31/10/12

Outras publicações...


Outras publicações recentes com textos do autor deste blogue:


-"Nova Águia", Revista de Cultura para o Século XXI, Nº 10 - 2º Semestre 2012, pág. 251.


- "Letras Com Vida", Revista de Literatura, Cultura e Arte, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Nº 4 - 2º Semestre 2012.
.
.

30/10/12

Publicação...


                    " AMADO  AMATO,  antologia de poesia "
 
                    co-coordenação: MARIA DE LURDES GOUVEIA DA COSTA BARATA
 
                    organização      : PEDRO  MIGUEL  SALVADO
 
                    edição               : CÂMARA  MUNICIPAL DE CASTELO BRANCO  (2012)
 
 
 
 
Para comemorar os 500 anos do nascimento de AMATO LUSITANO a Câmara Municipal de Castelo Branco acaba de publicar uma antologia de poesia organizada por Pedro Miguel Salvado e Maria de Lurdes Gouveia da Costa Barata. A referida obra conta com a colaboração dos seguintes escritores de vários países: Albano Martins, alice macedo campos, Alice Spíndola, Alfredo Pérez Alencart, Álvaro Diz, Américo Rrodrigues, Ana Luísa Amaral, António Ramos Rosa, António Salvado, Araceli Saguillo, Astrid Cabral, Aurelino Costa, Carlos Nejar, Carlos Vaz, Conceição Riachos, Daniel Abrunheiro, Eddy Chambino, Eduardo Aroso, E. M. de Melo e Castro, Fernando Aguiar, Fernando Diaz San Miguel, Fernando Grade, gabriela rocha martins, Gisela Ramos Rosa, Graça Pires, Hendrick Van Noort, Isabel Leonor Salvado, Ivan Junqueira, Jesus Fonseca Escartín, Jesús Losada, João Camilo, joão-maria nabais, João Rasteiro, João de Sousa Teixeira, Joaquim Simões, Jorge Fragoso, Jorge Velhote, José Antunes Ribeiro, José do Carmo Francisco, José Emílio-Nelson, José Maria Muñoz Quiros, José Miguel Santolaya Silva, Leocádia Regalo, Luís-Cláudio Ribeiro, Luís Frayle Delgado, manuel a. domingos, Manuel António Pina, Manuel Silva-Terra, Margalit Matitiahu, Maria Estela Guedes, Maria José Leal, Maria de Lourdes Hortas, Maria de Lurdes Gouveia Barata, Maria do Sameiro Barroso, Maria Toscano, Mário Hélio, Miguel de Carvalho, Nicolau Saião, Orlando Jorge Figeiredo, Óscar Rodrigues, Paulo Jorge Brito e Abreu, Pedro Outono, Pompeu Miguel Martins, Porfírio Al Brandão, Raúl Vacas, Rui Almeida, Ruy Ventura, Sandra Guerreiro, Sara Canelhas, Stefaania di Leo, Stella Leonardos, Sylvia Beirute, Tiago Nené, Tiago Veiga, Verónica Amar e Victor Oliveira Mateus.
.
.

29/10/12

" Hága-se hoy en mí tu transparencia,/ sea yo en tu claridad. "


 ( Poema II do ciclo " Versos Amebeos " )


He aquí que, tras la noche,
llegas, día.
Golpea hoy con tu gran aldaba de luz mi pecho,
entra con todo tu espacio azul en mi corazón ensombrecido.
Que levanten el vuelo los pájaros dormidos en mi alma,
que llenen con su alegre griterío la mañana del mundo,
de mi mundo cerrado
los domingos y fiestas de guardar
secretos indecibles.

Hágase hoy en mí tu transparencia,
sea yo en tu claridad.
Y todo vuelva a ser igual que entonces,
cuando tu llegada
no era el final del sueño,
sino su deslumbrante epifanía.

   González, Ángel. Otoños y Otras Luces. Barcelona: Tusquets Editores, 2001, p 73.
.

27/10/12

" Qué lejos siempre entonces ya de todo,/ incluso de mí mismo; "


   " Aquí o Allí "

Quién es el que está aquí, y dónde:
dentro o fuera?

Soy yo el que siente y el que da sentido
al mundo?
O es el secreto corazón del mundo
- remoto, inaccesible -
el que me da sentido a mí?

Qué lejos siempre entonces ya de todo,
incluso de mí mismo;
qué solo y qué perdido yo,
aquí o allí.


   González, Ángel. Otoños y Otras Luces. Barcelona: Tusquets Editores, 2001, p 23.
.

26/10/12

"o homem brinca de deus quando teima. ele se consome de porquês e se fabrica problemas."


                                                     " Os Nomes do Mar "
 
o mar cria seus próprios cavalos e torna-se pedra quando muito gelado. ele não conhece flor nem fogo e mesmo assim pode queimaduras e adornos. tem enguias e mães d'água, corais e algas. o seu chão constela-se de esponjas e anêmonas. o mar é pródigo em estrelas e proventos. mas não tem galhos para os pássaros nem cabelos para os afogados. o mar é um cofre de naufrágios. no seu fundo caminham escafandristas. entre moreias e meros seus sapatos levitam. o mar é duro e delicado como a carapaça de um crustáceo. em suas angras ele brinca de aquário. ele é aéreo nas nuvens e seu humor sujeita-se à lua. o mar arrasta ou empurra. e seus abismos devoram muitas âncoras. são os brincos que Iemanjá reclama. na praia a onda lambe a areia mas nunca há ânsia. o plâncton escoa na garganta e o píer é um palito que por ela avança. e se um farol a ilumina, ei-la sem amídalas. o mar é inteiro boca e saliva. e nunca cospe, apenas engole. quem pensa em ressaca o enxerga de fora. ou acredita em mentiras. o mar exige sorte além de perícia. o mar salga e salva. seu imenso é um cemitério de almas. o mar não se cala quando quer, por isso é bem maior que o céu. ele dá a volta ao mundo sem andar em círculos e move as nadadeiras do pensamento perdido. o mar pode ser lindo e sinistro. solares e umbrívagos são seus caminhos. e eles recolhem muita espuma pelas bordas. o mar é imêmore e guarda todas as horas. e só chega à costa para que alguém possa vê-lo. o homem que o vê é um peixe seco. de ar e sangue, e sem guelras. o homem é igual ao mar, concebe e faz guerras. deus separou a porção seca do mar e pôs o homem a viver nela. a terra separa as águas como a vontade faz com os homens. há nela duas árvores: a do conhecimento e a da vida. a lei é que certas frutas vermelhas são interditas. para ir de um lado a outro o homem tem pés. para atravessar o mar, navios e Moisés. em terra o homem é o lobo do homem. já o lobo marinho é bem mais tranquilo. é mimoso feito um ouriço recém-nascido e quando cresce não promete espinhos. frente ao mar o homem tem arroubos divinos: caminhar  sobre as águas, multiplicar os peixes. mas sua vida terrestre é de carne e leite. o homem brinca de deus quando teima. ele se consome de porquês e se fabrica problemas. o homem brinca de deus mas vive no tempo. e no mar ele nomeia seus medos: mar morto, mar negro, mar vermelho. o homem é água e enredo.
 
  Gonçalves, Marcus Fabiano. Arame Falado. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2012, pp 54 - 55.
.

24/10/12

Tertúlia...

           António José Borges, Victor Oliveira Mateus, Maria Teresa Horta e Miguel Real.


O Blogue da "Alagamares" acabou de publicar uma reportagem fotográfica com a sessão do passado dia 20, em Sintra, dedicada à obra de Maria Teresa Horta. Nessa notícia são referidos os temas abordados pelos quatro autores. Agradecemos o destaque dado ao referido acontecimento.
.
.

" aquela era a pedra do meio do caminho/ a opalescente reluzência da coisa mítica "



 "  A Perda no Meio do Caminho "

tinha uma pedra no meio do caminho
e lhes digo que nada tinha de empecilho

digo mais: parecia inclusive preciosa
nada do tijolo carcomido da memória
ou da mão fragosa na brita rude da caliça

aquela era a pedra do meio do caminho
a opalescente reluzência da coisa mítica

paralisado entre a pedra e meu caminho
eu a apanhei no escuro do beco, luzindo

e pichada no muro, uma queixa de amor:
o anel que tu me deste era vidro e se quebrou.

 Gonçalves, Marcus Fabiano. Arame Falado. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012, p 17.
.

22/10/12

"(...) que leva Valéry a deslizar subtilmente para uma valorização das relações entre as sílabas..."


