12/08/12


E agora teria perecido Eneias soberano dos homens,
se arguta não se tivesse apercebido a filha de Zeus, Afrodite,
sua mãe, que o concebeu para Anquises quando ele tratava do gado.
Em torno do filho amado lançou ela os alvos braços, estendendo
à frente dele uma prega da sua veste resplandecente como barreira
contra os projécteis, não fosse algum dos Dânaos de rápidos poldros
arremessar-lhe bronze contra o peito e roubar-lhe a vida.
Levou ela então o filho amado para longe da guerra.

(...)
Mas quando chegou ao pé dela, após tê-la perseguido por entre
a multidão, foi então que o filho do magnânimo Tideu
lhe feriu a superfície da mão delicada com o bronze afiado;
e de imediato a lança lacerou a carne através da veste ambrosial.
que as próprias Graças lhe tinham tecido, na parte do pulso
acima da palma da mão. Jorrou o sangue imortal da deusa,
o ícor, que tem seu fluxo nos deuses bem-aventurados.
É que eles não comem pão, nem bebem o vinho frisante:
e por isso são exangues e têm o nome de imortais.
A deusa gritou alto e deixou cair o filho.
Mas tomou-o nos seus braços Febo Apolo e envolveu-o
numa nuvem escura, não fosse algum dos Dânaos de rápidos poldros
arremessar-lhe bronze contra o peito e roubar-lhe a vida.
Mas gritando alto lhe disse Diomedes, excelente em auxílio:

" Afasta-te, ó filha de Zeus, da guerra e da refrega!
Não te basta iludires as mulheres na sua debilidade?
Mas se pretendes entrar na guerra, penso que a guerra
te fará estremecer, só de ouvires falar dela de longe!"

Assim falou; e ela partiu, desesperada, em grande aflição.
Foi Íris de pés como o vento que a levou da liça,
acabrunhada de dores - até a linda pele se lhe escurecia.
De seguida, à esquerda da batalha, encontrou Ares furioso,
a lança reclinada contra uma nuvem; ali estavam seus cavalos velozes.
Caindo de joelhos, logo implorou Afrodite ao querido irmão
que lhe emprestasse os cavalos com adereços de ouro:

" Querido irmão, acode-me e dá-me os teus cavalos,
para que possa chegar ao Olimpo, onde fica a sede dos imortais.
Estou muito aflita por causa da ferida infligida por um homem mortal:
o Tidida, que neste momento até contra Zeus pai combateria!"

Assim falou; e Ares deu-lhe os cavalos com adereços de ouro.
Ela subiu para o carro, desesperada no seu coração;
e para junto dela subiu Iris, que com as mãos pegou nas rédeas.
Com o chicote incitou os cavalos, que não se recusaram a correr
e depressa chegaram à sede dos deuses, ao escarpado Olimpo,
...    ...    ...    ...    ...

  Homero. Ilíada, Canto V, 311 - 367. Lisboa: Livros Cotovia, 2005, pp 114 - 115 ( Tradução: Frederico Lourenço).
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09/08/12

"(...) e pedimos à vida humana que se comprimisse... "


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   A mente pode ser uma ferramenta maravilhosa para a autoilusão - não foi concebida para lidar com a complexidade e incertezas não lineares. Ao contrário do discurso comum, mais informação significa mais ilusões. A nossa deteção de padrões falsos cresce cada vez mais como efeito secundário da modernidade e da era da informação: existe a desadequação entre a aleatoriedade confusa do mundo atual rico em informação, com as suas interações complexas, e as nossas intuições dos acontecimentos, baseadas num habitat ancestral mais simples. A nossa arquitetura mental está cada vez mais desajustada do mundo em que vivemos.
   Isto conduz a problemas tolos: quando o mapa não corresponde ao território, há uma certa categoria de idiota - o sobreeducado, o académico, o jornalista, o leitor de jornais, o "cientista" mecanicista, o pseudoempirista, os dotados com aquilo a que chamo "arrogância epistémica", essa maravilhosa capacidade de desconsiderar o que não viram, o não-observado - quem entra em negação, imaginando que o território concorda com o seu mapa. Geralmente, esse idiota é alguém que faz a redução errada em nome da redução, ou remove algo essencial, cortando as pernas ou, melhor, parte da cabeça de um visitante ao mesmo tempo que insiste que ele preserva a sua pessoa com 95 por cento de exatidão. Vejam-se as camas procustianas que criámos, algumas benéficas, outras mais questionáveis: regulamentos, governos estruturados de cima para baixo, academia, ginásios, deslocações entre casa e o emprego, arranha-céus de escritórios, relações humanas involuntárias, emprego, etc.
   (...) temos culpado o mundo por não se adaptar às camas dos modelos "racionais", tentámos mudar os seres humanos para que se adaptassem à tecnologia, adulterámos a nossa ética para que se adaptasse às nossas necessidades de emprego, pedimos à vida económica que se adaptasse às teorias dos economistas, e pedimos à vida humana que se comprimisse numa qualquer narrativa.

   Taleb, Nassim Nicholas. A Cama de Procusto - Aforismos Filosóficos e Práticos. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010, pp 106 - 107.
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08/08/12

" Tudo caixas, caixas geometricamente retas e euclidianas. "



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   Nascem e são postos numa caixa; vão para casa viver numa caixa;
estudam pelo preenchimento de caixas; vão para o chamado " tra-
balho " numa caixa, onde se sentam na sua caixa-cubículo; conduzem
até à mercearia numa caixa para comprar comida numa caixa; vão
para o ginásio numa caixa para se sentarem numa caixa; falam em
pensar " fora da caixa ", criativamente; e quando morrem são postos
numa caixa. Tudo caixas, caixas geometricamente retas e euclidianas.


   #

   Outra definição de modernidade: as conversas podem ser cada vez
mais completamente reconstruídas com partes de outras conversas
que ocorrem ao mesmo tempo no planeta.


   #

   O século XX foi a bancarrota da utopia social; o XXI sê-lo-á da
utopia tecnológica.

  Taleb, Nassim Nicholas. A Cama de Procusto - Aforismos Filosóficos e Práticos. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2010, p 39.
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07/08/12

"(...) utilize-se, ao invés, a medida subtrativa..."


    #

   " Nível de riqueza " nada significa e não tem nenhuma medida
absoluta robusta; utilize-se, ao invés, a medida subtrativa " des-
nível de riqueza ", isto é, a diferença, em qualquer ponto tempo-
ral, entre aquilo que se tem e aquilo que se gostaria de ter.


    #

   As pessoas mais velhas atingem a beleza máxima quando têm
o que falta às novas: serenidade, erudição, sabedoria, phronesis
e aquela ausência de agitação pós-heroica.

 Taleb, Nassim Nicholas. A Cama de Procusto - Aforismos Filosóficos e Práticos. Alfragide: Dom Quixote, 2010, p 33.
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06/08/12

Ainda a propósito...


Uma foto de que gosto bastante: Frida Kahlo e Mayakovsky.
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02/08/12

" Qual a nau, que dos ventos combatida "


               " Soneto "

Qual a nau, que dos ventos combatida
Vai entre as crespas ondas flutuando,
Ora os soberbos mastros encurvando,
Ora na branca espuma submergida;

Assim também a minha triste vida
Contra os cansados males vai lutando,
A ideia da esperança abandonando,
Qual o sábio piloto a nau perdida.

No triste pensamento em vão forcejo
Encontrar o prazer que a alma procura;
Fica sempre frustrado o meu desejo.

E tão infeliz sou que, por ventura,
Até dos néscios o viver invejo,
Que inda a mais me condena a sorte dura.

  Lencastre, Catarina de. Antologia das Mulheres-Poetas Portuguesas (Org.: António Salvado). Lisboa: Edições Delfos, s/d., p 62.


Nota - Catarina de Lencastre (Guimarães, 1749 - Porto, 1824), viscondessa de Balsemão, foi admiradora frenética do Marquês de Pombal, a quem, inclusivamente,  dedicou uma ode, acompanhava sempre o marido ao estrangeiro nas suas andanças diplomáticas e estava constantemente pronta a socorrer os poetas mais necessitados como por exemplo Nicolau Tolentino. Devido ao facto do amor ser o tema dominante da sua poesia, foi conhecida como a "Safo portuguesa", no entanto, nela esse tema oscila sempre entre a serenidade e a paixão vagamente incoerente. Nesta autora aparece também um dos motivos dominantes da época: a luta entre razão e sentimento. A sua poesia caracteriza-se ainda por uma grande delicadeza formal e rítmica e um fervor sentimental, que a fazem evitar quase sempre o arcadismo, contudo a sua visão irracional dos sentimentos - base do exclusivismo romântico - é por vezes abalada por uma excessiva consciência formal.
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                    " From the Lives of My Friends "


What are the birds called
in that neighborhood
The dogs

There were dogs flying
from branch to
branch

My friends and I climbed up the telephone poles to sit on the power lines
     dressed like crows

Their voices sounded like lemons

They were a smooth sheet
They grew

black feathers

Not frightening at all
but beautiful, shiny and
full of promise

what kind of light

is that?

