30/09/12


  " Calçada dos Mestres  "


Três velhas e eu,
na última taberna de Campolide.
Falavam de ir "levantar" os maridos,
o que deles resta.
Mas não estão "capazes":
dois anos debaixo da terra
nem sempre é o bastante.
"O meu João era mais forte do que
o teu" - trabalho de vermes,
apenas. Também "por esta altura
morreu o Joaquim Sapateiro",
recordam. Como se já só
da morte vivessem
( o que não foge demasiado
à verdade geral:
alimentos em preparação - ou cinzas ).

Há quem tenha estado
dez anos debaixo da terra,
antes de poder ser "levantado"
- e há quem nunca tenha estado vivo,
acrescenta o autor destes versos,
condensando a tarde numa garrafa vazia.

Estão a perceber agora
por que é que eu gosto tanto
de tabernas?
( Não respondam; o poema termina aqui,
porque a Dona Joana tem de ir ao oculista. )

   Freitas, Manuel de. A Última Porta. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp 109 - 110.
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29/09/12


 " 1685 - 1750 "

I

Acabamos sempre assim, esquecidos
ou lembrados entre a poeira de duas datas.
Foram anos, esses, de extrema
devoção à única das artes.
Só é pena que hoje me doa tanto
o testículo direito, a vista cansada
do mundo. Arnstadt, Weimar, Leipzig
- as cidades do Senhor
uniam-se no crime da perfeição
e não há, para isso, palavras.

Como se não bastasse o génio,
povoou a terra de filhos virtuosos:
o inventor da ternura romântica;
o baptista de Amadeus; aquele outro ainda
que a tristeza e o álcool incensaram.
Mas nenhum desses ( ou dos mais )
esteve alguma vez tão próximo do
infigurável absurdo a que chamamos Deus.

II

São dias de extermínio, agora.
O punhal das horas já não
cede ao alaúde nem ao cravo torturado
pela mudez. Repugnam-me simplesmente
estes dias devagar e não sei com que letras
se escreve nunca mais o nome do amor
( deixei de confiar a alma a um celeiro podre ).

Quando a música de um homem assim
não consegue demover-nos da angústia,
percebemos que a vida é morte
- impossíveis os gestos, as fugas, os desejos.

Amanhece e eu não. O sono deixou-se
pousar ao lado do livro que não pude ler
e mesmo o que escrevi sobre a morte,
embora exacto, era afinal aproximativo.
Sou agora plenamente o meu cadáver.
Ofereço-lhe um cigarro, o que sobra
de cerveja, a memória das cantatas
que me salvaram do tédio, do suicídio
e de mim próprio. Talvez seja um sentido,
uma ânsia de dissipação que encontrou
o seu termo moral, espiritual, orgânico.
Não sei.

Todas as palavras se tornaram para o sangue
uma mesma mentira, entre o exorcismo
e a ameaça. No fundo, a dizer havia apenas
isto: a luz que explode na janela
já não encontra nem corpo nem vontade.

  Freitas, Manuel de. A Última Porta. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp 71 - 72.
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27/09/12

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  " Roberto Carlos "

Escolhem os meses correctos e praticam
o acasalamento. Assim lhes ordena
a imperiosa vocação de parir - razões de Estado
a iluminarem os corpos. Não têm a culpa,
ou quase a não têm, mas o muito que fedem
- quando fodem e quando não fodem - torna o caso
irrelevante: your body belongs to the state.

São felizes. Ou julgam sê-lo, arrastados
pela funda e negra angústia de quem cumpre
o insucesso dos dias. Felizes,
quero dizer cegos. Quanto vale este feto senil,
a borrar-se agora e no declínio da idade? Dúvidas
que não encontramos em álbuns para bebé
e noutras tristes muletas da memória familiar.
Fraldas contudo gentis deixam sequinho o monstruoso
rabinho tão belo. Fruto podre do amor, um animal
em breve decrépito, a desbaratar os anos
em revistas que no quiosque da esquina
lhe devolvem o flagelo banal da juventude
- e o rabo cada vez menos seco, a ardente frescura da merda.

( Era uma canção de amor, lenta e dolorida
como todas, era o mês economicamente ideal
para acasalar - havia, há sempre, o cio bastante.)

E nisto, serenamente, tem a morte o seu lucro,
enriquecida colheita para a sua gadanha discreta.

  Freitas, Manuel de. A Última Porta. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p 22.
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25/09/12


Era a minha avó quem matava os coelhos:
dava-lhe dois hábeis socos atrás das orelhas
e nem esperneavam.
Na porta da retrete, num prego saliente,
pendurava-os por uma pata traseira.
Despia-lhes a pele como quem despe uma camisola
e fica com a vida do avesso.
Os gatos a ronronar assediavam as pernas da minha avó.
O rabo alçado, ponto de exclamação.
Num pestanejar estavam abertos e amanhados,
cristos em sangue,
as peles azuladas já a secar no telhado da retrete.

  Assim, Paulo. Fânzeres: Lugar da Palavra Editora, 2011, p 38.
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Apenas acrescento que ele, o meu pai, sabia
o sítio exacto donde brotavam os gomos do arco-íris:
era de debaixo das laranjeiras onde dormiam os gatos.
Parece inconciliável com as anedotas
travessas de Bocage que contava na taverna,
e no entanto era verdade que, mesmo antes
da chegada do arco-íris, já nós lá estávamos
de mãos estendidas para extorquir, com toda a fé das crianças,
a maior porção de cores e pintarmos um mundo só nosso.

  Assim, Paulo. Mão sobre os olhos. Fânzeres: Lugar da Palavra Editora, 2011, p 18.
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24/09/12

"(...) la derrota que no pese/ y por todo el horizonte velas extendidas "


    " Se Quisiera "

abrir los ojos cada mañana   seguir
como una gota el océano   como una hoja
la rama del árbol   se quisiera
las sombras como llamas
que se balanceen y cedan ante el peso del tiempo
se quisiera las herbas menos frágiles
el oleaje menos fuerte cuando el corazón voltee
se quisiera las estrellas que se inclinen
en medio del negro intenso   se quisiera la tierra
hermosa como un alba   como el átomo más pequeño
que la habita   se quisiera la esperanza
todavia posible en nuestras manos   sueños
sueños para toda una vida   y la historia del mundo
recomenzando en la luz   justo
esta luz de naciente mañana
se quisiera el camino como un soplo
las campanas por la alegría del alma
se quisiera la tormenta perdida   la derrota que no pese
y por todo el horizonte velas extendidas

  Dorion, Hélène. Revista de Letras Bora Nº 2. Málaga: Agosto 2012, p 23 ( Traducción del francés: José María Lopera ).

Nota - a) a poesia de Hélène Dorion constava já da lista de autores deste blogue; b) o facto de eu ter publicado na Bora Nº 2 trouxe-me também a enorme satisfação de ter ombreado com grandes poetas como é aqui o caso da canadiana Hélène Dorion.
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23/09/12

" que no sueña,/ ni habla,/ ni respira. "


 " Desahucio "

Se llamaba María, Ana, Luisa
y tenía su casa
muy cerca de la tuya.
Y hace días, muy pocos, que no vive.
Hace días que no sale a la compra,
que no asoma su rostro a la ventana,
que no sueña,
ni habla,
ni respira.
Se ha vencido en el caos de la crisis
al terror del desahucio y del vacío.
Así muren los pobres,
en silencio,
en el gris abandono de sus vidas,
sin conocer el grito de su fuerza,
su protesta en un coro de gargantas.
Y culpo a la avaricia,
a los mercados,
a los que nos gobiernan pese a todo,
de esta muerte.
        Y ya no habrá silencios.


  Miguel, Isabel. Revista de Letras Bora Nº 2. Málaga: Agosto 2012, p 45.
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22/09/12

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Surpreendida por um caminho sem tempo,
deixo que a lua se instale em minha pele,
lasciva e húmida. Habito uma ilha suspeita
de servir de abrigo a veleiros perdidos.
E digo: há um mar horizontal na solidão
de uma mulher, com as mãos cansadas
de sulcar distâncias em caminhos de espuma.

 Pires, Graça. Poemas Escolhidos 1990 - 2011. Lisboa: Ed. Autora, 2012, p 94.
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  " Marginalidade "


Subversivamente
o instinto me descomanda.

E a magia inconsciente
do meu corpo
é um jogo clandestino
de gestos sem eco.

Há um ritual divino
nas carícias sensuais
em que me invento.

Nada me torna inocente
dos meus próprios sentidos
quando solto
as linhas marginais
do pensamento
e me seduzo
com gostos proibidos.

Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida num momento.

A solidão é como o vento.

É nos olhos dos mendigos
que a noite se prolonga por mais tempo.