(...) recordando também um ensaio de Paul Valéry, no qual o escritor reproduz e comenta, com evidente anuência, a resposta dada por Mallarmé a Degas quando o pintor lhe confidenciou as dificuldades que experimentava ao enveredar pela expressão poética. De acordo com Valéry, Degas, que também se sentia atraído pela poesia e gostava de escrever versos, teria dado conta ao amigo das limitações com que se debatia nesse outro domínio da criação, classificando a poesia de "ofício infernal". E acrescentara: "Eu não consigo fazer o que quero e, no entanto, estou cheio de ideias". Ao que Mallarmé terá respondido: "Os versos, meu caro Degas, de modo algum se fazem com ideias. Fazem-se com palavras".
Pelo contexto em que é recordado este pequeno diálogo que o relato de Valéry iria imortalizar, é fácil compreender que ele serve como argumento para legitimar a concepção valeriana de linguagem poética e muito particularmente para reforçar a convicção, cara ao poeticista, de que esta constrói uma relação de indissolubilidade entre som e sentido. No entanto, Valéry também reconhece que essa relação não é perceptível num plano estritamente lexical e, entendendo que "a função do poeta é a de nos dar a sensação da íntima união entre a palavra e o espírito", irá relacionar este facto, alguns parágrafos adiante, com o modo como, no verso, as palavras agem sobre o leitor à maneira de "um acorde musical".
Tudo isto é bastante conhecido, tanto mais que as teses de Valéry viriam a ter fortes repercussões no desenvolvimento das poéticas e dos estudos de poética no século XX. Mas há, nesse ensaio, um aspecto que importa muito para o que pretendo dizer. É que o poeticista parece não poder explicar o que entende por esta aproximação entre o funcionamento do verso e o de um "acorde musical" sem transitar da palavra, valorizada por Mallarmé na frase que antes citara, para a sílaba. Se bem que Valéry comece por transcrever dois versos de Baudelaire (...) para dizer que "estas palavras" agem sobre o leitor sem lhe transmitirem muito em termos puramente informativos, a sua exposição evolui de tal maneira que o conceito de palavra é subitamente abandonado, sem qualquer justificação, e substituído pelo de sílaba - ainda na mesma frase -, concluindo o poeticista que "(a) impressão (provocada pelos versos de Baudelaire) depende em grande parte da ressonância, do ritmo, do número desta sílabas", e acrescentando que "resulta também da simples aproximação das significações".
Como devemos entender este deslize semântico que Valéry não só não explica como parece não querer sequer notar, já que a expressão "estas sílabas" surge como equivalente absoluto de um antecedente que era "estas palavras"? Creio que a relação de equivalência assim criada constitui uma explicitação interpretativa da afirmação de Mallarmé anteriormente citada, porquanto o que o poeta contrapunha às "ideias" de Degas era, na verdade, o que Valéry viria a chamar a indissolubilidade entre som e sentido. E é também a profunda consciência deste facto que leva Valéry a deslizar subtilmente para uma valorização das relações entre as sílabas, pois só elas criam entre si nexos - "ligações (racords) - relações (rapports)", como diria Mallarmé - que são aproximáveis de um acorde musical. Acorde que, neste caso, é essencialmente um acordo, uma consonância que pode autonomizar-se das palavras (embora sem deixar de implicá-las nesse movimento) para se situar no plano da organização integral do discurso, isto é, para se distribuir por todos os níveis de significância em que este se organiza - e daí também a referência de Valéry à "simples aproximação das significações".

    Martelo, Rosa Maria. A Forma Informe: leituras de poesia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp 23-25-
.

19/10/12

Tertúlia em torno da obra de Maria Teresa Horta.


Dia 20, pelas 20h00, no "Legendary Café" em Sintra.

Intervenções de Maria Teresa Horta, Miguel Real, Victor Oliveira Mateus e António José Borges.

Entrada Livre.
.
.

18/10/12

"(...) deixar umas pegadas em vias de se apagarem numa vereda inúmeras vezes percorrida por outros..."


O poeta não tem para a poesia mais do que as palavras dos outros ou as palavras de outrem. Até porque não há outras. Há quem viva mal com isso, mas de facto nenhum de nós inventa a língua em que fala/ escreve. A língua que é matéria de que somos feitos, mediação e instrumentação do corpo-&-alma em que possuímos ou perdemos a verdade é a língua de outros que falam tumultuosamente dentro de nós e esperam que lhes falemos deles. (...) Imaginemos o que pode ser uma outra forma para este problema: imaginemos, com Francis Ponge, que "tudo se passa connosco (com os poetas), como com pintores que não tivessem à sua disposição para mergulharem os seus pincéis senão um mesmo e imenso balde onde desde a noite dos tempos todos tivessem tido que lavar as suas cores..." (...)
Para alguns de nós a poesia tem muitas moradas, ou nenhuma que lhe seja própria, pois seria nómada; ou o problema seria ainda outro - haveria poetas e poemas mas não haveria, como um sol imóvel, a poesia. Para outros ainda - e reconheça-se de uma vez que são diferentes as famílias e que as próprias semelhanças de família supõem uma diferença - a poesia só parece possível depois de uma experiência da sua impossibilidade, de uma ameaça de afasia, ou de pensarmos que a tínhamos perdido. Ou quando uma grande ilusão ou uma pequena mania obstinadamente nos conduzem e vencem, na iminência do início ou do recomeço, essa hesitação entre o peso do que já foi escrito e a hipótese arriscada de um outro possível, entre o que há de exigência na compulsão e o que há de cegueira na premeditação. E, então, quando na contingência e na obstinação, ela (a poesia) retorna ou insiste, o poema pode acender-se no brilho cego de uma absoluta necessidade, ou no estremecer de uma certeza sem garantias.
- Insistamos nesse limite: nenhum de nós inventa a língua em que escreve o poema; podemos apenas reconfigurá-la, desfigurá-la um pouco, estranhá-la ou fazer com que os outros a estranhem ou simplesmente que reparem num ritmo, num pequeno sistema de ecos, numa imagem que emenda uma recordação ou surge inventada e evidente.
- Quando conseguimos, há algo, uma coisa do mundo, que muda de forma. Ou de figura.
Podemos abrir um caminho no corpo amoroso e rebelde dessa língua, deixar umas pegadas em vias de se apagarem numa vereda inúmeras vezes percorrida por outros, escrever uns graffitti com tinta invisível nas paredes que uma cidade nos recusa, suscitar um ou outro encontro, por vezes, entre gente que nem sequer conhecemos. É certo que quando alguns conseguem o que a poesia promete a impressão que temos é a de que a linguagem está "em estado de nascimento" e nós, com ela, é como se recomeçássemos, ou como se de novo nos viesse alucinar a reclamação do direito a viver várias vidas numa só vida mortal, que foi um dos desejos de Rimbaud.
(...) Ora, de certa maneira, esse perpétuo nascimento da linguagem está inscrito no haver linguagem. O que a poesia faz não é mais do que inventar, a partir da comum faculdade de linguagem, ou da língua comum que supõe uma comunidade multiplamente clivada. Quando o poeta escreve (e são sempre pelo menos dois a escrever o que ele escreve), o que acontece ou pode acontecer é isso mesmo: a linguagem a repetir a sua origem, ou seja a funcionar. A experiência que fazemos da poesia é, assim, e de uma origem perpétua, ou seja, a de uma origem que se repete, segundo a diferença da história.
Essa experiência da linguagem, esse pensamento por figuras, a que chamamos poesia, pode abrir-se sobre a experiência do mundo ou ser ela mesma uma forma dessa experiência. Incomensurável embora, também o mundo é imaginável como uma tal origem.

    Gusmão, Manuel. Tatuagem & Palimpsesto: da poesia em alguns poetas e poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp 13 - 15.
.

16/10/12



  " Coração Partido  "


Dizer da paixão mais do que o sangue
mais do que o fogo
trazido ao coração

Mais do que o golpe furtivo já ardendo
revolvendo na sede
a ponta de um arpão

Dizer da febre sem fé
do animal feroz
dos líquenes abertos e dos lírios

Dizer desassossego
sem razão
da raiva silvando no delírio

Dizer do prazer o meu gemido
no quanto é ambígua esta prisão
a deixar-me livre no que sinto
e logo envenenada à tua mão

  Horta, Maria Teresa. As Palavras do Corpo. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2012, p 269.
.

14/10/12


    " Joelho "


Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fossem
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas

   Horta, Maria Teresa. As Palavras do Corpo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2012, pp 196 - 197.
.

12/10/12

Convite.



A "Coleção Meia Lua" é uma iniciativa da Editora Lua de Marfim que visa publicar duas dezenas

de livros de outros tantos autores. Encontram-se já à venda as obras de Agripina Costa Marques,

Amadeu Baptista e Maria Teresa Dias Furtado. O lançamento de amanhã, referido no convite acima,

insere-se nesta dinâmica da Lua de Marfim.


( Nota - estou grato a esta Editora pela sua decisão de me incluir na lista de autores a publicar na "Coleção Meia Lua"! )
.

11/10/12

O Prémio Nobel da Literatura de 2012...


... foi atribuido ao escritor chinês Mo Yan. Nascido em 1955 na província de Shandong, Mo Yan viveu uma juventude marcada pela privação e teve uma escolaridade complicada interrompida subitamente pela Revolução Cultural. Este autor é por vezes acusado de não apoiar a dissidência, não se demarcando o suficiente do governo, contudo é sua a afirmação de "que um escritor deve expressar críticas e a sua indignação com o lado obscruro da sociedade e da feiúra da natureza humana".
.
 

09/10/12

Acerca de uma conversa...



 De três apontamentos a lápis que Oliveira Martins inseriu neste lugar acerca da suposta tentativa de envenenamento de D. João II em Évora, no ano de 1490, parece inferir-se que o seu espírito se inclinava a reconhecer-lhe a existência, o que aliás ele indica também, e de modo mais explícito, comentando o material coligido para o capítulo XII, em que teria de referir a morte do Rei em Alvor. Menciona o passeio à herdade da Fonte Coberta, situada a meia légua de Évora. Indica "a vingança, o natural desejo de libertação do jugo, como móbil do crime". O rei visitara a sua fonte predilecta e aí bebera um púcaro de água. Regressando a Évora logo sentira vómitos, enfartamento e laxidão intestinal. Medicaram-no e melhorou.
Passados dias sofrera novo insulto de que chegou a recobrar-se, mas saúde nunca mais tivera.
"Três fidalgos que haviam bebido da mesma água todos morreram de iguais ânsias e disenteria." (Nota a lápis de Oliveira Martins).
Oliveira Martins recorda também o que escrevera D. Agostinho Manuel afirmando: "(...) que D. Manuel duque de Beja, irmão da Rainha e do duque de Viseu, nas festas de Évora fora desconsiderado pelo rei seu cunhado, que o não extremou dos demais fidalgos, quando ele era o segundo herdeiro presuntivo do trono; e que estava a pé, como criado, atrás da princesa noiva, e que tudo sofreu com paciência e medo, lembrando-se do trágico fim de seu irmão."
Lembra igualmente a opinião de Camilo, que nos seus Narcóticos sugere a ideia "de que o envenenamento tivesse sido praticado por ordem ou indicação de quem humanamente mais tinha a lucrar com ele", e por fim parece querer lançar suspeita sobre o médico de D. João II. João da Paz, acerca do qual "os cronistas do Rei não falam, mas que vivia na intimidade dos irmãos do assassinado Duque de Viseu". (Nota a lápis de Oliveira Martins).

  Martins, Oliveira. O Príncipe Perfeito. Lisboa: Guimarães Editores, 1984, pp CXX - CXXI.