#

The lives of my friends spend all their time dying and coming back and dying
     and coming back

They take a break in summer
to mow the piss
yellow lawns, blazing
front and
back

There is no break in winter

I fall in love with the sisters of my friends
All that yellow hair!
Their arms
blazing

They lick their fingers
to wipe my face
clean

of everything

And I am glad
I am glad
I am
so glad

#

We will all be shipped away
in an icebox
with the one word  OYSTERS
painted on the outside

Left alone, for once

None of my friends wrote novels or plays, from the lives of my friends came
     their lives

Here's what we did
we played in the yard outside
after dinner

and then
we were shipped away

That was fast __

stuffed
with

lemons

Dickman, Michael. The Best American Poetry. New York: Scribner Poetry, 2011, pp 25 - 27.
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01/08/12

 Os poetas norte-americanos Matthew Dickman e Michael Dickman: dois gémeos com escritas substancialmente distintas.
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" Não me angustia a morte/ mas os rios onde não deitei os meus olhos "



Meu caro amigo
o fim chegou como uma flecha
e não encontro a chave
para decifrar o último enigma.

Pesam-me as pálpebras e as mãos.
Houve dias em que dancei
troquei beijos
sonhei.
Agora, perto do fim
resta-me a soma das lembranças.
Passada já a última dor
acerto os passos nos últimos versos.

Não me angustia a morte
mas os rios onde não deitei os meus olhos
as pétalas que não toquei
as melodias que não ouvi
as estrelas que não espreitei.

Não vale a pena esquivar o tempo
ir buscar a cana de pesca e abalar para o rio
contar histórias aos peixes que não mordem o isco.

Resta-me ainda nos olhos
um grande reservatório de sonhos
que se embaciam.
Mas nem um vestido negro tenho
para o meu próprio luto.
Meu caro amigo
promete cobrir-me de rosas vermelhas
amanhã.
Sei que vai chover.

Não chores por mim.
Cobre-me de rosas cor de sangue
e segue para casa.
Abre a caixa de selos que te enviei pelo correio
e procura neles
as minhas impressões digitais.

No silêncio da casa
tenta tu compreender a vida
enigma de todos os meus dias
esse traço estranho que me acompanhou sempre
essa etérea luz
nem sempre chama
nem sempre ténue.

O olhar escurece-me
e nestas palavras inúteis
medito sobre o fim.

Aconchego-me na despedida
sem saber o que fui
porque nunca me forneceram
o meu livro de instruções.

Ramos, Inês. Meditações sobre o fim - os últimos poemas. S/c.: Hariemuj Editora, 2012, pp 73 - 74 ( Antologia organizada por Maria Quintans).
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30/07/12

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      " Coffee "


The only precious thing I own, this little espresso
cup. And in it a dark roast all the way
from Honduras, Guatemala, Ethiopia
where coffee was born in the 9th century
getting goat herders high, spinning like dervishes, the white blooms
cresting out of the evergreen plant, Ethiopia
where I almost lived for a moment but
then the rebels surrounded the Capital
so I stayed home. I stayed home and drank
coffee and listened to the radio
and heard how they were getting along. I would walk
down Everett Street, near the hospital
where my brother was bound
to this white bed like a human mast, where he was
getting his mind right and learning
not to hurt himself. I would walk by and be afraid  and smell
the beans being roasted inside the garage
of an old warehouse. It smelled like burnt
toast! It was everywhere in the trees. I couldn't
bear to see him. Sometimes
he would call. He wanted us
to sit across from each other, some coffee between us,
sober. Coffee can taste like grapefruit
or caramel, like tobacco, strawberry,
cinnamon, the oils being pushed
out of the grounds and floating to the top of a French Press,
the expensive kind I get
in the mail, the mailman with a pound of Sumatra
under his arm, ringing my doorbell,
walking me up from a night when all I had was tea
and watched a movie about the Queen of England when Spain was hot
for all her castles and all their ships, carved out
of fine Spanish trees, went up in flames
while back home Spaniards were growing potatoes
and coffee was making its careful way
along a giant whip
from Africa to Europe
where cafes would become famous
and people would eventually sit with their cappuccinos, the baristas
talking about the new war, a cup of sugar
on the table, a curled piece of lemon rind. A beret
on someone's head, a scarf
around their neck. A bomb in a suitcase
left beneath a small table. Right now
I'm sitting near a hospital where psychotropics are being
carried down the hall in a pink cup,
where someone is lying there and he doesn't know who
he is. I' listening
to the couple next to me
talk about their cars. I have no idea
how I got here. The world stops at the window
while I take my little spoon and slowly swirl the cream around the lip
of the cup. Once, I had a brother
who used to sit and drink his coffee black, smoke
his cigarettes and be quiet for a moment
before his brain turned its armadas against him, wanting to burn down
his cities and villages, before grief
became his capital with its one loyal flag and his face,
perhaps only his beautiful left eye, shimmered on the surface of his Americano
like a dark star.


Dickman, Matthew. The Best American Poetry. New York: Scribner Poetry, 2011, pp 23 - 24.

29/07/12


  " Sonnet (Division) "


fuck! i have two loves too, i really do:
my one is blonde, my other's hair is black,
but neither either vice nor virtue lacks
and each complete to me is fair(e) and true.

i have not held them side to side, nor wished
as with less(er) love(s) to have them: back to back.
if evil choose a place to lay its wrack
it lie(s) with "i": that stenched and (w)retched dish

( i has not seen me as they must) of self,
and if me looks i can but lose. suggest me!
take me! then back to unalike give me:
to husband, wife, then back upon my shelf:

here (this) my wicked rest: i scribes this text.
"i" blithely rhymed: fuck! all... is aural sex.

  Davis, Olena Kalytiak. The Best American Poetry. New York: Scribner Poetry, 2011, p 20.
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28/07/12

Acerca de... ( XIV )


   À mercê das tempestades que tornam ainda mais inóspitos os espaços de areia e pedras que são os desertos, estes poemas fazem-se. As mãos traçam-nos, meticulosamente. As mãos sabem que tudo é evanescente, como as dunas, que apontam direcções, mas também podem ter um efeito alucinatório para os imprudentes; talvez por isso: "os homens vagueiam (...) com desespero no tosco emaranhado das dunas. " São mãos nómadas e errantes. Mãos que resgatam as palavras, os afectos, a natureza humana, do seu carácter transitório.
   Retomando a tradição dos grandes caminhantes como Bashô - atrevo-me a afirmar que o Victor Oliveira Mateus é um leitor atento da Poesia e da Filosofia do Oriente, expressas em referências subtis como a flor de Lótus - o deserto torna-se o centro de todas as errâncias: da errância  dos nómadas e da errância que acompanha a busca espiritual. Angel Silesius desejava subir mais alto que Deus, no Deserto, para atingir a indiferenciação do princípio, mas o deserto é um signo de uma ambivalência incandescente na sua "fértil aridez", porque é o lugar da sede, do terrível e do sublime, das extensões infinitas onde nos perdemos e morremos, por isso o eu se resguarda: "O meu lugar é um minúsculo e límpido poço." O deserto é o espaço de ressonância para o grito do poeta que, embora seja o buscador ( o "aceitante") dos mistérios imperscrutáveis, vive ainda no caos infernal de um tempo iníquo - paradigmático dessa realidade é o poema 14. No entanto, não se pense que este escriba dos desertos (a conotação do deserto pluraliza-se continuamente) se superioriza em relação aos que cedem a toda a sorte de miragens - embora no poema 4 a "Senhora da morte eterna" encarne os fenómenos da máscara, ostentação e jogos mistificatórios rejeitados definitivamente pela natureza do poeta, o poema 8 é uma prece para que nunca o próprio sujeito seja um subvertor da ética: "Meu Deus, fazei com que os outros não me atraiçoem nunca e, sobretudo, que eu nunca os apunhale na sua dignidade! Dai-me a suprema lucidez do Viandante...". No poema 9, o sujeito da enunciação assinala o perigo que o abismo encerra; respira, de quase alívio, no poema 15, porque a sua voz, embora enfraquecida, "canta o outro lado do abismo"; apesar do desalento dos primeiros versos: "sei tão pouco de tudo/ tão pouco! Tantos anos gastos a pensar, para afinal descobrir a pouca importância das coisas", o eu  escreve, e cada linha do poema é um testemunho necessário para que a fertilidade aconteça, porque só a obscura transparência da palavra pode ficar como testemunho do vivido, como aprendizagem.
   Este é um livro de uma viagem iniciática, que tem por principal leit motiv o desejo erótico: o rosto do "tu" inscreve-se como uma nervura - a princípio indelével, depois mais funda, em todos os signos do desejo que afloram nas linhas do livro. O "azul desmaiado dos olhos", o corpo do outro, "essa figura sentenciosa de beduíno", as suas palavras, fazem parte do espaço - que nunca finda - do deserto. O deserto é o território do absoluto e da solidão interior - a comunhão erótica procura um mais além, "aquilo que o excede a mim entrega." A alteridade imprevisível do outro abre uma ferida no conhecimento do mesmo: uma ferida, ou uma brecha. Por essa alteridade, se acede a uma liberdade sem limites, a uma consciência mais profunda. O erotismo é uma via para aceder ao absoluto, e, como tal, também inflige provações em quem padece, tece as suas armadilhas: a princípio o olhar do tu parecia ser de escárnio, mas, aos poucos, se foi instituindo olhar de desejo, flecha apontada numa só direcção, certeira, invencível: "... e a minha fuga um pássaro degolado pelo teu corpo." (poema 11)
   No deserto, há fios invisíveis que se infiltram entre os grãos de areia e vão fendendo paulatinamente o território antigo. Fundam outro deserto. O amor é o órgão para se ver a Deus, escreve Simone Weil. O corpo é consagrado nestes poemas: "E é o teu corpo nu, exausto, branco como um templo, porque todos os corpos são um templo no solo consagrado que há." (poema 21). O rosto amado é o lugar do indizível segredo. Não há transubstanciação do eu no outro. Há comunhão, há a maravilha deste outro como eu que me ama na noite, parece ciciar-nos o poeta. Eis a primeira noite de Novalis: acolhedora e manancial de conhecimento; o corpo tem a nudez de uma pedra. O conhecimento lítico do deserto de Lucchesi. Nestes poemas, ardemos no centro do amor.
   Para Octavio Paz, o erotismo é uma metáfora do conhecimento e o corpo lido no poema (o esplendor do corpo) é um criptograma, um meio de decifração de sinais que preparam a descoberta do mundo. Cabe à palavra do poema preparar um outro sentido para o mundo. Cabe às mãos - acantonadas no deserto - serem o elemento que indica os caminhos do Erotismo e da Poesia, ainda que, como os místicos que sabem que a desvelação de um mistério nunca é completa, o sujeito hesite em atribuir um nome ao "êxtase do que pressinto": "misto de assombro e agonia, estranho dizer, talvez poesia."
   Eu bebi a água da minha sede na cintilação das areias desta escrita.

