ou Tratado do Vão Combate. Lisboa: Difel Editorial, 1988 - p 102.
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11/04/12

" (...) ele pediu um pano que o vento mexesse, queria pintar o movimento. "

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        " Vertebrado "

  Sempre andei por esse rio sem nunca entrar nele A balsa daqui carrega mais do que a estrutura suporta. Ela é um estrado flutuante com dois tonéis cheios de ar debaixo. Transporta farinha, peixe, animais, gente, o que puder ser empilhado.
  Ondas borrifam as crianças, primeiras da fila, ficam na frente como num comício de vereador. Foi pela balsa que atravessou um estrangeiro, ele tinha um mapa da região e perguntou no posto de saúde se alguém queria servir de modelo. Não queria doente, mas tanta gente num lugar só, era mais fácil achar um corajoso. O povo riu do rapaz. Modelo vivo pra ficar parado na frente do estrangeiro e fazer o quê? Nada. E quem ia ver o que o moço ia pintar? Se nossa cara, a barriga ou o cansaço?
  Eu topei. O quadro ele guardou, eu fiquei com uma fotografia da pintura que ele mandou ampliar e botar moldura. Pendurei na sala. Fiquei pelada não, botei um vestido rodado, ele pediu um pano que o vento mexesse, queria pintar o movimento. Eu me exibi no píer do centro. Os peixeiros já haviam saído das canoas, as luzes da vila começando acender. Ele queria copiar o final do sol, eu parecia uma cebola com as cascas esvoaçantes. Atrás de mim rebolava o rio, querendo aparecer.
  No quadro, o rio se mexe mais que o tecido, mostra os dentes. Depois de mim outras quiseram um retrato, o estrangeiro foi ficando. Os maridos não deram bola, a pintura ao ar livre, todo mundo vendo o que estava na frente e atrás da tela.
  A balsa afundou há três meses, sobrou um ou outro passageiro. Por sorte, naquele dia fiquei aqui cuidando do meu serviço. Um dos sobreviventes foi o pintor, ele vinha com um pacote de tintas que mandou trazer da terra dele. Um tonel se soltou do estrado e a balsa ia tombando, mulher aos gritos, criança chorando, urro de porco. Do píer não deu pra ver o naufrágio, soubemos do acidente um dia depois pelo pintor que deu braçadas até à beira da vila vizinha, chegou aqui sem tintas. Perguntei o que tinha acontecido, ele respondeu no meio da praça. Disse que o rio não queria mais nada sobre ele, não ia carregar esse mundaréu nas costas, dali para diante que o deixássemos sozinho. Que enfiassem anzol em lago ou mar, agora só liberava o banho, que é quando ele se acalma com o calor de um corpo.
  O povo deu o pintor por doido. O estrangeiro ficou chateado, ele já tinha visto coisa pacata se rebelar. Disse que na Índia um elefante foi criado sem a mãe e ficou delinquente. O rio a mesma coisa, se corcoveou uma vez, ia corcovear de novo, não havia outra autoridade acima dele. O rio estava orfão.
  A cidade mandaria outra balsa em um mês, a prefeitura tinha interesse nesse povo daqui que ia comprar mantimento lá. Dois meses e nada. O pintor extraiu corante de raiz e fruta, ia pintar em fibra de côco, agora até pescador queria se ver torto com o rio ao fundo. Os pescadores vendiam galinha e lagarto, os peixes começaram a se desviar de toda isca, feito gente. Em pouco tempo começou a faltar mantimento, um rapaz improvisou uma jangada, precisava levar a mãe doente para o hospital e trazer farinha. Nunca mais voltaram. Outros que foram procurá-los também não.
  A balsa lá em baixo virou alojamento de lambari. A vila podia se sustentar sozinha, era só ninguém querer o progresso. Foi a exigência do rio, que sua margem não se alterasse, o deixassem livre, sem carga. O rio era um animal vertebrado que se arrastava pelo leito, não caberia tão encaixado em outro. Há muitos anos sua cabeça e barriga haviam passado por aqui, nem vila existia. Hoje o que caminha diante de nós é sua cauda, tão longa que levará tempo pra essa água toda desaparecer. Temos que esperá-lo terminar a travessia.

   Fuego, Andrea Del. Vertebrado in um rio de contos, Antologia Luso-Brasileira. Dafundo: Editorial Tágide, 2009, pp 42 - 43 (Organização de Celina Veiga de Oliveira e Victor Oliveira Mateus).
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29/03/12


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                  " A  CONFIRMAÇÃO "

