25/01/13

Apresentação de livro...

 
 
(Apresentação do romance "Ficar" de Pompeu Miguel Martins na "Livª Pó dos Livros" no dia 25/1 )
 
 
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            Classicismo e Modernidade na Obra de Pompeu Miguel Martins

      O novo livro de Pompeu Miguel Martins, Ficar, apresenta-se-nos sob a forma de uma narrativa que se vai desenvolvendo ao longo de 36 capítulos, contudo, estes capítulos não se nos dão através de uma qualquer linearidade narrativa, mas antes por um encadeamento tecido de acordo com a idade do narrador, este – autodiegético e omnisciente -, vai, assim, expondo os vários episódios da intriga de acordo com três categorias cronológicas distintas: a infância, a juventude e o fim da idade adulta início da velhice. A esta cisão da voz do narrador acrescentar-se-ão outras características ao nível das categorias da narrativa, que afastarão definitivamente o romance da Pompeu Miguel Martins das concepções romanescas que permaneceram sobretudo até à década de 50, isto é, da clássica concepção de romance que vigorou de Eça e Camilo até Carlos de Oliveira (os primeiros romances) e Ferreira de Castro: uma concepção linear da narrativa onde o tempo cronológico correspondia ao tempo do discurso, ao tempo por que se apresentavam os vários acontecimentos. Será, por conseguinte, a partir dos anos 50 que, sobretudo Agustina Bessa-Luís (Sibila, 1954) e Vergílio Ferreira (Aparição, 1959) - mas também Fernanda Botelho e Augusto Abelaira com os seus primeiros romances -, “incendeiam o romance português de perspectivismos narrativos, espaciais e temporais.” ( In Miguel Real, “O Romance Português Contemporâneo: 1950 – 2010”, p 84). Vemos, pois, que esta obra de Pompeu Miguel Martins, e neste aspecto, se integra antes nesta segunda opção estilística e não na primeira mais própria dos romances ligados ao neo-realismo e ao presencismo. Outros elementos de Ficar podem ainda ser acrescentados: um, se o narratário da estória é predominantemente extradiegético, não deixa de ser interessante, que, por vezes, o narrador mude o rumo do seu dizer e se vire para um destinatário que faz parte integrante da narrativa:

“ Como é belo, Magda, um coração que palpita na ignorância do tempo. Quanto tempo bateu o teu coração assim? Quantas vezes foste o que não soubeste? Quantas vezes foste apenas o que sentiste? E era assim Portugal, o nosso tão íntimo Portugal, meu amor (…) um país que mais ninguém soube senão nós. Lembras-te, Magda?” ( In “Ficar”, p 84);

dois, a modernidade desta obra, e no que diz respeito à fragmentação do próprio texto, é ainda corroborada pelo facto do narrador chamar a si o género e o subgénero literário que melhor se adapta ao momento da enunciação, assim, vemo-lo saltar de um registo onde sobressai o ingénuo e o infantil ( cf. capítulos ligados à infância):

“ Há meses que o Lininho deixou de falar da mãe. Há meses que deixei de lhe falar da nossa mãe para que ele não fique triste. Se ele voltar a falar, eu falo. Caso contrário, não tocarei tão cedo nesse assunto. Tenho medo de o ver chorar. (In “Ficar”, p 96)

 para outro mais emotivo e engajado (cf. capítulos da juventude) ou ainda para um registo vernacular e erudito (cf. capítulos do envelhecimento):

“ As leituras têm inúmeras cadências. Todas elas vocacionadas para que mudemos o nosso mundo. As leituras de fuga, carregadas de fúria, onde soubemos erguer a juventude e as suas contradições (…) As leituras de infância, tão lentas, tão longas, ainda que de histórias brevíssimas, a explicar-nos tão claramente (…) que a única coisa objectiva é a subjectividade que cada coisa encerra em si mesma, que cada fantasia tem sempre uma feroz correspondência ao mais imanente objecto, à mais tangível e terrena situação. “ (In “Ficar”, p 77)

vemos igualmente o narrador passar, por vezes, e de acordo com as exigências da narração, do romance-ensaio – a fazer-nos lembrar, em certos momentos, algumas das obras de Vergílio Ferreira, aliás, e a título de curiosidade, seria interessante inventariar no livro de Pompeu Miguel Martins a expressão “para sempre” (pp 33, 67, 73, 90 etc.), no que nos pareceu ser uma homenagem àquele existencialista – para uma escrita assumidamente realista e lírica. Mas em Ficar podemos ainda encontrar o epistolar (pp 65-66 e p 67), assim como o poético ( exº: o último parágrafo da página 42 é nitidamente poesia escrita em prosa!). Paralelamente a tudo o que temos vindo a dizer, e que integra o romance de Pompeu Miguel Martins no seio de uma escrita contemporânea, ocorre um assumidamente clássico manipular do léxico e da gramática, facto – aliás – que pode ser encontrado em alguns dos nossos grandes prosadores atuais: escutemos  Miguel Real falando de Gonçalo M. Tavares: “ Se, perturbando o leitor, a apresentação estilística das ideias, nos livros de prosa Gonçalo M. Tavares, é nova e a sua manipulação fundamentada na evidenciação de uma lógica paradoxal, a gramática, essa, é a mais clássica – frase curta, componentes sintáticos no seu lugar, a tentativa bem-sucedida de fazer corresponder com clareza uma ideia a um parágrafo. Porém, como as ideias se torturam labirinticamente entre si, as frases ondeiam arrastando o leitor para uma contínua abertura ao espanto…” (In “ O Romance Português Contemporâneo: 1950-2010”, p 164).

