11/07/12

"(...) as produções automáticas depressivas são reforçadas pelo próprio... "


A psicoterapia sistemática inicial no doente depressivo agudo desenvolve-se com a técnica da psicoterapia cognitivo-comportamental, quase a única forma de psicoterapia sistemática possível. Trata-se, antes de tudo, de corrigir as cognições erradas (ideias, informações e atitudes) do doente sobre si mesmo. A depressão auto-alimenta-se enquanto for fonte de pensamentos e atitudes negativas em torno do eu, do vínculo com o mundo exterior e daquilo que o futuro lhe possa trazer. Assim abundam afirmações deste cariz: "eu sou um inútil", "não conto com ninguém para ajudar-me", " a doença é incurável e o sofrimento não terá fim". O doente automortifica-se pelas três vias seguintes: escassa satisfação de si mesmo, subestimação dos reforços positivos recebidos do exterior e convicção de um futuro fechado.
  Para Greden (2003), a terapia cognitiva assenta na terapia da aprendizagem, e é, certamente, um tipo de aprendizagem, na qual há que corrigir os pensamentos distorcidos para normalizar os comportamentos associados à depressão.
  A tarefa psicoterapêutica não é fácil nem simples perante este panorama, porque as produções automáticas depressivas são reforçadas pelo próprio doente com raciocínios errados sobretudo na forma de generalizações abusivas, absolutizações ilógicas (vê tudo como definitivo), ampliações ou minimizações pouco razoáveis (avaliações por excesso ou por defeito), pensamento dicotómico ou maniqueísta (divisão das experiências em duas categorias opostas: bom ou mau, falso ou verdadeiro, etc.); personalizações excessivas (estabelecimento de uma relação entre o acontecimento externo negativo e a própria pessoa sem uma base suficiente para isso).
  A acção da psicoterapia cognitiva trata de substituir os pensamentos negros sobre o "eu", o ambiente e o futuro por imagens agradáveis e ao mesmo tempo modificar os raciocínios distorcidos. Por isso, o psicoterapeuta cognitivista empenha-se em contribuir para oferecer ao paciente uma informação realista e bem elaborada, preparando-o para não aceitar os pensamentos automáticos (...)
   O próprio fundador da terapia cognitiva Aaron Beck (2005), conclui agora, 30 anos depois da sua criação, e apoiando-se na própria experiência e na meta-análise do método, que a terapia cognitivo-comportamental é eficaz nos doentes depressivos para reduzir os sintomas e evitar as recaídas.
  À medida que o doente vai recuperando dos seus sintomas, sobretudo quando a acção do medicamento se torna mais activa (...) a psicoterapia adquire um maior êxito (...) na medida em que o terapeuta se encontra com um doente mais propenso a colaborar e a estabelecer conexões com o que o rodeia.

      Alonzo-Fernández, Francisco. As quatro dimensões do doente depressivo. Lisboa: Gradiva, 2010, pp  213 - 216.

Nota - A psicoterapia interliga-se com a farmacoterapia, que nesta obra pode ser consultada nas páginas 185 - 209.

09/07/12

" Por aqui se deduz que o estado neuroquímico é influenciado pelas próprias decisões da pessoa... "


  A síndrome depressiva está em princípio determinada pela interacção de factores genéticos e ambientais, mais ou menos isolados, mais ou menos formando uma constelação ou associação. Existe frequentemente um factor genético de vulnerabilidade, o que permite afirmar que em certo sentido todas as depressões são endógenas, embora, na sua maioria, sejam endógenas impuras. Esta observação tem o seu contraponto: as depressões endógenas estritas ou puras são muitas vezes mobilizadas ou precipitadas por estímulos stressantes.
No que se refere à identidade do facto etiológico ou causal fundamental, estabeleci - inspirando-me no sistema nosográfico do psiquiatra suiço Eugen Bleuler - a sectorização do círculo sindromático depressivo nestas quatro unidades nosológicas ou categorias de doença: a depressão endógena, a depressão situativa, a depressão psicógena e a depressão somatógena. Cada uma delas define-se em função da sua causa fundamental (Depressão endógena ou genética/ hereditariedade; depressão  psicógena ou neurótica/ conflito intrapsíquico; depressão situativa ou sociógena/ situação na vida; depressão somatógena/ transtorno corporal ). 
  É frequente a intervenção de uma causalidade mista, o que permite falar por exemplo de depressão endo-situativa e de modalidades análogas.
   Na origem de cada depressão, terá sempre de se contar com a possível intervenção dos quatro sistemas: o genoma, a situação de vida, o estado psíquico e o estado somático (...)
   A chave unitária da síndrome vital depressiva reside na patogenia da depressão. As quatro espécies de causas que distinguimos convergem na produção de um profundo desequilíbrio do substrato cerebral da vitalidade, que se encontra nos núcleos hipotalâmicos, em especial nos núcleos supraquiasmáticos do hipotálamo anterior, na proximidade da epífise (...)
  Trata-se de um mecanismo patogénico de dinâmica muito rica, que, uma vez iniciado por um distúrbio neuroquímico dos neurotransmissores ao nível hipotalâmico, se propaga em cascata como um distúrbio neuroendócrino múltiplo e um decréscimo da actividade do sitema neuroimunológico, e culmina num distúrbio neurofisiológico que altera a estrutura e a função de grupos de neurónios situados em pontos estratégicos do cérebro.
(...) o cérebro é um sistema químico dotado de ampla abertura. A conduta humana organiza-se dentro de uma espécie de laboratório químico cerebral de extraordinária complexidade, cuja regulação é partilhada pelos genes, as condições ambientais, as vivências e o funcionamento do organismo. Por aqui se deduz que o estado neuroquímico é influenciado pelas próprias decisões da pessoa, confirmando-se neste ponto de vista o nosso grande potencial de liberdade como um património específico do ser humano.

  Alonzo-Fernández, Francisco. As quatro dimensões do doente depressivo. Lisboa: Gradiva, 2010, pp 89 - 91.
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08/07/12

" Há falta de entendimento recíproco, como se estivessem - e estão - em mundos distintos. "