(...) D. Álvaro de Portugal e D. Francisco de Almeida, intrigavam em Portugal a favor de D. Manuel e alimentavam o espírito de vingança e de rebeldia da nobreza contra D. João II. Ressentido este, recorreu mais uma vez ao antigo expediente de redobrar de atenções e pôr em evidência a Excelente Senhora, dirigindo-se de Torres Vedras a Santarém com o fim de visitá-la, e procedendo nessa viagem com precipitação tal, que dera azo aos mais variados juízos e aventurosas suposições.
Aproximava-se no entanto, e a passos rápidos, o desfecho. A rainha D. Leonor não se demovia (...) Prosseguia a doença do Rei sem alternativas. Permitiu-lhe uma destas dar à esposa uma demonstração de afecto, seguindo em uma só noite de Alcochete, onde estava, para Setúbal, apenas tivera notícia de que a soberana enfermara gravemente naquela vila. Ali foi encontrar a infanta D. Beatriz, mãe da Rainha, e o Duque de Beja, e com ambos partilhou os desvelos e cuidados pela enferma.
Em fins de 1494 era já tamanho o enfraquecimento do Rei que lhe não consentia assinar o despacho, e as suspeitas de envenenamento tornaram por isso a acentuar-se mais e mais (...) A hipótese do envenenamento seria aqui discutida largamente, e, como já tivemos ocasião de o expor, pode afirmar-se que para ela propendia o ânimo de Oliveira Martins. As razões políticas que imperavam na mente da família e dos partidários de D. Manuel, as práticas do tempo, os próprios sintomas das sucessivas enfermidades do Rei, tudo o dispunha a crer que, por duas vezes pelo menos, a arma traiçoeira do veneno fora vibrada para resolver tão intrincada situação política, afastando de vez um obstáculo aliás invencível, e vingando na pessoa do Rei as mortes de tantos Príncipes e de fidalgos tão ilustres.
Coligindo diligentemente quanto em Resende , em Rui de Pina, em Damião de Góis e em Vasconcellos, se encontra disperso sobre os sintomas que acompanharam a enfermidade e morte de D. João II, Oliveira Martins consultou acerca de assunto tão espinhoso, mas tão palpitante de interesse, o dr. Manuel Bento de Sousa. Por mais de um motivo julgamos dever consignar aqui a opinião exarada pelo doutíssimo clínico (...) São duas cartas do dr. Manuel Bento de Sousa dirigidas a Oliveira Martins sobre o assunto (...):
(...) D. João II adoece de repente com sintomas de envenenamento, ânsias, vómitos e outros fluxos. Adoecem na mesma ocasião três familiares seus, com os mesmos sintomas, e morrem soltos. Levanta-se então a suspeita da peçonha, e o mesmo rei a tem. Este salva-se, mas dentro de quatro anos repetem-se os sintomas várias vezes - isto é: novas doses de veneno, a que por fim sucumbe.
O cadáver, tornado um armazém de arsénico, ou qualquer metal de semelhante acção, conserva-se incorrupto por este embalsamamento, e desenterrado em tempo de D. Sebastião, e, se não me engano, ainda outra vez mais tarde, aparece sempre inteiro.
Proclama o povo que o rei foi santo, e por duas razões o foi - por estar inteiro e por fazer milagres. Curiosa evidência! Os milagres consistiam em se curarem maleitas com a terra da sua sepultura, sendo hoje de todos sabida a poderosa virtude do arsénico contra sezões
Esta demonstração muito boa à l'usage des gens du monde, tem só um defeito: desfaz-se toda em um médico lhe tocando.
Os sintomas da doença são comuns a outras moléstias, e podem muito bem ser os de uma simples indigestão, e muitas indigestões devia haver naqueles banquetes das festas do casamento do Príncipe onde foi tal a comezaina(...) Depois, o arsénico, se alguma vez tem determinado a conservação post mortem dos corpos envenenados, tem sido por excepção. Não só, na grande maioria, apodrecem os mortos por veneno, mas há fora do envenenamento outras condições, que mais e muito facilitam a conservação.
O milagre da cura das maleitas também ao arsénio não pode ser atribuído. Por muito tóxico, que no corpo do rei houvesse, não podia ele existir na terra da sepultura, visto que na terra se não desfizera o cadáver.
Aquela demonstração não tem portanto valor dentro da medicina, mas tem-na fora dela, uma vez que haja o cuidado de peneirar as provas, para ficar com as boas, deitando fora as que não prestam.
Assim, pois, digo eu D. João II foi envenenado, fundando-me nos seguintes argumentos:
1º Considerando os factos, as pessoas e a época, deve ter-se dado o envenenamento (...) Os ódios abrasavam os parentes, as ambições separavam os mais chegados, e no mesmo paço rei e rainha, defendendo interesses opostos do seu sangue, a tal ponto se aborreceram que a rainha ainda foi mais dura do que o rei. Quando a rainha esteve às portas da morte em Setúbal, o marido correu para junto dela, mas quando o rei caiu para sempre em Alvor, a esposa não apareceu à sua cabeceira
(...)Numa luta assim, o veneno não podia ser para eles uma torpeza. Era um meio como outros, superior ao punhal por ser mais secreto...
2º Os sintomas e outras circunstâncias do primeiro ataque da última doença, levam a acreditar no envenenamento. Os sintomas, disse eu, podiam  até ser de uma indigestão. É certo, mas certo é também, que sendo quatro os casos, e havendo três mortos, são mortos de mais para indigestões. Do mesmo modo, quatro casos de ânsias, vómitos e outros fluxos, dando três mortes, e não sendo seguidos de outros casos e outras mortes no séquito real, são de menos para uma epidemia, são de mais para doença esporádica, e são bastantes para envenenamento.3º (...) A descrição dos últimos sofrimentos, embora lacónica, é suficiente para se ver que o rei sucumbiu a uma anasarca com perturbações cardíacas. A acção do arsénico, e análogos, em doses lentas ou repetidas, causa a degeneração gorda do coração e outras vísceras, sobrevindo-lhe a anasarca.
4º Sucessos posteriores à morte de D. João II reforçam a hipótese de envenenamento.
Falecido D. João II, D. Manuel, com desprezo de uma das cláusulas testamentárias de seu cunhado, chamou ao reino os desterrados, engrandeceu-os, e fez mercês a diversos, entre os quais aparece nobilitado um judeu suspeito, de cuja família Camilo Castelo Branco se ocupa largamente, dando em comprovação do envenenamento um argumento, que de entre todos fixei por importante.
(...) Ora este mestre João, mestre de D.João II, que foi o seu padrinho de baptismo e na pia lhe deu o seu nome, não figura entre os assistentes de D. João II, está ao serviço da rainha e vê-se mais tarde, que tem correspondências melindrosas com altos personagens, mas vive sempre obscuro, até que de repente o sucessor de D. João II o nobilita, mal sobe ao trono, institui-lhe morgado, dá-lhe o apelido de Paz (...) Nota Camilo, e com razão, que D. Manuel, apesar de encher o mestre João da Paz de tantos favores e proteger-lhe os filhos todos, não o quisesse contudo para o seu serviço, sendo também muito notável, acrescento eu, que pelo contrário para o seu serviço quisesse a outros servidores do seu antecessor e primeiro que todos a Antão Faria, o mais querido confidente de D. João II (...) Quer-me parecer que D. Manuel distinguia assim entre o médico devasso e judeu desleal que se prestara a ser o técnico do envenenamento, ao qual devia o trono, e o servidor honrado (...) Eis as razões, que me levam a acreditar no envenenamento e a suspeitar de mestre João da Paz. Estas razões, está bem de ver tiram o maior valor do seu conjunto. De V.Exa. M. Bento de Sousa.
 A atitude de D. Manuel, se por um lado encontra explicação no receio e na prudência, por outro não deixa de tornar-se suspeitosa. Analisá-la-ia Oliveira Martins traçando aqui um perfil do Rei Venturoso  (...) sem que provavelmente, a memória desse soberano houvesse muito a ganhar ao ser reavivada pelo seu novo biógrafo.

   Martins, Oliveira. O Príncipe Perfeito. Lisboa: Guimarães Editores, 1984, pp CLIX - CLXV.

Nota -
a) este poste vem na sequência de uma conversa havida no Face e onde eu cometi uma imprecisão: quando João II está agonizando é este que chama a mulher e o cunhado (e primo) ao Alvor. Não é a rainha que chama João II! O meu erro deve-se ao facto de ter lido as Crónicas de Garcia de Resende e de Rui de Pina há muito muito tempo e, como é óbvio, haver muita coisa de que já não me recordo.
b) esta obra de Oliveira Martins é, como se sabe, um conjunto desarticulado de notas, cartas e excertos posteriormente organizados, pois o escritor nunca chegou a concluir o livro.
c) neste texto existem também algumas passagens que me levam a suspeitar que o príncipe herdeiro (o infante D. Afonso) foi também assassinado, mas são exactamente os mesmos excertos que eu já lera em Garcia de Resende e que continuo a achar muito estranhos: a troca da mula pelo ginete, o facto deste se ter espantado com o que lhe apareceu subitamente à frente e, sobretudo, o interesse que os partidários do futuro D. Manuel teriam na morte do herdeiro do trono, mas isto são apenas intuições de quem desconfia de rancores antigos, de sede de vinganças e dos interesses que estavam ali em jogo.
d) Nestas páginas há também uma segunda carta de Bento de Sousa para Oliveira Martins onde se fala da figura de João da Paz, distinguindo-o de outras personagens com nomes semelhantes que existiram nesse momento histórico e refere-se a uma eventual confusão feita por Camilo Castelo Branco acerca deste tópico, mas não me parece importante, para o assunto, falar disso aqui no poste.
.




08/10/12

De um texto anónimo do século XIX.