          Isabel Aguiar Barcelos in Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler Edições, 2004, pp 7 - 9.
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Acerca de... ( XIII )


                         " Il ritorno in Italia del poeta Victor Oliveira Mateus "

   Victor Oliveira Mateus, poeta portoghese di grande forza e intensità, ci regala la sua sesta raccolta, dal titolo Regresso (Editora Labirinto, Fafe, 2010). Regresso, e cioè "ritorno", é parola già di per sé carica di attese e di poesia. Presuppone un viaggio nella memoria, alla ricerca di un luogo, di una persona, di un rapporto, di un ricordo, di un'immagine, di un vissuto. Il luogo in cui si ritorna qui è Torino, città che il poeta ripercorre da solo, attento a ogni particolare, cogliendo ogni momento in un soliloquio illuminato dalla nostalgia e dal vuoto della figura amata. In realità, forse più che cercare l'amata, il poeta cerca sé stesso, certa colui che è rimasto intrappolato in un momento, in una fotografia, nei ricordi che non si cancellano e che impediscono di continuare l'esistenza. Nei versi di questa densa raccolta, di un lirismo riflessivo e filosofico, le poesie sono tappe essenziali di un viaggio interiore e paiono, più che un incontro, un doloroso e necessario commiato.
   Insieme all'io lirico, seguiamo il suo itinerario fra i luoghi del ricordo: Via Roma, Piazza San Carlo, Via Po, Piazza Vittorio Veneto e poi ancora il Palazzo Reale e altri monumenti e vialli della Torino che appassiona i visitatori di tutto il mondo. Ma non ci facciamo ingannare da quello che, solo in apparenza, è un giro turistico. Fra passanti e visitatori affrettati o chiassosi,  troviamo l'io intento a compiere una sorta di pellegrinaggio per una città che è stata, insieme, testimone e scenario di momenti che debbono essere rivissuti e ossessivamente sviscerati affinché si possa placare la sensazione di qualcosa che è rimasta incompluta:

(... ) E foi, mais ou menos
por essa altura, que eu quis voltar atrás. Voltar atrás
para encontrar a origem. Uma porta. Para começar
tudo de novo, mas de outro modo. Voltar atrás
para encontrar o princípio - e a mim através dele

(p. 18)

(...) E fu più o meno
da quel momento, che volli tornare indietro. Tornare
per trovare l'origine. Una porta. Per ricominciare
tutto di nuovo, ma in un altro modo. Tornare
per ritrovare l'inizio - e me stesso tramite esso

   Una malinconia accompagna i passi del poeta e un disincanto di chi se che il suo è un incontro a cui solo uno dei duo personaggi si presenterà. Non è un caso che egli affermi, nella poesia che apre la raccolta, che non voleva ritornare e che lo ha fatto solo per un'assoluta compunzione dell'anima:

À minha maneira tudo fiz para não voltar
aqui. Para não me expor à inútil corrosão
da memória, ao enganoso magma das
palavras. A meu modo sempre evitei estas
grades, estas árvores simetricamente

encaixotadas acenando-me ao fundo

(p. 11) 

A modo mio tutto ho fatto per non tornare
qui. Per non espormi all'inutile corrosione
della memoria, all'ingannevole magma delle
parole. A modo mio ho evitato sempre queste
grate, questi alberi simmetricamente

allineati che mi accennano in fondo

   La città è indaffarata, i passanti distratti mentre il poeta è sospeso, come fuori dal tempo (anche se non dallo spazio), alla ricerca delle stesse coordinate spazialo-temporali in cui si è compiuto un rapporto e un'esistenza: " Aqui, debruçado sobre o Pó,/ sorvendo-lhe as águas e os reflexos, digo-me finalmente/ ao que vim: procurar pegadas, retalhar acidentes..." ( Qui, affacciato sul Po/ assorbendogli le acque e i riflessi, mi dico finalmente/ perché sono venuto: cercare orme, riordinare i fatti... ) p. 14.
   In questo diario intenso i grandi temi dell'esistenza si mescolano a fatti e gesti quotidiani e la vita entra nei versi attraverso le voci della città, attraverso i dialoghi rubati che si intrecciano ai pensieri e al percorso in profondità fatto dall'autore. Tutto diventa materia di poesia, tutto viene catturato dallo sguardo attento di un io che analizza sé stesso e il mondo e che, nei momenti di più intensa nostalgia, sdrammatizza con ironia il suo stesso dolore.
   Con un eloquio chiaro e posato, con versi lunghi e regolari (quasi sempre più de dodici sillabe), egli procede al riconoscimento dei luoghi in cui è vissuto, sorpreso che nulla vi sia rimasto impresso, che la vita proceda e non lasci memoria di sé. Allora è necessario ricorrere alle fotofrafie, ricontrollare oggetti e immagini, ricercarsi in uno scatto che ha immobilizzato volti e movenze e strappato al nulla ciò che ormai vive solo nella memoria:

Na foto ela está sorridente. Ar inocente,
conseguido. Ele também, triunfante
e pose a condizer, embora presa de presa
mas sem o saber. Outros iguais nas mesas
vizinhas - esperam a hora para descer (...).
Nas foto lá estão os toldos branco-

sujo a cobrir as mesas, as cervejas, os sorrisos.
A um transeunte foi-lhe roubado o espanto,
fixado naquele pedaço de papel sem brilho.
Debruço-me para dentro da foto, mas não
me vejo. Contudo, tenho a certeza que estou

(p. 15)

Nella foto lei è sorridente. Aria innocente,
riuscita. Anche lui, trionfante
nella giusta posa, catturati uno dall'altro
mas senza saperlo. Altri identici nei tavoli
vicini - attendono l'ora di andarsene (...).
Nella foto si vedono i tendoni bianco-

sporco che coprono i tavoli, le birre, i sorrisi.
A un passante à stato rubato lo stupore,
fissato in quel pezzo di carta opaca.
Mi sporgo dentro la foto, ma non
mi vedo. Eppure sono certo che ci sono

   Ha ragione il critico e poeta brasiliano Paulo Franchetti quando afferma, nella postfazione del libro, che non si percepisce veramente un "tu" in questi versi, ma solo un "io" alla ricerca, in viaggio e in attesa. Il titolo di una delle più belle poesie del libro, " Desabitada presença " ( Disabitata presenza), nella sua ossimorica sintesi può ben riassumere il senso di questo ritorni ai luoghi disabitati da colui che si è venuto, invano, a cercare.
   Per questo, Regresso è una sorta di requiem, di canto dell'assenza. Le ultime poesie hanno, infatti, titoli che rimandano all'ambito religioso: " Vésperas, sem oração " (Vespri, senza preghiera), " Litania para um dia depois " (Litania per il giorno dopo). È il commiato che permette all'io lirico di ritornare al punto da cui era partito e di ricominciare l'esistenza che la parola e la poesia se non salvano, almeno guariscono, consolano e danno un senso al viaggio e alla vita.

         Vera Lúcia de Oliveira in " Fili D' Aquilone ", Numero 22, aprile/giugno 2011.
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Acerca de... ( XII )


(Texto acerca do poema " Num café da Via Monginevro " e do livro " Regresso" )

" Pois é, coloco-me na condição do rapaz do café observando/ lendo o poeta Victor Oliveira Mateus, com o mesmo assombro e admiração. Sua poesia, com cenas que fluem e situações que se diluem, que derivam observações desviantes, nos levam a um estado de contemplação metafísica. Viajar com ele, sem direito a regresso. "

   António Miranda in Site "Poesia de Ibero-América ".
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26/07/12

" Também parecida contigo a noite,/ O que sobra de haver constelação, "


" Praia, de madrugada "

                                                                      Aos meus filhos e sobrinhos

Praia, de madrugada, coando luz
E Madragoa, barras de amor,
A Voz de América, sacos de haxixe,
No giro nocturno da baía...