  Ao ver-lhe a aliança, pela primeira vez, Teresa sentiu um misto de estupefacção e asco. Aquele pedaço de prata reluzente, assim exibido no anelar esquerdo, trouxe-lhe à memória as reuniões columbófilas da sua infância: as aves fechadas em minúsculas gaiolas, o arrulhar monotonamente idêntico, a domesticação a desenhar-se numa liberdade para divertimento alheio. Como poderia, pois, alguém alegrar-se com uma entrega cheirando à oca rotina das aparências?, pensou Teresa, à entrada do café, enquanto se amparava à arca dos gelados. O que a chocava não era - como é óbvio - o símbolo do pacto, mas o ar de conquista, de alvo conseguido com que Diogo exibia o troféu.
  ( Sabes?, diria ela, nessa tarde, a Gonçalo, seu amigo de infância que sempre a entendia ou a isso se esforçava: era como se se estivesse frente à vida como uma corrida de obstáculos e aquele idiota andasse a apregoar que tinha superado mais um... )
  Cumprimentaram-se. Sorriram. Tomaram o pequeno-almoço ao balcão como era hábito: ele sempre de sorriso estudadamente inocente em riste, de olhar perverso que prometia o que de antemão sabia que jamais iria dar e com as mesmas palavras de uma venenosa fragilidade a armadilharem-lhe os instantes. Teresa não podia deixar de fixar a aliança, e ele, provocatoriamente, fingiu sacudir com essa mesma mão umas migalhas que nem sequer tinham caído no casaco. Despediram-se como de costume. Nessa tarde, a pretexto de uma questão qualquer, Diogo arranjara um modo de lhe ligar para o telemóvel. Enviara-lhe igualmente dois incipientes emails com notícias sobre uma cantora de que ambos gostavam.
  No dia seguinte não se encontraram, de manhã, no café. Estudadamente, ou não, ele não aparecera à hora do costume para o pequeno-almoço. Mas, em contrapartida, Diogo sentar-se-ia à sua mesa, na esplanada, naquele mesmo dia, ao fim da tarde. Sorridente. Acabado de sair da capa de uma revista de moda masculina. O anelar esquerdo a tamborilar, a despropósito, no tampo da mesa. Ela não conseguia disfarçar o seu nervosismo e - porque não confessá-lo? - o seu desejo, mas ele, com ar de quem acena mas não dá, convidou-a para nessa noite irem ao cinema, para, minutos depois, exibir a pose de quem se recordava de algo e logo dizer que não, afinal não podiam ir, ele tinha-se esquecido de uma coisa: tinha um encontro com uma amiga e já se estava a esquecer. Teresa não perguntou nada, apenas se ia acusando de não conseguir sair daquele redil a que se prendia cada vez mais.
  ( Não é possível que tudo aquilo seja representação!, confidenciou ela a Gonçalo, por telefone nessa mesma noite. Olha lá, perguntou-lhe este, por sua vez: tu não estarás a ficar um pouco paranóica? Se calhar até estou, pois não pode haver ninguém assim tão perverso, tão monstruoso... )
  O resto dessa semana passou-se exactamente da mesma maneira: os encontros da manhã, os fins de tarde na esplanada, os melífluos telefonemas, os emails ambíguos. Dir-se-ia que aquele fim de Julho iria trazer a Teresa uma qualquer oferta promissora, uma qualquer regeneração que lhe adensasse a vida e a dotasse de sentido e alegria. E, com este estado de espírito, entrou ela na primeira semana de Agosto. Nos primeiros dias do mês estranhou que Diogo não aparecesse mais, nem para os pequenos-almoços nem ao fim do dia na esplanada. Estranhou de tal modo que não se conteve e, ao fim de uns tempos, perguntou a um dos empregados. Mas então a menina não sabe?! Fitou-a atónito o empregado. Não sei o quê? O Diogo casou-se no domingo passado e deixou de morar aqui na rua. Teresa não soube que cor adquiriu, porque ouviu a voz do empregado como vinda de muito longe: está a sentir-se bem? Estou, estou sim, obrigado! Mas o Diogo não lhe disse, vocês eram tão amigos, estavam sempre aqui?, perguntou o empregado, de olhos esbugalhados. Ah, vai ver que ele me disse - recuperou Teresa -, mas eu sou tão distraída que devo ter feito qualquer confusão. Pois!, tartamudeou o empregado, já que era suposto ter de dizer alguma coisa.
  ( Não é possível, sussurrou ela a Gonçalo, que, enroscado num sofá não sabia o que responder. Ao fim de uns minutos ele ousou dizer: talvez se tenha esquecido de se despedir ou pensasse que o assunto não te interessava. Ela fulminou-o com o olhar: por favor, Gonçalo, agora não, solidariedade masculina a estas horas não, e muito menos vinda de ti.)
  Teresa nunca mais falou em tal coisa. Se nela pensava, ou não, nunca o viremos a saber, pois não deixou nada escrito acerca de tal assunto. Nos primeiros dias de Setembro, meteu-se no carro e rumou à casa de Tavira, onde iria passar o resto das férias.

  Dois meses depois, por um puro acaso, Gonçalo encontraria Diogo numa das discotecas mais in de Lisboa. Cumprimentaram-se. Sabes quem morreu?, perguntou-lhe Gonçalo. O outro olhou-o como se a pergunta não fizesse sentido naquele momento. Mas Gonçalo insistiu: a Teresa! A Teresa, qual Teresa?, sorriu o outro com o ar falsamente ingénuo do costume. Eh, pá, a Teresa, aquela que morava no prédio em frente ao teu... vocês davam-se... teve um desastre de automóvel lá em baixo, no Algarve... teve morte imediata. Mas eu não sei de quem estás a falar!, exclamou Diogo, através da música, postando um ar doce, quase angelical. Eh, pá, não me digas que não te lembras da Teresa, vocês deram-se durante anos?! Não, não estou a ver quem é... enfim, é a vida! Olha a ti é que gostei de te voltar a ver, estás com bom aspecto. Ciao, a gente vai-se encontrando por aí! E regressou para junto de um grupo esfuziante, deixando em Gonçalo a confirmação de uma suspeita que nem sequer fora sua.

  Mateus, Victor Oliveira. Suplemento h do Macau Hoje. Macau, 4 de Maio de 2012.
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28/03/12

" No existe más que una danza que nuestras figuras simulan... "

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" Poema 7 do Ciclo Los Gilles de Binche "

Decir que avanzamos que no avanzamos no es verdad
Lo que llamamos realidad es la locura del regresar de las cosas
Porque las cosas vuelven sobre sí mismas regresamos con ellas
Somos los aparecidos de nosotros mismos como fantasma del día
Como la noche es fantasmal copia fantasmagórica de la noche que la precedió
Y puesto que somos los mismos que los que nos precedieron
Fallezcámonos de una vez de veras o cesemos simplemente de preceder
De preceder el cortejo de aquellos que nos precedieron de aquellos a los que seguíamos
No fallecemos cedemos la precedencia cedemos el paso
No fallecemos giramos en la invisibilidad de la danza
Pasamos el relevo de la locura la enfermedad la contaminación del ritmo
Falleciendo precedemos de otra manera otramente otra danza más grande
Precediendo a aquellos que ahora preceden la danza que precedimos
Ninguno precederá ninguno fallecerá al final puesto que el círculo nos abraza
Y que girando sobre nosotros mismos simplemente hacemos girar la danza
Sabemos que danzamos nos disfrazamos de danzarines lentos
Nos autoenmascaramos con la lentitud la realidad de nuestra danza
Nos ocultamos la locura que consiste en recuperar en reproducir las figuras
Porque la infancia de la danza es siempre la que corre ante nosotros
Con nosotros a la zaga corriendo tras la figura infantil de la danza
Cuántos amaneceres desde el primer día de la Creación Recreación.
Cuántos millones de miles de millones de amaneceres lo mismo multiplicado por sí mismo
Cuántas repeticiones cuántas máscaras de nosotros mismos de una vez
No fallecemos no dejamos de preceder nuestra precedencia
Todo fue nosotros ancestralmente será nosotros anteriormente a la anterioridad
Existen dos sentidos en nuestra vida tal como dos maneras de girar en la danza
No existe más que una danza que nuestras figuras simulan bailarla nos liberará
La danza nos liberará del retraso la lentitud que padecemos al sucedernos
La danza nos hará regresar a la precedencia de precedencia
Nunca se da una inmovilidad contra la danza
Nunca se da una inmovilización del movimiento con la muerte de la danza
Se da la liberación de aquello que continúa
Se da la liberación de la repetición
Se da el regreso mismo en sí mismo sobre sí mismo

