05/07/12

"E é precisamente o reconhecimento desta idealização deformante que abre o caminho à (...)libertação desse mundo de fantasmas "


O objecto do depressivo é ainda, e em regra, uma personagem altamente masoquista (tenhamos bem presente as características habituais das mães dos depressivos) e exibindo o seu estatuto e condição de vítima, de tal forma que a separação do sujeito, se comporta o seu salvamento, comporta também a recusa de se solidarizar com o trágico destino do objecto, abandonando-o de certo modo à sua sorte. Ora, tal conduta não é fácil de tomar; exige segurança e agressividade e desperta culpa. Por isso a separação tão difícil é; mas se se atinge é o sentimento de triunfo do sujeito que conseguiu libertar-se de uma relação mortificante e destruidora; e assim se compreende que a rotura se acompanhe, muitas vezes, de uma certa elação hipomaníaca. No decurso do trabalho analítico este processo de separação-individuação, acompanhado do luto do objecto primário, passa pela análise interpretativa da ligação masoquista do analisando, libertando a pulsão agressiva inflectida sobre o Self para actividades construtivas e sublimadas.
Outro traço característico do objecto do depressivo é a sua ambivalência: uma atitude de protecção e afecto contrastando com sentimentos de saturação relacional e rejeição, impondo ao investimento do sujeito um esgotante estado de tensão e retenção - "anda à trela" do objecto. (...) e só tendo em atenção estes dois tipos do processo transferencial - o movimento regrediente e repetitivo ( a repetição transferencial, que nos permite reconstruir o passado vivido) e o movimento progrediente e resolutivo (que costumamos designar por retomada da evolução suspensa, e no qual assenta precisamente a mudança de tipo e estilo de relação objectal( - podemos levar a bom termo a análise de um depressivo.
(...) Assim, o mundo interno do indivíduo está ocupado por objectos na realidade perdidos, mas que preenchem o espaço da ilusão. O indivíduo vive com esses introjectos, obviamente insatisfatórios; e bloqueantes da deflexão da líbido sobre o mundo exterior, os objectos da presença e da actualidade - do quotidiano - como bloqueantes ainda da expansão da personalidade. O caminho da cura passa então pela desidealização desses objectos internos.
Há uma certa tendência a valorizar ou fazer jogar aqui a pulsão agressiva: expulsar tais objectos internos pelo desbloquear da agressividade a eles ligada mas inflectida sobre o próprio e/ou transferida para objectos da circunstância. (...) frequentemente trata-se sobretudo do efeito retentivo de uma relação de idealização - relação densa, ocupante, expansiva e inflacionária, que está bem longe de corresponder às características reais  dos objectos introjectados. E é precisamente o reconhecimento desta idealização deformante que abre o caminho à necessária ruptura dos laços afectivos enquistados, com a libertação desse mundo de fantasmas (conscientes e inconscientes) do passado.

  Matos, António Coimbra de. A Depressão. Lisboa; Climepsi Editores, 2007, pp 54 - 55.
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04/07/12

" A Disposição Depressiva "


O que encontramos na condição ou disposição depressiva é a desistência dos interesses próprios (egoístas) em favor da manutenção do amor do objecto.
O que não é o mesmo - entenda-se bem - que o altruísmo ou o amor desinteressado do objecto. O depressivo ama para ser amado e admirado, pois que é pobre em sentimentos de auto-estima e autovalorização (a não ser quando intervém a defesa maníaca e emerge uma auto-imagem de grandiosidade). No verdadeiro altruísmo o indivíduo ama os outros porque tem capacidade de amar; na condição depressiva, por dependência afectiva - porque precisa do amor do outro.
Existem também certas diferenças com o masoquismo, embora este seja uma situação próxima e frequentemente entrelaçada com a depressão. No masoquismo o indivíduo vai mais longe: sofre (na relação com o objecto) para ter jus a ser amado, captar e manter o amor (do objecto) e ser admirado pela sua capacidade de sacrifício e sofrimento, ao mesmo tempo que sabe (em regra inconscientemente) estar a satisfazer a necessidade sádica do objecto, e com isso segurá-lo; mas, enquanto no masoquismo a relação de complementaridade do indivíduo com o objecto se processa na base da satisfação do sadismo do outro, na depressividade faz-se na base da satisfação do narcisismo do objecto.
A depressão e a defesa maníaca (o Self grandioso, megalómano; a negação da melancolia) andam em regra associadas. E, assim, as personalidades depressivas (não propriamente as pessoas que estão deprimidas - que manifestam o sintoma de abatimento e tristeza -, mas sim os indivíduos que são depressivos  que têm tendência a deprimir-se) apreciam não só poder queixar-se, quando encontram ressonância no ouvinte ou ouvintes (...) como também poder exibir algumas facetas da sua grandiosidade, que o interlocutor admire e aclame (o que tempera ou alivia o seu afecto depressivo). Mas esta última atitude - exibicionista (e de passividade do Eu) - em nada modifica a estrutura depressiva; apenas aligeira o peso do sentimento de não realização.
Na sua conduta diária, estes indivíduos repetem a relação, primária de objecto - em que foram amados na desgraça (no desamparo, na indefesa e na doença), por pena ou piedade, e admirados nas qualidades que interessavam ao objecto; e não, propriamente, aceites nas realizações autónomas e que lhes davam prazer a eles mesmos. Isto é: organizaram uma relação de objecto (a qual define a estrutura depressiva) na esteira de não terem sido considerados como sujeitos de um autêntico ser, com uma verdadeira identidade: mas sim objectos de desejos (...) dos seus próprios objectos: o paradigma é a mãe que investe narcisicamente o filho.
A saída desta condição depressiva faz-se - no curso da análise - pela luta contra o introjecto (objecto interno) externalizado no analista. Objecto-analista que, não destruído pela agressividade do analisando, será reintrojectado como objecto seguro, sólido e efectiva e efectivamente bom: e, precisamente por isso, tolerante, aberto e estimulante: que aprecia e mesmo solicita o desenvolvimento e realização livres e específicos do próprio. E com esta mudança se salda a cura analítica do depressivo: pela autonomia, e não pela cópia de mais um modelo.
(...) Por aqui vemos, também, que o tratamento analítico do depressivo passa pela transposição da passividade para a actividade; o que comporta certos riscos - quase inevitáveis - de passagem ao acto em transferência lateral. E o psicanalista que aceita ocupar-se de um doente narcísico terá de saber e poder suportar que se expõe, ou irá sofrer, certos incómodos relacionados com as reacções da entourage do analisando a vicissitudes do seu comportamento, nem sempre agradáveis (...).
O sentimento de falha e o medo de falhar, o sentimento de incapacidade, é um dos mais característicos nas pessoas depressivas; sentimento, não só ligado com o defeito do Eu, como também com a exigência do Ideal do Eu; e sentimento que se agrava em condições de existência excessivamente competitivas. Aqui se aponta, então, para as causas originais e de manutenção da disposição depressiva - a depressão sendo, como Edward Bibring o afirmou em 1953, o efeito da paralisia do Eu " porque se descobre incapaz de fazer face ao perigo", enquanto a ansiedade ou angústia é um sinal que mobiliza o Eu para o combate ou fuga.