Híbridas mulheres, carros de luxo,
Cães vadios, pedintes, noctívagos,
A brisa bole, em jeito de pipa, és tu,
A capa avulsa de um Paris Match...

Também parecida contigo a noite,
O que sobra de haver constelação,
Para que a insónia se apazigúe...

Outra musa, nem por isso igual a ti,
A nua, de nudez assaz desvalida,
De como vai em lua, a tua máscara...

Elísio, Filinto. Das Frutas Serenadas. Praia ( Cabo Verde ): Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro,
 2007, p 75.
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" Pois nestas coisas do amor, o género/ É puro detalhe... "


" Soneto desviado "

Soletrava ela ou ele - não importa,
Pois nestas coisas do amor, o género
É puro detalhe -, na retina da solidão
Retirada do fino mel de mim.

E dizia, a cada momento, sua sentença
De ficar ou de partir e a viagem,
A mais dolorosa, diga-se, nesta nau
Onde são outros os azimutes de pertença.

Também outros, que não eu, caídos
À terra vermelha das coisas paradas,
Ajoelharão antes os deuses de esquina.

E saberão ( dele ou dela ) essa coisa louca,
Uma vontade de voo no improvável,
Que em mim lateja como um soneto...

Elísio, Filinto. Das Frutas Serenadas. Praia ( Cabo Verde ): Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 
2007, p 44.
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" Conta-me um pouco de haverem deuses, "

" Tâmaras "

Das janelas, olhávamos o abraço da baía
Os mastros entrados pelas enseadas,
O movimento dos corpos soluçantes
A exaustão das horas que se abraçam...

Olhávamos também, amor, o sol a pique
Que, das manhãs, dourava todas as frutas,
Era tua rua de infância, e estavas nua,
Molhada chuva e eu, ali, liquefeito...

Conta-me um pouco de haverem deuses,
Só um bocado desse paraíso de bocas
Fá-lo sem medo, assim como as loucas...

Toca-me, pelo fundo, amor, tão frágil
Quão poderosa, foste, num só momento,
E ter aquilo sido toda a eternidade...

Elísio, Filinto. Das Frutas Serenadas. Praia ( Cabo Verde): Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro,
   2007, p 30.
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25/07/12

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" Caminhais em direcção à solidão. Eu, não, eu tenho os livros. "

                                                             Marguerite Duras

serei breve: e é simples
o que tenho para dizer.

não tarda, os nós dos dedos
vão pingar do retrovisor,
e é comovente como arde
o lume sob a solidão.
eis-me aqui, sem fuga

possível, ansiosamente
antecipando a hora em
que não terei mais rosto,
daqueles que se acham
no espelho.

citas célebres filósofos,
mas não tens qualquer
vocação para a vida.
quando se esgota o dizer
abandonado pela mão em flor,

és avulso: e nem sequer
tinhas um plano para me
salvar, os lábios anódinos
deitados fora, reverberando
muito baixinho por entre as

frinchas sujas do cinema.
de súbito ilumina-se
a púrpura vez em que
me converti: dizes-me
que há talvez o agora da

eternidade nos teus olhos,
mas eu não acredito e, por isso,
vasculho em versos alheios
um fio de luz; vou, vem comigo,
aprender como se trocam as estações

talvez a morte, de ardor em ardor,
te possa tocar de mansinho,
ao mesmo tempo que nos ombros
cintila uma borboleta sem esplendor
despede-te do sol e promete-te

que, no fim de contas, virá
um segredo por enumerar

e é tudo

   Soeiro, Ricardo Gil. Espera Vigilante. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2011, pp 58 - 59.


23/07/12

" deitaste tudo fora como fazem/ as mulheres em plena queda. "

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  " Sinais "

Eu pressenti que estavas a faltar-me
quando te perguntei se gostarias
de regressar no Inverno
aos temporais da costa,
de rires como rias
por sob o guarda-chuva destroçado.
Falaste de humidade,
inventaste miasmas
trazidos pelo mar,
deitaste tudo fora como fazem
as mulheres em plena queda.
E eu então, que era louco por tormentas,
esqueci-as, não fosses tu fugir.
Mas de que valeu?
Hoje encerro em palavras
a chuva, a ventania, a confusão do mar
numa folha de carta
com velhas cercaduras negras
que um dia trouxe
de casa de meus pais.

  Dempster, Nuno. Elegias de Cronos. Lisboa: Ed. Artefacto, 2012, p 62.
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"(...) em seus círculos de caça,/ para depois deixar tudo e partir,/(...) rumo a nenhum lado, "

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  " O Tempo Imediato "

Este céu onde as nuvens vão passando
e são veleiros brancos que suscitam
a antiga paz nas ondas, rumo a praias
distantes de qualquer sinal urbano,
e a lembrança de amar a Terra a dois,
os rebanhos, as árvores na crista
da serra ao vento, as duas águias lá
no alto céu, em seus círculos de caça,
para depois deixar tudo e partir,
galgando a estrada, rumo a nenhum lado,
sem guardar a ilusão de que o futuro
seja algo mais que o tempo imediato,
e o tempo imediato é quanto resta,
dia por dia, um dia a seguir a outro,
o carro pela noite durante horas,
o volante, as mudanças, os pedais
que fazem uma vida limitada
consumir-se, incolor, dura e a gasóleo.

  Dempster, Nuno. Elegias de Cronos. Lisboa: Ed. Artefacto, 2012, p 16.
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22/07/12

"(...) abominável/ objecto de vaidades múltiplas, imagem negra... "

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  " Excerto da secção I do poema A Viagem "
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...    ...   ...

Será este, o meu porto seguro?... Teria que encontrar-te
de novo, oh musa perdida, tu que comigo ao agro
foste escutar, a fresca erva crescendo...

A verde planície, sua ausência de espelhos, abominável
objecto de vaidades múltiplas, imagem negra, no pós
Outono da vida, rugas no coração... homens na
plástica, olhos rasgados orbitando sem brilho, e a
morte que nunca avisa, quando vem jantar...

Bandeiras, estandartes, suásticas, soldados, guerreiros
marchando, gritam ao tirano: ( Ave César!...
morituri te salutant ) ... bestas teleguiados, colocando
ovos no útero do Mundo, selvas ardendo, mães sem
sorriso, águias apunhaladas no voo do poeta...

Mas o poeta, igual ao pássaro, que renasce das cinzas,
inventa palavras, iluminam-se livros, estes templos
sagrados de divina sabedoria...

Mãos ardendo, fogo na aurora, nasce a palavra,
longos dias, eternas noites... sussurrando, pergunto:
São verdes, os teus olhos, ou, são azuis, como a fina
linha do mar, que vem dar à costa, dos meus sonhos?...

...   ...   ...

  Figueira, Tchalé. A Viagem ( Poemas ). Mindelo, Cabo Verde: Ed. do autor, 2012, pp 12 - 13.
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A natureza, as máscaras e o possível.


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O premiadíssimo Steven Soderbergh realizou em 1989 um "dos meus filmes": "Sexo, mentiras e vídeo" com Andie MacDowell e James Spader. A película era uma atenta e minuciosa reflexão sobre a natureza humana e a sexualidade com a sua dupla vertente de autenticidade e jogo. Em 1991 depois de ver o seu "Kafka", que detestei, cortei relações com a obra deste autor, sobretudo para manter a imagem que tinha do filme de 89,  
mas " Magic Mike" trouxe-me de novo ao Soderbergh inicial: Mike (Channing Tatum) stripper num clube feminino conhece Kid ( Alex Pettyfer) e acaba por o introduzir nos shows... mas eis que a (verdadeira) natureza humana nem sempre está à superfície: Mike, que nos parecia perverso e astuto, apenas quer conseguir dinheiro para vir a montar a sua empresa, enquanto que o antes ingénuo Kid, precisava apenas de um ligeiro abanão para que a sua verdadeira natureza viesse à tona, isto é, um deslumbrado com o dinheiro fácil e capaz de vender a mãe se lucrar algo com isso... Por entre corpos, sexo, pastilhas e álcool, tudo se complica com o aparecimento de Brook ( Cody Horn ) a lúcida e segura irmã de Kid. O mundo onde navega Mike e Kid cruza-se com o de Brook, mas ela nunca deixa que eles se misturem... De que modo revelarão estas personagens quem, e como, são?
 Esta ideia de que a natureza humana precisa apenas de um ligeiro sopro para que se mostre tal como é surge em várias cenas do filme, como por exemplo a da psicóloga (bissexual) amiga de Mike que com ele anda pelas noites, bares e discotecas, muitas vezes envolvendo-se ambos com a mesma mulher, contudo, mal a sua situação profissional fica resolvida, coisa que ela vê como subida de estatuto, logo se distancia do seu passado, ou seja, logo mostra a sua natureza, "indicando" a Mike o fosso que os separa, todavia - e porque a vida tem sempre a sua ironia - é essa ruptura com o ex-stripper que acaba por trazer a este algo bem mais importante do que "os monstros" da véspera.
Excelente direção de atores. Excelentes desempenhos (apesar de não ter gostado de Matthew McConaughey). Fecho bem estruturado e algo salvífico como em "Sexo, mentiras e vídeo ". Narrativa bem delineada e com encaixes muito bem feitos.
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11/07/12