A sintonização com o outro alcança a sua figuração máxima na empatia (...), uma espécie de ressonância recíproca, verificando-se sob a forma de um intercâmbio de estímulos e respostas, ou seja, emissão e recepção de mensagens, canalizadas nas três espécies de linguagem humana: linguagem verbal, paraverbal e corporal.
  A redução da intercomunicação individual verbal, paraverbal e corporal, ou seja, mediante a palavra falada ou escrita, os sinais verbais concomitantes e os gestos corporais, estende-se, nos doentes depressivos assintónicos às funções de receptor e emissor, que protagonizam o processo circular definido como um intercâmbio de conteúdos significativos distribuídos em unidades ou mensagens. A comunicação é circular precisamente porque as duas partes alternam entre si nos papéis de emitir e receber. Pois bem, o núcleo da descomunicação depressiva está integrado pela redução simultânea do receber e emitir, do falar e escutar, do gesticular e observar.
(...) A assintonia pessoal conduz irremediavelmente ao bloqueio total ou parcial da intercomunicação humana. (...)O depressivo assintónico fala pouco, muitas vezes espontaneamente quase nada, responde com brevidade ou com monossílabos, e, ao mesmo tempo, tem muita dificuldade em escutar os outros. O diálogo torna-se impossível e tudo o mais que se consegue é uma espécie de "relação de surdos" (...) A linguagem paraverbal, um compêndio das manifestações concomitantes da linguagem falada, mostra-se aparatosamente afectada: o tom de voz mais débil do que suave, às vezes em forma de cochicho; a fluência do discurso, lento ou vacilante e salpicado por pausas de silêncio ou locuções repetidas (...)
A pobreza comunicacional do depressivo, carente da devida sintonia vital, conduz inexoravelmente a uma metacomunicação impregnada de equívocos de ambas as partes, sob a forma de significados enganosos, contraditórios ou simplesmente errados. Há falta de entendimento recíproco, como se estivessem - e estão - em mundos distintos.
(...) A distorção comunicacional induzida pelo pessimismo que invade o mundo depressivo é um dos exemplos mais demonstrativos de um fenómeno muito frequente na sociedade conhecido como catatimia.
  A tendência para se alhear dos amigos e dos familiares, inclusivamente das pessoas mais íntimas, deve-se não só ao propósito de evitar o diálogo impossível, mas também à tentativa de procurar o isolamento espacial. É que a desconexão ambiental do depressivo refere-se também à espacialidade.(...) Deixa-se levar assim por um comportamento global de retraimento social e de refúgio espacial, como se fosse um inimigo mortal do "ruído mundano" (...) O doente depressivo despojado da capacidade de sintonia ambiental ou atmosférica e interpessoal sente-se como um estranho, profundamente isolado e só, possuído por um sentimento de solidão radical e profunda, todavia desejado, como se fosse um refúgio sem entrada nem saída possível. "O depressivo diz Eismann (1984), "sente-se mais só e sofre mais com a sua solidão do que as outras pessoas." Os outros não podem entrar no seu mundo porque não o compreendem e ele renuncia a sair de si mesmo para não se ver acometido por novos sofrimentos.

   Alonso-Fernández, Francisco. As Quatro Dimensões do Doente Depressivo. Lisboa: Gradiva, 2010, pp 48 - 52.
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05/07/12

"E é precisamente o reconhecimento desta idealização deformante que abre o caminho à (...)libertação desse mundo de fantasmas "


O objecto do depressivo é ainda, e em regra, uma personagem altamente masoquista (tenhamos bem presente as características habituais das mães dos depressivos) e exibindo o seu estatuto e condição de vítima, de tal forma que a separação do sujeito, se comporta o seu salvamento, comporta também a recusa de se solidarizar com o trágico destino do objecto, abandonando-o de certo modo à sua sorte. Ora, tal conduta não é fácil de tomar; exige segurança e agressividade e desperta culpa. Por isso a separação tão difícil é; mas se se atinge é o sentimento de triunfo do sujeito que conseguiu libertar-se de uma relação mortificante e destruidora; e assim se compreende que a rotura se acompanhe, muitas vezes, de uma certa elação hipomaníaca. No decurso do trabalho analítico este processo de separação-individuação, acompanhado do luto do objecto primário, passa pela análise interpretativa da ligação masoquista do analisando, libertando a pulsão agressiva inflectida sobre o Self para actividades construtivas e sublimadas.
Outro traço característico do objecto do depressivo é a sua ambivalência: uma atitude de protecção e afecto contrastando com sentimentos de saturação relacional e rejeição, impondo ao investimento do sujeito um esgotante estado de tensão e retenção - "anda à trela" do objecto. (...) e só tendo em atenção estes dois tipos do processo transferencial - o movimento regrediente e repetitivo ( a repetição transferencial, que nos permite reconstruir o passado vivido) e o movimento progrediente e resolutivo (que costumamos designar por retomada da evolução suspensa, e no qual assenta precisamente a mudança de tipo e estilo de relação objectal( - podemos levar a bom termo a análise de um depressivo.
(...) Assim, o mundo interno do indivíduo está ocupado por objectos na realidade perdidos, mas que preenchem o espaço da ilusão. O indivíduo vive com esses introjectos, obviamente insatisfatórios; e bloqueantes da deflexão da líbido sobre o mundo exterior, os objectos da presença e da actualidade - do quotidiano - como bloqueantes ainda da expansão da personalidade. O caminho da cura passa então pela desidealização desses objectos internos.
Há uma certa tendência a valorizar ou fazer jogar aqui a pulsão agressiva: expulsar tais objectos internos pelo desbloquear da agressividade a eles ligada mas inflectida sobre o próprio e/ou transferida para objectos da circunstância. (...) frequentemente trata-se sobretudo do efeito retentivo de uma relação de idealização - relação densa, ocupante, expansiva e inflacionária, que está bem longe de corresponder às características reais  dos objectos introjectados. E é precisamente o reconhecimento desta idealização deformante que abre o caminho à necessária ruptura dos laços afectivos enquistados, com a libertação desse mundo de fantasmas (conscientes e inconscientes) do passado.

  Matos, António Coimbra de. A Depressão. Lisboa; Climepsi Editores, 2007, pp 54 - 55.
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04/07/12

" A Disposição Depressiva "


O que encontramos na condição ou disposição depressiva é a desistência dos interesses próprios (egoístas) em favor da manutenção do amor do objecto.
O que não é o mesmo - entenda-se bem - que o altruísmo ou o amor desinteressado do objecto. O depressivo ama para ser amado e admirado, pois que é pobre em sentimentos de auto-estima e autovalorização (a não ser quando intervém a defesa maníaca e emerge uma auto-imagem de grandiosidade). No verdadeiro altruísmo o indivíduo ama os outros porque tem capacidade de amar; na condição depressiva, por dependência afectiva - porque precisa do amor do outro.
Existem também certas diferenças com o masoquismo, embora este seja uma situação próxima e frequentemente entrelaçada com a depressão. No masoquismo o indivíduo vai mais longe: sofre (na relação com o objecto) para ter jus a ser amado, captar e manter o amor (do objecto) e ser admirado pela sua capacidade de sacrifício e sofrimento, ao mesmo tempo que sabe (em regra inconscientemente) estar a satisfazer a necessidade sádica do objecto, e com isso segurá-lo; mas, enquanto no masoquismo a relação de complementaridade do indivíduo com o objecto se processa na base da satisfação do sadismo do outro, na depressividade faz-se na base da satisfação do narcisismo do objecto.
A depressão e a defesa maníaca (o Self grandioso, megalómano; a negação da melancolia) andam em regra associadas. E, assim, as personalidades depressivas (não propriamente as pessoas que estão deprimidas - que manifestam o sintoma de abatimento e tristeza -, mas sim os indivíduos que são depressivos  que têm tendência a deprimir-se) apreciam não só poder queixar-se, quando encontram ressonância no ouvinte ou ouvintes (...) como também poder exibir algumas facetas da sua grandiosidade, que o interlocutor admire e aclame (o que tempera ou alivia o seu afecto depressivo). Mas esta última atitude - exibicionista (e de passividade do Eu) - em nada modifica a estrutura depressiva; apenas aligeira o peso do sentimento de não realização.
Na sua conduta diária, estes indivíduos repetem a relação, primária de objecto - em que foram amados na desgraça (no desamparo, na indefesa e na doença), por pena ou piedade, e admirados nas qualidades que interessavam ao objecto; e não, propriamente, aceites nas realizações autónomas e que lhes davam prazer a eles mesmos. Isto é: organizaram uma relação de objecto (a qual define a estrutura depressiva) na esteira de não terem sido considerados como sujeitos de um autêntico ser, com uma verdadeira identidade: mas sim objectos de desejos (...) dos seus próprios objectos: o paradigma é a mãe que investe narcisicamente o filho.
A saída desta condição depressiva faz-se - no curso da análise - pela luta contra o introjecto (objecto interno) externalizado no analista. Objecto-analista que, não destruído pela agressividade do analisando, será reintrojectado como objecto seguro, sólido e efectiva e efectivamente bom: e, precisamente por isso, tolerante, aberto e estimulante: que aprecia e mesmo solicita o desenvolvimento e realização livres e específicos do próprio. E com esta mudança se salda a cura analítica do depressivo: pela autonomia, e não pela cópia de mais um modelo.
(...) Por aqui vemos, também, que o tratamento analítico do depressivo passa pela transposição da passividade para a actividade; o que comporta certos riscos - quase inevitáveis - de passagem ao acto em transferência lateral. E o psicanalista que aceita ocupar-se de um doente narcísico terá de saber e poder suportar que se expõe, ou irá sofrer, certos incómodos relacionados com as reacções da entourage do analisando a vicissitudes do seu comportamento, nem sempre agradáveis (...).
O sentimento de falha e o medo de falhar, o sentimento de incapacidade, é um dos mais característicos nas pessoas depressivas; sentimento, não só ligado com o defeito do Eu, como também com a exigência do Ideal do Eu; e sentimento que se agrava em condições de existência excessivamente competitivas. Aqui se aponta, então, para as causas originais e de manutenção da disposição depressiva - a depressão sendo, como Edward Bibring o afirmou em 1953, o efeito da paralisia do Eu " porque se descobre incapaz de fazer face ao perigo", enquanto a ansiedade ou angústia é um sinal que mobiliza o Eu para o combate ou fuga.