  Matos, António Coimbra de. A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores, 2007, pp 41 - 43.
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03/07/12

" estão mas não aparecem/ e podem levar anos nisso "


Duas aranhas esperam a mosca
com radiadores ventiladores rosa-chá
passagem ao estado de amora
alguns coupons
e várias teses de combate moderno

A mosca
passa
ou não passa
é um pouco como todas as coisas
estão mas não aparecem
e podem levar anos nisso

Mas duas aranhas esperam a mosca
com serviço de Turismo Dlão
lume aceso
página de sentença judiciária

Ao fundo
o galo enerva-se e quebra a mobília
numa grande convivência francesa
co'a mosca que foge espavorida no vento

Agora à luz das baratas e dos apetrechos para campo
duas aranhas esperam a aranha
e esta é que não escapa
às honras amarelas
à ligeira tremura de ter vindo
pois nenhuma aranha escapou jamais às aranhas
nenhuma não sendo mosca fugiu
ao que mandam os deuses

   Cesariny, Mário. Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, pp 93 - 94.
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" De um rapaz louro que finda/(na alameda) uma novela perturbada "


 " manhã fresca "

Manhã fresca, reclinada
pela primavera crescente.
O mais pequenino nada
está como se fora gente

De um rapaz louro que finda
(na alameda) uma novela perturbada
uma mulher ainda linda
esperou mas não foi olhada

E no folhagem também
certo desencontro corre:
a primavera que vem
na trovoada que morre

   Cesariny, Mário. Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p 71.
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02/07/12

" ela/ que parte/ vira/ para o que abandona/ um olhar de brancura "


suave
a vela abre
e principia
o dia

ela
que pelo azul
que corta
considera e chama
outras velas irmãs para o claro rio
e enquanto
o cais
é um enorme navio
que se nega
e no entanto cumpre
a mais estranha viagem

ela
que parte
vira
para o que abandona
um olhar de brancura
que é toda a matemática
singela
da manhã que a inspira

  Cesariny, Mário. Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p 47.
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01/07/12



       " A Sua Origem "



O cumprimento do seu prazer à margem da lei
teve lugar. Levantaram-se do colchão
e sem falarem vestem-se apressados.
Saem da casa separadamente, às escondidas; e enquanto
caminham algo preocupados pela rua, parece
que suspeitam de que neles qualquer coisa revela
em que género de leito caíram há pouco.

Mas como ganhou a vida do artífice.
Amanhã, depois de amanhã, ou com o tempo serão dados
à escrita os fortes versos que tiveram aqui a sua origem.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, p 273 ( Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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                " À Espera dos Bárbaros "



- Que esperamos na ágora congregados?

    Os bárbaros hão-de chegar hoje.

- Porquê tanta inactividade no Senado?
  Porque estão lá os Senadores e não legislam?

    Porque os bárbaros chegarão hoje.
    Que leis irão fazer já os Senadores?
    Os bárbaros quando vierem legislarão.

- Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,
  e está sentado à maior porta da cidade
  no seu trono, solene, de coroa?

    Porque os bárbaros chegarão hoje.
    E o imperador espera para receber
    o seu chefe. Até preparou
    para lhe dar um pergaminho. Aí
    escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

- Porque os nossos dois cônsules e os pretores
  saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas;
  porque levaram pulseiras com tantas ametistas,
  e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;
  porque terão pegado hoje em báculos preciosos
  com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

    Porque os bárbaros chegarão hoje;
    e tais coisas deslumbram os bárbaros.

- E porque não vêm os valiosos oradores como sempre
   para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

    Porque os bárbaros chegarão hoje;
    e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

- Porque terá começado de repente este desassossego
  e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)
  Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,
  e todos regressam às suas casas muito pensativos?

   Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
   E chegaram alguns das fronteiras,
   e disseram que já não há bárbaros.

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.
Esta gente era alguma solução.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, pp 221 - 223 ( Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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29/06/12

" je me nourris de cette insatisfaction/ que l'on nomme parfois lucidité "


  " Art farouche "

Dans le poème j'ai fait mon lit
il attendait que je m'endorme
murmurant à mon oreille:
je suis une maison vide
plutôt qu'une couche douillette
une construction qui s'effondre
plutôt qu'un rêve insignifiant

Lui qui se fait appeler poème
possède des capacités volatiles:
il se dresse debout devant toi
dans son évidence de toujours-déjà-là
puis lorsque tu décides enfin de t'en emparer
il disparaît hors de portée

Le poème me dis-je il faut que tu l'habites
ce que tu lui as donné il ne te le rendra pas
comme la maison délabrée
où peu à peu tu as dressé ton lit
tu y as déposé ta vie ensuite tu es parti
ailleurs où était encore une autre vie
non pas la même continuée
mais la vie différente celle qui roule
alors que dans le poème tu l'arrêtes
et tu la figes et tu condenses la fureur
le mouvement le temps décomposé en humus
par où l'autre vie s'échappe
et grouille et séfface de trop peu d'outil
celui fruste et parfait qu'est ta main
que guide ton cerveau lui-même relié
à ce que l'on ne nomme pas l'innommé
le poème tu le forges rien n'est donné
dans l'espoir qu'un jour quelqu'un s'y attarde
et ce que tu as réalisé te ressemble
c'est là sa particularité sa part d'attracteur étrange
alors il te faut chercher toujours chercher
ne jamais t'arrêter ou laisser en l'état
surtout ne pas te répéter
bien que tu reviennes sans cesse sur tes pas
c'est la forme qui compte et qui raconte
fût-elle informe à ta façon
chez lui aujourd'hui n'a pas de sens
chez lui c'est toujours demain
pourtant après bien des années
et tellement d'échecs
( peu importe pour celui qui lit
qui dans le poème fait son lit
les tentatives valent autant
que d'authentiques satori)
tu tentes de nommer ton art
un mot qui ne doit pas t'effrayer
moi j'ai dit antipoème poésie sauvage
pour définir le mystère
ce qui m'échappe et me rassemble
je me nourris de cette insatisfaction
que l'on nomme parfois lucidité
jusqu'à ce qu'advienne la vérité d'aujourd'hui
qui sera sans doutte différent demain
de sauvage mon poème tenait
ce que tient l'animal
celui qui n'est pas domestiqué
que tu approches et dont tu ne disposes pas
qui se laisse caresser mais avec réticence
mon poème est rugueux violent dans la retenue
mon poème est insoumis
fleuve au cours tourmenté
il ne coule pas de source
tu dois accepter ses caprices
raison pour laquelle je le nomme farouche
et pour revenir à la maison que tu habites
ces ruines que tu as relevées à ton usage
ainsi qu'a celui de certains visiteurs
veille simplement à laisser la porte entrouverte
afin que le passant qui rôde dans les parages
puisse la pousser si l'envie lui prend
en général je m'en tire par une pirouette
ici cependant je n'en ferai rien
j'ai posé mon art farouche
et dans cette direction je m'en vais
à moins que je ne dévie sur le chemin
vers une autre vérité du lendemain
puisque la vérité
est la pire forme du mensonge.

  Delaive, Serge. Trois poètes belges. Neuille-lès-Dijon: Éditions du Murmure, 2010, pp 79 - 81.
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27/06/12



 " Poema 7 de Completas "


Sinal algum me será dado antes
de conhecer o que na Terra deve ser ligado
ou não, e a ninguém seja contado
que O que veio não foi reconhecido.

  Vieira, Vergílio Alberto. Amante de um só dia. Porto: Livros de Horas, 2012, p 79.
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 " Poema 3 de Noa "


Ao que fez água brotar,
da terra árida, para me dessedentar,
e abriu caminhos no deserto,
para me prevenir do cardo e da serpente,
chamei pelo Nome, e Ele de mim
não desviou o rosto indivisível.

  Vieira, Vergílio Alberto. Amante de um só dia. Porto: Livros de Horas, 2012, p 51.
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 " Poema 7 de Tércia "


Em louvor da figueira estéril,
que frutificou, sem por ela ter passado
o vento, da boca fiz túmulo;
do coração, abismo.

Vieira, Vergílio Alberto. Amante de um só dia. Porto: Livros de Horas, 2012, p 31.
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26/06/12

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  " Miragem "


Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho - ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?

  Bresciani, Alberto. Incompleto Movimento. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2011, p 104.
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" Metamorfose "


Era seu rosto
um campo de trigo
e manso se entregava
ao passeio da boca

Braços me protegiam
e enlaçavam
e devolviam ventos
que ninguém sentiu

Desdobrava-se
o seu consentimento
e sem proposições
uma supernova em mim

Talvez reencontrasse o destino
respirasse sem deformidades
talvez fosse apenas como voltar

E já não chovia
E era tão bom.