"(...) as produções automáticas depressivas são reforçadas pelo próprio... "


A psicoterapia sistemática inicial no doente depressivo agudo desenvolve-se com a técnica da psicoterapia cognitivo-comportamental, quase a única forma de psicoterapia sistemática possível. Trata-se, antes de tudo, de corrigir as cognições erradas (ideias, informações e atitudes) do doente sobre si mesmo. A depressão auto-alimenta-se enquanto for fonte de pensamentos e atitudes negativas em torno do eu, do vínculo com o mundo exterior e daquilo que o futuro lhe possa trazer. Assim abundam afirmações deste cariz: "eu sou um inútil", "não conto com ninguém para ajudar-me", " a doença é incurável e o sofrimento não terá fim". O doente automortifica-se pelas três vias seguintes: escassa satisfação de si mesmo, subestimação dos reforços positivos recebidos do exterior e convicção de um futuro fechado.
  Para Greden (2003), a terapia cognitiva assenta na terapia da aprendizagem, e é, certamente, um tipo de aprendizagem, na qual há que corrigir os pensamentos distorcidos para normalizar os comportamentos associados à depressão.
  A tarefa psicoterapêutica não é fácil nem simples perante este panorama, porque as produções automáticas depressivas são reforçadas pelo próprio doente com raciocínios errados sobretudo na forma de generalizações abusivas, absolutizações ilógicas (vê tudo como definitivo), ampliações ou minimizações pouco razoáveis (avaliações por excesso ou por defeito), pensamento dicotómico ou maniqueísta (divisão das experiências em duas categorias opostas: bom ou mau, falso ou verdadeiro, etc.); personalizações excessivas (estabelecimento de uma relação entre o acontecimento externo negativo e a própria pessoa sem uma base suficiente para isso).
  A acção da psicoterapia cognitiva trata de substituir os pensamentos negros sobre o "eu", o ambiente e o futuro por imagens agradáveis e ao mesmo tempo modificar os raciocínios distorcidos. Por isso, o psicoterapeuta cognitivista empenha-se em contribuir para oferecer ao paciente uma informação realista e bem elaborada, preparando-o para não aceitar os pensamentos automáticos (...)
   O próprio fundador da terapia cognitiva Aaron Beck (2005), conclui agora, 30 anos depois da sua criação, e apoiando-se na própria experiência e na meta-análise do método, que a terapia cognitivo-comportamental é eficaz nos doentes depressivos para reduzir os sintomas e evitar as recaídas.
  À medida que o doente vai recuperando dos seus sintomas, sobretudo quando a acção do medicamento se torna mais activa (...) a psicoterapia adquire um maior êxito (...) na medida em que o terapeuta se encontra com um doente mais propenso a colaborar e a estabelecer conexões com o que o rodeia.

      Alonzo-Fernández, Francisco. As quatro dimensões do doente depressivo. Lisboa: Gradiva, 2010, pp  213 - 216.

Nota - A psicoterapia interliga-se com a farmacoterapia, que nesta obra pode ser consultada nas páginas 185 - 209.

09/07/12

" Por aqui se deduz que o estado neuroquímico é influenciado pelas próprias decisões da pessoa... "


  A síndrome depressiva está em princípio determinada pela interacção de factores genéticos e ambientais, mais ou menos isolados, mais ou menos formando uma constelação ou associação. Existe frequentemente um factor genético de vulnerabilidade, o que permite afirmar que em certo sentido todas as depressões são endógenas, embora, na sua maioria, sejam endógenas impuras. Esta observação tem o seu contraponto: as depressões endógenas estritas ou puras são muitas vezes mobilizadas ou precipitadas por estímulos stressantes.
No que se refere à identidade do facto etiológico ou causal fundamental, estabeleci - inspirando-me no sistema nosográfico do psiquiatra suiço Eugen Bleuler - a sectorização do círculo sindromático depressivo nestas quatro unidades nosológicas ou categorias de doença: a depressão endógena, a depressão situativa, a depressão psicógena e a depressão somatógena. Cada uma delas define-se em função da sua causa fundamental (Depressão endógena ou genética/ hereditariedade; depressão  psicógena ou neurótica/ conflito intrapsíquico; depressão situativa ou sociógena/ situação na vida; depressão somatógena/ transtorno corporal ). 
  É frequente a intervenção de uma causalidade mista, o que permite falar por exemplo de depressão endo-situativa e de modalidades análogas.
   Na origem de cada depressão, terá sempre de se contar com a possível intervenção dos quatro sistemas: o genoma, a situação de vida, o estado psíquico e o estado somático (...)
   A chave unitária da síndrome vital depressiva reside na patogenia da depressão. As quatro espécies de causas que distinguimos convergem na produção de um profundo desequilíbrio do substrato cerebral da vitalidade, que se encontra nos núcleos hipotalâmicos, em especial nos núcleos supraquiasmáticos do hipotálamo anterior, na proximidade da epífise (...)
  Trata-se de um mecanismo patogénico de dinâmica muito rica, que, uma vez iniciado por um distúrbio neuroquímico dos neurotransmissores ao nível hipotalâmico, se propaga em cascata como um distúrbio neuroendócrino múltiplo e um decréscimo da actividade do sitema neuroimunológico, e culmina num distúrbio neurofisiológico que altera a estrutura e a função de grupos de neurónios situados em pontos estratégicos do cérebro.
(...) o cérebro é um sistema químico dotado de ampla abertura. A conduta humana organiza-se dentro de uma espécie de laboratório químico cerebral de extraordinária complexidade, cuja regulação é partilhada pelos genes, as condições ambientais, as vivências e o funcionamento do organismo. Por aqui se deduz que o estado neuroquímico é influenciado pelas próprias decisões da pessoa, confirmando-se neste ponto de vista o nosso grande potencial de liberdade como um património específico do ser humano.

  Alonzo-Fernández, Francisco. As quatro dimensões do doente depressivo. Lisboa: Gradiva, 2010, pp 89 - 91.
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08/07/12

" Há falta de entendimento recíproco, como se estivessem - e estão - em mundos distintos. "


A sintonização com o outro alcança a sua figuração máxima na empatia (...), uma espécie de ressonância recíproca, verificando-se sob a forma de um intercâmbio de estímulos e respostas, ou seja, emissão e recepção de mensagens, canalizadas nas três espécies de linguagem humana: linguagem verbal, paraverbal e corporal.
  A redução da intercomunicação individual verbal, paraverbal e corporal, ou seja, mediante a palavra falada ou escrita, os sinais verbais concomitantes e os gestos corporais, estende-se, nos doentes depressivos assintónicos às funções de receptor e emissor, que protagonizam o processo circular definido como um intercâmbio de conteúdos significativos distribuídos em unidades ou mensagens. A comunicação é circular precisamente porque as duas partes alternam entre si nos papéis de emitir e receber. Pois bem, o núcleo da descomunicação depressiva está integrado pela redução simultânea do receber e emitir, do falar e escutar, do gesticular e observar.
(...) A assintonia pessoal conduz irremediavelmente ao bloqueio total ou parcial da intercomunicação humana. (...)O depressivo assintónico fala pouco, muitas vezes espontaneamente quase nada, responde com brevidade ou com monossílabos, e, ao mesmo tempo, tem muita dificuldade em escutar os outros. O diálogo torna-se impossível e tudo o mais que se consegue é uma espécie de "relação de surdos" (...) A linguagem paraverbal, um compêndio das manifestações concomitantes da linguagem falada, mostra-se aparatosamente afectada: o tom de voz mais débil do que suave, às vezes em forma de cochicho; a fluência do discurso, lento ou vacilante e salpicado por pausas de silêncio ou locuções repetidas (...)
A pobreza comunicacional do depressivo, carente da devida sintonia vital, conduz inexoravelmente a uma metacomunicação impregnada de equívocos de ambas as partes, sob a forma de significados enganosos, contraditórios ou simplesmente errados. Há falta de entendimento recíproco, como se estivessem - e estão - em mundos distintos.
(...) A distorção comunicacional induzida pelo pessimismo que invade o mundo depressivo é um dos exemplos mais demonstrativos de um fenómeno muito frequente na sociedade conhecido como catatimia.
  A tendência para se alhear dos amigos e dos familiares, inclusivamente das pessoas mais íntimas, deve-se não só ao propósito de evitar o diálogo impossível, mas também à tentativa de procurar o isolamento espacial. É que a desconexão ambiental do depressivo refere-se também à espacialidade.(...) Deixa-se levar assim por um comportamento global de retraimento social e de refúgio espacial, como se fosse um inimigo mortal do "ruído mundano" (...) O doente depressivo despojado da capacidade de sintonia ambiental ou atmosférica e interpessoal sente-se como um estranho, profundamente isolado e só, possuído por um sentimento de solidão radical e profunda, todavia desejado, como se fosse um refúgio sem entrada nem saída possível. "O depressivo diz Eismann (1984), "sente-se mais só e sofre mais com a sua solidão do que as outras pessoas." Os outros não podem entrar no seu mundo porque não o compreendem e ele renuncia a sair de si mesmo para não se ver acometido por novos sofrimentos.