Este classicismo de Pompeu Miguel Martins no que diz respeito à ordenação do sentido e do código acaba mesmo por ser ilustrado por uma cena em que o narrador se encontra em “St Germain a beber café com leite. A reler pela milésima vez a Marguerite “ ( cf. p 42), ora, se atendermos à data do episódio e ao facto de estarmos ante releituras, só se pode estar a falar da Yourcenar ou, quando muito, da Duras da primeira fase. Neste aspecto, portanto, Ficar demarca-se dos romances de carácter desconstrucionista, que nas décadas de 60 e 70 ganharam foros de cidadania: Maria Gabriela Llansol ( Os pregos na erva, 1962), Maria Velho da Costa (Maina Mendes, 1969), José Cardoso Pires (O Delfim, 1969), Nuno Bragança (A noite e o riso, 1969), Rui Nunes (Sauromaquia, 1974) e de novo Carlos de Oliveira (Finisterra, 1978) e Fernanda Botelho (Lourenço é nome de jogral, 1971). Se a Pompeu Miguel Martins, à imagem de muitos destes romances de 60/70, interessa mostrar a “desconstrução” das instituições políticas e sociais dominantes, os meios utilizados, no entanto, aproximam-no antes desse realismo que  vem dos anos 80 até aos nossos dias e que, por exemplo, o colocam junto de João de Melo (Gente feliz com lágrimas, 1988), João Aguiar (Navegador solitário, 1996) e Lídia Jorge (O vento assobiando nas gruas 2003 e Combateremos a sombra, 2007). Seria mesmo interessante uma análise intertextual de Ficar com os romances desconstrutivistas, bem como com estes dois de Lídia Jorge, veríamos que, ao contrario dos primeiros, a Pompeu Miguel Martins não interessa a autonomização absoluta da categoria do tempo em relação ao espaço e que, como em Lídia Jorge, as descrições, as reflexões e as especulações jamais perdem de vista a realidade concreta. Em Pompeu Miguel Martins as experiências com a linguagem apenas importam para uma intensificação da poeticidade de um excerto ou para a clarificação racional de uma qualquer especulação de cariz filosófico, jamais lhe interessa que o seu romance adquira uma autonomia semântica e sintática relativamente à realidade concreta que o narrador rememora ou vivencia. E é neste sentido que se enfatiza a já citada modernidade desta obra na qual se incrustam, de modo não determinante, os aspectos clássicos também aqui referidos. Ao falarmos de especulação e de clarificação racional ocorre-nos a veemente salvaguarda do primado do estético, enquanto território de universalidade, levada a cabo por Harold Bloom contra diversas correntes teóricas como o novo historicismo, o neomarxismo, o multiculturalismo, etc.: Bloom, ao fundamentar a centralidade de Shakespeare no cânone ocidental, e enquanto enumera variáveis e justificações de tal posição, refere que o dramaturgo inglês “ dá origem à descrição de mudança individual dos seres na base da escuta de si mesmos” (In “ O cânone ocidental “, p 60), e continua: “ A partir de Falstaff, Shakespeare acrescenta à função da escrita imaginativa, que era instrução do modo como se deve falar aos outros, aquela que é hoje a lição dominante (se bem que mais melancólica) da poesia: como se deve falar com nós mesmos. “ ( Idem, p 61). Ora, é exactamente tudo isto que gostaríamos de unificar: o romance Ficar de Pompeu Miguel Martins, apesar de incluir, não só toda a caracterização já referida, mas também os mais diversos monólogos de cariz político, ético, antropológico e metafísico, não se apresenta como um desarticulado teórico-narrativo, mas antes como uma unidade coerente e dotada de sentido a valorar, não numa perspectiva ideológica e/ou historicista – apesar das inúmeras descrições sócio-políticas -, mas exclusivamente através de uma grelha literária e estética e, nesse sentido – como Bloom diz de Shakepeare –, é uma belíssima lição sobre a escuta e o estar-aqui dada por um eu falando consigo mesmo:

“ Talvez um dia eu consiga olhar para as ruas da Vila e não me lembrar do que magoa. Só me magoa o que me falta. O que já tive e não tenho. Quando vou de casa para a escola, olho para o chão e vejo o que está diferente de um dia para o outro. As marcas, a sujidade, as folhas que caem das árvores, um pedaço de papel, uma corisca de tabaco. E, olhando as diferenças, penso nelas e nas histórias que lhes podem estar associadas (…). A vida diferente que cada um leva complica tudo. É como estar a jogar um jogo em que se tem de aprender novas regras a cada instante. O encontro das pessoas é um interminável e difícil jogo.” (In Ficar, p 86).

Apesar desta obra referir à saciedade o Tempo (significando-o inclusivamente com maiúscula), não nos pareceu ver nela, como objectivo primordial, um deambular em torno dessa entidade: aqui aborda-se fundamentalmente a partilha daquilo que no ser humano é íntimo. O tempo, enquanto categoria da narrativa, aparece fragmentado: o tempo histórico (Estado Novo e pós-25 de Abril); o tempo cronológico (infância, juventude, envelhecimento); o tempo do discurso (os acontecimentos não se apresentam de forma linear, mas segundo o esquema: A,B,C; A,B,C, etc.); o tempo psicológico jamais é experienciado pelo narrador de modo contínuo e raramente coincide com a acção, pelo que várias vezes ele recorre a: analepses, prolepses, resumos e elipses e, finalmente, o Tempo enquanto categoria ontológica não é mais do que o palco em que a partilha do “si-próprio” ocorre:

Tinha a certeza de que nos encontraríamos para sempre nesse lanche, ao longo de uma tarde de que jamais nos haveríamos de esquecer.” ( In Ficar, p 26)

Começarei por guardar a minha intimidade, sabendo que há-de ser a espécie mais ameaçada (…). Começarei pela intimidade porque aí guardo o maior segredo da minha existência: o de nunca abdicar do lado íntimo da cada coisa, por mais pequena que seja. Não acredito em coisas insignificantes. Tudo tem um significado…” ( Idem, p 27)

… a caminho e Monmartre dava azo à minha felicidade e garantia-lhes o quanto se gravam nos sítios as emoções que nos tornam únicos quando somos íntimos. “ (Idem, p 50)

Logo a partir das primeiras páginas deste livro Pompeu Miguel Martins estabelece uma distinção da qual nunca se afasta ao longo da obra: o que permanece, o que fica para sempre e, por outro lado, aquilo que passa, o efémero. E o que fica é essa partilha do mais íntimo de cada ser (daí ele dirigir-se frequentemente a Magda apesar da morte desta, dito de outro modo: o relacional permanece apesar da ausência física de um dos elementos da relação):

Era mesmo isto o que eu tinha para te dizer, Magda. O que eu tinha para nos dizer, neste tão difícil regresso a casa e às nossas coisas. O primeiro verbo que o Tempo pronuncia não é o verbo ser, é o verbo ficar. Nunca te esqueças, tudo o que vive, vive para ficar. E logo a seguir o Amor, Magda, logo a seguir.” (In Ficar, p 102)

Repare-se na imediata substituição do “te” pelo “nos” logo no início do excerto: a partilha amorosa (“Logo a seguir o Amor…”) deriva necessariamente dessa fusão do íntimo (te/nos), que, no entanto e paradoxalmente, nunca anula a individualidade – quando se comunga com o Outro, no Tempo, aquilo que é da ordem do essencial, tudo o que é diminuto e insignificante desaparece, e o que se alcança é da ordem do Eterno, nada já pode ameaçar a sua Presença, o seu FICAR.