   Darras, Jacques. Arqueología del agua, Antologia 1988 - 2001. Madrid: Libros del Aire, Madrid,
2011, pp 123 - 127 (Edição bilingue; notas e tradução de Miguel Veyrat).
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" Pero qué es una poesía que ya no quiere dejarse llevar por el canto? "

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" Poema 2 do ciclo Nombrar Namur "

En el hombre, la voz que canta se escucha bajo la voz que habla.
La voz del canto está al fondo de la garganta más cerca de los pulmones que la palabra.
Que asimismo está más hacia adelante, hacia afuera, cerca de los dientes,
Más cerca del afuera.
La voz del canto está atrás, más atrás, en el desfile que enfila la respiración a la salida de los pulmones.
La voz del canto es alimentada directamente por la respiración de los pulmones.
Que asimismo son alimentados por el corazón y el pulso de la sangre.
La voz del canto es como un clima interior.
Un cielo interior.
Respiración y sangre forman um especie de microclima que se parece un poco al de las playas litorales.
El mar, la sangre.
El viento, el respirar.
Las olas, la onda del canto.
El cielo, qué pintaria al cielo en todo esto?
El cielo sería la oreja que escucha.
La voz del canto se calienta directamente con la sangre de las arterias pulmonares.
Es lo que hace que los hombres tengan la voz más o menos cálida,
Eso se debe al corazón, eso se debe a la sangre.
Ved qué bien nos informan los aparatos de teléfono o micrófono que son como los intrumentos médicos para auscultar la voz.
Son lupias, son filtros para detectar, concentrar lo que en las voces llega de verdad desde la pequeña caja pulmonar de resonancias vocales.
Excluyendo todos los parásitos.
Al abrigo de toda interferencia externa como el coeficiente de enfriamiento de la palabra al contacto del aire.
Como el coeficiente del ángulo de incidencia de la penetratión de la palabra en el aire.
Así pues, poniéndome como mi proprio ejemplo, observo que en la conversación corriente mi voz es sorda.
Oigo que no la oyen.
Oigo también que no tengo especial empeño en que la oigan.
Esto explica aquello.
Conservo dentro lo más cálido de mi cálida voz bien calentita.
En su cielo, en mi clima interno.
Existe una intimidad de la voz.
Una intimidad escondida, un pudor de la voz.
Un pudor casi sexual o amoroso de la voz.
No siempre empleo mi voz con todo el mundo.
Ni mi playa con ondas vocales.
Ni mi sangre.
No soy un donante de sangre vocal universal.
No soy un tenor ligero en continuo arrullo.
Soy un barítono claro.
Barus, en griego, quiere decir grave.
Grave pero claro.
Soy muy sensible al barómetro.
Pongo más o menos tensión, calor en mi voz según las circunstancias.
Fuerzo más o menos la caldera.
La voz es un órgano de seducción.
La voz es un órgano sexual.
Del que tiene, por cierto, casi la forma y los atributos.
Órgano sexual de lo alto.
En los pájaros el canto sirve para aparearse.
Mas, para qué sirve la voz cuando se es poeta?
Para qué clase de apareamiento puede servir la poesía?
Sobre todo cuando ya no canta.
Cuando ya no quiere saber si confunde la voz de canción con la voz de palabra.
Cuando quiere ser poema no cantante.
Cuando confundiría casi con un parásito su ritmo interno prosódico irreprimible.
Un parásito de la sangre antigua residual.
Pero qué es una poesía que ya no quiere dejarse llevar por el canto?
Es decir, por el corazón, la sangre, el clima pulmonar?
Se puede no querer seducir, en poesía?
Sin duda, si se quiere permanecer soltero.
En el celibato del poema.
Sin duda.
En tales condiciones el pudor climático ya no basta.
Hay que bajar el barómetro.
Regular de otro modo la caldera pulmonar.
Del pudor pasar a la frialdad.
Gregoriana?
Aún no es bastante rigurosa!
Oyes, Reverdy?
Ajusta un poco tu sayal en Solesnes, cariño!
Veo que aún desvelas demasiado tu intimidad.
Tus pulmones yacen por tierra, sucio pequeño surrealista.

     Darras, Jacques. Arqueología del agua, Antología 1988 - 2001. Madrid: Libros del Aire, 2011,
pp 91 - 97 (Edição bilingue com notas e tradução do francês por Miguel Veyrat).
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25/03/12

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        " A Derrota "

 
Então a derrota é este sofá com todas
estas almofadas acompanhando a curva
do meu corpo prostrado? Comprei o pacote
mais caro de canais não tenho calor nem
frio e brevemente ela não virá tocar-me
à campainha ( o deserto é desimpedido
vê-se desde a varanda até longa distância).

Não dói assim tanto afinal e se excluir
a infelicidade que deveras sinto
ser feliz será qualquer coisa semelhante.

  Gregório, António. American Scientist. Vila Nova de Famalicão: Quase Edições, 2007, p 51.
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      " A Compaixão "


Algum tempo depois alguns amigos
abeiraram-se de mim abeirado
do poço de onde só o eco vinha
aos meus apelos: disseram-me é em
vão pousando ternamente as mãos nos
meus ombros nos meus braços ternamente
as mãos nas minhas mãos que era melhor
desistir: rareavam os retornos
das quedas àquela profundidade.

Já em casa tive ao telefone outros
amigos amigos que vivem no
outro lado do mundo perguntando
como te sentes? dizendo que a viram
quase hesitante - alguns juraram mesmo
que ela hesitou - abeirada do poço
mas o poço varava o mundo e não
havia perto possuidor de
corda bastante para o meu resgate.

Afectei acreditar e também
que sabendo de todas estas coisas
era deveras menos infeliz.

    Gregório, António. American Scientist. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p 35.
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23/03/12

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 " As Raízes Persistentes "

         para Albano Martins
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Traça a nítida verticalidade do gesto.
O atento sentido da página, aquele
que, paralelo ao vento, se lança
sobre os eucaliptos, sobre as janelas
entreabertas ou na colina que aos lábios
se oferece. Desenha o voo das gaivotas

através de um oceânico azul, ali,
onde os hipocampos se perfilam e o desejo,
nos andaimes da espuma, é um murmúrio
de praias ensolaradas. Arranca da porta
as ervas daninhas, essa baba de palavras
mecânicas eivadas de vazio com rastos

de inércia à mistura. Observa, por fim,
o movimento das algas firmando-se
nas crateras das rochas, na inteireza
dos poros intraduzíveis, pois, como o poeta,
é assim o dizer que não vacila, as raízes
persistentes e são assim as algas.