   Alonso-Fernández, Francisco. As Quatro Dimensões do Doente Depressivo. Lisboa: Gradiva, 2010, pp 48 - 52.
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05/07/12

"E é precisamente o reconhecimento desta idealização deformante que abre o caminho à (...)libertação desse mundo de fantasmas "


O objecto do depressivo é ainda, e em regra, uma personagem altamente masoquista (tenhamos bem presente as características habituais das mães dos depressivos) e exibindo o seu estatuto e condição de vítima, de tal forma que a separação do sujeito, se comporta o seu salvamento, comporta também a recusa de se solidarizar com o trágico destino do objecto, abandonando-o de certo modo à sua sorte. Ora, tal conduta não é fácil de tomar; exige segurança e agressividade e desperta culpa. Por isso a separação tão difícil é; mas se se atinge é o sentimento de triunfo do sujeito que conseguiu libertar-se de uma relação mortificante e destruidora; e assim se compreende que a rotura se acompanhe, muitas vezes, de uma certa elação hipomaníaca. No decurso do trabalho analítico este processo de separação-individuação, acompanhado do luto do objecto primário, passa pela análise interpretativa da ligação masoquista do analisando, libertando a pulsão agressiva inflectida sobre o Self para actividades construtivas e sublimadas.
Outro traço característico do objecto do depressivo é a sua ambivalência: uma atitude de protecção e afecto contrastando com sentimentos de saturação relacional e rejeição, impondo ao investimento do sujeito um esgotante estado de tensão e retenção - "anda à trela" do objecto. (...) e só tendo em atenção estes dois tipos do processo transferencial - o movimento regrediente e repetitivo ( a repetição transferencial, que nos permite reconstruir o passado vivido) e o movimento progrediente e resolutivo (que costumamos designar por retomada da evolução suspensa, e no qual assenta precisamente a mudança de tipo e estilo de relação objectal( - podemos levar a bom termo a análise de um depressivo.
(...) Assim, o mundo interno do indivíduo está ocupado por objectos na realidade perdidos, mas que preenchem o espaço da ilusão. O indivíduo vive com esses introjectos, obviamente insatisfatórios; e bloqueantes da deflexão da líbido sobre o mundo exterior, os objectos da presença e da actualidade - do quotidiano - como bloqueantes ainda da expansão da personalidade. O caminho da cura passa então pela desidealização desses objectos internos.
Há uma certa tendência a valorizar ou fazer jogar aqui a pulsão agressiva: expulsar tais objectos internos pelo desbloquear da agressividade a eles ligada mas inflectida sobre o próprio e/ou transferida para objectos da circunstância. (...) frequentemente trata-se sobretudo do efeito retentivo de uma relação de idealização - relação densa, ocupante, expansiva e inflacionária, que está bem longe de corresponder às características reais  dos objectos introjectados. E é precisamente o reconhecimento desta idealização deformante que abre o caminho à necessária ruptura dos laços afectivos enquistados, com a libertação desse mundo de fantasmas (conscientes e inconscientes) do passado.

  Matos, António Coimbra de. A Depressão. Lisboa; Climepsi Editores, 2007, pp 54 - 55.
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04/07/12

" A Disposição Depressiva "


O que encontramos na condição ou disposição depressiva é a desistência dos interesses próprios (egoístas) em favor da manutenção do amor do objecto.
O que não é o mesmo - entenda-se bem - que o altruísmo ou o amor desinteressado do objecto. O depressivo ama para ser amado e admirado, pois que é pobre em sentimentos de auto-estima e autovalorização (a não ser quando intervém a defesa maníaca e emerge uma auto-imagem de grandiosidade). No verdadeiro altruísmo o indivíduo ama os outros porque tem capacidade de amar; na condição depressiva, por dependência afectiva - porque precisa do amor do outro.
Existem também certas diferenças com o masoquismo, embora este seja uma situação próxima e frequentemente entrelaçada com a depressão. No masoquismo o indivíduo vai mais longe: sofre (na relação com o objecto) para ter jus a ser amado, captar e manter o amor (do objecto) e ser admirado pela sua capacidade de sacrifício e sofrimento, ao mesmo tempo que sabe (em regra inconscientemente) estar a satisfazer a necessidade sádica do objecto, e com isso segurá-lo; mas, enquanto no masoquismo a relação de complementaridade do indivíduo com o objecto se processa na base da satisfação do sadismo do outro, na depressividade faz-se na base da satisfação do narcisismo do objecto.
A depressão e a defesa maníaca (o Self grandioso, megalómano; a negação da melancolia) andam em regra associadas. E, assim, as personalidades depressivas (não propriamente as pessoas que estão deprimidas - que manifestam o sintoma de abatimento e tristeza -, mas sim os indivíduos que são depressivos  que têm tendência a deprimir-se) apreciam não só poder queixar-se, quando encontram ressonância no ouvinte ou ouvintes (...) como também poder exibir algumas facetas da sua grandiosidade, que o interlocutor admire e aclame (o que tempera ou alivia o seu afecto depressivo). Mas esta última atitude - exibicionista (e de passividade do Eu) - em nada modifica a estrutura depressiva; apenas aligeira o peso do sentimento de não realização.
Na sua conduta diária, estes indivíduos repetem a relação, primária de objecto - em que foram amados na desgraça (no desamparo, na indefesa e na doença), por pena ou piedade, e admirados nas qualidades que interessavam ao objecto; e não, propriamente, aceites nas realizações autónomas e que lhes davam prazer a eles mesmos. Isto é: organizaram uma relação de objecto (a qual define a estrutura depressiva) na esteira de não terem sido considerados como sujeitos de um autêntico ser, com uma verdadeira identidade: mas sim objectos de desejos (...) dos seus próprios objectos: o paradigma é a mãe que investe narcisicamente o filho.
A saída desta condição depressiva faz-se - no curso da análise - pela luta contra o introjecto (objecto interno) externalizado no analista. Objecto-analista que, não destruído pela agressividade do analisando, será reintrojectado como objecto seguro, sólido e efectiva e efectivamente bom: e, precisamente por isso, tolerante, aberto e estimulante: que aprecia e mesmo solicita o desenvolvimento e realização livres e específicos do próprio. E com esta mudança se salda a cura analítica do depressivo: pela autonomia, e não pela cópia de mais um modelo.
(...) Por aqui vemos, também, que o tratamento analítico do depressivo passa pela transposição da passividade para a actividade; o que comporta certos riscos - quase inevitáveis - de passagem ao acto em transferência lateral. E o psicanalista que aceita ocupar-se de um doente narcísico terá de saber e poder suportar que se expõe, ou irá sofrer, certos incómodos relacionados com as reacções da entourage do analisando a vicissitudes do seu comportamento, nem sempre agradáveis (...).
O sentimento de falha e o medo de falhar, o sentimento de incapacidade, é um dos mais característicos nas pessoas depressivas; sentimento, não só ligado com o defeito do Eu, como também com a exigência do Ideal do Eu; e sentimento que se agrava em condições de existência excessivamente competitivas. Aqui se aponta, então, para as causas originais e de manutenção da disposição depressiva - a depressão sendo, como Edward Bibring o afirmou em 1953, o efeito da paralisia do Eu " porque se descobre incapaz de fazer face ao perigo", enquanto a ansiedade ou angústia é um sinal que mobiliza o Eu para o combate ou fuga.

  Matos, António Coimbra de. A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores, 2007, pp 41 - 43.
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03/07/12

" estão mas não aparecem/ e podem levar anos nisso "


Duas aranhas esperam a mosca
com radiadores ventiladores rosa-chá
passagem ao estado de amora
alguns coupons
e várias teses de combate moderno

A mosca
passa
ou não passa
é um pouco como todas as coisas
estão mas não aparecem
e podem levar anos nisso

Mas duas aranhas esperam a mosca
com serviço de Turismo Dlão
lume aceso
página de sentença judiciária

Ao fundo
o galo enerva-se e quebra a mobília
numa grande convivência francesa
co'a mosca que foge espavorida no vento

Agora à luz das baratas e dos apetrechos para campo
duas aranhas esperam a aranha
e esta é que não escapa
às honras amarelas
à ligeira tremura de ter vindo
pois nenhuma aranha escapou jamais às aranhas
nenhuma não sendo mosca fugiu
ao que mandam os deuses

   Cesariny, Mário. Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, pp 93 - 94.
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" De um rapaz louro que finda/(na alameda) uma novela perturbada "


 " manhã fresca "

Manhã fresca, reclinada
pela primavera crescente.
O mais pequenino nada
está como se fora gente

De um rapaz louro que finda
(na alameda) uma novela perturbada
uma mulher ainda linda
esperou mas não foi olhada

E no folhagem também
certo desencontro corre:
a primavera que vem
na trovoada que morre

   Cesariny, Mário. Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p 71.
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02/07/12

" ela/ que parte/ vira/ para o que abandona/ um olhar de brancura "


suave
a vela abre
e principia
o dia

ela
que pelo azul
que corta
considera e chama
outras velas irmãs para o claro rio
e enquanto
o cais
é um enorme navio
que se nega
e no entanto cumpre
a mais estranha viagem

ela
que parte
vira
para o que abandona
um olhar de brancura
que é toda a matemática
singela
da manhã que a inspira

  Cesariny, Mário. Manual de Prestidigitação. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p 47.
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01/07/12



       " A Sua Origem "



O cumprimento do seu prazer à margem da lei
teve lugar. Levantaram-se do colchão
e sem falarem vestem-se apressados.
Saem da casa separadamente, às escondidas; e enquanto
caminham algo preocupados pela rua, parece
que suspeitam de que neles qualquer coisa revela
em que género de leito caíram há pouco.