 

                                                              VICTOR   OLIVEIRA   MATEUS

 


24/01/13

"(...) todo o lugar se elevou no ar mansamente ... "

 
 
                                    "   Hino  3  "
 
   Outrora, quando vertia amargas lágrimas, quando, diluída na dor, a minha esperança se desfez e eu me encontrava sozinho sobre o estéril montículo que encerra em negro e estreito espaço a imagem da minha vida - só, como jamais alguém esteve, impelido por um medo indizível - inerme, tão somente com um único pensamento ainda, o da carência. - Quando olhava em meu redor em busca de auxílio, sem que pudesse avançar nem recuar, preso por uma saudade infinita a essa vida extinta e fugidia: - eis que da distância azulada - dos altos cumes da minha antiga bem-aventurança, veio um frémito de crepúsculo - e de súbito romperam-se os vínculos do nascimento - a cadeia da Luz. Para longe de mim se voltou o curso do esplendor terreno e com ele, o meu luto - e também a melancolia fluiu para um novo mundo, infundamentado - e tu, exaltação nocturna, torpor do Céu, vieste sobre mim - todo o lugar se elevou no ar mansamente; e sobre o lugar pairou o meu espírito, desvinculado, de novo nascituro. Em nuvem de poeira se converteu o montículo de terra - e através das nuvens vi a fisionomia gloriosa da Amada. Nos seus olhos repousava a Eternidade - prendi-lhe as mãos, e as lágrimas eram um laço cintilante, irrompível. Milénios perpassaram a caminho dos longes como intempéries. Suspenso do seu colo, chorei lágrimas de deleite pela nova vida. - Foi ese o primeiro e único sonho - e somente desde então tenho uma fé eterna e imutável, no Céu da Noite, na sua luz, a Amada.
 
 
   Novalis. Os Hinos à Noite. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, pp 25 - 27 ( Prefácio e Tradução de Fiama Hasse Pais Brandão).
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23/01/13

 
    " Qual o Voo Do  Poeta? "
 
 
Aqui chegados a esta catedral aberta
logo nos disseram que nós, poetas,
espécie zoológica de antenas cegas,
nada tinhamos que ver
com uma missa de defuntos.
 
Houve um pescador afogado. Fraca coisa
para poetas alheios a trivialidades
e a fait-divers. Alguém nos alertou:
"É ver como o afogado se vai erguer
do seu catafalco de bambus
e voar nas asas
do seu ventre inchado de balão".
 
E mais: "Todos os que andaram
com ele neste mar de tufões,
mas ainda vivos, hão-de um dia voar do mesmo modo,
o trajecto em V das aves
que para onde uma vai todas vão."
 
Vimo-las já sobre a praia de Cheoc Van,
praia nem sempre de esperanças.
 
Eu e tu entrelaçamos os dedos.
Pertencíamos, poetas, também a um mundo de asas,
mas as nossas não eram para a força daquele voo.
 
 
  Torres, Alexandre Pinheiro. Trocar de Século. Macau: Fundação Oriente, 1995, p 79.
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22/01/13



  " As Vidas Todas Numa Só "


Abaixei-me para apertar os cordões dos sapatos
e então desabou toda a cidade em cima de mim:
arranha-céus muito mais precários
que a filigrana de São Paulo,
a ponte da Taipa,
e até a Universidade do Saber Nenhum.

Pessoas desconhecidas cujas vidas só adivinhando,
nenhuma sem nada a ter de ver comigo,
arrancaram-me dos escombros.

Sorriram, olhos quase fechados (uma pequena janela?)

E, de súbito, soube das suas vidas:
a filigrana de São Paulo na estrada de Damasco.

Foi este o incêncio sem palavras.

Por isso tais vidas só de olhá-las tão alheias
não me deixam em paz.
Persigo-as desde o Beco das Três Noras
até ao dos Fogões ou das Latrinas
ou à seca Fonte da Inveja.

Tais vidas vivo-as:
são também minhas.
Estão-me junto aos olhos como óculos.


  Torres, Alexandre Pinheiro. Trocar de Século. Macau: Fundação Oriente, 1995, p 21.
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21/01/13

" le lit du temps coule/ au milieu de la bouche "

 
 
  ( Excerto de "séquence 2" do Ciclo "L'ombre du Double")
 
 
 
toi qui es dans mon tu
 
mon présent est une pierre
tu la jettes dans mes yeux
 
la page de verre monte
le visage éclate dedans
 
je tète le blanc
le linge du regard volé
 
le lit du temps coule
au milieu de la bouche
 
 
    Noel, Bernard. Extraits du Corps. Paris: Poésie/ Gallimard, 2006, p 234.
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" et vide aussi ma voix "



( Excerto do Ciclo "À Vif Enfin La Nuit")

et ta pensée est avec moi
dans mon désir de me sur-
vivre. J'ai voulu te dire cela
parce que tu y trouveras la
certitude que le temps ne
changera jamais rien de ce
que tu as trouvé en moi.
 
 
mais voici l'ombre
et les souliers de pierre
 
qui parle si la nuit est vide
et vide la lisière
et vide aussi ma voix
 
on tend sa main
et c'est un arbre sec sur le couchant
 
terrfiante
terrible la mer où le soleil se noie
et ma montagne est noire
et la lune poignarde ma maison
 
 
     Noel, Bernard. Extraists du Corps. Paris: Poésie Gallimard, 2006, pp 70 - 71.
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16/01/13

" Les/ fourmis du désert ont dévoré les tissus de l'amour. "



La langue à demi renversée dans la gorge lèche un reste
de fraîcheur.
                                                                         L'intérieur
n'abrite plus que la trame fibreuse des organes.
Elle tamise une sciure opaque et sèche.