  Matos, António Coimbra de. A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores, 2007, pp 41 - 43.
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03/07/12

" estão mas não aparecem/ e podem levar anos nisso "


Duas aranhas esperam a mosca
com radiadores ventiladores rosa-chá
passagem ao estado de amora
alguns coupons
e várias teses de combate moderno

A mosca
passa
ou não passa
é um pouco como todas as coisas
estão mas não aparecem
e podem levar anos nisso

Mas duas aranhas esperam a mosca
com serviço de Turismo Dlão
lume aceso
página de sentença judiciária

Ao fundo
o galo enerva-se e quebra a mobília
numa grande convivência francesa
co'a mosca que foge espavorida no vento

Agora à luz das baratas e dos apetrechos para campo
duas aranhas esperam a aranha
e esta é que não escapa
às honras amarelas
à ligeira tremura de ter vindo
pois nenhuma aranha escapou jamais às aranhas
nenhuma não sendo mosca fugiu
ao que mandam os deuses

   Cesariny, Mário. Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, pp 93 - 94.
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" De um rapaz louro que finda/(na alameda) uma novela perturbada "


 " manhã fresca "

Manhã fresca, reclinada
pela primavera crescente.
O mais pequenino nada
está como se fora gente

De um rapaz louro que finda
(na alameda) uma novela perturbada
uma mulher ainda linda
esperou mas não foi olhada

E no folhagem também
certo desencontro corre:
a primavera que vem
na trovoada que morre

   Cesariny, Mário. Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p 71.
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02/07/12

" ela/ que parte/ vira/ para o que abandona/ um olhar de brancura "


suave
a vela abre
e principia
o dia

ela
que pelo azul
que corta
considera e chama
outras velas irmãs para o claro rio
e enquanto
o cais
é um enorme navio
que se nega
e no entanto cumpre
a mais estranha viagem

ela
que parte
vira
para o que abandona
um olhar de brancura
que é toda a matemática
singela
da manhã que a inspira

  Cesariny, Mário. Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p 47.
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01/07/12



       " A Sua Origem "



O cumprimento do seu prazer à margem da lei
teve lugar. Levantaram-se do colchão
e sem falarem vestem-se apressados.
Saem da casa separadamente, às escondidas; e enquanto
caminham algo preocupados pela rua, parece
que suspeitam de que neles qualquer coisa revela
em que género de leito caíram há pouco.

Mas como ganhou a vida do artífice.
Amanhã, depois de amanhã, ou com o tempo serão dados
à escrita os fortes versos que tiveram aqui a sua origem.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, p 273 ( Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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                " À Espera dos Bárbaros "



- Que esperamos na ágora congregados?

    Os bárbaros hão-de chegar hoje.

- Porquê tanta inactividade no Senado?
  Porque estão lá os Senadores e não legislam?

    Porque os bárbaros chegarão hoje.
    Que leis irão fazer já os Senadores?
    Os bárbaros quando vierem legislarão.

- Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,
  e está sentado à maior porta da cidade
  no seu trono, solene, de coroa?

    Porque os bárbaros chegarão hoje.
    E o imperador espera para receber
    o seu chefe. Até preparou
    para lhe dar um pergaminho. Aí
    escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

- Porque os nossos dois cônsules e os pretores
  saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas;
  porque levaram pulseiras com tantas ametistas,
  e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;
  porque terão pegado hoje em báculos preciosos
  com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

    Porque os bárbaros chegarão hoje;
    e tais coisas deslumbram os bárbaros.

- E porque não vêm os valiosos oradores como sempre
   para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

    Porque os bárbaros chegarão hoje;
    e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

- Porque terá começado de repente este desassossego
  e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)
  Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,
  e todos regressam às suas casas muito pensativos?

   Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
   E chegaram alguns das fronteiras,
   e disseram que já não há bárbaros.

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.
Esta gente era alguma solução.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, pp 221 - 223 ( Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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29/06/12

" je me nourris de cette insatisfaction/ que l'on nomme parfois lucidité "


  " Art farouche "

Dans le poème j'ai fait mon lit
il attendait que je m'endorme
murmurant à mon oreille:
je suis une maison vide
plutôt qu'une couche douillette
une construction qui s'effondre
plutôt qu'un rêve insignifiant

Lui qui se fait appeler poème
possède des capacités volatiles:
il se dresse debout devant toi
dans son évidence de toujours-déjà-là
puis lorsque tu décides enfin de t'en emparer
il disparaît hors de portée

Le poème me dis-je il faut que tu l'habites
ce que tu lui as donné il ne te le rendra pas
comme la maison délabrée
où peu à peu tu as dressé ton lit
tu y as déposé ta vie ensuite tu es parti
ailleurs où était encore une autre vie
non pas la même continuée
mais la vie différente celle qui roule
alors que dans le poème tu l'arrêtes
et tu la figes et tu condenses la fureur
le mouvement le temps décomposé en humus
par où l'autre vie s'échappe
et grouille et séfface de trop peu d'outil
celui fruste et parfait qu'est ta main
que guide ton cerveau lui-même relié
à ce que l'on ne nomme pas l'innommé
le poème tu le forges rien n'est donné
dans l'espoir qu'un jour quelqu'un s'y attarde
et ce que tu as réalisé te ressemble
c'est là sa particularité sa part d'attracteur étrange
alors il te faut chercher toujours chercher
ne jamais t'arrêter ou laisser en l'état
surtout ne pas te répéter
bien que tu reviennes sans cesse sur tes pas
c'est la forme qui compte et qui raconte
fût-elle informe à ta façon
chez lui aujourd'hui n'a pas de sens
chez lui c'est toujours demain
pourtant après bien des années
et tellement d'échecs
( peu importe pour celui qui lit
qui dans le poème fait son lit
les tentatives valent autant
que d'authentiques satori)
tu tentes de nommer ton art
un mot qui ne doit pas t'effrayer
moi j'ai dit antipoème poésie sauvage
pour définir le mystère
ce qui m'échappe et me rassemble
je me nourris de cette insatisfaction
que l'on nomme parfois lucidité
jusqu'à ce qu'advienne la vérité d'aujourd'hui
qui sera sans doutte différent demain
de sauvage mon poème tenait
ce que tient l'animal
celui qui n'est pas domestiqué
que tu approches et dont tu ne disposes pas
qui se laisse caresser mais avec réticence
mon poème est rugueux violent dans la retenue
mon poème est insoumis
fleuve au cours tourmenté
il ne coule pas de source
tu dois accepter ses caprices
raison pour laquelle je le nomme farouche
et pour revenir à la maison que tu habites
ces ruines que tu as relevées à ton usage
ainsi qu'a celui de certains visiteurs
veille simplement à laisser la porte entrouverte
afin que le passant qui rôde dans les parages
puisse la pousser si l'envie lui prend
en général je m'en tire par une pirouette
ici cependant je n'en ferai rien
j'ai posé mon art farouche
et dans cette direction je m'en vais
à moins que je ne dévie sur le chemin
vers une autre vérité du lendemain
puisque la vérité
est la pire forme du mensonge.