Mas como ganhou a vida do artífice.
Amanhã, depois de amanhã, ou com o tempo serão dados
à escrita os fortes versos que tiveram aqui a sua origem.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, p 273 ( Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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                " À Espera dos Bárbaros "



- Que esperamos na ágora congregados?

    Os bárbaros hão-de chegar hoje.

- Porquê tanta inactividade no Senado?
  Porque estão lá os Senadores e não legislam?

    Porque os bárbaros chegarão hoje.
    Que leis irão fazer já os Senadores?
    Os bárbaros quando vierem legislarão.

- Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,
  e está sentado à maior porta da cidade
  no seu trono, solene, de coroa?

    Porque os bárbaros chegarão hoje.
    E o imperador espera para receber
    o seu chefe. Até preparou
    para lhe dar um pergaminho. Aí
    escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

- Porque os nossos dois cônsules e os pretores
  saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas;
  porque levaram pulseiras com tantas ametistas,
  e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;
  porque terão pegado hoje em báculos preciosos
  com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

    Porque os bárbaros chegarão hoje;
    e tais coisas deslumbram os bárbaros.

- E porque não vêm os valiosos oradores como sempre
   para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

    Porque os bárbaros chegarão hoje;
    e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

- Porque terá começado de repente este desassossego
  e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)
  Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,
  e todos regressam às suas casas muito pensativos?

   Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
   E chegaram alguns das fronteiras,
   e disseram que já não há bárbaros.

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.
Esta gente era alguma solução.

  Kavafis, Konstandinos. Os Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2005, pp 221 - 223 ( Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).
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29/06/12

" je me nourris de cette insatisfaction/ que l'on nomme parfois lucidité "


  " Art farouche "

Dans le poème j'ai fait mon lit
il attendait que je m'endorme
murmurant à mon oreille:
je suis une maison vide
plutôt qu'une couche douillette
une construction qui s'effondre
plutôt qu'un rêve insignifiant

Lui qui se fait appeler poème
possède des capacités volatiles:
il se dresse debout devant toi
dans son évidence de toujours-déjà-là
puis lorsque tu décides enfin de t'en emparer
il disparaît hors de portée

Le poème me dis-je il faut que tu l'habites
ce que tu lui as donné il ne te le rendra pas
comme la maison délabrée
où peu à peu tu as dressé ton lit
tu y as déposé ta vie ensuite tu es parti
ailleurs où était encore une autre vie
non pas la même continuée
mais la vie différente celle qui roule
alors que dans le poème tu l'arrêtes
et tu la figes et tu condenses la fureur
le mouvement le temps décomposé en humus
par où l'autre vie s'échappe
et grouille et séfface de trop peu d'outil
celui fruste et parfait qu'est ta main
que guide ton cerveau lui-même relié
à ce que l'on ne nomme pas l'innommé
le poème tu le forges rien n'est donné
dans l'espoir qu'un jour quelqu'un s'y attarde
et ce que tu as réalisé te ressemble
c'est là sa particularité sa part d'attracteur étrange
alors il te faut chercher toujours chercher
ne jamais t'arrêter ou laisser en l'état
surtout ne pas te répéter
bien que tu reviennes sans cesse sur tes pas
c'est la forme qui compte et qui raconte
fût-elle informe à ta façon
chez lui aujourd'hui n'a pas de sens
chez lui c'est toujours demain
pourtant après bien des années
et tellement d'échecs
( peu importe pour celui qui lit
qui dans le poème fait son lit
les tentatives valent autant
que d'authentiques satori)
tu tentes de nommer ton art
un mot qui ne doit pas t'effrayer
moi j'ai dit antipoème poésie sauvage
pour définir le mystère
ce qui m'échappe et me rassemble
je me nourris de cette insatisfaction
que l'on nomme parfois lucidité
jusqu'à ce qu'advienne la vérité d'aujourd'hui
qui sera sans doutte différent demain
de sauvage mon poème tenait
ce que tient l'animal
celui qui n'est pas domestiqué
que tu approches et dont tu ne disposes pas
qui se laisse caresser mais avec réticence
mon poème est rugueux violent dans la retenue
mon poème est insoumis
fleuve au cours tourmenté
il ne coule pas de source
tu dois accepter ses caprices
raison pour laquelle je le nomme farouche
et pour revenir à la maison que tu habites
ces ruines que tu as relevées à ton usage
ainsi qu'a celui de certains visiteurs
veille simplement à laisser la porte entrouverte
afin que le passant qui rôde dans les parages
puisse la pousser si l'envie lui prend
en général je m'en tire par une pirouette
ici cependant je n'en ferai rien
j'ai posé mon art farouche
et dans cette direction je m'en vais
à moins que je ne dévie sur le chemin
vers une autre vérité du lendemain
puisque la vérité
est la pire forme du mensonge.

  Delaive, Serge. Trois poètes belges. Neuille-lès-Dijon: Éditions du Murmure, 2010, pp 79 - 81.
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27/06/12



 " Poema 7 de Completas "


Sinal algum me será dado antes
de conhecer o que na Terra deve ser ligado
ou não, e a ninguém seja contado
que O que veio não foi reconhecido.

  Vieira, Vergílio Alberto. Amante de um só dia. Porto: Livros de Horas, 2012, p 79.
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 " Poema 3 de Noa "


Ao que fez água brotar,
da terra árida, para me dessedentar,
e abriu caminhos no deserto,
para me prevenir do cardo e da serpente,
chamei pelo Nome, e Ele de mim
não desviou o rosto indivisível.

  Vieira, Vergílio Alberto. Amante de um só dia. Porto: Livros de Horas, 2012, p 51.
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 " Poema 7 de Tércia "


Em louvor da figueira estéril,
que frutificou, sem por ela ter passado
o vento, da boca fiz túmulo;
do coração, abismo.

Vieira, Vergílio Alberto. Amante de um só dia. Porto: Livros de Horas, 2012, p 31.
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26/06/12

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  " Miragem "


Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho - ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?

  Bresciani, Alberto. Incompleto Movimento. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2011, p 104.
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" Metamorfose "


Era seu rosto
um campo de trigo
e manso se entregava
ao passeio da boca

Braços me protegiam
e enlaçavam
e devolviam ventos
que ninguém sentiu

Desdobrava-se
o seu consentimento
e sem proposições
uma supernova em mim

Talvez reencontrasse o destino
respirasse sem deformidades
talvez fosse apenas como voltar

E já não chovia
E era tão bom.

  Bresciani, Alberto. Incompleto Movimento. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2011, p 65.
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  " Ficha "

  I

Aquilo nem
era verdade

não era nem
segredo

 II

Só buscava um
abrigo

Nenhuma
a final substância

só imaginada
por sob

Onde não
havia sequer

 III

Tirei os pontos e
algo em mim

falou, tinha
corpo e era sol.

  Bresciani, Alberto. Incompleto Movimento. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2011, p 38.
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25/06/12


 " A Tradição Não é Um Passado a Cheirar a Mofo "

                                                por  TERESA MARTINS MARQUES


No canto V da ILÍADA Homero coloca frente a frente o guerreiro aqueu Diomedes e o troiano Glauco prestes a iniciarem um combate, que acabará por não se realizar ao descobrirem que um antepassado de Glauco fora hóspede de um antepassado de Diomedes. Em vez de combaterem, preferem os guerreiros trocar as armas como prova de amizade que não será, todavia, recíproca dado que Diomedes ludibria Glauco oferecendo-lhe as suas armas de bronze em troca das de ouro do troiano. Antes de se identificaram mutuamente, notando Diomedes a extraordinária coragem de Glauco, põe a hipótese de o seu contendor ser um ente divino, o que tornaria o combate desigual. Querendo esclarecer tamanha dúvida, pergunta Diomedes:

" Quem és tu entre os homens, entre os homens mortais?/ Apenas sei que a todos te excedes em coragem. (...)/ Ou acaso pertences ao número dos divinos?/ Ah! Sendo assim, desisto de combater contigo".

Como resposta àquela pergunta, diz Glauco:

" Que importa, Diomedes, qual a minha linhagem?/ A geração dos homens é igual à das folhas,/ se o vento arranca algumas e no chão as espalha,/ ao vir a Primavera logo nascem outras./ E dos homens diremos que são como a folhagem..."

Aquela imagem de Homero, se por um lado afirma a morte como inevitabilidade - os homens caem no seu próprio Outono -, afirma também a certeza da vida como esperança que se alcança em cada renascimento - primavera do ser humano. E, se "dos homens diremos que são como folhagem", dos temas e motivos literários diremos que são como os homens e como a folhagem: passam e ficam. É Jacinto Prado Coelho quem nos diz:

" A literatura é o domínio do instável, miragem de eternidade que paira sobre a corrente dos anos e dos séculos. Um absoluto à escala humana: fica e passa."