                                                                                    Les
fourmis du désert ont dévoré les tissus de l'amour.


  Noel, Bernard. Extraits du corps. Paris: Poésie/ Gallimard, 2006, p 55.
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15/01/13

"deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas/ que como nuvens voarão os céus do mundo..."

 
 
 
   " Coração Em África "
 
 
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
 
ao atravessar estes campos do trigo sem bocas
das ruas sem alegria com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não
ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho;
oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros
...     ...     ...     ...     ...
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou às riscas
e o coração entristece à beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África;
e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos de homens
e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh órgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-se prenhar as espigas de Trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;
na esperança de que às entranhas hiantes de um menino antípoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.
 
 
   Tenreiro, Francisco José. Poesia Africana de Língua Portuguesa: Antologia. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004, pp 263-267 (Organização: Livia Apa, Arlindo Barbeitos, Maria Alexandre Báskalos)
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13/01/13

" E o feitiço falhou. "

 
 
 
             "  Namoro  "
 
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
 
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas . laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não
 
Mandei-lhe um cartão
que o tipo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.
 
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
 
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
 
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
 
Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"- Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamin?"
E perdido me deram no morro da Samba.
 
Para me distrair
levaram-me ao baile do só Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário
 
Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí, Benjamin!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
 
 
  Cruz, Viriato da. Poesia Africana de Língua Portuguesa: Antologia. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004, pp 57 - 59 (Organização: Livia Apa, Arlindo Barbeitos, Maria Alexandre Dáskalos).
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12/01/13

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   " Testamento "
 
 
À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...
 
E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...
 
Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...
 
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.
 
Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...
 
Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
 
vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...
 
 
   Lara, Alda. Poesia Africana de Língua Portuguesa: Antologia. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004, pp 67 - 68 (Organizdores: Livia Apa, Arlindo Barbeitos, Maria Alexandre Dáskalos).
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09/01/13

 
 
Sete anos me aguardam de incertezas. O gato gordo,
sobre o muro, é apenas uma figura transitória. Tu vais
ficando, um livro abandonado no melhor
do enredo, aberto para sempre sobre a cama. Eu
 
sento-me à janela onde houve uma vez uma figueira.
E fico. Aguardo provavelmente a tua voz no silêncio
demorado dos quartos ao entardecer. E também adormeço,
se não for a memória do ruído ensurdecedor dos
espelhos, rebentando pela casa em mil pequenos cacos
incertos. Sete anos
 
para reler uma história demasiado conhecida ou
folhear um livro branco até ao fim. O gato já
desapareceu. Digo que escolhe, como tu, outra
cama para desafiar a lua. Eu não, eu    eu fico.
 
 
  Pedreira, Maria do Rosário. poesia reunida. Lisboa: Quetzal, 2012, 59.
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07/01/13


Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.

  Pedreira, Maria do Rosário. poesia reunida. Lisboa: Quetzal Editores, 2012, p 37.
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06/01/13

"(...) e afasta do chão a grosa/ de uma sementeira tardia "

 
 
 
   "  o  dissolver  "
 
Ultimou insaciável a encomenda:
o meu futuro é a morte.
 
em girândola fosca piscou argonauta e saltarico
 
na engrenagem em válvula submeteu-se ao futuro
prescrito na gôndola da memória descascou a língua
muito calmamente como quem aguça a farpa do infindável
 
mostrando a omoplata a descoberto da noite
entoa uma gargalhada onde peristilo alberga
a grande metáfora da purificação
 
benze a raça e afasta do chão a grosa
de uma sementeira tardia
 
são agentes que não querem ser cabras!
 
o deserto é sempre mais além!
 
 
   Costa, Aurelino. Amado Amato: Antologia Poética. Edição da Câmara Municipal de Castelo Branco (Organização de Pedro Miguel Salvado), 2012, p 34.
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01/01/13


                                 ( Poema II de " Mares ")

Enfrente, la mano tendida hacia donde vos ya no me veías pero yo te recupero, estaba el monasterio de jeronimos.
 
- Adiós, adiós -, querrá decir para siempre, lugar donde me parieron, estuario mío donde crecí los anhelos más violentos y las más dulces torpezas?
 
Puerto, puerto de los Buenos Aires que me desandaste, mi mano crece en el abrazo de largas corrientes cálidas y nutricias, y te tengo dentro y es lo bueno (...).
 
Y vino el mar de Efeso, con cabras, pastores, estatuillas, Heráclito y vos, cada vez más lejos mi río, de mis ocasos, tormentas y miserias.
 
Y la iluminación del Tiberíades, las piedras de la sed, las capricornianas piedras de los cristos y la demencia, pero ya el cáliz estaba roto y los anillos sumergidos en las proas dormidas donde anidan los minotauros y atlantes del silencio que jamás devolverán la sortija que nunca nos pusimos pero que seguí buscando por las fabulosas playas de los tirrenos y los jonios y también en la estela de gaviotas que persigue a las almas de los marineros que no pagaron las putas en el Cabo de Buena Esperanza donde el mar se estremecía hasta la entraña para que yo viera desde el fondo que no se juega con fuego.
 
Ahora, en tanto divago por los mares de los piratas, los hexagramas mutantes en el lomo de las tortugas (...); o por este mar de Japón negro, rocoso, turbio, sólo testimonio de la soledad en que evoco los mares de mi tránsito, la mañana del nueve de agosto de mil novecientos setenta y nueve en la que mi cachorro Tango y yo, a mis cuarenta años y en el uso cual tengo de mis facultades hasta hoy, saludamos las aguas, conmovidos.
 