  Bresciani, Alberto. Incompleto Movimento. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2011, p 65.
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  " Ficha "

  I

Aquilo nem
era verdade

não era nem
segredo

 II

Só buscava um
abrigo

Nenhuma
a final substância

só imaginada
por sob

Onde não
havia sequer

 III

Tirei os pontos e
algo em mim

falou, tinha
corpo e era sol.

  Bresciani, Alberto. Incompleto Movimento. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2011, p 38.
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25/06/12


 " A Tradição Não é Um Passado a Cheirar a Mofo "

                                                por  TERESA MARTINS MARQUES


No canto V da ILÍADA Homero coloca frente a frente o guerreiro aqueu Diomedes e o troiano Glauco prestes a iniciarem um combate, que acabará por não se realizar ao descobrirem que um antepassado de Glauco fora hóspede de um antepassado de Diomedes. Em vez de combaterem, preferem os guerreiros trocar as armas como prova de amizade que não será, todavia, recíproca dado que Diomedes ludibria Glauco oferecendo-lhe as suas armas de bronze em troca das de ouro do troiano. Antes de se identificaram mutuamente, notando Diomedes a extraordinária coragem de Glauco, põe a hipótese de o seu contendor ser um ente divino, o que tornaria o combate desigual. Querendo esclarecer tamanha dúvida, pergunta Diomedes:

" Quem és tu entre os homens, entre os homens mortais?/ Apenas sei que a todos te excedes em coragem. (...)/ Ou acaso pertences ao número dos divinos?/ Ah! Sendo assim, desisto de combater contigo".

Como resposta àquela pergunta, diz Glauco:

" Que importa, Diomedes, qual a minha linhagem?/ A geração dos homens é igual à das folhas,/ se o vento arranca algumas e no chão as espalha,/ ao vir a Primavera logo nascem outras./ E dos homens diremos que são como a folhagem..."

Aquela imagem de Homero, se por um lado afirma a morte como inevitabilidade - os homens caem no seu próprio Outono -, afirma também a certeza da vida como esperança que se alcança em cada renascimento - primavera do ser humano. E, se "dos homens diremos que são como folhagem", dos temas e motivos literários diremos que são como os homens e como a folhagem: passam e ficam. É Jacinto Prado Coelho quem nos diz:

" A literatura é o domínio do instável, miragem de eternidade que paira sobre a corrente dos anos e dos séculos. Um absoluto à escala humana: fica e passa."

A literatura passa e fica ao constituir-se tradição que é passado presentificado em cada nova leitura que daquele pretérito extrai novos efeitos pessoais. Somos um haver da morte, nós e o que é nosso, já que somos transitórios, isto é, estamos em trânsito de um espaço-tempo antes - a escala evolutiva das plantas, do homem, da tradição literária - para um espaço-tempo agora - que rapidamente se torna espaço-tempo-depois.

O conhecimento, a qualquer nível que o consideremos, faz parte de quem conhece e tal como o ser humano, também este é inevitavelmente transitório, sendo indefinível, porque a cada momento se represent(ific)a tornando-se tradição civilizacional, memória do conhecimento da humanidade. Memória que não se apresenta como simples e linear sucessão de épocas, interligando-se de forma a que o presente condicione o passado transcorrido, modificando a leitura que dele se faz no presente. Por isso esse passado-memória-civilizacional torna o ser humano infinitamente rico, já que é património cultural acumulado que lhe deu lastro intelectual, mas também infinitamente pobre, impedindo-o de pensar como nunca ninguém antes pensou. Aquilo que chamamos invenção, inovação em qualquer ramo do conhecimento é ínfima gota de criatividade individual que só existe como gota, porque é produto do mare magnum da cultura que lhe permitiu existir como gota e foi acumulada por sucessivas gerações.

Porque o conhecimento passado permite o conhecimento presente, nunca aquele é verdadeiramente passado nem este verdadeiramente presente. Sem Newton não teríamos Einstein. Sem Homero não teríamos Virgílio e Camões. A literatura, sendo conhecimento, não foge à inevitabilidade de ser morte que vivifica, de ser tradição que gera inovação. A obra de arte encontrará a sua autenticidade tornando-se experiência, transformando aquele que a experimenta numa interacção dialéctica, condição de comunicação e de significação, numa palavra - interpretação de uma tradição que passa e fica como documento, mas também como monumento.

Temos hoje consciência de que a tradição não existe para se venerar, mas para se conhecer. Só esse conhecimento possibilitará a criação duma nova significação, elo de uma cadeia que, não sendo já o passado, é também o passado, em translação de sentidos, corrente viva de valores em devir, como a água do rio de Heraclito, como a folhagem do bosque de Homero.
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Nota - agradecemos à Profª Drª Teresa Martins Marques da Universidade Clássica de Lisboa ter-nos dado a sua autorização para que pudéssemos postar este seu inédito.
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23/06/12

( Nota - alétheia : verdade in "Termos Filosóficos Gregos" de F. E. Peters, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 29.)


 " Aleteia " ( Poema III de Tríptico )


Dizia coisas que poucos entendiam.
Dormitava em tugúrios temidos
por muitos. Sentava-se na ponta
do beco a cortar as cabeças aos santos.
Trocava-as: santa Rita cravada de setas,
são Expedito de olhar lúbrico
e laços de organdi. Mas Aleteia rezava
sim: olival adentro, pelo meio das


searas, enquanto via o descarregar
dos porcos ou dava migalhas
aos pássaros. Eu também fugia
dela, mas sem medo ou motivo.
Certa vez encontrou-me, sozinho,
de vergasta em punho a afugentar
os gansos. Chega aqui!, e eu,
de cima dos meus calções cada


vez mais curtos, empinei-me
para que me visse melhor.
Se eu andava perdido, perguntou-me.
Que não, não senhora! Aleteia
sorriu e beijou-me a face.
Continuou o seu caminho. Desde
esse dia nunca mais a encontrei.

  Mateus, Victor Oliveira. Meditações Sobre o Fim, os últimos poemas (Organização: Maria Quintans). Lisboa: Hariemuj Editora, 2012, p 212.
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22/06/12


 " Antígona " ( Poema II de Tríptico )


Talvez preferisses gritos, súplicas
ou - quem sabe? - que rasgasse
as vestes e me desfizesse. Mas, temível
Creonte, eu tenho a experiência
de quem não cede, de quem percorre
os trilhos das margens e apenas ouve
o antigo saber da terra, o único a quem
vivos e mortos pertencem
e nos fervilha nas veias sem sabermos
como nem porquê. Podes, ó hábil,
misturar as palavras, confundir
as frases em discursos e experimentos
de glória... Mas a tua glória não passará
de um mero nome, e mesmo esse
com tantas dúvidas à mistura;
a tua glória - pequena barca
de pergaminho a apodrecer nas praias
jónicas. És nada, ó ridículo mensageiro
do novo!, e máscara alguma acrescentará
essa imensidão de nada, que jamais
conseguirás dissimular. Poderás perseguir,
infamar, convencer até outros
a que o façam também, mas
nunca iludirás o imperturbável
movimento do grande ciclo, esse
onde os deuses cobram todos os gestos
segundo a ordem do tempo; local
onde nos movemos: breves,
banais... e talvez dispensáveis.