(...) mas quando, e onde se terá visto, que por evitar um perigo duvidoso, ou imaginário, se recorra a uma ruína certa e real? Pode-se assegurar, que Portugal, por evitar a sua perda, se perdeu miseràvelmente, pois os Ingleses, com pretexto de proteger aquele reino, o privaram, e privam do seu comércio, e da sua indústria, tiraram-lhe, e tiram as suas riquezas, destruiram-lhe, e destroem-lhe os seus exércitos, e aniquilaram-lhe, e aniquilam a sua marinha. Que maiores males lhes poderia fazer o inimigo? Ainda que Portugal tivesse tornado a entrar em poder da Espanha, teria perdido tanto o seu estado-político?
Quando um governo se apodera das riquezas de outro, tendo-o na mais absoluta dependência das coisas fisicamente necessárias, não sòmente perde quanto se tem insinuado, mas também a liberdade civil, que só existe no nome; e assim pois teria sido melhor para Portugal tê-lo qualquer potência conquistado com as armas, porque neste caso só teria pensado nos meios de romper, e libertar-se das cadeias, em vez que no outro não faz mais que arrastá-las, e suportar o seu peso com paciência.
Está cheia a história de nações que sacudiram o jugo dos que a conquistaram à força das armas; mas quase nunca se viu sair uma nação daquela espécie de escravidão em que a pôs outra destruindo as suas artes e o seu comércio, porque tendo-lhe tirado as suas riquezas lhe cortou o nervo do seu poder civil, e político.

  Castro, Armando. A Dominação Inglesa em Portugal com 3 textos do séc. XIX em antologia. Porto: Edições Afrontamento, 1974, pp 69 - 70.

Nota - foi mantida a grafia da edição.
.

07/10/12

"Il y auras tout au tour de nous/ Les cerfs-volants qui planent "


.

 " Les cerfs volants "

A mesure que le temps passe
Je mesure le temps qui passe
Et tandis que l'eau s'étend
Jusqu' à l'autre bout de l'étang
Je regarde l'aube claire
S'allonger sur les conifères
A l'aulne à l' orée du jour
Le solei sera de retour
En dépit des années noires
Des années folles
Des heures de gloire
A la lisière du torrent
J'irai m'asseoir sur un banc
On ira faire un tour de barque
On ira déjeuner au parc
On s'embrassera dans le cou
Il y aura tout au tour de nous
Les cerfs-volants qui planent
Quelques amants qui flânent
Un petit vent
Les parasols
Plantés dans le sol
Il y a longtemps

      Benjamin Biolay

06/10/12

Realidade e efabulações...


.
Nada vende melhor, em arte, do que um enredo fantasiado com alguma pitada de sexualidades heterodoxas: excita a curiosidade, sanciona processos de transferência que a nossa cobardia muitas vezes não permite a nós próprios.Assim,em "Les adieux à la reine" (Adeus, minha rainha), realizado por Benoît Jacquot, fala-se do relacionamento da rainha Maria Antonieta (Diane Kruger) com a Duquesa de Polignac (Virginie Ledoyen), relacionamento esse fortemente sexualizado e observado, com algum ciúme, pela camareira Sidonie Laborde (Léa Seydoux). Enfim, é a estafada estória que o fascínio, a admiração e a sedução entre seres do mesmo sexo tem de ter necessariamente um rótulo invulgar. Aliás, quando estava a ver o filme lembrei-me de uma passagem da "Crónica de D. João II" escrita por Garcia de Resende - obra que li há muitos anos!- e onde o próprio Garcia de Resende afirma que tinha tal intimidade com o rei que era a única pessoa que não precisava de bater à porta dos aposentos reais... pensei eu então: qualquer dia aparece aí um filme também a falar desses dois! Conclusão: esta hiperbolização do tema deixou-me já de pé atrás em relação ao filme, acresce depois que a nível técnico ele deixou-me também muito a desejar: a intriga arrasta-se, planos que se repetem desnecessariamente e, por vezes, senti mesmo a própria câmara tremer. Salva a obra as três grandes interpretações das actrizes em causa, grande parte do argumento de Gilles Taurand, e a fidelidade com que é retratada a decadência de Versalhes ante uma Revolução que desponta.
O filme passa-se entre 14 e 17 de julho de 1789 (incluindo, portanto, a célebre tomada da Bastilha!) e retrata a estupefacção e o pânico da Corte ante os acontecimentos que iam começando a alastrar de Paris a toda a França. Maria Antonieta, desprotegida perante os factos, agarra-se ainda mais à sua favorita, e tudo acontece sob o olhar embevecido, enciumado e algo desejante de Sidonie. É em torno deste triângulo que circula o filme, tendo os aspectos sócio-económicos um papel pouco relevante, apenas na cobiça e no desejo de vingança da criadagem frente ao desnorte dos nobres que abandonam a Corte uns a seguir aos outros. Pouco mais o filme me ofereceu...
É um facto que sabemos que a Duquesa de Polignac era extremamente bela, que suscitou em Versalhes o ódio da aristocracia mais antiga, que Maria Antonieta gastou fortunas para manter a sua favorita, o marido desta e os filhos, que este relacionamento foi mesmo uma das causas que mais ódio viria a trazer sobre a rainha, mas a atracção das duas mulheres não parece ter sido mais do que isso... A família Polignac conseguiria, ainda em 1789, refugiar-se na Suiça (no filme com o auxílio de Sidonie!) e viria a acabar por ter descendentes nalgumas casas reinantes da Europa... uma das avós de Rainier III do Mónaco era uma Polignac. Bem, para mim o filme foi apenas isto! Se me tivessem avisado não o teria ido ver!!!
.

04/10/12

"Por causa das formas de auto-expressão ao alcance das mulheres, a criação artística muitas vezes é sentida como violação... "


  Assim, Anne Sexton associa a sua anatomia feminina à ausência de controlo: na sua revisão feminina de The Waste Land, "Hurry Up Please It's Time"( "Despachem-se, Está na Hora"), Sexton identifica-se com a mulher operária gasta, porque sabe que "Tem tinta mas não pena." Sexton sente que os seus poemas "vertem" dela "como um aborto espontâneo". De uma forma parecida, Frida Kahlo apresenta-se amarrada por cordas vermelhas que não são só as suas veias e raízes, mas também a sua própria arte, é uma pintora cujos trágicos problemas físicos contribuíram para que ela se sentisse ferida, penetrada e ensanguentada.
  Mergulhadas em histórias da nossa própria destruição, histórias em que nos confundimos connosco próprias, como é que podemos, enquanto mulheres, ser criativas? Na história de Dinesen a criatividade da arte feminina sente-se como a destruição do corpo feminino. Por causa das formas de auto-expressão ao alcance das mulheres, a criação artística muitas vezes é sentida como violação, uma reacção tardia à penetração masculina em vez de ser sentida como posse e controlo. (...) Se a criatividade artística é comparada à criatividade biológica, o terror da inspiração para as mulheres é sentido literalmente como o terror de ser penetrada, desflorada, possuída, rasgada, violada - todas estas palavras que ilustram a dor do ser passivo cujos limites estão a ser violentados. De facto, tal como as suas antecessoras do século XIX, as mulheres do século XX muitas vezes descrevem o despertar do seu talento como uma infusão recebida de um mestre masculino em vez da inspiração ou do comércio sexual com uma musa feminina. Este mestre fálico faz com que a escritora sinta que as suas palavras estão a ser exprimidas através dela em vez de por ela. Tal como Mary Elizabeth Coleridge que vê os seus lábios como uma ferida silenciosa, ou Charlotte Bronte, que sofre "duma ferida secreta interna" no momento em que sente "o pulsar da Ambição", ou Emily Dickinson, que é amarrada como a Imperatriz do Calvário em alguns poemas e como o fauno ferido em outros, as mulheres escritoras receiam, muitas vezes, a emergência do seu próprio talento.
(...) O protótipo do século XX desta ansiedade de que a poesia tem origem numa posse ou numa ferida é, claro, Sylvia Plath. Tal como a heroína de Drabble, cuja criatividade é libertada com o nascimento do seu segundo filho, Plath começa Ariel com um poema relativamente jovial sobre dar à luz que parece prometer uma imagem mais positiva da criatividade das mulheres. Mas mesmo aqui, em "Canção Matinal", o nascimento de uma nova manhã parece transformado em pesar e luto, porque a criança é uma "Nova estátua" e os pais "permanecem parados e sem expressão como paredes".(...) Plath só consegue escapar do terror de ter sido criada como objecto (como afirma em "Lady Lázaro", "Sou o teu opus") através da violência auto-infligida ao ver a mancha de sangue escurecendo as ligaduras, provando que está viva. Um sentimento de desamparo total parece inextricavelmente relacionado com a emergência da sua voz...
(...) Adrienne Rich também identifica o sangue com o corpo feminino: "Às vezes todos/ Os orifícios do meu corpo/ vertem sangue. Não sei se/ hei-de fingir que isto é natural." Por outras palavras, Rich está consciente de que mesmo as suas atitudes mais íntimas em relação ao seu próprio sangue foram definidas por vozes masculinas...

  Gubar, Susan. A "Página em branco" e questões acerca da criatividade feminina in "Género, Identidade e Desejo, Antologia crítica do feminismo contemporâneo" (organização: Ana Gabriela Macedo). Lisboa: Edições Cotovia, 2002, pp 114 - 117.
.

02/10/12

" Two roads diverged in a wood, and I -/ I took the one less traveled by,/ And that has made all the difference. "


 " The road not taken "

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I -
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

  Frost, Robert. Antologia de Poesia Anglo-Americana, De Chaucer a Dylan Thomas. Porto: Campo das Letras Editores, 2002, p 394 (Selecção, tradução, prefácio e notas de António Simões).
.

01/10/12

"não há quem se toque// não percebem// voltamos a nós como a casa "


 " sado-musa "

segui a rota do raciocínio até ao beco do teu punho

acordei com a imposição de retribuir

esmurrei-te nesse momento por solidariedade

fiquei com a impressão de que me arrancarias a pele
da ponta dos dedos por te angustiar minha falta de tacto

destruimo-nos em câmara lenta para perpetuar o
momento

estou estático

tenho finalmente contigo um momento etéreo de
privacidade

os nós dos teus dedos apertam-me as bochechas
contra os dentes que cedem rindo com canções de filmes
mudos

tocamo-nos e isso é incomparavelmente bom

há coisas parecidas com abraços que fazemos um ao
outro para nos matarmos

os invejosos tentam apartar-nos

são esses os que odeio

nunca dei sangue na vida

nunca deram nada por mim

escorro vertical vermelho até à calçada

e bebem ervas nos intervalos das pedras

foste procurar um cano oco para me bater em cheio

abro o peito e o coração bate por ti

amo-te

dás-me importância

chamas-me nomes

deixo o ser anónimo

vá    continua que eu invento um pânico que te
alegre

há gente a ver

não percebem

vamos explicar

começamos a explicação

não percebem

fogem

não nos ficam debaixo das botas nem por trás dos
socos

olhamos em volta

não há quem se toque

não percebem

voltamos a nós como a casa

  Negreiros, João. O amor és tu. S. Pedro do Estoril: Edições Saída de Emergência, 2012, pp35 - 37.
.