   Futoransky, Luisa. Partir, digo. Madrid: Libros del Aire, 2010, pp 61 - 62.
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30/12/12



       "  Egeo I  "

Hay para Ulises un sonido que contiene
todo lo ya visto y lo por venir;
hay un desgarramiento que puede ser
el primer gemido placentero
de todas las vírgenes del mundo,
un alcohol que es el mismo zumo
que bebiste en algún sitio
en algún sueño

la sirena contempla tu confusión
y no puede ayudarte

no hay casa
ni chimenea
ni ancianos
que te reconozcan por la voz
(como en el tango)

mientras Penélope goza con amigos y enemigos,
oh! estúpido Ulises,
babeas literatura por estas aguas fastuosas
para el prestigio de la muerte
y el olvido.

   Futoransky, Luisa. Partir, digo. Madrid: Libros del Aire, 2010, p 25.
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29/12/12



         " Ulysses "


E ele e os outros me vêem.
Quem escolheu este rosto para mim?

Empate outra vez. Ele teme o pontiagudo
estilete da minha arte tanto quanto
eu temo o dele.

Segredos cansados de sua tirania
tiranos que desejam ser destronados

Segredos, silenciosos, de pedra,
sentados nos palácios escuros
de nossos dois corações:
segredos cansados de sua tirania:
tiranos que desejam ser destronados.

o mesmo quarto e a mesma hora

toca um tango
uma formiga na pele
da barriga,
rápida e ruiva,

Uma sentinela: ilha de terrível sede.
Conchas humanas.

Estas areias pesadas são linguagem.

Qual a palavra que
todos os homens sabem?

   César, Ana Cristina. Um Beijo que Tivesse um Blue: Antologia Poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, p 85.
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28/12/12


Opto pelo olhar estetizante, com epígrafe de mulher moderna
desconhecida. (" Não estou conseguindo explicar minha ternura,
minha ternura, entende?") Não sou rato de biblioteca, não
entendo quase aquele museu da praça, não tenho embalo de
produção, não nasci para cigana, e também tenho o chamado
olho com pecados. Nem aqui? Recito WW pra você:
"Amor, isto não é um livro, sou eu, sou eu que você segura e
sou eu que te seguro (é de noite? estivemos juntos e sozinhos?),
caio das páginas nos teus braços, teus dedos me entorpecem,
teu hálito, teu pulso, mergulho dos pés à cabeça, delícia, e
chega -
Chega de saudade, segredo, impromptu, chega de presente
deslizando, chega de passado em videoteipe impossivelmente
veloz, repeat, repeat. Toma este beijo só para você e não me
esquece mais. Trabalhei o dia inteiro e agora me retiro, agora
repouso minhas cartas e traduções de muitas origens, me
espera uma esfera mais real que a sonhada, mais direta, dardos
e raios à minha volta, Adeus!
Lembra minhas palavras uma a uma. Eu poderei voltar. Te amo,
e parto, eu incorpóreo, triunfante, morto".


  César, Ana Cristina. Um Beijo que Tivesse um Blue: Antologia Poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, p 77.
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25/12/12

...


                                 “ Nem sempre a cidade é triste “

 

 Nem sempre a cidade nos surge na sua multiplicidade de formas. Dias há em que parece apostada em oferecer-nos a sua face mais feia, a sua face mais horrivelmente cruel. Olhem, nem vos sei explicar! A única coisa que consigo é dizer-vos que, naquela manhã, não havia ponta a que me pudesse agarrar. Desci a rua de roldão e, mal cheguei ao Largo do Chiado, apenas queria uma mesa vaga na esplanada. O regateio com o alfarrabista deixara-me esgotada. Raio do homem! Anda uma pessoa dez anos à procura de um livro raro e depois de o encontrar ainda tem de travar uma batalha campal… Desculpa, interrompeu-me o Gonçalo, o homem teve razão, ele até te ofereceu o livro! Ah, se visses a cara de sonso dele, no final: ó professora, nós temos estado a discutir o preço da obra, não a venda, à senhora não o vendo, ofereço-o! Gonçalo ria. Agarrou-me pelos ombros: tenho uma mãe que detesta perder torneios. Larga-me! Tomás olhava-nos com aquele seu olhar liquefeito, olhar de cão abandonado, de quem traz em si todos os rasgões do mundo…

( Hum, já me esquecia de falar no Tomás! Veio aqui para casa quando o Gonçalo andou com a irmã, depois tem se deixado ficar: paga as despesas como um hóspede e partilha das vidas como um íntimo…)

Depois, ainda afogueada, sentei-me a ver a cidade a desdobrar o seu espaço, as suas personagens. Ironia cínica, rosnou Gonçalo. Não sei o que era, mas dava-me prazer. Primeiro foi um casal jovem: mochilas enodoadas, alpercatas cambadas, cabelos desgrenhados, enfim, uma tentativa de imitação das classes baixas, mas logo traída pelo olhar altaneiro, pelos queixos levantados. Bem, a minha senhora mãe hoje está cheia de azedume, disse o Gonçalo, vou-me deitar.

(Tomás não parava de me olhar. Não que o assunto parecesse interessar-lhe, todavia, esfíngico, tentava captar todos os modos do dizer.)

   Espera. Falta ainda o episódio do bardo. Do bardo?! Sim, é que no murete do metro havia um friso de tal modo diversificado… fixei-me num rapaz que durante mais de meia hora dedilhava uma viola e mirava um caderno sebento, pois ali esteve ele, aquele tempo todo, numa infindável lengalenga e sem virar a página. Era um poema curto mas profundo, voltou Gonçalo a sentar-se. Olhem, o que é um facto é que o rapaz sabia um ror de línguas e veio depois percorrer a esplanada, de mão estendida. A mim pediu-me em inglês, não lhe respondi, depois insistiu em italiano, como eu continuasse a não lhe responder, resolveu ficar especado na minha frente, a medir forças com o olhar, então achei por bem dizer-lhe em latim que não o entendia. Gonçalo engasgou-se com a cerveja: não é possível, tiveste coragem de te pores a falar em latim com ele?! O rosto de Tomás iluminou-se, os seus olhos eram agora dois sóis a brilhar por detrás das lentes arredondadas, a sua boca parecia querer esboçar dois traços, que, a medo, avançavam a tactear esse silêncio que tão bem o caracterizava. Não sejas precipitado, recomecei eu, ele até acabou por se sentar à minha mesa e… Gonçalo voltou a levantar-se: eis o clímax; a minha mãe e o cavaleiro andante!, agora é que me vou mesmo deitar. És um parvo, admoestei-o eu, para vocês homens estas coisas acabam sempre da mesma maneira, são mesmo primários, ainda pensei que fosses um bocado diferente, mas afinal: gabarolices e ruminações do não feito é o vosso lema, além disso, o rapaz tinha metade da minha idade.