  Pires, Graça. Poemas Escolhidos 1990 - 2011. Lisboa: Ed. Autora, 2012, p 8.
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21/09/12

" Ou se é livre ou não se é livre. "



  Desde o momento em que o burguês detém um poder político, está alienado e toda a categoria… (…) Não se pode ser “muito mais livre”. Ou se é livre ou não se é livre.(…) É justamente a noção que é preciso tentar definir, que vos proponho que seja definida. Penso que um burguês que em parte tomou os poderes que os nobres detinham e os tenta assimilar não é livre; ele detém um poder sobre os outros, mas deter um poder sobre os outros é, precisamente, a definição da não liberdade. Se deténs poderes sobre os outros, condena-los a não serem livres e concomitantemente condenas-te a não seres livre. (…) Se um homem é livre, isso significa que ele detém um poder, mas este poder não deve ser, em caso algum, um poder de coerção. Numa sociedade cujos membros não tenham a possibilidade de se coagirem mutuamente, dado que são todos igualmente livres, teremos formas de poder que já não são o poder político, burguês ou socialista, tal como nós o conhecemos. É impossível, pois, que haja então nas instituições o que quer que seja contra os indivíduos.

 Sartre, Jean-Paul. Porquê a Revolta? Lisboa: Sá da Costa Editª, 1975, pp 320 – 321.
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14/09/12



 " Musa "


Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
O canto para todos
Por todos entendido

Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto

Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra

Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava

(Eu me lembro do chão
De madeira lavada
E do seu perfume
Que me atravessava)

Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco

Que eu possa dizer como
A tarde ali tocava
Na mesa e na porta
No espelho e no copo
E como os rodeava

Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva

Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
Para prender o brilho
Dessa manhã polida

Que poisava na duna
Docemente os seus dedos
E caiava as paredes
Da casa limpa e branca

Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta

  Andresen, Sophia de Mello Breyner. Antologia. Lisboa: Moraes Editores, 1975, pp 173 - 174.

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13/09/12


   É frequentemente a vulnerabilidade dos homens que os leva a preferir uma vida a dois. Ficam tranquilizados; procuram simultaneamente uma mulher "segura", autónoma quanto às despesas e aos filhos, mas também desejam que ela dependa deles afectivamente, de forma a terem a certeza de que ela fique com eles.
   (...)Apesar de não o assumirem claramente, e independentemente da idade, os homens procuram preferencialmente uma mulher "feminina", o que para eles significa muitas vezes sexy, ou seja, sexualmente "boa" (...)
   Para lhes agradar, uma mulher também deve trabalhar. Teoricamente, a maioria dos homens deseja que a mulher tenha um emprego, mas, na prática, continuam a procurar mulheres menos qualificadas ou que desempenham funções menos prestigiosas. Os mais velhos ainda têm a expectativa que a companheira trate da casa e eduque os filhos.
   O esquema de casal tradicional é evidente nos sites de encontros onde alguns homens recentemente viúvos ou divorciados procuram a mulher que poderá substituir a esposa anterior, de forma a reencontrar uma confortável posição social, sair em casal, receber, voltar a ser normal.(...)
   A sociedade continua a preparar os rapazes para ocuparem um papel dominante e não duvidarem do seu poder, mas a realidade encarrega-se rapidamente de lhes demonstrar que esta postura não é sustentável. Todavia, têm dificuldade em aceitá-la, pois foram sendo censurados por revelar momentos de fraqueza e, muitas vezes, a raiva ou o ciúme, as únicas emoções que não aprenderam a controlar, são o único recurso de que dispõem.
   A nossa sociedade sobrevaloriza a eficácia e o sucesso e as próprias mulheres também continuam a aceitar que um homem se revele agressivo em determinadas circunstâncias. Em toda a parte, é preciso ser o melhor, sem olhar a meios para atingir os fins. Com o pretexto da competição, valoriza-se, em certas profissões, o cinismo. E se a mulher tem de ser "feminina", o homem, por seu turno, vê-se obrigado a viver de acordo com os preceitos da virilidade. No entanto, nem sempre é fácil viver com os estereótipos de homens fortes e poderosos e alguns homens apenas conseguem esconder as suas fraquezas pisando quem é mais fraco, nomeadamente a mulher.
(...) Esperam que a mulher, tal como esperavam da mãe, lhes dê amor, atenção e tempo; que ela perceba as suas carências, que esteja disponível só para eles. Porque não são capazes de estar sós depois de uma separação, muitos encontram rapidamente outra mulher e acabam muitas vezes por encontrar uma que, encerrada na armadilha do modelo cultural antigo, o aceitará.

  Hirigoyen, Marie-France. As Novas Solidões. Casal de Cambra: Caleidoscópio Edição, 2011, pp 44-48.
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12/09/12

A Poesia de Maria João Cantinho!!!


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Poema:                               MARIA JOÃO CANTINHO

Realização:                         CAROLINA AMARAL

Conceção:                          LUÍSA AMARAL

Texto de apresentação
(no poste anterior e no
Youtube):                          Victor Oliveira Mateus
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   A poesia de Maria João Cantinho instaura-se nesse solo onde a memória e a procura se interpenetram e entre si dialogam, visando esse outro território  onde a alma nos possa sobejar nesta passagem que somos, e onde o olhar, límpido e de autenticidade cheio, se apreenda como uma outra linguagem a escrever-se no silêncio.
  A simultaneidade com que o resplendor e o justo equilíbrio deste processo metafórico se vai edificando – e onde podemos encontrar aspetos da memória cultural (os anjos de Chagall…), das inquietações metafísicas ( como tudo é sagrado e se renova…) e das partilhas afetivo-passionais  - faz-nos intuir que a poesia de Maria João Cantinho transporta no seu seio uma intenção abrangente, derradeira e marcada por um certa visão esperançosa do real, isto é, que a casa do humano possa ainda vir a recuperar vida por entre os escombros da memória.

                                                                  Victor  Oliveira  Mateus   
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"(...) esta dupla ênfase na materialidade do texto e na textualidade da matéria (...) que permite relacionar as duas rupturas de 60 aqui traçadas. "


   Se entre Florbela Espanca e Sophia de Mello Breyner Andresen, consideradas, enquanto escritoras mulheres, em função dos respectivos papéis que desempenharam na vida literária e cultural portuguesa, se podia postular a diferença de uma época, uma ruptura igualmente epocal permitirá distinguir a actividade literária feminina com raízes nos anos 50 e 60 do século passado daquela que se situara nas décadas (e nos séculos) anteriores. Como notou Maria de Lourdes Belchior (citada por Isabel Allegro de Magalhães), "Um fenómeno, entre outros, parecia caracterizar, de certo modo, a literatura portuguesa das décadas 50 e 60: a presença, nos arrais das letras, da mulher como autor". Ou, melhor dizendo, de mulheres como autoras, já que é precisamente a pluralização do fenómeno, estabelecido historicamente como excepcional e singular (em todos os sentidos), da participação literária feminina, e o facto de esta participação ser apreendida como existindo em pé de igualdade com a masculina, que marcam diferentemente a segunda metade do século vinte, introduzindo na paisagem cultural "o que por ausência maciça nunca (nela) houve e, de repente, passou a haver, com suspeita e suspeitada abundância" (Lourenço 1977, 10).
   Não é, no entanto, com esta transformação sócio-cultural que se costuma associar a expressão "a ruptura de 60" no discurso histórico-literário português: ela tem vindo a designar um período de renovação autoconsciente da teoria e prática do discurso poético em Portugal. O significado desta renovação, que se baseou sobretudo na actividade de dois grupos, ou movimentos, que surgiram na primeira metade dos anos 60 - Poesia 61 e o Experimentalismo - assim chegaria a ser resumido por um dos animadores principais, E.M. de Melo e Castro:
"Esta ruptura de 60 pode dizer-se que consistiu numa mudança radical da posição do poeta perante os seus instrumentos de trabalho: a escrita, a linguagem. A poesia não é agora mais instrumento, nem retórico nem ideológico nem moral. A poesia, por outro lado, não é mais sentimento nem sentimentalismo. A poesia não narra, não serve, nem é mais discursiva. A poesia substantiva-se. É uma operação linguística que tem como meio a escrita e como objectivo a sua própria renovação. (1980, 75)
   Nas considerações posteriores dos movimentos poéticos dos anos 60 tem-se destacado precisamente a sua "acentuada inflexão para a materialidade do texto, para a exploração das possibilidades criativas do universo linguístico visto na sua autonomia" (Martins, 1986, 81). Entretanto, a imagem do extremo ensimesmamento da construção poética, pintada por Melo e Castro numa representação ilustrativa do vanguardismo autoconsciente do projecto, não se manteria inteiramente fiel à pureza radical dos seus postulados. Conforme sublinhou Eduardo Prado Coelho, na ocasião do décimo aniversário de Poesia 61, o itinerário do grupo poderia ser resumido  como "a passagem dum formalismo desesperado (...) para uma articulação mais reflectida e estruturada das relações entre a palavra como o signo da história e história como produção de palavras". Também Manuel Frias Martins observa que "a especificidade do novo" nos movimentos poéticos dos anos sessenta se valida menos pela aderência às suas bases programáticas explícitas, concentradas nos aspectos formais - a "preocupação com a linguagem", com o "rigor vocabular", com a "depuração discursiva" - do que por uma "consciência cultural que ultrapassa a preocupação finalista com a linguagem para configurar o poema com o espaço vital por que o real e a experiência tomam verdadeiramente sentido" (82; sublinhados originais).
   É precisamente esta dupla ênfase na materialidade do texto e na textualidade da matéria, ou, por outras palavras, na maleabilidade poética do logos implicado na construção da realidade fisio-lógica e sócio-lógica, que permite relacionar as duas "rupturas de 60" aqui traçadas. Sobretudo na obra de duas autoras, ambas participantes na publicação de Poesia 61 - Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge - as explorações atentas da "quarta dimensão" (LNJ) da linguagem poética aliam-se intimamente ao imperativo feminista da reescrita do texto cultural legado ao Ocidente europeu pelos séculos da dominação masculina.