   Mateus, Victor Oliveira in 100 Poemas para Albano Martins. Fafe: Editora Labirinto, 2012, p 119 ( org. Maria do Sameiro Barroso, prefº Eduardo Lourenço).
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22/03/12

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  " Búscate en mí "

Alma, buscarte has en Mí,
Y a Mí buscarme has en ti.
  De tal suerte pudo amor,
Alma, en Mí te retratar,
Que ningún sabio pintor
Supiera con tal primor
Tal imagen estampar.
  Fuiste por amor criada
Hermosa, bella, y ansí
En mis entrañas pintada,
Si te pierdes, mi amada,
Alma, buscarte has en Mí.
  Que Yo sé que te hallarás
En mi pecho retratada
Y tan al vivo sacada,
Que si te ves te holgarás
Viéndote tan bien pintada.
  Y si acaso no supieres
Dónde me hallarás a Mí,
No andes de aqui para allí,
Sino, si hallarme quisieres
A Mí, buscarme has en ti.
  Porque tú eres mi aposento,
Eres mi casa y morada,
Y ansí llamo en cualquier tiempo,
Si hallo en tu pensamiento
Estar la puerta cerrada.
  Fuera de ti no hay buscarme,
Porque para hallarme a Mí,
Bastará sólo llamarme,
Que a ti iré sin tardarme
Y a Mí buscarme has en ti.

  Jesús, Santa Teresa de. Obras Completas. Madrid: La Editorial Catolica, S.A., 1986, p 655.

21/03/12

" e cá comigo nam vou. "

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Coitado, quem me dará
novas de mim onde estou?,
pois dizeis que nam som lá,
e cá comigo nam vou.

Tod' este tempo, senhora,
sempre por vós preguntei,
mas que farei, que já agora
de vós nem de mim nam sei?
Olhe Vossa Mercê lá
se me tem, se me matou,
porqu' eu vos juro que cá
morto nem vivo nam vou.

   Miranda, Sá de ( Canc.de Res., III, 154-5). Florilégio do Cancioneiro de Resende. Lisboa: Seara Nova, 1973, p 26 ( Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa ).
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" eu não me soube guardar: "

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Cerra a serpente os ouvidos
à voz do encantador;
eu nam, e agora, com dor,
quero perder meus sentidos.
Os que mais sabem do mar
fogem d' ouvir as Sereas;
eu não me soube guardar:
fui-vos ouvir nomear,
fiz minha' alma e vida alheas.

   Miranda, Sá de (Canc. de Res., III, 155-6). Florilégio do Cancioneiro de Resende. Lisboa: Seara Nova, 1973, p 25 (Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa).
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20/03/12

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Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
e, se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
porque estes tão ligeiros que passais,
nem todos para um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
que quase é outra cousa; porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.

  Camões, Luís de. Lírica Completa, Vol. II. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1980, p 194.

Notas de Maria de Lurdes Saraiva:
Saudades antigas, eternas, luzem sob a cinza do tempo inexorável e acenam com ilusórias esperanças. Mas o passado passou. E, ainda que o tempo pudesse tornar atrás, os anos vividos não se podem esquecer. Aquilo que o Poeta amou mudou tanto que é agora outra coisa. O tempo amargurou o gosto da juventude. A Fortuna hostil, o Tempo errado não permitem já esperanças de novas alegrias.
Publicado pela 1ª vez em 1598.
V. 3-4 - Cf. redondilhas "Sobre os rios que vão", 86-95: "Acha a tenra mocidade/ prazeres acomodados,/ e logo a maior idade/ já sente por pouquidade/ aqueles gostos passados./ Um gosto que hoje se alcança/ amanhã já o não vejo./ Assi nos traz a mudança/ de esperança em esperança,/ e de desejo em desejo".
V. 5 - anos, - no sentido de passado.
V. 6 - ligeiros - rápidos.
V. 7 - O sentido é talvez: os anos que entretanto passaram foram diferentes ( para cada um dos amantes).
V. 10 - dias - tempo.
V. 11 - primeiro gosto - primeiro amor.
V. 14 - espias - amarras, seguranças, apoios.
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18/03/12

" Que vês em mim, Senhor? que vês em quem/ Em tuas mãos se mete tão segura? "

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 ( Cena que antecede a execução de Inês de Castro, acusada de conspirar contra a segurança do reino.)

CASTRO

Meu senhor,
Esta é a mãe de teus netos. Estes são
Filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Para eu segura, e livre t' esperar,
Em ti, e em minh' inocência confiada.
Escusaras, Senhor, todo este estrondo
D' armas, e Cavaleiros; que não foge,
Nem se teme a inocência da justiça.
E quando meus pecados me acusaram,
A ti fora buscar: a ti tomara
Por vida em minha morte: agora vejo
Que tu me vens buscar. Beijo estas mãos
Reais tão piedosas: pois quiseste
Por ti vir-te informar de minhas culpas.
Conhece-mas, Senhor, como bom rei,
Como clemente, e justo, e como pai
De teus vassalos todos, a quem nunca
Negaste piedade com justiça.
Que vês em mim, Senhor? que vês em quem
Em tuas mãos se mete tão segura?
Que fúria, que ira esta é, com que me buscas?
Mais contra imigos vens, que cruelmente
T' andassem tuas terras destruindo
A ferro, e fogo. Eu tremo, Senhor, tremo
De me ver ante ti, como me vejo.
Mulher, moça, inocente, serva tua,
Tão só, sem por mim ter quem me defenda.
Que a língua não s' atreve, o esprito treme
Ante tua presença, porém possam
Estes moços, teus netos, defender-me.
Eles falem por mim, eles sós ouve:
Mas não te falarão, Senhor, com língua,
Que inda não podem: falam-te co as almas,
Com suas idades tenras, com seu sangue,
Que é teu, te falarão: seu desamparo
T' está pedindo vida; não lha negues.
Teus netos são, que nunca téqui viste:
E vê-los em tal tempo, que lhes tolhes
A glória, e o prazer, qu' em seus espritos
Lhe está deus revelando de te verem.