     Mateus, Victor Oliveira. Meditações Sobre o Fim - os últimos poemas ( Organização: Maria Quintans). Lisboa: Hariemuj Editora, 2012, p 211.
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21/06/12



Queria ser o teu pátio e a tua lua. Queria preparar, numa pira de poções, mandrágoras, elixires, encantamentos, feitiços, esconjurações, as longas sendas do extravio e da ternura, queria abrir atalhos, veredas, coordenadas de maio a maio, afluentes, regatos, estradas que jamais conduzirão ao mar, eu sei. E, embora sabendo, não vacilarei, serei como a inquebrável fibra dos vimes, pensarei sempre em ti, meu irmão, meu querido assassino, e ajoelhada junto à fonte, sem interpelar os homens, a sua vã glória, o seu desaire, gota a gota, traço a traço, desenharei sobre o pó uma cicatriz, para que ao descer a águia saiba como perdi aquele que amei.
Revolvo a lama, os montículos, as raízes, convoco os gansos, os cisnes, as garças vermelhas, talvez a caminho do sul, mas antes e no fim, existem apenas as cavernas, os ossos, o templo dos cem tigres, o gelo e o degelo, a estepe interminável, o pântano, um bote, dois remos, e eu entre as margens, abrindo os cofres, movendo os dedos. Antes e no fim existe apenas o fim. Mas tu não entendias nada, frágil duende das flautas verdes.
Respiro, parece que respiro sobre o teu ombro, agora que estás deitado. O mel espesso das colmeias que sempre descuidei, transborda nos vasos abandonados, no barro cozido onde a tua amargura se perfila.
Que animais da sede virão beber a água de um cântaro pintado de anil? Há muito que quase todos se afastaram do homem, conscientes do perigo. Levaram consigo as crias e, algures, construíram outros ninhos.
Procuraram as ramagens, taparam os covis. E os que restam, estão à nossa volta, pois sabem que não fazemos parte da legião dos malditos que se aproximam.

   Baptista, José Agostinho. O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, 113 - 144.

19/06/12


Que certas vezes ele seja o ar e outras o vento, que se aproxime e entre e se deite e espere e me desça e me suba e me dobre suavemente como se dobram os girassóis na tarde que declina e depois adormeça num sonho de dois, eu e ele, verso e reverso, enfermidade e cura, culpa e redenção, e depois me leve para os litorais de onde vem. Mas ele não vem.
Ancorado, naquela curva que só eu conheço, está um bote. Quando se revela a claridade, ainda que ténue e difusa, pego nos remos e parto, como se procurasse, sem qualquer razão, um vislumbre de trigo e catedrais. Paro, entretanto, e deito-me, inspirando os sargaços.
(...) São estas as horas em que não te procuro, meu irmão. Sei que muito perto da casa corres atrás dos cães, e depois partes, para os territórios da alcateia, E eu aqui, à espera, à espera, à espera. Dele, da lua, de vénus, do cruzeiro do sul, do arado, do leão, de uma pancada mais forte em cada metade do coração. Sento-me, deito-me, levanto-me, acordo, adormeço, e aperto no peito quatro penas brancas(...) Neste entardecer, nesta lentidão de pássaros e nuvens, abandono-me, embalo-me, esqueço. E ele não vem..

  Baptista, José Agostinho. O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, pp 30 - 32.

17/06/12

Traduzindo...


Poderei a ti confessar-me se assim o pretenderes
e tanto tanto te contarei que, suplicante,
me pedirás que não prossiga com tal horror.
Minha boca dir-te-á que, bem cedo,
a dor começou a fazer seu ninho
neste meu corpo que agora se despede
deste cenário onde outrora se improvisavam
nossos gestos, como escrita de um livro
afinal indecifrável e de sonhos despojado
cujas pesadas páginas um dedo,
lento e glacial, vai implacavelmente virando
até que a náusea e o tempo nos acabem por consumir.

        Victor Oliveira Mateus

Original:

   " Despedida "

Si quieres confesarme yo te dejo
y tanto te diré que suplicante
pedirás no prosiga tanto horror.
Mi boca te dirá que en tiernos años
el dolor comenzó a hacer su lecho
en esta carne que ahora se despide
del escenario donde se improvisan
nuestros actos, escritos en el libro
indescifrable y vacuo de unos sueños
cuyas pesadas páginas un dedo,
lento y glacial vuelve implacable,
hasta que náusea y tiempo nos consumen.

  Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, p 283.
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"... defende-se contra a pobreza e contra a sujeição."

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    " A Força da Grécia "

A Grécia foi sempre criada na pobreza, mas junta-se-lhe a
virtude, amassada na sabedoria e numa lei rigorosa. Apoian-
do-se nelas, a Grécia defende-se contra a pobreza e contra
a sujeição.

      Heródoto (Livro VII, 102) in Hélade, Antologia da Cultura Grega de Maria Helena da Rocha Pereira. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1971, p 224.

15/06/12

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A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

  Correia, Hélia. A Terceira Miséria. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2012, p 29.
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Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

  Correia, Hélia. A Terceira Miséria. Lisboa:  Relógio D' Água Editores, 2012, p 13.
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14/06/12

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 " La piel de un hombre "

Hasta qué punto pálido
y como el que más, translúcido,
la piel un sueño compuesto
de esas tenuidades que se ven en los sueños,
de esas tenuidades que oscilan
hasta perder-se de vista,
en la lontananza de una pesadilla
en la cual el rostro del soñador
se hunde en sí.

Esa piel pertenece a este hombre
que ama desesperadamente vivir,
pero a quien se le rehusa la vida,
pues el siglo ordena
que se muera cada segundo.

   Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, p 248.
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" Somos ya sólo sombras con una luz detrás? "


 " Sombras Chinescas "

Pasa - digo -. Has cambiado tanto
que de pronto pensé que no eras.
Cómo dices? Soy yo quien te habla.
Sólo que... no estoy seguro de que seas.
Quizá la penumbra de la tarde... Haré luz.
Dices que no me reconoces? Pues
será mejor tocarnos como los selvajes.
Oh, mi mano pasa a través de tu cuerpo!
Y dices que a tu mano le ha ocurrido lo mismo?
Somos ya sólo sombras con una luz detrás?
Divertido espectáculo de infinitas miradas,
miradas que nos traspasan como dagas crueles?
Habrá que convenir en que es todo un suceso.

  Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, p 224.
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13/06/12

" con derecho a figurar en los altares del horror. "


  " Solicitud de Canonización de Rosa Cagí "

Por la presente tengo a bien dirigirme a usted
para solicitar una plaza de santa laica
en la Iglesia del Amor.

Un hombre me juró amor eterno,
y su amor fue el infierno en la tierra.
Poseo en mi cuerpo más estigmas
de los exigidos por su Iglesia,
mayor cantidad de lágrimas
que las expresadas en centímetros cúbicos
en las planillas de las aspirantes a ser canonizadas,
mayor número de horas de insomnio,
y en mis rodillas callosidades tan elocuentes
que mis amigas me dicen:
Rosa la genuflexa.

Una noche
me hizo caminar como perra,
maullar como gata,
llorar como niña
y cantar como anciana.

Otra noche,
me obligó a besar el retrato de su amada,
y you pensé que a lo mejor
obligava a su amada a besar mi retrato,
y esa misma noche
- no sabe cuánta pena me da escribir esto -
me gritó degenerada.

En cuanto al requisito exigido por su Iglesia:
" Amarás aunque te muelan a palos ",
puedo asegurarle
que mi amor es inconmensurable,
a tal extremo
que ese hombre es mi Sumo Bien,
Mi Todo y mi Nada.

Por tanto,
habiendo sido humillada,
ofendida, vilipendiada,
postergada y vejada;
habiendo sido configurada en esa extraña latitud
que es ser muerta en vida.

Yo,
Rosa Cagí,
en pleno disfrute de mis facultades mentales,
pido humildemente ser canonizada como santa laica
con derecho a figurar en los altares del horror.

   Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, pp 126 - 127.
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12/06/12

"(...) bella, seductora,/ o parecerlo, que viene a ser lo mismo. "


 " Cirugía Plástica "

Me acompaña, señora?
Es hacia el final del pasillo,
desde aquí se ve la placa:
Salón de Cirugía Plástica.
Me dice que de nuevo
querría ser joven, bella, seductora,
o parecerlo, que viene a ser lo mismo.
Me dice que ya no puede más
con las arrugas, las bolsas,
las patas de gallina,
y que en los cuartos del amor,
aun con luz velada, se ven, señora, se ven
como una paisaje lunar.
Usted quiere la cirugía plástica,
tanto la quiere, mi señora,
que ya se ve en sus senos la turgencia,
y en su piel... oh, la piel, señora mía!
si de sólo rozarla ya me quemo.
Es tan sólo cuestión de entrar en el quirófano,
dejar que la cuchilla haga su obra,
y dos horas después...
Después? Después?
Después será la misma, mi señora,
con un ligero toque de ilusión.

  Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, p 125.

11/06/12

Maria Keil ( 9/8/1914 - 10/6/2012)

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Eu e a Irene descíamos o estreito carreiro que ligava a porta do palacete ao portão que dava para a rua. Uma vez aí apercebemo-nos que nos tínhamos esquecido de, no interior, abrirmos esse mesmo portão. Eu volto lá dentro! Disse à Irene. Mas é então que aparece uma mulher franzina, ágil, sorridente: Vocês não conseguem sair? Não! É fácil, diz ela, e, num pequeno salto, toca com o pé no trinco do portão que imediatamente se abre. O rosto dela ilumina-se num sorriso agaitado. Diz-nos que tem de ir à farmácia e ultrapassa-nos. Eu e a Irene estávamos boquiabertos por termos sido superados pela agilidade de alguém muito mais velho do que nós. Ainda não se tinha afastado demasiado quando se volta para trás: ah, não contem a ninguém o truque! Foi deste modo que conheci a grande Maria Keil. Mais tarde descobriria a sua faceta mais importante, a sua grande entrega à arte...
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" a pele inviolável/ de seu corpo inviolável "

  " Os ornamentos "

e o homem foi arrancado da casca da noite
e acrescido de dentes e olhos
e foi trançado dia e dotado de ouvido

e ouviu:
o trigo roçando o éter de Galileu
os pés descalços
a grama úmida de hortelã

e ouviu:
    a pele inviolável
    de seu corpo inviolável
( germinar lagartas nos arremedos de vértebra)
    flanco e dorso
    das carcaças de pachiderme

um hipopótamo sonhando entre os girassóis

    Márcio-André. Poesia do Mundo 6. Coimbra: Palimage, 2010, p 120.
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10/06/12

...


não é possível ter amado e ser agora uma casa fechada, onde
houve um armário que foi crescendo com vestidos costurados
na paciência do desejo. não é possível ter amado e ser agora
uma casa apagada, onde houve uma música que tocou tanto
que se colou ao papel da parede. não é possível ter amado e
ser agora uma casa desligada, onde houve um bule que fabricou
tantos afectos que o perfume do jasmim ficou preso no coração
das palavras, como uma trepadeira que protege a mansarda do
 inverno. não é possível ter amado e não ser mais que um gato
que se esquiva da alfazema e dos jornais amarrotados. é pos-
sível? não é possível.

  Gonçalves, Daniel. A tua luz costurou-me uma bainha no coração. Fafe:
Editora Labirinto, 2012, p 42.
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08/06/12

...


alguma coisa ficou por dizer. afastei as mãos da mesa e
desencontrei-me com as palavras que tinham caído ao chão.
são como instrumentos de sopro avariados. chaves que não
abrem mais a porta do coração. alguma coisa ficou por dizer.
estou infinitamente triste como quem regressa de um bosque
encantado. infinitamente triste como quem teve um deslumbra-
mento de chocolate e agora tudo lhe sabe a terra molhada.

   Gonçalves, Daniel. A tua luz costurou-me uma bainha no coração. Fafe:
Editora Labirinto, 2012, p 20.
.

...


suportei o inverno mais longo de sempre lendo as
entrelinhas do teu vestido. acertei as horas às estrelas
e nas estrelas deixei os sonhos dos embondeiros.
quando dei a volta ao universo regressei ao princípio
da palavra e voltei a cantar tudo de novo, porque era
finalmente uma criação bela, estava transparente como
uma pérola por recolher. parei. deixei-me deserguer
numa colina primordial e inventei uma casa. usei o teu
vestido para fecundar o jardim e sempre que o sol caía
nas hortênsias o amor me encontrava. escrevi os primeiros
poemas. iluminaram-se-me as sombras, mas não tinha
sombras, penas perfumadas somente. como um anjo
que guarda a eternidade, voltei a adormecer despido.
sonhei, estou certo disso, de boca aberta, por onde
se esgotou a tristeza e o pórtico naufragado do
esquecimento.

    Gonçalves, Daniel. A tua luz costurou-me uma bainha no coração. Fafe:
Editora Labirinto, 2012, p 12.
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07/06/12

"(...) abro cortes na ponta/ dos dedos, mergulho-os como isco/ no escuro, e aguardo. "


 " Outra Educação "

Uma bilha cheia até metade de água,
a colher de café torta e um garfo,
enferrujados entre pés de erva-cidreira
e sulcos de mel - alguma coisa
nesta frágil ordem nos faz achar-lhe
um sentido, pôr na boca uma sombra
por mais passageira que seja.

Assim, enquanto as flores sacodem
o perfume na humidade salgada do ar,
à escada de ferro que sobe espiralando
p'rà mansarda, vem mijar um cão
desorientado, e uns degraus mais acima
dorme de olho aberto um gato zarolho.
Estou entre eles e os pêssegos e cigarros
na mesa de pedra, imagens meio inconscientes,
devorando páginas e páginas do caderno.

A poesia é o menos. Serve
se der com o ritmo e souber guiar
essas nuvens ralas, os rebanhos do céu,
suster o barulhinho intermitente
desta chuva de Agosto nos vidros,
o vento gemendo de gozo e a respiração
funda do mar. Isso e a ronda
noctívaga dos cigarros, o cerco da sua
risada coroando as nossas cabeças.

Queria era falar-te destas casas
com os joelhos dentro de água, a doçura
vagarosa do seu desmoronamento e como
é fácil escutar o sangue aqui. O que sublinha
entre estes nomes que repetimos até
perderem o sabor.
Ponta dos Rosais, Pico da Esperança, Fajã
das Almas, Fajã do Ouvidor, Poça Simão Dias...
Labirínticos e pedregosos, a vertigem
encantada destes lugares é toda uma educação.

Esta gente leda que nos espreita
mansamente à entrada dos cortiços
embelecidos pelo sopro de luz
ganhando cada linha exterior antes
de coalhar no interior. É difícil
ler a distância que pesa no que lhes resta
do olhar ou os gestos com que enxotam
os dias e as moscas.

Gosto muito e sem razão
da rapariga que nos serve num dos poucos
cafés da ilha. A blusa enodoada e doce,
aberta, uma ternura sem jeito, e
por isso, rara. O namorado zela por trás
do balcão. Sussurra-lhe instruções. Os dois
provocam-se, magoam-se - é jogo.
E foi um esboço eterno como este
aquele que deixámos a meio.

De propósito ou não,
no dia em que foste deixaste acesa a luz
do teu lado da cama. Nunca mais
a apaguei. Depois veio o tempo
em que do teu corpo fiz um país infindo
para embebedar-me e perder a pele
todas as noites, mais fundo de cada vez.
Ficar perto desses que raspam o silêncio
com os ossos. Sentir tudo, ver brilhar
as nossas cicatrizes, frescas todas as manhãs.


Defendíamos o nosso inferno.

Quem por esses dias também pouco
tirava do sono era deus. Via-o escapar-se,
madrugada ainda, da mesma pensão barata,
o olhar comido pelo vazio,
triste como nós. E a única consolação
que sempre tivemos era essa: fazíamos
um número do caraças.

Excepção feita a um ou outro pormenor,
esqueci-te. Ficou um ruído sufocado
que mói, mas menos. Às vezes
um cheiro gosta de alguma coisa, puxa
a recordação do teu, outras
acontece-me ler o teu nome por acaso,
e as suas sílabas absurdas, ainda molhadas,
despedaçam-me a boca.

Já não me queixo tanto. Em Lisboa
há um jardim onde me levo,
tem umas estátuas meio despidas.
Uma delas dói-me mais. Gosto de apanhar
a erva que lhe cresce nas margens,
atento àquela boca aberta em redor
de um grito que mais ninguém ouve
senão eu. Mel de uma boca
de sombra onde os dias ganharam
o gosto de esperar uma frase. Eu escrevo.
Quer dizer que abro cortes na ponta
dos dedos, mergulho-os como isco
no escuro, e aguardo.