  Delaive, Serge. Trois poètes belges. Neuille-lès-Dijon: Éditions du Murmure, 2010, pp 79 - 81.
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27/06/12



 " Poema 7 de Completas "


Sinal algum me será dado antes
de conhecer o que na Terra deve ser ligado
ou não, e a ninguém seja contado
que O que veio não foi reconhecido.

  Vieira, Vergílio Alberto. Amante de um só dia. Porto: Livros de Horas, 2012, p 79.
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 " Poema 3 de Noa "


Ao que fez água brotar,
da terra árida, para me dessedentar,
e abriu caminhos no deserto,
para me prevenir do cardo e da serpente,
chamei pelo Nome, e Ele de mim
não desviou o rosto indivisível.

  Vieira, Vergílio Alberto. Amante de um só dia. Porto: Livros de Horas, 2012, p 51.
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 " Poema 7 de Tércia "


Em louvor da figueira estéril,
que frutificou, sem por ela ter passado
o vento, da boca fiz túmulo;
do coração, abismo.

Vieira, Vergílio Alberto. Amante de um só dia. Porto: Livros de Horas, 2012, p 31.
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26/06/12

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  " Miragem "


Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho - ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?

  Bresciani, Alberto. Incompleto Movimento. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2011, p 104.
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" Metamorfose "


Era seu rosto
um campo de trigo
e manso se entregava
ao passeio da boca

Braços me protegiam
e enlaçavam
e devolviam ventos
que ninguém sentiu

Desdobrava-se
o seu consentimento
e sem proposições
uma supernova em mim

Talvez reencontrasse o destino
respirasse sem deformidades
talvez fosse apenas como voltar

E já não chovia
E era tão bom.

  Bresciani, Alberto. Incompleto Movimento. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2011, p 65.
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  " Ficha "

  I

Aquilo nem
era verdade

não era nem
segredo

 II

Só buscava um
abrigo

Nenhuma
a final substância

só imaginada
por sob

Onde não
havia sequer

 III

Tirei os pontos e
algo em mim

falou, tinha
corpo e era sol.

  Bresciani, Alberto. Incompleto Movimento. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2011, p 38.
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25/06/12


 " A Tradição Não é Um Passado a Cheirar a Mofo "

                                                por  TERESA MARTINS MARQUES


No canto V da ILÍADA Homero coloca frente a frente o guerreiro aqueu Diomedes e o troiano Glauco prestes a iniciarem um combate, que acabará por não se realizar ao descobrirem que um antepassado de Glauco fora hóspede de um antepassado de Diomedes. Em vez de combaterem, preferem os guerreiros trocar as armas como prova de amizade que não será, todavia, recíproca dado que Diomedes ludibria Glauco oferecendo-lhe as suas armas de bronze em troca das de ouro do troiano. Antes de se identificaram mutuamente, notando Diomedes a extraordinária coragem de Glauco, põe a hipótese de o seu contendor ser um ente divino, o que tornaria o combate desigual. Querendo esclarecer tamanha dúvida, pergunta Diomedes:

" Quem és tu entre os homens, entre os homens mortais?/ Apenas sei que a todos te excedes em coragem. (...)/ Ou acaso pertences ao número dos divinos?/ Ah! Sendo assim, desisto de combater contigo".

Como resposta àquela pergunta, diz Glauco:

" Que importa, Diomedes, qual a minha linhagem?/ A geração dos homens é igual à das folhas,/ se o vento arranca algumas e no chão as espalha,/ ao vir a Primavera logo nascem outras./ E dos homens diremos que são como a folhagem..."

Aquela imagem de Homero, se por um lado afirma a morte como inevitabilidade - os homens caem no seu próprio Outono -, afirma também a certeza da vida como esperança que se alcança em cada renascimento - primavera do ser humano. E, se "dos homens diremos que são como folhagem", dos temas e motivos literários diremos que são como os homens e como a folhagem: passam e ficam. É Jacinto Prado Coelho quem nos diz:

" A literatura é o domínio do instável, miragem de eternidade que paira sobre a corrente dos anos e dos séculos. Um absoluto à escala humana: fica e passa."

A literatura passa e fica ao constituir-se tradição que é passado presentificado em cada nova leitura que daquele pretérito extrai novos efeitos pessoais. Somos um haver da morte, nós e o que é nosso, já que somos transitórios, isto é, estamos em trânsito de um espaço-tempo antes - a escala evolutiva das plantas, do homem, da tradição literária - para um espaço-tempo agora - que rapidamente se torna espaço-tempo-depois.

O conhecimento, a qualquer nível que o consideremos, faz parte de quem conhece e tal como o ser humano, também este é inevitavelmente transitório, sendo indefinível, porque a cada momento se represent(ific)a tornando-se tradição civilizacional, memória do conhecimento da humanidade. Memória que não se apresenta como simples e linear sucessão de épocas, interligando-se de forma a que o presente condicione o passado transcorrido, modificando a leitura que dele se faz no presente. Por isso esse passado-memória-civilizacional torna o ser humano infinitamente rico, já que é património cultural acumulado que lhe deu lastro intelectual, mas também infinitamente pobre, impedindo-o de pensar como nunca ninguém antes pensou. Aquilo que chamamos invenção, inovação em qualquer ramo do conhecimento é ínfima gota de criatividade individual que só existe como gota, porque é produto do mare magnum da cultura que lhe permitiu existir como gota e foi acumulada por sucessivas gerações.

Porque o conhecimento passado permite o conhecimento presente, nunca aquele é verdadeiramente passado nem este verdadeiramente presente. Sem Newton não teríamos Einstein. Sem Homero não teríamos Virgílio e Camões. A literatura, sendo conhecimento, não foge à inevitabilidade de ser morte que vivifica, de ser tradição que gera inovação. A obra de arte encontrará a sua autenticidade tornando-se experiência, transformando aquele que a experimenta numa interacção dialéctica, condição de comunicação e de significação, numa palavra - interpretação de uma tradição que passa e fica como documento, mas também como monumento.