( Hoje sei – porque ele me viria a dizer – que foi esta a passagem que fez Tomás decidir-se pela sua partida no dia seguinte.)

   E depois?! Depois nada, estás a imaginar-me ao lado de alguém com metade da minha idade? Vocês analisam sempre tudo do lado do homem, dando uma imagem repulsiva da mulher mais velha: a flacidez, a menor resistência ao esforço, etc., mas alguma vez nos perguntaram algo sobre o assunto? Se nos interessava tocar uma pele cheirando a talco e cueiros? És horrível!, resmungou Gonçalo. Horrível não, estas coisas têm sempre duas versões: se vocês achincalham as estrias por que não haveremos nós de fugir do acne? Abandonaram os dois a sala, precipitadamente. Estava eu ajeitando as latas vazias da cerveja, os cinzeiros sujos, quando Gonçalo regressou: foste de uma enorme crueldade. Eu?! Sim tu! Sempre tão centrada nos livros e afinal não vês o que está debaixo do teu nariz, por que pensas que o Tomás anda aqui às voltas em casa? Agarrei-me a uma das estantes, siderada. O quê, não te achas uma mulher interessante que possa atrair alguém também especial como o Tomás?! Eu não sabia o que pensar. Tudo se abatera sobre mim de um jacto. Acho bem que te reabilites, rematou Gonçalo, furioso, ele está a arranjar as coisas para se ir embora amanhã. Tantas teorias e afinal… Por favor, peço-te, deixa-me sozinha!

   Uma hora depois bati-lhe à porta do quarto. A luz estava ainda acesa, passava das duas da manhã: mas… está a arrumar as malas?, avancei eu, falsamente ingénua, aconteceu alguma coisa? Tomás, hirto, com um pólo na mão: acho que devo ir, respondeu com voz sumida, quase um sussurro. Mas não pode ir agora, Tomás! Não posso?! Não… eu vinha precisamente convidá-lo para vir uma semana para a casa de Aveiro; o Gonçalo vai começar com as frequências e nós íamos para lá. Silêncio. Tomás a compreender o que ambos já tínhamos compreendido. Acha que devo ir?, perguntou triste, titubeante. Tem de vir! E agarrei-lhe o braço. Diga que sim, insisti. E os seus olhos foram de novo dois sóis por detrás das lentes, as suas palavras – sempre tão comedidas – foram ainda mais serenas: partimos a que horas? E sorrimos, cúmplices.
 
 Mateus, Victor Oliveira. Nem sempre a cidade é triste In "Letras com vida: Literatura, Cultura e Arte" Nº 4, 2º semestre 2011, Centro de Litªs. e Cultªs. Lusófonas e Europeias da Fac. de Letras da Univ. de Lisboa, pp 141 - 142.
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24/12/12

...

                                          
                                  



                      "  O  Joelho  de  Colbert  "


     Não devia ter combinado aqui. Neste espaço, onde as dimensões do tempo se misturam e a beleza irrompe como corola abruptamente fendida pelos socalcos de uma cidade que desce até ao rio. Não, não devia ter combinado aqui, neste local tão firmado nos mais ousados afetos, sempre à mistura com uma memória inapagável, voraz, e que em tortura me corrói os dias. Talvez pudesse ter optado por um outro lugar. Quem sabe, por uma das esplanadas lá de baixo, sempre repletas de veraneantes, onde o cheiro do peixe se nos entranha no corpo, ou por uma das vielas dos bairros antigos de pescadores, muitos vivendo ainda nas mais precárias condições.
     Mas aqui, neste Forte de S. Filipe, consigo uma lucidez bem difícil de encontrar no turbilhão da cidade. A proximidade dos objetos, a falta de perspetiva, turva-nos sempre o olhar e a correta avaliação do que nos cerca. Hoje, deste terraço, a foz do Sado aparece-me com o encanto que teve naquele primeiro dia. Até os golfinhos, fingindo cumprir um qualquer aprazado ritual, saltam divididos entre o azul das águas e a luminescência dos reflexos por elas devolvidos. Dois overcrafts fazem a ponte com a península de Tróia, em frente. Por baixo do sítio onde me encontro, alguns caiaques entregam-se ao fascínio de juvenis acrobacias. Duas traineiras entram na barra acompanhadas pelo grasnar ávido das gaivotas. Ouve-se uma sirene.
     Acabo sempre por regressar a este local. Trago um livro, uma revista, ou o portátil, e por aqui me deixo ficar, trabalhando, reflectindo, ou, tão-só como hoje, deixando-me aconchegar por tudo o que me envolve, exactamente como no primeiro dia, quando observava a enseada da outra margem, vendo uns minúsculos pontos negros à beira da água - talvez trabalhadores na apanha de bivalves ou turistas dirigindo-se para as antigas ruínas romanas. Neste abandono de mim, sou surpreendido por uma voz infantil que me pergunta o que estou a fazer. Olhei para o lado e vi um miúdo com cerca de três anos, bermudas verdes às ramagens, boné com pala virada para trás. O que estou aqui a fazer? Boa pergunta. Não há como as crianças para, na sua simplicidade, nos alertarem para a nossa condição de viventes tantas vezes à deriva! O meu silêncio forçou-o a insistir. A voz de um homem repreeendeu-o, perguntando-me, depois, se ele me estava a incomodar. Não lhe respondi. Levantei  a mão, encostando-a ao rosto do miúdo, que, acalmado, semicerrou os olhos. O homem, surpreendido, disse não ser habitual o filho serenar com tanta facilidade. Uma música roufenha vinha do interior da pousada. Ouviu-se de novo o som da sirene. Uma das traineiras começou obliquando na direção do porto, onde outrora laboraram as fábricas de conserva. O homem sentou-se à minha mesa e apresentou-se:
- Fernando Colbert. - Estendeu-me a mão. Sorri.
- Como o Ministro das Finanças do Rei-Sol? - Perguntei. Ao que ele respondeu não ser nem rei, nem sol, nem nada. E começou confiadamente a desfiar as suas recentes vicissitudes: o divórcio, o poder paternal partilhado, a solidão...
     O empregado trouxe o café e, num gesto inesperado, o miúdo tocou-lhe no braço fazendo derramar o líquido pela mesa. Todas as minhas folhas A4 completamente perdidas e uma gota a cair exactamente no joelho de Colbert, que, levantando-se de um jacto, conseguiu evitar desastre maior.
     A este primeiro dia outros se seguiram: a troca de experiências, a visão do mundo, os projetos, ora expostos com fulgor, ora desvelados com alguma suspeita.
     A aproximação entre os seres surge umas vezes de aspetos convergentes, mas outras por tácitas cumplicidades, que no quotidiano se vão inscrevendo aos poucos e sem planos preestabelecidos.
     Disso dá testemunho este novo encontro:
- Lembra-se da nódoa no joelho? - Perguntei com ironia. Colbert olhou-me significativamente e sorriu.
- Em mim não há lugar para a nódoa. - Respondeu.
     A comunhão selou-se.
     Vendo bem, fez sentido ter combinado aqui. Local do primeiro dia. E o rio cintilou, dotado de alma, como se nessa transfiguração quisesse revelar tudo aquilo que os homens insistiam em ocultar.
 