  Pinto, Diogo Vaz. Criatura Nº 5. Outubro, 2010, pp 45 - 48.
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" et moi je me souviens de matins/ où je ne te connaissais pas encore "

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tu dis
je viens


je dis
je pars
te voir


tu viens

la carte de l' oeil
en point de mire
je vois
des lacs sur des prés
des cygnes sur des lacs

le train dans ton coeur
t' emporte
et m' entraîne

un carré de gazon se détache sur le gravier
tu aimes être éparpillé comme des cailloux tu dis
et moi je me souviens de matins
où je ne te connaissais pas encore

   Janzyk, Véronique. Trois poètes belges. Neuilly-lès-Dijon: Éditions du Murmure, 2010, p 39.
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06/06/12

" Tu viens de lui promettre de tout quitter, mais/ il est trop tard. "


Elle, depuis trente ans. Toujours de l'affection pour elle. On ne divorce
pas quand on a encore de l'affection. L'autre, trente ans de moins
que toi. Ta maîtresse depuis trois ans. Tu n'as pas vu le temps
passer. Elle oui. Tu viens de lui promettre de tout quitter, mais
il est trop tard. Elle dit que ça lui est tombé dessus comme ça
vous est tombé dessus. Elle en a rencontré un autre. L'amour
déjà s'était évaporé de dessus vos épaules. Vous aviez réservé des
billets por l'Inde. Tu avais claironné à tes amis ton besoin d'une
retraite, d'une solitude loin de tout. Tu as bien dû y aller. Et
elle t'a accompagné. Vous ne vous êtes pas touchés. Vous avez
dormi dans deux chambres, parfois dans la même, sur des lits
contigus. Tu as fait l'Inde le désir au ventre. Ce fut à couper au
couteau. Tu pleures en le racontant. Tu me demandes comment
la terre tourne. La terre tourne. Les gens tiennent dessus. C'est
incroyable. Comment fait-on? Je partage avec toi le mystère
de la terre qui tourne. C'est quand même incroyable. Oui, c'est
merveilleux. Tu essuies tes larmes. Tu dis Je ne sais pas pourquoi
mais j'ai l'impression de mieux comprendre les Indiens.
Oh mon ami.

    Janzyk, Véronique. Trois poètes belges. Neuilly-lès-Dijon: Éditions de Murmure, 2010, p 37.
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30/05/12

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  " Argonauta "

Perdi a última e doce amarra
que me ligava ao cais terreno

argonauta voei no espaço
em eternidade de luz

ao regressar ao azul
um gaivota só
tremia de saudade à beira-mar


   Evónio, Joaquim. Viola Delta, Volume XXV. Lisboa: Edições Mic, 1998, p 31.
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  " Terra Húmida "

No húmus do verbo
escrevem-se fantasias.
Sexos entrelaçados
germinam infinito.
Ao ouvir o nada
a paixão nasce do silêncio
em ambiente de luz.
O arco-íris faz-se aurora
e a raíz da flor
bebe a lágrima fria
do espaço sideral.


  Evónio, Joaquim. Viola Delta, volume XXV. Lisboa: Edições Mic, 1998, p 30.
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24/05/12

" mais ce qu' il préfère encore c' est se taire et prier. "

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   " Un homme ulcéré "
       ( extrait )

Il connaît le nom de tous les fleuves du pays, les rivières et les
lacs jusqu'au plus minuscule poisson, les nombreux affluents, le
dernier des méandres et la composition des sols, il sait manier
l'abaque, l'équerre et le compas, qunad il fait la dictée le timbre
de sa voix s' infléchit légèrement, couteau traînant dans l'air, il
marche sur les pas des grands explorateurs, la cendre des aztèques,
tout le sang partout sur les terres et les mains de chacun, il conte
l'Antiquité avec les fous de première, Claude, Néron, Caigula et
les gorges aux cigues, mais ce qu'il préfère encore c'est se taire et
prier.

Des cheveux sombres noyés de bleu, lourds et brillantinés. Un
regard noir, intense, brillant comme un bout d'anthracite. Le
nez aigu de l'aigle et de la buse, signe d'avarice, d' accord, mais
ne dénotant pas sur son joli visage. Puis une bouche délicate ne
s'ouvrant que pour l' essentiel: manger le pain, les rondelles de
bananes et celles de pommes de terre, lire les psaumes et le matin,
à midi et encore tard le soir, faire ses oraisons dans sa chambre au
premier. Un homme d'une grande beauté.

    Wauters, Antoine. Trois Poètes Belges. Neuilly-lès-Dijon: Éditions du Murmure, 2010, p 100.
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" Ce que nous avons à nous dire n'est pas/ sous nos yeux... "


 "Debout sur la langue "
( extraits du Bookleg paru aux Éditions Maelstrom, 2008)

(...   ...   ...  )
Là où je crois dire, je ne dis rien encore.
Et là où je crois parler, ce sont les mots qui
me parlent, m' éventrent et très doux, très
doucement me soufflent, au sens où l'on dit
de quelqu'un qu'il nous prend quelque chose.
Soufflé, vidé de moelle et sel, d'autres voix me
passent, dansent en rond, me faufilent.

(...  ...  ... )

Ce que nous avons à nous dire n'est pas
sous nos yeux, de même, ce que nous avons
à entendre n'est pas dans ce qui, jour et nuit
et jour, nous crève les oreilles, les rendant
balourdes, marteaux. La parole est à retrouver
dans la parole, loin sous le vide soufflé, sous le
vite et mort dit.

Parce qu'elle ouvre sur un espace plus vaste,
bouillant de sang trouble, d'inoui, une terre
de souffle et de sel, l'écriture rend possible ce
miracle: donner voix, vie au corps, fibres et
foins, petits os. Sans la langue, vivre est une
abstraction..

   Wauters, Antoine. Trois Poètes Belges. Neuilly-lès-Dijon: Éditions du Murmure, 2010, pp 96 - 97.
.

23/05/12

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Tenho um búzio por dentro iluminado onde, junto à
fenda branca e estriada de seus lábios, levemente re-
curvado, foi pintado um coqueiro, perto das ondas
de uma baía que jazia sob eterno poente alaranjado...

quando com os dedos acendo o colar de luzes dessa
baía, pedaço e alma da cidade, intuo que entre mim e
ela não há nem havia, na verdade, a distância que tan-
tas vezes julgo ver com algum recuo...

mas há ainda decerto o mar alto da saudade, um céu
de astros deserto, um lastro de melancolia e um es-
tranho apelo cuja origem e significado ainda não situo...

  Gil, António. Obra ao Rubro. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 37.
.

Aprender o alfabeto da luz, a pronúncia sussurrada da
folhagem, estudar apaixonadamente as conjugações
estelares, aprofundar o léxico galáctico, mergulhar na
semântica universal...

... e apesar disso, bastar-me o pensamento de contigo
me cruzar para logo emudecer...

    Gil, António. Obra ao Rubro. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 34.
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21/05/12

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 " O Prazo de Nero "


Não se preocupou Nero quando ouviu
o vaticínio do oráculo de Delfos.
" Teme os setenta e três anos ".
Tinha ainda tempo para gozar.
Tem trinta anos. Mais do que bastante
é o prazo que o deus lhe dá
para tratar dos perigos futuros.

Agora vai regressar a Roma cansado um pouco,
mas excelsamente cansado desta viagem,
que foi toda dias de deleite -
nos teatros, nos jardins, nos ginásios...
Os entardeceres das cidades da Acaia...
Ah dos corpos nus o prazer antes de tudo...