REI

Tristes foram teus fados, Dona Inês,
Triste ventura a tua.

CASTRO

Antes ditosa,
Senhor, pois que me vejo ante teus olhos
Em tempo tão estreito: põe-nos ora,
Como nos outros sóis, nesta coitada.
Enche-os de piedade com justiça.
Vens-me, Senhor, matar? porque me matas?

REI

Teus pecados te matam: cuida deles.

CASTRO

Pecados meus! ao menos contra ti
Nenhum, meu Rei, me acusa. Contra Deus
Me podem acusar muitos: mas ele ouve
As vozes d' alma triste, em que lhe pede
Piedade. O Deus justo, Deus benigno,
Que não mata, podendo com justiça,
Mas dá tempo de vida, e  espera tempo
Só para perdoar: assi o fazes,
Assi o fizeste sempre: pois não mudes
Agora contra mim teu bom costume.

     Ferreira, António. Castro e Poemas Lusitanos. Lisboa: Verbo Clássicos, 2006, pp 298 - 301.
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16/03/12

" Não lhe apagou o amor a nova esposa; "

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 " Excerto de um diálogo entre Inês de Castro e sua ama "

CASTRO

(...)
Não lhe apagou o amor a nova esposa;
Não o tão festejado nascimento
Do desejado parto: antes mais vivo
Co tempo, e co desejo ardia o fogo.
Que fará? se o encobre, então mais queima.
Descobri-lo não quer, nem lhe é honesto.
Mas quem o fogo guardará no seio?
Quem esconderá amor, que em seus sinais
A pesar da vontade se descobre?
Nos olhos, e no rosto chamejava.
Nos meus olhos os seus o descobriam.
Suspira, e geme, e chora, a alma cativa
Forçada da brandura, e doce força,
Sujeita ao cruel jugo, que pesado
A seu desejo sacudir deseja.
Não pode, não convém: a fúria cresce.
Lavra a doce peçonha nas entranhas.
Os homens foge, foge a luz, e o dia.
Só passeia, só fala, triste cuida.
Castro na boca, Castro n' alma, Castro
Em toda parte tem ante si presente.
Ele à mulher cuidado, eu ódio, e ira.
Arde o peito a Costança em furor novo.
Nem me ousam descobrir, nem vedar nada.
D' antiga Casa Castro em toda Espanha,
Já dantes do Real ceptro deste Reino
Por grande conhecida, inda meu sangue
Do real sangue seu tinha grã parte.
Mas inda à natureza dobram força,
Arte ajuntando, e manha: el-Rei ao neto
Por madrinha me dá, comadre ao filho.

AMA

Cegos, que quanto mais vedam, mais chamam.
Cresce co a força Amor: e o que à vontade
Se faz mais impossível, mais deseja.

CASTRO

Em fim, fortuna, que me já chamava
Esta glória tão grande, quebra o nó
Daquele jugo a meu amor contrário.
Leva ante tempo a morte a Infanta triste.
Herdo eu mais livremente o amor constante,
Que a mim se entregou todo, e todo vive
Na minh' alma, onde está seguro, e firme,
Já com doces penhores confirmado.
(...)

   Ferreira, António. Castro e Poemas Lusitanos. Lisboa: Verbo Clássicos, 2006, pp 231 - 233.
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15/03/12

Acerca de...(XI)

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O que mais me impressionou nessa poesia é a tensão constante entre o discurso e a forma do verso. Se é que de verso se trata. Temos de fazer algum esforço, colocar a linha entre parêntesis, para ouvir mais próxima a cadência dos outros versos, que se escondem dentro e ao redor dos definidos pela tipografia. Ao mesmo tempo, os cortes trazem um princípio de medida. Muito além, entretanto, do limite das doze sílabas: bárbaros, como se dizia. Em alguns poemas, a persistência do número de sílabas (em extensões médias de catorze, por exemplo) cria como um discurso duplo. Há uma frase que se ergue pela força do sopro lírico - a direção entusiasta da frase, para aproveitar remotamente uma formulação de Mallarmé - e que se vaza num molde abstrato, que a rompe, sem a impedir de se afirmar no seu ritmo próprio. Lembrando versículos entranhados num corpo estranho, o fraseado impõe aos poucos os princípios da sua regularidade, de que resultam interessantes harmónicos de sentidos. Por qualquer ângulo que se olhe, o que este livro faz é expor uma percepção aguda de cambiantes e contrastes. Uma desproporção anima o embate dos opostos: interior e exterior, carência e posse, olhar para o outro e olhar do outro, sensação de partida e anseio pelo regresso. O discurso constitui os temas. A forma do verso os cristaliza, por meio do corte violento e aparentemente arbitrário, dos blocos regulares de linhas que se sucedem além dos requisitos ou emblemas da sintaxe, nos quais de repente brilha uma frase repetida, modulada agora pela nova posição em que se encontra. O motivo do retorno dá o título e tom dos poemas. O poeta retorna pela memória, pela celebração do momento efémero. Retorna a si mesmo, à história de si que repete à beira do momento do abismo. Mas as suas palavras recusam o retorno fundamental. Apenas como desenho abstrato e como injunção de leitura se define esse verso. A voz coletiva do pulsar antigo aparece como escolho, ponto de referência, tentação. Por isso talvez não sinta que há de fato um tu nesses versos. Ainda quando surja, é uma duplicação da voz, um espelho, um caminho ou uma fuga de si mesmo. Uma busca, afinal. Mas essa, apesar da intenção, nunca redunda em retorno, nem se resolve em reencontro, mas apenas em viagem cujo fim só poderá ser também o fim do viajante. O que senti quando li este livro é que, para um desígnio tal e uma tal concepção do tempo e dos limites da própria percepção, a vida é mesmo um milagre, o verso também e, maior que todos, seria o regresso, se pudesse acontecer.