30/09/12


  " Calçada dos Mestres  "


Três velhas e eu,
na última taberna de Campolide.
Falavam de ir "levantar" os maridos,
o que deles resta.
Mas não estão "capazes":
dois anos debaixo da terra
nem sempre é o bastante.
"O meu João era mais forte do que
o teu" - trabalho de vermes,
apenas. Também "por esta altura
morreu o Joaquim Sapateiro",
recordam. Como se já só
da morte vivessem
( o que não foge demasiado
à verdade geral:
alimentos em preparação - ou cinzas ).

Há quem tenha estado
dez anos debaixo da terra,
antes de poder ser "levantado"
- e há quem nunca tenha estado vivo,
acrescenta o autor destes versos,
condensando a tarde numa garrafa vazia.

Estão a perceber agora
por que é que eu gosto tanto
de tabernas?
( Não respondam; o poema termina aqui,
porque a Dona Joana tem de ir ao oculista. )

   Freitas, Manuel de. A Última Porta. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp 109 - 110.
.

29/09/12


 " 1685 - 1750 "

I

Acabamos sempre assim, esquecidos
ou lembrados entre a poeira de duas datas.
Foram anos, esses, de extrema
devoção à única das artes.
Só é pena que hoje me doa tanto
o testículo direito, a vista cansada
do mundo. Arnstadt, Weimar, Leipzig
- as cidades do Senhor
uniam-se no crime da perfeição
e não há, para isso, palavras.

Como se não bastasse o génio,
povoou a terra de filhos virtuosos:
o inventor da ternura romântica;
o baptista de Amadeus; aquele outro ainda
que a tristeza e o álcool incensaram.
Mas nenhum desses ( ou dos mais )
esteve alguma vez tão próximo do
infigurável absurdo a que chamamos Deus.

II

São dias de extermínio, agora.
O punhal das horas já não
cede ao alaúde nem ao cravo torturado
pela mudez. Repugnam-me simplesmente
estes dias devagar e não sei com que letras
se escreve nunca mais o nome do amor
( deixei de confiar a alma a um celeiro podre ).

Quando a música de um homem assim
não consegue demover-nos da angústia,
percebemos que a vida é morte
- impossíveis os gestos, as fugas, os desejos.

Amanhece e eu não. O sono deixou-se
pousar ao lado do livro que não pude ler
e mesmo o que escrevi sobre a morte,
embora exacto, era afinal aproximativo.
Sou agora plenamente o meu cadáver.
Ofereço-lhe um cigarro, o que sobra
de cerveja, a memória das cantatas
que me salvaram do tédio, do suicídio
e de mim próprio. Talvez seja um sentido,
uma ânsia de dissipação que encontrou
o seu termo moral, espiritual, orgânico.
Não sei.

Todas as palavras se tornaram para o sangue
uma mesma mentira, entre o exorcismo
e a ameaça. No fundo, a dizer havia apenas
isto: a luz que explode na janela
já não encontra nem corpo nem vontade.

  Freitas, Manuel de. A Última Porta. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp 71 - 72.
.

27/09/12

.
  " Roberto Carlos "

Escolhem os meses correctos e praticam
o acasalamento. Assim lhes ordena
a imperiosa vocação de parir - razões de Estado
a iluminarem os corpos. Não têm a culpa,
ou quase a não têm, mas o muito que fedem
- quando fodem e quando não fodem - torna o caso
irrelevante: your body belongs to the state.

São felizes. Ou julgam sê-lo, arrastados
pela funda e negra angústia de quem cumpre
o insucesso dos dias. Felizes,
quero dizer cegos. Quanto vale este feto senil,
a borrar-se agora e no declínio da idade? Dúvidas
que não encontramos em álbuns para bebé
e noutras tristes muletas da memória familiar.
Fraldas contudo gentis deixam sequinho o monstruoso
rabinho tão belo. Fruto podre do amor, um animal
em breve decrépito, a desbaratar os anos
em revistas que no quiosque da esquina
lhe devolvem o flagelo banal da juventude
- e o rabo cada vez menos seco, a ardente frescura da merda.

( Era uma canção de amor, lenta e dolorida
como todas, era o mês economicamente ideal
para acasalar - havia, há sempre, o cio bastante.)

E nisto, serenamente, tem a morte o seu lucro,
enriquecida colheita para a sua gadanha discreta.

  Freitas, Manuel de. A Última Porta. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p 22.
.

25/09/12


Era a minha avó quem matava os coelhos:
dava-lhe dois hábeis socos atrás das orelhas
e nem esperneavam.
Na porta da retrete, num prego saliente,
pendurava-os por uma pata traseira.
Despia-lhes a pele como quem despe uma camisola
e fica com a vida do avesso.
Os gatos a ronronar assediavam as pernas da minha avó.
O rabo alçado, ponto de exclamação.
Num pestanejar estavam abertos e amanhados,
cristos em sangue,
as peles azuladas já a secar no telhado da retrete.

  Assim, Paulo. Fânzeres: Lugar da Palavra Editora, 2011, p 38.
.

Apenas acrescento que ele, o meu pai, sabia
o sítio exacto donde brotavam os gomos do arco-íris:
era de debaixo das laranjeiras onde dormiam os gatos.
Parece inconciliável com as anedotas
travessas de Bocage que contava na taverna,
e no entanto era verdade que, mesmo antes
da chegada do arco-íris, já nós lá estávamos
de mãos estendidas para extorquir, com toda a fé das crianças,
a maior porção de cores e pintarmos um mundo só nosso.

  Assim, Paulo. Mão sobre os olhos. Fânzeres: Lugar da Palavra Editora, 2011, p 18.
.

24/09/12

"(...) la derrota que no pese/ y por todo el horizonte velas extendidas "


    " Se Quisiera "

abrir los ojos cada mañana   seguir
como una gota el océano   como una hoja
la rama del árbol   se quisiera
las sombras como llamas
que se balanceen y cedan ante el peso del tiempo
se quisiera las herbas menos frágiles
el oleaje menos fuerte cuando el corazón voltee
se quisiera las estrellas que se inclinen
en medio del negro intenso   se quisiera la tierra
hermosa como un alba   como el átomo más pequeño
que la habita   se quisiera la esperanza
todavia posible en nuestras manos   sueños
sueños para toda una vida   y la historia del mundo
recomenzando en la luz   justo
esta luz de naciente mañana
se quisiera el camino como un soplo
las campanas por la alegría del alma
se quisiera la tormenta perdida   la derrota que no pese
y por todo el horizonte velas extendidas

  Dorion, Hélène. Revista de Letras Bora Nº 2. Málaga: Agosto 2012, p 23 ( Traducción del francés: José María Lopera ).

Nota - a) a poesia de Hélène Dorion constava já da lista de autores deste blogue; b) o facto de eu ter publicado na Bora Nº 2 trouxe-me também a enorme satisfação de ter ombreado com grandes poetas como é aqui o caso da canadiana Hélène Dorion.
.

23/09/12

" que no sueña,/ ni habla,/ ni respira. "


 " Desahucio "

Se llamaba María, Ana, Luisa
y tenía su casa
muy cerca de la tuya.
Y hace días, muy pocos, que no vive.
Hace días que no sale a la compra,
que no asoma su rostro a la ventana,
que no sueña,
ni habla,
ni respira.
Se ha vencido en el caos de la crisis
al terror del desahucio y del vacío.
Así muren los pobres,
en silencio,
en el gris abandono de sus vidas,
sin conocer el grito de su fuerza,
su protesta en un coro de gargantas.
Y culpo a la avaricia,
a los mercados,
a los que nos gobiernan pese a todo,
de esta muerte.
        Y ya no habrá silencios.


  Miguel, Isabel. Revista de Letras Bora Nº 2. Málaga: Agosto 2012, p 45.
.

22/09/12

.
Surpreendida por um caminho sem tempo,
deixo que a lua se instale em minha pele,
lasciva e húmida. Habito uma ilha suspeita
de servir de abrigo a veleiros perdidos.
E digo: há um mar horizontal na solidão
de uma mulher, com as mãos cansadas
de sulcar distâncias em caminhos de espuma.

 Pires, Graça. Poemas Escolhidos 1990 - 2011. Lisboa: Ed. Autora, 2012, p 94.
.
.
  " Marginalidade "


Subversivamente
o instinto me descomanda.

E a magia inconsciente
do meu corpo
é um jogo clandestino
de gestos sem eco.

Há um ritual divino
nas carícias sensuais
em que me invento.

Nada me torna inocente
dos meus próprios sentidos
quando solto
as linhas marginais
do pensamento
e me seduzo
com gostos proibidos.

Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida num momento.

A solidão é como o vento.

É nos olhos dos mendigos
que a noite se prolonga por mais tempo.

  Pires, Graça. Poemas Escolhidos 1990 - 2011. Lisboa: Ed. Autora, 2012, p 8.
.

21/09/12

" Ou se é livre ou não se é livre. "



  Desde o momento em que o burguês detém um poder político, está alienado e toda a categoria… (…) Não se pode ser “muito mais livre”. Ou se é livre ou não se é livre.(…) É justamente a noção que é preciso tentar definir, que vos proponho que seja definida. Penso que um burguês que em parte tomou os poderes que os nobres detinham e os tenta assimilar não é livre; ele detém um poder sobre os outros, mas deter um poder sobre os outros é, precisamente, a definição da não liberdade. Se deténs poderes sobre os outros, condena-los a não serem livres e concomitantemente condenas-te a não seres livre. (…) Se um homem é livre, isso significa que ele detém um poder, mas este poder não deve ser, em caso algum, um poder de coerção. Numa sociedade cujos membros não tenham a possibilidade de se coagirem mutuamente, dado que são todos igualmente livres, teremos formas de poder que já não são o poder político, burguês ou socialista, tal como nós o conhecemos. É impossível, pois, que haja então nas instituições o que quer que seja contra os indivíduos.