  Mateus, Victor Oliveira. O Joelho de Colbert In " Um Rio de Contos: Antologia Luso-Brasileira ". Dafundo: Editorial Tágide, 2009, pp 236 - 237 ( Organização de Celina Veiga de Oliveira e de Victor Oliveira Mateus).
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13/12/12



  " Arte-manhas de um gasto gato "


Não sei desenhar gato.
Não sei escrever o gato.
Não sei gatografia
      nem a linguagem felina das suas artimanhas
Nem as artimanhas felinas da sua não linguagem
Nem o que o dito gato pensa do hipopótamo ( não o de Eliot)
Eliot e os gatos de Eliot (" Practical Cats" )
Os que não sei
e nunca escreverei na tua cama.
O hipopótamo e suas hipopotas ameaçam gato (que não é hipogato)
Antes hiponímico.
Coisa com peso e forma do peso
e o nome do gato?
J. Alfred Prufrock? J. Pinto Fernandes?
o nome do gato é nome de estação de trem
o inverno dentro dos bares
a necessidade quente de tê-lo
onde vamos diariamente fingindo nomear
eu - o gato - e a grafia de minhas garras:
toma: lê o que escrevo em teu rosto
lê o que rasgo - e tomo - de teu rosto
a parte que em ti é minha - é gato
leio onde te tenho gato
e a gatografia que nunca sei
aprendi na marca no meu rosto
aprendi nas garras que tomei
e me tornei parte e tua - gata - a
saltar sobre montanhas como um gato
e deixar arco-irisado esse meu salto
saltar nem ao menos sabendo que desenho
e escrita esperam gato
saltar felinamente sobre o nome de gato
ameaçado
ameaçado o nome de G A T O
ameaçado o nome de G A S T O
ameaçado de morrer na gastura de meu nome
repito e me auto-ameaço:
não sei desenhar gato
não sei escrever gato
não sei gatografia
                    nem...

  César, Ana Cristina. Um Beijo que Tivesse um Blue: Antologia Poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, pp 35 - 36.
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12/12/12

Acerca do último livro de Nuno Dempster.


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  O livro de contos recém-publicado da autoria de Nuno Dempster apresenta-se-nos como um conjunto de narrativas todas elas integradas no cânone literário do realismo e aqui surge-nos uma característica deste livro que me parece interessante referir: o autor, sem recorrer a técnica alguma de encaixe, e sem se afastar desse cunho do concreto que pretende para os seus contos, acena-nos, por vezes, com características e técnicas daquilo, que, para alguns teóricos, não chega a formar géneros literários específicos, assim, encontramos tonalidades da escrita gótica em “A chaise longue”; da ficção policial – sobretudo o mistério, a estranheza e a actuação do protagonista tão avessa à razão natural - em “Jack”; da narrativa histórica em “Vénus”. Contudo, esta deriva do autor, aparentemente aleatória, não é utilizada para dar foros de cidadania a quaisquer dos movimentos referidos, mas apenas para enfatizar uma realidade que se pretende actual e concreta. Mas Nuno Dempster não se limita a circundar as suas opções estilísticas com acenos de uma ou outra escola, de um outro movimento, ele considera o realismo, em algumas das suas várias facetas, em cada um dos seus contos, no entanto, convenhamos, essa mesma consideração não é exclusiva mas tão-só predominante, pois na trama narrativa todas se encontram interligadas. Por conseguinte, podemos encontrar um realismo de cariz sociocultural em “O papel de prata”, de tipo subjectivo em “Meia dúzia de sardinhas” e até mesmo sociopolítico em “ A bilha de água”.

  O facto de Nuno Dempster recorrer, nos seus contos, a um narrador não-participante (com excepção de “Uma aula de inglês”), a personagens redondas e a uma quase constante coincidência do tempo cronológico com o tempo do discurso, não só dota a sequencialidade narrativa de uma extrema limpidez, mas também funciona de forma eficaz como estratégia de captação do leitor para a estória de que ele passará também a fazer parte. Ainda relativamente às personagens parece-me importante ressalvar a sua bem conseguida caracterização psicológica, social e cultural, aliás, nem sempre feita de modo directo, e urge ainda acentuar o modo criterioso como todas elas são colocadas, pelo narrador, no conjunto dos acontecimentos – tomemos como exemplo o primeiro conto, “O papel de prata”: a estória decorre em torno do protagonista (Horácio), cuja caracterização – complexa – psicológica e social nos vai sendo dada no decorrer da acção, todavia, apesar do desenrolar desta ser linear (com excepção de “O reflexo” as analepses e as prolepses são banidas da narrativa dempsteriana!) e do espaço ser quase sempre fechado e privado, a acção desenvolve-se pela sedução de um ritmo ao qual o leitor não consegue ficar indiferente, e contribuindo também para esse prendimento o exímio manejar de outras categorias da narrativa, neste caso concreto as personagens secundárias ( Marta, a tia e Hermínio ) e os figurantes (os pais de Horácio). Tal minúcia narrativa pode ser detectada em qualquer um dos outros contos desta colectânea, veja-se, por exemplo, “Swing” em que bastaria a supressão de um mero figurante (neste caso Márcia Medeiros, a professora de matemática) para que todo o conto se esboroasse ou adquirisse um trajecto completamente distinto.