    Paulo Franchetti in Mateus, Victor Oliveira. Regresso. Fafe: Editora Labirinto, 2010, pp 43 - 44.
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Acerca de...(X)

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Difícil a tarefa de apresentar Regresso, de Victor Oliveira Mateus, que o leitor tem ora em mãos. E difícil por dois motivos, em especial: primeiro, porque o seu autor, poeta que é, é sempre e em tudo avesso a definições; depois, porque, levando ao paroxismo certa tendência da poesia portuguesa, o livro é todo ele uma aposta, incondicional e sem reservas, na atualidade dessa tendência, a qual, esta sim, pode definir-se como "um não sei quê, que nasce não sei onde,/ vem não sei como, e dói não sei por quê", segundo o insuperável dístico de Camões.
Trata-se, pois, aqui, de amor e memória: e entre eles a poesia, a fazer de ponte, a mediar entre o que foi e o que está sendo. É um dos "grandes temas" de sempre, caro leitor, a que assim chamamos, de resto, não por outro motivo, senão apenas porque não passam. Como Ulisses, Ítaca e o tema do regresso.
O regresso de Victor, porém, tem mais de Santo Agostinho que de Homero: é antes um retorno a si mesmo, in te ipsum redi. E a poesia, para ele, é exatamente esse caminho de volta, de um presente precário a um passado diáfano, cujo resultado, ou efeito, no fim de contas, não é nem remissão, nem negação de si: mas a algo mais modesta, e sempre mais difícil, aceitação da precariedade de vida, e, nela, da diafaneidade do sujeito: "átomo de mim na mais aérea vastidão", diz o poema-título.
"E quem pode, com um dedo, apontar um aroma?", pergunta Rainer Maria Rilke, um dos poetas-filósofos por excelência, num dos mais belos versos dos Sonetos a Orfeu. É precisamente esse, não outro, o impasse que nutre, ou mais do que isso, que organiza, de um ponto de vista formal, Regresso, do poeta-filósofo Victor Oliveira Mateus. E já então o leitor informado poderá seguir a sutileza desse aroma, ora pelas ruas, ora no parque, ora num café de Turim. Não daquela, porém, senão de outra: uma cidade aérea e musical, onde as nossas certezas se desmancham, e onde as paixões, quando pulsam, estão "viradas para dentro".

   Érico Nogueira in Mateus, Victor Oliveira. Regresso. Fafe: Editora Labirinto, 2010, pp 9 - 10.
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14/03/12

Acerca de...(IX)

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A forte aptidão metafórica da poesia de Victor Oliveira Mateus, pelo inesperado de certas associações lexicais e pelo fulgor de imagens extremamente certeiras e originais, consubstancia-se numa fala subtil que se move em torno do movimento em direcção ao Outro e da noção de Ausência; nela joga-se a inquietação do sujeito num mundo polarizado entre o Absurdo e a Graça, o Efémero e a Luz.
Esta voz feita de palavras ancoradas num ritmo discursivo não nomeia, antes, faz escutar o rumor quase inaudível das pequenas coisas (muitas vezes até no Silêncio e pelo Silêncio no interior dos versos); sobretudo nos primeiros poemas da sequência de "A Noite e a Voz", o "tu" surge frequentemente como contraponto ao real, por vezes como uma espécie de oásis no Absurdo, representado por uma imagética sensorial de cores, luz, sons e odores - em que são recorrentes o "brilho", a "luz", a "estrela", a "cintilação", o "cristal", o ´"murmúrio", a "música", a "voz", o "cheiro". Presença evocada, por vezes partilhada (1.,2), presença metonímica e constante - o "olhar", os "olhos", a "boca" (4.,6.,11.) - associada ao "rigor dos afectos", ao "cataclismo dos desejos" (12.), mas inevitavelmente sob o signo da ausência, quer pelo movimento de chegada/ partida ou desencontro - sinal do efémero e paradoxal dos sentimentos (1.,2.,5.,7., 18.,20.,27.), de "assalto" (3.,4.) quer pela antecipação da mesma, pelo saber que "nada fica para sempre" (4., 11.). Mesmo quando há comunhão, partilha, esta é sempre marcada pela antecipação da disforia pelo "eu", suspenso "entre o eterno e o sabor inadiável da morte" (7.,8.,11.,21).
Ausência é ainda morte e Absurdo: morre-se "de ausência" (19.) e ausência dos "amigos mortos", o luto da perda primordial, arrasta consigo o Absurdo e o despojamento (24.,26).
Este movimento em direcção ao outro, embora simultâneo do sofrer do Absurdo e do Efémero, é também muitas vezes, uma busca do Sentido, de "outra coisa" (2.,6.) e a evocação dele, uma "subtil fresta/ aberta numa montanha de alcatrão e corvos secos" (3) ou um lampejo da Graça (6.). Assim, afectos/ fantasia/ interioridade opõem-se à "vastidão fria do labirinto" (10.) e à "voraz negritude da cidade" (5.), à exterioridade, sempre sinalizada negativamente: "efémero/ gotejando filamentos de absurdo" (2), "céu de bruma e desespero" (6.).
Mas as formas de aceder ao Outro são também solidárias, há no poema a integração da consciência crítica, a combinação de uma dimensão ética e poética na abordagem do quotidiano (15.,23.,24.,28.).
Consiste muitas vezes no silêncio o mais perfeito abrigo para a alma, sobretudo quando o Absurdo atinge com a força de uma realidade opaca e cega, mas a poesia pode não limitar-se ao dizer - e por isso, cenários como a guerra, o "bombardeamento sobre a Sérvia/ que deixou todos aqueles mortos na estrada" e a doença, o insidioso cancro mudo do "adolescente do gorro de lã" e dos "três velhos da sueca" sublinham, expõem cruamente esse binómio ausência/ absurdo, chaves para a leitura da rede de sinais do horizonte poético de Victor Oliveira Mateus, igualmente presentes nestes textos em que o Outro assume tais contornos colectivos e sociais: o absurdo na ausência de sentido da guerra (15) e da doença (16.,17.).
Não obstante, Absurdo e Graça coexistem na deslumbrante leveza dos sinais que a beleza do mundo nos oferece e que esta poesia assinala, como se aquilo que verdadeiramente é nunca possa ficar preso nas teias do primeiro: a inocência da joaninha (25.) e do esquilo, "pequena roda de maravilha na maquinaria desdentada do mundo" (28.), a ilha onde "apesar de tudo" há "uma lucerna/ pequenina, um pássaro nunca visto no halo fresco da madrugada" (23.), "a alegria das coisas simples" (29). Aliás, abandonada a incessante busca do Outro, superados a Ausência e o Absurdo, chega-se ao despojamento, à iluminção do Grande Despertar, já entrevisto nos poemas sobre a morte.
Perpassa por toda esta escrita uma espécie de sabedoria que integra ainda na sua voz os elementos da natureza: "água", "fogo", "sol", "lua", "rio", "planta", "ave", e sabe transmitir a vibração de cada um dos seus mais ínfimos átomos às palavras dos versos: passado o caminho dos "longos ribeiros quase secos", das "velhas estradas de pedra", no final de um percurso no qual o Outro, as paixões, o Absurdo e o Efémero marcaram as vivências do sujeito, faz-se a superação - "Passado está, enfim, todo o caminho: ponte, provação necessária" (31.) e opera-se a passagem para a Iluminação, para o Grande Despertar - a sós e ao som da música.
E assim, na "continuação da Noite,/ interminável " (30.) se chega à síntese, pela superação dialéctica - a Poesia é a Voz e a Voz a Poesia, lugar da serenidade, da aceitação e do apaziguamento possíveis no mundo da ausência.