 Sartre, Jean-Paul. Porquê a Revolta? Lisboa: Sá da Costa Editª, 1975, pp 320 – 321.
.

14/09/12



 " Musa "


Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
O canto para todos
Por todos entendido

Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto

Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra

Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava

(Eu me lembro do chão
De madeira lavada
E do seu perfume
Que me atravessava)

Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco

Que eu possa dizer como
A tarde ali tocava
Na mesa e na porta
No espelho e no copo
E como os rodeava

Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva

Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
Para prender o brilho
Dessa manhã polida

Que poisava na duna
Docemente os seus dedos
E caiava as paredes
Da casa limpa e branca

Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta

  Andresen, Sophia de Mello Breyner. Antologia. Lisboa: Moraes Editores, 1975, pp 173 - 174.

.

13/09/12


   É frequentemente a vulnerabilidade dos homens que os leva a preferir uma vida a dois. Ficam tranquilizados; procuram simultaneamente uma mulher "segura", autónoma quanto às despesas e aos filhos, mas também desejam que ela dependa deles afectivamente, de forma a terem a certeza de que ela fique com eles.
   (...)Apesar de não o assumirem claramente, e independentemente da idade, os homens procuram preferencialmente uma mulher "feminina", o que para eles significa muitas vezes sexy, ou seja, sexualmente "boa" (...)
   Para lhes agradar, uma mulher também deve trabalhar. Teoricamente, a maioria dos homens deseja que a mulher tenha um emprego, mas, na prática, continuam a procurar mulheres menos qualificadas ou que desempenham funções menos prestigiosas. Os mais velhos ainda têm a expectativa que a companheira trate da casa e eduque os filhos.
   O esquema de casal tradicional é evidente nos sites de encontros onde alguns homens recentemente viúvos ou divorciados procuram a mulher que poderá substituir a esposa anterior, de forma a reencontrar uma confortável posição social, sair em casal, receber, voltar a ser normal.(...)
   A sociedade continua a preparar os rapazes para ocuparem um papel dominante e não duvidarem do seu poder, mas a realidade encarrega-se rapidamente de lhes demonstrar que esta postura não é sustentável. Todavia, têm dificuldade em aceitá-la, pois foram sendo censurados por revelar momentos de fraqueza e, muitas vezes, a raiva ou o ciúme, as únicas emoções que não aprenderam a controlar, são o único recurso de que dispõem.
   A nossa sociedade sobrevaloriza a eficácia e o sucesso e as próprias mulheres também continuam a aceitar que um homem se revele agressivo em determinadas circunstâncias. Em toda a parte, é preciso ser o melhor, sem olhar a meios para atingir os fins. Com o pretexto da competição, valoriza-se, em certas profissões, o cinismo. E se a mulher tem de ser "feminina", o homem, por seu turno, vê-se obrigado a viver de acordo com os preceitos da virilidade. No entanto, nem sempre é fácil viver com os estereótipos de homens fortes e poderosos e alguns homens apenas conseguem esconder as suas fraquezas pisando quem é mais fraco, nomeadamente a mulher.
(...) Esperam que a mulher, tal como esperavam da mãe, lhes dê amor, atenção e tempo; que ela perceba as suas carências, que esteja disponível só para eles. Porque não são capazes de estar sós depois de uma separação, muitos encontram rapidamente outra mulher e acabam muitas vezes por encontrar uma que, encerrada na armadilha do modelo cultural antigo, o aceitará.

  Hirigoyen, Marie-France. As Novas Solidões. Casal de Cambra: Caleidoscópio Edição, 2011, pp 44-48.
.

12/09/12

A Poesia de Maria João Cantinho!!!


.
Poema:                               MARIA JOÃO CANTINHO

Realização:                         CAROLINA AMARAL

Conceção:                          LUÍSA AMARAL

Texto de apresentação
(no poste anterior e no
Youtube):                          Victor Oliveira Mateus
.

   A poesia de Maria João Cantinho instaura-se nesse solo onde a memória e a procura se interpenetram e entre si dialogam, visando esse outro território  onde a alma nos possa sobejar nesta passagem que somos, e onde o olhar, límpido e de autenticidade cheio, se apreenda como uma outra linguagem a escrever-se no silêncio.
  A simultaneidade com que o resplendor e o justo equilíbrio deste processo metafórico se vai edificando – e onde podemos encontrar aspetos da memória cultural (os anjos de Chagall…), das inquietações metafísicas ( como tudo é sagrado e se renova…) e das partilhas afetivo-passionais  - faz-nos intuir que a poesia de Maria João Cantinho transporta no seu seio uma intenção abrangente, derradeira e marcada por um certa visão esperançosa do real, isto é, que a casa do humano possa ainda vir a recuperar vida por entre os escombros da memória.

                                                                  Victor  Oliveira  Mateus   
.

"(...) esta dupla ênfase na materialidade do texto e na textualidade da matéria (...) que permite relacionar as duas rupturas de 60 aqui traçadas. "


   Se entre Florbela Espanca e Sophia de Mello Breyner Andresen, consideradas, enquanto escritoras mulheres, em função dos respectivos papéis que desempenharam na vida literária e cultural portuguesa, se podia postular a diferença de uma época, uma ruptura igualmente epocal permitirá distinguir a actividade literária feminina com raízes nos anos 50 e 60 do século passado daquela que se situara nas décadas (e nos séculos) anteriores. Como notou Maria de Lourdes Belchior (citada por Isabel Allegro de Magalhães), "Um fenómeno, entre outros, parecia caracterizar, de certo modo, a literatura portuguesa das décadas 50 e 60: a presença, nos arrais das letras, da mulher como autor". Ou, melhor dizendo, de mulheres como autoras, já que é precisamente a pluralização do fenómeno, estabelecido historicamente como excepcional e singular (em todos os sentidos), da participação literária feminina, e o facto de esta participação ser apreendida como existindo em pé de igualdade com a masculina, que marcam diferentemente a segunda metade do século vinte, introduzindo na paisagem cultural "o que por ausência maciça nunca (nela) houve e, de repente, passou a haver, com suspeita e suspeitada abundância" (Lourenço 1977, 10).
   Não é, no entanto, com esta transformação sócio-cultural que se costuma associar a expressão "a ruptura de 60" no discurso histórico-literário português: ela tem vindo a designar um período de renovação autoconsciente da teoria e prática do discurso poético em Portugal. O significado desta renovação, que se baseou sobretudo na actividade de dois grupos, ou movimentos, que surgiram na primeira metade dos anos 60 - Poesia 61 e o Experimentalismo - assim chegaria a ser resumido por um dos animadores principais, E.M. de Melo e Castro:
"Esta ruptura de 60 pode dizer-se que consistiu numa mudança radical da posição do poeta perante os seus instrumentos de trabalho: a escrita, a linguagem. A poesia não é agora mais instrumento, nem retórico nem ideológico nem moral. A poesia, por outro lado, não é mais sentimento nem sentimentalismo. A poesia não narra, não serve, nem é mais discursiva. A poesia substantiva-se. É uma operação linguística que tem como meio a escrita e como objectivo a sua própria renovação. (1980, 75)
   Nas considerações posteriores dos movimentos poéticos dos anos 60 tem-se destacado precisamente a sua "acentuada inflexão para a materialidade do texto, para a exploração das possibilidades criativas do universo linguístico visto na sua autonomia" (Martins, 1986, 81). Entretanto, a imagem do extremo ensimesmamento da construção poética, pintada por Melo e Castro numa representação ilustrativa do vanguardismo autoconsciente do projecto, não se manteria inteiramente fiel à pureza radical dos seus postulados. Conforme sublinhou Eduardo Prado Coelho, na ocasião do décimo aniversário de Poesia 61, o itinerário do grupo poderia ser resumido  como "a passagem dum formalismo desesperado (...) para uma articulação mais reflectida e estruturada das relações entre a palavra como o signo da história e história como produção de palavras". Também Manuel Frias Martins observa que "a especificidade do novo" nos movimentos poéticos dos anos sessenta se valida menos pela aderência às suas bases programáticas explícitas, concentradas nos aspectos formais - a "preocupação com a linguagem", com o "rigor vocabular", com a "depuração discursiva" - do que por uma "consciência cultural que ultrapassa a preocupação finalista com a linguagem para configurar o poema com o espaço vital por que o real e a experiência tomam verdadeiramente sentido" (82; sublinhados originais).
   É precisamente esta dupla ênfase na materialidade do texto e na textualidade da matéria, ou, por outras palavras, na maleabilidade poética do logos implicado na construção da realidade fisio-lógica e sócio-lógica, que permite relacionar as duas "rupturas de 60" aqui traçadas. Sobretudo na obra de duas autoras, ambas participantes na publicação de Poesia 61 - Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge - as explorações atentas da "quarta dimensão" (LNJ) da linguagem poética aliam-se intimamente ao imperativo feminista da reescrita do texto cultural legado ao Ocidente europeu pelos séculos da dominação masculina.

  Klobucka, Anna M. O Formato Mulher, A Emergência da Autoria Feminina na Poesia Portuguesa. Coimbra: Angelus Novus Editª, 2009, 203 - 206.
.