Temos hoje consciência de que a tradição não existe para se venerar, mas para se conhecer. Só esse conhecimento possibilitará a criação duma nova significação, elo de uma cadeia que, não sendo já o passado, é também o passado, em translação de sentidos, corrente viva de valores em devir, como a água do rio de Heraclito, como a folhagem do bosque de Homero.
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Nota - agradecemos à Profª Drª Teresa Martins Marques da Universidade Clássica de Lisboa ter-nos dado a sua autorização para que pudéssemos postar este seu inédito.
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23/06/12

( Nota - alétheia : verdade in "Termos Filosóficos Gregos" de F. E. Peters, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 29.)


 " Aleteia " ( Poema III de Tríptico )


Dizia coisas que poucos entendiam.
Dormitava em tugúrios temidos
por muitos. Sentava-se na ponta
do beco a cortar as cabeças aos santos.
Trocava-as: santa Rita cravada de setas,
são Expedito de olhar lúbrico
e laços de organdi. Mas Aleteia rezava
sim: olival adentro, pelo meio das


searas, enquanto via o descarregar
dos porcos ou dava migalhas
aos pássaros. Eu também fugia
dela, mas sem medo ou motivo.
Certa vez encontrou-me, sozinho,
de vergasta em punho a afugentar
os gansos. Chega aqui!, e eu,
de cima dos meus calções cada


vez mais curtos, empinei-me
para que me visse melhor.
Se eu andava perdido, perguntou-me.
Que não, não senhora! Aleteia
sorriu e beijou-me a face.
Continuou o seu caminho. Desde
esse dia nunca mais a encontrei.

  Mateus, Victor Oliveira. Meditações Sobre o Fim, os últimos poemas (Organização: Maria Quintans). Lisboa: Hariemuj Editora, 2012, p 212.
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22/06/12


 " Antígona " ( Poema II de Tríptico )


Talvez preferisses gritos, súplicas
ou - quem sabe? - que rasgasse
as vestes e me desfizesse. Mas, temível
Creonte, eu tenho a experiência
de quem não cede, de quem percorre
os trilhos das margens e apenas ouve
o antigo saber da terra, o único a quem
vivos e mortos pertencem
e nos fervilha nas veias sem sabermos
como nem porquê. Podes, ó hábil,
misturar as palavras, confundir
as frases em discursos e experimentos
de glória... Mas a tua glória não passará
de um mero nome, e mesmo esse
com tantas dúvidas à mistura;
a tua glória - pequena barca
de pergaminho a apodrecer nas praias
jónicas. És nada, ó ridículo mensageiro
do novo!, e máscara alguma acrescentará
essa imensidão de nada, que jamais
conseguirás dissimular. Poderás perseguir,
infamar, convencer até outros
a que o façam também, mas
nunca iludirás o imperturbável
movimento do grande ciclo, esse
onde os deuses cobram todos os gestos
segundo a ordem do tempo; local
onde nos movemos: breves,
banais... e talvez dispensáveis.

     Mateus, Victor Oliveira. Meditações Sobre o Fim - os últimos poemas ( Organização: Maria Quintans). Lisboa: Hariemuj Editora, 2012, p 211.
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21/06/12



Queria ser o teu pátio e a tua lua. Queria preparar, numa pira de poções, mandrágoras, elixires, encantamentos, feitiços, esconjurações, as longas sendas do extravio e da ternura, queria abrir atalhos, veredas, coordenadas de maio a maio, afluentes, regatos, estradas que jamais conduzirão ao mar, eu sei. E, embora sabendo, não vacilarei, serei como a inquebrável fibra dos vimes, pensarei sempre em ti, meu irmão, meu querido assassino, e ajoelhada junto à fonte, sem interpelar os homens, a sua vã glória, o seu desaire, gota a gota, traço a traço, desenharei sobre o pó uma cicatriz, para que ao descer a águia saiba como perdi aquele que amei.
Revolvo a lama, os montículos, as raízes, convoco os gansos, os cisnes, as garças vermelhas, talvez a caminho do sul, mas antes e no fim, existem apenas as cavernas, os ossos, o templo dos cem tigres, o gelo e o degelo, a estepe interminável, o pântano, um bote, dois remos, e eu entre as margens, abrindo os cofres, movendo os dedos. Antes e no fim existe apenas o fim. Mas tu não entendias nada, frágil duende das flautas verdes.
Respiro, parece que respiro sobre o teu ombro, agora que estás deitado. O mel espesso das colmeias que sempre descuidei, transborda nos vasos abandonados, no barro cozido onde a tua amargura se perfila.
Que animais da sede virão beber a água de um cântaro pintado de anil? Há muito que quase todos se afastaram do homem, conscientes do perigo. Levaram consigo as crias e, algures, construíram outros ninhos.
Procuraram as ramagens, taparam os covis. E os que restam, estão à nossa volta, pois sabem que não fazemos parte da legião dos malditos que se aproximam.

   Baptista, José Agostinho. O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, 113 - 144.

19/06/12


Que certas vezes ele seja o ar e outras o vento, que se aproxime e entre e se deite e espere e me desça e me suba e me dobre suavemente como se dobram os girassóis na tarde que declina e depois adormeça num sonho de dois, eu e ele, verso e reverso, enfermidade e cura, culpa e redenção, e depois me leve para os litorais de onde vem. Mas ele não vem.
Ancorado, naquela curva que só eu conheço, está um bote. Quando se revela a claridade, ainda que ténue e difusa, pego nos remos e parto, como se procurasse, sem qualquer razão, um vislumbre de trigo e catedrais. Paro, entretanto, e deito-me, inspirando os sargaços.
(...) São estas as horas em que não te procuro, meu irmão. Sei que muito perto da casa corres atrás dos cães, e depois partes, para os territórios da alcateia, E eu aqui, à espera, à espera, à espera. Dele, da lua, de vénus, do cruzeiro do sul, do arado, do leão, de uma pancada mais forte em cada metade do coração. Sento-me, deito-me, levanto-me, acordo, adormeço, e aperto no peito quatro penas brancas(...) Neste entardecer, nesta lentidão de pássaros e nuvens, abandono-me, embalo-me, esqueço. E ele não vem..

  Baptista, José Agostinho. O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, pp 30 - 32.

17/06/12

Traduzindo...


Poderei a ti confessar-me se assim o pretenderes
e tanto tanto te contarei que, suplicante,
me pedirás que não prossiga com tal horror.
Minha boca dir-te-á que, bem cedo,
a dor começou a fazer seu ninho
neste meu corpo que agora se despede
deste cenário onde outrora se improvisavam
nossos gestos, como escrita de um livro
afinal indecifrável e de sonhos despojado
cujas pesadas páginas um dedo,
lento e glacial, vai implacavelmente virando
até que a náusea e o tempo nos acabem por consumir.

        Victor Oliveira Mateus

Original:

   " Despedida "

Si quieres confesarme yo te dejo
y tanto te diré que suplicante
pedirás no prosiga tanto horror.
Mi boca te dirá que en tiernos años
el dolor comenzó a hacer su lecho
en esta carne que ahora se despide
del escenario donde se improvisan
nuestros actos, escritos en el libro
indescifrable y vacuo de unos sueños
cuyas pesadas páginas un dedo,
lento y glacial vuelve implacable,
hasta que náusea y tiempo nos consumen.

  Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, p 283.
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"... defende-se contra a pobreza e contra a sujeição."

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    " A Força da Grécia "

A Grécia foi sempre criada na pobreza, mas junta-se-lhe a
virtude, amassada na sabedoria e numa lei rigorosa. Apoian-
do-se nelas, a Grécia defende-se contra a pobreza e contra
a sujeição.