   Ana Paula Dias in Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, pp 5 - 7.
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13/03/12

(Um) Prefácio.

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 " Tempo e Transcendência na poesia de Tiago Nené "

O novo livro de Tiago Nené, logo no primeiro poema, e em jeito de nos transmitir o verdadeiro método de interpretar, firma o que irá ser o princípio estruturante de toda a obra: por um lado, os obstáculos do real na sua dualidade de acidentes na superfície da terra e de coisa a realçar: o relevo ( a vontade do editor ) - mas atente-se, contudo, que este relevo, apesar de algumas vezes aparecer como estático e imutável, é ele que desempenha sempre a função de móbil da acção -; por outro lado, o modo de apreensão desse mesmo real, que não é a razão nem nenhum dos sentidos exteriores, mas sim o coração (... foram os únicos/ que leram o poema que escrevi;) e, finalmente, o tempo, que nos surgirá numa multiplicidade de formas. Esta a tríade que atravessará todo o texto. Aliás, neste primeiro poema constata-se que o plano da coincidência com o real, da apreensão do em-si da coisa, não se faz pela eliminação do sujeito, mas tão-só que este feche os olhos e, suspendendo o tempo, conceba um azul ( o do céu ) emanação de um outro primordial ( a folha azul ), que o criador não pode dar a ver.
Esta errância do eu-poético no tempo, muitas vezes geradora de nostalgia e angústia, conduz-nos à necessidade de entender os vários territórios da temporalidade em que ocorre o périplo poético, e Tiago Nené é minucioso e exaustivo quanto a esse aspecto: o tempo cronológico ( in Jardins Hamarikyu ), o tempo pensado ( in Mulher inexorável ), o tempo meteorológico ( in Azul, segunda estrofe ), o tempo vivenciado ( in De certo Modo ), o tempo actualidade sociocultural ( in Europa ) etc. Mas o poeta não se fica por uma mera enumeração, toda a obra é trespassada pelo digladiar das três determinações essenciais da temporalidade: o passado - " ficamos a respirar o ar um do outro, o ar de um passado/ que nos construiu..." ( in Mapa-Múndi ); o presente - " é que para essas pessoas, estas que agora sobem semi-ausentes/ de si mesmas para um eléctrico " ( in Estação de Outono ); o futuro - " e quando regressares do presente interrompido/ não saberás se és magnólia ou violeta;" ( in Evaporação ). Mas Tiago Nené não se limita ao manipular dos fios de uma já tão conseguida urdidura, vai mais longe: concomitante com este ser no tempo é todo um conjunto de memórias, de observações e de inquietações que vão sendo desfiadas e que desembocam no desencanto do eu-poético, numa sensação de falha impreenchível com constantes alusões à perda e à morte. Se não se vislumbram quaisquer influências de autores como Antero, Florbela ou Nobre, o que é um facto é que se percebe estarmos aqui frente a uma escrita de uma extrema melancolia.

nunca quis ser só distância
sempre houve cavalos
seguindo a minha inutilidade prosperante,
palavras comprometidas com toda a imitação
de sentimento e bicho.
sempre me esvaziei da responsabilidade
de semear o meu tempo,
cresci ajoelhado, em constante
importância assintomática.
depois soube que o tempo castiga
um silêncio em silêncio
e então comecei a guardar as palavras.

   ( in O Guardador de Palavras )

o tempo é o eco da primeira palavra
esquiando sobre o gelo fino;
eternamente repito a ignorância
permanecente nos seus cabelos longos
e eléctricos;
estou de novo no começo da falha
apesar de o tempo ter os pés em chamas
e correr como sangue não reconhecido
...

   ( in Subgluttiare )

Este último excerto traz para a boca de cena aquilo que é o nó górdio que continuará marcando indelevelmente o coração de tempo ( o eco da primeira fala; ), pois a eternidade é a única intemporalidade possível ( in Carta a um jovem poeta ). Como entender um coração de tempo agindo, e sentindo, nesse mesmo tempo, já que sempre acicatado por todo um relevo móbil, que constantemente se afirma num modo peremptório e de relevo? Esta é a pergunta a que o poeta tenta responder; esta é também uma das questões fundamentais que tem marcado a cultura ocidental. Stephen Hawking, contestando a teoria aristotélica do lugar natural, bem como a concepção de tempo absoluto que vigorou até Newton, é bastante claro quando se refere ao Bing Bang: " Se houve acontecimentos antes desse tempo, não podem afectar o que acontece no tempo presente. A sua existência pode ser ignorada, por não ter consequências observáveis." (1) Numa outra passagem desta obra Hawking cita, com pouco rigor, o gracejo referido por Santo Agostinho de que Deus preparava o inferno para quem perguntasse o que fazia ele antes da criação; é evidente que essa alusão pretende afirmar que, numa perspectiva religiosa, só faz sentido falar de tempo após o Big Bang, mas Santo Agostinho, numa invocação a Deus, - e para o que aqui nos interessa - reitera, na sua abordagem, a existência de um plano imutável e eterno: "(...) e o vosso dia não é um mero acontecimento quotidiano, é um perpétuo hoje, já que esse vosso hoje não cede lugar a um amanhã e o amanhã não sucede a um ontem. O vosso hoje é a Eternidade..." (2). Esta dicotomia entre um tempo onde somos chamados a ser, e a agir, de acordo com todos os relevos móbiles, e uma eternidade com a qual o nosso coração de tempo se mede e se confronta, não é exclusiva dos autores cristãos: século e meio antes de Agostinho de Hipona, Plotino tinha discorrido já sobre o mesmo tema, numa perspectiva radicalmente distinta. Plotino, no seu quadragésimo quinto tratado, Da Eternidade e do Tempo, estabelece, logo no início, que este só pode ser medido a partir da eternidade, depois, ao longo de toda a obra, vai inventariando o que essa eternidade não é, por fim - e recusando a ideia de Criação!- , este neoplatónico é peremptório ao defender que a temporalidade não depende já da vontade de um qualquer deus, mas da natureza curiosa da acção, isto é, da alma que, recusando a sua permanência no suprasensível, se encaminha depois para o sensível, inaugurando assim o tempo: "(...) a alma recusa que todo o ser inteligível lhe seja presente de imediato. Ela actua como a razão espermática que sai de um germe imóvel, desenvolvendo-se evoluindo a pouco e pouco, parece, na direcção da pluralidade, e manifesta essa mesma pluralidade cindindo-se (...) ela perde a força que lhe é própria durante este caminhar." (3) Depois deste perambular por temas fundamentais da cultura do ocidente, poder-se-á estabelecer a ponte com a poesia de Tiago Nené, através de alguns dos sesu versos, para assim dar a ver o quanto esta mesma poesia se encontra enraizada no que de mais arguto e inquietador uma dada cultura tem pensado: " lêem-nos nos olhos um intemporal esquisito e uma/ omnipresença pecadora, um dia à luz da vela" ( in  Jardins Hamarikyu ), "corrompidas até ao osso efémero;/ e é tudo um material de luxúria(...)/ o emprenhar do infinito nas cores da boca;" ( in O Fim Vai Dentro do Corpo do Começo ). Convém acrescentar, no entanto, que este almejado "para lá" de um sensível turbilhonar é alcançado, não por uma evasão desse mesmo sensível, mas por um acto transmutativo operado por um coração de tempo após a evidência de todos os relevos móbiles; Tiago Nené, como Plotino e Agostinho de Hipona, aceita a existência dos já referidos dois planos, mas, ao contrário deles, escreve que o seu "além" só pode abrir-se no "aqui", e através de uma nova tríade: o Amor, a Poesia e a Autenticidade:

é possível que viver signifique contrafazer-me,
sim, é possível, desmontar o inato toda a vida,
as crenças, as igualdades e impossibilidades inatas,
os sorrisos que parecem astros de culto;
tudo é possível, mas requer um convencimento,

     ( in Um Círculo Hermético )

um tempo nunca se explica a si mesmo,
um tempo é explicado por outro tempo,

o meu problema é amar-te sem saber
qual o tempo que o explica

     ( in (...) )

poesia é a arte metafísica de escavar as palavras
e encontrar outras palavras;
e escavar estas palavras e encontrar outras
palavras;
foi assim que escrevi o teu corpo
e, escavando as suas palavras; encontrei
outras palavras
que diziam ser a outra metade da solidão a esperança
e os nossos corpos
o princípio da distância;

      ( in O Princípio da Distância )

Esta poesia vinca a ideia de que a transcendência se afirma como um trancender no "aqui", lugar onde Poesia, Amor e Autenticidade se deverão interligar para imprimir num coração de tempo  não só momentos de plenitude, mas sobretudo a mais lúcida angústia (4) motivada por tão ingente projecto poético-existencial.
Convém acrecentar que esse Outro passível de uma vivência amorosa, de uma partilha autêntica e de poetificação não se restringe à figura de um ente específico (humano ou não), ele possui, em vez disso, um carácter universal e abrangente, isto é, o que o eu-poético persegue acima de tudo - embora nunca o diga de forma directa!- é essa comunhão amorosa, autêntica e poética com tudo aquilo que é: "(...) mas aqui estás tu, dormindo/ na minha revista científica, sobre a qual os/ pulmões dos meus dedos te escutam" (in A Criança de Neandertal ), "(...) e só quando/ a sua bondade se exercitou na sede de outrem,/ na lama, e depois no mais inalcançável," ( in Instinto ), " dos que sofrem impossivelmente/ sobre os detritos das palavras, sobre/ o humor aleatório do tempo;" ( in Europa ).
A um intento complexo do sentido, correspondem, nesta poesia, preocupações estilístico-formais igualmente abrangentes: não se demarcam fronteiras nítidas entre o metafórico, mesmo que as metáforas tenham o sabor do mercúrio ( in Criaturário, sobretudo os dois primeiros versos deste poema), as comparações de grande riqueza imagética e um quotidiano de referencial imediatista; utilizam-se aspectos de todo um aparelho pertencente às ciências exactas, quer através de títulos ( O Princípio da Distância, Definição por Comparação ), quer na estrutura do próprio texto, como é o caso do irrepreensível poema "Um excerto de experiência", que me fez lembrar a Teoria da Relatividade; já na linha do seu livro anterior, o poeta dialoga com outros autores quer através de epígrafes quer de poemas ( in O Bom Poeta, Carta a um Jovem Poeta - a fazer lembrar Rilke -, Canção Para Matsuo Bashô) e neste livro o diálogo alarga-se à música ( in Subluttiare ) e ao cinema ( in A Idade da Inocência ), finalmente urge também não esquecer um discorrer de cariz metapoético que poreja em muitos dos poemas.
Por tudo o que já referi, penso estarmos ante um livro de poesia que alia, de forma admirável, um excelente domínio da escrita e de estruturação das diversas unidades poemáticas na sua conjugação com a obra enquanto todo, com preocupações de grande riqueza de sentido; talvez porque - quem sabe?- para Tiago Nené aquilo que existe e/ou é não se resuma à mera possibilidade de se autofrequentar ( in A Dimensão do Ser, 11º - 13º versos).

(1) Stephen W. Hawking, Breve História do Tempo, Gradiva, Lisboa, 1988, p 27 ( Relativamente a este tópico ver igualmente: Les lois du chaos de Prigogine, Flammarion, e O Nascimento do Tempo de Ilya Prigogine, Edições 70; Lisboa, 1988, pp 51 - 60).
(2) Saint Augustin, Les Confessions (Livre onzième, chapitre XIII ), Garnier-Flammarion, Paris, 1964, p 263 (tradução de minha autoria).
(3) Plotin, Troisième Ennéade (III, De L'Éternité et du Temps), Les Belle Lettres, 2002, p 241 (tradução de minha autoria)
(4) Cf. paragº 15 ( El ser de los entes que hacen frente en el mundo circundante) e paragº 40 ( El fundamental encontrar-se de la angustia, señalando "estado de abierto" del "ser ahí) in El Ser u el Tiempo, Martin Heidegger, Ediciones F.C.E., Madrid, 1980 ( Traductión de José Gaos.)

  Victor Oliveira Mateus in Nené, Tiago. Relevo Móbil Num Coração de Tempo. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2011, pp 7 - 14.
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