  Klobucka, Anna M. O Formato Mulher, A Emergência da Autoria Feminina na Poesia Portuguesa. Coimbra: Angelus Novus Editª, 2009, 203 - 206.
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10/09/12


   O Amor é, de facto, o principal tema de toda a lírica camoniana - como é n' Os Lusíadas, uma das grandes linhas que movem, organizam e dão sentido ao universo, elevando os heróis à suprema dignidade de, através dele, atingirem a divinização.
   Na Lírica de Camões, o amor é, contudo, fonte de contradições vivamente sentidas: ele é sucessivamente "fogo que arde sem se ver", "ferida que dói e não se sente", "contentamento descontente" - daí que dificilmente ele possa trazer consigo a alegria e a paz. É algo de indefinível ou, nas próprias palavras do Poeta, "um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê".
   O amor aparece nestes poemas sob uma dupla abordagem. Uma é a sua abordagem à maneira petrarquista, de raiz provençal e neoplatónica. Trata-se de um amor espiritualizado, em que não se vislumbra o corpo dos amantes, que se compraz na adoração e contemplação do ser amado e que leva a que o amador se "transforme" na "cousa amada". Num amor assim vivido, a ausência da amada não só não é sentida com dor, mas é encarada como ocasião de purificação do sentimento amoroso. A mulher amada, encarada como reflexo da beleza divina, é a ponte para a perfeição do "amador". Assim, ela não é retratada com traços fisionómicos precisos - a sua beleza, que é grande, reside sobretudo no olhar, "brando e piedoso", na postura "humilde", na bondade; o seu retrato é um retrato psicológico da perfeição e pureza que dela emanam. Regista-se a impressão que a sua beleza causa, e não os traços de que essa beleza é feita. Trata-se de um ser sublime, divinizado, que se movimenta numa natureza alegre, colorida, paradisíaca. (...) Mas o amor aparece também visto sob outro aspecto, numa outra abordagem. Camões, senhor de uma "longa experiência" de vida, apercebe-se da enorme distância que vai do pensamento à realidade vivida - e sente, mais violentamente que Petrarca, que a vivência quotidiana do amor, longe de trazer tranquilidade e paz, se for dela excluído o factor erótico, traz inquietação e perturbação. (...)
   Da tensão (...) entre o amor espiritual e o amor sensual, resultam, para quem ama, conflitos interiores, perplexidade, contradições, angústia. O sentimento amoroso torna-se motivo de perturbação; a mulher amada transforma-se em "fera", em "Circe", que enfeitiça, destilando no amador o "mágico veneno" e transformando-lhe o pensamento; a ausência e a morte da amada passam a constituir ocasião de dúvida, ciúme, angústia, "mágoa sem remédio".

  Pais, Amélia. Eu cantarei de amor - Lírica de Luís de Camões. Porto: Editª Areal, 1ª edição.
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09/09/12

"Se ambas as perspectivas são empobrecedoras da prática poética(...) elas florescem em momentos muito próprios de uma sociedade. "


   Embora ignorada, implícita ou explicitamente, nas suas implicações estéticas, é genericamente admitido pelo pensamento literário contemporâneo que uma compreensão rigorosamente séria da poesia não se compatibiliza com uma valorização do que é exclusivamente livresco no fenómeno poético. Quando essa valorização acontece, subverte-se inevitavelmente a imagem da poesia. Por um lado, retira-se-lhe aquele componente natural que a faz abrir-se a um imaterial transcendente cujo horizonte só pode ser intuído, não pelas (mais ou menos elaboradas) construções linguísticas e imaginativas mas apesar delas. Por outro lado, a exclusiva acentuação dos traços especificamente artísticos na compreensão e na prática da poesia, se confere ao poeta a consciência da liberdade e da autonomia do seu discurso, lança-o, no entanto, para a fronteira social e política que o estatui em inofensivo especialista do belo, laureado e aplaudido exactamente porque confirmador dessa fronteira.
   Porém, o reconhecimento deste facto não conduz (não deve conduzir) necessariamente, quer ao privilégio das estruturas iletradas, intuitivas ou pré-intelectuais da criação poética, quer à exclusividade de um comprometimento deliberado do poeta com a realidade social e política. Quando esse privilégio acontece, reduz-se a poesia a um mero reportório de fixações afectivas tautologicamente justificadas por interditos ideológicos que emanam da própria lógica das estruturas iletradas, intuitivas ou pré-intelectuais que lhe estão na origem. Quando acontece a exclusividade do comprometimento, o discurso poético está irremediavelmente condenado a permanecer na periferia da poesia, e, embora possa adquirir o estatuto de documento, mesmo assim, enquanto documento a sua informação distorcida (pela intenção poética) é de importância duvidosa.
   Se ambas as perspectivas são empobrecedoras da prática poética e da vida cultural que lhe subjaz, elas florescem em momentos muito próprios de uma sociedade. A primeira encontramo-la invariavelmente nos períodos caracterizados por aquele tipo de ordem tão cara à dominação da burguesia, a qual investe no artista porque (ou quando) é aquele que lhe dá um real decantado (= livresco) de um imaginário outro, alternativo se se quiser, que é quotidianamente sentido ou pressentido pela burguesia através do afrontamento das suas manifestações sociais exteriores. O artista (o poeta) ao institucionalizar a arte (a poesia) livresca implicita a institucionalização da ordem política que, afinal, a determina. A segunda encontramo-la nos grandes momentos de crise social e política; nos momentos de transformação revolucionária do curso da História; nos momentos em que o "povo", depositário dos valores mais substanciais, ou o "proletariado", escorado nas razões vitais do lugar que ocupa no processo de produção, são apresentados como sujeito e efeito de uma nova dinâmica cultural. Uma dinâmica tutelada pela categoria de "massa", e que passa a presidir ao acto de produção (objectiva) e recepção (ideal) dos bens culturais.

  Martins, Manuel Frias. 10 anos de poesia em Portugal 1974-1984, leitura de uma década. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, pp 31 - 32.
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08/09/12

"(...) a tarefa da crítica literária deve radicar sobretudo na interpretação e na análise... "


Sem recusar uma preocupação com o mérito literário das obras, creio, no entanto, que a tarefa da crítica literária deve radicar sobretudo na interpretação e na análise, por aí contribuindo para a revelação do valor da(s) obra(s). Deste modo, a crítica poderá desempenhar um papel verdadeiramente produtivo no contexto da comunidade literária, abrindo simultaneamente ao leitor potencial dos textos analisados um campo de intervenção e de permuta. Se é certo que o discurso crítico é inevitavelmente persuasivo, não é menos certo que se a crítica se esgotar na persuasão através de juízos de valor estará a criar as condições para se tornar um mero adereço da cena (literária) que deveria ser sua função analisar.
   Creio que devo ainda acrescentar a minha convicção de que o crítico não deve preocupar-se com uma competição com o(s) escritor(es) através da prolixidade de um discurso recheado de jogos verbais e/ou de conceitos fundados na retórica do fascínio da sua própria produção. Ou seja, pretendo não só distanciar-me daquele tipo de discurso contemporâneo que sanciona o acto crítico pelo mero espectáculo de (uma) escrita, mas também justificar a economia deste ensaio exactamente pela fundamentação dos juízos que contém. No entanto, devo também sublinhar a minha crença na intersecção do trabalho literário e do trabalho crítico numa mesma urgência para responder às solicitações do real através da determinação das condições estéticas da sua interpretação. Ou seja, pretendo não só legitimar o dialogismo implícito nas construções intelectuais do (meu) trabalho crítico, mas também reiterar a validade dessas mesmas construções.
   Finalmente, esclareça-se que as divisões que irei fazer não são absolutas. Se a dominante da produção de um determinado autor parece sugerir a sua inclusão num determinado conjunto, esse facto não anula a possibilidade de esse mesmo autor também apresentar características que o "empurram" para um outro conjunto. Esta situação não faz mais do que confirmar a poesia como género plural, e o trabalho que a organiza como exercício potencialmente conjuntivo da multiplicidade do real - e que, aliás, torna a tarefa crítica muito ingrata, mas também extraordinariamente aliciante.