      Heródoto (Livro VII, 102) in Hélade, Antologia da Cultura Grega de Maria Helena da Rocha Pereira. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1971, p 224.

15/06/12

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A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

  Correia, Hélia. A Terceira Miséria. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2012, p 29.
.
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Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

  Correia, Hélia. A Terceira Miséria. Lisboa:  Relógio D' Água Editores, 2012, p 13.
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14/06/12

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 " La piel de un hombre "

Hasta qué punto pálido
y como el que más, translúcido,
la piel un sueño compuesto
de esas tenuidades que se ven en los sueños,
de esas tenuidades que oscilan
hasta perder-se de vista,
en la lontananza de una pesadilla
en la cual el rostro del soñador
se hunde en sí.

Esa piel pertenece a este hombre
que ama desesperadamente vivir,
pero a quien se le rehusa la vida,
pues el siglo ordena
que se muera cada segundo.

   Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, p 248.
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" Somos ya sólo sombras con una luz detrás? "


 " Sombras Chinescas "

Pasa - digo -. Has cambiado tanto
que de pronto pensé que no eras.
Cómo dices? Soy yo quien te habla.
Sólo que... no estoy seguro de que seas.
Quizá la penumbra de la tarde... Haré luz.
Dices que no me reconoces? Pues
será mejor tocarnos como los selvajes.
Oh, mi mano pasa a través de tu cuerpo!
Y dices que a tu mano le ha ocurrido lo mismo?
Somos ya sólo sombras con una luz detrás?
Divertido espectáculo de infinitas miradas,
miradas que nos traspasan como dagas crueles?
Habrá que convenir en que es todo un suceso.

  Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, p 224.
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13/06/12

" con derecho a figurar en los altares del horror. "


  " Solicitud de Canonización de Rosa Cagí "

Por la presente tengo a bien dirigirme a usted
para solicitar una plaza de santa laica
en la Iglesia del Amor.

Un hombre me juró amor eterno,
y su amor fue el infierno en la tierra.
Poseo en mi cuerpo más estigmas
de los exigidos por su Iglesia,
mayor cantidad de lágrimas
que las expresadas en centímetros cúbicos
en las planillas de las aspirantes a ser canonizadas,
mayor número de horas de insomnio,
y en mis rodillas callosidades tan elocuentes
que mis amigas me dicen:
Rosa la genuflexa.

Una noche
me hizo caminar como perra,
maullar como gata,
llorar como niña
y cantar como anciana.

Otra noche,
me obligó a besar el retrato de su amada,
y you pensé que a lo mejor
obligava a su amada a besar mi retrato,
y esa misma noche
- no sabe cuánta pena me da escribir esto -
me gritó degenerada.

En cuanto al requisito exigido por su Iglesia:
" Amarás aunque te muelan a palos ",
puedo asegurarle
que mi amor es inconmensurable,
a tal extremo
que ese hombre es mi Sumo Bien,
Mi Todo y mi Nada.

Por tanto,
habiendo sido humillada,
ofendida, vilipendiada,
postergada y vejada;
habiendo sido configurada en esa extraña latitud
que es ser muerta en vida.

Yo,
Rosa Cagí,
en pleno disfrute de mis facultades mentales,
pido humildemente ser canonizada como santa laica
con derecho a figurar en los altares del horror.

   Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, pp 126 - 127.
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12/06/12

"(...) bella, seductora,/ o parecerlo, que viene a ser lo mismo. "


 " Cirugía Plástica "

Me acompaña, señora?
Es hacia el final del pasillo,
desde aquí se ve la placa:
Salón de Cirugía Plástica.
Me dice que de nuevo
querría ser joven, bella, seductora,
o parecerlo, que viene a ser lo mismo.
Me dice que ya no puede más
con las arrugas, las bolsas,
las patas de gallina,
y que en los cuartos del amor,
aun con luz velada, se ven, señora, se ven
como una paisaje lunar.
Usted quiere la cirugía plástica,
tanto la quiere, mi señora,
que ya se ve en sus senos la turgencia,
y en su piel... oh, la piel, señora mía!
si de sólo rozarla ya me quemo.
Es tan sólo cuestión de entrar en el quirófano,
dejar que la cuchilla haga su obra,
y dos horas después...
Después? Después?
Después será la misma, mi señora,
con un ligero toque de ilusión.

  Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, p 125.

11/06/12

Maria Keil ( 9/8/1914 - 10/6/2012)

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Eu e a Irene descíamos o estreito carreiro que ligava a porta do palacete ao portão que dava para a rua. Uma vez aí apercebemo-nos que nos tínhamos esquecido de, no interior, abrirmos esse mesmo portão. Eu volto lá dentro! Disse à Irene. Mas é então que aparece uma mulher franzina, ágil, sorridente: Vocês não conseguem sair? Não! É fácil, diz ela, e, num pequeno salto, toca com o pé no trinco do portão que imediatamente se abre. O rosto dela ilumina-se num sorriso agaitado. Diz-nos que tem de ir à farmácia e ultrapassa-nos. Eu e a Irene estávamos boquiabertos por termos sido superados pela agilidade de alguém muito mais velho do que nós. Ainda não se tinha afastado demasiado quando se volta para trás: ah, não contem a ninguém o truque! Foi deste modo que conheci a grande Maria Keil. Mais tarde descobriria a sua faceta mais importante, a sua grande entrega à arte...
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" a pele inviolável/ de seu corpo inviolável "

  " Os ornamentos "

e o homem foi arrancado da casca da noite
e acrescido de dentes e olhos
e foi trançado dia e dotado de ouvido

e ouviu:
o trigo roçando o éter de Galileu
os pés descalços
a grama úmida de hortelã

e ouviu:
    a pele inviolável
    de seu corpo inviolável
( germinar lagartas nos arremedos de vértebra)
    flanco e dorso
    das carcaças de pachiderme

um hipopótamo sonhando entre os girassóis

    Márcio-André. Poesia do Mundo 6. Coimbra: Palimage, 2010, p 120.
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10/06/12

...


não é possível ter amado e ser agora uma casa fechada, onde
houve um armário que foi crescendo com vestidos costurados
na paciência do desejo. não é possível ter amado e ser agora
uma casa apagada, onde houve uma música que tocou tanto
que se colou ao papel da parede. não é possível ter amado e
ser agora uma casa desligada, onde houve um bule que fabricou
tantos afectos que o perfume do jasmim ficou preso no coração
das palavras, como uma trepadeira que protege a mansarda do
 inverno. não é possível ter amado e não ser mais que um gato
que se esquiva da alfazema e dos jornais amarrotados. é pos-
sível? não é possível.

  Gonçalves, Daniel. A tua luz costurou-me uma bainha no coração. Fafe:
Editora Labirinto, 2012, p 42.
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08/06/12

...


alguma coisa ficou por dizer. afastei as mãos da mesa e
desencontrei-me com as palavras que tinham caído ao chão.
são como instrumentos de sopro avariados. chaves que não
abrem mais a porta do coração. alguma coisa ficou por dizer.
estou infinitamente triste como quem regressa de um bosque
encantado. infinitamente triste como quem teve um deslumbra-
mento de chocolate e agora tudo lhe sabe a terra molhada.

   Gonçalves, Daniel. A tua luz costurou-me uma bainha no coração. Fafe:
Editora Labirinto, 2012, p 20.
.