10/09/12


   O Amor é, de facto, o principal tema de toda a lírica camoniana - como é n' Os Lusíadas, uma das grandes linhas que movem, organizam e dão sentido ao universo, elevando os heróis à suprema dignidade de, através dele, atingirem a divinização.
   Na Lírica de Camões, o amor é, contudo, fonte de contradições vivamente sentidas: ele é sucessivamente "fogo que arde sem se ver", "ferida que dói e não se sente", "contentamento descontente" - daí que dificilmente ele possa trazer consigo a alegria e a paz. É algo de indefinível ou, nas próprias palavras do Poeta, "um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê".
   O amor aparece nestes poemas sob uma dupla abordagem. Uma é a sua abordagem à maneira petrarquista, de raiz provençal e neoplatónica. Trata-se de um amor espiritualizado, em que não se vislumbra o corpo dos amantes, que se compraz na adoração e contemplação do ser amado e que leva a que o amador se "transforme" na "cousa amada". Num amor assim vivido, a ausência da amada não só não é sentida com dor, mas é encarada como ocasião de purificação do sentimento amoroso. A mulher amada, encarada como reflexo da beleza divina, é a ponte para a perfeição do "amador". Assim, ela não é retratada com traços fisionómicos precisos - a sua beleza, que é grande, reside sobretudo no olhar, "brando e piedoso", na postura "humilde", na bondade; o seu retrato é um retrato psicológico da perfeição e pureza que dela emanam. Regista-se a impressão que a sua beleza causa, e não os traços de que essa beleza é feita. Trata-se de um ser sublime, divinizado, que se movimenta numa natureza alegre, colorida, paradisíaca. (...) Mas o amor aparece também visto sob outro aspecto, numa outra abordagem. Camões, senhor de uma "longa experiência" de vida, apercebe-se da enorme distância que vai do pensamento à realidade vivida - e sente, mais violentamente que Petrarca, que a vivência quotidiana do amor, longe de trazer tranquilidade e paz, se for dela excluído o factor erótico, traz inquietação e perturbação. (...)
   Da tensão (...) entre o amor espiritual e o amor sensual, resultam, para quem ama, conflitos interiores, perplexidade, contradições, angústia. O sentimento amoroso torna-se motivo de perturbação; a mulher amada transforma-se em "fera", em "Circe", que enfeitiça, destilando no amador o "mágico veneno" e transformando-lhe o pensamento; a ausência e a morte da amada passam a constituir ocasião de dúvida, ciúme, angústia, "mágoa sem remédio".

  Pais, Amélia. Eu cantarei de amor - Lírica de Luís de Camões. Porto: Editª Areal, 1ª edição.
.

09/09/12

"Se ambas as perspectivas são empobrecedoras da prática poética(...) elas florescem em momentos muito próprios de uma sociedade. "


   Embora ignorada, implícita ou explicitamente, nas suas implicações estéticas, é genericamente admitido pelo pensamento literário contemporâneo que uma compreensão rigorosamente séria da poesia não se compatibiliza com uma valorização do que é exclusivamente livresco no fenómeno poético. Quando essa valorização acontece, subverte-se inevitavelmente a imagem da poesia. Por um lado, retira-se-lhe aquele componente natural que a faz abrir-se a um imaterial transcendente cujo horizonte só pode ser intuído, não pelas (mais ou menos elaboradas) construções linguísticas e imaginativas mas apesar delas. Por outro lado, a exclusiva acentuação dos traços especificamente artísticos na compreensão e na prática da poesia, se confere ao poeta a consciência da liberdade e da autonomia do seu discurso, lança-o, no entanto, para a fronteira social e política que o estatui em inofensivo especialista do belo, laureado e aplaudido exactamente porque confirmador dessa fronteira.
   Porém, o reconhecimento deste facto não conduz (não deve conduzir) necessariamente, quer ao privilégio das estruturas iletradas, intuitivas ou pré-intelectuais da criação poética, quer à exclusividade de um comprometimento deliberado do poeta com a realidade social e política. Quando esse privilégio acontece, reduz-se a poesia a um mero reportório de fixações afectivas tautologicamente justificadas por interditos ideológicos que emanam da própria lógica das estruturas iletradas, intuitivas ou pré-intelectuais que lhe estão na origem. Quando acontece a exclusividade do comprometimento, o discurso poético está irremediavelmente condenado a permanecer na periferia da poesia, e, embora possa adquirir o estatuto de documento, mesmo assim, enquanto documento a sua informação distorcida (pela intenção poética) é de importância duvidosa.
   Se ambas as perspectivas são empobrecedoras da prática poética e da vida cultural que lhe subjaz, elas florescem em momentos muito próprios de uma sociedade. A primeira encontramo-la invariavelmente nos períodos caracterizados por aquele tipo de ordem tão cara à dominação da burguesia, a qual investe no artista porque (ou quando) é aquele que lhe dá um real decantado (= livresco) de um imaginário outro, alternativo se se quiser, que é quotidianamente sentido ou pressentido pela burguesia através do afrontamento das suas manifestações sociais exteriores. O artista (o poeta) ao institucionalizar a arte (a poesia) livresca implicita a institucionalização da ordem política que, afinal, a determina. A segunda encontramo-la nos grandes momentos de crise social e política; nos momentos de transformação revolucionária do curso da História; nos momentos em que o "povo", depositário dos valores mais substanciais, ou o "proletariado", escorado nas razões vitais do lugar que ocupa no processo de produção, são apresentados como sujeito e efeito de uma nova dinâmica cultural. Uma dinâmica tutelada pela categoria de "massa", e que passa a presidir ao acto de produção (objectiva) e recepção (ideal) dos bens culturais.

  Martins, Manuel Frias. 10 anos de poesia em Portugal 1974-1984, leitura de uma década. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, pp 31 - 32.
.

08/09/12

"(...) a tarefa da crítica literária deve radicar sobretudo na interpretação e na análise... "


Sem recusar uma preocupação com o mérito literário das obras, creio, no entanto, que a tarefa da crítica literária deve radicar sobretudo na interpretação e na análise, por aí contribuindo para a revelação do valor da(s) obra(s). Deste modo, a crítica poderá desempenhar um papel verdadeiramente produtivo no contexto da comunidade literária, abrindo simultaneamente ao leitor potencial dos textos analisados um campo de intervenção e de permuta. Se é certo que o discurso crítico é inevitavelmente persuasivo, não é menos certo que se a crítica se esgotar na persuasão através de juízos de valor estará a criar as condições para se tornar um mero adereço da cena (literária) que deveria ser sua função analisar.
   Creio que devo ainda acrescentar a minha convicção de que o crítico não deve preocupar-se com uma competição com o(s) escritor(es) através da prolixidade de um discurso recheado de jogos verbais e/ou de conceitos fundados na retórica do fascínio da sua própria produção. Ou seja, pretendo não só distanciar-me daquele tipo de discurso contemporâneo que sanciona o acto crítico pelo mero espectáculo de (uma) escrita, mas também justificar a economia deste ensaio exactamente pela fundamentação dos juízos que contém. No entanto, devo também sublinhar a minha crença na intersecção do trabalho literário e do trabalho crítico numa mesma urgência para responder às solicitações do real através da determinação das condições estéticas da sua interpretação. Ou seja, pretendo não só legitimar o dialogismo implícito nas construções intelectuais do (meu) trabalho crítico, mas também reiterar a validade dessas mesmas construções.
   Finalmente, esclareça-se que as divisões que irei fazer não são absolutas. Se a dominante da produção de um determinado autor parece sugerir a sua inclusão num determinado conjunto, esse facto não anula a possibilidade de esse mesmo autor também apresentar características que o "empurram" para um outro conjunto. Esta situação não faz mais do que confirmar a poesia como género plural, e o trabalho que a organiza como exercício potencialmente conjuntivo da multiplicidade do real - e que, aliás, torna a tarefa crítica muito ingrata, mas também extraordinariamente aliciante.


  Martins, Manuel Frias. 10 anos de poesia em Portugal 1974-1984, leitura de uma década. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, pp 13 - 14..
.

"(...) mas é também importante... "



   " A economia é necessária; é importante que todos o saibamos;
   mas é também importante que ela seja nobre, e não sórdida. "


Christine de Suède. Maximes. Paris: 1996, p 96 (Préface de Chantal Thomas
e tradução minha).



Nota - o quadro da rainha Cristina (1626-1689) é da autoria de
Jacob Ferdinand Voet.

20/08/12



    " Dobrada à Moda do Porto "

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada ( e era à moda do Porto ) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...

( Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim.
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

  Pessoa, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Edições Ática, 1980, pp 310 - 311.
.

    " Nem só "


Nem só do teu silêncio
direi raiva
Nem de todo o meu corpo
direi vício

nem de todo o pénis
direi arma
e apenas do teu direi ter sido

Quando o vácuo é de
vingar
ou de vergar
cravando sobre os seios a sua enxada

Quando a minha boca se conjuga
no baixo do teu ventre
e tua espada...

nem de todo o desejo
direi verão
nem de todo o grito
a tua imagem

nem de toda a ausência
direi chão
e só de teus flancos
a viagem

  Horta, Maria Teresa. Antologia Poética. S/c.: Círculo de Leitores, 1994, p 231 ( Selecção de poemas de David Mourão-Ferreira).
.

19/08/12



                       " 9h15 "

El hombre se sienta en una de las mesas de la terraza
Terraza fría en esta mañana igualmente fría
El hombre se acomoda su gorra sebosa,
la chaqueta desgarbada, sus pantalones desteñidos
en esta mañana igualmente desteñida

El hombre saca de su bolso un pequeño transístor
lo limpia delicadamente con su manga grasienta,
lo acaricia, escucha encantado aquellas voces roncas,
las intraducibles resonancias

El hombre habla con su transístor
Gesticula
Repite con insistencia algunas expresiones
Al principio nos mira con una cierta altivez
pero luego se desinteresa para poder olvidarnos
El hombre de la gorra sebosa y enamorado
de su transístor
ha sido mi primera enseñanza del dia.

    Mateus, Victor Oliveira. Revista Bora Nº 2, Agosto, 2012 ( traducción de José Ángel Garcia Caballero )
.

16/08/12


                           " À Inglaterra"

                          (  Fragmento )


Ó cínica Inglaterra, ó bêbeda impudente,
Que tens levado, tu, ao negro e à escravidão?
Chitas e hipocrisia, evangelho e aguardente,
Repartindo por todo o escuro continente
A mortalha de Cristo em tangas d'algodão.

Vendes o amor ao metro e a caridade às jardas,
E trocas o teu Deus a borracha e marfim,
Reduzindo-lhe o lenho a c'ronhas d'espingardas,
Convertendo-lhe o corpo em pólvora e bombardas,
Transformando-lhe o sangue em aguarrás e em gim!