  Martins, Manuel Frias. 10 anos de poesia em Portugal 1974-1984, leitura de uma década. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, pp 13 - 14..
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"(...) mas é também importante... "



   " A economia é necessária; é importante que todos o saibamos;
   mas é também importante que ela seja nobre, e não sórdida. "


Christine de Suède. Maximes. Paris: 1996, p 96 (Préface de Chantal Thomas
e tradução minha).



Nota - o quadro da rainha Cristina (1626-1689) é da autoria de
Jacob Ferdinand Voet.

20/08/12



    " Dobrada à Moda do Porto "

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada ( e era à moda do Porto ) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...

( Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim.
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

  Pessoa, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Edições Ática, 1980, pp 310 - 311.
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    " Nem só "


Nem só do teu silêncio
direi raiva
Nem de todo o meu corpo
direi vício

nem de todo o pénis
direi arma
e apenas do teu direi ter sido

Quando o vácuo é de
vingar
ou de vergar
cravando sobre os seios a sua enxada

Quando a minha boca se conjuga
no baixo do teu ventre
e tua espada...

nem de todo o desejo
direi verão
nem de todo o grito
a tua imagem

nem de toda a ausência
direi chão
e só de teus flancos
a viagem

  Horta, Maria Teresa. Antologia Poética. S/c.: Círculo de Leitores, 1994, p 231 ( Selecção de poemas de David Mourão-Ferreira).
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19/08/12



                       " 9h15 "

El hombre se sienta en una de las mesas de la terraza
Terraza fría en esta mañana igualmente fría
El hombre se acomoda su gorra sebosa,
la chaqueta desgarbada, sus pantalones desteñidos
en esta mañana igualmente desteñida

El hombre saca de su bolso un pequeño transístor
lo limpia delicadamente con su manga grasienta,
lo acaricia, escucha encantado aquellas voces roncas,
las intraducibles resonancias

El hombre habla con su transístor
Gesticula
Repite con insistencia algunas expresiones
Al principio nos mira con una cierta altivez
pero luego se desinteresa para poder olvidarnos
El hombre de la gorra sebosa y enamorado
de su transístor
ha sido mi primera enseñanza del dia.

    Mateus, Victor Oliveira. Revista Bora Nº 2, Agosto, 2012 ( traducción de José Ángel Garcia Caballero )
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16/08/12


                           " À Inglaterra"

                          (  Fragmento )


Ó cínica Inglaterra, ó bêbeda impudente,
Que tens levado, tu, ao negro e à escravidão?
Chitas e hipocrisia, evangelho e aguardente,
Repartindo por todo o escuro continente
A mortalha de Cristo em tangas d'algodão.

Vendes o amor ao metro e a caridade às jardas,
E trocas o teu Deus a borracha e marfim,
Reduzindo-lhe o lenho a c'ronhas d'espingardas,
Convertendo-lhe o corpo em pólvora e bombardas,
Transformando-lhe o sangue em aguarrás e em gim!

Teus apóstolos vão, prostituta devassa,
Com o fim de levar os negros para o Céu,
Desde o Zaire ao Zambeze e desde o Cabo ao Niassa,
Baptizando a Impiedade em Jordões de cachaça,
Mostrando-lhe o teu Deus na tua hóstia - o guinéu!

A honra para ti é inútil bugiganga.
O teu pudor é como um Matabel sem tanga,
Monstruoso ladrão, bárbaro traficante;
Compras a alma ao negro a genebra e missanga,
Vendendo-lhe a tua bíblia a queixais de elefante.

A tua bíblia! o teu Cristo!... A tua bíblia é uma agenda
Em que a virtude heróica a cifras se reduz.
E o teu Cristo londrino é um Deus de compra e venda,
Deus que ressuscitou para abrir uma tenda
De cortiça, carvão, álcool e panos crus!

Pela estrada da História, ó milhafre daninho,
Vai um povo seguindo o seu norte polar,
E tu és ladrão que lhe sais ao caminho,
Com manha do lobo e a coragem do vinho,
A roubar-lhe os anéis para o deixar passar!

Quando espreitas o fraco apontas a clavina,
Quando avistas o forte envergas a libré...
A tua mão ora pede esmola ora assassina...
Teu orgulho, covarde, é, meu Bayard d'esquina,
Como um tigre de rastro e um capacho de pé!
...    ...   ...   ...
Quando já se desenha em arco d'aliança
A porta triunfal do século que vem,
por onde dez nações marchando atrás da França,
Palmas na mão, cantando um cântico d'esp'rança
Hão-de entrar numa nova, ideal Jerusalém;
...    ...   ...    ...
Hão-de um dia as nações, como hienas dementes,
Teu império rasgar em feroz convulsão...
E no novo halali, dando saltos ardentes,
Com a baba da raiva esfervendo entre os dentes,
A bramir, levará cada qual seu quinhão!

E tu ficarás só na tua ilha normanda
Com teus barões feudais e teus mendigos nus:
Devorará teu peito um cancro aceso, a Irlanda:
E a tua carne hás-de vê-la, ó meretriz nefanda,
Lodo amassado em sangue, outro amassado em pus!

E assim como brutais monstros de pesadelo
No soturno porão duma nau sem ninguém,
Entre nuvens de fogo e temporais de gelo,
De bombordo a estibordo a rolar num novelo,
Desabando e rugindo, aos montões, num vaivém,

Se estrangulam febris, roucos, dilacerantes,
As pupilas a arder em brasas infernais,
Panteras contra leões, ursos contra elefantes,
Cobras, em redemoinho a silvar dardejantes,
Búfalos escornando os tigres e os chacais;

Assim vós, assim vós, dura raça assassina,
Sobre essa nau de pedra onde o mais vai bater,
Vos estrangulais numa carnificina,
De que só ficará, sob a densa neblina
Num pântano de sangue uma Gomorra a arder!

Milhões, milhões, milhões de bocas esfaimadas
Hão-de dilacerar-te o corpo com furor,
E a pedra a dinamite e a carne a punhaladas
Hão-de tombar no mesmo escombro ensanguentadas,
Em baques de hecatombe e blasfémias de dor!...

Hão-de os lordes rolar em postas no Tamisa!
Há-de o corpo de um rei dar um banquete a um cão!
Teu solo há-de tremer como uma pitonisa,
E a canalha sem lei, sem Deus e sem camisa
Abrirá teu bandulho infecto, oh Deus Milhão!

Bancos, docas, prisões, arsenais, monumentos,
Tudo rebentará em cacos pelo ar!...
E ao soturno fragor de teus finais lamentos
Responderão - ladrando! as cóleras dos ventos!
Responderão - cuspindo! os vagalhões do mar!

   Junqueiro, Guerra. Horas de Luta. Porto: Lello & Irmão Editores, 1954, pp 75 - 78.

Nota - Este longo poema de Guerra Junqueiro está datado de Fevereiro de 1890 e tem por base o célebre Ultimatum da Inglaterra a Portugal durante o reinado de D. Carlos I. É um dos mais referidos poemas de Junqueiro.
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15/08/12



  " À Tua Espera "


Tranquila e serena
a nossa casa
nos quatro cantos
o sol do meio-dia

à tua espera alegre
e descansada
injecto-me de amor às
escondidas

Sobre a garganta passo
os dedos espessos
e a roupa uma a uma
vai caindo

para que então amor
com os teus dedos
quando vieres me vás
depois vestindo

  Horta, Maria Teresa. Antologia Poética. S/c.: Círculo de Leitores, 1994, p 104 (Selecção de poemas de David Mourão-Ferreira).
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13/08/12



    " Origem "


Em nome do mistério
e do vício
das árvores

bebo a claridade
dos caules
e dos punhos

recebo a distância

nos olhos
o prazer é a origem
dos planetas

Em nome das mulheres
e do útero rouco
dos objectos

em nome do vício
com aves de mistério

a origem baça
da sombra nas gargantas

  Horta, Maria Teresa. Antologia Poética. S/c.: Círculo de Leitores, 1994, p 44 ( Selecção de poemas de David Mourão-Ferreira).
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12/08/12


E agora teria perecido Eneias soberano dos homens,
se arguta não se tivesse apercebido a filha de Zeus, Afrodite,
sua mãe, que o concebeu para Anquises quando ele tratava do gado.
Em torno do filho amado lançou ela os alvos braços, estendendo
à frente dele uma prega da sua veste resplandecente como barreira
contra os projécteis, não fosse algum dos Dânaos de rápidos poldros
arremessar-lhe bronze contra o peito e roubar-lhe a vida.
Levou ela então o filho amado para longe da guerra.

(...)
Mas quando chegou ao pé dela, após tê-la perseguido por entre
a multidão, foi então que o filho do magnânimo Tideu
lhe feriu a superfície da mão delicada com o bronze afiado;
e de imediato a lança lacerou a carne através da veste ambrosial.
que as próprias Graças lhe tinham tecido, na parte do pulso
acima da palma da mão. Jorrou o sangue imortal da deusa,
o ícor, que tem seu fluxo nos deuses bem-aventurados.
É que eles não comem pão, nem bebem o vinho frisante:
e por isso são exangues e têm o nome de imortais.
A deusa gritou alto e deixou cair o filho.
Mas tomou-o nos seus braços Febo Apolo e envolveu-o
numa nuvem escura, não fosse algum dos Dânaos de rápidos poldros
arremessar-lhe bronze contra o peito e roubar-lhe a vida.
Mas gritando alto lhe disse Diomedes, excelente em auxílio:

" Afasta-te, ó filha de Zeus, da guerra e da refrega!
Não te basta iludires as mulheres na sua debilidade?
Mas se pretendes entrar na guerra, penso que a guerra
te fará estremecer, só de ouvires falar dela de longe!"