...


suportei o inverno mais longo de sempre lendo as
entrelinhas do teu vestido. acertei as horas às estrelas
e nas estrelas deixei os sonhos dos embondeiros.
quando dei a volta ao universo regressei ao princípio
da palavra e voltei a cantar tudo de novo, porque era
finalmente uma criação bela, estava transparente como
uma pérola por recolher. parei. deixei-me deserguer
numa colina primordial e inventei uma casa. usei o teu
vestido para fecundar o jardim e sempre que o sol caía
nas hortênsias o amor me encontrava. escrevi os primeiros
poemas. iluminaram-se-me as sombras, mas não tinha
sombras, penas perfumadas somente. como um anjo
que guarda a eternidade, voltei a adormecer despido.
sonhei, estou certo disso, de boca aberta, por onde
se esgotou a tristeza e o pórtico naufragado do
esquecimento.

    Gonçalves, Daniel. A tua luz costurou-me uma bainha no coração. Fafe:
Editora Labirinto, 2012, p 12.
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07/06/12

"(...) abro cortes na ponta/ dos dedos, mergulho-os como isco/ no escuro, e aguardo. "


 " Outra Educação "

Uma bilha cheia até metade de água,
a colher de café torta e um garfo,
enferrujados entre pés de erva-cidreira
e sulcos de mel - alguma coisa
nesta frágil ordem nos faz achar-lhe
um sentido, pôr na boca uma sombra
por mais passageira que seja.

Assim, enquanto as flores sacodem
o perfume na humidade salgada do ar,
à escada de ferro que sobe espiralando
p'rà mansarda, vem mijar um cão
desorientado, e uns degraus mais acima
dorme de olho aberto um gato zarolho.
Estou entre eles e os pêssegos e cigarros
na mesa de pedra, imagens meio inconscientes,
devorando páginas e páginas do caderno.

A poesia é o menos. Serve
se der com o ritmo e souber guiar
essas nuvens ralas, os rebanhos do céu,
suster o barulhinho intermitente
desta chuva de Agosto nos vidros,
o vento gemendo de gozo e a respiração
funda do mar. Isso e a ronda
noctívaga dos cigarros, o cerco da sua
risada coroando as nossas cabeças.

Queria era falar-te destas casas
com os joelhos dentro de água, a doçura
vagarosa do seu desmoronamento e como
é fácil escutar o sangue aqui. O que sublinha
entre estes nomes que repetimos até
perderem o sabor.
Ponta dos Rosais, Pico da Esperança, Fajã
das Almas, Fajã do Ouvidor, Poça Simão Dias...
Labirínticos e pedregosos, a vertigem
encantada destes lugares é toda uma educação.

Esta gente leda que nos espreita
mansamente à entrada dos cortiços
embelecidos pelo sopro de luz
ganhando cada linha exterior antes
de coalhar no interior. É difícil
ler a distância que pesa no que lhes resta
do olhar ou os gestos com que enxotam
os dias e as moscas.

Gosto muito e sem razão
da rapariga que nos serve num dos poucos
cafés da ilha. A blusa enodoada e doce,
aberta, uma ternura sem jeito, e
por isso, rara. O namorado zela por trás
do balcão. Sussurra-lhe instruções. Os dois
provocam-se, magoam-se - é jogo.
E foi um esboço eterno como este
aquele que deixámos a meio.

De propósito ou não,
no dia em que foste deixaste acesa a luz
do teu lado da cama. Nunca mais
a apaguei. Depois veio o tempo
em que do teu corpo fiz um país infindo
para embebedar-me e perder a pele
todas as noites, mais fundo de cada vez.
Ficar perto desses que raspam o silêncio
com os ossos. Sentir tudo, ver brilhar
as nossas cicatrizes, frescas todas as manhãs.


Defendíamos o nosso inferno.

Quem por esses dias também pouco
tirava do sono era deus. Via-o escapar-se,
madrugada ainda, da mesma pensão barata,
o olhar comido pelo vazio,
triste como nós. E a única consolação
que sempre tivemos era essa: fazíamos
um número do caraças.

Excepção feita a um ou outro pormenor,
esqueci-te. Ficou um ruído sufocado
que mói, mas menos. Às vezes
um cheiro gosta de alguma coisa, puxa
a recordação do teu, outras
acontece-me ler o teu nome por acaso,
e as suas sílabas absurdas, ainda molhadas,
despedaçam-me a boca.

Já não me queixo tanto. Em Lisboa
há um jardim onde me levo,
tem umas estátuas meio despidas.
Uma delas dói-me mais. Gosto de apanhar
a erva que lhe cresce nas margens,
atento àquela boca aberta em redor
de um grito que mais ninguém ouve
senão eu. Mel de uma boca
de sombra onde os dias ganharam
o gosto de esperar uma frase. Eu escrevo.
Quer dizer que abro cortes na ponta
dos dedos, mergulho-os como isco
no escuro, e aguardo.

  Pinto, Diogo Vaz. Criatura Nº 5. Outubro, 2010, pp 45 - 48.
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" et moi je me souviens de matins/ où je ne te connaissais pas encore "

.
tu dis
je viens


je dis
je pars
te voir


tu viens

la carte de l' oeil
en point de mire
je vois
des lacs sur des prés
des cygnes sur des lacs

le train dans ton coeur
t' emporte
et m' entraîne

un carré de gazon se détache sur le gravier
tu aimes être éparpillé comme des cailloux tu dis
et moi je me souviens de matins
où je ne te connaissais pas encore

   Janzyk, Véronique. Trois poètes belges. Neuilly-lès-Dijon: Éditions du Murmure, 2010, p 39.
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06/06/12

" Tu viens de lui promettre de tout quitter, mais/ il est trop tard. "


Elle, depuis trente ans. Toujours de l'affection pour elle. On ne divorce
pas quand on a encore de l'affection. L'autre, trente ans de moins
que toi. Ta maîtresse depuis trois ans. Tu n'as pas vu le temps
passer. Elle oui. Tu viens de lui promettre de tout quitter, mais
il est trop tard. Elle dit que ça lui est tombé dessus comme ça
vous est tombé dessus. Elle en a rencontré un autre. L'amour
déjà s'était évaporé de dessus vos épaules. Vous aviez réservé des
billets por l'Inde. Tu avais claironné à tes amis ton besoin d'une
retraite, d'une solitude loin de tout. Tu as bien dû y aller. Et
elle t'a accompagné. Vous ne vous êtes pas touchés. Vous avez
dormi dans deux chambres, parfois dans la même, sur des lits
contigus. Tu as fait l'Inde le désir au ventre. Ce fut à couper au
couteau. Tu pleures en le racontant. Tu me demandes comment
la terre tourne. La terre tourne. Les gens tiennent dessus. C'est
incroyable. Comment fait-on? Je partage avec toi le mystère
de la terre qui tourne. C'est quand même incroyable. Oui, c'est
merveilleux. Tu essuies tes larmes. Tu dis Je ne sais pas pourquoi
mais j'ai l'impression de mieux comprendre les Indiens.
Oh mon ami.

    Janzyk, Véronique. Trois poètes belges. Neuilly-lès-Dijon: Éditions de Murmure, 2010, p 37.
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30/05/12

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  " Argonauta "

Perdi a última e doce amarra
que me ligava ao cais terreno

argonauta voei no espaço
em eternidade de luz

ao regressar ao azul
um gaivota só
tremia de saudade à beira-mar


   Evónio, Joaquim. Viola Delta, Volume XXV. Lisboa: Edições Mic, 1998, p 31.
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  " Terra Húmida "

No húmus do verbo
escrevem-se fantasias.
Sexos entrelaçados
germinam infinito.
Ao ouvir o nada
a paixão nasce do silêncio
em ambiente de luz.
O arco-íris faz-se aurora
e a raíz da flor
bebe a lágrima fria
do espaço sideral.