A literatura passa e fica ao constituir-se tradição que é passado presentificado em cada nova leitura que daquele pretérito extrai novos efeitos pessoais. Somos um haver da morte, nós e o que é nosso, já que somos transitórios, isto é, estamos em trânsito de um espaço-tempo antes - a escala evolutiva das plantas, do homem, da tradição literária - para um espaço-tempo agora - que rapidamente se torna espaço-tempo-depois.

O conhecimento, a qualquer nível que o consideremos, faz parte de quem conhece e tal como o ser humano, também este é inevitavelmente transitório, sendo indefinível, porque a cada momento se represent(ific)a tornando-se tradição civilizacional, memória do conhecimento da humanidade. Memória que não se apresenta como simples e linear sucessão de épocas, interligando-se de forma a que o presente condicione o passado transcorrido, modificando a leitura que dele se faz no presente. Por isso esse passado-memória-civilizacional torna o ser humano infinitamente rico, já que é património cultural acumulado que lhe deu lastro intelectual, mas também infinitamente pobre, impedindo-o de pensar como nunca ninguém antes pensou. Aquilo que chamamos invenção, inovação em qualquer ramo do conhecimento é ínfima gota de criatividade individual que só existe como gota, porque é produto do mare magnum da cultura que lhe permitiu existir como gota e foi acumulada por sucessivas gerações.

Porque o conhecimento passado permite o conhecimento presente, nunca aquele é verdadeiramente passado nem este verdadeiramente presente. Sem Newton não teríamos Einstein. Sem Homero não teríamos Virgílio e Camões. A literatura, sendo conhecimento, não foge à inevitabilidade de ser morte que vivifica, de ser tradição que gera inovação. A obra de arte encontrará a sua autenticidade tornando-se experiência, transformando aquele que a experimenta numa interacção dialéctica, condição de comunicação e de significação, numa palavra - interpretação de uma tradição que passa e fica como documento, mas também como monumento.

Temos hoje consciência de que a tradição não existe para se venerar, mas para se conhecer. Só esse conhecimento possibilitará a criação duma nova significação, elo de uma cadeia que, não sendo já o passado, é também o passado, em translação de sentidos, corrente viva de valores em devir, como a água do rio de Heraclito, como a folhagem do bosque de Homero.
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Nota - agradecemos à Profª Drª Teresa Martins Marques da Universidade Clássica de Lisboa ter-nos dado a sua autorização para que pudéssemos postar este seu inédito.
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23/06/12

( Nota - alétheia : verdade in "Termos Filosóficos Gregos" de F. E. Peters, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 29.)


 " Aleteia " ( Poema III de Tríptico )


Dizia coisas que poucos entendiam.
Dormitava em tugúrios temidos
por muitos. Sentava-se na ponta
do beco a cortar as cabeças aos santos.
Trocava-as: santa Rita cravada de setas,
são Expedito de olhar lúbrico
e laços de organdi. Mas Aleteia rezava
sim: olival adentro, pelo meio das


searas, enquanto via o descarregar
dos porcos ou dava migalhas
aos pássaros. Eu também fugia
dela, mas sem medo ou motivo.
Certa vez encontrou-me, sozinho,
de vergasta em punho a afugentar
os gansos. Chega aqui!, e eu,
de cima dos meus calções cada


vez mais curtos, empinei-me
para que me visse melhor.
Se eu andava perdido, perguntou-me.
Que não, não senhora! Aleteia
sorriu e beijou-me a face.
Continuou o seu caminho. Desde
esse dia nunca mais a encontrei.

  Mateus, Victor Oliveira. Meditações Sobre o Fim, os últimos poemas (Organização: Maria Quintans). Lisboa: Hariemuj Editora, 2012, p 212.
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22/06/12


 " Antígona " ( Poema II de Tríptico )


Talvez preferisses gritos, súplicas
ou - quem sabe? - que rasgasse
as vestes e me desfizesse. Mas, temível
Creonte, eu tenho a experiência
de quem não cede, de quem percorre
os trilhos das margens e apenas ouve
o antigo saber da terra, o único a quem
vivos e mortos pertencem
e nos fervilha nas veias sem sabermos
como nem porquê. Podes, ó hábil,
misturar as palavras, confundir
as frases em discursos e experimentos
de glória... Mas a tua glória não passará
de um mero nome, e mesmo esse
com tantas dúvidas à mistura;
a tua glória - pequena barca
de pergaminho a apodrecer nas praias
jónicas. És nada, ó ridículo mensageiro
do novo!, e máscara alguma acrescentará
essa imensidão de nada, que jamais
conseguirás dissimular. Poderás perseguir,
infamar, convencer até outros
a que o façam também, mas
nunca iludirás o imperturbável
movimento do grande ciclo, esse
onde os deuses cobram todos os gestos
segundo a ordem do tempo; local
onde nos movemos: breves,
banais... e talvez dispensáveis.

     Mateus, Victor Oliveira. Meditações Sobre o Fim - os últimos poemas ( Organização: Maria Quintans). Lisboa: Hariemuj Editora, 2012, p 211.
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21/06/12



Queria ser o teu pátio e a tua lua. Queria preparar, numa pira de poções, mandrágoras, elixires, encantamentos, feitiços, esconjurações, as longas sendas do extravio e da ternura, queria abrir atalhos, veredas, coordenadas de maio a maio, afluentes, regatos, estradas que jamais conduzirão ao mar, eu sei. E, embora sabendo, não vacilarei, serei como a inquebrável fibra dos vimes, pensarei sempre em ti, meu irmão, meu querido assassino, e ajoelhada junto à fonte, sem interpelar os homens, a sua vã glória, o seu desaire, gota a gota, traço a traço, desenharei sobre o pó uma cicatriz, para que ao descer a águia saiba como perdi aquele que amei.
Revolvo a lama, os montículos, as raízes, convoco os gansos, os cisnes, as garças vermelhas, talvez a caminho do sul, mas antes e no fim, existem apenas as cavernas, os ossos, o templo dos cem tigres, o gelo e o degelo, a estepe interminável, o pântano, um bote, dois remos, e eu entre as margens, abrindo os cofres, movendo os dedos. Antes e no fim existe apenas o fim. Mas tu não entendias nada, frágil duende das flautas verdes.
Respiro, parece que respiro sobre o teu ombro, agora que estás deitado. O mel espesso das colmeias que sempre descuidei, transborda nos vasos abandonados, no barro cozido onde a tua amargura se perfila.
Que animais da sede virão beber a água de um cântaro pintado de anil? Há muito que quase todos se afastaram do homem, conscientes do perigo. Levaram consigo as crias e, algures, construíram outros ninhos.
Procuraram as ramagens, taparam os covis. E os que restam, estão à nossa volta, pois sabem que não fazemos parte da legião dos malditos que se aproximam.

   Baptista, José Agostinho. O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, 113 - 144.

19/06/12


Que certas vezes ele seja o ar e outras o vento, que se aproxime e entre e se deite e espere e me desça e me suba e me dobre suavemente como se dobram os girassóis na tarde que declina e depois adormeça num sonho de dois, eu e ele, verso e reverso, enfermidade e cura, culpa e redenção, e depois me leve para os litorais de onde vem. Mas ele não vem.
Ancorado, naquela curva que só eu conheço, está um bote. Quando se revela a claridade, ainda que ténue e difusa, pego nos remos e parto, como se procurasse, sem qualquer razão, um vislumbre de trigo e catedrais. Paro, entretanto, e deito-me, inspirando os sargaços.
(...) São estas as horas em que não te procuro, meu irmão. Sei que muito perto da casa corres atrás dos cães, e depois partes, para os territórios da alcateia, E eu aqui, à espera, à espera, à espera. Dele, da lua, de vénus, do cruzeiro do sul, do arado, do leão, de uma pancada mais forte em cada metade do coração. Sento-me, deito-me, levanto-me, acordo, adormeço, e aperto no peito quatro penas brancas(...) Neste entardecer, nesta lentidão de pássaros e nuvens, abandono-me, embalo-me, esqueço. E ele não vem..

  Baptista, José Agostinho. O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, pp 30 - 32.

17/06/12

Traduzindo...


Poderei a ti confessar-me se assim o pretenderes
e tanto tanto te contarei que, suplicante,
me pedirás que não prossiga com tal horror.
Minha boca dir-te-á que, bem cedo,
a dor começou a fazer seu ninho
neste meu corpo que agora se despede
deste cenário onde outrora se improvisavam
nossos gestos, como escrita de um livro
afinal indecifrável e de sonhos despojado
cujas pesadas páginas um dedo,
lento e glacial, vai implacavelmente virando
até que a náusea e o tempo nos acabem por consumir.

        Victor Oliveira Mateus

Original:

   " Despedida "

Si quieres confesarme yo te dejo
y tanto te diré que suplicante
pedirás no prosiga tanto horror.
Mi boca te dirá que en tiernos años
el dolor comenzó a hacer su lecho
en esta carne que ahora se despide
del escenario donde se improvisan
nuestros actos, escritos en el libro
indescifrable y vacuo de unos sueños
cuyas pesadas páginas un dedo,
lento y glacial vuelve implacable,
hasta que náusea y tiempo nos consumen.

  Piñera, Virgilio. La Isla en Peso. Barcelona: Tusquets Editores, 2000, p 283.
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