Assim falou; e ela partiu, desesperada, em grande aflição.
Foi Íris de pés como o vento que a levou da liça,
acabrunhada de dores - até a linda pele se lhe escurecia.
De seguida, à esquerda da batalha, encontrou Ares furioso,
a lança reclinada contra uma nuvem; ali estavam seus cavalos velozes.
Caindo de joelhos, logo implorou Afrodite ao querido irmão
que lhe emprestasse os cavalos com adereços de ouro:

" Querido irmão, acode-me e dá-me os teus cavalos,
para que possa chegar ao Olimpo, onde fica a sede dos imortais.
Estou muito aflita por causa da ferida infligida por um homem mortal:
o Tidida, que neste momento até contra Zeus pai combateria!"

Assim falou; e Ares deu-lhe os cavalos com adereços de ouro.
Ela subiu para o carro, desesperada no seu coração;
e para junto dela subiu Iris, que com as mãos pegou nas rédeas.
Com o chicote incitou os cavalos, que não se recusaram a correr
e depressa chegaram à sede dos deuses, ao escarpado Olimpo,
...    ...    ...    ...    ...

  Homero. Ilíada, Canto V, 311 - 367. Lisboa: Livros Cotovia, 2005, pp 114 - 115 ( Tradução: Frederico Lourenço).
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09/08/12

"(...) e pedimos à vida humana que se comprimisse... "


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   A mente pode ser uma ferramenta maravilhosa para a autoilusão - não foi concebida para lidar com a complexidade e incertezas não lineares. Ao contrário do discurso comum, mais informação significa mais ilusões. A nossa deteção de padrões falsos cresce cada vez mais como efeito secundário da modernidade e da era da informação: existe a desadequação entre a aleatoriedade confusa do mundo atual rico em informação, com as suas interações complexas, e as nossas intuições dos acontecimentos, baseadas num habitat ancestral mais simples. A nossa arquitetura mental está cada vez mais desajustada do mundo em que vivemos.
   Isto conduz a problemas tolos: quando o mapa não corresponde ao território, há uma certa categoria de idiota - o sobreeducado, o académico, o jornalista, o leitor de jornais, o "cientista" mecanicista, o pseudoempirista, os dotados com aquilo a que chamo "arrogância epistémica", essa maravilhosa capacidade de desconsiderar o que não viram, o não-observado - quem entra em negação, imaginando que o território concorda com o seu mapa. Geralmente, esse idiota é alguém que faz a redução errada em nome da redução, ou remove algo essencial, cortando as pernas ou, melhor, parte da cabeça de um visitante ao mesmo tempo que insiste que ele preserva a sua pessoa com 95 por cento de exatidão. Vejam-se as camas procustianas que criámos, algumas benéficas, outras mais questionáveis: regulamentos, governos estruturados de cima para baixo, academia, ginásios, deslocações entre casa e o emprego, arranha-céus de escritórios, relações humanas involuntárias, emprego, etc.
   (...) temos culpado o mundo por não se adaptar às camas dos modelos "racionais", tentámos mudar os seres humanos para que se adaptassem à tecnologia, adulterámos a nossa ética para que se adaptasse às nossas necessidades de emprego, pedimos à vida económica que se adaptasse às teorias dos economistas, e pedimos à vida humana que se comprimisse numa qualquer narrativa.

   Taleb, Nassim Nicholas. A Cama de Procusto - Aforismos Filosóficos e Práticos. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010, pp 106 - 107.
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08/08/12

" Tudo caixas, caixas geometricamente retas e euclidianas. "



    #

   Nascem e são postos numa caixa; vão para casa viver numa caixa;
estudam pelo preenchimento de caixas; vão para o chamado " tra-
balho " numa caixa, onde se sentam na sua caixa-cubículo; conduzem
até à mercearia numa caixa para comprar comida numa caixa; vão
para o ginásio numa caixa para se sentarem numa caixa; falam em
pensar " fora da caixa ", criativamente; e quando morrem são postos
numa caixa. Tudo caixas, caixas geometricamente retas e euclidianas.


   #

   Outra definição de modernidade: as conversas podem ser cada vez
mais completamente reconstruídas com partes de outras conversas
que ocorrem ao mesmo tempo no planeta.


   #

   O século XX foi a bancarrota da utopia social; o XXI sê-lo-á da
utopia tecnológica.

  Taleb, Nassim Nicholas. A Cama de Procusto - Aforismos Filosóficos e Práticos. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2010, p 39.
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07/08/12

"(...) utilize-se, ao invés, a medida subtrativa..."


    #

   " Nível de riqueza " nada significa e não tem nenhuma medida
absoluta robusta; utilize-se, ao invés, a medida subtrativa " des-
nível de riqueza ", isto é, a diferença, em qualquer ponto tempo-
ral, entre aquilo que se tem e aquilo que se gostaria de ter.


    #

   As pessoas mais velhas atingem a beleza máxima quando têm
o que falta às novas: serenidade, erudição, sabedoria, phronesis
e aquela ausência de agitação pós-heroica.

 Taleb, Nassim Nicholas. A Cama de Procusto - Aforismos Filosóficos e Práticos. Alfragide: Dom Quixote, 2010, p 33.
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06/08/12

Ainda a propósito...


Uma foto de que gosto bastante: Frida Kahlo e Mayakovsky.
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02/08/12

" Qual a nau, que dos ventos combatida "


               " Soneto "

Qual a nau, que dos ventos combatida
Vai entre as crespas ondas flutuando,
Ora os soberbos mastros encurvando,
Ora na branca espuma submergida;

Assim também a minha triste vida
Contra os cansados males vai lutando,
A ideia da esperança abandonando,
Qual o sábio piloto a nau perdida.

No triste pensamento em vão forcejo
Encontrar o prazer que a alma procura;
Fica sempre frustrado o meu desejo.

E tão infeliz sou que, por ventura,
Até dos néscios o viver invejo,
Que inda a mais me condena a sorte dura.

  Lencastre, Catarina de. Antologia das Mulheres-Poetas Portuguesas (Org.: António Salvado). Lisboa: Edições Delfos, s/d., p 62.


Nota - Catarina de Lencastre (Guimarães, 1749 - Porto, 1824), viscondessa de Balsemão, foi admiradora frenética do Marquês de Pombal, a quem, inclusivamente,  dedicou uma ode, acompanhava sempre o marido ao estrangeiro nas suas andanças diplomáticas e estava constantemente pronta a socorrer os poetas mais necessitados como por exemplo Nicolau Tolentino. Devido ao facto do amor ser o tema dominante da sua poesia, foi conhecida como a "Safo portuguesa", no entanto, nela esse tema oscila sempre entre a serenidade e a paixão vagamente incoerente. Nesta autora aparece também um dos motivos dominantes da época: a luta entre razão e sentimento. A sua poesia caracteriza-se ainda por uma grande delicadeza formal e rítmica e um fervor sentimental, que a fazem evitar quase sempre o arcadismo, contudo a sua visão irracional dos sentimentos - base do exclusivismo romântico - é por vezes abalada por uma excessiva consciência formal.
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                    " From the Lives of My Friends "


What are the birds called
in that neighborhood
The dogs

There were dogs flying
from branch to
branch

My friends and I climbed up the telephone poles to sit on the power lines
     dressed like crows

Their voices sounded like lemons

They were a smooth sheet
They grew

black feathers

Not frightening at all
but beautiful, shiny and
full of promise

what kind of light

is that?

#

The lives of my friends spend all their time dying and coming back and dying
     and coming back

They take a break in summer
to mow the piss
yellow lawns, blazing
front and
back

There is no break in winter

I fall in love with the sisters of my friends
All that yellow hair!
Their arms
blazing

They lick their fingers
to wipe my face
clean

of everything

And I am glad
I am glad
I am
so glad

#

We will all be shipped away
in an icebox
with the one word  OYSTERS
painted on the outside

Left alone, for once

None of my friends wrote novels or plays, from the lives of my friends came
     their lives

Here's what we did
we played in the yard outside
after dinner

and then
we were shipped away

That was fast __

stuffed
with

lemons

Dickman, Michael. The Best American Poetry. New York: Scribner Poetry, 2011, pp 25 - 27.
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01/08/12

 Os poetas norte-americanos Matthew Dickman e Michael Dickman: dois gémeos com escritas substancialmente distintas.
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" Não me angustia a morte/ mas os rios onde não deitei os meus olhos "



Meu caro amigo
o fim chegou como uma flecha
e não encontro a chave
para decifrar o último enigma.