  O livro “O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio” da autoria de Nuno Dempster e recentemente publicado pela “Companhia das Ilhas” foi, portanto, e pelos motivos apontados, uma obra que li com muito interesse e agrado.

 

 

                                                                                           VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS

11/12/12

Galina Vishnevskaya ( 25/10/1926 - 11/12/2012 )


.
.

 
40
 
 
O meu coração
freme no meu peito e no peito
da magnólia
 
 
41
 
 
Pesa-me nos ombros
o pó dos caminhos
que não percorri
 
 
42
 
Frente ao mar
o meu coração adolescente
pede-me que salte
 
 
43
 
Silêncio. Ouçam
a vida - água correndo
cada vez mais triste
 
 
44
 
Um grão de carne
fenecendo - irmão das rãs
e dos planetas
 
 
      Brito, Casimiro de. A Boca na Fonte. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 16.
.
 
 
 


10/12/12

 
 
3
 
 
Olhas a montanha.
Em paz. O grande combate
parece imóvel
 
 
4
 
 
Em tudo há velhice
e nascimento - um pé repousa,
outro caminha
 
 
 
5
 
 
Vejo o que já vi
antes - um corpo ondulante
que vem de longe
 
 
 
6
 
 
Na prosa do dia
a rosa alumia. Que prosa
se tudo é rosa?
 
 
 
          Brito, Casimiro de. A Boca na Fonte. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 8.
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08/12/12



Sobre os écrans, o poeta há-de verter poemas.
De tudo sabe um pouco,
havendo, ainda, tudo o que adivinha
em seus fulgores de génio e de duende

à deriva no mundo. As mãos levanta
acima da cabeça, com os pés soterrados
pela greda, enredado em escórias,
que, aonde quer que vá, sempre o sitiam.

Com tinta permanente e com ácidos
não pode mais fazer que exorcismar
o que em si há de mais pungente

na rota dos algares e das serpentes.
De pé, espera, a atravessar a noite
que perscruta.

  Baptista, Amadeu. Atlas das Circunstâncias. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 30.
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07/12/12



É anfíbia, a adolescência do poeta.
Distinguem-se-lhe no tórax barbatanas
dorsais e pulsam-lhe, na garganta, pequenas
brânquias, que permitem que toque o fundo

do mar, das coisas e da terra.
O poeta é portador de uma beleza
oculta onde tudo se encontra, uma banca
de trabalho, um alguidar, uma reverberação

líquida, cor de fogo, a sitiá-lo dentro
da sua própria vida, a sua descendência,
a chuva que não cessa de cair

sobre as cabeças, diluviana, escaldante,
escura, como uma pedra
didáctica.


   Baptista, Amadeu. Atlas das Circunstâncias. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 18.
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24/11/12



Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi

Na criança que fui, tão confundida.

À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.

O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras doiradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.

Eu era uma criança delirante.

Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.

O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo

Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil

Querer deixar um testamento lírico

E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Em dentre vós, resguardará (por certo)

A criança que foi. Tão confundida.

     Hilst, Hilda. Exercícios. São Paulo: Editora Globo, 2001, pp 169 - 170.
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22/11/12


       " Poema 7 do Ciclo Memória "



Vê, Ricardo, se falo tanto do ser feito de terra
É porque o resto é paisagem.
Olhei minha própria carne certa noite. E essa dor
Secular que a recobria. Tu passeavas teus olhos
Revivescendo a ilha, e meus braços castigados
Do gesto de alcançar, buscavam esse tempo de colher.
Mas eu não fui pastora. Há na terra que sou largas artérias
Mas um vento de assomos, um deslumbramento me tomava
E o gesto de plantar cristalizava-se no meu mais puro olhar.


Olhava: A figueira, a pedra umedecida da cisterna
O sol sobre o rosto das mulheres, um rosto semelhante
Àquele barro esquecido de rios. E ubíqua, viajava

Não que ali não deixasse afetos, pássaros da tarde
Cães (viajores de um dia) e presenças quando a noite
De augúrios começava. Uma parte de mim, essa de carne
E ausência, talvez não emigrasse. Os ritos, os de sempre.
Mas o olhar não era o mesmo: Pousava sobre as coisas
Mas nas coisas que via não estava.

Fui vista caminhando nos pastos. Nas vides. Muitos disseram
Que o meu corpo estendeu-se sobre a terra e de tal forma
Ficamos confundidas, que as aves descansaram de seu vôo
Na minha fronte de pedra. Adormeci nas paragens de sal
Cantei minha canção no pátio dos mosteiros, atravessei as pontes
Lavei-me nas águas de infinitas nascentes. Mas a boca,
A minha boca fechou-se procurando uma única fonte.

  Hilst, Hilda. Exercícios. São Paulo: Editora Globo, 2001, p 79.
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21/11/12


 " Poema 2 do Ciclo Memória "


Há certos rios que é preciso rever.
Por isso volto, Ricardo, àquelas margens
Onde na sombra um verde descansava
E um canteiro de limo sob os nossos pés
Adiante desaguava. Volto, seguindo a viagem
De mim mesma e aos poucos convergindo
Oculta, vária,
Até fechar um círculo e entender
Essa asa de fogo sobre as coisas.
Talvez neste canto eu te direi
Das estreitas passagens, do lodo
Convulsivo dos ancoradouros, dos funerais
Que vi, para chegar à luz da primeira paisagem.
Meus olhos deram volta à ilha.
Sigo pelos caminhos, transfiguro-me
Sei que um igual destino eu já cumpri
E ao mesmo tempo em tudo me descubro
Casta e incorpórea. Sou tantas,
Tantos vivem em mim e pródiga descerro-me
Pródiga me faço larva e asa.

    Hilst, Hilda. Exercícios. São Paulo: Editora Globo, 2001, p 74.
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