Assim Nero. E na Espanha Galba
às ocultas reune as suas tropas e exercita-as,
o ancião de setenta e três anos.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, p 153 ( Tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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20/05/12


  " As coisas perigosas "



Disse Myrtias ( estudante sírio
em Alexandria; sendo reis
augustus Constans e augustus Constantius;
em parte gentio, e em parte cristianizante );
" Fortalecido com teoria e estudo,
eu as minhas paixões não vou temer como cobarde.
O meu corpo aos prazeres vou dar,
aos deleites sonhados,
aos desejos eróticos mais audazes,
aos ímpetos lascivos do meus sangue, sem
medo nenhum, pois sempre que queira -
e terei vontade, fortalecido
como estarei com teoria e estudo -
nos momentos críticos hei-de encontrar
o meu espírito, como dantes, ascético. "

    Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, p 105 ( Tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis ).
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19/05/12


 " ÍTACA "



Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poséidon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o selvagem Poséidon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.

Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.

Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já hás-de compreender o que significam Ítacas.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, pp 63-65 ( Tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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17/05/12

" mas fresco ribeiro se tenho sede; "

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  " Maravilhamo-nos com a vida "

Quando sorri, é pura estrela o sorriso,
mas fresco ribeiro se tenho sede;
pode a minha querida aos céus abrir-se,
que beijá-la só a mim se concede.

São seus cabelos ouro junto com breu,
bosques orvalhados seus olhos: frente
à sua porta deitar-me-ia eu
qual tapete, mas ela não consente.

Num canto das vozes o beijo se sela
e para as irmãs discorre, furtiva...
Pode o prado sonhar muita coisa bela -
é coração das ervas minha qu'rida.

Connosco à noite os beijos se vão embora
e pelo espaço do mundo em corrida
estendemo-nos os dois sob o céu da aurora
e só nos maravilhamos com a vida.

  Attila, József. Antologia da Poesia Húngara. Lisboa: Âncora Editora, 2002, p 187 (tradução de Ernesto Rodrigues).
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" sozinho como a noite em calafrios "

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  " Espero-te "

Espero-te sempre. A relva está orvalhada,
esperam também as grandes árvores de orgulhosas copas.
Rígido estou e tremo também às vezes,
sozinho como a noite em calafrios.
O prado, se viesses, tornava-se corredor liso
e silêncio seria. Um grande silêncio.
Mas música ouviríamos, misteriosa,
cantariam nos lábios nossos corações
e lentos, corados, nos fundíríamos
em altar cheiroso ardendo
para o infinito.

    Attila, József. Antologia da Poesia Húngara. Lisboa: Âncora Editores, 2002, p 183 (tradução de Ernesto Rodrigues).
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16/05/12


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   " Ruínas "


Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.

  Pina, Manuel António. Como se desenha uma casa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p 31.
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15/05/12


  " O quarto "


Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste

para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.

A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.

Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.

Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.

   Pina, Manuel António. Como se desenha uma casa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, pp 18 - 19.
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14/05/12

Apresentação...

( Texto de apresentação do livro "Obra ao Rubro" de António Gil. Lido no dia 12 de maio no Auditório do Campo Grande, 56.)

Obra ao Rubro, de António Gil, numa primeira aproximação, alerta-nos para a especificidade do seu próprio título. Plurisignificativo, ele contém em si uma dedicatória a um dado processo ígneo e incandescente, mas também uma oferenda e um tributo a um caminho no desvelamento de algo. Parece-me, pois, podermos estabelecer uma contraposição entre o livro de que nos ocupamos aqui e a célebre Obra ao Negro de Marguerite Yourcenar. Assim, se esta última mostra (e denuncia) um estar-aqui marcado pelo obscurantismo e pela negritude, em Obra ao Rubro é outro o itinerário que se pretende traçar.
António Gil, num texto preambular ao nó central da obra, traça um paralelísmo entre um processo organizativo alquímico-fisicista:

" Matérias primordiais, a inconjunta mole dos tecidos minerais (...) num cadinho de sais reagente..." (p 7)

com um outro que mais não é do que a própria experiência poética:

"(...) o poema e sua gema em conjunto, escolhem indigentes seu caminho, seu tempo, seus referentes, seu assunto..." (p 7)

Na terceira secção deste primeiro texto o poeta mapeia o que irá ser o solo fundamental (e fundante) deste seu livro ao falar do que se ergue das "trevas da matéria", isto é, dos "ribeiros de luz, regatos de fascínio, cascata de deslumbre", que são voz que circum-navega o eu-poético. António Gil, nesta minha leitura, pretende encaminhar-nos para um périplo simultaneamente poético-existencial, cosmológico e metapoético. Périplo este que ele cinde em cinco estádios - de que mais à frente falaremos -: Magmas, Irrupções, Aras, Fluxos, Auras.
Dos vários procedimentos estilísticos utilizados pelo poeta, podemos já referir um que surge como liame encaminhador de estádio para estádio: após discorrer, poeticamente, sobre cada uma destas etapas, António Gil vai lançando expressões e imagens que permitem a transposição para a temática seguinte sem que tal se faça com hiatos ou passagens abruptas. Estamos, por conseguinte, ante um livro de poesia que, sem pôr em causa a autonomia de cada poema, finca como cunho último a organicidade do todo. E chamo-lhe livro de poesia porque a sua não homogeneidade formal ( veja-se logo os primeiros textos: uma quadra, dois textos aparentemente prosaicos, um poema formado por dois tercetos...) jamais põe em causa a poeticidade da obra, bem como o solo matricial do qual ela irrompe e que a torna una e estruturada. Relativamente a esses textos que não assumem a forma (tradicional) de poema, direi tão-só que pode existir poesia sem que haja verso (vejam-se obras de Rimbaud, Christian Bobin, André Velter, Bernard Noel...), mas também podem existir outras, que, apesar de serem em verso, não o são de poesia, atenda-se, por exemplo, a Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares. Portanto, e superado este aparente obstáculo, penso que Obra ao Rubro é um livro todo ele enformado por textos poéticos, mesmo consderando os que se inscrevem numa linearidade e narratividade com configuração de prosa, estes, por sua vez, apresentam-se como fragmentos de discurso trespassados por ritmo e compasso, que, regra geral, são enfatizados por dados esquemas rimáticos e por recorrentes figuras de estilo, que lhes vincam uma musicalidade bem próxima da existente nas estrofes tradicionais

Exemplo 1 ( texto de Magmas, p 16, a partir da 6ª linha ):
"(...) no céu frio petrifica, alta vaga marítima que avança, de fogo a ponta de sua lança (...) então falo e sinto que para dentro grito..."

Vemos aqui elementos cujo uso tem por fim a assunção do poético pelo fragmento, elementos como:
. o predomínio de uma pontuação prosódica
. rimas internas (fugindo, contudo, à definição estatuida deste conceito!) de carácter soante ou consonante: lança/ balança; rebate/ bate; relance/ lance; calo/ falo...

Exemplo 2 (texto de Irrupções, p 39, da 1ª à 9ª linha):
" É verdade que desenraizado andei de cidade em cidade (...) o desfalecido traço não avivo nem refaço."

Também neste excerto podem ser detetados diversos procedimentos que inserem toda esta produção textual na área da poesia. Eis, por exemplo, as mesmas rimas internas soantes, ou consoantes ( aliás, António Gil raramente utiliza rimas toantes): verdade/ cidade; balsa/ valsa; falso/ valso, etc.
Para além destes dois exemplos à guisa de breve fundamentação do carácter rítmico-poético deste livro de António Gil e, especificamente, deste tipo de textos, encontramos ainda outros procedimentos estilísticos que sedimentam (e ajudam a caracterizar) esta escrita:

Exemplo 3 ( texto de Irrupções, p 30):
" O solo em fuga decolando das minhas solas decoladas, o cabelo despenteando o vento (...) por força da sugestão e da palavra, acima, bem acima, muito acima...