Pesam-me as pálpebras e as mãos.
Houve dias em que dancei
troquei beijos
sonhei.
Agora, perto do fim
resta-me a soma das lembranças.
Passada já a última dor
acerto os passos nos últimos versos.

Não me angustia a morte
mas os rios onde não deitei os meus olhos
as pétalas que não toquei
as melodias que não ouvi
as estrelas que não espreitei.

Não vale a pena esquivar o tempo
ir buscar a cana de pesca e abalar para o rio
contar histórias aos peixes que não mordem o isco.

Resta-me ainda nos olhos
um grande reservatório de sonhos
que se embaciam.
Mas nem um vestido negro tenho
para o meu próprio luto.
Meu caro amigo
promete cobrir-me de rosas vermelhas
amanhã.
Sei que vai chover.

Não chores por mim.
Cobre-me de rosas cor de sangue
e segue para casa.
Abre a caixa de selos que te enviei pelo correio
e procura neles
as minhas impressões digitais.

No silêncio da casa
tenta tu compreender a vida
enigma de todos os meus dias
esse traço estranho que me acompanhou sempre
essa etérea luz
nem sempre chama
nem sempre ténue.

O olhar escurece-me
e nestas palavras inúteis
medito sobre o fim.

Aconchego-me na despedida
sem saber o que fui
porque nunca me forneceram
o meu livro de instruções.

Ramos, Inês. Meditações sobre o fim - os últimos poemas. S/c.: Hariemuj Editora, 2012, pp 73 - 74 ( Antologia organizada por Maria Quintans).
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30/07/12

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      " Coffee "


The only precious thing I own, this little espresso
cup. And in it a dark roast all the way
from Honduras, Guatemala, Ethiopia
where coffee was born in the 9th century
getting goat herders high, spinning like dervishes, the white blooms
cresting out of the evergreen plant, Ethiopia
where I almost lived for a moment but
then the rebels surrounded the Capital
so I stayed home. I stayed home and drank
coffee and listened to the radio
and heard how they were getting along. I would walk
down Everett Street, near the hospital
where my brother was bound
to this white bed like a human mast, where he was
getting his mind right and learning
not to hurt himself. I would walk by and be afraid  and smell
the beans being roasted inside the garage
of an old warehouse. It smelled like burnt
toast! It was everywhere in the trees. I couldn't
bear to see him. Sometimes
he would call. He wanted us
to sit across from each other, some coffee between us,
sober. Coffee can taste like grapefruit
or caramel, like tobacco, strawberry,
cinnamon, the oils being pushed
out of the grounds and floating to the top of a French Press,
the expensive kind I get
in the mail, the mailman with a pound of Sumatra
under his arm, ringing my doorbell,
walking me up from a night when all I had was tea
and watched a movie about the Queen of England when Spain was hot
for all her castles and all their ships, carved out
of fine Spanish trees, went up in flames
while back home Spaniards were growing potatoes
and coffee was making its careful way
along a giant whip
from Africa to Europe
where cafes would become famous
and people would eventually sit with their cappuccinos, the baristas
talking about the new war, a cup of sugar
on the table, a curled piece of lemon rind. A beret
on someone's head, a scarf
around their neck. A bomb in a suitcase
left beneath a small table. Right now
I'm sitting near a hospital where psychotropics are being
carried down the hall in a pink cup,
where someone is lying there and he doesn't know who
he is. I' listening
to the couple next to me
talk about their cars. I have no idea
how I got here. The world stops at the window
while I take my little spoon and slowly swirl the cream around the lip
of the cup. Once, I had a brother
who used to sit and drink his coffee black, smoke
his cigarettes and be quiet for a moment
before his brain turned its armadas against him, wanting to burn down
his cities and villages, before grief
became his capital with its one loyal flag and his face,
perhaps only his beautiful left eye, shimmered on the surface of his Americano
like a dark star.


Dickman, Matthew. The Best American Poetry. New York: Scribner Poetry, 2011, pp 23 - 24.

29/07/12


  " Sonnet (Division) "


fuck! i have two loves too, i really do:
my one is blonde, my other's hair is black,
but neither either vice nor virtue lacks
and each complete to me is fair(e) and true.

i have not held them side to side, nor wished
as with less(er) love(s) to have them: back to back.
if evil choose a place to lay its wrack
it lie(s) with "i": that stenched and (w)retched dish

( i has not seen me as they must) of self,
and if me looks i can but lose. suggest me!
take me! then back to unalike give me:
to husband, wife, then back upon my shelf:

here (this) my wicked rest: i scribes this text.
"i" blithely rhymed: fuck! all... is aural sex.

  Davis, Olena Kalytiak. The Best American Poetry. New York: Scribner Poetry, 2011, p 20.
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28/07/12

Acerca de... ( XIV )


   À mercê das tempestades que tornam ainda mais inóspitos os espaços de areia e pedras que são os desertos, estes poemas fazem-se. As mãos traçam-nos, meticulosamente. As mãos sabem que tudo é evanescente, como as dunas, que apontam direcções, mas também podem ter um efeito alucinatório para os imprudentes; talvez por isso: "os homens vagueiam (...) com desespero no tosco emaranhado das dunas. " São mãos nómadas e errantes. Mãos que resgatam as palavras, os afectos, a natureza humana, do seu carácter transitório.
   Retomando a tradição dos grandes caminhantes como Bashô - atrevo-me a afirmar que o Victor Oliveira Mateus é um leitor atento da Poesia e da Filosofia do Oriente, expressas em referências subtis como a flor de Lótus - o deserto torna-se o centro de todas as errâncias: da errância  dos nómadas e da errância que acompanha a busca espiritual. Angel Silesius desejava subir mais alto que Deus, no Deserto, para atingir a indiferenciação do princípio, mas o deserto é um signo de uma ambivalência incandescente na sua "fértil aridez", porque é o lugar da sede, do terrível e do sublime, das extensões infinitas onde nos perdemos e morremos, por isso o eu se resguarda: "O meu lugar é um minúsculo e límpido poço." O deserto é o espaço de ressonância para o grito do poeta que, embora seja o buscador ( o "aceitante") dos mistérios imperscrutáveis, vive ainda no caos infernal de um tempo iníquo - paradigmático dessa realidade é o poema 14. No entanto, não se pense que este escriba dos desertos (a conotação do deserto pluraliza-se continuamente) se superioriza em relação aos que cedem a toda a sorte de miragens - embora no poema 4 a "Senhora da morte eterna" encarne os fenómenos da máscara, ostentação e jogos mistificatórios rejeitados definitivamente pela natureza do poeta, o poema 8 é uma prece para que nunca o próprio sujeito seja um subvertor da ética: "Meu Deus, fazei com que os outros não me atraiçoem nunca e, sobretudo, que eu nunca os apunhale na sua dignidade! Dai-me a suprema lucidez do Viandante...". No poema 9, o sujeito da enunciação assinala o perigo que o abismo encerra; respira, de quase alívio, no poema 15, porque a sua voz, embora enfraquecida, "canta o outro lado do abismo"; apesar do desalento dos primeiros versos: "sei tão pouco de tudo/ tão pouco! Tantos anos gastos a pensar, para afinal descobrir a pouca importância das coisas", o eu  escreve, e cada linha do poema é um testemunho necessário para que a fertilidade aconteça, porque só a obscura transparência da palavra pode ficar como testemunho do vivido, como aprendizagem.
   Este é um livro de uma viagem iniciática, que tem por principal leit motiv o desejo erótico: o rosto do "tu" inscreve-se como uma nervura - a princípio indelével, depois mais funda, em todos os signos do desejo que afloram nas linhas do livro. O "azul desmaiado dos olhos", o corpo do outro, "essa figura sentenciosa de beduíno", as suas palavras, fazem parte do espaço - que nunca finda - do deserto. O deserto é o território do absoluto e da solidão interior - a comunhão erótica procura um mais além, "aquilo que o excede a mim entrega." A alteridade imprevisível do outro abre uma ferida no conhecimento do mesmo: uma ferida, ou uma brecha. Por essa alteridade, se acede a uma liberdade sem limites, a uma consciência mais profunda. O erotismo é uma via para aceder ao absoluto, e, como tal, também inflige provações em quem padece, tece as suas armadilhas: a princípio o olhar do tu parecia ser de escárnio, mas, aos poucos, se foi instituindo olhar de desejo, flecha apontada numa só direcção, certeira, invencível: "... e a minha fuga um pássaro degolado pelo teu corpo." (poema 11)
   No deserto, há fios invisíveis que se infiltram entre os grãos de areia e vão fendendo paulatinamente o território antigo. Fundam outro deserto. O amor é o órgão para se ver a Deus, escreve Simone Weil. O corpo é consagrado nestes poemas: "E é o teu corpo nu, exausto, branco como um templo, porque todos os corpos são um templo no solo consagrado que há." (poema 21). O rosto amado é o lugar do indizível segredo. Não há transubstanciação do eu no outro. Há comunhão, há a maravilha deste outro como eu que me ama na noite, parece ciciar-nos o poeta. Eis a primeira noite de Novalis: acolhedora e manancial de conhecimento; o corpo tem a nudez de uma pedra. O conhecimento lítico do deserto de Lucchesi. Nestes poemas, ardemos no centro do amor.
   Para Octavio Paz, o erotismo é uma metáfora do conhecimento e o corpo lido no poema (o esplendor do corpo) é um criptograma, um meio de decifração de sinais que preparam a descoberta do mundo. Cabe à palavra do poema preparar um outro sentido para o mundo. Cabe às mãos - acantonadas no deserto - serem o elemento que indica os caminhos do Erotismo e da Poesia, ainda que, como os místicos que sabem que a desvelação de um mistério nunca é completa, o sujeito hesite em atribuir um nome ao "êxtase do que pressinto": "misto de assombro e agonia, estranho dizer, talvez poesia."
   Eu bebi a água da minha sede na cintilação das areias desta escrita.