Teus apóstolos vão, prostituta devassa,
Com o fim de levar os negros para o Céu,
Desde o Zaire ao Zambeze e desde o Cabo ao Niassa,
Baptizando a Impiedade em Jordões de cachaça,
Mostrando-lhe o teu Deus na tua hóstia - o guinéu!

A honra para ti é inútil bugiganga.
O teu pudor é como um Matabel sem tanga,
Monstruoso ladrão, bárbaro traficante;
Compras a alma ao negro a genebra e missanga,
Vendendo-lhe a tua bíblia a queixais de elefante.

A tua bíblia! o teu Cristo!... A tua bíblia é uma agenda
Em que a virtude heróica a cifras se reduz.
E o teu Cristo londrino é um Deus de compra e venda,
Deus que ressuscitou para abrir uma tenda
De cortiça, carvão, álcool e panos crus!

Pela estrada da História, ó milhafre daninho,
Vai um povo seguindo o seu norte polar,
E tu és ladrão que lhe sais ao caminho,
Com manha do lobo e a coragem do vinho,
A roubar-lhe os anéis para o deixar passar!

Quando espreitas o fraco apontas a clavina,
Quando avistas o forte envergas a libré...
A tua mão ora pede esmola ora assassina...
Teu orgulho, covarde, é, meu Bayard d'esquina,
Como um tigre de rastro e um capacho de pé!
...    ...   ...   ...
Quando já se desenha em arco d'aliança
A porta triunfal do século que vem,
por onde dez nações marchando atrás da França,
Palmas na mão, cantando um cântico d'esp'rança
Hão-de entrar numa nova, ideal Jerusalém;
...    ...   ...    ...
Hão-de um dia as nações, como hienas dementes,
Teu império rasgar em feroz convulsão...
E no novo halali, dando saltos ardentes,
Com a baba da raiva esfervendo entre os dentes,
A bramir, levará cada qual seu quinhão!

E tu ficarás só na tua ilha normanda
Com teus barões feudais e teus mendigos nus:
Devorará teu peito um cancro aceso, a Irlanda:
E a tua carne hás-de vê-la, ó meretriz nefanda,
Lodo amassado em sangue, outro amassado em pus!

E assim como brutais monstros de pesadelo
No soturno porão duma nau sem ninguém,
Entre nuvens de fogo e temporais de gelo,
De bombordo a estibordo a rolar num novelo,
Desabando e rugindo, aos montões, num vaivém,

Se estrangulam febris, roucos, dilacerantes,
As pupilas a arder em brasas infernais,
Panteras contra leões, ursos contra elefantes,
Cobras, em redemoinho a silvar dardejantes,
Búfalos escornando os tigres e os chacais;

Assim vós, assim vós, dura raça assassina,
Sobre essa nau de pedra onde o mais vai bater,
Vos estrangulais numa carnificina,
De que só ficará, sob a densa neblina
Num pântano de sangue uma Gomorra a arder!

Milhões, milhões, milhões de bocas esfaimadas
Hão-de dilacerar-te o corpo com furor,
E a pedra a dinamite e a carne a punhaladas
Hão-de tombar no mesmo escombro ensanguentadas,
Em baques de hecatombe e blasfémias de dor!...

Hão-de os lordes rolar em postas no Tamisa!
Há-de o corpo de um rei dar um banquete a um cão!
Teu solo há-de tremer como uma pitonisa,
E a canalha sem lei, sem Deus e sem camisa
Abrirá teu bandulho infecto, oh Deus Milhão!

Bancos, docas, prisões, arsenais, monumentos,
Tudo rebentará em cacos pelo ar!...
E ao soturno fragor de teus finais lamentos
Responderão - ladrando! as cóleras dos ventos!
Responderão - cuspindo! os vagalhões do mar!

   Junqueiro, Guerra. Horas de Luta. Porto: Lello & Irmão Editores, 1954, pp 75 - 78.

Nota - Este longo poema de Guerra Junqueiro está datado de Fevereiro de 1890 e tem por base o célebre Ultimatum da Inglaterra a Portugal durante o reinado de D. Carlos I. É um dos mais referidos poemas de Junqueiro.
.

15/08/12



  " À Tua Espera "


Tranquila e serena
a nossa casa
nos quatro cantos
o sol do meio-dia

à tua espera alegre
e descansada
injecto-me de amor às
escondidas

Sobre a garganta passo
os dedos espessos
e a roupa uma a uma
vai caindo

para que então amor
com os teus dedos
quando vieres me vás
depois vestindo

  Horta, Maria Teresa. Antologia Poética. S/c.: Círculo de Leitores, 1994, p 104 (Selecção de poemas de David Mourão-Ferreira).
.

13/08/12



    " Origem "


Em nome do mistério
e do vício
das árvores

bebo a claridade
dos caules
e dos punhos

recebo a distância

nos olhos
o prazer é a origem
dos planetas

Em nome das mulheres
e do útero rouco
dos objectos

em nome do vício
com aves de mistério

a origem baça
da sombra nas gargantas

  Horta, Maria Teresa. Antologia Poética. S/c.: Círculo de Leitores, 1994, p 44 ( Selecção de poemas de David Mourão-Ferreira).
.

12/08/12


E agora teria perecido Eneias soberano dos homens,
se arguta não se tivesse apercebido a filha de Zeus, Afrodite,
sua mãe, que o concebeu para Anquises quando ele tratava do gado.
Em torno do filho amado lançou ela os alvos braços, estendendo
à frente dele uma prega da sua veste resplandecente como barreira
contra os projécteis, não fosse algum dos Dânaos de rápidos poldros
arremessar-lhe bronze contra o peito e roubar-lhe a vida.
Levou ela então o filho amado para longe da guerra.

(...)
Mas quando chegou ao pé dela, após tê-la perseguido por entre
a multidão, foi então que o filho do magnânimo Tideu
lhe feriu a superfície da mão delicada com o bronze afiado;
e de imediato a lança lacerou a carne através da veste ambrosial.
que as próprias Graças lhe tinham tecido, na parte do pulso
acima da palma da mão. Jorrou o sangue imortal da deusa,
o ícor, que tem seu fluxo nos deuses bem-aventurados.
É que eles não comem pão, nem bebem o vinho frisante:
e por isso são exangues e têm o nome de imortais.
A deusa gritou alto e deixou cair o filho.
Mas tomou-o nos seus braços Febo Apolo e envolveu-o
numa nuvem escura, não fosse algum dos Dânaos de rápidos poldros
arremessar-lhe bronze contra o peito e roubar-lhe a vida.
Mas gritando alto lhe disse Diomedes, excelente em auxílio:

" Afasta-te, ó filha de Zeus, da guerra e da refrega!
Não te basta iludires as mulheres na sua debilidade?
Mas se pretendes entrar na guerra, penso que a guerra
te fará estremecer, só de ouvires falar dela de longe!"

Assim falou; e ela partiu, desesperada, em grande aflição.
Foi Íris de pés como o vento que a levou da liça,
acabrunhada de dores - até a linda pele se lhe escurecia.
De seguida, à esquerda da batalha, encontrou Ares furioso,
a lança reclinada contra uma nuvem; ali estavam seus cavalos velozes.
Caindo de joelhos, logo implorou Afrodite ao querido irmão
que lhe emprestasse os cavalos com adereços de ouro:

" Querido irmão, acode-me e dá-me os teus cavalos,
para que possa chegar ao Olimpo, onde fica a sede dos imortais.
Estou muito aflita por causa da ferida infligida por um homem mortal:
o Tidida, que neste momento até contra Zeus pai combateria!"

Assim falou; e Ares deu-lhe os cavalos com adereços de ouro.
Ela subiu para o carro, desesperada no seu coração;
e para junto dela subiu Iris, que com as mãos pegou nas rédeas.
Com o chicote incitou os cavalos, que não se recusaram a correr
e depressa chegaram à sede dos deuses, ao escarpado Olimpo,
...    ...    ...    ...    ...

  Homero. Ilíada, Canto V, 311 - 367. Lisboa: Livros Cotovia, 2005, pp 114 - 115 ( Tradução: Frederico Lourenço).
.

09/08/12

"(...) e pedimos à vida humana que se comprimisse... "


  .
   A mente pode ser uma ferramenta maravilhosa para a autoilusão - não foi concebida para lidar com a complexidade e incertezas não lineares. Ao contrário do discurso comum, mais informação significa mais ilusões. A nossa deteção de padrões falsos cresce cada vez mais como efeito secundário da modernidade e da era da informação: existe a desadequação entre a aleatoriedade confusa do mundo atual rico em informação, com as suas interações complexas, e as nossas intuições dos acontecimentos, baseadas num habitat ancestral mais simples. A nossa arquitetura mental está cada vez mais desajustada do mundo em que vivemos.
   Isto conduz a problemas tolos: quando o mapa não corresponde ao território, há uma certa categoria de idiota - o sobreeducado, o académico, o jornalista, o leitor de jornais, o "cientista" mecanicista, o pseudoempirista, os dotados com aquilo a que chamo "arrogância epistémica", essa maravilhosa capacidade de desconsiderar o que não viram, o não-observado - quem entra em negação, imaginando que o território concorda com o seu mapa. Geralmente, esse idiota é alguém que faz a redução errada em nome da redução, ou remove algo essencial, cortando as pernas ou, melhor, parte da cabeça de um visitante ao mesmo tempo que insiste que ele preserva a sua pessoa com 95 por cento de exatidão. Vejam-se as camas procustianas que criámos, algumas benéficas, outras mais questionáveis: regulamentos, governos estruturados de cima para baixo, academia, ginásios, deslocações entre casa e o emprego, arranha-céus de escritórios, relações humanas involuntárias, emprego, etc.
   (...) temos culpado o mundo por não se adaptar às camas dos modelos "racionais", tentámos mudar os seres humanos para que se adaptassem à tecnologia, adulterámos a nossa ética para que se adaptasse às nossas necessidades de emprego, pedimos à vida económica que se adaptasse às teorias dos economistas, e pedimos à vida humana que se comprimisse numa qualquer narrativa.

   Taleb, Nassim Nicholas. A Cama de Procusto - Aforismos Filosóficos e Práticos. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010, pp 106 - 107.
.