  Evónio, Joaquim. Viola Delta, volume XXV. Lisboa: Edições Mic, 1998, p 30.
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24/05/12

" mais ce qu' il préfère encore c' est se taire et prier. "

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   " Un homme ulcéré "
       ( extrait )

Il connaît le nom de tous les fleuves du pays, les rivières et les
lacs jusqu'au plus minuscule poisson, les nombreux affluents, le
dernier des méandres et la composition des sols, il sait manier
l'abaque, l'équerre et le compas, qunad il fait la dictée le timbre
de sa voix s' infléchit légèrement, couteau traînant dans l'air, il
marche sur les pas des grands explorateurs, la cendre des aztèques,
tout le sang partout sur les terres et les mains de chacun, il conte
l'Antiquité avec les fous de première, Claude, Néron, Caigula et
les gorges aux cigues, mais ce qu'il préfère encore c'est se taire et
prier.

Des cheveux sombres noyés de bleu, lourds et brillantinés. Un
regard noir, intense, brillant comme un bout d'anthracite. Le
nez aigu de l'aigle et de la buse, signe d'avarice, d' accord, mais
ne dénotant pas sur son joli visage. Puis une bouche délicate ne
s'ouvrant que pour l' essentiel: manger le pain, les rondelles de
bananes et celles de pommes de terre, lire les psaumes et le matin,
à midi et encore tard le soir, faire ses oraisons dans sa chambre au
premier. Un homme d'une grande beauté.

    Wauters, Antoine. Trois Poètes Belges. Neuilly-lès-Dijon: Éditions du Murmure, 2010, p 100.
.

" Ce que nous avons à nous dire n'est pas/ sous nos yeux... "


 "Debout sur la langue "
( extraits du Bookleg paru aux Éditions Maelstrom, 2008)

(...   ...   ...  )
Là où je crois dire, je ne dis rien encore.
Et là où je crois parler, ce sont les mots qui
me parlent, m' éventrent et très doux, très
doucement me soufflent, au sens où l'on dit
de quelqu'un qu'il nous prend quelque chose.
Soufflé, vidé de moelle et sel, d'autres voix me
passent, dansent en rond, me faufilent.

(...  ...  ... )

Ce que nous avons à nous dire n'est pas
sous nos yeux, de même, ce que nous avons
à entendre n'est pas dans ce qui, jour et nuit
et jour, nous crève les oreilles, les rendant
balourdes, marteaux. La parole est à retrouver
dans la parole, loin sous le vide soufflé, sous le
vite et mort dit.

Parce qu'elle ouvre sur un espace plus vaste,
bouillant de sang trouble, d'inoui, une terre
de souffle et de sel, l'écriture rend possible ce
miracle: donner voix, vie au corps, fibres et
foins, petits os. Sans la langue, vivre est une
abstraction..

   Wauters, Antoine. Trois Poètes Belges. Neuilly-lès-Dijon: Éditions du Murmure, 2010, pp 96 - 97.
.

23/05/12

.

Tenho um búzio por dentro iluminado onde, junto à
fenda branca e estriada de seus lábios, levemente re-
curvado, foi pintado um coqueiro, perto das ondas
de uma baía que jazia sob eterno poente alaranjado...

quando com os dedos acendo o colar de luzes dessa
baía, pedaço e alma da cidade, intuo que entre mim e
ela não há nem havia, na verdade, a distância que tan-
tas vezes julgo ver com algum recuo...

mas há ainda decerto o mar alto da saudade, um céu
de astros deserto, um lastro de melancolia e um es-
tranho apelo cuja origem e significado ainda não situo...

  Gil, António. Obra ao Rubro. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 37.
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Aprender o alfabeto da luz, a pronúncia sussurrada da
folhagem, estudar apaixonadamente as conjugações
estelares, aprofundar o léxico galáctico, mergulhar na
semântica universal...

... e apesar disso, bastar-me o pensamento de contigo
me cruzar para logo emudecer...

    Gil, António. Obra ao Rubro. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 34.
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21/05/12

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 " O Prazo de Nero "


Não se preocupou Nero quando ouviu
o vaticínio do oráculo de Delfos.
" Teme os setenta e três anos ".
Tinha ainda tempo para gozar.
Tem trinta anos. Mais do que bastante
é o prazo que o deus lhe dá
para tratar dos perigos futuros.

Agora vai regressar a Roma cansado um pouco,
mas excelsamente cansado desta viagem,
que foi toda dias de deleite -
nos teatros, nos jardins, nos ginásios...
Os entardeceres das cidades da Acaia...
Ah dos corpos nus o prazer antes de tudo...

Assim Nero. E na Espanha Galba
às ocultas reune as suas tropas e exercita-as,
o ancião de setenta e três anos.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, p 153 ( Tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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20/05/12


  " As coisas perigosas "



Disse Myrtias ( estudante sírio
em Alexandria; sendo reis
augustus Constans e augustus Constantius;
em parte gentio, e em parte cristianizante );
" Fortalecido com teoria e estudo,
eu as minhas paixões não vou temer como cobarde.
O meu corpo aos prazeres vou dar,
aos deleites sonhados,
aos desejos eróticos mais audazes,
aos ímpetos lascivos do meus sangue, sem
medo nenhum, pois sempre que queira -
e terei vontade, fortalecido
como estarei com teoria e estudo -
nos momentos críticos hei-de encontrar
o meu espírito, como dantes, ascético. "

    Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, p 105 ( Tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis ).
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19/05/12


 " ÍTACA "



Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poséidon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o selvagem Poséidon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.

Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.

Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já hás-de compreender o que significam Ítacas.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, pp 63-65 ( Tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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17/05/12

" mas fresco ribeiro se tenho sede; "

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  " Maravilhamo-nos com a vida "

Quando sorri, é pura estrela o sorriso,
mas fresco ribeiro se tenho sede;
pode a minha querida aos céus abrir-se,
que beijá-la só a mim se concede.

São seus cabelos ouro junto com breu,
bosques orvalhados seus olhos: frente
à sua porta deitar-me-ia eu
qual tapete, mas ela não consente.

Num canto das vozes o beijo se sela
e para as irmãs discorre, furtiva...
Pode o prado sonhar muita coisa bela -
é coração das ervas minha qu'rida.

Connosco à noite os beijos se vão embora
e pelo espaço do mundo em corrida
estendemo-nos os dois sob o céu da aurora
e só nos maravilhamos com a vida.

  Attila, József. Antologia da Poesia Húngara. Lisboa: Âncora Editora, 2002, p 187 (tradução de Ernesto Rodrigues).
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" sozinho como a noite em calafrios "

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  " Espero-te "

Espero-te sempre. A relva está orvalhada,
esperam também as grandes árvores de orgulhosas copas.
Rígido estou e tremo também às vezes,
sozinho como a noite em calafrios.
O prado, se viesses, tornava-se corredor liso
e silêncio seria. Um grande silêncio.
Mas música ouviríamos, misteriosa,
cantariam nos lábios nossos corações
e lentos, corados, nos fundíríamos
em altar cheiroso ardendo
para o infinito.

    Attila, József. Antologia da Poesia Húngara. Lisboa: Âncora Editores, 2002, p 183 (tradução de Ernesto Rodrigues).
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