          Isabel Aguiar Barcelos in Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler Edições, 2004, pp 7 - 9.
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Acerca de... ( XIII )


                         " Il ritorno in Italia del poeta Victor Oliveira Mateus "

   Victor Oliveira Mateus, poeta portoghese di grande forza e intensità, ci regala la sua sesta raccolta, dal titolo Regresso (Editora Labirinto, Fafe, 2010). Regresso, e cioè "ritorno", é parola già di per sé carica di attese e di poesia. Presuppone un viaggio nella memoria, alla ricerca di un luogo, di una persona, di un rapporto, di un ricordo, di un'immagine, di un vissuto. Il luogo in cui si ritorna qui è Torino, città che il poeta ripercorre da solo, attento a ogni particolare, cogliendo ogni momento in un soliloquio illuminato dalla nostalgia e dal vuoto della figura amata. In realità, forse più che cercare l'amata, il poeta cerca sé stesso, certa colui che è rimasto intrappolato in un momento, in una fotografia, nei ricordi che non si cancellano e che impediscono di continuare l'esistenza. Nei versi di questa densa raccolta, di un lirismo riflessivo e filosofico, le poesie sono tappe essenziali di un viaggio interiore e paiono, più che un incontro, un doloroso e necessario commiato.
   Insieme all'io lirico, seguiamo il suo itinerario fra i luoghi del ricordo: Via Roma, Piazza San Carlo, Via Po, Piazza Vittorio Veneto e poi ancora il Palazzo Reale e altri monumenti e vialli della Torino che appassiona i visitatori di tutto il mondo. Ma non ci facciamo ingannare da quello che, solo in apparenza, è un giro turistico. Fra passanti e visitatori affrettati o chiassosi,  troviamo l'io intento a compiere una sorta di pellegrinaggio per una città che è stata, insieme, testimone e scenario di momenti che debbono essere rivissuti e ossessivamente sviscerati affinché si possa placare la sensazione di qualcosa che è rimasta incompluta:

(... ) E foi, mais ou menos
por essa altura, que eu quis voltar atrás. Voltar atrás
para encontrar a origem. Uma porta. Para começar
tudo de novo, mas de outro modo. Voltar atrás
para encontrar o princípio - e a mim através dele

(p. 18)

(...) E fu più o meno
da quel momento, che volli tornare indietro. Tornare
per trovare l'origine. Una porta. Per ricominciare
tutto di nuovo, ma in un altro modo. Tornare
per ritrovare l'inizio - e me stesso tramite esso

   Una malinconia accompagna i passi del poeta e un disincanto di chi se che il suo è un incontro a cui solo uno dei duo personaggi si presenterà. Non è un caso che egli affermi, nella poesia che apre la raccolta, che non voleva ritornare e che lo ha fatto solo per un'assoluta compunzione dell'anima:

À minha maneira tudo fiz para não voltar
aqui. Para não me expor à inútil corrosão
da memória, ao enganoso magma das
palavras. A meu modo sempre evitei estas
grades, estas árvores simetricamente

encaixotadas acenando-me ao fundo

(p. 11) 

A modo mio tutto ho fatto per non tornare
qui. Per non espormi all'inutile corrosione
della memoria, all'ingannevole magma delle
parole. A modo mio ho evitato sempre queste
grate, questi alberi simmetricamente

allineati che mi accennano in fondo

   La città è indaffarata, i passanti distratti mentre il poeta è sospeso, come fuori dal tempo (anche se non dallo spazio), alla ricerca delle stesse coordinate spazialo-temporali in cui si è compiuto un rapporto e un'esistenza: " Aqui, debruçado sobre o Pó,/ sorvendo-lhe as águas e os reflexos, digo-me finalmente/ ao que vim: procurar pegadas, retalhar acidentes..." ( Qui, affacciato sul Po/ assorbendogli le acque e i riflessi, mi dico finalmente/ perché sono venuto: cercare orme, riordinare i fatti... ) p. 14.
   In questo diario intenso i grandi temi dell'esistenza si mescolano a fatti e gesti quotidiani e la vita entra nei versi attraverso le voci della città, attraverso i dialoghi rubati che si intrecciano ai pensieri e al percorso in profondità fatto dall'autore. Tutto diventa materia di poesia, tutto viene catturato dallo sguardo attento di un io che analizza sé stesso e il mondo e che, nei momenti di più intensa nostalgia, sdrammatizza con ironia il suo stesso dolore.
   Con un eloquio chiaro e posato, con versi lunghi e regolari (quasi sempre più de dodici sillabe), egli procede al riconoscimento dei luoghi in cui è vissuto, sorpreso che nulla vi sia rimasto impresso, che la vita proceda e non lasci memoria di sé. Allora è necessario ricorrere alle fotofrafie, ricontrollare oggetti e immagini, ricercarsi in uno scatto che ha immobilizzato volti e movenze e strappato al nulla ciò che ormai vive solo nella memoria:

Na foto ela está sorridente. Ar inocente,
conseguido. Ele também, triunfante
e pose a condizer, embora presa de presa
mas sem o saber. Outros iguais nas mesas
vizinhas - esperam a hora para descer (...).
Nas foto lá estão os toldos branco-

sujo a cobrir as mesas, as cervejas, os sorrisos.
A um transeunte foi-lhe roubado o espanto,
fixado naquele pedaço de papel sem brilho.
Debruço-me para dentro da foto, mas não
me vejo. Contudo, tenho a certeza que estou

(p. 15)

Nella foto lei è sorridente. Aria innocente,
riuscita. Anche lui, trionfante
nella giusta posa, catturati uno dall'altro
mas senza saperlo. Altri identici nei tavoli
vicini - attendono l'ora di andarsene (...).
Nella foto si vedono i tendoni bianco-

sporco che coprono i tavoli, le birre, i sorrisi.
A un passante à stato rubato lo stupore,
fissato in quel pezzo di carta opaca.
Mi sporgo dentro la foto, ma non
mi vedo. Eppure sono certo che ci sono

   Ha ragione il critico e poeta brasiliano Paulo Franchetti quando afferma, nella postfazione del libro, che non si percepisce veramente un "tu" in questi versi, ma solo un "io" alla ricerca, in viaggio e in attesa. Il titolo di una delle più belle poesie del libro, " Desabitada presença " ( Disabitata presenza), nella sua ossimorica sintesi può ben riassumere il senso di questo ritorni ai luoghi disabitati da colui che si è venuto, invano, a cercare.
   Per questo, Regresso è una sorta di requiem, di canto dell'assenza. Le ultime poesie hanno, infatti, titoli che rimandano all'ambito religioso: " Vésperas, sem oração " (Vespri, senza preghiera), " Litania para um dia depois " (Litania per il giorno dopo). È il commiato che permette all'io lirico di ritornare al punto da cui era partito e di ricominciare l'esistenza che la parola e la poesia se non salvano, almeno guariscono, consolano e danno un senso al viaggio e alla vita.

         Vera Lúcia de Oliveira in " Fili D' Aquilone ", Numero 22, aprile/giugno 2011.
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Acerca de... ( XII )


(Texto acerca do poema " Num café da Via Monginevro " e do livro " Regresso" )

" Pois é, coloco-me na condição do rapaz do café observando/ lendo o poeta Victor Oliveira Mateus, com o mesmo assombro e admiração. Sua poesia, com cenas que fluem e situações que se diluem, que derivam observações desviantes, nos levam a um estado de contemplação metafísica. Viajar com ele, sem direito a regresso. "

   António Miranda in Site "Poesia de Ibero-América ".
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26/07/12

" Também parecida contigo a noite,/ O que sobra de haver constelação, "


" Praia, de madrugada "

                                                                      Aos meus filhos e sobrinhos

Praia, de madrugada, coando luz
E Madragoa, barras de amor,
A Voz de América, sacos de haxixe,
No giro nocturno da baía...

Híbridas mulheres, carros de luxo,
Cães vadios, pedintes, noctívagos,
A brisa bole, em jeito de pipa, és tu,
A capa avulsa de um Paris Match...