Apenas alguns recursos estilísticos para reforçar a tese da riqueza desta tecedura poética:
. prosopopéias: "o solo em fuga"... esta figura aparece também noutros textos: "a fome das águas" (p 22)
. comparações: " os braços adejando como flâmulas"
. repetições intensificadores (gradações): " acima, bem acima, muito acima..."
. metáforas: "esta ave de rapina que já então no pulso me saía "

Finalmente o Exemplo 4 (texto da secção Irrupções, p 27):

Neste caso temos um poema constituído por quatro estrofes (quadras) que se apresenta:
. com rima externa interpolada ( António Gil nunca usa a rima emparelhada nem a alternada) e, de novo, a predominância das rimas soantes
. um deliberado desrespeito pela métrica do verso
. certos procedimentos estilísticos que raramente aparecem nos outros poemas, tais como:
----- jogos de paronímia: pareceria/ parceria (3ª estrofe); tacto/ tato (4ª estrofe)
----- o encavalgamento (processo que levanta, hoje, alguma polémica entre os poetas): veja-se o que surge na passagem da 1ª para a 2ª estrofe.

Como corolário deste breve olhar para o último livro de António Gil, e apenas no que diz respeito aos seus aspectos formais, não me ficaram quaisquer dúvidas que o poeta domina este seu fazer, mas sem dele se sentir prisioneiro, antes pelo contrário, a urdidura dos textos aparece-nos subordinada ao sentido dos mesmos. Por conseguinte, António Gil dota a sua escrita não só de fluidez, mas de um intencional acicate como forma de envolver o leitor com o corpo do texto; como forma de o comprometer com um percurso que, apesar de polissémico, parece-me subrepticiamente apontar para uma finalidade que o eu-poético pretende, com alguns laivos de normatividade, endossar àquele que o está lendo e, em certa medida, completando.
Este percurso inicia-se com uma primeira secção denominada Magmas. Para a leitura que temos vindo a fazer é importante esta opção pelo plural da palavra! Esta matéria ( ou matérias?) ardente surge-me associada a uma negatividade que se encontra esparsa por todas as vertentes dessa massa heteróclita e fervente:
. " Logo que as trevas jorravam dentro do quarto" (p 12)
. " Chorei no asfalto espargido" (p 14)
. " O ruído da metrópole desprende-se da ponta desta hora..." (p 15)
. " Assim como os níveis do ruído se podem elevar até à dor " (p 16)
. " Tanto nos habituámos a viver à superfície das coisas" (p 19)

E será depois, no texto da página 20, que, enfaticamente, nos surgirá a associação já referida entre o mundo físico e o mundo do poema:

" Embora haja quem o considere extinto ou de flor rara o repute, o poema é animal vivo e portanto repercute a respiração, a circulação e do voo o instinto: o seu magma particular é a vontade de voar nos dedos acesos como asas... "

A confirmação deste paralelismo mundo físico/ universo do poema poderá também ser inferida do final da página 22 , à medida que se anuncia o final desta secção e se adivinha a "divina irrupção" (p 23).
Em Irrupções ( e António Gil opta de novo pelo plural!) o magma incandescente, revolto e inundante do Todo encontra a sua porta de saída:

" O poema então irrompia
na língua viva do tacto
escrito na pele com o tato
do contacto que o escrevia "   (p 27)

Estas irrupções, tal como o entrevisto, e apesar do continuum do trajecto que atravessa todos os territórios do aqui abordado, são plurais, e mantém-se nelas uma interconexão em todos os sentidos. Dito de outro modo: se as irrupções ocorrem nos planos cosmológico e antropológico (veja-se texto da página 30), logo, elas se repercutem também no plano da criação poética:

" Se acaso para escrever aqui me sento
logo em voo uma ave se levanta
e é ainda em voo que ela canta
a imensidão do mútuo amor ao vento "  ( p 31 )

Esta irrupção, que é também existencial (leia-se a primeira estrofe do poema da página 35 ou o texto da 39), é acima de tudo o que nos leva dos Magmas ao "aprender o alfabeto da luz, a pronúncia sussurrada da folhagem, estudar apaixonadamente as conjugações estelares " ( p 34 ). Estamos, portanto, no seio de um caminho que é também decifração, onde " raras são as criaturas que aprendem a ler " ( p 41 ) aquilo que realmente É, aquilo que, pela sua sacralidade, não se encontra a todas as horas nem a todas as pessoas se entrega. Chegados a este ponto, e num reforço da coerência desta obra, percebe-se por que o poeta opta por epígrafes de autores como Jakob Boheme e Eckhart.
A terceira secção do livro, Aras, aparece intimamente ligada a uma dimensão sacrificial e a uma dada encenação do rito. Aqui, sobre as aras, é uma etapa fundamental do percurso que se desvela, uma etapa onde " o tempo é círculo " (p 47), como em qualquer ritual de consagração, e, portanto, onde cosmos, homem e poema ressurgem "ao arrepio da morte" (p 47), numa dimensão do sagrado que nada tem a ver com a noção tradicional de Deus, já "que de um deus abstracto e ausente, só necessita quem, pelo tacto, já seu Deus não sente" (p 48). É neste caminho que, por vocação e sentir o eu-poético a si destina... será por aí, por essa estrada, que o seu frio se transformará em brasa e a sua sede em água ( cf. p 51). Após esta apreensão (ou intuição?) António Gil escreve que é nas pelejas da terra, nessa incontornável guerra terrena, que ele ensaia algo:

"(...) onde treino e realizo a promessa antiga de um reino que me preza e que me abriga... " ( p 51 )

São vários, nesta secção, os elementos de uma simbologia iniciática, veja-se, por exemplo, "a rosa": páginas 56, 57, 63, 88, mas são ainda mais as passagens que nos remetem para a ritualização transmutativa de todas essas matérias provenientes dos Magmas originários (homem, poema, cosmos, etc.), que agora, sobre as Aras, vislumbram um território outro, um espaço onde serão plenamente, onde serão na absoluta coincidência do seu em-si essencial com o sagrado de que emanam e participam. A súmula deste itinerário aparece de forma nítida no poema da página 56:

" Ao sonho chegarás seguindo o curso
da rosa pendular da hipnose, do transe
da suspensa pedra que balance
entre dois pontos fixos do percurso

assim tu, auto-sugestionado
subirás ao miradouro do que és
e a paisagem que tiveres a teus pés
é imagem de teu ser distanciado "

Esta minha leitura tem logo outra confirmação na epígrafe de Fluxos, já que aí se diz explicitamente que a luz divina que ilumina todas as coisas e, consequentemente, a transmutação divinizante que recai sobre os entes, não é assimilada da mesma maneira por todos, já que o "coração grosseiro e inferior" devora-a, enquanto que o "coração subtil e superior absorve-a e irradia-a", ou seja, dotado de Aura este último funde-se com o próprio sagrado. É este, penso, o roteiro poético-metafísico apontado pelo o eu-lírico, roteiro que é igualmente ético, antropológico e até mesmo cosmológico. Um roteiro que, proveniente desses Magmas iniciais e através de etapas e transformações - Irrupções, Aras, Fluxos - alcança, em Auras, esse clímax que é simultaneamente plenitude, concretização fundamental e obtenção da verdadeira OBRA: sagrada, divina, RUBRA. Diz o poeta:

"Rubra é a obra que semeia
na carne fria da pedra
o verbo divino que impregna
de sangue quente a ideia "  ( p 87 )

Neste labor poético-existencial a poesia assume-se como um Fluxo privilegiado, mas, nas minha leitura, existem outros igualmente importantes (o Amor, a Palavra... até a Contemplação, como se lê na página 83), no entanto, é na (e pela) poesia que toda a obra humana se vê como transformável, pelo que uma OBRA AO RUBRO será necessariamente POÉTICA e uma OBRA POÉTICA será invariavelmente uma OBRA AO RUBRO. E será, por consequência, nesse território dual ( e dialogal) que o poeta tenderá a manter-se sempre, como António Gil conclui num dos seus poemas:

" Seja o poema abrigo
percurso, rosa acesa
rio, raio de surpresa
aura de rosto amigo

não me ocupa entrar
no poema ou dele sair:
se nele estou deixo-me ir
se dele saio é para voltar "   ( p 88 )
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                     Victor  Oliveira  Mateus