Também parecida contigo a noite,
O que sobra de haver constelação,
Para que a insónia se apazigúe...

Outra musa, nem por isso igual a ti,
A nua, de nudez assaz desvalida,
De como vai em lua, a tua máscara...

Elísio, Filinto. Das Frutas Serenadas. Praia ( Cabo Verde ): Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro,
 2007, p 75.
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" Pois nestas coisas do amor, o género/ É puro detalhe... "


" Soneto desviado "

Soletrava ela ou ele - não importa,
Pois nestas coisas do amor, o género
É puro detalhe -, na retina da solidão
Retirada do fino mel de mim.

E dizia, a cada momento, sua sentença
De ficar ou de partir e a viagem,
A mais dolorosa, diga-se, nesta nau
Onde são outros os azimutes de pertença.

Também outros, que não eu, caídos
À terra vermelha das coisas paradas,
Ajoelharão antes os deuses de esquina.

E saberão ( dele ou dela ) essa coisa louca,
Uma vontade de voo no improvável,
Que em mim lateja como um soneto...

Elísio, Filinto. Das Frutas Serenadas. Praia ( Cabo Verde ): Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 
2007, p 44.
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" Conta-me um pouco de haverem deuses, "

" Tâmaras "

Das janelas, olhávamos o abraço da baía
Os mastros entrados pelas enseadas,
O movimento dos corpos soluçantes
A exaustão das horas que se abraçam...

Olhávamos também, amor, o sol a pique
Que, das manhãs, dourava todas as frutas,
Era tua rua de infância, e estavas nua,
Molhada chuva e eu, ali, liquefeito...

Conta-me um pouco de haverem deuses,
Só um bocado desse paraíso de bocas
Fá-lo sem medo, assim como as loucas...

Toca-me, pelo fundo, amor, tão frágil
Quão poderosa, foste, num só momento,
E ter aquilo sido toda a eternidade...

Elísio, Filinto. Das Frutas Serenadas. Praia ( Cabo Verde): Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro,
   2007, p 30.
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25/07/12

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" Caminhais em direcção à solidão. Eu, não, eu tenho os livros. "

                                                             Marguerite Duras

serei breve: e é simples
o que tenho para dizer.

não tarda, os nós dos dedos
vão pingar do retrovisor,
e é comovente como arde
o lume sob a solidão.
eis-me aqui, sem fuga

possível, ansiosamente
antecipando a hora em
que não terei mais rosto,
daqueles que se acham
no espelho.

citas célebres filósofos,
mas não tens qualquer
vocação para a vida.
quando se esgota o dizer
abandonado pela mão em flor,

és avulso: e nem sequer
tinhas um plano para me
salvar, os lábios anódinos
deitados fora, reverberando
muito baixinho por entre as

frinchas sujas do cinema.
de súbito ilumina-se
a púrpura vez em que
me converti: dizes-me
que há talvez o agora da

eternidade nos teus olhos,
mas eu não acredito e, por isso,
vasculho em versos alheios
um fio de luz; vou, vem comigo,
aprender como se trocam as estações

talvez a morte, de ardor em ardor,
te possa tocar de mansinho,
ao mesmo tempo que nos ombros
cintila uma borboleta sem esplendor
despede-te do sol e promete-te

que, no fim de contas, virá
um segredo por enumerar

e é tudo

   Soeiro, Ricardo Gil. Espera Vigilante. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2011, pp 58 - 59.


23/07/12

" deitaste tudo fora como fazem/ as mulheres em plena queda. "

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  " Sinais "

Eu pressenti que estavas a faltar-me
quando te perguntei se gostarias
de regressar no Inverno
aos temporais da costa,
de rires como rias
por sob o guarda-chuva destroçado.
Falaste de humidade,
inventaste miasmas
trazidos pelo mar,
deitaste tudo fora como fazem
as mulheres em plena queda.
E eu então, que era louco por tormentas,
esqueci-as, não fosses tu fugir.
Mas de que valeu?
Hoje encerro em palavras
a chuva, a ventania, a confusão do mar
numa folha de carta
com velhas cercaduras negras
que um dia trouxe
de casa de meus pais.

  Dempster, Nuno. Elegias de Cronos. Lisboa: Ed. Artefacto, 2012, p 62.
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"(...) em seus círculos de caça,/ para depois deixar tudo e partir,/(...) rumo a nenhum lado, "

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  " O Tempo Imediato "

Este céu onde as nuvens vão passando
e são veleiros brancos que suscitam
a antiga paz nas ondas, rumo a praias
distantes de qualquer sinal urbano,
e a lembrança de amar a Terra a dois,
os rebanhos, as árvores na crista
da serra ao vento, as duas águias lá
no alto céu, em seus círculos de caça,
para depois deixar tudo e partir,
galgando a estrada, rumo a nenhum lado,
sem guardar a ilusão de que o futuro
seja algo mais que o tempo imediato,
e o tempo imediato é quanto resta,
dia por dia, um dia a seguir a outro,
o carro pela noite durante horas,
o volante, as mudanças, os pedais
que fazem uma vida limitada
consumir-se, incolor, dura e a gasóleo.

  Dempster, Nuno. Elegias de Cronos. Lisboa: Ed. Artefacto, 2012, p 16.
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22/07/12

"(...) abominável/ objecto de vaidades múltiplas, imagem negra... "

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  " Excerto da secção I do poema A Viagem "
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...    ...   ...

Será este, o meu porto seguro?... Teria que encontrar-te
de novo, oh musa perdida, tu que comigo ao agro
foste escutar, a fresca erva crescendo...

A verde planície, sua ausência de espelhos, abominável
objecto de vaidades múltiplas, imagem negra, no pós
Outono da vida, rugas no coração... homens na
plástica, olhos rasgados orbitando sem brilho, e a
morte que nunca avisa, quando vem jantar...

Bandeiras, estandartes, suásticas, soldados, guerreiros
marchando, gritam ao tirano: ( Ave César!...
morituri te salutant ) ... bestas teleguiados, colocando
ovos no útero do Mundo, selvas ardendo, mães sem
sorriso, águias apunhaladas no voo do poeta...

Mas o poeta, igual ao pássaro, que renasce das cinzas,
inventa palavras, iluminam-se livros, estes templos
sagrados de divina sabedoria...

Mãos ardendo, fogo na aurora, nasce a palavra,
longos dias, eternas noites... sussurrando, pergunto:
São verdes, os teus olhos, ou, são azuis, como a fina
linha do mar, que vem dar à costa, dos meus sonhos?...

...   ...   ...

  Figueira, Tchalé. A Viagem ( Poemas ). Mindelo, Cabo Verde: Ed. do autor, 2012, pp 12 - 13.
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A natureza, as máscaras e o possível.


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O premiadíssimo Steven Soderbergh realizou em 1989 um "dos meus filmes": "Sexo, mentiras e vídeo" com Andie MacDowell e James Spader. A película era uma atenta e minuciosa reflexão sobre a natureza humana e a sexualidade com a sua dupla vertente de autenticidade e jogo. Em 1991 depois de ver o seu "Kafka", que detestei, cortei relações com a obra deste autor, sobretudo para manter a imagem que tinha do filme de 89,  
mas " Magic Mike" trouxe-me de novo ao Soderbergh inicial: Mike (Channing Tatum) stripper num clube feminino conhece Kid ( Alex Pettyfer) e acaba por o introduzir nos shows... mas eis que a (verdadeira) natureza humana nem sempre está à superfície: Mike, que nos parecia perverso e astuto, apenas quer conseguir dinheiro para vir a montar a sua empresa, enquanto que o antes ingénuo Kid, precisava apenas de um ligeiro abanão para que a sua verdadeira natureza viesse à tona, isto é, um deslumbrado com o dinheiro fácil e capaz de vender a mãe se lucrar algo com isso... Por entre corpos, sexo, pastilhas e álcool, tudo se complica com o aparecimento de Brook ( Cody Horn ) a lúcida e segura irmã de Kid. O mundo onde navega Mike e Kid cruza-se com o de Brook, mas ela nunca deixa que eles se misturem... De que modo revelarão estas personagens quem, e como, são?
 Esta ideia de que a natureza humana precisa apenas de um ligeiro sopro para que se mostre tal como é surge em várias cenas do filme, como por exemplo a da psicóloga (bissexual) amiga de Mike que com ele anda pelas noites, bares e discotecas, muitas vezes envolvendo-se ambos com a mesma mulher, contudo, mal a sua situação profissional fica resolvida, coisa que ela vê como subida de estatuto, logo se distancia do seu passado, ou seja, logo mostra a sua natureza, "indicando" a Mike o fosso que os separa, todavia - e porque a vida tem sempre a sua ironia - é essa ruptura com o ex-stripper que acaba por trazer a este algo bem mais importante do que "os monstros" da véspera.
Excelente direção de atores. Excelentes desempenhos (apesar de não ter gostado de Matthew McConaughey). Fecho bem estruturado e algo salvífico como em "Sexo, mentiras e vídeo ". Narrativa bem delineada e com encaixes muito bem feitos.
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